Nos tempos da telefonista

Dia desses, passando pela pacata Prosperidade, parei para tomar um café na venda do Joaquim, octogenário de muita prosa, e riso solto, natural de Morro Grande, terra da Pedra do Paraibanha, que veio se abancar por esses lados há mais de vinte anos.

Ao entrar na venda, sentei numa cadeira, e, enquanto esperava o café, reparei numa roda de conversa ao lado.. Faziam parte dela o Doutor médico, o pai da pequena Maria e até o Juiz, mas quem comandava o assunto mesmo era o Joaquim, que tinha tanta lábia, quanto idade, e não perdia a chance de contar suas histórias.

~ Pois é meu povo, muito antes desurgirem essas histórias de grampo telefônico, lá em Morro Grande, já havia acontecido algoparecido. E continua contando.

~ Dona Elisabete, a telefonista da central telefônica, de tão curiosa e fofoqueira que era, tinha o péssimo hábito deficar escutando as conversas dos outros, enquanto falavam ao telefone. Como isso já era sabido por todos, volta e meia um ou outro dava uma carraspana na velha bisbilhoteira.

~ Havia chegado ao lugar, um moço vindo da capital, de aparência bonita, mas caráter duvidoso, que resolveu tirar vantagem daquela gente simples, entrando pra política.

E continuou a prosa.

~ Moço da cidade, de estampa fina, e fala empombada, logo se tornou Presidente da Câmara, se ajuntando com a pior espécie depolíticos da região, mas sempre pensando no próprio bolso.

~ À época, o Prefeito era o Drº Bento Ribeiro, médico de família tradicional, muito humano e preocupado com o bem-estar dos seus munícipes. Desde que assumira, Morro Grande havia começado a melhorar – saúde, educação e segurança eram suas metas, e por elas trabalhava dia e noite sem cessar.

~ O Presidente da Câmara, que não eraafeito ao dirigente municipal (por questões óbvias), passou a tramar, com a politicalha que o cercava, uma forma de tirar Bento do Paço Municipal.

Parando para dar uma golada na branquinha que estava sobre a mesa, Joaquim prosseguiu:

~ Até tocaia pro médico aprontaram. Dizem que quando ele estava voltando de um atendimento na zona rural, alguém descarregou um tambor inteiro de 38 em cima do carro do homem,que só não morreu graças a uma medalhinhade Santo Expedito, que carregava junto ao peito, e parou a bala certeira.

~ Com a tramóia fracassada, o político safado decidiu acabar com a boa imagem e reputação que o prefeito tinha na cidade. Mas para isso precisava de alguém que fosse conhecido do povo, e não tivesse escrúpulo para aceitar tal mandado.

~ Dona Elisabete, solteirona e encalhada, fofoqueira confessa, era a pessoa ideal para espalhar a semente do mal, destruindo assim a reputação do bom médico.Pra convencer a futriqueira, o mau caráter investiu com gracejos e agrados pra cima da dona, que logo se derreteu entregando muito mais do que a boa vontade em participar do conluio, amasiando-se com o canalha.

Mais uma pausa, e mais um gole, Plateia em silêncio acompanhava atenta, e eu também.

~ O plano era o seguinte: como todos sabiam que a telefonista tinha o péssimo hábito de escutar as conversas alheias, ela iria espalhar aos quatro cantos que havia escutado, por mais de uma vez, o Prefeito combinando com os fornecedores da merenda escolar, uma rachadinha para engordar seu bolso. E disse mais, que ouvira também ele dizendo que o atentado sofrido havia sido uma armação, para incriminar seu desafeto político, o Presidente da Câmara.

~ A história se arrastou igual rastilho de pólvora, e aproveitando-se do furdunço causado, o empestilento político deitou a fazer discurso em praça pública, chamando Bento dos mais torpes nomes, iniciando, assim, um levante junto à população para tirá-lo do Paço Municipal.

~ Chegou então à cidade, enviado pela capital para investigar o ocorrido, o Drº Antônio Pavão, Delegado de Polícia famoso na região, por nunca haver deixado de solucionar um caso. Assim que foram iniciados os processos investigatórios, não tardou para que o fio da meada aparecesse, e a tramóia fosse descoberta.

~ Chamada às falas, Dona Elisabete, entregou o amante, que foi acusado e preso por tentativa de homicídio, desvio de dinheiro público, associação criminosa e danos morais, por ter tentado manchar a honra do honesto Prefeito.

Estupefata a audiência, o intrigado Juiz perguntou ao vendeiro o que havia acontecido com a telefonista futriqueira.

Então, o ensabichado Joaquim, respondeu com uma risada, e outro gole.

