Santa Cruz dos Desterrados de Minas: a história da cidade que sumiu

Dia desses, ouvi do amigo Lazin mais uma de suas histórias, que representam a força imagética da oralidade do povo mineiro. Nesse dia, o velho contador de causos veio me falar de uma cidade que desapareceu. Segundo o amigo, isso se deu lá pras bandas da divisa com Goiás, na época que ainda tinha muito índio naquela região. A história era mais ou menos assim.

Santa Cruz dos Desterrados de Minas era uma típica cidade do interior que contava com pouco menos de dois milheiros de pessoas, de casarios simples, gente hospitaleira e onde o tempo parecia andar embalado pelo som das rodas dos carros-de-boi. Por lá não se tinha muito o que se fazer, o que mantinha a economia da cidade era a produção leiteira vinda das fazendas, e o pouco de comércio que existia, era ainda do tipo secos&molhados. Um encanto de lugar.

Certo dia o lugarejo acordou com uma novidade incomoda, que mudaria a vida daquela localidade, e do povo que ali vivia – o Governante-Mor decidira, por Decreto-Lei, que cidades com menos de dois mil habitantes seriam extintas do mapa nacional, daquele dia em diante. Ocorre que, justamente Santa Cruz, possuía hum mil, novecentos e noventa e nove nascidos, bem contados.

Ainda sem entender o impacto que a nova Lei poderia causar, a cidade começou a perceber que algo de muito errado estava acontecendo – de repente, a fazenda do Zé Olinto sumiu, com gado, gente e porteira fechada. Depois a do Melchíades. Depois a do João Cerqueira, e assim foi até que não restasse mais uma só na região.

Mas o que mais chocou a população foi quando acordaram de manhã, e a venda do Zé Anastácio não estava mais lá. Nem a Praça, nem a Escola, nem a Prefeitura. Como que por encantamento, uma a uma as ruas e casas da cidade foram desaparecendo, e junto com elas, as pessoas. Em menos de uma semana já não existia mais Santa Cruz dos Desterrados de Minas. Seu povo e sua história também sumiram, e nem os parentes distantes e próximos pareciam se lembrar mais daquela gente.

Segundo meu amigo Lazin, reza a lenda que as almas daqueles viventes ficaram vagando de cidade em cidade, e à noite eram vistos, andando pelas ruas e batendo às portas das casas, n’uma procissão de mortos-vivos desterrados que, entre murmúrios e gemidos, perguntavam se ali que era a cidade deles. De Santa Cruz, só restou o Cruzeiro que marcava a entrada da cidade.

Professor Sérgio Soares

Palavra de Professor

Dar aulas nunca foi tarefa penosa, muito pelo contrário, sempre desenvolvi esse ofício com muito prazer e maestria, traço genético herdado do Tenente João Ricardo de Oliveira, avô paterno – modelo de honradez e inspiração como mestre. Engraçado, que somente quando essa temática surgiu em meu mapa ficcional, é que dei conta que minha história no magistério poderia ser representada por um gráfico com duas variáveis (inversamente proporcionais), onde uma seria o status, representado por uma linha descendente, enquanto que a outra seria a experiência de vida, marcada em uma linha ascendente. E entre uma e outra, a experiência será sempre a mais importante.

O magistério superior foi minha porta de entrada na docência. Período muito rico onde tive a oportunidade de experimentar todas as teorias e ideias que o Mestrado em Literatura me possibilitou apreender. Fui apresentado à Rede Pública como regra três da única Escola Estadual da cidadela aonde viria a morar (substituindo sempre que necessário), até assumir as três turmas do Nível Médio e Educação de Jovens e Adultos dessa mesma escola por dois anos.

Como a vida é uma roda viva, acabei sendo surpreendido por uma mudança estrutural nos meus planos, e assim tive a sorte de experimentar um novo movimento na minha trajetória docente – eu que achava que nunca iria trabalhar com adolescentes, assumi duas turmas de 6º ano de uma escola urbana (mas com público em grande parte vindo da zona rural) com um alto número de alunos em distorção idade – série.

Nesse período mais aprendi do que ensinei, antevendo aquele que seria o meu mantra, profetizado pela poetisa Cora Coralina – Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Voltei a lecionar com os mais jovens pouco depois, na Rede Municipal da cidade em que fui morar. Lá atendi as turmas do Fundamental II e, por conta do trabalho desenvolvido, em Dezembro do mesmo ano, fui convidado a assumir a Secretaria de Educação. Outra mudança na vida do professor (com certeza a mais profunda), pois só quando passei para o outro lado da mesa é que pude compreender o tamanho do estrago que uma política educacional mal feita pode causar à Educação Básica, bem como o quão complexas são as relações e questões estruturantes de uma escola dentro da rede pública.

O somatório dessas experiências forjou um novo homem que, após sua saída da gestão municipal, percebeu que o caminho era sem volta, que dali em diante tinha um compromisso com a Educação. Só que esse caminho não foi (nem é) fácil e, por várias vezes, se viu tentado a largar tudo de lado e cuidar da própria vida. Mas nessa hora a lembrança dos jovens que ensinou (e se perderam nas vielas e nos becos) fazendo da folha do caderno, seda para enrolar baseado, trazia de volta a gana e a indignação necessárias para continuar lutando.

Sendo assim, decidiu construir uma narrativa diferente das que usualmente escreve, justamente para demonstrar a indignação do Professor com a falta de resposta dos órgãos de governo aos sérios problemas de aprendizagem em Minas Gerais (aqui não se referindo às pessoas, e sim às instituições – Governadoria e Secretaria Estadual de Educação).

É prática comum no meio político servir-se de estatísticas e números para maquiar resultados, prova disso é que recentemente vi uma notícia que falava sobre a apuração de um pleito, onde a chapa postulante teve uma votação próxima de 100%, portanto, quase uma unanimidade. Porém, o que não foi divulgado (nem nas entrelinhas) é que a taxa de comparecimento foi de apenas 30%, ou seja, a maioria dos possíveis votantes desaprovou a chapa, ao não comparecer às urnas.

No caso da Educação (que hoje é pautada por Indicadores oficiais) a situação não é muito diferente. É comum ver números apresentados sem a devida contextualização, e análise das séries históricas que levaram à construção daqueles índices, o que dificulta a construção de uma política educacional eficiente, que combata a causa do problema, e não apenas os efeitos por ele causados. Por exemplo, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica  (IDEB) de Minas Gerais.

Segundo resultados do último levantamento, feito em 2017, para os Anos Finais o índice foi de 4.4, quando a meta esperada para esse período era de 5.1. Já para o Ensino Médio, o índice medido foi de 3.6, com uma meta esperada de 4.8. Analisadas as séries históricas pode-se depreender que, apesar de abaixo dos índices projetados, o nível de aprendizado dos alunos se manteve estável, o que poderia ser facilmente interpretado (e divulgado para a população e para a imprensa) como um ganho, pois vem se mantendo a “qualidade” do ensino no estado.

Contudo, o IDEB é o somatório de várias avaliações e indicadores e assim, quando esses números são analisados, os resultados são gravemente preocupantes.  Tomo por base os dados da reprovação na fase final do Fundamental II (9º ano) e na fase final do Médio (3º ano). No primeiro caso, em 2018, menos de 10% dos alunos concluintes foram reprovados, enquanto que, no outro segmento, menos de 8% não conseguiram concluir o Ensino Médio.

Isso seria motivo de comemoração, se o IDEB do Médio não estivesse em 3.6, muito abaixo da meta desejada para o estado que era de 4.8. Então, como um segmento que apresenta um desempenho tão abaixo do esperado, pode ter um índice de aprovação na última série, que é preparatória para os exames de ingresso nas Universidades, tão alto? (Na base de dados consultada, não existe análise de proficiência para o nível Médio.)

Já quando se olha o 9º ano (que é a fase preparatória para o Médio) os números são mais significativos (ou preocupantes) ainda. Como um segmento que aprova quase 90% de seus alunos, apresenta um IDEB de 4.4 (também abaixo da meta projetada), com indicadores muito piores ainda quanto à proficiência?

Nesse segmento, mais de 60% dos alunos matriculados não aprenderam nada, ou quase nada do conteúdo esperado em Língua Portuguesa; quando o assunto é a Matemática, 80% deles concluíram essa etapa sem saber nada ou quase nada do conteúdo ministrado. Como se explica então um número tão baixo de reprovados? O reflexo disso se vê no Ensino Médio, pois, como a educação é um processo, na 1ª série, em 2018, a reprovação foi de quase 20% dos alunos, número maior que a média do segmento todo que foi de 13,5%.

Não quero dizer aqui que reprovação massiva seja demonstração de eficiência, muito pelo contrário. Contudo, um alto índice de aprovação com indicadores de proficiência tão baixos levantam a preocupação sobre como está ocorrendo o processo de ensino-aprendizagem dentro das escolas mineiras, que envolve não só a Metodologia de Ensino, mas também os processos de Avaliação e Planejamento Pedagógico adotados?

Isto posto, não posso deixar de perguntar: porque a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ainda não foi implementada em Minas Gerais, se em Outubro de 2018 a versão final do Currículo de Minas já estava pronta para ser apresentada à Rede, e assim, a partir de Janeiro de 2019, as escolas teriam condições de capacitar a equipe, e atualizar seus Projetos Políticos Pedagógicos? Se a base, além de apresentar princípios norteadores para a construção dos currículos regionais, tem como fundamento justamente a mudança nos métodos de ensino, e processos de avaliação e planejamento pedagógico?

