A Praça de Nossa Senhora do Rosário no “31 de Março”

Dia desses estava eu sentado na porta de casa quando meu vizinho, o Sô Lazin, uma figura folclórica aqui em Morro Grande, famoso pela prosa solta e pelas mentiras mais soltas ainda, veio me contar a versão nativa do episódio histórico de 31 de março de 1964, quando o “General Popeye” dirigiu-se com suas tropas para o Rio de Janeiro, passando pela região.

Segundo o velho Lazin, naquela manhã de março, a cidade acordou mais cedo com uma movimentação diferente na Praça de Nossa Senhora do Rosário – barracas de campanha, soldados, obuses e caminhões invadiram o prazível espaço transformando-o num cenário de guerra. Logo, logo as ruas se encheram de curiosos que começaram a construir as mais diferentes conclusões sobre o ocorrido, mas, de acordo com o velho, até hoje se acredita que aquela era uma manobra dos alemães que vieram tentar estabelecer na alvissareira Morro Grande um novo posto do Reich Alemão, e que o próprio “General Popeye” era descendente direto do Herr Commandant.  Esse episódio não durou mais do que um dia, mas foi o bastante para que a cidade sofresse uma revolução, maior do que a de 64.

O “General Popeye”, ao desembarcar de seu veículo, logo se dirigiu à Casa Paroquial onde imediatamente destituiu a autoridade maior da cidade – o clero – de sua morada e estabeleceu naquele domicílio o centro de comando das operações abancando-se da cama do pobre pároco.

Contam que ele era uma figura esquisita, meio caricata, com um cachimbo sempre colado à boca, e um ar de constante prisão de ventre, ou nas palavras do velho Lazin, cara de peido. Ao falar, suas palavras sempre soavam como em um discurso de tribuna, alteando os finais de frase, o que realçava a impressão de que era uma pessoa com constantes problemas intestinais que, para segurar os ímpetos viscerais, espremia a voz e depois à soltava em alto som. A própria tropa comentava à boca pequena que durante as noites de campanha era comum vê-lo num vai-e-vem às casinhas.

Nunca Morro Grande ficou tão movimentada; as crianças, como pequenos silvícolas que recebem a visita do homem branco, encantaram-se com o poderio bélico daquele grupo. E não era pra menos, estava ali colocado o contingente de uma região militar inteira, que estava preparada para defender o solo pátrio da ameaça comunista, até o último homem.

Além dos pimpolhos, as jovens moças da cidade adoraram a movimentação dos rostos camuflados, elas que até então estavam acostumadas com o cheiro de bosta de boi dos peões da cidade, encantaram-se com o odor do diesel dos veículos e do chumbo da munição. A cena lembrava um pouco os tempos da Roma antiga, quando os soldados romanos conquistavam a terra, mas também o coração das aldeãs com o seu charme aquilino, barba feita, banho tomado e cuecas (coisa de romano), mas que era uma invenção altamente sensual para aquelas jovens bárbaras habituadas ao cheiro de estábulo de seus machos. Por isso, na bela Morro Grande aconteceu um fato que ficou famoso na memória do povoado, e até hoje é falado pelas tricotadeiras de plantão.

Lá existia uma linda moça, morena cabocla, de cabelos longos e ondeados como as corredeiras do Paraibanha, pele da cor da jabuticaba e olhos negros como a noite. Esse belo espécime de fêmea era famosa, não só pela beleza, mas também pelo pudor com que fora criada pelos pais. Porém, por trás daqueles belos olhos, escondia-se um braseiro adormecido aguardando ser ateado. Essa jovem chamava-se Maria e era filha dos donos da pensão, que fora “confiscada” pelo “General Popeye” que os incumbira de fornecer água e alimentação para a tropa.

No exercício do “serviço militar” Maria teve que ajudar os pais e, nesse contato, conheceu um jovem soldado famoso entre a tropa pela boa lábia com as donzelas. Não demorou nada para que a boca de Maria estivesse colada à boca do Dom Juan belicoso. O curioso do acontecido não foi o beijo, mas na verdade a série de beijos que aconteceram em seguida – Maria, que era até então contida e recatada, viu seu fogo se acender e tomar conta de seu corpo juvenil; segundo o velho Lazin a moça ficou famosa na cidade por ter beijado, numa tarde, um pelotão inteiro, com cinquenta homens, tendo ganhado a alcunha de Maria Batalhão. Ainda, segundo meu vizinho, esse recorde não foi quebrado até os dias de hoje e conclui sabiamente: água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer, ninguém segura.

Dentro do plano de conquista do “General da Banda” era necessária a tomada de todos os pontos estratégicos que circundavam a cidade, garantindo, assim, total domínio sobre as entradas e saídas e consequente controle sobre o acesso à cidade do Rio de Janeiro, objetivo principal da empreitada. A Rua do Rosário, a Rua do Aristides, a Peneira, a Rua do Rocio e todos os outros pontos estratégicos foram devidamente entrincheirados, mas restava um problema – Morro Grande era uma cidade encaixada dentro de um vale, cercada de um lado pela altivez da Pedra do Paraibanha vislumbrando o horizonte, e de outro por uma série de matas e serras menores, sendo uma das mais traiçoeiras a Grota dos Macacos. Como era uma região inóspita, e o tempo era pouco para fazer um reconhecimento, Herr Commandant ordenou que fosse convocado à prestar serviço pátrio o melhor mateiro da região.