~ Sumiu. Ninguém nunca mais viu a dona em Morro Grande. A última notícia que se teve dela é que teria arrumado um outro emprego de telefonista, só que lá pros lados do Planalto Central.

Os três encontros

osé era um sujeito comum, sem mais nem menos, apesar de alguns lhe apelidarem de “perfeitinho”, “inteligentinho” e até de “anjinho”,Na verdade, era apenas mais uma sombra na multidão, um flâneur, um “passante” ao melhor estilo do sempre Verde, Cesário Verde.

Meu encontro com ele se deu de maneira inusitada: fomos apresentados no entrecortar das vagas, no meio do oceano, com ele à deriva, em um bote furado, fazendo água. Por mais inconveniente que pudesse parecer, não me contive e perguntei como ele havia chegado naquela situação.

Prontamente, José me disse que para explicar o embróglio em que se metera, teria que relatar o encontro profético que teve com três personagens distintas – um político, um religioso e um cientista.

Como dito, sua vida nunca havia sido melhor nem pior do que a de ninguém, como também não havia sido marcada por nenhum fato trágico, ou espetacular. Nem pobre nem rico, apenas um sobrevivente, e tudo ia seguindo o fluxo de sua vida mediana, de um classe média, até que um dia, como se fosse um avião fazendo piruetas, ela entrou em estol (quando uma aeronave não se sustenta no ar, e cai). E agora José?

Primeiro encontro – O Político

Ao relatar ao homem público as desventuras que o levaram a estolar, colocando em queda livre suas expectativas, anseios e projetos de vida, ouviu uma explicação típica de um “Odorico Paraguaçu de Sucupira”. Segundo o estadista, deixando de lado os entretantos e partindo logo para os finalmentes, ele tinha que entender que a às vezes a vida anda pratasmente, mas depois volta a girar prafrentemente, igual uma roda gigante, por isso em algum momento a vida dele ia melhorar.

Não convencido da explicação, José só respondeu que a roda gigante dele havia emperrado no chão, sem perspectiva de voltar a subir.

Segundo encontro – O Religioso

Seguindo seu périplo em busca de respostas, nosso amigo encontrou um “Homem de Deus”, na esperança de recorrer à divindade, para encontrar uma explicação para suas desventuras em série, já que a primeira não tinha sido capaz de lhe convencer, nem tampouco consolar.

Começando sua pregação, o religioso lembrou ao náufrago que Deus, Jeová, Ser Supremo ou Inteligência Universal, como o queira tratar, não impõe ao seu filho um fardo maior do que ele possa carregar e, no final das contas, aquilo não era nada mais, nada menos do que uma “prova de Fé”.

Mais uma vez, o desesperançado homem não se sentiu convencido, isso porque, dentre as inúmeras alcunhas que havia recebido em sua vida, uma delas era a de ter sido um “Homem de Fé”, temente a Deus.

O que José não sabia à época, é que falar é muito fácil, difícil é sentir na pele o problema, e é nessa hora que a tal “Fé que movia montanhas” se torna apenas uma figura de Retórica.

Terceiro encontro – O Cientista

Como não havia encontrado resposta na Política, nem tampouco na Religião, o desafortunado decidiu buscar na Ciência o lenitivo que lhe faltava.

Ao chegar a um laboratório de última geração, o genial pesquisador, após ouvir o comovente relato do sofredor, se pôs a escrever em uma lousa fórmulas e sequências matemáticas, e após um longo tempo de análise, apresentou a tese que explicaria a situação em questão – o problema do desfalecido náufrago era que, estatisticamente, um em cada mil humanos nascem fadados ao fracasso, e quanto a isso nada se podia fazer, pois era um caso típico de seleção natural da espécie, onde somente os melhores podem sobreviver.

Mais deprimido do que no primeiro e no segundo encontros, José só conseguia se lembrar da infalível Lei de Murphy, que tinha como premissa a máxima “nada é tão ruim que não possa piorar”.

Cansado de tanto buscar respostas e não as encontrar, o desacoçoado vagante se lembrou que os místicos costumavam fazer viagens de iluminação e auto-conhecimento, em situações de desespero e falta de respostas, como aquela que estava vivendo.

Sendo assim, decidiu largar tudo, entrar em um barco e sair navegando sem destino, em busca de sua iluminação.

No entanto, sua “Jornada de Ulisses” terminou no primeiro recife de corais, que levou sua Nau a fundo, restando a ele apenas se agarrar a um bote velho, que avariado com o desastre, fazia água através de um furo no centro do casco.

E foi um balde – que passando boiando ao seu lado, lhe garantiu a preservação da vida, pois com ele tirava a água, que insistia em entrar pelo furo na pequena embarcação.

