“Salvem as professorinhas”

Saudações e reverências faço, a todos aqueles que ancestralmente me precederam: Tenente João Ricardo de Oliveira, avô e autodidata, inspiração e referência moral; Professor Waltinho de Geografia, que me ensinou a “viajar” sem sair da carteira; Professor Walter Rossignoli, que nunca se eximiu da fala vernácula, mas ainda assim ensinava português como nenhum outro; Professor Mário Roberto Lobúglio Zaggari, Mestre da Língua que me ensinou que as palavras têm história; Professora Ilma de Castro Barros Salgado, eterna Madrinha das Letras, a qual me apresentou a Pedro Nava; Professora Francis Paulina Lopes da Silva, amiga e orientadora, que me ajudou a nascer para a Literatura e à grande Mestra, escritora e amiga, Professora Maria de Lourdes Abreu de Oliveira, exemplo e inspiração na trilha das Letras. E “Salvem as professorinhas!!!”

Assim começo essa narrativa, de maneira emblemática, para lembrar o quão marcante pode, e deve ser a figura do professor na vida de qualquer pessoa. Não que só existam lembranças suaves, ou melodiosas, mas aqui quero salientar o lado bom dessa carreira, que me parece estar cada dia mais se aproximando do descrédito e de uma desvalorização sem medidas, e aí sempre vai parecer que da escola só sobraram as más recordações. Mas será que é isso mesmo? Ou melhor, será que tem que ser? É possível encontrar culpados, ou responsáveis, por tamanho desvio de percepção?

Penso que não precisa ser assim, como na verdade não o era, pelo menos nas minhas reminiscências infanto-juvenis, isso porque para mim (naquela época) pai, professor e padre eram autoridades máximas (não no sentido de autoritarismo, mas de exemplo a ser seguido). E voltando o olhar mais para trás ainda, antes de eu ser inventado nesse mundo, vejo a imagem romântica das professorinhas, normalistas, que eram as responsáveis pelo be-a-bá das crianças e pela tabuada, todas sorridentes e felizes, e olha, até onde já consegui pesquisar, não encontrei relatos de que naquela época fosse mais fácil dar aulas, ou que os alunos fossem menos “arteiros” do que os de hoje.

Então, o que ocorre é que a sociedade em que vivemos evoluiu, não que esse processo tenha sido retilíneo, sem sobressaltos, nunca o é. Às vezes, a melhor forma de remexer o fundo do rio enlameado é com uma “cabeça d’água”, que sai revirando tudo que encontra pela frente, e com a humanidade não foi, e nem seria diferente.

O grande problema está em saber entender e acompanhar esses saltos evolutivos, sem que isso se torne uma celeuma em nossas vidas. No caso da escola, por exemplo a pública, hoje o que mais se discute é a permanência dos alunos em sala-de-aula (como se fosse possível amarrá-los à carteira), os indicadores oficiais cada dia mais assustadores (vivemos a era dos índices, mas esquece-se que esses números não são absolutos, e sua relativização está justamente nas análises que deles podem advirem), os problemas de inclusão (dos gêneros hoje cada vez mais mutantes, até a inserção de alunos com altas potencialidades dentro de um contexto escolar que só se preparou para atender alunos com déficit) e a grande, e talvez maior crise, a do professor – acuado, agredido, desiludido e desmotivado a ser tal qual as normalistas, ou como os professores das histórias de romance.

Aqui tenho que tentar entender quem é esse professor em questão, de que perfil profissional se está falando: como ele chegou (ou escolheu) nessa carreira, e como ele foi formado, para poder aí sim, construir um sentido e encontrar uma resposta para esse mar de queixumes e chorumelas.

Primeiro lugar, a escolha: ocorreu no Brasil um fenômeno interessante, com a expansão das vagas nas Universidades Públicas Brasileiras, que foi o da popularização do acesso aos cursos de baixa demanda, e isso se deu, principalmente, através do aumento das vagas noturnas. Nessa época os cursos de Licenciatura (em especial), receberam um incremento numérico de alunos considerável, e isso, em tese, seria a solução para a formação de professores, já que “o problema da educação no Brasil, era falta de mão-de-obra”, então, “fabrique-se” mais professores e o problema solucionado estará. Não se resolveu à época, como ainda hoje não se resolve. Fato.

Nesse período (e ainda hoje é assim) existia uma clara diferenciação entre o perfil de um aluno, por exemplo (falando da minha área), que cursava Letras, à noite, e daquele outro que o fazia no turno integral. Primeira diferença – a faixa etária, o do noturno, via de regra, era adulto com faixa etária acima dos trinta anos, pai ou mãe de família,  trabalhador que tentava, depois de muito tempo afastado, retomar seus estudos, e encontrava nessa abertura de vagas as chances – baixa concorrência e facilidade no cursar. Porém, esse mesmo aluno, apesar do leque de opções que o curso oferecia, só conseguiria se formar em Língua Portuguesa.

Ao passo que, o aluno do turno integral, mais jovem, recém-saído do ensino médio, que não tinha obrigações familiares a cumprir, tinha à sua disposição as formações em Língua Portuguesa, Línguas Estrangeiras e Latim, além do maior benefício, poder integrar-se aos inúmeros grupos de pesquisa e projetos de extensão da Universidade, e assim, quase que, assegurar seu ingresso em um Lato ou Strictu Senso, pós-formado.

E quais eram as perspectivas para um e outro? Para o primeiro, considerando que ele teria cumprido toda a creditação exigida pelo curso, seria o de buscar um novo caminho como professor temporário na educação pública, ou prestar concurso como efetivo para alguma das redes.  Já para o outro, como bem dito, na maioria das vezes seguiria o caminho já pronto à sua frente, que era o da formação continuada (o que é bom), e dela só sairia Mestre ou Doutor para prestar concurso público em uma IFE, ou dar aula em uma escola ou faculdade particular.

E olha que interessante situação está construída: o sistema se retroalimenta, pois o mesmo professor que se formou no turno integral, em Letras, daí a seis ou sete anos estará dentro de uma Universidade dando aulas para esses alunos do turno noturno que, teoricamente, não tiveram a mesma oportunidade. E qual o problema nisso? A vivência, a experiência e a maturidade que só a prática em sala-de-aula pode oferecer, e que nenhuma Tese de Doutoramento pode dar conta de superar.

E esse é o segundo ponto em que preciso me deter agora. A Academia (em especial na área de formação de professores) parou no tempo, tanto no quesito técnica conteúdista, quanto no que diz respeito aos métodos de ensino, o que leva, automaticamente, a um produto final, ou seja, um professor formado para formar sem preparação para enfrentar os desafios que aquela “cabeça d’agua” trouxe para nossa sociedade – famílias desestruturadas, governos que não souberam investir corretamente na Educação Básica, geração Z com muita informação e pouca, ou nenhuma, noção de respeito (independente da classe social) e, talvez o maior desafio, o de transformar a escola em uma referência positiva na vida desses jovens, onde eles queiram ficar, e não onde seja preciso “mantê-los”.

O resultado disso tudo é justamente o descrédito da profissão, a má valorização e remuneração da carreira, e os constantes conflitos dentro das escolas, que mais parecem campos de batalha, muitas vezes. Ao mesmo tempo, criou-se uma geração de professores insatisfeitos, desanimados e que perderam a noção de que dar aulas tem que ser, antes de tudo, um ato de entrega, uma troca, e hoje, mais do que nunca, de mediação, onde aquela imagem que a Academia reforça de Magister, ainda preso a uma bancada ou um púlpito, não mais representa o mundo real.