Enquanto isso, o estado de Minas está às voltas com a “construção coletiva” de um Currículo de Referência para o Ensino Médio, como se o problema da aprendizagem estivesse no “currículo adotado”, e não nos procedimentos e outras questões estruturais. Além disso, esse segmento apresenta uma situação tão particular que a própria Base, que foi formada por centenas de especialistas das três esferas – municipal, estadual e federal (que trabalharam por quase 7 anos) – decidiu por bem não incluí-lo na versão final do documento aprovado em 2017, justamente por ter enxergado a necessidade de uma discussão e aprofundamento maior dos temas correlatos a ele.

Lógico que não posso atribuir a culpa de mais de uma dezena de anos de (des) compromisso com a Educação Básica à atual gestão da SEE, nem tampouco ao gestor do estado, pois, de fato, seria uma inverdade. Contudo, não posso deixar de perguntar onde está o Planejamento Educacional para Minas? Que espera-se baseado não em números palatáveis e sonoros aos ouvidos da população (ou dos Deputados da ALMG), mas que demonstre eficiência e eficácia no trato com a coisa pública, em especial com a Educação, base do tripé de sustentação de qualquer governo? Planejamento esse que contemple ações de curto, médio e longo prazo, preferencialmente baseadas em políticas de Estado (ao invés de Governo), que garantirão a continuidade de sua execução. Onde ele está posto depois de quase 12 meses de governo?

Tenho plena convicção de que todo o palavrório dessa narrativa, provavelmente não passará de um solilóquio (ao melhor estilo Clarice Lispector), mas não poderia trair minha consciência, fechando os olhos para tudo que tenho visto e acompanhado na mídia (e nas redes sociais), nem tampouco esquecer a imagem simbólica da folha de caderno que serviu para “endolar” o baseado, pois ela representa o descaso e o desprestígio que a Escola Pública tem hoje no Brasil – ao invés de ser tratada como espaço transformador de pessoas, que é a sua real função, tornou-se “fiel guardadora” de crianças e jovens problemáticos, além de palanque para doutrinação e conversão de futuros militantes.

Contra isso serei sempre crítico, duro se preciso for, e ainda que a repercussão dessa narrativa não ultrapasse os limites da minha rede pessoal – formada por amigos e familiares – não vou desistir da Educação, nem parar de escrever e comentar sobre esse tema que tomei como objetivo pessoal e político, pois como alguém disse por aí, dias atrás, “a pena é mais forte do que a espada”, e a minha é mais poderosa do que a BIC do Presidente, palavra de Professor!

Professor Sérgio Soares

“A pena é mais forte do que a espada”

O cantopoeta Edmilson de Almeida Pereira pergunta no poema A Letra e a Voz: “O que ouço é o texto ou a voz de quem leu? […] Mas ouvimos, no meio de tudo, talvez um texto e a voz que o lê. Se é notícia rude ou sorte, se é nossa gente, como saber? No rascunho da tarde, escutar é um ato de espionagem.“ e isso me fez lembrar da importância da palavra; ainda que na sua forma mais rude, a de um fonema, ela carrega dentro de si a história de uma vida inteira.

Na Antiguidade Clássica (quando a escrita ainda era prestígio de poucos) os aedos, poetas orais que se apresentavam nas Ágoras gregas, eram a representação de Mnemosyne a mãe das Musas – a memória. O ato da declamação era um ato místico, sobrenatural, no qual o poeta, tomado pela inspiração da Musa, deixava-se vagar num turbilhão de lembranças. Nesse momento, a memória perdia sua função psicológica e ganhava outros matizes: antropológicos, históricos, políticos e ou religiosos.

Com o surgimento da escrita, o homem gradativamente passou a servir-se menos da oralidade, para registrar suas memórias através de sinais que vieram a se tornar a representação grafêmica dos variados idiomas que compõe o complexo léxico da sociedade humana. Os pesquisadores Fentress&Wickham (Memória social: novas perspectivas sobre o passado.Trad. Telma Costa. Lisboa: Teorema, 1992) afirmam que “escrever não só congela a memória como a congela sob formas textuais que evoluem de maneira bastante diferente das que se servem a memória oral”.

E a letra evoluiu, no caso da sociedade moderna para um código binário que permitiu representá-la na tela de um smarphone e, ainda assim, é através desse signo que a história é preservada, que  relacionamentos são construídos e que compromissos são desfeitos. O fato é que, nem com toda a revolução tecnológica empreendida nos últimos tempos, o homem conseguiu encontrar ferramenta de comunicação mais eficaz e poderosa do que a palavra escrita, como bem dito no provérbio inglês “ a pena é mais forte do que a espada” (the pen is mightier than the sword).

Basta olhar para trás e ver: na tradição cristâ, primeiro com os Dez Mandamentos, depois com os escritos dos evangelistas. No Velho e no Novo Mundo, a Carta de Pero Vaz de Caminha apresentando a terra brasilis a Portugal e a declaração da Independência Americana. Na literatura, desde os Grandes Clássicos, até um manual com ‘A Arte da Guerra’ de Sun Tzu. Todos esses repositórios de história, arte, cultura, religião e politica só reforçam o prestígio da pena na vida do homem.

Trazendo essa questão para temas mais atuais (e que ocupam os noticiários) pode-se destacar o conflito civil na Venezuela onde um ditador, Nicolás Maduro, ainda não foi deposto justamente porque os organismos internacionais preferiram adotar saídas diplomáticas, ao invés de apoiar o confronto armado. Na política brasileira, três presidentes já foram depostos, sem que uma única gota de sangue fosse derramada. Em 2018 caminhoneiros pararam o país em uma manifestação totalmente orquestrada através das redes sociais. Em Brasília, o mais alto colegiado de Ministros do país, para dar salvaguarda a um criminoso do colarinho branco, pode colocar de volta às ruas toda a sorte de bandidos e malfeitores. Em todos esses casos apresentados, foi a Letra – o texto escrito, quem deu sustentação às narrativas, e produziu os resultados esperados, sem ela tudo não teria passado de relatos orais, confundidos com boatos ou fofocas.   

Hoje, mais do que em outros tempos, a liberdade de expressão criou exércitos de militantes e milicianos (virtuais ou não), que valendo-se do poder da pena criaram uma nova Ágora (virtual), onde declamam e proclamam suas odes panfletárias – à Amazônia, ao capitalismo, ao lulismo, ao bolsonarismo e a tantos outros “ismos”, nem sempre baseadas em verdades absolutas, nem tampouco relativas, onde mais vale o barulho causado, do que a causa do estrondo.

Ao contrário desses militantes, conheço um escrevedor de histórias em textículos, que teve a vida modificada pela Letra, não apenas no sentido formal de ilustração, mas de transformação profunda, de um ente cordato que fazia parte do rebanho, para um lutador – de pena em punho – que dia-a-dia vem se notabilizando na Arte da Guerra sem espadas. No universo que criou, suas personagens dão voz às suas ideias e projetos, sempre dentro daquilo que acredita  ser o justo e o necessário.

Não que tenha sido fácil, muito pelo contrário. Em todos os segmentos por onde passou se destacou pelo empenho e competência, mas pagou um preço alto por isso – desonra, falsidade e traição. Só que, de tanto apanhar, o couro ficou curtido e aprendeu a bater – em uma de suas experiências como professor de zona rural, turma cheia e multidiversificada, aprendeu que a voz forte e colocada é a diferença entre conseguir dar uma boa aula, e perder o controle da turma. E assim trouxe essa lição para a vida fora da sala-de-aula.

Conforme diz o verso do cantopoeta, “No rascunho da tarde, escutar é um ato de espionagem.“, por isso ele teve que aprender a decifrar a letra por debaixo da letra, a ter um olhar armado – próprio dos iniciados nas inconfidências mineiras, o que lhe ajudou a enxergar os desafios e desafetos com justiça, mas sempre com olhar crítico. E hoje, este escrevedor está às voltas com outra história (ou outro projeto), onde sua personagem principal precisa nadar contra a maré, ser a voz dissonante no espetáculo (como um justiceiro solitário) para conseguir mudar a história de toda uma gente. As armas para essa batalha – a Pena e a Letra – com elas construiu cidades, fabricou personagens, mas através delas também pode erguer pontes, ou derrubar as paredes que sejam colocadas em seu caminho em uma prova cabal de que “A pena é mais forte do que a espada”.

Professor Sérgio Soares

Sobre Política e Alienação

Segundo Aristóteles, “O homem é por natureza um animal político, tem primeiro na família sua socialização e garantia da manutenção da vida em seus aspectos financeiros e educativos, mas é na Polis que se realiza plenamente, encontrando no fiel cumprimento das leis a justiça, dado que só podemos ser feliz no exercício da justa medida, ou seja, sendo prudentes e encontrando o meio termo em nossas ações.” E o filósofo grego ainda complementa dizendo que “O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade.”.

Interessante notar como esse conceito, o da Política, mudou tão profundamente na sociedade contemporânea, pois, se antes ela representava o mecanismo de garantia da Justiça e Sociabilidade na “Pòlis”, hoje, ao contrário, é vista como elemento desagregador (de pessoas e grupos), corruptora e corruptível, centralizadora de poder e garantidora de interesses privados (e às vezes espúrios).  E o que levou a essa desconstrução de sentido? As pessoas – que fizeram (e ainda fazem) dela um instrumento para a satisfação de interesses pessoais, em oposição ao sentido lato da palavra que era cuidar das coisas e interesses da cidade-estado, pensando sempre no coletivo. Alguns costumam chamar essas pessoas de políticos, prefiro tratá-los como idiotas, ou simulacros de políticos.