Sô Lazin, conta esse ocorrido com um sorriso largo nos lábios. Na cidade existia um rapaz famoso pela coragem e bravura, daqueles que pegavam o touro pelo chifre, mas também por conhecer cada trilha, cada mato, cada canto da região. O rapaz, de pele avermelhada, tinha, por isso, o apelido de índio e quando foi apresentado ao General demonstrou-se soberanamente insubordinado e só aceitou a empreitada quando foi convencido pela ponta da baioneta.

Assim sendo, diante de argumentos tão fortes, saiu com dois grupos de batedores e um sorriso “resignado” no rosto. Lazin conta que o índio era moço de caráter exemplar, mas que não aceitava cabresto fosse de padre, polícia ou prefeito – o único cabresto que havia permitido receber fora da sua preta, que havia domado aquele cavalo chucro.

Chegando ao pé da Pedra do Paraibanha indicou a trilha aos batedores, e logo já se viam no alto do monumento as bocas dos canhões mirando ao longe. Seguiu caminho e adentrou a Grota dos Macacos com o grupo de combatentes. À beira da trilha indicou para os jovens soldados o “melhor caminho de volta”, deu de costas e saiu rindo matreiro. Conta o velho Lazin que até hoje, quando se entra na Grota, é possível ouvir os tiros de fuzil dos soldados perdidos que nunca mais foram vistos.

Na manhã seguinte, a Praça de Nossa Senhora do Rosário já havia reconquistado sua independência, as barracas, as tropas, os soldados o General e toda sua Banda já haviam se retirado. O pároco já voltara a ocupar a posição de Senhor do seu feudo, e a vida simples daquela gente havia tomado seu curso. Na memória ficaram as estórias que compõem uma parte da história do Brasil. Verdadeiramente verossímil ou verossimilmente verdadeira ninguém sabe, o que é certo é que causos como esse que o velho Lazin me contou é que constroem a cultura de um povo.

Quando perguntam ao velho se ele não exagerou, um pouco além da conta, ele se enfurece dizendo que tudo é verdade, das verdadeira, mas talvez meu velho amigo pudesse apenas repetir uma frase célebre de um outro contador de causos, famoso na literatura brasileira, de nome Chicó, que quando perguntado sobre a veracidade de suas histórias, sabiamente respondia: “—— Num sei, só sei que foi assim”!   

JRO

A estória da fundação de Morro Grande

 

Dia desses estávamos sentados na Mercearia do Geraldo o velho Lazin, o índio e eu tomando uma branquinha, e jogando conversa fora quando passou na televisão uma notícia sobre uma cidade do nordeste, construída dentro da cratera de um meteoro, que teria caído por lá a milhões de anos atrás.

O assunto no boteco então descambou para a astronomia. Cada um dos bebedores de plantão deu a sua opinião sobre fim do mundo, astrologia, influência lunar e por aí afora. Até história de lobisomem apareceu. Foi aí que o velho Lazin deu uma pitada, tomou mais um gole, se encheu de sabedoria e resolveu se pronunciar. O boteco inteiro, então, parou para ouvir:

Disse o velho que, há muito tempo atrás, bem antes da abertura do Caminho Novo, e antes mesmo do velho alemão passar por essas bandas fazendo suas medições, quando a Pedra do Paraibanha ainda era um grande bloco, e o Rio um filete d`água, numa noite de sexta-feira 13, em agosto, mês de mau agouro, os céus da região se encheram de um clarão vivo e a noite virou dia. Todos os bichos e criaturas da mata se assustaram, até o Saci se escondeu dentro do bambu com medo daquela luz toda.

Foi então que, dos céus, desceu uma grande bola de fogo que caiu no chão fazendo o mundo tremer, segundo o bom velho parecia que a terra ia se rasgar ao meio. O impacto foi tão grande que foi sentido até lá pelas bandas do Rio de Janeiro.

Passado o susto, a bicharada começou a sair das tocas para olhar em volta e tomar ciência do acontecido. O Saci, como bom moleque do mato, ficou olhando de espreita por dentro de um buraco do bambu, aguardando para ver no que dava aquela confusão toda.

De repente, a grande bola começa a se abrir ao meio, como os gomos de uma laranja, e de dentro dela começam a saltar uns homenzinhos bem atarracados, de cabeça grande, corpo pequeno e sorriso no rosto, que saíram em disparada correndo as matas e morros da região, catando tudo que encontravam pela frente, mato, bicho e até gente dos vilarejos próximos.  Feita a cata eles voltavam tão rápido quanto foram, para dentro da Grande Laranja, e lá ficavam por um tempo. Então, saíam em disparada novamente e voltavam com nova leva. Esse vai-e-vem estendeu-se por toda noite-dia, mas o certo é que, ao amanhecer, a bola já não estava mais lá e no seu lugar ficara a Pedra, cortada como hoje nós a vemos, e o Rio, antes um filete, abrira-se em largas corredeiras e, assim, dentro desse vale, nascera a alvissareira Morro Grande.

Terminado o causo, a plateia em volta fez o sinal da cruz e tomou mais um gole para reforçar a reza. Foi então que um sujeito, sentado no canto do boteco, levantou-se e desafiou o velho Lazin a provar que aquilo tudo era verdade. Sem levantar os olhos, o velho tomou mais um gole, deu mais uma pitada e continuou o assunto sem dar conta do fulano.

Disse ele que até hoje, nas noites de sexta-feira 13, em agosto, do alto da Pedra, é possível ouvir a barulhada que a Bola fez quando caiu, e ver a mata toda se mexendo num rebuliço só.