Para “Salvarmos nossas Professorinhas” preciso é resgatar os princípios formadores dessa profissão – paixão, entrega e dedicação – sem tesão não há solução (seja em qual carreira for), não dá para ser meio professor (ou dar meia-aula) e a dedicação (que deve ser perene), não apenas nas preparações de aula, mas também na sua formação continuada, que deve ser igualmente constante.

Além disso, penso que os órgãos reguladores da Educação deveriam mudar as regras para ingresso no Magistério Superior, pois, se para um Advogado virar Juiz ele deve ter um tempo mínimo de experiência como causídico (discernimento para julgar, e não apenas conhecer as Leis) e o Médico deve cursar bons anos de Residência Médica para aprender a cuidar de gente, o professor também deveria ter vivido um ciclo mínimo, ao menos, da Educação Básica para poder dividir essa experiência com os futuros novos professores.

Olhando a história desses que marcaram a minha história, vejo que (se não todos) a maioria construiu suas carreiras lá na Educação Básica, como professores e Diretores de Escola nas redes, para só depois adentrarem os auspiciosos portões da Universidade Pública, na condição de Mestres, de fato e de direito. Sem essa mudança, de postura e de comprometimento, continuaremos repetindo receitas de bolo, que a cada dia se tornam mais solados e indigestos.

Professor Sérgio Soares

Sobre Idiotas e Políticos

Dias atrás, recebi de uma amiga um vídeo do Mário Sérgio Cortella onde, para apresentar seu livro “Política para não ser Idiota”, resgatava na Grécia Antiga o sentido etimológico de uma e outra palavra. Ao assistir, não pude deixar de lembrar das aulas de Filologia Românica do grande Mestre, Doutor Mário Roberto Lobúglio Zágari, que me ensinou que as palavras são carregadas de historicidade, por isso mutáveis no correr dos tempos. Portanto, você deve estar achando que irei tratar aqui dos políticos idiotas de nosso país, correto? Só que não.

Mário Sérgio explica que na Grécia Antiga Idiota (idiótes) era todo aquele indivíduo que não participava da vida da Pólis, que só se preocupava com si mesmo, olhando para o próprio umbigo. Ao contrário, Político (politikos) era aquele cidadão que participava e se preocupava com a vida na Pólis, colocando os interesses do coletivo, acima dos seus individuais. Como devia ser bom morar na Grécia Antiga, onde ainda deviam existir mais Políticos, do que Idiotas!

Mas ainda há esperança, pois podemos encontrar na história recente da República de nosso país, exemplos de cidadãos que souberam cuidar das coisas do povo, antes das suas próprias, e sem querer parecer bairrista, Minas Gerais foi um berço fértil dessa espécie incomum de figuras públicas. Poderia aqui enumerar várias, mas prefiro me ater a uma, em especial, com a qual tive a honra de interagir por mais de uma vez, na condição de Chefe de Cerimonial Público, que foi o nosso Eterno Presidente, Itamar Franco.

Itamar Augusto Gautiero Franco, junto com seu Bando de Sonhadores, fez parte de uma geração de políticos (na acepção grega da palavra), que souberam cuidar da Pólis, que trataram a coisa pública como o bem mais precioso, e que não exitaram, um segundo sequer, em colocar em segundo plano os próprios interesses em prol da democracia e do bem comum, por isso foram grandes artífices da mudança na história de uma Cidade, de um Estado e de nosso País.

O Brasil sofre hoje com a falta de outros “Itamar” e de seu “Bando”, pois vivemos uma crise de Idiotice generalizada dentre nossos Edis, Deputados e Senadores, e também entre os governantes (cumprindo pena ou em liberdade), que corruptíveis e prevaricantes, conseguiram deturpar o sentido lato da palavra Político, corrompendo-a em sinônimo de ilegalidade e falta de cuidado com o povo. E o nosso maior exemplo disso hoje ainda é, certamente, Brasília, que virou um celeiro fértil de Idiotas (sempre acreditei que toda generalização é burra, por isso ainda penso que existam sim Políticos de verdade lá pelas bandas do Planalto Central).

Importante lembrar que esses Idiotas, travestidos de políticos, ainda conseguiram a façanha de se organizar em categorias, muito bem definidas, que passamos a enumerar agora: o primeiro, Idiota convicto, que entra para a vida pública com o único interesse de $e dar bem; o outro, o Idiota Douto, que acha que um diploma é o bastante para fazer dele um Político e ainda mais um, o Idiota Experiente, aquele que entra para a vida pública ostentando a marca de homem de sucesso, mas que não sabe que se dar bem na política é bem mais difícil do que se tornar bem sucedido no mundo dos negócios.

O que eles todos não conseguiram entender ainda é que fazer política é um exercício diuturno de negociação, como em qualquer relacionamento em que exista mais de uma pessoa, onde em prol do bem comum, muitas vezes um cede, em outras todas perdem, mas sempre com a visão de que, ganhando ou perdendo, o mais importante é a garantia do bem-estar da coletividade. E como não entendem, é bem mais fácil fazer o jogo do quanto pior melhor, desacreditando as instituições e o país, ou criticando um Presidente que traz como marca de sua singularidade, ser um homem prosaico – que não é refinado, nem erudito, mas também não tenta esconder isso atrás de uma máscara marketeada.

Como bom brasileiro que sou não perco a fé e a esperança, e por isso creio que ainda verei nessa vida, nascerem dentro das novas gerações herdeiros de Itamar, de JK, de Tancredo e de tantos outros notáveis Políticos brasileiros, que banirão da nossa sociedade esse bando de Idiotas, e cuidarão de nossas Pólis, tão bem quanto os gregos cuidaram das suas. Por um Brasil com menos Idiótes, e mais Politikos!

(Graças a Deus, não sou um Idiota!)

Professor Sérgio Soares

Quando ser deficiente, faz toda a diferença

Ontem, domingo, enquanto gozava meu ócio criativo em sua plenitude, navegando por uma rede social, fui tocado por uma postagem que falava de um jovem autista e cego, que participou de um desses shows de talentos, tão comuns hoje na TV. Não bastasse isso, logo na sequência li uma outra publicação que falava de um pai famoso e as dificuldades que encontrou para assumir publicamente o autismo do filho, e o quanto isso foi revelador quando a família conseguiu vencer essa barreira.

Importante saber que, como a maioria das pessoas, costumo apenas dar um like nas postagens (para não desagradar quem publicou), mas dessa vez, realmente, acho que encontrei ali a inspiração para o texto da semana. Mas fique tranquilo, não vou discorrer aqui sobre a política de inclusão no Brasil, nem tampouco vitimizar os “pobres” deficientes, que sofrem preconceito e discriminação. Nosso mote aqui é outro, vamos falar de potencialidades e superação.

Em tempo, (apenas para não perder o hábito) a Lei Brasileira da Inclusão (LBI)), também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que afirmou a autonomia e a capacidade desses cidadãos para exercerem atos da vida civil em condições de igualdade com as demais pessoas foi promulgada em 06 de Julho de 2015. A partir dela passou-se a discutir a necessidade de uma Escola Inclusiva, como obrigatoriedade para oportunizar o acesso a deficientes e não-deficientes a Educação. Só que não. É mais fácil construir rampas, e adaptar banheiros, do que quebrar muros e abrir portas para que esses indivíduos possam ser valorizados por suas potencialidades, e não pelas deficiências que apresentam.