Mas não apenas isso contribuiu para sua má imagem; com o passar do tempo essa palavra ganhou extensões de sentido, para referir-se a determinado setor ou segmento da vida em sociedade, como por exemplo: politica estudantil, partidária, sindical, educacional, pública e tantos outros mais que, repetindo os erros dos idiotas a que me referi acima, serviram-se (e ainda se servem) dela para atender a interesses, nem sempre republicanos e éticos.

Com esse cenário, ser político (ou falar de politica) no Brasil virou sinônimo de partidarismo, Ideologismo, brigas e desavenças, negociatas e tomada de vantagens, distanciando, dessa forma, o cidadão comum dessa importante discussão, que faz parte da nossa vida desde o núcleo primordial – a família, como bem lembrou Aristóteles. O resultado disso é o surgimento de uma geração de alienados, mas de fato quem são, ou o que são esses alienados?

De acordo com o vernáculo, alienado é aquele que sofre de perturbação mental, louco, maluco; aquele que não tem consciência dos problemas políticos e sociais; aquele que se mantém alheio à realidade que o cerca. Isto posto, posso afirmar que existe hoje uma gama de alienados convivendo conosco em nossas casas, no trabalho, na escola e até nas Igrejas, que se subdividem pelo tipo ou grau de alienação:

  1. Alienado padrão: aquele que, de fato, apresenta ou sofre de alguma disfunção psíquica, popularmente conhecido como “pinel”, muito comum de se ver infiltrado dentro das milícias partidárias, tão recorrentes nos dias de hoje.
  2. Alienado acomodado: aquele que, vive em Marte, pensando nos problemas de Júpiter, totalmente desconectado da vida em sociedade.
  3. Alienado divergente: aquele que, apesar de não participar da vida política, nem tampouco se interessar pelo assunto, não perde a oportunidade de emitir juízo de valor, ou expressar sua opinião sempre que tem oportunidade, com o propósito único de ser contra por ser contra.
  4. Alienado engajado: aquele que, apesar de possuir uma filiação (partidária, religiosa ou política), não se envolve e não participa, apenas convive. Lembra muito a figura do Cristão, que participando das celebrações em um templo religioso, ao término não sabe falar sobre o que foi tratado durante a pregação.

Simão Bacamarte, no conto “O Alienista” de Machado de Assis, fez um experimento para demonstrar os traços de loucura presentes na sociedade Itaguaiense, comprovando a máxima “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”, onde obteve como resultado (depois de internar quase toda a cidade) que o traço comum dos alienados daquele lugar era algum tipo de desvio de personalidade, de onde tirou a conclusão que os loucos é que eram os normais por serem a maioria, e os sãos (no caso, apenas ele) é que eram os alienados, portanto careciam de internação.

Trazendo a ficção para a vida real, tem-se que o universo de alienados no Brasil parece ser maior do que o número de engajados, donde se pode depreender que o normal é ser alienado e que o incomum é ser politizado, portanto, como fez Bacamarte, que sejam internados em um hospício (ou presos) esses pervertores da ordem pública que tentam impor à sociedade suas posições marxistas, leninistas, socialistas, liberalistas e tantos outros “istas”!

O panorama que se vê reproduzido hoje no Brasil é quase esse; devido à demonização da Política (e dos políticos como demonstrado algumas linhas acima) é cada vez mais difícil ser engajado sem levar pedrada, sem o enxovalho e a alcunha de corruptos e milicianos, o que é muito ruim para a construção de um projeto de sociedade onde o coletivo seja prioritário em relação ao individual.

Disso resulta que seu objetivo principal, que era a aproximação de pessoas, foi pervertido em guerras fratricidas, a construção do diálogo em favor de um meio termo que atendesse às necessidades e anseios da maioria, virou sinônimo de acordão, e a vida em sociedade baseada na Justiça (cumprimento das Leis), se transformou em salvaguarda de criminosos condenados (vide o exemplo factual do que está ocorrendo agora no STF, em Brasília).

Em um momento como o que se vive, onde o dissenso e o extremismo se tornaram a tônica dos debates sobre Política, onde o seu descrédito assume contornos cada vez maiores, onde ainda a confundem com partidarismos pouco republicanos, é premente que esse bando de loucos animais políticos que somos nós (ainda que em menor número que os alienados) façamos romper os grilhões que nos foram impostos, e nos insurjamos para lembrar a todos que ela (a Política) continua sendo a melhor ferramenta para a construção de pontes entre as nações, para a aproximação dos pares e também dos díspares e, principalmente, para a formação de um Estado que seja plural, onde a Justiça seja a justa medida, e onde através do meio termo e do bom senso, cada indivíduo tenha a plena condição de ser feliz dentro de sua “Pólis”. Ser contra, ou alienar-se dentro de uma zona de conforto, é dar razão a uma máxima que Platão já preconizava na Grécia Antiga: “O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”

.Professor Sérgio Soares

O desafio do ensino nos dias atuais: Saber X Saber Fazer

Dia desses, em um de meus rápidos retornos à pequena e pacata Prosperidade, tive a oportunidade de acompanhar uma palestra do nobre professor Pandolfo, no plenário da Câmara dos Vereadores, onde ele falava sobre o “O desafio do ensino nos dias atuais: Saber X Saber Fazer”.

“Senhoras e senhores, boa noite. Professor não é aquele que precisa antepor ao próprio nome uma infinidade de letras (MBA, MSc, PhD, …) para comprovar seu cabedal de conhecimento, mas sim aquele que, tendo absorvido ao máximo os ensinamentos no seu tempo de aluno, tem, na condição de facilitador, a sabedoria para dividi-los com a humildade de entendimento de que ensinar é um ato de troca, onde muito se aprende com aquele a quem se ensina”.

E foram com essas palavras que ele deu início à sua exposição, lembrando que muito se espantava quando encontrava com seus pares na cidade (ele que leciona na zona rural), e o assunto era sempre o mesmo – “alunos não querem aprender, esses moleques são incorrigíveis, os pestes não respeitam mais a autoridade de um professor”!

Então ele fez uma pausa e, de maneira enfática, lembrou que “respeito é um sentimento que deve ser conquistado, ele nunca nascerá de maneira impositiva” e, além disso, ”a perda de autoridade a que tanto se referem os colegas, nada mais é do que uma maneira eufemista de dizer que, como o Professor não sabe o que é ensinar (ou não quer aprender), precisa recorrer ao argumento de autoridade – eu mando e vocês obedecem – para cumprir seus exaustivos 50 minutos de aula”.

Completa o sábio mestre dizendo que, “no tempo das cátedras, o Magister, devidamente togado, proferia sua aula como quem falava para as paredes, e essa imagem ainda está muito viva na retina – e na prática – de muitos colegas (ainda que não mais togados), que tratam suas classes como tábulas rasas de conhecimento, cabendo a ele, ‘o Mestre’, a hercúlea tarefa de ‘tentar’ fazer-lhes aprender alguma coisa”.

Pandolfo lembra que, “a melhor forma de se fazer ouvir e entender pelo outro, é se colocando próximo a ele, na sua estatura e no seu campo de visão, de tal forma que as palavras façam sentido, e isso não se consegue do alto de um palanque, ou sentado por detrás de uma mesa. O professor não é mais o centro do mundo, o senhor do Saber, mas sim um facilitador, aquele que se coloca ao lado, para ensinar e aprender com o aluno, que é rico em sabedoria e pleno de uma história viva, que tem origem no núcleo familiar, e nunca será igual a do outro, sentado na cadeira oposta”.

Um dos grandes desafios que ele aponta nos dias de hoje é o modelo de ensino-aprendizagem adotado nas escolas, que se prende a um formalismo curricular, baseado mais em fórmulas e conceitos, do que na vivência e na experimentação do conteúdo, modo de criar aderência, substância entre aquele que aprende e aquilo que é aprendido, e não uma mera repetição de palavras e símbolos convencionados.  

Segundo o professor, “as pessoas desaprenderam a diferença entre o ‘Saber’ e o ‘Saber Fazer’” e explica dando um exemplo prosaico – imaginem aquelas negras das cozinhas das fazendas, aquelas mesmas que serviam às grandes famílias de Prosperidade e, à beira do fogão de lenha, cozinhavam um frango com quiabo divino, que todos comiam rezando. Receita? Não existia, era tudo de cabeça – da dosagem do sal, até as artimanhas para retirar a baba do quiabo.

Agora imaginem esse mesmo prato, executado por um Chef de cozinha (recém-saído da Escola de Gastronomia), que seguirá a receita padrão, ainda que à beira de um fogão de lenha. Alguém tem dúvida de que o prato do Chef nunca chegará nem aos pés daquele preparado pela Maria Preta? E sabe qual o motivo para isso? Simples, existe uma diferença ontológica entre o “Saber” e o “Saber Fazer”, o primeiro diz respeito ao conhecimento formal, ao estabelecido e o outro à proficiência, à capacidade de usar o conhecimento aprendido de maneira única, própria ou com diferencial’. Encerrando sua palestra, Pandolfo arremata dizendo que:

 “Meus caros. É preciso que nós, professores, nos desapeguemos do estrito, da propedêutica acadêmica e conceitual para que possamos, de fato, ensinar nossos alunos a aprenderem, de maneira autônoma e com liberdade de pensamento e criação.Dessa maneira, estaremos formando uma nova geração que não apenas saberá as regras para uma correta conjugação dos tempos verbais, mas, principalmente, será capaz de criar e de se expressar em qualquer contexto e situação, de maneira crítica e original. Tenham todos uma boa noite”.