Disse mais, para aqueles que não acreditaram no ocorrido – nessa mesma noite, se o sujeito descer a Pedra, amarrado a um cipó, vai poder ver as marcas das unhas dos homenzinhos que rasgaram o grande bloco, isso mesmo, as unhas, pois, segundo dizem, eles rasgaram o maciço na unha.

Conta ele também que no fundo do Paraibanha, entre as corredeiras, os pedaços da Laranja que se partiram, se transformaram em ouro e estão lá até hoje para quem quiser pegar.

O sujeito desbocado deu de costas e saiu pisando duro, então o índio perguntou para o velho amigo se ele sabia o que tinha sido feito das coisas que os homenzinhos tinham levado para dentro da Laranja. O velho contador deu mais uma pitada, abriu um sorriso e continuou.

Na época do acontecido a região era muito pobre de mato, tinha uma ou outra braquerária, mas, em grande parte, a terra era ruim. O Rio ainda era um riacho, por isso não ajudava muito. O certo é que, depois que os homenzinhos se foram, a região mudou, o mato vicejou dando forma e vida às matas que vemos na Pedra, na Grota dos Macacos e em todo o entorno da cidade. As corredeiras do Rio trouxeram o verde e também peixe em abundância, e assim Morro Grande floresceu. Dizem que para marcar a sua passagem por aqui, eles deixaram as bromélias e as orquídeas que até hoje cobrem a região.

Quanto aos animais retirados da mata, eles teriam sido comidos pelos exploradores em sua viagem de volta. Mais ainda permanecia uma dúvida em todos que escutavam o causo. E as pessoas que foram capturadas? Que fim levaram? Foram devoradas também?

Uma pitada, e mais um gole, e nosso contador de causos esclarece a todos.

Conta-se que as pessoas que foram retiradas dos arraiais vizinhos tiveram um fim diferente. De cada grupo de dez, dois foram escolhidos e levados na Laranja, os outros foram, logo em seguida, devolvidos às suas casas. Que fim tiveram os que foram levados, ninguém sabe, mas até hoje tem gente que jura ver alma penada caminhando próximo à Pedra, de noite.

Um outro gole e mais um sinal da cruz da plateia quieta, e concluiu o velho Lazin.

Mas nem todos os homenzinhos foram embora, dizem que alguns se assanharam com umas caboclinhas que encontraram na mata, e por aqui ficaram, deixando hoje a sua marca nos herdeiros que viveram, e até hoje vivem nas fazendas da região.

Ouvindo meu amigo terminar seu causo não pude deixar de imaginar que a família do Tiziu, um sujeitinho famoso na cidade, bom de coração, mas ruim das ideias, seria herdeira dos primeiros habitantes de Morro Grande (cabeça grande, corpo pequeno, e um sorriso congelado no rosto). O certo é que, herdeiros ou não, a gente que nasceu nessa terra é gente humilde, mas de valor, e que soube preservar a beleza, o encanto e a simplicidade das terras das Gerais.

JRO

Pra quê escrever?

Hoje comecei a escrever!
Escrever minhas primeiras linhas.
Apesar de saber que o resultado final vai
ser algo entre o sofrível e o mediano,
resolvi tomar coragem e vencer a barreira da página em branco.

Sempre me imaginei escrevendo, passando para o papel o mar de fantasias que povoam minha vida para, quem sabe assim, torná-las reais.

Não sei bem ao certo se é esse o motivo.
Acho que o que quero realmente é ver minhas palavras na boca de alguém,
no caderno de algum aluno em sala de aula.

Não me sinto pretensioso por dizer isso, na verdade me sinto Eu mesmo.
Prefiro pecar pelo excesso do que amargar a dúvida de saber se o que eu escrevo-pensando é realmente literatura, ou apenas verborragia mental desenfreada.

Quando penso no estilo, percebo que não fui apresentado a esse Senhor das Formalidades.
Prefiro continuar meu processo de desabrochar mental, ou quem sabe, minha desenteria grafêmica.

Qual o objetivo de minhas palavras? Qual a força-motriz do meu verso?
Sobre isso também ainda não pensei,
o que sei, e bem sei, é que sempre quis fazer – Escrever!
Sem medo, sem preocupações, criando um diálogo com um Ser que estou aprendendo a conhecer,
Eu mesmo.

Se você (destinatário e fim de meu processo comunicacional) vai gostar? Sinceramente não sei, nem me preocupo. Decreto a partir de hoje abolida a escravidão da insegurança e promulgo nesta data a instituição da liberdade poética em minha vida. Da minha Liberdade.

Sérgio Soares

“Sobre gatos vira-latas”

Antes que alguém pense que esse é um texto que falará sobre maus tratos aos pobres bichanos, acalmem-se; vou me fazer valer da licença poética para que neste texto possa usar os pobres miaus de maneira metafórica, até porque tenho grande estima pelos 4 patinhas.

“Certo dia, em uma cidadezinha nem tão, tão distante assim, ao passar pela estrada que corta o vilarejo, um carro jogou à beira do caminho um saco cheio de gatinhos, dos mais diversos tipos – grandes, pequenos, malhados, pretinhos e branquinhos, e o mais importante, das mais variadas raças – do mais vira-latinha até o mais pomposo Persa com seu focinho achatado e cara de sono.

A cidade ficou em polvorosa, pois nunca se vira naquele lugar tanto bichano junto andando pelas ruas, praças, telhados e janelas, todos queriam pegar um pra si (alguns pegavam logo 3), só que aqueles fofinhos de 4 patas, rapidamente se tornaram um problema.