Mas vamos então às personagens dessa história. Lembrando que temos inúmeros exemplos no Brasil de figuras públicas no esporte, nas artes e em tantas outras áreas que seriam bons exemplos de superação para nosso texto, mas ainda incomodado pelo post que recebi, decidi apresentar um pouco das histórias de vida de um artista, uma youtuber e de uma professora. Ilustres desconhecidos do grande público.

Kodi Lee é um jovem americano de 22 anos, autista e cego. Sua história começa para nós quando, acompanhado de sua mãe, Tina Lee, foi se apresentar em um famoso programa de talentos americano. Sua mãe conta que, desde cedo a música transformou a vida de Kodi, e através dela ele pode mostrar todo seu talento como artista.  Como seria de se esperar, quando o jovem entrou no palco, ficou nítida aquela cara tipo assim “o que esse cara tá fazendo aqui”, mas poucos minutos depois o jovem artista colocou abaixo a plateia e os jurados, executando ao piano e cantando uma linda canção que emocionou a todos.

Dani Amaral é uma linda jovem de 22 anos, Youtuber e palestrante motivacional. Sua história começa quando, aos quatro anos de idade, perdeu os dois braços arrancados em um acidente, por uma máquina agrícola. De lá para cá sua história de vida é só superação, pois ao invés de se esconder, foi à luta e desenvolveu uma incrível capacidade de fazer com os pés, tudo que deveria ser feito com as mãos. Estudou, formou-se e hoje mantém um canal no Youtube – DANI-SE – onde fala de desenvolvimento pessoal, autoestima e autoconhecimento, sobre suas palestras e treinamentos e ainda apresenta um pouco do seu dia-a-dia. Dani hoje é totalmente autossuficiente, casada e vive do seu trabalho como Youtuber e palestrante.

Débora Seabra de Moura, primeira professora com síndrome de Down do país. Filha de uma advogada e de um médico, Débora foi criada para ser uma vencedora. Infelizmente sua história só ganhou notoriedade quando uma desembargadora fez um comentário preconceituoso em uma rede social, duvidando da sua capacidade de ensinar. A própria Débora respondeu através de uma rede social que “Ensino muitas coisas para as crianças. A principal é que elas sejam educadas, tenham respeito pelas outras, aceitem as diferenças, ajudem a quem precisa mais”.  Além de trabalhar como professora auxiliar em uma escola de educação infantil de Natal há 13 anos, já publicou um livro infantil “Débora Conta Histórias, coletânea de contos sobre diversidade”, em 2013 pela editora Alfaguara, e faz palestras sobre os direitos das pessoas com deficiência em todo o país, além de ter participado da III Conferência do Dia Internacional da Síndrome de Down na Organização das Nações Unidas, em Nova York, em 2014.

E aí, me diga então, quem é o deficiente? Tocar piano já é algo difícil para quem enxerga (desconheço a existência de métodos de ensino de piano para cegos, ou mesmo partituras em braile), imagina para quem não enxerga e vive em um mundo paralelo, só seu. Experimente fazer as coisas mais simples do seu dia-a-dia como escovar os dentes, ou ainda tomar um banho, ou ainda cozinhar, com os dois braços amarrados, usando para isso apenas os pés. E digo mais, quantas pessoas não conseguem se formar em uma faculdade, e ainda tem aquelas que se formam e depois não arrumam colocação na área, e tornam-se pessoas frustradas. Imagine então uma professora que vencida a formação (alguns poderiam dizer que ela foi “empurrada” na faculdade, por isso tem o diploma) já atua há 13 anos no magistério, trabalhando com crianças na fase de alfabetização, portanto, as deficiências fonológicas próprias do Down poderiam ser um empecilho, e foram superadas, e ela e ainda teve a capacidade de escrever um livro e dar palestras?

Bem, não sei você, mas eu estou me sentindo profundamente deprimido diante desses exemplos vivos de potencialidades e superação, pois sendo eu um dito “normal”, que não possuo (pelo menos diagnosticado, ainda) restrições cognitivas, sensoriais ou motoras, não consigo tocar piano, não consigo usar meus pés como se fossem minhas mãos nem tampouco ainda escrevi um livro infantil de contos. É, acho que realmente, o deficiente nessa história somos todos nós, que ainda nos prendemos mais à forma e à imagem, e nos esquecemos que por detrás de um corpo disforme, pode existir uma alma genial, apenas esperando que lhe seja dada a oportunidade de se mostrar.

Professor Sérgio Soares

O professor que contava estórias

Essa é mais uma narrativa verossimilmente imperfeita, e metaforicamente real, que vai falar da pequena cidade de Mais Prosperidade, maior de três pequenas localidades do interior, com seus 25.000 habitantes, (de acordo com o Homem do Censo) da qual dependiam as localidades de Prosperidade e o lugarejo de Desterro, esse inundado há alguns atrás após o rompimento de uma barragem (a tragédia só não foi maior porque o pároco, percebendo o perigo eminente, alertou a comunidade com o sino da Igreja, sacrificando a si mesmo sob as águas).

Dito isto, havia acabado de chegar à cidade, vindo da capital, um novo professor, de nome Pandolfo. Ao assumir seu posto, recebeu a incumbência de retomar os trabalhos de uma pequena escola, da zona rural do município, muito precária, e por isso mesmo, muito carente de cuidados.

Missão dada, missão cumprida,. Assim o fez Pandolfo, e no intervalo de tempo de Hum ano, aquela escola tão humilde ganhou notoriedade nacional, pois seus alunos tinham alcançado o melhor índice de desempenho escolar, dentro de uma avaliação oficial, feita pelo Governo.

De repente, a pequena Mais Prosperidade virou manchete, e toda a imprensa – TV, rádios, Jornais e Internet – se apressaram para conhecer aquele lugar onde era produzida uma Educação tão diferenciada e, principalmente, quem era o professor responsável por tal feito.

Ao chegarem à escola, tiveram uma grande surpresa – era um prédio muito simples, de telhado de zinco e carteiras velhas. Ninguém esperava encontrar aquela cena. Mas então como aqueles alunos poderiam ter obtido notas tão exemplares no grande exame?

Foi aí que veio chegando, com seu passo lento, mas seguro, o professor Pandolfo. Um homem franzino, de calva branca, óculos e barba espessa, de falar sossegado, polido e correto, mas sem afetações arabescas, ou palavrórios empavoados.

Depois das apresentações, um jornalista da capital se apressou em perguntar ao simpático homem a quê, ou a quem, ele atribuía os resultados obtidos por aqueles alunos? Aos investimentos municipais feitos no ensino, à sua capacidade técnica como mestre, ou teria sido apenas uma questão de “sorte”?

Sem pressa, e com a serenidade que lhe era peculiar, Pandolfo não demorou a responder:

– Meu caro jornalista, sinto frustrar todas as suas expectativas, mas a resposta à sua pergunta não será encontrada em nenhuma das opções anteriormente citadas. Na verdade, meu amigo, o mérito aqui é tão somente dos meninos, pois foram eles que superaram todas a adversidades, e conseguiram provar para si mesmos que eram capazes.

 Não se dando por satisfeito, o letrista da cidade grande, insistiu:

– Sim Professor, eu entendo que o senhor queira calçar as sandálias da humildade, e dar o mérito todo à sua classe, mas não tenho como deixar de acreditar que sua participação nesse processo foi indispensável. Então lhe pergunto: qual a sua linha metodológica com esses alunos? O. senhor se serve do construtivismo de Piaget, dos estudos Montessorianos ou de alguma novidade dessas ditas aprendizagens ativas?