Depois de ouvir tão contundente relato, me despedi de José que se afastava no horizonte. Ele que buscou sentido para os seus infortúnios, não percebeu que aquele barco à deriva no mar, era a metáfora que explicava sua vida – não afundava porque a água que entrava era colocada para fora com o balde, mas também não progredia, visto que as avarias na embarcação não lhe permitiam definir o rumo que gostaria de seguir.

Pobre desafortunado José!

Beber defunto

Existem costumes no interior, que quem é da cidade grande não entende, e pode até chegar desrespeitoso. Beber o defunto é um deles.

São Damião era um vilarejo cortado pelo rio das Garças. De uma beira era Minas, atravessando a ponte era Goiás. Por lá existiu um tal Aristides ~ solteirão, amante de cachaça, carteado e mulher dama. Por sorte, nasceu afortunado, e as cabeças de boi garantiram suas farras até o fim.

E esse dia chegou. No leito de morte, Tião, seu capataz, e único amigo, ouvia atento às recomendações do patrão.

~ Entendeu tudo, Tião?

~ Pode descansar em paz, patrãozinho. Tá tudo entendido.

Então, o homem fechou os olhos, e fez seu passamento. No dia seguinte a Vila ficou movimentada. Veio gente de Goiás e até de Brasília para acompanhar o velório de Aristides. Seguindo as recomendações do patrão, Tião.mandou servir a melhor cachaça, cerveja e wiskihy 15 anos para os convidados beberem o defunto.

Acompanhando o cortejo, a banda de Nossa Senhora do Rosário tocou as músicas preferidas de Aristides.

Na hora de descer o caixão na sepultura, uma última rodada, e o brinde ao agora defunto. Quando os coveiros jogaram a última pá de terra, o céu pipocou com um foguetório que foi visto até para os lados da Goiás velha.

Lá de cima, Aristides acompanhava tudo ao lado de São Pedro, com um copo de pinga na mão, sem esquecer de oferecer, logicamente, um gole para o Santo.

O homem da meia-noite

Todos os dias, quando o relógio marcava meia-noite, a rua da Alameda ficava totalmente deserta. Casas fechadas, luzes apagadas. Ninguém se atrevia a olhar pela fresta da janela, e o motivo não era o cemitério que ficava no centro da rua, mas sim uma figura sinistra que vestia roupa escura, usava um chapéu preto de aba longa impedindo de ver seu rosto, e calçava sapatos que se faziam ouvir em todo o canto, por causa do som que seus saltos produziam. Até o minuto antes do sol acordar, ele rondava o local de cima a baixo.

Até que algo assustador aconteceu. Assim que o relógio virou os ponteiros, marcando o início do dia de Finados, o céu se encheu de raios, que estalavam sobre o cemitério, mas sem cair uma gota sequer de chuva. Pior foi o que veio depois. As almas pecadoras se levantaram das sepulturas, e seguiram em uma procissão macabra de mortos-vivos, invadindo as casas e aterrorizando a vizinhança. Desesperados, os moradores começaram a gritar por socorro.

Nesse momento, o homem da meia-noite se transfigurou em cem iguais a ele,, e seus múltiplos trataram de buscá-los um a um, garantindo que não se levantassem mais de suas sepulturas. Depois desse episódio, todos naquela rua não tiveram mais medo, pois entenderam que ele era o guardião do cemitério, encarregado de proteger a memória daqueles que encontraram a luz, e manter afastados os caídos, que cumpriam penitência nas sombras umbralinas do inferno.

A relíquia

Catarina era uma médica jovem, e muito bem sucedida na carreira. Adepta da agamia, teve relacionamentos, mas se casar nunca foi uma opção. Ser mãe, pelo contrário, era um desejo que a boa condição financeira lhe proporcionou. Fora do país, contratou um banco de sêmen, onde fez uma escolha minuciosa do doador. Alguns meses depois nascia Lucas – seu herdeiro e maior sonho realizado.

Graças à terapia genética, o menino era lindo – perfeito em todos os detalhes, e muito saudável. Mas tudo mudou quando a criança começou a falar. Sempre que ficava sozinho, o menino travava longas conversações com um amigo imaginário. Tratando como uma coisa natural, um dia ela lhe perguntou:

– Filho qual é o nome do seu amigo imaginário?

– Thomas mamãe, ele falou que gosta muito de mim.

Sem dar maior importância, deixou o tempo passar. Contudo, as coisas não mudaram, e agora já na fase escolar, começou a virar um problema a ponto de ser chamada pelas professoras. Clinicamente ela sabia o que garoto não tinha nada. Fez todos os exames que a medicina poderia oferecer e nada foi encontrado, até que a babá da criança sugeriu que poderia ser coisa do outro mundo. Muito católica, decidiu procurar o padre da sua paróquia, para pedir um aconselhamento.

