Sara

Aquela era para ter sido a viagem dos sonhos da família. Naturais de Vargem do Oeste, iriam de avião para a Capital. Paulo e Carla estavam ansiosos, mas quem não se aguentava era Sara, uma garotinha de cinco anos, moreninha como jambo, olhos cor de mel e lindos cachinhos castanhos – parecia uma bonequinha falante. E como falava! Era desinibida e muito simpática, ia com todo mundo que desse conversa

Assim que desembarcaram no aeroporto, Patrícia – a irmã mais velha e madrinha de Sara – os aguardava impaciente.– Dindinha, gritou a pequena que saiu correndo para abraçar a tia.

– Oi meu amor, que saudades.

Tudo corrIa bem, todos se divertiam muito, até que Patrícia resolveu levá-los ao Shopping, para Sara conhecer o “Fantástico Mundo de Lilo & Stich” seus personagens favoritos.

Do andar de cima, enquanto as irmãs conversavam, Paulo não tirava os olhos da filha. Até que Carla fez um pedido.

– Amor, pega um sorvete pra gente ali na praça de alimentação?

– Tá bom, mas fica de olho na Sara.

Quando o homem voltou com o pedido, perguntou:

– Você tomou conta da Sara, Carla?

– Lógico Paulo, ela está ali com as crianças.

Quando olhou para baixo, a mãe já não viu mais a menina.

– Ué, mais ela tava aqui a dois minutos atrás.

– Ah Carla, não acredito que você fez isso. Falei para você tomar conta.

– Calma gente, disse Patrícia apaziguando. Ela deve estar dentro de algum dos brinquedos.

Só que a menina não estava. Depois que deram conta de que Sara tinha sumido, a segurança do Shopping foi acionada, e todas as saídas foram fechadas. Começou, então, uma busca desesperada pela menina.

Os pais perguntavam cada pessoa com quem cruzavam, se tinham visto a filha deles. Até que a segurança lhes chamou a um dos banheiros do 1º andar.

– A senhora reconhece essas roupas aqui? Perguntou o chefe da vigilância.

Sobre o chão, o vestido que Sara usava seus sapatos, meias e os cachinhos de seu cabelo.

Sem acreditar no que estava vendo Carla soltou um grito, que ecoou por toda a cidade;

– Devolvam a minha filha, pelo amor de Deus!

O chalé do lago

Era para ter sido a realização de um grande sonho. A promoção no escritório, com a prerrogativa de trabalhar em Home Office, e morar no interior, longe da agitação do grande centro. Logo que viu o anúncio na internet, fez contato e fechou a locação sem pensar duas vezes. Tinha tudo que buscava – muito verde, uma piscina com área gourmet, e o charme de poder trabalhar do sótão, tendo como vista um lago maravilhoso.

Na semana seguinte estava chegando de mala, cuia e Snoopy, seu salsicha inseparável. Assim que desceu do carro, ele começou a correr e pular de alegria. O lugar realmente era muito mais lindo do que na internet. Quando abriu a porta, ele começou a latir sem parar, parecia que não queria entrar no novo lar. Depois de muito insistir, conseguiu colocá-lo para dentro. Saiu fazendo xixi em cada canto:

– Coisa de menino, pensou.

Malas desfeitas, foi ajeitar seu novo ambiente de trabalho:

 – Nossa que vista! Realmente trabalhar com um visual daqueles, não tinha preço. Mas tinha consequência, e ela só iria entender isso dias depois.

Na primeira noite na casa nova, aproveitou para curtir um bom vinho, com a lareira acesa, saboreando um fondue de queijo. Tudo estava perfeito, até Snoopy começar a latir sem parar na janela.

– Que foi menino?

O doguinho estava transtornado, como nunca tinha visto antes. Pelo ouriçado, tremendo de nervoso, achou que fosse passar mal. Acendeu as luzes da varanda e do quintal, mas não viu nada. Teve que levá-lo para o quarto, e dormir para que se acalmasse.