– Mais uma vez, sinto em lhe frustrar meu caro. Na verdade nosso trabalho aqui sempre foi baseado na troca, no diálogo, onde procuramos dar voz a cada um deles, deixando que se expressassem, ouvindo e aprendendo com a sabedoria de suas histórias de vida.

– Como você pode perceber tudo aqui é muito simples, sem grandes recursos, por isso para que nosso trabalho desse resultado, tivemos que construir nossa escola juntos, aliás boa parte das aulas aconteceram aqui, debaixo dessa mangueira onde estamos. Nesse lugar pudemos contar e re-inventar a história de cada um deles, onde uma espiga de milho virou o Visconde de Sabugosa, e os caroços de feijão ajudaram a construir um ábaco.

Ainda não se dando por satisfeito, e tentando achar um quê de arrogância e vaidade naquele homem, o investigador alfinetou:

– Muito bem professor, mas imagino que para chegar a esse ponto, o senhor deva ter tido uma inspiração, quem lhe inspirou nessa empreitada Professor Pandolfo?

– Ah, sim. Entendi. Minha inspiração foi cada um dos alunos com os quais tive a honra de conviver, mas existe uma figura muito forte na retina da minha memória, que foi minha professora, Dona Cora. Uma senhorinha baixinha, de cabelos grisalhos, mas que me marcou profundamente com sua sabedoria – ela sempre se dizia feliz, e realizada em sua profissão, pois era assim que tinha a oportunidade de transferir tudo que sabia, mas principalmente, era dessa forma que ela também podia aprender com aquilo que ensinava a seus alunos. Espero que tenha lhe respondido agora, meu caro.

Desconcertado, o jornalista se despediu, e o Professor Pandolfo pode voltar sua atenção para seus alunos, já que estava na hora de começar mais uma aula.

Sobre falas e falácias

peculiaridades sobre a Universidade Pública que você deveria conhecer,
e ninguém te contou.

A primeira coisa que você deve saber é que a UNIVERSIDADE não é um ser corpóreo, com personalidade e finitude, como muitos têm te apresentado. Na verdade, a UNIVERSIDADE, enquanto instituto, é a representação de um universo plural de saberes, por isso defender essa instituição, é defender esse universo de ideias.

Contudo, justamente por não ser alguém, mais sim algo em que se acredita, ela é formada por um sem número de identidades, cada qual com seus princípios, crenças e ideologias, e aí está a parte que ninguém havia te contado ainda:

 A UNIVERSIDADE É LAICA: na verdade não é bem assim, a universidade vai ser agnóstica, ateia, cristã, afro ou muçulmana de acordo com o viés religioso, mais ortodoxo, ou mais progressista, daqueles que a representam em dado momento, no tempo e no espaço.

 A UNIVERSIDADE É APARTIDÁRIA: outra falácia, o que existe são correntes mais à direita, mais à esquerda, de centro ou moderadas, que a cada gestão renovada se impõe. Porém, não se iluda, essas correntes se farão presentes dentro dos discursos de poder da UNIVERSIDADE, na sala-de-aula, inclusive e, via de regra, não aceitarão o discenso.

A UNIVERSIDADE É O BERÇO DO SABER: até o deveria ser, mas de fato não o é, e isso pode ser explicado por um estigma baseado no tripé ENSINO – PESQUISA – EXTENSÃO onde todos deveriam ser bons professores, pesquisadores e extensionistas, só que não. Você vai encontrar dentro desse universo de indivíduos, aqueles que só têm o título, mas nada ensinam, os que pesquisam, mas nada produzem e outros, ainda, que fazem da extensão uma maneira rápida de complementar seu currículo Lattes. Mas não culpem a classe docente por essa vicissitude, a grande vilã dessa situação é a tríade que força um professor, que é muito bom dando aulas, a ser pesquisador, apesar de não gostar de pesquisar, ou trabalhar com a comunidade, algo que não lhe convém. E essa lógica perversa vale também para os outros dois pés da tríade.

A POLÍTICA DE COTAS É O CAMINHO DA EQUIDADE: na verdade, não é bem assim. É um caminho sim, mas nem sempre o mais fácil. E digo o porquê. Quando um aluno, oriundo de escola pública, negro, pardo ou indígena, ingressa em uma universidade pública através do Sistema de Cotas, dependendo da área que escolheu, vai entender o significado da máxima universitária “fácil de entrar, difícil de sair”, isso por que, se durante o processo de seleção ele teve o benefício de concorrer entre seus pares, no correr do curso essa realidade não se repetirá, e aí valerá o conhecimento acumulado.  Mas não culpem a Universidade por isso, nem achem que o problema está nas cotas ou nos cotistas, mas sim em uma política de educação distorcida que investiu, na última década, massivamente no Ensino Superior, deixando à margem a Educação Básica. O resultado está aí para quem quiser ver.

A UNIVERSIDADE É A CASA DA DIVERSIDADE: aqui temos um paradoxo. De alguns anos para cá os coletivos – feministas, LGBTTI’S, Sem-Terra e outros mais – proliferaram em um sem número nos campi, contudo, quem é conservador, deficiente, pobre ou cotista não tem o mesmo espaço, nem tampouco um discurso engajado de valorização e respeito. Então, pergunto: que diversidade é essa, se diverso deveria ser o respeito a tudo aquilo que é diferente do padrão pré-estabelecido por um grupo ou comunidade, em determinado momento?

 SEM DIPLOMA NÃO HÁ SOLUÇÃO: essa, com certeza, é a maior das falácias que se vê reproduzida nos meios acadêmicos, e também nas escolas. Explico. Por conta de uma valorização excessiva do nível superior, superlativo na última década, tanto em termos de recursos públicos investidos, quando na midiatização das carreiras, criou-se a falsa expectativa de que para se alcançar a realização pessoal, e financeira também, havia que se ter um diploma de curso superior e que, ao contrário, ter apenas uma formação médio-técnica seria algo menos digno, ou financeiramente menos valorizado. Esse discurso ainda é prevalente na sociedade, e a prova disso é o aumento substancial, nesse período, de uma infinidade de cursos preparatórios para ingresso nas IFES. Ocorre que não existem vagas para tantos médicos, advogados e engenheiros nos grandes centros urbanos, pois o mercado trabalha com a lógica da oferta e da demanda, com isso temos a triste realidade de vermos muitos causídicos, doutores e engenheiros disputando vaga como professores na rede de ensino, ou trabalhando como motoristas de aplicativo, dentre outras funções não menos dignas, diversas  das que escolheram na sua formação universitária.

Essa é a UNIVERSIDADE que provavelmente não havia sido apresentada a você. Um espaço plural, por isso mesmo, repleto de tensões, fértil em oportunidades, mas que não deve ser considerado como a única (ou melhor) opção em sua vida. Isso por que, enquanto a EDUCAÇÃO for pensada como privilégio de um Segmento de Ensino, em detrimento dos demais – Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio e Técnico – ainda existirão mais falácias, do que boas falas a serem ditas sobre ela. Pense nisso!

Professor Sérgio Soares

A história das duas Marias

Foi na pequena Prosperidade (sim, aquela mesma por onde passou recentemente a Jabiraca do Doutor Capélo), que nasceu no dia sete de outubro, a pequena Maria, chamada do Rosário pelos pais – ele Ministro da Eucaristia, ela Catequista – em homenagem à Santa Padroeira da cidade.

