Era uma vez um lugarejo chamado Prosperidade, uma pequena cidadela de interior, com pouco mais de um milhar de habitantes, no meio do nada, mas onde tudo, ao modo simples, funcionava. O único médico do lugar curava unha encravada e fazia partos, o juiz celebrava casamentos, e as normalistas ensinavam.
E assim a vida corria, ou melhor, caminhava no ritmo lento e sossegado das cidades do interior, sem pressa e com muita tranquilidade. Até que um dia, a calmaria do lugar foi quebrada.
Numa manhã de domingo, quando a cidade acordava ao som do sino da matriz de Nossa Senhora do Rosário, para o compromisso dominical com o Senhor Morto, o povo do lugar foi surpreendido com uma novidade: eis que surgiu, no meio da Praça, uma grande carreta misteriosa. Até o padre fez questão de ir lá conferir do que se tratava, e acabou se esquecendo de celebrar a missa.
Quando todos já estavam ouriçados em volta do veículo, uma grande porta se abriu, e lá de dentro desceu um homem de cartola, fraque, luvas de pelica e um pequeno monóculo posto na algibeira. O sujeito, de ar doutoral, desceu empertigadamente passando entre o povo curioso, e dirigiu-se ao coreto, lá começando a discursar.
– Bom dia, simpáticos moradores de Prosperidade Meu nome é Doutor Capélo, e venho da capital trazendo um presente único para essa comunidade, que transformará o mais humilde dos moradores, em um Doutor, da noite para o dia.
Homem de fala fácil, e palavrório difícil, não demorou nada para arrancar aplausos da plateia embevecida, que ouvia atentamente, sem nada entender de fato.
E continuou:
– Para conseguir tal feito inacreditável, bastará que o candidato cruze a grande “Porta de Acesso”, e ao sair da engenhoca terá seu canudo na mão, e uma nova vida cheia de oportunidades, proporcionais ao galardão da carreira escolhida.
Como se daria esse processo, nem o próprio Padre soube explicar, e o nome da máquina estroboscópica e escalafobética era tão difícil de pronunciar, que os locais lhe deram a prestigiosa alcunha de “Jabiraca”.
Logo na manhã seguinte, formou-se uma fila em frente à “Grande Porta”, de candidatos ao diploma recebidos com pompa e circunstância pelo erudito Doutor, que não poupava adjetivações para as infinitas possibilidades que aquela maravilha tecnológica iria proporcionar na vida de cada um dos interessados.
Um a um, eles foram passando, e em breve tempo o lugar passou a contar com 20 médicos, 30 advogados e 15 odontólogos, todos devidamente enjalecados e entogados, ostentando toda a empáfia da vida doutoral, Juntando-se a estes, a cidade ganhou também um número muito maior de engenheiros, professores e pedagogos, apenas para citar os ofícios mais famosos.
Passado esse ciclo de formação, a Prefeitura homenageou seu benfeitor, o Doutor Capélo, com a mais alta honraria do município, a “Alta Ordem de Nossa Senhora do Rosário”, por ter trazido a cultura e a civilidade para o lugarejo. O benemérito ainda ganhou um busto de bronze, em frente ao Paço Municipal.
Findas as homenagens, da mesma forma que a “Jabiraca” surgiu, ela desapareceu sem deixar rastros. E assim deveria ter se inciado uma nova fase de desenvolvimento e prosperidade, como bem diz o nome do lugar, só que não foi bem isso que aconteceu.
O pequeno vilarejo, apesar de ser um lugar simples, era reconhecido por sua qualidade de vida, pelos bons serviços públicos, com ruas sempre bem calcetadas, pela boa oferta de alimentos (todos produzidos nos sítios e fazendas da localidade) e por uma educação, ainda que básica, que entregava ao município vizinho de “Mais Prosperidade”, alunos do ciclo fundamental devidamente letrados e entabuados.
Ocorre que, de uma hora para outra, a cidade começou a ficar esburacada, as quitandas e armazéns sem verduras e legumes e a escolinha fechou Até o ferreiro, que cuidava dos cascos dos muares mudou de ramo, transformando-se em um garboso, mas desempregado, administrador de empresas. E isso aconteceu por quê?
Os calceteiros viraram engenheiros, e com o advento do novo ofício não se dignaram mais a cuidar das ruas, os agricultores viraram engenheiros agrônomos e com o prestígio da função acharam que não lhes cabia mais a tarefa de arar e cuidar da terra, e até as Tias Normalistas (Salvem as Professorinhas!!!), que tão bem ensinavam as crianças os mistérios do be-a-bá e das continhas, viraram ilustres pedagogas que não viam mais sentido em ensinar algo tão básico, e passaram a se ocupar da discussão de temas mais complexos, como a Pedagogia do Oprimido.
E o que aconteceu depois disso? Bom isso, não sei dizer, mas comenta-se na região que chegou por lá um outro empertigado, com uma máquina mais fabulosa ainda do que a primeira, prometendo para aquela massa de diplomados, a solução de seus problemas através de um novo título, agora de pós-graduação.
Quanto ao Doutor Capélo? Dizem que foi visto pela última vez, estacionando sua Jabiraca na Praça da Matriz, na vizinha cidade de Mais Prosperidade.