Quando amanheceu o dia, assim que abriu a porta, ele saiu correndo para a varanda. E começou a latição novamente.

– Que foi garotão?

Perto da janela, uma galinha morta, sem cabeça.

– Cruzes, mas nem tenho galinheiro. Como isso pode ter aparecido aqui?

Prendeu o meninão, e foi limpar a sujeira. Depois pegou o carro, e foi ao vilarejo conhecer as pessoas e o comércio. Chegando lá, resolveu entrar em uma daquelas vendinhas de interior, um charme.

– Bom dia, o senhor que é o dono do estabelecimento?

Um senhor mulato, com um pano de prato nos ombros, e uma barba branca, respondeu cordialmente:

– Sou sim dona, Sebastião, ao seu dispor. A senhora deve ser a doutora que alugou o chalé.

– Sim, me chamo Renata, mas como o senhor sabe disso?

– Dona, aqui a gente sabe de tudo. A senhora pretende ficar lá por muito tempo?

– Se tudo correr bem, sim. Por quê?

– Nada não, dona. A senhora vai querer comprar alguma coisa?

– Não. Hoje estou vindo só para conhecer mesmo.

– Tá bom dona, mas toma cuidado. Aquele lugar costuma pregar peças à noite.

Sem entender o recado, se despediu, e voltou para casa. Chegando lá foi direto para a piscina aproveitar o dia de sol. À noite, estava no escritório trabalhando, quando seu fiel escudeiro começou a latir de novo. Dessa vez resolveu pegar uma lanterna, e investigar o que estava acontecendo. Acendeu as luzes, abriu a porta, e Snoopy saiu correndo. Olhou em volta da casa, e não viu nada de anormal. Quando chegou perto da piscina, tinha um coelho morto, sem cabeça, boiando dentro dela.

– Meu Deus, de novo?

Pegou uma peneira, tirou o bicho de dentro d’água, e ligou o filtro para limpar aquela sujeira. Entrou, e foi dormir. No meio da noite, acordou com alguém tocando seu corpo.

– Sai! gritou assustada. Acendeu a luz, e não tinha ninguém. Naquela noite não pregou mais o olho.

Quando o dia nasceu, se levantou e foi fazer um café para tentar recuperar o ânimo, por causa da noite mal dormida. Só que a sensação não saía da sua cabeça

– Como alguém poderia ter entrado dentro de casa e eu não ter percebido? E como desapareceu tão rápido?

Era domingo, então resolveu ir à missa na vila, o que não fazia há muito tempo, mas alguma coisa lhe dizia que devia fazer isso. Tomou um banho, se arrumou e saiu. Chegando na Igreja, foi recebida na porta pelo padre.

– Benção, padre.

– Deus te abençoe minha filha, você deve ser a advogada que se mudou para o chalé do Lago, não é isso?

-Não vou nem perguntar como o senhor já sabe, mas a resposta é sim. O senhor conhece a história daquele lugar?

– História? Minha filha no interior existe muita crendice, coisa de gente do interior. Aquela é apenas uma casa, como outra qualquer. Por que está me perguntando isso?

– Nada não padre, só curiosidade mesmo.

Entrou e foi se sentar no primeiro banco. De repente, ao seu lado sentou-se uma senhora com um xale escuro.

– Bom dia, você deve ser a moça da capital que mudou para o chalé.

– Sim, me chamo Renata, e a senhora? Qual seu nome?

– Conceição. Conheci os antigos donos de lá.

– É mesmo? Que bom, queria conhecer mais sobre a propriedade. Por que eles se mudaram? Algum problema de família?

– Problema? Não, minha filha, Dr. Alberto ficou viúvo, e foi morar fora do país.

– Ah, tá.

A conversa foi interrompida com o início da celebração. Ao final da missa, tentou saber mais sobre os antigos donos, mas a beata a dispensou, alegando pressa em cuidar do almoço do padre. Saindo da Igreja, seu Sebastião parou em frente ao seu carro.

– E então dona? Tudo bem no chalé?