Filha de um casal de lavradores, tão trabalhadores e honestos quão religiosos e preocupados com a educação de sua pequena, duas coisas lhes eram muito caras – primeiro a devoção à Santa Igreja Católica, representada na cidade pela Matriz de Nossa Senhora do Rosário, e depois à Escola, bem mais precioso de uma família de pais que não tiveram acesso ao estudo.

Desde muito cedo, Maria se destacou: no infantil, durante as rodas de história e versos, era sempre a mais sabida; na Igreja, apesar da pouca idade, já tinha na ponta da língua todos os hinos, mas a grande surpresa veio quando sentou-se ao teclado da Matriz e tocou e cantou a Ave Maria de Gounot, em Latim, ainda sem contar aeis anos

A simplicidade e o amor dos pais não lhes deixou perceber nas sabitudes de Maria, nada que não fosse explicado pela intervenção e graça de Nossa Senhora do Rosário. Até que um dia, logo depois que completou sete anos, começaram a notar que a filha estava perdendo o brilho e o encanto. Tal qual uma rosa ainda em botão no jardim, ela começava a murchar.

Foi então que descobriram que a menina também estava indo mal nos estudos, e seguindo recomendação da professora, procuraram atendimento médico na cidade vizinha – Mais Prosperidade.

Saindo da consulta, ainda sem entender de qual mal a garota sofria, foram direto à escola mostrar o papel que o Doutor havia escrito. Nele se lia – Paciente com sinais de Superdotação ou Altas Habilidades, recomenda-se Atendimento Especializado.

– Ora pais, isso não é nada que vocês tenham que preocupar – disse a professora. A escola não dispõe desse tal “Atendimento Especializado”, mas é só pegar firme com Maria nos estudos em casa, que com o tempo isso passa.

Por um daqueles sortilégios do Destino, há 500 quilômetros dali, na Capital, no mesmo sete de outubro, do mesmo ano, nasceu uma outra Maria, essa chamada Antônia, filha de pais médicos que possuíam estudo, e perceberam os pequenos sinais que a pequena mostrava.

Ainda no Pré-Escolar, era ela quem organizava as brincadeiras, e liderava os coleguinhas. Em casa, gostava de mexer nos discos do pai, se apresentando nas festas familiares, dançando e cantando em inglês, língua que repetia perfeitamente, mesmo sem entender o significado das palavras.

Na mudança de ciclo, quando passaria a ser alfabetizada, seus pais procuraram atendimento psicopedagógico, onde foram orientados a matrículá-la em uma escola com um trabalho voltado para crianças com Altas Habilidades, pois assim a pequena notável poderia viver uma infância feliz, e com desenvolvimento saudável.

E quanto a Maria do Rosário? A pobre pequena ainda está em Prosperidade, seguindo o curso que a vida lhe ofereceu. Voltou a frequentar a escola todos os dias, cada vez mais triste e apagada,. Somente nas Missas de domingo se transformava – cantava e tocava os hinos do Missal plena e realizada. Duas Marias e uma mesma história, para as quais a vida ofereceu finais diferentes.

A Jabiraca

Era uma vez um lugarejo chamado Prosperidade, uma pequena cidadela de interior, com pouco mais de um milhar de habitantes, no meio do nada, mas onde tudo, ao modo simples, funcionava. O único médico do lugar curava unha encravada e fazia partos, o juiz celebrava casamentos, e as normalistas ensinavam.

E assim a vida corria, ou melhor, caminhava no ritmo lento e sossegado das cidades do interior, sem pressa e com muita tranquilidade. Até que um dia, a calmaria do lugar foi quebrada.

Numa manhã de domingo, quando a cidade acordava ao som do sino da matriz de Nossa Senhora do Rosário, para o compromisso dominical com o Senhor Morto, o povo do lugar foi surpreendido com uma novidade: eis que surgiu, no meio da Praça, uma grande carreta misteriosa. Até o padre fez questão de ir lá conferir do que se tratava, e acabou se esquecendo de celebrar a missa.

Quando todos já estavam ouriçados em volta do veículo, uma grande porta se abriu, e lá de dentro desceu um homem de cartola, fraque, luvas de pelica e um pequeno monóculo posto na algibeira. O sujeito, de ar doutoral, desceu empertigadamente passando entre o povo curioso, e dirigiu-se ao coreto, lá começando a discursar.

– Bom dia, simpáticos moradores de Prosperidade Meu nome é Doutor Capélo, e venho da capital trazendo um presente único para essa comunidade, que transformará o mais humilde dos moradores, em um Doutor, da noite para o dia.

Homem de fala fácil, e palavrório difícil, não demorou nada para arrancar aplausos da plateia embevecida, que ouvia atentamente, sem nada entender de fato.

E continuou:

– Para conseguir tal feito inacreditável, bastará que o candidato cruze a grande “Porta de Acesso”, e ao sair da engenhoca terá seu canudo na mão, e uma nova vida cheia de oportunidades, proporcionais ao galardão da carreira escolhida.

Como se daria esse processo, nem o próprio Padre soube explicar, e o nome da máquina estroboscópica e escalafobética era tão difícil de pronunciar, que os locais lhe deram a prestigiosa alcunha de “Jabiraca”.

Logo na manhã seguinte, formou-se uma fila em frente à “Grande Porta”, de candidatos ao diploma recebidos com pompa e circunstância pelo erudito Doutor, que não poupava adjetivações para as infinitas possibilidades que aquela maravilha tecnológica iria proporcionar na vida de cada um dos interessados.

Um a um, eles foram passando, e em breve tempo o lugar passou a contar com 20 médicos, 30 advogados e 15 odontólogos, todos devidamente enjalecados e entogados, ostentando toda a empáfia da vida doutoral, Juntando-se a estes, a cidade ganhou também um número muito maior de engenheiros, professores e pedagogos, apenas para citar os ofícios mais famosos.

Passado esse ciclo de formação, a Prefeitura homenageou seu benfeitor, o Doutor Capélo, com a mais alta honraria do município, a “Alta Ordem de Nossa Senhora do Rosário”, por ter trazido a cultura e a civilidade para o lugarejo. O benemérito ainda ganhou um busto de bronze, em frente ao Paço Municipal.

Findas as homenagens, da mesma forma que a “Jabiraca” surgiu, ela desapareceu sem deixar rastros. E assim deveria ter se inciado uma nova fase de desenvolvimento e prosperidade, como bem diz o nome do lugar, só que não foi bem isso que aconteceu.

O pequeno vilarejo, apesar de ser um lugar simples, era reconhecido por sua qualidade de vida, pelos bons serviços públicos, com ruas sempre bem calcetadas, pela boa oferta de alimentos (todos produzidos nos sítios e fazendas da localidade) e por uma educação, ainda que básica, que entregava ao município vizinho de “Mais Prosperidade”, alunos do ciclo fundamental devidamente letrados e entabuados.

Ocorre que, de uma hora para outra, a cidade começou a ficar esburacada, as quitandas e armazéns sem verduras e legumes e a escolinha fechou Até o ferreiro, que cuidava dos cascos dos muares mudou de ramo, transformando-se em um garboso, mas desempregado, administrador de empresas. E isso aconteceu por quê?