– Padre João, boa tarde. Preciso falar com o senhor.

– Boa tarde minha filha, vamos até a sacristia para conversarmos.

Ela contou ao pároco toda a história. Do nascimento de Lucas até as conversas com o amigo imaginário, que achando cessariam com o tempo, vinham persistindo desde então. Muito calmo e sereno, ele assim lhe aconselhou.

– Olha minha filha, isso muito provavelmente é coisa de criança, normalmente até os sete anos deverá cessar, e ele nem vai se lembrar do tal amigo. Como ele já está com cinco, é só ter um pouco mais de paciência.

– Porém, caso surja algum fato novo, ou você perceba alguma situação que os coloque em perigo, vou lhe dar uma arma para segurança de ambos.

O bom cura foi até o interior da igreja, e voltou com uma pequena caixa. Dentro dela, um terço de São Bento.

– Catarina, sempre que precisamos empreender uma batalha contra o mundo espiritual, recorremos a São Bento. Essa é uma relíquia abençoada e muito poderosa, tenha ela sempre por perto, e não hesite em usar caso precise proteger a você, ou ao seu filho.

Confortada pelas palavras do padre, mas pensativa se algum dia teria realmente que se servir da arma benta, foi para casa acreditando que aquilo iria acabar, e Lucas ficaria bem. Mas assim que entrou, seu coração quase saltou do peito – o menino estava em pé no beiral da sacada do apartamento. Para não o assustar, chegou lentamente e perguntou:

– Filho, o que você está fazendo aí? Você sabe que é perigoso!

– Eu sei mamãe, mas o Thomas está aqui comigo, e falou que se eu cair ele vai me segurar.

Antes que o pior acontecesse, ela o agarrou pelas pernas, e levou para dentro da sala. Nesse instante, os móveis começaram a tremer, e uma voz raivosa de mulher gritou:

– Não, sua vadia. Ele é meu, não vou permitir que o tirem de mim outra vez!

Então, tudo em volta começou a pegar fogo. Desesperada, Catarina tirou da bolsa o terço, protegeu o filho com o próprio corpo, e começou a rezar pedindo proteção.

Não se passou nem um segundo, e uma grande luz branca envolveu a mãe e a criança – tudo serenou. Não havia mais fogo, nem sinal da entidade malévola. Com os olhos lacrimejantes, ela pegou o menino no colo, e o levou para o quarto onde adormeceu. Quando acordou, não se lembrava de nada que tinha acontecido. Depois disso, nunca mais conversou com o amigo imaginário.

Catarina passou a trazer a relíquia abençoada sempre junto do peito, e pediu ao Padre João que consagrasse a criança a São Bento, o santo que não tinha medo do demônio, pois uma sensação dentro do coração de mãe, he dizia que aquela história não havia terminado ali, e seu filho ainda corria grande perigo.

A louça branca

Janete era a quinta geração de mulheres daquela família., todas com um traço em comum, que virou a marca daquele matriarcado,- personalidade forte e independentes, que tinham nos homens apenas reprodutores descartáveis, como zangões na colmeia.

Ao completar 18 anos, recebeu de sua mãe a louça branca da família – uma grande tigela de cerâmica amarelada pelo tempo, que guardava as marcas de sucessão das gerações.

~ Filha guarda isso com você, com todo cuidado. Na hora certa, você vai saber o que fazer.

Sem entender bem o porquê, mas com a certeza de que era algo importante, apenas consentiu com a cabeça.

O tempo passou, a moça virou uma mulher que conheceu seu primeiro e definitivo amor. A paixão por Antônio foi tão arrebatadora, que entre o casamento e o nascimento do primeiro filho, não se passaram 12 meses – nasceu José.

Ainda no hospital, a mãe disse a Janete:

~ Minha menina, assim que sair do hospital você vai ter que cumprir uma demanda, para manter a força de nossa família.

~Tá bom mãe, mas o que eu tenho que fazer?

~Na hora vou te explicar, mas saiba que é uma obrigação da qual você não poderá fugir!

Na emoção da chegada do primeiro filho, eia deu pouca atenção às palavras da mãe

Ao chegar em casa, Antônio já tinha deixado tudo arrumado – o quarto decorado todo em azul, na porta o nome da criança, tudo feito com muito carinho.

Assim que a sogra chegou, mandou que o rapaz saísse do quarto, e a deixasse sozinha com a filha e o neto. Achando uma preocupação normal de avó, o rapaz saiu, e encostou a porta

~ Então minha filha, desde a primeira geração, nossa família foi forjada por mulheres guerreiras, que não se deixaram subjugar pela vontade de nenhum homem. E foi isso que nos trouxe até aqui. Mas com um preço e uma consequência. O primogênito homem de cada geração deve ser entregue em sacrifício à nossa Deusa mãe, Morrigan.