Já curiosa e irritada com aquela situação, respondeu para o vendeiro.

–Não seu Sebastião, na verdade estão acontecendo coisas muito estranhas. Por duas noites seguidas apareceram bichos mortos, e ontem acordei assustada com alguém me tocando. Só que não tinha ninguém em casa.

–  Olha dona, eu avisei para a senhora tomar cuidado, que a noite lá podia pregar peças.

– Tá mas o senhor não falou nada sobre bichos sem cabeça, nem sobre assombração no meu quarto. Respondeu, já meio destemperada.

– Preocupa não dona, como eu falei são só coisas da noite. Tem que ter medo não. Inté mais ver dona.

Sem que pudesse retrucar, o homem deu de costas, e saiu andando. Irritada, entrou no carro e voltou para casa. Como o dia estava nublado, resolveu entrar e tentar dormir um pouco, já que durante a noite não tinha conseguido. Colocou Snoopy na cama, fechou a cortina e apagou. Acordou já eram quase quatro horas da tarde, com os lambeijos do seu meninão.

– Você deve estar com fome não é moleque? Eu também. Vamos arrumar nosso almoço.

Foi para a cozinha, abriu uma garrafa de vinho enquanto cozinhava, colocou uma música no Bluetooth e relaxou. Se esqueceu dos perrengues iniciais, e até pode curtir um final de tarde tranquilo com seu companheiro na varanda, enquanto o sol adormecia na cabeceira do lago. Depois daquele dia, as coisas acalmaram. Foram três semanas sem nada de ruim acontecer. Até que tudo mudou.

Já estava morando há um mês no chalé. A rotina da cidade grande tinha sumido de sua lembrança. Com o fim dos problemas à noite, estava totalmente relaxada. Trabalhava algumas horas à tarde, e depois era só curtição. A semana mal tinha começado, quando ela acordou com alguém batendo palmas no portão. Ainda sonada, colocou um roupão e gritou avisando:

– Um minuto que já vou atender.

Ao chegar na entrada da casa, não havia ninguém.

-Ué, será que a pessoa não quis esperar?

Intrigada, entrou e foi checar na câmera de segurança, poderia ser alguma coisa do serviço, e o entregador foi embora. Só que quando checou as imagens, não havia ninguém.

– Meu Deus, será que vai começar de novo?

E começou. Naquela mesma noite, enquanto trabalhava no computador, a luz piscou várias vezes, e depois simplesmente apagou. Snoopy começou a latir furioso, e enquanto ela descia para ver o que tinha acontecido, começou a ouvir gritos e gargalhadas vindos do lado de fora da casa.

– Meninão, vem cá. Disse chamando o cão já com o coração disparado.

Foi aí que tudo piorou. Começaram a socar portas e janelas, como se elas fossem arrebentar. Desesperada, começou a gritar por socorro, mas sem conseguir ajuda, e nem ter o que fazer, caiu em prantos no chão tampando os ouvidos.

Então, tudo ficou quieto. As vozes cessaram, os murros nas portas e janelas pararam, e a luz voltou. Quando abriu os olhos, respirou aliviada:

–Meu Deus, acabou!

Mas bastou olhar para cima, para encontrar seu amigo Snoopy, pendurado por uma corda no lustre da sala, já sem vida. Descontrolada, a moça pegou apenas a chave do carro, e fugiu daquele lugar amaldiçoado para nunca mais voltar.

Três meses haviam se passado, e Renata ainda estava sob o poder de remédios, para se recuperar dos traumas vividos no chalé. Era uma manhã de domingo, e o sol já havia nascido bem forte, invadindo o quarto pela varanda do apartamento.

Quando abriu os olhos, agradeceu por estar viva e por aquela manhã tão linda. Levantou-se da cama, colocou o roupão, calçou os chinelos e foi até a varanda para curtir ainda mais aquele visual. Mas assim que abriu a porta, um grito de desespero acordou todo o prédio:

– Não !!!!!!

O chão da varanda estava coberto de sangue, e de pombos mortos, todos sem a cabeça.