Por questões genéticas (e de índole dos bichos de duas patas) os mais bonitos, charmosos e de raça foram os primeiros a sumir das ruas, uns por conta da fragilidade típica da qualidade sanguínea, outros porque foram surrupiados e levados para outras bandas mesmo. Fato é que, em pouco tempo, só se viam gatinhos vira-latas pela cidade, dos pequenos aos grandes, revirando lixo, roubando quintais e cozinhas, matando criações.

O fim dessa história ninguém sabe, pois, se por uma questão ética, ou por outros motivos que só o tempo vai dizer esses gatos não foram exterminados, e acabaram tornando-se os donos da cidade, transformando os pobres e incautos moradores daquela cercania em cordatos empregados a serviço de um gatil de vira-latas.”

Essa história pode ter acontecido (ou ainda estar acontecendo) em qualquer cidade desse mundão de Deus, na minha, ou até mesmo na sua, mas o mais importante é além de saber onde, entender o porquê dela ainda acontecer. Para compreender-se o sentido dessa crítica, necessário se faz, primeiro, descobrir primeiro quem (ou o quê??) são os gatos de raça e os vira-latas retratados na história, e para explicar isso apresento o real sentido, e o significado da palavra POLÍTICA.

Amada por alguns, odiada pela maioria, essa palavra veio sofrendo, com o correr do tempo um processo de desconstrução que fez com essa instituição se perdesse pelo caminho, restando, desde então, arremedos de POLÍTICA e de POLÍTICOS, que só fizeram denegrir e enxovalhar seu real sentido, que surgiu quando os homens das cavernas decidiram compartilhar seu espaço com outros da mesma espécie. Nascia aí a POLÍTICA.

Sua origem vem do grego, da palavra politiká que significa “aquilo que está relacionado ao espaço público”, ou de forma mais atualizada tem a ver com a “arte ou ciência de governar”, portanto, seu sentido vai muito além daquele que é lembrado na época das eleições, momento como esse em que partimos para mais um pleito democrático, onde o cidadão irá escolher aquele que irá “governar com arte” e fazer a POLÍTICA que se deseja em favor das cidades e do povo desse país.

Como visto, ela está presente em quase todos os momentos de nossa vida, pois quando você decide relacionar-se, ou conviver com outra pessoa (sejam casais, vizinhos, amigos e conhecidos), há a necessidade de ser político e colocar em prática a “arte” de respeitar às diferenças, com ética e responsabilidade, buscando sempre um bom termo para ambas as partes, visto que o objetivo da POLÍTICA é, e sempre será, a coletividade. Sem isso, casais se separariam, vizinhos brigariam, amigos terminariam a amizade e conhecidos virariam rivais.

Portanto, que a política faz parte de nossas vidas já não há mais dúvidas, isso é fato, não sendo mais possível afirmar-se (a)político; o que não se deve permitir é que faça parte também a POLITICAGEM, um sub-produto da primeira, inventado por algum gênio do mal, sabe-se lá com que finalidade. Mas como diferenciar uma da outra? Para poder explicar essa diferença, volto ao início dessa crônica para falar novamente sobre o saco de gatos.

Fazer POLÍTICA é coisa para poucos, que têm na percepção do interesse coletivo, da vontade da maioria, seus princípios morais e éticos, e a partir dos quais constroem sua trajetória de vida pública e pessoal. Esses são os gatinhos de raça, nobres e emplumados, que na história narrada, foram os primeiros a sumir.

Sobrou a POLITICAGEM, essa epidemia que invadiu casas, cidades e o Brasil inteiro e fez com que esses vira-latas infestassem o país, auto-entitulando-se grandes e notórios políticos, mas que não passam de abutres e interesseiros que não fazem outra coisa que não seja vilipendiar os cofres públicos, difamar, acuar, e colocar cabrestos sobre os ombros do povo que os escolhera, para manter o seu status quo, seu feudo, seu rebanho eleitoral, seus interesses (esses, no fundo, não passam de marionetes nas patas de gatos maiores que eles próprios).

Alguém pode estar se perguntando o motivo pelo qual resolvi falar sobre essa gataiada nesse texto, e assim respondo – o texto é a minha zona de conforto, é onde eu melhor me expresso, por isso, na condição de professor – não por formação mas por vocação – acho que é dever daquele que ensina, explicar e orientar para que assim quem lhe escuta possa entender o real sentido das palavras e das coisas, em especial nesse momento em que tanto se fala sobre POLÍTICA pelo Brasil afora, seja por conta das eleições, seja por conta dos escândalos nacionais que enchem as páginas e os sites de notícia no Brasil e no mundo.

Mas confesso, sim, tenho uma outra motivação, e talvez seja ela a maior, que me faz estar aqui escrevendo essas palavras – sou um IDEALISTA – sofro de uma inquietação perene que me faz ter que acreditar que ao final o bem vencerá, que o mal será sobrepujado e que as maldades e vicissitudes que assombram o povo desse Brasil, um dia terão fim.

Por conta disso, resolvi combater o BOM COMBATE, seja na sala-de-aula, no ambiente profissional ou mesmo na vida íntima, com a certeza de que posso cair lutando, e nada do que desejei se realizará, mas ainda assim, terei a certeza de que ao dormir o sono dos justos, repousarei com a consciência em paz, certo de que fiz tudo que estava ao meu alcance para tornar a vida de alguém nesse mundo um pouco melhor.

Encerrando mais essa página que escrevo em minha vida, deixo para você meu aluno, colega, amigo, irmão, minha amada e meus desafetos, uma frase que resume tudo o que escrevi, que resume aquilo em que acredito e é a forma como tenho tentado levar essa vida de meu Deus, escrita por uma sábia que, como eu, acreditou um dia que somos responsáveis por tornar a vida de quem está ao nosso lado, um pouco melhor – feliz aquele que transfere o que sabe, e aprende o que ensina – Cora Coralina.