~ Espera aí mãe, que história é essa de sacrifício?

~ A louça branca que lhe dei, é um objeto cerimonial sagrado, que deve ser cheia com água, alecrim e sálvia, e o bebê submerso até não ter mais vida.

~ O quê? Eu nunca vou sacrificar meu filho.

Antônio que escutava por detrás da porta, entrou nervoso gritando:

~ Ninguém vai matar meu filho , sua bruxa louca.

Então, ele pegou a bacia de louça branca, e a atirou contra a parede, quebrando em pedaços.

~ Não, seu desgraçado! Gritou a mulher em fúria.

~ Vou acabar com você e com essa criança.

A mulher sacou um punhal, e foi para cima da criança. No mesmo instante, o rapaz entrou na frente tomando a lâmina das mãos da sogra, e perfurou seu peito.

~ Vocês vão pagar por isso. Nós os acharemos, e terminaremos o ritual que essa ingrata da minha filha não teve coragem de fazer.

Essas foram suas últimas palavras. Antônio pegou a mulher e seu filho e fugiram. Desde então, vivem mudando de endereço, temendo que a ameaça da sogra se cumpra, e o Clã das Morrigan venha cumprir a ameaça da mãe de Janete.

Zé canarinho

Passa Vento era uma daquelas cidades do interior de Minas onde tudo andava devagar, e os compromissos eram marcados pelo sino da Matriz, que badalava avisando aos crentes sobre a missa, o velório e até quando era hora de almoçar, ao meio dia.

Por lá apareceu certa vez, um tal de Zé canarinho, um mulato de pouca instrução, riso solto e muita simpatia. De onde ele veio, como chegou à cidade, ninguém sabia dizer. Mas de tão boa gente que era, ganhou a confiança de todos, e o padre o deixou morar em um quartinho nos fundos da igreja, onde cuidava da limpeza do adro, e dos jardins que envolviam o prédio, em troca da moradia.

Se é verdade que os animais pressentem quando uma pessoa tem bom coração, essa pessoa deve ter sido o Zé. E não estou falando aqui de cachorro ou gato não. Segundo contam os mais velhos, todos os dias ele sentava no banco da praça em frente à Matriz, depois que acabava a missa das sete, espalhava alpiste nas mãos e na cabeça, e um a um iam chegando canarinhos da terra para comer sua merenda.

Num instante, o Zé deixava de ser moreno, para ficar todo pintado de amarelo. E como prova de confiança, ainda seguia andando praça afora, com os bichinhos empuleirados no seu corpo. O mesmo ritual era repetido todas as tardes, quando o sol se preparava para dormir.

Um dia, enquanto alimentava seus amigos sentado no banco, fechou os olhos para nunca mais acordar. Naquele instante, uma revoada de canários desceu do céu, e pelo bico levaram o homem de volta para aquele lugar onde gente de bem, que ama os animais, merece encontrar o repouso eterno.

O muladeiro Salastiel

Santana do Livramento é uma cidadela cuja história remonta os tempos do Brasil Colônia. Com pouco mais de 1.000 habitantes, o lugarejo sobrevive do trabalho na zona rural, onde fazendas centenárias ainda guardam as lembranças de um período, onde terra e ouro eram uma coisa só.

Com apenas uma praça e uma Igreja, o monumento histórico mais importante da cidade é o Chafariz de Santana.  Uma estrutura em pedra sabão com a imagem da Santa no topo, com dimensões desproporcionais para o tamanho da cidade, que guarda debaixo da terra a lenda do muladeiro Salastiel.

Salastiel era um português que veio fugido para o Brasil, e fez dinheiro com sua tropa de animais. Em um tempo onde estrada era caminho, e transporte era no lombo, as mulas cuidavam de levar desde suprimentos, até materiais pesados para construção, e foi assim que essa história começou.

Nos idos do século XVIII, aquela região ainda era próspera pelo número de fazendas cafeeiras, mas também pelo barranco do Livramento, uma corredeira de onde juram saiu mais ouro do que caberia em toda Ouro Preto e Diamantina juntas. O homem mais rico era o Barão de Caldas Novas, um comerciante que se casou com a filha de um nobre da corte de D. João. Com a morte do sogro, comprou o título de Barão, e assumiu suas terras e fortuna.