Noite memorável de aprendizado. Me despedi das autoridades e conhecidos presentes,  e tomei meu rumo.

E é dessa forma que a Academia ainda ensina seus futuros ensinantes – seja nas ciências ou nas linguagens – através de um mero repetir de fórmulas e de conceitos, e isso se deve ao fato de que os Mestres, engessados em seus pedestais de bronze, não se dignaram (durante as últimas décadas) a rever seus princípios e metodologias, continuando tudo como era antes no tempo das “professorinhas”.

Lógico que já existem vozes dissonantes nesse concerto (graças à Deus), mas esse grupo ainda é muito tímido, diante da grande massa de pensadores do “Saber” que compõe as Universidades e Centros de Formação Superior. O resultado disso é que, lá na ponta, o professor que chega às escolas acaba repetindo o discurso que o Professor Pandolfo tantas vezes ouviu nas ruas e praças de Prosperidade – “alunos não querem aprender, esses moleques são incorrigíveis, os pestes não respeitam mais a autoridade de um professor”!

Quem mais sofre com isso? O peste do aluno que não quer aprender e que não respeita a autoridade do professor. Não quer aprender ou será que a maneira de ensinar, de preparar a aula e mesmo de corrigir a prova desse aluno é que estão erradas? É muito simples colocar a culpa do problema no lado mais fraco (no caso, o aluno) enquanto a responsabilidade sobre esse (des) aprendizado está por detrás da mesa, confortavelmente sentado em uma cadeira, esperando os 50 minutos de sofrimento acabar.

Pensar dá trabalho (e como dá), mas pensar uma aula que seja única, e não apenas uma repetição de recortes dá mais trabalho ainda. Corrigir uma avaliação, tendo como base um gabarito de respostas prontas é simples, difícil é preparar uma questão que leve o aluno a refletir sobre a resposta, e que essa seja a soma de duas verdades – a da cartilha, e a da leitura de mundo que esse aluno faz sobre o que a cartilha fala. Realmente, dá muito trabalho!

Em uma sociedade onde se espera do cidadão que ele seja crítico e multitarefa (em função das constantes evoluções tecnológicas que surgem todos os dias) é necessário não apenas ter um diploma para chamar de seu, mas sim que seu dono seja capaz de usá-lo de maneira singular. Isso é o que vai diferenciá-lo dentro de um mercado tão competitivo como o de hoje (assisti esses dias, na chamada de um programa de TV, a história de uma modelista: senhorinha já bem idosa, acostumada a riscar e cortar seus moldes, que teve que se reinventar para aprender a trabalhar com um programa de inteligência artificial, que a ajuda na construção das modelagens da confecção, agora em 3D e com muito mais precisão).

Portanto, é necessário rever o conceito de aprendizagem para entender que ele nasce em nossas vidas muito antes do início da vida escolar, está dentro das nossas casas, das nossas igrejas e nas ruas, e surge como uma acomodação coletiva que leva ao não pensar, a não refletir sobre as informações que permeiam e influenciam o sujeito a todo o momento, que apenas as recebe e as aceita. Nesse modelo não existe espaço para o dissenso.

Contudo, (ideologicamente falando) buscar o “porquê” dessa subserviência do pensamento pode ser muito perigoso, mas é só a partir da disseminação desse gérmen, desse princípio de investigação e de questionamento, que um aluno vai chegar em uma classe e ter a curiosidade (e a coragem) de questionar o professor por que dois e dois tem que ser quatro, e não pode ser quatro e um terço. Em termos pedagógicos, isso é ir além do conhecimento formalista (“Saber”), demonstrando raciocínio lógico acima da média, e aguçado senso crítico (“Saber Fazer”).

Interessante notar como esse conceito academicista de organização dos saberes dentro de um Curriculum Vitae, criou uma geração de falsos doutores, falsos professores, falsos engenheiros e tantos outros que, mesmo aprovados em uma seleção por currículos se demonstram ineficientes quando na prática efetiva do ofício. O mais curioso é que Curriculum Vitae é uma expressão latina que significa “trajetória de vida”, portanto, ele deveria ser a síntese daquilo de melhor que o sujeito é capaz de fazer; só que não! Acabou se tornando um mero repositório de títulos conquistados que, na maioria das vezes, não refletem a capacidade e as habilidades do sujeito.

E como esse modelo de seleção virou praxe para contratação, em se tratando de setor privado, demita-se e chame o próximo da lista caso se demonstre ineficiente, mas quando se fala do setor público (devido à própria característica de algumas contratações) os resultados podem ser bem mais catastróficos, justamente porque quem contratou não soube entender a diferença entre a experiência (o Saber Formal) e a proficiência (o Saber Fazer, a maestria) que vai distinguir os candidatos à vaga.

Fecho mais essa narrativa, valendo-me das palavras do Professor Pandolfo no encerramento de sua palestra, com o desejo real e sincero de que elas sirvam de amálgama para uma mudança representativa no modo de ensinar e aprender dentro das escolas, mas também na forma como a sociedade enxerga essa importante ferramenta de transformação social e econômica do indivíduo que é o “Saber”:

“É preciso que nós, professores, nos desapeguemos do estrito, da propedêutica acadêmica e conceitual, para que possamos, de fato, ensinar nossos alunos a aprenderem, de maneira autônoma e com liberdade de pensamento e criação. Dessa maneira, estaremos formando uma nova geração que não saberá apenas as regras para uma correta conjugação dos tempos verbais, mas, principalmente, será capaz de criar e de se expressar em qualquer contexto e situação, de maneira crítica e original.”

Professor Sérgio Soares

Fazenda Liberdade: a história de Nino e Nina

Dona Maria das Graças Liberdade enviuvara muito cedo, assumindo assim a responsabilidade da criação e educação de seus filhos gêmeos, Nino e Nina, além de ter que tocar um patrimônio volumoso, deixado pelo falecido, que incluía a Fazenda Liberdade – propriedade centenária cafeeira, da época do Brasil-Colônia, que trazia em sua história uma triste passagem pelo período escravagista, tendo sido uma das que mais se aproveitou dessa mão-de-obra para alcançar riqueza. Por conta disso, seu esposo, Baronete Antônio João Lustosa Felicidade, sempre fez questão de frisar “que naquelas terras nunca mais aconteceriam abusos, de nenhuma ordem ou espécie”!

Assim, D. Liberdade, como era conhecida na região, tratou de garantir o desejo do marido, assegurando que a fazenda fosse um celeiro de liberdade, mas também de desenvolvimento. Sempre preocupada, e atenta aos negócios, buscou as melhores formas de obter rentabilidade e sustentabilidade para sua propriedade (sem a dependência de governos ou padrinhos), garantindo aos que para ela trabalhavam as melhores condições laborais e de subsistência. Ela sempre dizia: “O pão, o colono conquista com o suor de seu trabalho, mas é preciso que o patrão nunca se esqueça de zelar pela saúde e educação da família de seus empregados. Colono feliz produz mais – quanto mais se produz, mais riqueza se gera para todos”.

Quando os filhos já contavam 23 anos, recém-saídos da faculdade, D. Liberdade fora acometida por uma doença terminal que, de forma muito agressiva, lhe tirou a vida. Em seu leito de morte, a matriarca deixou-lhes as últimas orientações.

“Meus filhos, agora que já estão formados, cada um de vocês será responsável por cuidar de metade da Fazenda. O compromisso que exijo é dedicação e trabalho digno, sem nunca esquecerem-se daquele que é o nome de nossa terra e de nossa família, Liberdade – para empreender, crescer, viver e ser feliz – essa é uma regra áurea que vocês nunca deverão quebrar. Quero que, passados cinco anos, vocês dois sentem e analisem os resultados que alcançaram. Não se esqueçam! A Fazenda Liberdade sempre foi o ideal de seu pai e meu também, e espero que vocês sigam os nossos passos”. Fechando os olhos, Dona Liberdade foi encontrar-se com seu Baronete Lustosa.

Passadas as exéquias da matriarca, os filhos trataram de dar andamento ao último desejo da mãe. A cada um foi dada a fração correspondente a cinquenta por cento do patrimônio, de tal forma que ambos tivessem iguais condições para fazer cumprir o assumido no leito de morte da mãe. Como a fazenda tinha núcleos de negócios, bem definidos e estabelecidos, a Nino coube o agronegócio e o gado de corte. Para Nina restaram o setor Laticinista – leite e derivados, e a criação de gado leiteiro.

Apesar de gêmeos, Nino e Nina eram muito diferentes um do outro. Desde pequenos, Nina sempre foi o retrato fiel da mãe na beleza, na cordialidade, mas também no respeito ao próximo – às suas ideias, valores e opiniões. Já seu irmão era substancialmente diferente – mesmo não desrespeitando ninguém, da mãe só guardou a visão empreendedora mas, ao contrário da genitora, só focava no lucro, entendendo que cada um era responsável por seu sucesso ou fracasso, e ponto final. Por isso, sempre achou um gasto desnecessário, e desmedido, o investimento que a fazenda fazia em saúde e educação dos colonos. Em seu modo de pensar, cada um que se resolvesse sozinho.