Professor Sérgio Soares

O sentimento de pertença e a banalização dos ritos nas universidades

Há não muito tempo atrás, tive a oportunidade de participar de uma solenidade de recepção aos novos alunos de uma instituição superior de ensino, confessional, aqui de Juiz de Fora. Da cerimônia, o que mais me marcou não foi o espaço, nem tampouco a decoração, visto tratar-se de um momento festivo onde, portanto, poderia esperar-se um ambiente cuidadosamente ornamentado.

De fato, não havia nada disso, era um salão simples, com uma mesa básica, sem rococós ou rapapés, e ainda assim, afirmo, aquela noite me marcou profundamente, pois havia uma singularidade nos discursos que fez toda a diferença – traço que se repetiu desde as falas dos alunos até a dos dirigentes – o sentimento de pertencimento, deixando claro aos novos alunos da instituição, que daquele momento em diante seriam parte de algo maior, motivo de orgulho e honra de todos, e que levariam essa láurea para o resto de suas vidas, na condição de ex-alunos.

Mais do que um elemento de retórica, essa cultura de pertença pauta toda a estrutura pedagógico-acadêmica da instituição, e é sobre isso que quero me deter a partir de agora, para justificar o título deste artigo.

Em seus primórdios, os novos alunos das Universidades eram recebidos pelo Reitor, em uma Aula Magna, que marcava o início do novo ano letivo, todos formalmente trajados, e vestidos com suas capas, que dariam origem, posteriormente às nossas becas.

De lá para cá, o conceito de Aula Magna (ou aula ministrada pelo Magnífico Reitor), se desvirtuou, e hoje tratam-se palestras e aberturas de eventos como tal, incorrendo-se, assim, em grave erro semântico e de titularidade, já que, via de regra, não é o Reitor quem as conduz.

Contudo, pior do que um erro de nomenclatura é a perda do sentido formal do ato, pois o que antes era solene, hoje reduziu-se aos trotes provocados pelos veteranos, em contraposição às instituições que ainda empreendem esforços para, de alguma forma, criar um sentimento de boas vindas aos seus novos alunos, servindo-se, para tal, dos mais diversos modelos de solenidades e ações.

O resultado imediato desse fato é que os estudantes da instituição, por inconformação, desconhecimento ou puro comodismo, em nada contribuem para criar esse sentimento de vinculação, de valorização do espaço em que convivem, sendo, muitas das vezes, os primeiros a criticarem e ajudarem a desconstruir a imagem da casa que os acolhe.

Um outro fato interessante, que corrobora essa situação, é resultado do surgimento das novas tecnologias educacionais, representado nas instituições de ensino superior pelos cursos realizados na modalidade a distância.

Em nossa experiência, enquanto responsável pelo setor de comunicação de um Centro de Educação a Distância, tivemos a oportunidade de perceber o quanto os alunos, e mesmo os professores, encontram-se mais vinculados a uma plataforma virtual de ensino, do que à própria instituição que chancela seus diplomas. Alguns só irão conhecê-la, de fato, no dia de suas Colações de Grau, e o reflexo imediato disso é que, além de não valorizarem a marca que levam em seus diplomas, na maioria das vezes nem voltam para dar prosseguimento à sua formação.

Falando então, sobre Colação de Grau, fechamos aqui nosso círculo vicioso – de início e fim – onde o problema que vimos surgir na chegada dos alunos, se repete na despedida dos, agora, graduandos.

Da mesma forma que a Aula Magna teve seu sentido deturpado, a solenidade de Colação de Grau de uma instituição vem perdendo sua importância e prestígio, onde temos visto relatado nos veículos de imprensa os mais esdrúxulos casos de desrespeito à figura pública do Reitor ou dirigente, e da própria instituição.

Criou-se uma banalização da cerimônia, estimulada pelo mercantilismo nascido do surgimento das “indústrias de formatura”, empresas que cobram verdadeiras fortunas e prometem realizar, a qualquer preço, todos os sonhos holywoodianos dos seus clientes, mesmo que isso transforme um ato solene, em um verdadeiro programa de auditório.

Em resposta a isso, houve que se criar um fato inusitado: as instituições de ensino, por reconhecerem a importância da outorga do grau acadêmico, seu maior ato solene, criaram as cerimônias oficiais de Colação de Grau, via de regra com a presença do Reitor e sua equipe, em contraponto às oficiosas, de cunho festivo, onde o Regente maior não se faz presente.

Esta foi, em nosso entendimento, uma saída politicamente correta, pois contempla os interesses de todos os envolvidos, contudo que ratifica a problemática da banalização, e da falta de vinculação o corpo discente com a sua casa, com a sua história.

Seria impensável, por exemplo, que na formatura de uma tropa houvessem duas solenidades: a formatura oficial, com a presença do comandante, e a oficiosa onde tudo seria lícito. Mesmo nas escolas tradicionais, do Velho ou do Novo Mundo, isso seria algo impensável, pois nessas escolas os alunos não apenas se formam, eles concluem uma fase importante das suas vidas naquela que foi a Escola por eles escolhida, e isso lhes é motivo de muito orgulho que carregam pela vida inteira.

Em nosso caso, um dos reflexos deste descomprometimento estamos vendo todos os dias nos noticiários, pois estamos formando advogados corruptos, dentistas traficantes, médicos negligentes e engenheiros irresponsáveis, para ficar apenas nas principais áreas, isso porque essas pessoas conquistaram seus títulos acadêmicos, mas não valorizam essa conquista nem a escola que os formou, funciona mais ou menos como aquela criança que tendo tudo que deseja, não sabe o valor das coisas, portanto, não valoriza.