Devoto de Santana, e em homenagem à sua esposa, a Senhora Ana de Magalhães e Aviz, mandou que fosse construído, no centro da vila que se formara em torno das fazendas, o maior chafariz daquela Sesmaria, onde tropas pudessem dar de beber às suas montarias. Para tal empreitada, ordenou que se contratasse o muladeiro mais famoso da região, o português Salastiel, que buscaria as pedras que formariam o monumento, e a imagem de Santana, encomendada a um mestre artesão de Mariana.

O que ninguém imaginava era que por detrás de toda aquela devoção, existia um motivo muito menos religioso para tal demanda. O barranco do Livramento passava, em boa parte, dentro de suas terras, e como o ouro por lá era farto, colocava os escravos mais debilitados para fazer a peneira do metal, de tal forma que o cansaço, e a exposição contínua ao sol e à água os levassem a vida, protegendo assim o seu segredo.

Ocorre que o volume de metal precioso retirado ficou tão grande, que guardá-lo dentro de casa se tornou perigoso demais, por isso o Barão teve a ideia de construir um Chafariz de tamanho monumental, onde debaixo da devoção à Santana e das pedras, seu tesouro pudesse ficar preservado, e protegido dos saqueadores.

Logo que entregou a primeira carga, Salastiel descobriu toda a trama do nobre, através de uma negrinha com quem se enrabichou. Por isso, tratou de subornar os homens que faziam a obra, com a promessa de partilhar o tesouro, para que trocassem os sacos com o minério dourado, por terra preta e cascalho do barranco. E assim foi feito. A cada remessa de pedras entregue, as mulas voltavam carregadas com o ouro que iria para o buraco. Enquanto isso, o Barão de Caldas Novas que se achava tão ardiloso, tornava-se cada vez menos rico.

Na última viagem, quando trouxe a Imagem de Santana de Mariana, como prova de gratidão, foi convidado pelo nobre para acompanhar a instalação solene da Santa, com a benção de um bispo que veio da Capital somente para esse fim. E ao final, ainda recebeu duas moedas de ouro, como pagamento pelos serviços prestados.

Agradecido, subiu em sua mula e saiu rindo do patrão que, se achando tão esperto, guardou debaixo daquele monte de pedras, uma fortuna em sacos de terra preta e suja. Quanto a ele, dizem que Salastiel comprou propriedades lá para as bandas de Goiás, e o título de Conde do Livramento – tornando-se um dos homens mais ricos daquela região.

O corpo

Hoje acordei com um gosto amargo na boca – daqueles que só sente quem abusa na véspera da quantidade (e qualidade) do Whisky, de procedência duvidosa. E o pior é que essa sensação vem se repetindo a cada manhã, a cada semana, há alguns meses. Logo cedo o fígado e a cabeça me cobram pelas escolhas (des) acertadas que fiz. Quando me viro de lado, vejo um corpo inerte, tendo o peito rasgado ao meio, banhado em sangue…

O assassino do espelho

A pequena cidade de Miraflores acordou apavorada. Mais uma jovem tinha sido morta durante a noite. O modus operandi do assassino foi o mesmo. Escolheu outra universitária jovem, branca, de cabelos castanhos longos, e que morava sozinha. No espelho do banheiro, um número escrito com sangue.

A polícia já tratava o caso como um crime em série, já que essa era a quinta vítima em apenas dois meses. Por Miraflores ser uma cidade dormitório, ao lado do Campus de um grande centro universitário, o pânico se instalou no município. O próprio prefeito pediu a ajuda do Governo Central, pois o efetivo policial era pequeno, e não havia encontrado pista sequer que levasse a um suspeito.

Foi então que chegou à cidade a inspetora Claudete. Uma investigadora com 20 anos de experiência, que já havia desvendado mais de 10 casos de serial killers. Claudete era uma mulher de meia idade, pouca estatura, mas muita perspicácia. Antes de entrar para a polícia, já era formada em Direito e em Psicologia, tendo se especializado na área forense. Seu hobby era estudar as investigações de crimes famosos, o que lhe rendeu uma habilidade incomum – enxergar a cena do crime, com o olhar do assassino.

-Bom dia. Inspetora Claudete. Disse ao se apresentar no Paço Municipal.

-Ah, sim, o prefeito já lhe aguardava.

Ao entrar no gabinete, já estavam lá o comandante do destacamento policial, o juiz da comarca,  além do próprio prefeito.

– Prazer em recebê-la inspetora. Seus superiores me avisaram de sua chegada.

– Pois bem senhores – disse secamente cortando o chefe do executivo. Se há interesse em desvendar os crimes, teremos que agir rápido, e deixar de lado os rapapés. Existe alguma pista que possa ajudar a desvendar o caso?

-Bom dia inspetora, Sargento Meireles, comandante do destacamento. Não, não há. Desde o primeiro acontecido, temos buscado alguma informação que levasse ao paradeiro do criminoso, mas sem sucesso até aqui.