Os calceteiros viraram engenheiros, e com o advento do novo ofício não se dignaram mais a cuidar das ruas, os agricultores viraram engenheiros agrônomos e com o prestígio da função acharam que não lhes cabia mais a tarefa de arar e cuidar da terra, e até as Tias Normalistas (Salvem as Professorinhas!!!), que tão bem ensinavam as crianças os mistérios do be-a-bá e das continhas, viraram ilustres pedagogas que não viam mais sentido em ensinar algo tão básico, e passaram a se ocupar da discussão de temas mais complexos, como a Pedagogia do Oprimido.

E o que aconteceu depois disso? Bom isso, não sei dizer, mas comenta-se na região que chegou por lá um outro empertigado, com uma máquina mais fabulosa ainda do que a primeira, prometendo para aquela massa de diplomados, a solução de seus problemas através de um novo título, agora de pós-graduação.

Quanto ao Doutor Capélo? Dizem que foi visto pela última vez, estacionando sua Jabiraca na Praça da Matriz, na vizinha cidade de Mais Prosperidade.

O rapto da “Virgem de Porcelana”

Dia desses, saindo da missa, avistei Seu Lazin sentado num dos bancos da praça, pitando seu cigarro de palha. Então, resolvi parar e puxar um dedo de prosa com esse sábio velho.

Conversa vai, conversa vem, e vimos saindo da igreja a viúva Sossegado, que como boa beata, era sempre a primeira a chegar à Missa, e só saía quando o Padre João Maria, já cansado e com fome, aceitava seu convite para o tradicional repasto dominical em sua casa.

Assim, saía aquela velha toda encorcorada, com seu traje mais preto que as penas do anú, e o véu cobrindo o rosto. Padre João Maria, como era do tipo folgadão, seguia a incansável beata, com seu passo de pé de valsa, mas essa é uma outra história.

Revendo aquela cena fiquei intrigado, pensando como em uma cidade tão pequena, poderiam existir tantos tipos incomuns como aqueles que o velho Lazin não perdia a chance de me apresentar, através de seus causos? Para não perder o costume, pedi a ele que me contasse a história daquela viúva, de nome tão esquisito quanto sua figura.

O bom velho deu mais uma tragada, ajeitou-se no banco e começou a contar:

Diz a história que a família Sossegado veio parar aqui em Morro Grand, logo depois que os homenzinhos da Laranja por aqui passaram, por isso é uma das mais tradicionais dessas bandas, e que ajudou a construir a cidade.

Na sua história tem todo tipo de gente – coronel rico, coronel quebrado, louca, bandido, padre e até bispo, mas a personagem mais famosa da família foi, sem dúvida, a “Virgem de Porcelana”.

Segundo contam, a viúva, de nome Maria das Graças, casou-se com um primo, de nome Tomás, como era bem do costume dessa família, pois, assim, na falta de algum deles, os bens permaneciam nos domínios dos Sossegado.

Apesar do nome, essa gente sempre foi muito agitada, e não perdia a chance de se meter em política e na vida clerical da cidade, tirando ou colocando Padre quando seus interesses eram contrariados, ou quando achavam que os dogmas da Santa Sé estavam sendo corrompidos.

Foi justamente por esse espírito belicoso que Dona Maria das Graças Sossegado ficou viúva ainda jovem, quando seu marido, Coronel Tomás Sossegado (que já nem tinha mais terras, mas não abria mão do título), à época candidato à vereância municipal, meteu-se em uma briga com os D’Agosto, família cuja tradição na cidade, era tão antiga quanto a rixa que separava as duas linhagens. Assim, durante o pleito municipal, o Coronel Tomás sacou da sua peixeira e atacou seu adversário político, o Dr. José D’Agosto, que, mais rápido, tacou-lhe uma azeitona no meio das fuças.

O velório foi motivo de frenesi, afinal não era todo dia que morria um morador tão ilustre na cidade. A viúva cuidou das celebrações mortuárias com esmero digno de um monarca, com direito a desfile do cortejo fúnebre pelas ruas e até missa de corpo presente celebrada em Latim, especialmente pelo Bispo da Arquidiocese, que veio da Capital especialmente para tal sacramento.

Compareceram às exéquias todos os Sossegados vivos, inclusive os dois filhos: o primogênito, Padre Pedro Sossegado, que fora enviado ao Seminário de Santo Onofre assim que completou idade, e Maria da Saudade, filha mais nova, que estava encomendada para o Convento, aguardando apenas completar os anos necessários.

Nessa época, Maria da Saudade era ainda uma menina, com apenas 13 anos de idade, mas já carregava aquela que seria sua marca na história da cidade, um véu branco, de fina renda, que cobria o rosto, deixando de fora apenas seus longos cabelos loiros, que corriam pelos ombros, como as águas do Paraibanha que desciam em direção ao mar, contrastando com a alvez da sua pele, clara como a mais fina porcelana.

Além dos familiares mais próximos, somente o Padre João Maria e o Doutor Andradas –  conhecido como o “homem dos cabelos de fogo” – já tinham avistado seu rosto descoberto, e muitos apostavam que, por detrás do véu, devia se esconder a moça mais bela daquelas terras.

Passado o sepultamento, a viúva Sossegado (que foi como ela passou a se denominar) fez cumprir o luto oficial de um mês, prorrogado por mais seis meses e, não satisfeita, só liberou a família do enlutamento após três anos decorridos.

Foi nessa época que chegou à cidade, vindo da capital, um jovem moço cujo nome ninguém conhecia, dele só sabiam o ofício, pois vivia pelas ruas e pela praça declamando versos de amor, de bravura e de amizade. Para toda situação o Poeta, como passou a ser chamado, trazia à boca uma estrofe.

Numa das manhãs de domingo, após a missa de três anos e meio de falecimento do Coronel Tomás Sossegado, divisou aquela que jurou ser sua diva, a razão de toda sua inspiração – ao passar pela Praça, a jovem Maria da Saudade foi assaltada por versos de ternura, que falavam do encantamento de um amante, diante da beleza velada naquela que passou a chamar de “Virgem de Porcelana”.

Ao ouvir os gracejos do rapaz, a viúva Sossegado tratou de apertar o passo e puxar a jovem Maria, não deixando passar a chance de excomungar o moço, que ainda permanecia em estado de graça, diante da visão que acabara de ter.

Desse dia em diante, ouviam-se pelas ruas da cidade apenas versos de paixão e encantamento pela “Virgem de Porcelana”, entoados por um jovem poeta apaixonado.

Como a casa dos Sossegado era cercada por um grande muro, várias vezes se viu a viúva correndo de garrucha em punho, atirando sal no pobre moço que, em vão, tentava cortejar sua amada escondida naquela fortaleza.

Contudo, o amor tem razões que a própria razão desconhece e, por isso, o jovem não desistiu da empreitada. Até que um dia, enquanto a viúva acabava de guardar os paramentos da missa, a jovem Maria distraída sentou-se em um dos bancos nos fundos da igreja.

Vendo a chance tão esperada, o jovem galante não perdeu a oportunidade e entrou na igreja como um penitente – de joelhos e cabeça baixa – para não ser reconhecido, aproximou-se de sua musa, confidenciando algo em seus ouvidos, saindo logo em seguida, num galope só.

O velho Lazin parou, pensou, acendeu outro pito e continuou:

O que foi que o jovem poeta falou com a sua amada, ninguém sabe, o que se sabe é que, na manhã seguinte, ao chegar no quarto da filha, a viúva encontrou apenas a cama vazia. A velha saiu como uma louca gritando pela cidade afora, atrás de quem soubesse informar sobre o paradeiro da moça.