Concluindo, portanto, nossa análise, enquanto não houver uma mudança paradigmática em nossas universidades, onde sejam reconhecidas as conquistas e a história da instituição, continuaremos acompanhando esta crescente banalização dos ritos, e da própria imagem institucional, como se fossem descartáveis e ultrapassados, móveis velhos que desgatados pelo tempo, são encaixotados e trocados por outros, novos e mais modernos, como se a história dos pioneiros, e a tradição de uma Universidade, fossem apenas como um papel amarelado pelo tempo, que fica esquecido e jogado no fundo de uma gaveta.

Sérgio Soares

“Mande bem, mande mal, mande um só”

A disputa de (pelo) poder nos bastidores do Cerimonial

Este dito, trazido da sabedoria popular, deveria ser a regra áurea do trabalho desenvolvido pelo Cerimonial em qualquer das instâncias em que ele se insira. Contudo, a experiência, e a convivência nas diferentes instâncias públicas, nos faz afirmar que o grande obstáculo para o trabalho do cerimonialista é, justamente, seus pares.

Não quero aqui fazer apologia ao erro, nem tampouco justificar os equívocos e gafes que são jocosamente noticiados toda vez que uma autoridade constituída é pega em situação desconfortável, graças aos desajustes da sua assessoria protocolar, na verdade, o que busco com esse artigo é discutir a ética profissional dentro desta que é, para muitos, dentre os quais me incluo, uma carreira vocacionada, e não apenas um comprometimento laboral.

Segundo Blanco Villalta, A precedência é o ponto crucial e a base do cerimonial. Éreconhecer a primazia de uma hierarquia sobre a outra, e tem sido, desde ostempos mais antigos, e em todas as partes, motivo de normas escritas, cuja faltade acatamento provoca desgraças.

Isto posto, somos obrigados a nos questionar: se, enquanto cerimonialistas, temos a plena convicção dos meandres e das interposições políticas que  se criam a partir do problema da formação da precedência na composição formal de nossos eventos, porquê então não conseguimos acatar esta mesma lógica quando falamos dos bastidores, onde, muitas vezes, atuamos conjuntamente com mais de um cerimonial, seja em instância igual , superior ou inferior à nossa?

Dentro de minha vivência como cerimonial público presenciei, e senti na pele, por inúmeras vezes, o exato desrespeito à figura do outro, reconhecido como par em nosso meio profissional e o motivo, que muitas vezes era alegado para tal des-compromisso é o tal “do ajuste político”, como se para “organizar” as necessidades de uma mesa fosse necessário recorrer-se ao subterfúgio e ao desrespeito com o colega de lide.

Neste momento em que acompanhamos através da mídia as inúmeras solenidades de posse – da Presidência da República aos Governadores – vemos reacender nos bastidores os burburinhos e comentários acerca dessa ou daquela autoridade que cometeu tal gafe, do erro que o protocolo cometeu em determinada situação, como se nesses casos o mais importante fosse o “equívoco”, e não o ato solene em si mesmo.

Do Grego, ética (ethos) relaciona-se com o modo de ser e de viver do humano, regulando suas relações em sociedade, sem a qual viveríamos em total anarquia funcional. Vejamos bem, para tudo em nossa vida há que se ter ética, até mesmo na guerra existem preceitos que regulam as batalhas, e quando essas regras são quebradas encontramos os exemplos de bárbaries para os  quais os tribunais de guerra são chamados a intervir.

Então, se até para matar existe uma diretriz esperada de comportamento, porque é que durante o exercício de nossas atividades profissionais nós, cerimonialistas, insistimos em persistir no misancene, na desqualificação do outro, para valorizar nossa função, nosso cargo? E que não venhamos usar como desculpa para tal falácia as variantes políticas de cada evento, pois, independente do ajuste político necessário à composição hierárquica, podemos, perfeitamente, nos ajustar “éticamente” de tal forma que as demandas ocorram sem prejuízo moral de ninguém. E que ninguém ache que tais posturas equivocadas, e replicadas Brasil afora, se encerram com o término da cerimônia, pois quem não consegue reconhecer e respeitar seu par em uma situação formal, também não o fará quando este estiver ausente.

E quem perde com isso? O cerimonial, seja ele público ou não, pois tais comportamentos enfraquecem e desprestigiam a carreira, dando a entender para aqueles que se servem de nosso trabalho que não somos organizados e, nem tampouco, nos reconhecemos enquanto grupo, com identidade e personalidade. Por isso, quando precisamos nos articular, como agora por exemplo, buscando valorização profissional não encontramos respeitabilidade e reconhecimento enquanto categoria.

Portanto, “Mande bem, mande mal, mande um só” é muito mais do que designar a apenas um o poder de mando, é saber reconhecer e respeitar a capacidade do outro, bem como ter a ciência de que, mesmo para criticar, há que se ter ética e comprometimento com a classe, pois, todos somos passíveis de erro, visto que errar é algo plenamente humano. Pior sim, do que cometer uma gafe, é persistir nessa canibalização que se criou dentro Cerimonial, e que tem como origem dois dos piores pecados humanos, o Orgulho e a Vaidade.