Livramento

Camila e Ticiane caminhavam distraídas conversando, em direção ao ponto de ônibus, quando um andarilho as abordou respeitosamente:

-Com licença, jovens senhoritas. Será que posso tomar-lhes um minuto de atenção?

Ainda sob o impacto da presença de um homem mal vestido, fedendo a álcool e urina, mas com um linguajar tão respeitoso, elas interromperam o passo.

-Oi moço, o que tá precisando? Se for dinheiro, já vou logo avisando que não dou, porque sei que o senhor vai tomar tudo em cachaça.

-Ora, mocinha. Por quem me tomas? Será que minha aparência é o bastante para formar tal juízo?

-Claro, respondeu Camila.

-Então, se eu fosse um homem branco, loiro, trajando um costume escuro, de corte italiano, com a barba feita e cheirando a colônia, o juízo a meu respeito seria outro?

-Olha moço, não preciso nem responder, preciso? disse Camila.

-Óbvio que um homem com essa descrição seria uma pessoa de bem, que de forma alguma nos causaria mal, disse Ticiane.

-Entendo caríssimas. É sempre mais fácil julgar um livro pela capa, não obstante a história recente nos mostrar outra realidade. Mas não vou tomar-lhes mais o tempo. Agradecido pelos instantes de conversação, desejo-lhes paz e bem.

E do mesmo modo que apareceu, o andarilho sumiu.

-Que coisa hein menina, cara doido.

-Pois é Camila, cada um que aparece.

Chegando no ponto, encontraram a maior confusão – sirene de ambulância e o corpo de uma jovem caído no chão.

-Gente do céu, o que houve aqui? perguntou Camila.

-Ih moça, uma tragédia, respondeu a fofoqueira de plantão. A moça estava sozinha ali no ponto, quando apareceu um sujeito e passou a faca no pescoço dela.

-Cruzes, disse Ticiane, e o maluco? Foi pego?

-Sim, os taxistas viram tudo, foram em cima e quebraram o desgraçado no cacete. Já a moça, tadinha, não teve sorte.

– E onde tá esse doido? 

-Ali, algemado perto do camburão.

Encostado na porta da viatura um homem branco, loiro, de boa aparência, trajando um costume escuro, de corte italiano, com a barba feita e cheirando a colônia. 

A estrada da grota

Todos os dias, quando voltava para casa de carro, era o mesmo tormento – encarar a estrada da grota. Uma via alternativa – da época das roças de café – que só tinha ruínas de fazenda, cemitérios abandonados, assombração e assalto. Para esse último, a solução era andar armado no carro.

Mas tudo estava mais sombrio do que de costume – lua minguante, curiangos piando ouriçados, e os bugios avisando que a noite prometia.

Quando peguei o pior trecho, onde o celular ficava sem sinal, o carro apagou. Batia a chave, e nada. Tudo funcionava, menos o motor. Sem carro, sem celular e em um lugar deserto e sombrio, a única solução era esperar alguém passar, ou o dia nascer.

Só que do nada, uma névoa espessa e branca começou a envolver o veículo. Quando me dei conta, estava fechado dentro de um maciço branco.

-Que porra é essa! – pensei já com o coração disparado. Passei a mão na pistola, e coloquei entre as pernas – em caso de precisão.

De repente, uma batida forte no vidro, e duas mãos surgem marcando a janela. Se fosse cardíaco, tinha feito meu passamento naquele instante. Com o coração saindo pela boca, apontei a arma, e então, ouvi:

-Moço, socorro!

Era a voz de um garoto com certeza. Ainda com o dedo no gatilho abro o vidro, e o rosto de um menino dos seus 13 anos, surge de dentro da névoa.-

-Moço, me ajuda. Meu pai caiu do cavalo, e está desmaiado ali no chão.

Na hora não sabia o que fazer, mas resolvi abrir a porta, e ver o que estava acontecendo. Estranhamente, assim que desci do carro, a névoa desapareceu, tão rápido quanto ela surgiu:

-E então garoto, onde seu pai está?