Porém, como durante tanto tempo ela escondera o rosto de Maria, não era de surpreender que passasse despercebido pelos moradores da cidade, um jovem casal apaixonado que, de mãos dadas, tomou o rumo da estrada, e nunca mais fora visto por ali.

Surpreso com o final daquela história, perguntei ao velho amigo qual tinha sido o destino da velha viúva?

Segundo ele, depois de muito tentar, em vão, localizar a filha, a viúva doou em vida todo o patrimônio da família à Diocese, evitando assim que a ingrata herdasse um tostão que fosse, e se entregou de vez ao ofício de beata e zeladora da Igreja de Morro Grande, e dos Padres que por ali passariam, até o fim de seus dias.

Mas a moça e o poeta? Deles nunca mais se tiveram notícias? Perguntei curioso ao velho.

Mais uma baforada tranquila, e o bom amigo assim terminou mais esse causo.

Dizem que pouco tempo depois, foi visto um casal subindo em direção a Serra do Macaco Bujio, que chamava a atenção pela alegria que transparecia em seus rostos, e pelos versos de amor que eram entoados pelo jovem moço. Esses versos foram ouvidos até que eles adentraram a mata, um lugar mágico no meio de um grande paredão de pedras, e de onde até hoje se ouve, nas noites de lua cheia, entrecortados pelo cantar do macaco que dá nome ao lugar, os versos apaixonados do jovem Aedo para sua musa, a “Virgem de Porcelana”.

JRO

O Nobre e a Plebeia

Uma história de amor em três atos

Dizem por aí que certas coisas só acontecem em novela ou no cinema, em especial quando o assunto é amor. Normalmente vemos aquelas cenas clichês onde o mocinho e a mocinha se casam, e são felizes para sempre, ou onde o vilão sempre morre no final.

Hoje, porém, quero falar de um conto de fadas moderno, quase real, e que conta as aventuras e desventuras de um casal que conheci, cuja história é recheada de fantasia, com direito a mocinho e mocinha, bruxa e tudo mais. Ela começa mais ou menos assim…

ATO I – O encontro

Em uma cidade nem tão, tão distante assim, lá para os lados de Minas Gerais, havia uma jovem moça, de beleza escondida, para poucos revelada, e que, por isso mesmo, causava grande furor entre os moços da cidade – era considerada a jovem mais “difícil” do vilarejo. Juntava-se a isso, que a moça tinha um pai muito bravo, a quem todos temiam, que carregava a alcunha de “João Fura-Olho”, pois rezava a lenda que ele furava os olhos de qualquer um que se aproximasse daquilo que lhe pertencia – incluindo-se nessa lista bens, bichos e até sua filha, a doce e pobre Rosalinda, cujo nome de rosa representava bem sua personalidade – bela e perfumosa como a flor, mas ainda fechada, sem abrir-se para o mundo.

A história de nossa protagonista sempre foi marcada por dificuldades. Desde muito cedo conheceu a dor e a perda, pois fora criada pelo pai, depois que a mãe a abandonou ainda pequena, e se não fosse a ajuda de D. Antônia, sua avó, mãe de seu pai, ela talvez não fosse a personagem principal dessa estória.

Passou fome e teve que encarar desde muito cedo o trabalho pesado, o que a levou a conhecer a outra personagem de nossa trama – o jovem Áureo Fortuna, último filho de uma família tradicionalista, que chegou à vila por conta de umas terras compradas pelos seus parentes.  Lá estabeleceram-se e a vida dos Fortuna sempre causou alvoroço na cidade – como por exemplo no dia do casamento do irmão do meio – Epitáfio Fortuna que parou a vila, pois contam que para a cerimônia e a festa vieram tantos convidados, que numa cidade onde só passavam carros de boi, e uma meia dúzia de charangas velhas, formou-se o primeiro e único congestionamento da história do local, com filas de carros beirando um quilômetro.

Mas voltando ao nosso conto, a história de Áureo e Rosalinda começa quando ele, após ter sofrido uma grande desilusão amorosa, entristecido e desiludido, queixava-se com sua madrinha, Dona Margarida, que lhe consolava dizendo que sua alma gêmea ainda estava por vir, que ainda existiam moças de boa índole, e que ela mesma conhecia ali na vila uma moça muito boa, de boa família e, quem sabe, eles ainda não poderiam vir a se conhecer?

Sem dar muito crédito ao vaticínio da boa madrinha, Fortuna seguiu sua vida, enroscando-se hora com uma, hora com outra moça da vila, o que lhe valeu a fama de moço de pouca virtude, que só buscava o proveito próprio com as incautas moças.

Por várias vezes, em suas noitadas nas festas da vila, Áureo e Rosalinda estiveram próximos, olharam-se em tantas, mas nunca se viram.

Nesse meio tempo, seu João “Fura-Olho” veio trabalhar como retireiro nas terras da família Fortuna, e como a jovem Rosalinda tinha que ajudar o pai no sustento, fora junto com ele encarar a lide rude do trabalho com a terra.

Mais uma vez, o caprichoso destino fez seus caminhos cruzarem-se inúmeras vezes, mas por conta de sua fama, a jovem Rosa nem se dava conta da presença de Fortuna, por acreditar tratar-se de mais um aproveitador.

Assim foi, até que um dia, por um acaso da sorte, os dois trocaram as primeiras palavras e o que até então parecia um descalabro, de repente começou a se apresentar como algo agradável. Vale lembrar que Áureo já tinha reparado a formosura de Rosa, mas a tinha olhado apenas como homem, que olha uma bela e jovem moça, apesar de maltratada pela vida, e como ela nunca lhe dera atenção, seu interesse nunca passou do flerte.

Foi então que aconteceu: era uma noite de verão, a lua estava cheia, com um céu cravejado de estrelas; Áureo estava só em casa, sua família tinha viajado, e ele estava no jardim, sentado, pensando na vida, quando vê Rosalinda se aproximar. Ela acabara de terminar uns mandados deixados pela mãe do moço, e assim eles trocaram as primeiras palavras. Tendo apenas a lua como testemunha, naquela mesma noite, começou uma bela e singela história de amor.

ATO II – O Casamento

Depois daquela lua cheia, muitas outras vieram, e o sentimento averso, foi transmutando-se em respeito, depois veio o carinho, depois veio o afeto até se confirmar em um sentimento mais forte que ambos e, sem perceberem, ou mesmo planejarem, quando se deram conta já eram um casal de namorados.

A notícia parou a cidade, pois como diziam – Como podia aquilo? Água e vinho não se misturam! referindo-se à diferença social que existia entre eles. Outros, maldosamente, iam além. Afirmavam que tudo não passava de premeditação, que o rapaz endinheirado apenas queria aproveitar-se de sua pureza e inocência, que iria encher-lhe o bucho, e depois simplesmente sumiria no mundo, deixando uma criança sem pai, e uma jovem de coração partido.

Além de todo falatório nas ruas da vila, em ambas as famílias houveram conflitos, pois se do lado dos Fortuna a boa educação fazia da aceitação prévia do relacionamento uma necessidade (ainda que indigesta) do lado da jovem havia o contraditório: enquanto um Srº Joâo “Fura-Olho”, ainda que desconfiado, engolia a presença do jovem patrão em sua casa, os parentes viam na relação uma forma de tirar vantagem e lucro.