Sérgio Soares

Os Cavaleiros da Távola Redonda: uma metáfora dos dilemas da precedência à mesa

o dia de hoje, 30 de Abril, data em que se comemora o dia do Profissional de Eventos, em homenagem a esses profissionais, decidi escrever sobre uma situação que é recorrente sempre que se fala sobre precedência – o assédio ao cerimonial em eventos onde se compõem mesa, em plataforma de honra, pelas diversas “autoridades” presentes; algumas de fato, outras de direito, outras ainda que assim se acham, na busca pelo “assento perfeito”, aquele mais próximo do centro, senão o próprio central. Para problematizar, e tentar explicar o motivo dessa ocorrência, resolvi buscar na história de uma das mais antigas mesas de honra conhecidas, a possível explicação para esse frenesi comportamental.

Távola, do Latim tabola, móvel ou mesa cuja maior representação foi a Távola Redonda do Rei Arthur, descrita pela primeira vez pelo poeta normando Wace, no século XII onde, conforme reza a lenda, o Rei reunia-se em torno de uma mesa (redonda), em que não havia cabeceira, partindo do princípio da igualdade entre os pares, e que era formada pela mais alta ordem de cavaleiros que, segundo algumas traduções, eram possuidores de habilidades sobre-humanas.

Nessa mesma mesa, apesar de não existir a cabeceira, havia um assento, dito “o perigoso”, que seria aquele posto de frente à cadeira destinada ao Rei Arthur, e onde somente deveria assentar-se o mais nobre, forte e hábil cavaleiro de todos os tempos. Segundo o folclore popular, todos que ali inadvertidamente sentaram-se perderam a vida, exceção feita a Sir Galahad, quinquagésimo e último integrante da Lendária Távola Redonda que preenche as magníficas histórias do Grande Arthur e seus nobres cavaleiros, e a quem é atribuído o achado do mítico Santo Graal.

Contextualizando a situação para os nossos dias, as mesas não são, necessariamente, mais redondas, mas duas de suas posições continuam em destaque: o centro de mesa – objeto de desejo e disputa daqueles que a ela ascendem – e o lugar de honra (em nossa tradição ocidental) á direita do centro. Todavia, a prerrogativa de compor nessa mesa ainda é privilégio de poucos, definida pelo aspecto legal, ou por critérios outros previamente definidos, tal como na Távola do Rei.

Vilallta já afirmava que a precedência é a disputa (de) pelo poder, portanto uma característica do ser humano, que sente uma necessidade de autoafirmação constante perante o grupo, o macho alfa da matilha. Esse desejo de dominação, que já nos acompanha como herança ancestral, e repete-se em várias situações cotidianas (inclusive na mesa de honra), é uma explicação possível para o fato de todos desejarem o assento “Real”, mas apenas a um é dada essa prerrogativa, pelo critério do anfitrionato, ou precedência hierárquica.

Destacado o fato de que o centro, tanto arturiano, quanto hodiernamente, é o ponto máximo de poder em uma mesa, partimos para o outro assento, o “perigoso”, que segundo o mito era tão transcendental que somente a um, dentre tantos Cavaleiros, fora dado o direito de ali sentar-se, não por acaso a este Cavaleiro é imputada a honra de ter descoberto o Santo Graal, o mítico cálice usado por Jesus na Santa Ceia.

Tal explicação, por si só, já bastaria para explicar o que se repete em tantas mesas de honra pelo Brasil afora – segundo a prerrogativa de precedência que adotamos, o lugar de honra é devido àquele que honrosamente o merece – portanto, alguém que tenha obtido esse júbilo em uma tarefa tão hercúlea quanto à de Sir Galahad.Impossibilitados que somos de afiançar tamanho feito, nos prendemos à importância, ou relevância, daquela presença à mesa, para justificar seu posicionamento, contudo, somos forçados a lembrar que grande parte das vezes essa definição passa pela vontade do Rei que pode, a qualquer tempo, ascender (ou descender) em importância à mesa qualquer conviva, de acordo com aspectos políticos que somente a ele cabe definir.

Isto posto, tendo visto as duas posições de prestígio à mesa, podemos encaminhar nossa análise para o fim, contrariando, possivelmente, alguns que esperavam ver discutidas aqui a composição de mesa par ou mesa ímpar, direita ou esquerda, por entendermos que para isso já existe bibliografia vasta, e suficiente, para explicar seu funcionamento. O mesmo não ocorre quando tratamos do inusitado, do inesperado, que ocorre quando em uma mesa já completa, sem possibilidade de extensão, há que se lidar com o surgimento de uma, ou mais de uma, autoridade que, a pedido do Rei, ou por prerrogativa legal, tem que se fazer presente, e é nesse momento que a fogueira de vaidades se incandesce, gerando verdadeira celeuma institucional.

A solução do problema vai ser dada de acordo com a maior, ou menor, habilidade do cerimonial para diferenciar a hora em que a Lei perde a precedência para as tratativas políticas, próprias desse ambiente, definidas pela autoridade maior, o que resolve, na maioria das vezes, a questão. Porém, para responder ao frenesi comportamental, proposto no início desse artigo, voltamos mais uma vez o olhar para a Távola Redonda.

Segundo estudiosos o número de cavaleiros pode ter variado entre 12 e 150 nobres homens, demonstrando, portanto, que a definição de seleto grupo, se aplicaria, apenas em parte, para definir os guerreiros de Arthur, o que reforça a impressão de que, de fato,excetuando-se o Rei e seu escolhido, eram todos os demais coadjuvantes, sobre os quais mantinha-se a sensação de prestígio, apenas por figurar à mesa, o que não impedia, no entanto, que tantos cobiçassem o “assento perigoso”, pagando por essa ousadia com a vida.