Passados os cinco anos estabelecidos, os irmãos sentaram-se para analisar os resultados obtidos em suas frações de negócio. O primeiro a apresentar os números foi Nino que, empolgado, apresentou as margens de lucro aumentadas em 30% no setor de agronegócio e 27% no gado de corte. Segundo ele, para o próximo quinquênio a margem projetada poderia ser aumentada em 15%.

Pragmático como ele só, Nino só se esqueceu de falar de que, nesse período, a evasão de pessoal de sua fração foi de 30%, entre afastamentos voluntários, e para tratamento de saúde. E que sua força de trabalho hoje era formada essencialmente por homens e mulheres com mais de 50 anos, portanto com baixa produtividade. Isso porque os mais jovens abandonaram a propriedade em busca de melhores condições de trabalho na cidade.

Chegada a vez de Nina, os resultados não foram nada modestos – o setor Laticinista cresceu 35%, com a conquista de um selo de qualidade que permitiu a entrada dos queijos e derivados no mercado internacional; o setor leiteiro teve um lucro de 19% com a melhora da genética das matrizes, tudo desenvolvido dentro da própria fazenda.

Mas esses resultados só foram possíveis porque, junto com sua capacidade empreendedora, Nina nunca se esqueceu da máxima que sempre ouvira de sua mãe “Colono feliz produz mais”, assim não descuidou da saúde e da educação de seus empregados, tendo como resultado um nível muito baixo de afastamentos para tratamento de saúde, uma evasão dos postos beirando quase a zero, e uma geração de novos técnicos agrícolas, que incentivados e apoiados pela patroa, se formaram e já estavam de volta à fazenda, agora gerando lucro e retorno pelo investimento feito.

Além disso, preocupada com as mulheres dos colonos, que em grande parte viviam para cuidar dos filhos e da casa, incentivou e capacitou, através do Cooperativismo, essas mulheres a criarem uma associação de artesãs que passaram a produzir e comercializar seus produtos, com a marca da Fazenda Liberdade.

Como isso não se tratava de uma competição para ver quem lucrava mais, ambos acertaram de voltar a analisar os números no próximo quinquênio, mas uma coisa ficou implicitamente comprovada entre eles – o lucro é importante, mas quando você pode lucrar – e ao mesmo tempo incentivar a produção de riqueza – os resultados sempre serão mais significativos e transformadores. Aí sim, de fato, existirá Liberdade, não só a econômica, mas principalmente a social.

Segundo Mário Vargas Llosa “A liberdade é inseparável do liberalismo. E a liberdade não pode ser só liberdade econômica: deve avançar ao mesmo tempo nos campos econômico, político, social, cultural.” É assim que penso, e é isso que tenho tentado trazer nos meus textos.

Por essa razão, nas minhas últimas incursões pelo mundo da política, tenho encontrado mais Ninos do que Ninas, e isso é explicado, em parte, pelo fato de que “ser liberal” é uma adjetivação muito capiciosa, que pode ser aplicada tanto ao discurso da esquerda, quanto ao da direita, mas, no caso desse último sobreveio um neologismo (e desculpem a redundância) criado para associar, pejorativamente, a figura do Liberal à imagem de um governo, o “Neoliberalismo”. Talvez tenha surgido daí a motivação para que alguns grupos e partidos, de viés liberal, tenham optado pelo endurecimento pragmático de seu discurso em torno de um aspecto – o econômico, em detrimento de um conceito geral e mais amplo.

De outra forma, percebo também um grande apego a formalidades conceituais da época do “pai do Liberalismo” (John Locke, Século XVII), ao passo que existe na contemporaneidade uma visão sobre o que é ser um liberal, mais arejada e pujante, como na América Latina (onde Vargas Llosa é um de seus expoentes), e na Escola Austríaca, tendo como referência os estudos de Mises. Nesses dois casos o Liberalismo não é apenas uma questão de conceito, mas de postura. Mais uma vez Vargas Llosa lembra que “[…] há uma grande diferença entre um governo liberal e um governo que empreende algumas medidas de abertura econômica”.

Essa é outra característica daqueles grupos e partidos a que me referi – dentro e fora do Brasil têm surgido figuras populistas, que apoiadas em um discurso conservador (que nada tem a ver com o Liberalismo) vêm empreendendo políticas econômicas, baseadas em princípios liberais: livre-mercado, estado mínimo, desoneração fiscal e liberdade para o empreendedorismo – que são importantes e positivas para o desenvolvimento de um povo, estado ou Nação. O problema é que, na maioria das vezes, essas políticas priorizam apenas o lucro, o ganho, em detrimento do bem-estar coletivo – nessa ótica Educação, Saúde e Segurança são vistos como despesas, e não como investimento, e Nino representa bem esse perfil.

Já disse outras vezes e repito: “Ser liberal dá trabalho, e é muito custoso!”, da mesma forma que ser uma Nina, requer muito talento, pois exige do sujeito o melhor de dois mundos – empreender, com visão e ciente que é dele a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso, e fomentar oportunidades – não apenas “dar a vara”, mas ensinar a pescar. Na nossa sociedade, que ainda é baseada em um paternalismo governamental, onde o Estado é a viúva que provêm a todos; de cunho assistencialista, onde o importante é manter o assistido na condição eterna de pedinte, propor algo diferente disso é quase uma heresia. Mas esse é o caminho, pelo menos para aqueles que (como eu) ainda acreditam que o Liberalismo é a melhor ferramenta para o desenvolvimento pleno de um povo, garantindo suas liberdades individuais, e também o respeito à Democracia.

Professor Sérgio Soares

Realmente, o Sistema é phoda!

Olhando para a história recente, nunca pensei que um jargão de filme nacional pudesse representar tão bem o momento político que estamos vivendo no Brasil, por isso tenho que concordar, realmente o sistema é phoda, e em uma semana pródiga de barbarismos, ouso dizer que esse “Sistema” não é made in Tupiniquim e ultrapassa nossos limites geográficos, mas vamos aos fatos, ou como diriam os comentaristas esportivos, à resenha da semana.

Sexta-feira, 20 de setembro, Morro do Alemão, Rio de Janeiro. Enquanto uma família chegava à comunidade (em uma Kombi de frete) uma ainda mal explicada abordagem policial, a uma dupla em situação suspeita, em uma moto, termina com uma criança morta com um tiro de fuzil – uma bala achada, não perdida, que foi de encontro, mais uma vez, ao corpo de um inocente.

Essa, provavelmente, teria sido mais uma ocorrência dentro da mancha criminal da Policia do Estado do Rio de Janeiro se não fosse ele, “o Sistema”, entrar na narrativa e transformar uma tragédia familiar, em um fato político. Veja bem, nada justifica, nem sequer diminui o tamanho da dor que destroçou aquela família, porém o uso político de um drama pessoal dessa maneira é algo muito vil, e explico o porquê.

A questão da violência na Cidade Maravilhosa já tomou contornos de guerra civil, pois se antes era uma guerra ao tráfico, hoje a população vive no meio de um bang bang que conta com mais uma personagem, a milícia. E essa tríade maldita Tráfico – Polícia – Milícia faz vítimas todos os dias – caem bandidos, policiais e inocentes. E olha que o Rio é apenas a décima terceira cidade mais violenta do país. Mais aí vem a narrativa dele, “o Sistema”, que diz que o problema é a vítima era apenas uma criança pobre, de comunidade – na verdade, a quinta criança (desde o início do ano), na sequência: K.R.S., 12 anos, baleado durante operação policial no Chapadão, na Zona Norte do Rio / K.R., 11 anos, atingido por uma bala perdida na comunidade da Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste do Rio / K.P., 12 anos, baleado durante confronto entre PMs e criminosos na comunidade da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense / J.S.G., 11 anos, baleada na porta do bar da mãe em Triagem, na Zona Norte do Rio.

Desse grupo, somente o caso do garoto morto no chapadão foi enviado ao Ministério Público, até o momento. Então fica a questão a ser respondida – porque essas outras quatro crianças pobres e de comunidade também não tiveram o mesmo tratamento e preocupação das ONG’s, Partidos Políticos e Imprensa, que a menina do Morro do Alemão teve? O que tornou esse caso tão mais grave, ou mais severo, do que os outros?

Segunda-feira, 23 de setembro, sede das Nações Unidas, Nova York. Jovem ativista, sueca, de 16 anos, atrai a atenção do mundo inteiro, com seu discurso apaixonado e delirante sobre os efeitos das mudanças climáticas no mundo. O que poderia ter sido apenas mais uma das falas proferidas durante a Cúpula do Clima, tomou um contorno de ato de crueldade e tirania do mundo contra Greta Thunberg, que culpou os líderes globais por terem “roubado seus sonhos e sua infância” com “palavras vazias” a respeito do meio ambiente. Pronto, estava criada a narrativa – uma jovem idealista contra o Mundo. Mas quem de fato é Greta Thunberg?

Greta é a filha mais velha, de duas, do casal Svante Thunberg (pai) e Malena Ernman (mãe). Ele ator, e ela uma famosa cantora de ópera sueca. Tudo ia bem até o dia em que Greta ouviu falar na escola sobre mudança climática. Isso bastou para que o mundo de Greta, e de toda a família, mudasse radicalmente e – em prol da humanidade – todos viraram veganos.