-Ok, pelo que li nos relatórios, o assassino deixa sua marca na cena do crime, correto? No espelho do banheiro, não é isso?

-Sim inspetora, ele escreve um número com sangue. Que não sabemos de quem é, porque não encontramos vestígio em nenhuma das cenas dos crimes.

-Então ele quer ser encontrado e reconhecido. 

-Como assim? Perguntou intrigado o prefeito.

-Ora meus caros, esse número é a assinatura do assassino. O sangue certamente é das vítimas, e ele sabe que a sua digital pode ser extraída dele. Isso foi feito, não foi?

Os presentes na sala entreolharam-se, e perguntaram ao Sargento:

-Foi feito, não foi Meireles? Perguntou o juiz.

-Na verdade, não Meritíssimo. 

Nitidamente irritada, a inspetora interrompeu a conversa:

-A cena do último crime está preservada?

-Sim, o apartamento foi fechado e ninguém teve acesso, desde então.

-Me leve até lá agora, Sargento.

Ao chegar no local, a inspetora foi direto para o banheiro, onde ainda havia no espelho o número cinco gravado com sangue. Logo de imediato, recolheu a digital, e mandou que a enviassem para o laboratório.

Então saiu, e voltou para o quarto.

-A cama está do jeito que vocês encontraram?

-Sim, inspetora. Sem marca alguma de sangue, apenas o edredom levantado.

Para espanto dos policiais, Claudete se deitou, puxou o edredom e fechou os olhos. 

-A vítima estava dormindo, e foi sedada com formol. Por isso não há sinais de reação, ou luta com o assassino.

-Desculpe a pergunta inspetora, mas como a senhora descobriu tudo isso? – perguntou o desconfiado Meireles.

-Ora homem, se você acabou de me dizer que a cena está preservada, é lógico pensar que não houve reação. Quanto a estar sedada, ainda há cheiro de formol no travesseiro, mas imagino que vocês já sabiam disso, não é mesmo?

-Claro, inspetora. Está tudo registrado no relatório, não é Cabo Souza?

-Sim, senhor Sargento – respondeu o subordinado sem nenhuma convicção.

-Tá, tá. Vocês encontraram o corpo dentro do box, no banheiro, não é isso?

– Sim inspetora, ela estava deitada. Não havia sangue, apenas sinais de esganadura.

-Muito bem Sargento, então se o número foi escrito com sangue, como vocês me explicam isso?

-Na verdade, não temos explicação, disse desconcertado o comandante do destacamento.

Sem acreditar em tamanha incompetência, a impaciente inspetora, perguntou:

-Vocês ao menos descobriram de que forma o assassino entrou no quarto? 

-Ah, isso sim inspetora. A porta foi forçada, com certeza com uma chave de fenda.

-Tudo bem senhores, encerramos por aqui. O corpo ainda está no necrotério? 

-Sim inspetora, não conseguimos localizar os familiares ainda.

– Me levem até lá, rápido.

Chegando no IML, logo de imediato Claudete buscou as mãos da vítima. Então chamou o Meireles.

-Sargento, vocês não repararam que a vítima está sem uma das unhas? Que certamente foi arrancada, e daí veio o sangue para a assinatura no espelho?

Ruborizado, o policial ficou mais uma vez sem resposta.

-Pelo amor de Deus, quer dizer que vocês também não repararam isso nos outros corpos, imagino?

O silêncio do homem, entregou as falhas na investigação.

-Antes que eu faça uma besteira aqui, vou-me embora para o hotel, amanhã bem cedo retomo as investigações.

No meio da madrugada o telefone do quarto tocou – era o prefeito.

-Ele atacou de novo.

Rapidamente, a inspetora se trocou, e desceu para encontrar a viatura, que já a aguardava. No mesmo prédio do último assassinato, ela encontrou a porta arrombada. Mas dessa vez o assassino não teve tanta sorte. Houve luta corporal, os vizinhos ouviram gritos, e a polícia chegou antes que ele pudesse consumar o ato. Então, o criminoso fugiu pela sacada.

Ainda desacordada, a vítima recebia os primeiros atendimentos pelo serviço médico. Enquanto isso, Claudete analisava cada detalhe, até que alguma coisa no chão lhe chamou a atenção – um chaveiro. Sem alarde, o pegou com uma pinça, e colocou dentro de um saco plástico. Devido à gravidade dos ferimentos, a vítima teve que ser removida para o hospital. Por isso, a identificação do criminoso não poderia ser feita naquele momento.