Atualizando, portanto, o mito temos que em nossas mesas temos duas posições de destaque: o anfitrião e o convidado de honra, entendendo-se os demais como composição de cenário político, utilizado de acordo com as necessidades institucionais, sem que isso cause impedimento para que esses coadjuvantes intentem, a todo momento, por pressão de mando, ou mesmo da voz, buscar tomar de assalto senão a direita do Rei, o lugar mais próximo dela, com objetivos claros de marcar sua força política, ou simplesmente aparecer na foto, em posição de prestígio no roll da fama das colunas ou redes sociais, incorrendo, com isso, no risco real de perderem muito mais do que o assento à mesa, devido a tal ousadia. Para concluir esse artigo, que homenageia todos aqueles que direta, ou indiretamente, vivenciam esses dilemas institucionais durante o exercício de suas funções como profissionais de eventos, deixamos Honoré de Balzac, que resume tudo de que tratamos, em apenas uma “grande” frase:

“Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.”

Sérgio Soares

Quem somos ?? (Ou o que somos??)

Brancos, pretos, pardos, índios, negros, ameríndios, cafusos, mamelucos. De direita, de esquerda, centrão, centro-esquerda, centro-direita, renovadores, carismáticos, agnósticos, evangélicos, do Santo Daime ou do Santo Padre. modernistas, de vanguarda, vintage, cool, urbanos, roceiros, conectados e (des)conexos, brasileiros ou portugueses expatriados? Mas, afinal, quem é você, quem sou eu e quem somos nós?

Um número em uma cédula? Um registro no cartório? Um servo fiel ou mais um revoltado on line?

Neste mundo pós-moderno onde a sociedade nos cobra rótulos, onde somos definidos através dos códigos de barra e da biometria de nosso polegar, somos sufocados por uma enxurrada de siglas e legendas que nos oprimem, e cobram posicionamentos políticos, partidários, ideológicos, religiosos, afetivos e até esportivos.

Se você não torce pra um time de futebol, você não é viril, se não participa das decisões políticas de sua cidade, estado ou país é um alienado. Se frequenta a Igreja, um beato, se vai ao Baile Funk, um bandido, se curte pagode um malandro.

Rubem Alves em sua crônica entitulada “Esquecer para lembrar” narra a história de um homem que, após comprar uma casa, decide fazer uma reforma e começa pelas paredes. Ao começar o processo de raspagem da tinta velha e desbotada é surpreendido, pois, camada por camada, encontra uma cor nova, sobrepondo a anterior, e assim prossegue até chegar no veio original, o mais nobre e belo pinho de riga, escondido por detrás de anos de demâos que encobriram sua real essência.

Nossa vida é assim, um somatório de imagens e informações que somente fazem com que nos percamos nesse emaranhado de ideias, estrangeiras a nós, mas que foram depositadas na nossa história, nos transformando em seres sem essência e sem identidade, comandados por uma tecla de controle remoto que nos controla e nos diz onde ir, e como agir.

BASTA!

Eu decidi vencer todas as adversidades, encarar todos os medos, superar todos os traumas para buscar a real essência de mim, da minha vida – do feio, do escuro, do obtuso, do certo e errado, mas ainda assim daquilo que mais me faz ser ÚNICO e INCONFUNDÍVEL. E hoje sinto-me realizado, pois consigo olhar no espelho e reconhecer minha própria essência.

E VOCÊ? Vai ficar aí parado olhando o tempo passar? Afinal de contas, quem é VOCÊ??

Sérgio Soares

Ser mineiro

Quando eu subo a Pedra do Paraibuna,

Quando olho através das serras azuis,

Enxergo o mar de inconfidências que compõem o meu levante.

Vejo o que está atrás e me recordo

da emoção doída quando voltei, pela primeira vez,

para o meu mar de morros.

Olho mais adiante e vejo todas as incongruências,

Todas as elevações e desníveis que geograficamente

Demarcaram o território da minha vida.

Do alto do meu morro mais alto

Vejo além, diviso outras terras,

Diviso outros territórios

Como todo bom mineiro aprendi a importância de ser desconfiado,

De ser reservado e ao mesmo tempo inconfidente,

De confidências reservadas.

Aprendi também que a geografia da Mata

Se impregnou no meu espírito mineiro

Transformando-me num ser complexo.

Sérgio Soares

Querenças

Quisera eu ser um anjo, de asas brancas, para poder voar, voar sem nunca mais ter que voltar ao ponto de partida.

Quisera eu ser um sonho, um sonho belo e vivo, onde todas as tristezas seriam extintas, e nada mais me faria sofrer, chorar ou gritar.

Quisera eu ser o outro, para que não mais tivesse que dividir, contemporizar ou perdoar, pois se o outro sou eu, nós dois somos um só, portanto não existiriam mais motivos para disputas ou discussões.

Quisera eu aprender o sentido da vida, e assim entender os “porquês” do amor e da dor, da mágoa e do perdão, da felicidade e da solidão.

Quisera eu poder começar tudo de novo, mas começar um novo, com a sabedoria que o velho me concedeu.

Quisera eu entender o sentido mais profundo do amor, mas não daquele amor de carne, nem tampouco de parente, e sim do sentimento mais visceral que ensina que o primeiro santo mandamento é o “Ame-SE a si mesmo”, com a partícula reflexiva em destaque, e revoguem-se as disposições em contrário.

Quisera eu ser um heterônimo de mim mesmo, para que a cada dia eu pudesse escrever um novo capítulo da minha história, sem ter que me preocupar com a continuidade, ou com a brevidade, tornando, assim, minha vida uma eterna epifania.

Sérgio Soares