A jovem institui a sexta-feira como o dia de cabular aula para protestar contra o clima, e com essa visibilidade toda, mãe e pai largaram tudo para cuidar da vida da filha, agora uma ativista ambiental. Nesse mesmo momento (2018), a mãe decide escrever um livro contando a história da família, onde narra, dentre outras coisas, que Greta sofre da Síndrome de Asperger, uma doença do Transtorno do Espectro Autista (TEA), e que ela vai lançar (em 2019) um livro com a coletânea de seus discursos em eventos de defesa do meio ambiente. Mas afinal, o que é a Síndrome de Asperger?

Essa doença é um transtorno neurobiológico que afeta a forma como as pessoas percebem o mundo e interagem com as outras. Trata-se de um tipo de autismo leve, enquadrado no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Dentre os sintomas mais comuns, pode-se destacar: Habilidade de memorização de detalhes dentro de um estreito campo de interesse / Fala formal desenvolvida prematuramente, mas mecânica e podendo parecer estranha e pedante. / Atenção acima da média para estímulos externos e internos.

Pessoas com Asperger vêem, ouvem e sentem o mundo de forma diferente das outras, e a jovem sueca, em entrevista a uma emissora de TV alemã, confirma que “Se eu não tivesse Asperger, não teria sido possível. Eu simplesmente teria vivido e pensado, como todo mundo. Eu vejo o mundo de uma perspectiva diferente – em preto e branco”.

Mas afinal, o que levaria uma família a expor uma adolescente, diagnosticada clinicamente com um quadro neurológico que exige cuidados, a situações de estresse e uma série de outras condições proibitivas para um autista, e ainda permitir que ela navegasse, sozinha, em um barco até os Estados Unidos? Resposta, ele, ‘o Sistema”.

Por trás de toda a narrativa engajada da adolescente, existe a presença de fortes grupos econômicos, que servindo-se do discurso de proteção ao meio ambiente, transformaram a menina em uma “galinha dos ovos de ouro”. Paralelo a isso, há também o interesse financeiro dos pais que largaram carreiras e tudo mais, para auferir lucro com a exposição da filha através de uma pesada estratégia de marketing.

Lamentável nisso tudo é ver que no Brasil ainda existem pessoas que lotaram suas redes sociais com críticas e ofensas, descabidas e maldosas, à aparência e a fala da menina, esquecendo-se que, nesse caso, estavam falando de uma deficiente, portadora de uma Síndrome severa e sem cura. Pela falta de cuidado e interesse na apuração da história, rasa e direcionada à validação de um discurso da esquerda ambientalista, percebe-se, mais uma vez, o quanto os interesses políticos e econômicos, aqui e fora do Brasil, concorrem para favorecer mais a parte, do que o todo.

Terça-feira, 24 de Setembro, Sede das Nações Unidas, Nova York. Tudo pronto para o tradicional discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. O mundo inteiro volta os seus olhos, com expectativa, para ouvir o que o Presidente do Brasil tem a dizer, em especial sobre as polêmicas recentes sobre o Meio Ambiente no país. Frustração para alguns, comemoração para outros, mas o fato é que, ao contrário de Davos, dessa vez Jair Bolsonaro fez um discurso de Chefe de Estado, não apenas na forma, mas principalmente no conteúdo, apresentando ao mundo qual o seu projeto de país para o Brasil.

As repercussões dentro e fora do Brasil foram imediatas – a extrema mídia plantonista se deteve em cada palavra, checando dados, números e qualificando o discurso como desastroso para o Presidente e para o país. Na própria ONU houveram queixumes e chorumelas, tentando transformar, mais uma vez, a imagem do Presidente em uma figura caricata a qual não se deve dar crédito. Pois bem, o que se podia esperar de um discurso proferido por um político conservador, de Direita, que nunca se deteve a polimentos e mis’ancenes em sua trajetória pública?

E eis que surge, mais uma vez, ele , “o Sistema”. Para essa parcela da mídia brasileira que se esqueceu de que é compromisso do jornalista buscar a verdade acima de tudo, através de uma apuração séria e justa, fica clara sua parcialidade com um discurso da esquerda que vai, a todo o momento, desconstruir ou destruir a fala do Governo. O que essa mídia (e o grupo ao qual ela serve) se esquece é de que tivemos, há bem pouco tempo, dois presidentes que também marcaram as Assembleias da ONU com seus discursos – a primeira virou meme, pela sua dificuldade de articulação linguística – ninguém (e acho que nem ela mesma) conseguia entender o que era dito. O outro, de boa lábia, sempre falou aquilo que “os companheiros” queriam ouvir, em uma assimetria ideológica entre o discurso do orador, e a retórica que atualmente é defendida na ONU.

Lembrando que a Organização das Nações Unidas – ONU foi fundada no pós-guerra, em 1945, com o objetivo de deter os conflitos entre os países, e para facilitar o diálogo entre os mesmos. Esse papel conciliador, e neutro, (ideologicamente falando) veio se perdendo com o correr dos anos, e pode-se dizer que hoje se ela defende, dá mais espaço ao discurso da esquerda mundial, do que a outras vozes dissonantes nesse cenário político, econômico e social globalizado.

Enquanto isso acontecia em Nova York, no Brasil, a banda podre de Brasília, composta não por políticos, mas sim por Idiótes compromissados com o próprio umbigo, e com o Sistema, locupletavam-se fazendo e acontecendo no Congresso Nacional – bem diz o dito popular “o gato sai, o rato faz a festa” – e como existem ratos da bunda branca no Planalto Central.

Aqui faço uma pausa para lembrar que: toda generalização é burra, por isso lembro que existem no país políticos, de verdade, que tentam quebrar essa cadeia de desmandos da banda podre, mas como poucos que são, ainda sem sucesso. Da mesma forma, no meio Jurídico, que em grande parte abriga e dá salvaguarda para o Sistema, existem paladinos da Justiça que, na contramão do corporativismo, ainda respeitam e defendem as Leis e a Constituição da República Federativa do Brasil.

Contudo, esses dois últimos dias da semana só serviram para provar que o Brasil precisa mudar, não apenas no aspecto econômico e social – agendas importantes para assegurar o crescimento e prosperidade em solo brasileiro – mas principalmente resgatar, desde a infância, um valor que há muito tem se mostrado esquecido – a Ética, ou moral se bem preferir. Ministro Luiz Alberto Barroso, em Sessão do Supremo Tribunal Federal, foi muito lúcido, e feliz, ao afirmar que “Não há como o Brasil se tornar desenvolvido com os padrões de ética pública e privada praticados aqui”, referindo-se a tese em questão que pode anular sentenças já transitadas e julgadas dentro da Operação Lava-Jato. Mas a quem poderia interessar o não desenvolvimento do país, e mais, um efeito em cascata que poderia, por força da jurisprudência, colocar nas ruas não apenas criminosos do colarinho branco, mas de toda a espécie e delito?

A ele, personagem da semana (que pode até pedir música no Fantástico) “o Sistema”. Mas quem, afinal de contas, é esse ser dotado de tanto poder? Enquanto produto social não possui uma cara, ou mesmo um nome próprio, mas muitos braços e muitas pernas que o permitem atuar em várias frentes, sempre com o mesmo fim, a manutenção do status quo, do establishment, das regalias e mordomias, da corrupção e do desvio de dinheiro, marcas do que há de pior na politicagem brasileira.

E para chegar ao seu objetivo não mede esforços (nem tampouco recursos financeiros) desde que, ao final, “o grupo” tenha seus interesses preservados. Basta olhar as ações contra a Operação Lava-Jato, que sob o pretexto de “defender” o Lularápio, o presidiário de São Bernardo, engendra todo tipo de artifício e subterfúgio, para reforçar a tese da perseguição ideológica, de que o dito é um preso político e que, colocá-lo em liberdade, é a única forma de restaurar os princípios constitucionais e democráticos brasileiros, mesmo que a consequência imediata de sua soltura seja, também, a de estupradores, homicidas e criminosos da pior espécie, na rabeira desse cometa chamado Sistema Processual Brasileiro. É Capitão Nascimento, o senhor realmente tinha razão, o sistema é phoda!

Professor Sérgio Soares

Tião, a história do menino fogueteiro

Naquela manhã acordara com um gosto de morte na boca, já sabia que a inominada estava a caminho, por isso, antes de assumir seu posto, deu um longo e demorado beijo na sua preta, e fez um último carinho em seu filho. Tião, que contava 18 anos, morava com Karolyne, de apenas 16, com quem já tinha um menino, Izaac. Depois da despedida, pegou sua companheira inseparável, a Russa Catarina, seu rádio e foi pra laje. Lá, como de costume, sentou numa lata, acendeu um baseado, e ficou entorpecido pela calmaria, um silêncio no morro, que só podia significar uma coisa… Perdido no espaço-tempo, lembrou-se do dia em que chegou na comunidade, com apenas 12 anos, cheio de mágoa, e se tornou fogueteiro. De tão bom que era, em pouco tempo já comandava os moleques do foguete, e por todos era temido, porque caso algum pisasse na bola, Catarina cantava alto. Esse sentimento de raiva só foi quebrado com o nascimento de Izaac, o nome foi uma homenagem a seus pais, que nunca o conheceram.

Na noite anterior, ficaram os dois, ele e o pequeno, deitados na laje, olhando para as estrelas entre gargalhadas, onde Tião contava para o filho a história de cada constelação e tudo que havia visto na sua visita à Base de Alcântara. Então, como que no despertar de um sonho bom, foi acordado com o rádio gritando: Caveira! Caveira! No mesmo instante o céu da comunidade se encheu de foguetes, que foram rasgados pelas rajadas de fuzil, e pelo barulho ensurdecedor dos helicópteros dando rasante. Tião se colocou em posição de tiro, e sentou o dedo na Russa, porém, aquele instante – minuto, que pareceu uma eternidade, foi interrompido pela bala certeira de um Sniper que, com um único disparo, interrompeu a carreira do menino fogueteiro… Mas será que o fim dessa história precisava ter sido mesmo esse?!?