Apesar de todos os revezes, o amor falou mais alto, e a relação foi tornando-se cada vez mais sólida. Fortuna havia encontrado a alegria, a confiança no querer bem, e vivia a fase mais feliz de sua vida. De outro lado, a jovem Rosa encontrara no amado a segurança, o companheirismo e o amor que pensava, ela nunca encontraria na vida sofrida. Com o apoio e o carinho de Áureo, a jovem flor começava a desabrochar – a menina adormecera, para que acordasse a mulher.

Os dias foram se passando, o sentimento foi aumentando, a intimidade entre o casal crescendo até chegar o dia em que Áureo tomou sua decisão mais importante – era hora de tomar o rumo da própria vida, e construir, ao lado da pessoa que ele escolhera, uma nova vida, uma nova família.

E foi aí que o céu, antes ensolarado e azul, tornou-se turvo com a aproximação de pesadas nuvens, prenunciando uma grande tormenta.

A relação dos Fortuna com o casal que antes era cordial (mas burocrática) se tornou incômoda e distante. Para uma família tradicionalista ao extremo, aceitar os caprichos de um filho enamorado com uma rapariga de outra classe social, era permissível, porém, admitir tamanha quebra de cerimônia, ao aceitá-la como membro da família, lhes parecia um despautério.

Ao mesmo tempo, o resto da vila, bem como a própria família de Rosalinda, passou a colocar em crédito os sentimentos da jovem, comentando que tal união não passava de um grande “golpe do baú”.

Com todos esses problemas, essa foi a primeira de muitas outras provações a que foi submetido o jovem casal que, com serenidade, sempre juntos venceram e marcaram, então, o dia do casamento.

Aí começou outra novela. Se de um lado a família do noivo não aceitava a hipótese de um casamento sem pompa e circunstância, com todos os brilhos e brocados próprios dos Fortuna, de outro, a família da jovem enchia-se de simplicidade dizendo que se assim o fosse, não estariam presentes, por se tratar de um ambiente estranho à realidade deles.

Foi nessa hora que entrou em cena um “anjo da guarda” do casal, ajudando-lhes a resolver a pendenga – Padre Joaquim.

Homem plácido, de fala mansa, mas muito articulado, recebendo dos noivos a súplica de ajuda, interviu na disputa, contemporizando as partes, e acertando o casamento para a Igreja Matriz da Vila. O único problema é que, para a data acertada, a Igreja que estava em reforma, ainda não estaria totalmente pronta, tendo condições de receber a celebração, mas sem o brilho e a pompa esperados pela família do noivo.

Mais uma vez se fez a guerra, e novamente o bom padre (e amigo) interviu asseverando aos belicosos aparentados que, mais importante do que as flores e a festa, é o sentimento que levaria o jovem casal a comprometer-se perante a sociedade, e perante Deus.

Porém, seus problemas não acabaram por aí. Seu João “Fura-Olho”, que sempre tratara Rosalinda com frieza, e pouco carinho, percebendo que se aproximava o dia em que ficaria só, já que não havia semeado nada de bom, e não tinha amigos nem tampouco alguém que o quisesse bem, entrou numa tristeza profunda, caindo de cama. Rosalinda quase desfaleceu, pois sentia-se culpada, e assim, por pouco, não desistiu de seu amor, para cuidar do velho pai.

Mais uma vez o amor falou mais alto e Áureo, compreensivo como sempre, tomou sua mão e reafirmou seu comprometimento, buscando auxílio médico para o idoso, colocando-se sempre disponível, mesmo nos momentos mais incômodos, quando o velho homem, teimando em cismar, causava grande tumulto na casa simples da jovem Rosa.

Graças ao tratamento médico, e cuidado do jovem casal, João “Fura-Olho” ficou de pé e aceitou entrar na Igreja junto com sua filha, no dia mais feliz da jovem moça.

Como num passe de mágica, no dia marcado para o matrimônio, a Igreja se transformou: chegaram altares novos, bancos novos e até a pintura foi terminada. Apesar da simplicidade dos ornamentos, até hoje se comenta que nunca houve um casamento tão belo naquela paróquia, pois a beleza vinha não das flores, nem da música, nem tampouco das vestes dos convidados, mas do brilho que emanava do olhar dos noivos, que transbordava felicidade, própria daqueles que se amam profunda, e verdadeiramente.

ATO III – A família

Passadas as bodas, o jovem casal assumiu a nova vida no lar que construíram. Cada objeto tinha a marca de um e de outro, e assim a casa exalava a personalidade dos dois. Desde os primeiros dias, Áureo e Rosa firmaram um pacto de amor e fidelidade – que aquele seria um lar abençoado e que nada, nem ninguém, seria capaz de quebrar a serenidade e a paz que ali construiriam.

Realmente, mesmo nos momentos difíceis quando, após as bodas, seu João “Fura-Olho” piorara, e teve que ser levado para a casa do jovem casal, ficando lá por um bom tempo a contragosto, bem como quando a jovem se acidentou e o marido teve que assumir as tarefas da casa, além de cuidar da esposa (já que nem de um lado nem de outro das famílias encontravam apoio), a vida do casal sempre teve muitas histórias de felicidade, temperadas (como em toda relação) pela pimenta do dia-a-dia que, ao mesmo tempo em que esquenta – e algumas vezes dói com seu ardor – reafirma o amor que, quando verdadeiro, supera as provações e sai delas cada vez mais fortalecido.

Com o passar do tempo, as nuvens de tormenta que cobriam o céu do casal foram se dissipando, e nem mesmo a relação ainda superficial mantida com a família Fortuna, bem como os problemas agravados do Srº João “Fura-Olho”, agora cronificados pelo avanço da doença, foram capazes de tirar a paz e a serenidade dos dois, e assim a vida foi seguindo seu curso, até que um dia, a Fada do Destino lhes visitou deixando uma pequena, e bela, surpresa.

A casa acabara de receber uma nova moradora. Para completar a felicidade de Áureo e Rosa a cegonha deixara em sua porta a pequena Maria, uma princesinha formosa e branquinha como porcelana, tal como a mãe, que veio preencher os espaços que faltavam na vida do casal.

Maria trouxe vida nova e muita agitação àquela casa tão acostumada ao silêncio. Agora as noites eram interrompidas pelo choro da nenê e, mesmo nessas horas, Áureo e Rosa nunca deixaram de compartilhar, um estando sempre ao lado do outro.

Ao mesmo tempo, a chegada da pequena serviu para atar os nós desfeitos, pois, seu João “Fura-Olho”, que tinha tanta dificuldade em demonstrar afeto, encantou-se com a pequena, provocando, inclusive, uma melhora sensível no seu estado de saúde. Da mesma forma, na casa dos Fortuna, a chegada do bebê serviu para arrefecer os ânimos, e amolecer os corações; assim a convivência que antes era uma questão de mera obrigação, passou a ter um ar de maior cordialidade.

Maria foi crescendo, e a felicidade do casal também. Eu poderia terminar esta história dizendo que eles foram felizes para sempre, mas sempre é muito tempo, e muitas outras adversidades ainda estão por vir na vida de Áureo e Rosa. Mas sabe qual é a grande moral dessa história?  A vida é um eterno e constante recomeçar, e só quem sabe reconhecer isso, consegue aproveitar os muitos momentos de felicidade que ela nos oferece.

Quanto ao casal? Acho que eles em breve receberão uma nova visita da cegonha, trazendo uma irmãzinha (ou irmãozinho quem sabe) para fazer companhia à pequena e amada Maria.

Fim….?????

JRO