Na manhã seguinte, o resultado da análise do sangue chegou no destacamento. As digitais eram de Cláudio de Deus Silva, moreno, 30 anos, natural da Paraíba. Com o nome do criminoso em mãos, bastaria agora prendê-lo. O problema  é que Miraflores era uma cidade muito pequena, onde todos se conheciam, por esse motivo não levou muito tempo para se descobrir que não havia ninguém com esse nome, e características, na cidade. Buscando no banco de dados da polícia, nada foi encontrado também.

Sem novas pistas, a inspetora lembrou da chave que havia encontrado no chão do quarto. Era de um armário – no chaveiro uma sigla UFVG. No mesmo instante, chamou o reforço, avisou o prefeito e o juiz, e partiu em busca do assassino. Chegando no local, o campus da Universidade Federal de Volta Grande, pediu que a levassem ao vestiário dos funcionários. 

Ao encontrar o armário correspondente, uma nova reviravolta no caso – Vanessa Camacho era o nome inscrito na porta, o que não fazia nenhum sentido já que procuravam um homem. Mas quando abriram, encontraram lá dentro os troféus do assassino – um pote cheio de unhas, indicando que a lista de crimes era maior do que se pensava.

Quando Vanessa viu a polícia, saiu correndo para não ser presa. Uma operação foi montada para capturá-la, ainda sem estar clara qual a sua ligação com o criminoso. Imaginava-se, a essa altura, que ela poderia estar se relacionando com o assassino. Porém, durante a perseguição, acabou sendo atropelada por um carro no anel viário, e veio a óbito no local.

Com a morte da moça, só quem poderia juntar as peças desse quebra-cabeças era a inspetora. Qual seria sua ligação com Cláudio? Por que ela guardava os seus troféus?

Uma semana depois, no gabinete do Prefeito, Claudete se apresentou com o relatório finalizado.

-Então senhor prefeito, o caso está encerrado. Vanessa Camacho era Cláudio de Deus Silva, um transsexual que após a transição de gênero, passou a usar esse nome. Sua história, como de muitos outros trans, foi de violência e abuso na infância, principalmente tendo nascido no interior da Paraíba. Aos 16 anos saiu de casa, prostituiu-se nas ruas de João Pessoa para sobreviver, e conseguir juntar dinheiro para fazer sua mudança de sexo. Ela havia ingressado na UFVG há apenas um ano, mas já havia morado em outros três estados, onde ocorreram crimes semelhantes, que nunca tinham sido solucionados. Dessa vez, por um acaso ou má sorte, as coisas não saíram como o planejado, e ela ainda deixou cair a chave do seu armário.

-Quanto ao seu perfil psicológico, sofria de uma psicopatia grave, certamente agravada pelo histórico de abusos sofridos. Seu comportamento pode ser classificado como o de uma serial killer missionária, aquela que acredita estar cumprindo uma missão, ao cometer seus crimes. O que faz todo sentido, porque após a conclusão das investigações, descobrimos que todas as vítimas eram homossexuais – um gatilho para a mente distorcida da assassina. O desejo de exterminá-las seria uma forma de eliminar o próprio sentimento de rejeição do corpo e da sua sexualidade, que nunca deu conta de resolver. Inclusive, por essa mesma razão, não havia sinais de abuso sexual.

-Em relação à escolha do biotipo das suas vítimas, Cláudio era moreno, e sofria de alopecia androgenética. Já Vanessa era bem mais clara, com cabelos lisos e castanhos. Durante o trabalho da perícia, o legista descobriu que ela estava fazendo uso de cosméticos para clareamento da pele, e seus cabelos, na verdade, eram uma peruca. Mais uma vez, a inconformidade – agora com a própria imagem, foi o elemento motivador dos crimes. 

Surpreso com a riqueza de detalhes e minúcias da investigação, o prefeito boquiaberto levantou uma dúvida.

-Muito bem inspetora, estou impressionado com tudo que a senhora me disse, mas só tem uma coisa que ainda não faz sentido para mim até agora. Por que ela deixava a assinatura no espelho, sabendo que poderia ser identificada pelas digitais, como de fato a foi?

-Prefeito, a cabeça de um assassino em série não funciona como a nossa. Vanessa sempre foi rejeitada, uma excluída, por isso a doença intensificava nela o desejo de ser famosa, de ser lembrada. Esse é um traço comum entre eles – não desejam apenas matar. Também querem ser reconhecidos pelos seus crimes. 

Espantado com tanta informação, o gestor municipal despediu-se da policial, não sem antes assinar um termo de reconhecimento público, enviado aos seus superiores, como forma de gratidão pelos serviços prestados.

Ainda no carro, Claudete recebeu um chamado – uma nova missão a aguardava, dessa vez  no interior do Mato Grosso.