Tião nascera Sebastião, filho único de uma família muito humilde, mas honesta. Foi criado em uma comunidade onde nunca se envolvera com nada de ruim, apesar da violência do local. Filho de pais evangélicos, sua vida sempre foi casa – escola – igreja, mas ainda assim era uma criança muito feliz, e dedicada aos estudos. Seu grande sonho era ser astronauta. Até que um dia, aquele menino quase acreditou que isso pudesse se tornar realidade.

Era semana da Pátria, e em comemoração a essa data especial, a escola iria receber a visita do Coronel Astronauta, ídolo maior de Sebastião (Tiãozinho como era chamado pela família e amigos). Na véspera da visita, nem dormira direito, pensando em como seria encontrar com o seu herói, e o que poderia perguntar para ele. Acordou cedo, despediu-se dos pais e, num galope, chegou à escola antes mesmo do portão se abrir. Quando tocou o sinal de entrada, já estava a postos para sentar na primeira fila do auditório. E a hora chegou.

Foi como se ele tivesse sido teletransportado para outra dimensão, cada palavra, cada gesto do convidado, o faziam voar alto, sonhando como seria conhecer o espaço. Foi então que, num sacolejo, foi acordado com alguém chamando seu nome – Sebastião da Silva, Sebastião da Silva – até que a Diretora o puxou da cadeira – Vem cá Tiãozinho, você foi o sorteado. Ainda atônito, e sem entender o que estava acontecendo, o menino foi levado para o centro do palco, onde o Coronel lhe cumprimentou dizendo – Parabéns, você foi o escolhido para viajar comigo, e conhecer a Base de Alcântara, o Centro Aeroespacial Brasileiro. Você aceita? Sem palavras, o garoto só conseguiu abraçar com toda a força do mundo, seu maior herói.

Os dias seguintes foram de pura excitação e preparação. Acompanhado da mãe, Tiãozinho embarcou na viagem que mudaria sua vida para sempre. Viveu a experiência de viajar de avião, aproveitar as mordomias de um hotel e, finalmente, conhecer a casa do Astronauta brasileiro. Chegando à Base, não perdeu um segundo sequer das explicações do militar, absorveu cada palavra, guardou em sua retina cada imagem – o Centro de Comando, a Área de Treinamento Físico, a Base de Lançamento, mas o que lhe fez perder o chão, foi realmente conhecer o simulador de gravidade. Aquele foi o dia mais longo, e ao mesmo tempo mais marcante de sua vida. Na despedida ganhou um uniforme, feito especialmente para ele, igual ao dos oficiais aviadores que faziam seus treinamentos em Alcântara.

De volta à comunidade, o que deveria ter sido a realização de um sonho, começou a se tornar o maior pesadelo da sua vida de menino. Ele, que acreditava que seria recebido como uma celebridade foi surpreendido, no dia em que voltou a escola, com a indiferença dos seus colegas, mas o que mais lhe machucou de verdade foram as piadinhas – filhote de astronauta, lambe botas de milico, baba ovo de governo. Aquelas palavras pareciam não fazer sentido em sua cabeça que, com apenas 11 anos, estava sofrendo sua maior decepção.

E as ofensas não melhoraram, na verdade foram só piorando, até que um dia aconteceu a gota d’água – a professora de História falou (em tom de deboche para a sala inteira ouvir) que a única forma de moleque negro e pobre conseguir chegar perto das estrelas, era subindo em um andaime bem alto, para lavar janela de prédio. – Se orienta moleque, e acorda pra vida! Disse a professora, em tom de vaticínio.

Aquele chamamento fez realmente Tiãozinho acordar. Se antes ele andava apenas triste, desde então começou a nutrir uma revolta com tudo e com todos que, não aguentando mais, o fez, no meio da madrugada, pegar suas coisas e fugir de casa, deixando para trás seus pais e seus sonhos. Acabou indo parar em outra comunidade, mais distante, onde descobriu que podia ganhar dinheiro e abrigo, trabalhando de fogueteiro para o tráfico. Naquele dia morreu o Tiãozinho – Sebastião da Silva, e nasceu ali o Tião fogueteiro.

Professor Sérgio Soares

As singularidades da menina Geralda

Retornando a Prosperidade, depois de um tempo afastado, encontrei com o Velho Lazin na venda que, entre um café e outro, veio me atualizar sobre as últimas acontecências da cidade. Foi então que me falou sobre a história da menina que era homem, escândalo que colocou toda Prosperidade em polvorosa. O causo se deu mais ou menos assim.

Geralda, filha caçula de outros nove filhos homens do casal de lavradores Sebastiana e José, nasceu e cresceu em um sítio humilde, na zona rural de Prosperidade. Desde muito cedo foi cercada de cuidados por toda a família – tanto os pais, quanto os irmãos, nunca deixavam a pequena sozinha, que por isso mesmo não teve contato, ou fez amizade com outras crianças de sua idade. Dessa forma, o seu ingresso na escolinha foi atrasado, mas, sem outra opção, ela começou a estudar aos cinco anos.

Muito tímida e introvertida, a pequena quase nem era notada na salinha cheia. No início e fim das aulas – bem como na hora do recreio – a menina sempre estava acompanhada por, pelo menos, um de seus irmãos, que tinham com a caçula um cuidado maior do que poderia se esperar, em uma relação fraternal.

E assim os anos foram se passando. Sempre quieta, e sem amigos, Geralda foi vendo a sua vida mudar e, por conta dessas mudanças, sua “singularidade” começou a ficar mais evidente, tanto é que a mãe sempre lembrava à menina “que nunca deveria se mostrar sem suas roupas para ninguém, nem para as professoras”. Os zelosos pais conseguiram até um atestado médico, que proibia a pequena de acompanhar as aulas de Educação Física na escola.

Até que um dia, já com seus doze anos, o que a família lutou a vida inteira para esconder, foi descoberto: quando usava o sanitário da escola, achando que estava sozinha no banheiro, foi surpreendida por um grupo de meninas que, ao perceberem uma “coisa” entre suas pernas, saíram gritando pelo corredor afora que a Geralda era um menino.

A escola virou um pandemônio, os irmãos começaram a brigar nos corredores para defender a irmã, e a confusão só terminou com a chegada dos pais que pegaram Geralda e os irmãos, e nunca mais foram vistos em Prosperidade. Abandonaram o sítio, e vizinhos próximos disseram que eles se mudaram para o Norte do país, lá pras bandas do Pará, onde Sebastiana tinha parentes.

Lazin contou essa história com requintes de crueldade, dizendo que a cidade inteira havia sido enganada pelos pais da menina, que criaram um menino, como se fosse menina. Pausa para mais um café, expliquei (de maneira didática) para o Velho que aquilo era incomum, mas possível de acontecer e que, na verdade, a “coisa” que as adolescentes viram entre as pernas de Geralda, era apenas uma parte da genitália dela que havia se desenvolvido mais do que o normal. A Medicina chama isso de Pseudo-Hermafroditismo feminino, que é quando o clitóris da menina se desenvolve de maneira anormal, assemelhando-se a uma genitália masculina.

Findo o café, me despedi do Velho, e tomei meu rumo.

Professor Sérgio Soares

Ideologismo e Educação: uma combinação mais-que-imperfeita

Dias atrás, acompanhei no Twiter uma discussão a respeito de um vídeo postado por uma mãe, onde se viam alunos de uma escola pública em cima das carteiras, rebolando até o chão e simulando cenas de sexo, ao som de funk raiz. Nada de novo para quem já trabalhou na rede, mas o que me chamou a atenção foi a colocação, feita por um dos interlocutores, de que a solução para essa situação seria a adoção do modelo de escolas cívico-militares em todo o país. Nesse momento, deixei de ser mero expectador e expressei minha opinião sobre o assunto, que passo a dividir aqui.

Atendendo a promessa de campanha eleitoral do atual Governo, o Ministério da Educação, conjuntamente com o Conselho Nacional de Secretários de Educação – CONSED e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Ensino – UNDIME, publicou mês passado uma Carta Compromisso Nacional pela Educação Básica onde são apresentados sete eixos essenciais para a melhoria da Educação Básica, Ensino Médio-Técnico e a Educação de Jovens e Adultos no Brasil, e um deles é justamente a construção de 108 escolas cívico-militares até 2022, 27 a cada ano, uma em cada unidade da Federação.

A motivação para tal investimento seriam os resultados alcançados nos indicadores oficiais pelas escolas militares – 6,99 ante 4,99 das escolas civis. Outro motivo (que explica a discussão em torno do vídeo) é a questão disciplinar nesse modelo de ensino, em oposição à falta de hierarquia e respeito nas escolas públicas. Até aqui nada de errado, o que não condiz com a realidade é a validação desse discurso como sendo a solução para o problema da Educação Básica no país (como feito dentro da discussão na rede social, mas que também é corrente fora dela), pois isso é uma falácia, já que o investimento nesse modelo vai ser limitado na quantidade – uma para cada estado da federação, por ano, até 2022; na demanda – que deverá ser provocada pelo estado e na sua destinação – voltado apenas àquelas escolas com histórico de vulnerabilidade social, portanto, sem condições de responder às necessidades da Educação no Brasil.