-Vem moço que eu vou te levar lá.

O moleque começou a me puxar pasto a dentro.:

-Calma rapaz, senão quem vai cair sou eu.

Quando percebi, estava dentro das ruínas da Fazenda do Desterro, a mais antiga da região, cheia de histórias. Diziam os mais velhos que todos da família morreram de maneira trágica, um após o outro, até não sobrar nenhum. Foram enterrados no cemitério que ficava atrás da sede.

Então, o garoto parou e falou:

-É aqui moço!

-Mas aqui é o velho cemitério da fazenda, seu pai caiu nesse lugar? Onde ele está? – procuro tentando iluminar com a lanterna do celular, para ver se achava alguma coisa.

-Bem aí na sua frente!

Quando clareio, vejo uma cova aberta.

-Mas aqui só tem um buraco?

-Sim, e é nele que você vai repousar – para sempre!

Com uma força descomunal para um garoto, ele me empurrou dentro da cova, e antes que eu pudesse reagir, um mundo de terra caiu sobre mim.

A hora morta

Francisco era um adolescente normal – bagunçava nas aulas, paquerava as bonitinhas da sala, adorava uma trend nova. Naquela manhã, Brigitte  trouxe a novidade:

-E aí Francisco, já tá sabendo da boa?

-Tô não, passa a visão aí menina.

-É o seguinte – chama a “hora morta”. Dizem que entre 1 e 2 da manhã, um portal se abre, e você consegue se comunicar com os mortos. O pessoal está marcando de ir lá em casa hoje à noite, pra gente experimentar.

-Tô dentro.

-Mas tem uma coisa – quem participa não pode demonstrar medo, senão o guardião do portal o leva embora. Dizem que quem é levado, nunca mais volta.

-Que lôco menina, agora que eu quero participar mesmo.

O papo é interrompido pela chegada da professora.

Na hora combinada, ele bateu na porta da casa da colega. Os pais trabalhavam à noite, então a casa seria só deles. Junto com Brigite estavam Luca e Fabrício. Já era quase uma hora e, somente a luz das velas na sala,  iluminavam o ambiente. Entre risos e sustos,  o relógio avisou que a hora morta iria começar.

– Existe alguém aqui que queira se comunicar com a gente? – perguntou Brigite tomando a frente dos trabalhos.

Silêncio.

Então, perguntou novamente:

– O Guardião está aqui?

Nada.

-Ih garota, acho que isso aqui é uma furada, falou Francisco em tom de deboche.

De repente, as velas se apagaram, e uma voz sombria respondeu:

– Sim, estou.

A molecada que estava só na zoeira, deu um grito de susto.

-Quem falou isso Brigite? – perguntou Luca assustado.

-Não sei, respondeu a menina. Foi você Francisco?

-Claro que não, deve ter sido o Fabrício.

-Eu nada porra, to me mijando de medo aqui.

E a voz tornou a falar:

-Não queriam abrir o Portal dos Mortos? Pois bem, ele está aberto, e  agora vou levar todos embora comigo, para sempre!

Então, a trupe corajosa começou a gritar e chorar, enquanto o Guardião gargalhava.

-Tarde demais seus merdinhas medrosos! disse em tom ameaçador. E a sala toda começou a queimar.

Na manhã seguinte, quando os pais de Brigite chegaram em casa, não encontraram a filha, nem tampouco os colegas, tudo estava arrumado como se nada tivesse acontecido. Dos quatro? Nunca mais se teve notícia.

Releitura

Sentado no peitoril da janela, observa os carros passando acelerados na avenida, as pessoas-formiga correndo para atravessar o sinal, a vida passando rápida diante dos seus olhos.

Naquele instante-memória, lembra saudoso de quando morava no interior, onde tudo passava devagar. As pessoas andavam no ritmo dos carros-de-boi, as crianças ziguezagueavam nos quintais como borboletas, a vida tinha o ritmo dos carneiros d’água.

De repente, se dá conta de que ainda não tinha pedido perdão a quem magoou, feito a viagem que tanto sonhou, nem encontrado um grande amor que desse sentido à sua existência. Mas já não havia mais tempo. O asfalto duro, quente e áspero já apressava em chegar, e num lapso final seu mundo ficou todo vermelho – vermelho cor de sangue.

O Natal

Natálio era o único filho de Georgina e Salastiel, um casal simples de uma cidade do interior de São Paulo. Nasceu temporão, quando o pai já tinha 60 anos, e a mãe 45. Um presente de Deus que chegou no dia de Natal, dizia ela.

Mas havia alguma coisa diferente naquela criança. Ainda no infantil, quando a professora mandava mostrar a família, ele desenhava o pai, a mãe e uma menina. 

O tempo passou, e um dia ele perguntou:

– Mãezinha, por que a senhora escolheu esse nome feio pra mim?

– Feio meu filho? Seu nome lembra o dia de nascimento do Senhor Jesus. Que nome você gostaria de ter?

– Ah mãe, acho Natália mais bonito.

– Esse é um nome de menina. Vamos fazer assim, em casa a gente chama só de Natal, o que acha?

-Tá bom mãe, Natal não é de menino, nem de menina,né?

E assim ele foi crescendo. Sua mãe se encantava com a delicadeza do filho, que tinha uma alma doce e gentil. Na cabeça de Georgina ele era um anjinho, e como anjos não têm maldade, achava tudo normal. Já o pai, preferia não dar atenção às invenções da mulher.

No seu aniversário de sete anos, pediu de presente uma boneca. Ganhou uma bicicleta do Super Homem, com capa vermelha e tudo. Para não magoar os pais, disse que tinha adorado a surpresa.

Aos nove já era coroinha, e seu melhor amigo era o Padre João, um simpático religioso bonachão, que sempre o tratou com muito carinho.

Com a chegada da pré-adolescência, as coisas começaram a mudar. As transformações do corpo, a ebulição dos hormônios criaram um verdadeiro redemoinho em sua cabeça, que passou a não entender o que estava acontecendo – o corpo era de menino, mas as coisas que passavam em sua cabeça eram de menina. Nessa hora, só o Padre para lhe ajudar, que recomendava penitência e jejum. Com o tempo aquilo passaria, dizia o pároco. Só que não passou.

Aos 14 conheceu a maior tragédia de sua vida. Durante uma roda de conversa na venda do Antônio português, Belarmino, um machão da cidade, falou para o pai do menino que ele era um invertido, e que isso era culpa da criação recebida. Salastiel partiu para cima do safado, e no meio da confusão acabou tendo um infarto fulminante, por causa da idade avançada.

Aquilo foi um golpe mortal na casa (e na vida) do garoto, que começou a sentir-se culpado pela morte do pai e, muito revoltado, desabafou com Georgina:

– Mãe, a partir de hoje não quero mais que a senhora me chame de Natal, meu nome é Natálio. Vou provar pra essa gente da cidade que sou homem!

Só que as coisas são como são, e apesar de seu esforço para se convencer de que era um menino, sua cabeça não parava de funcionar como a de uma menina.

Até que no dia 25 de dezembro, quando havia acabado de completar 15 anos, após a Missa de Natal, deixou a mãe em casa, despediu-se com um longo beijo, e disse que iria se encontrar na praça, com os amigos da escola. Dali foi direto para a ponte, e pulou no rio. Seu corpo foi encontrado pelos bombeiros, preso a galhos no fundo do leito escuro, cinco dias depois.

Bala perdida

Na entrada da comunidade, a estrutura do palco montada, e o grande número de viaturas, já anunciava que era dia de inauguração no morro. Logo chegaram os carros oficiais, e a imprensa acompanhando o comboio. 

Já no palanque, o Governador discursava para uma plateia pouco empolgada, ao lado da esposa e da filha de cinco anos. De repente, tiros e corre-corre, e só então o político se deu conta de que uma bala perdida, havia ferido mortalmente sua pequena.Com sangue nos olhos, ele ordenou que todo o efetivo subisse o morro, e só retornasse quando não tivesse sobrado nenhum faccionado.

Naquela manhã, das Dores arrumou os gêmeos, Kleiton e Keirrisson, para deixá-los na creche comunitária, antes de ir para o serviço. Trabalhava há quatro anos como doméstica para uma família de médicos, desde que seu marido morreu durante um assalto, quando voltava do serviço. Na época, os gêmeos tinham apenas hum ano.

-É meu pai, tá tudo na benção. Aqui tem tiro, mas sei que posso trabalha tranquila, porque os menino tão seguro na creche. – pensava enquanto descia o escadão. Ela se referia a um episódio recente, quando um abusador tentou invadir o lugar. O dono do morro mandou achar e prender o safado, e colocar para fritar no Cruzeiro, lá no alto do morro.

Assim que das Dores pegou o ônibus, a polícia invadiu. Foi uma verdadeira chacina. Os homens da tropa de elite da PM encurralaram os traficantes na matinha, que ficava atrás da creche. No meio do fogo cruzado, as crianças. Ao final da tarde, o resultado da operação: 100 mortes. 15 somente na creche – três professoras,  uma servente, a diretora e 10 crianças, dentre elas Kleiton e Keirrisson.

Quando ouviu na TV a notícia da operação no morro, das Dores deu um grito de  desespero, e saiu correndo do serviço.

-Meu Deus! Meus menino!

No dia seguinte, enquanto uma mãe destruída velava seus filhos na comunidade, a cidade chorava indignada a tragédia, estampada nas manchetes dos jornais:

“BALA PERDIDA DO TRÁFICO
ATINGE FILHA DO GOVERNADOR”
A menina tinha apenas cinco anos

A história do Feijão

Nasceu negro, pobre e filho de soldados do tráfico, no Morro da Babilônia. Ainda bebê, seus pais tombaram em combate com a polícia. Sem parentes próximos, foi mandado para adoção em um orfanato. Apesar de ter sido o mais esperto dos garotos, falante e simpático, somente aos sete anos sua vida iria mudar.

Elza e Erik chegaram ao Rio de Janeiro com a intenção de adotar uma criança – sem restrições de idade ou cor. Ela, uma brasileira que fez sua vida fora do país, como comissária de bordo, em uma das maiores companhias aéreas da Europa. Ele, um advogado sueco, dono de uma rede de escritórios na Europa e Oriente Médio.

Assim que chegaram ao orfanato, o molequinho foi recebê-los na porta, como fazia com cada visitante que lá chegava:

-Oi tios, eu sou o Feijão! Querem conhecer minha casa?

E antes que o casal tivesse tempo de responder, pegou-lhes pelas mãos e saiu puxando pelo orfanato adentro, mostrando cada detalhe, apresentando cada criança e colaborador.

Alguns meses depois, Feijão estava embarcando com Elza e Erick para a Suécia, onde passaria a se chamar Sven. Lá sua vida se transformaria, como em um conto de fadas moderno.

20 anos se passaram. Sven agora era um rico e jovem advogado, que com a morte do pai assumira os negócios da família. Realizando um desejo que guardava, desde que deixou o orfanato, estava de volta ao Rio de Janeiro – queria conhecer a comunidade onde havia nascido e, quem sabe, reconectar-se com o seu passado.

Na entrada do morro, uma operação policial procurava por membros da facção que controlava o tráfico. Quando se aproximou da barreira, Sven atendeu à ordem de parada do policial, e se abaixou para pegar seus documentos no console. Achando que o rapaz ia sacar uma arma, um dos policiais abriu fogo contra o carro – e ainda debochou:

-Preto andando de Mercedes zero km é traficante, ou roubou o carro na Barra. CPF cancelado!

Sven morreu com o passaporte na mão. Sobre o banco sujo de sangue, a única foto que tinha dos pais junto com ele, quando ainda era um bebê, em frente à casa onde moravam na comunidade.