Além desse ponto, o documento formulado pelo MEC prevê outros seis: construção de novas Creches, retomando as obras para a conclusão de quatro mil unidades que estão paralisadas; no Ensino Fundamental a retomada do Programa Novo Mais Educação que oferece uma carga horária complementar, baseada em atividades esportivas, culturais e de reforço, visando assim a diminuição da evasão escolar; o Novo Ensino Médio que prevê a oferta de conteúdos de formação técnica e profissionalizante, associados ao tronco obrigatório, bem como a retomada da proposta do Ensino Médio Integral, com seus conteúdos baseados na Base Nacional Comum Curricular para esse segmento; o Programa Educação Conectada que já está levando acesso a internet com banda larga às regiões mais desfavorecidas do país, possibilitando assim o desenvolvimento de ações de mobilização dos alunos das zonas rural e urbana; formação dos docentes, através da Rede, atualizando e qualificando um grande número de professores que lecionam sem ter a formação específica e por fim, o retorno social, baseado na curva de Heckman que preconiza que quanto mais cedo o investimento em educação, mais cedo se obterá o retorno social desse investimento.

A UNDIME, ao final da 17ª edição de seu Fórum Nacional, realizado nesse mês de Agosto, em Mata de São João, na Bahia, produziu um documento que questiona a Carta Compromisso apresentada pelo MEC, por entender que questões essenciais à construção de um novo modelo de Educação Básica, não estão nela contemplados. Pode-se destacar, por exemplo, a questão da garantia dos recursos financeiros para a execução das metas pactuadas no Plano Nacional de Educação – PNE (mesma posição adotada por especialistas da área); a solução definitiva da questão do FUNDEB com regulamentação e atualização imediata do CAQi (Custo Aluno Qualidade Inicial), conforme definido pela Meta 20 do PNE; consolidação do processo de implementação da Base Nacional Comum Curricular (Educação infantil e Ensino Fundamental) e discussão pública da Política Nacional de Alfabetização, apenas para citar os mais relevantes.

Em relação a esses dois últimos pontos vale destacar primeiro o que é, e do que se trata a Base Nacional Comum Curricular, confundida por muitos como currículo comum. A BNCC surge em 2014 a partir de uma reflexão sobre a qualidade do ensino no país, onde se percebeu uma discrepância muito grande em termos de conteúdo, e de qualidade de ensino entre as unidades da federação, mas também entre as redes – pública e privada. Assim, nasce em 2014 esse documento que define os conhecimentos essenciais que todos os alunos da Educação Básica – da Educação Infantil ao Ensino Fundamental – devem ter, enquanto direito de aprendizado, em qualquer lugar do país.

A Base não é currículo, portanto o que ela faz é apontar os rumos que deverão ser traçados nos currículos, cabendo a cada ente federado as devidas responsabilidades: Governo Federal – elaboração da Base; Estados e Municípios – elaboração dos currículos e Instituições de Ensino – atualização de suas propostas pedagógicas. Esse processo de construção da BNCC ultrapassou mandatos e sobreviveu, graças à sua qualificação enquanto Política de Estado (e não de Governo), tendo sida discutida durante cinco anos com a sociedade civil organizada, através da formação de grupos de trabalho, e da realização de Seminários Estaduais, que resultaram em três versões do documento, a última homologada em Dezembro de 2017 pelo MEC, suprimindo do corpo do texto a questão do Ensino Médio, que ainda carecia de novos estudos, por isso seria tratada em separado.

Em contraposição aos estudos apresentados pela BNCC, o MEC tornou público no último dia 15 de agosto, o caderno da Política Nacional de Alfabetização – PNA, documento que apresenta a discussão de um novo modelo de Alfabetização para o Brasil, baseado em evidências científicas, tendo como norte os princípios do Empirismo (corrente filosófica do século XVII que preconizava que as teorias das ciências deviam ser formuladas e explicadas a partir da observação do mundo, e da prática de experiências científicas), servindo-se para tal dos estudos das Ciências Cognitivas (em especial da Ciência Cognitiva da leitura), modelo já adotado desde o século passado em alguns países da Europa, nos Estados Unidos, Austrália e Chile.

Pois bem, para entender do que se trata (e onde se encontra) o Ideologismo dentro da narrativa construída até aqui, adotarei, para efeito de análise, o estado de Minas Gerais como base de comparação para o restante do território nacional. Essa opção foi feita a partir dos seguintes critérios: Minas Gerais é o estado brasileiro com maior número de municípios – 853; é o quarto em extensão territorial – 587.500 quilômetros quadrados (cabe toda a Espanha dentro de Minas); tem uma rede de ensino composta por quase 13.000 escolas públicas, dessas sendo 28% da rede estadual, 71% da rede municipal e menos de 0,5% da federal; além disso, mais de 70% de seus municípios tem menos de 20.000 habitantes. Esse conjunto de informações permite enxergar o estado como um extrato da realidade linguística e sociocultural do país. Basta, para isso, viajar de norte a sul, de leste a oeste de Minas que você poderá encontrar traços da maioria das regiões brasileiras ali representados.

Em relação às escolas cívico-militares: em Minas, acreditando que exista uma demanda grande para a implementação do modelo, qual critério adotar num estado com essas dimensões? E ainda que adotado, qual o impacto que isso traria na melhoria dos seus índices educacionais? E aí vem o lado ideológico subliminar à construção da fala – o modelo de escola cívico-militar é a solução para a indisciplina – essa é uma visão conservadora, de extrema-direita que entende que “escola boa era a escola de nossos pais, onde o professor mandava, e o aluno obedecia”.

Ocorre que a sociedade evolui, as regras de convivência também evoluem, por consequência a escola também deve evoluir. O que se percebe hoje, no tocante às questões de indisciplina, é que elas nascem fora da escola, motivadas por questões socioculturais, mas explodem dentro de uma sala-de-aula onde alunos e professores estão desmotivados, e forçados a ficar confinados dentro de um espaço comum. Então o problema não é a falta de disciplina, mas sim a falta de investimento, de política pública para a educação básica, que não existiu durante os últimos vinte anos.

Outro discurso muito comum, vindo dessa direita conservadora, é que o aluno tem que saber ler e escrever, e fazer conta, o resto é discurso de esquerda. Outra falácia. Realmente, como o Estado ficou ausente das escolas por duas décadas, preocupado apenas em investir em novos Campi para as Universidades, e na transformação das Escolas Técnicas em Institutos Federais de Ensino, o campo ficou aberto, e propício, para que surgisse um discurso mais alinhado com essa esquerda, altamente radical, que governou o país. Agora não se pode ser tão minimalista para pensar que, excetuando a leitura e as continhas, todo o resto é lixo ideológico de esquerda.

E ainda, em que pese toda a seriedade dos estudos da Ciência Cognitiva da Leitura, é preciso saber do que estamos tratando quando se fala em ler um texto. Qual a concepção de texto para o MEC? Texto seriam as fábulas e lendas do folclore brasileiro, ou apenas os romances de Guimarães Rosa e Machado de Assis? E quando se lê um mapa, ou interpreta um gráfico? Isso não é leitura textual? Afinal, existem textos verbais e textos não verbais, sendo uma definição possível para texto “toda construção linguística, gráfica, sonora ou sensorial dotada de sentido, que produza ou leve uma mensagem a dado receptor”.

Desconstruindo, assim, esse discurso empobrecido da extrema-direita sobre leitura e escrita, vale a explicação: a leitura é um processo de decodificação dos signos (que podem ser gráficos ou não) de uma mensagem, portanto, tão melhor será essa decodificação (ou entendimento), quanto maior for o repertório de signos do indivíduo em questão, no caso aqui – a criança (note-se, portanto, a relevância das variantes culturais e regionais, no caso de Minas).  Quanto à escrita, será maior a habilidade da criança com o texto, quão maior for a sua capacidade de leitura, portanto, quanto mais eficiente e completo tiver sido o repertório de signos apresentados a esse educando, durante seu processo de alfabetização.

E as continhas, onde entram? Esse tema aparece na PNA como uma forma de “alfabetização” matemática, a que chamam de “numerácia” (“literácia” para a leitura), mas já existe uma discussão em curso na Academia onde se pensa o Ensino de Matemática (e das outras áreas das Exatas) através de metodologias alternativas (que não a tabuada) e que permitam ao aluno, ao invés de decorar uma regra, entender de que maneira ela se aplica, descobrindo, dessa forma, que nem sempre a resposta prevista na cartilha será a solução para o problema, desenvolvendo no educando o salutar princípio do questionamento científico e, automaticamente, do senso crítico. Esse conceito é perfeitamente aplicável nos ciclos iniciais, através das atividades lúdicas.

É possível, então, que os estudos realizados pela Base Nacional Comum Curricular – em fase de implementação – trabalhem em consonância com a PNA e suas evidências científicas, até porque, em muitos momentos, eles falam a mesma coisa, mas o que não é correto (nem recomendado) é que baseado em um cientificismo, amparado nos princípios filosóficos do Empirismo, o Programa Nacional de Alfabetização surja como um método substitutivo à Base. Por isso a UNDIME cobra participação nas discussões, pois essa é nitidamente uma marca de Ideologismo na narrativa, visto que a Base surgiu e foi construída dentro de outro matiz ideológico-partidário.

Em uma sociedade do conhecimento como a de hoje, onde se espera que o cidadão seja cada vez mais multitarefa, conectado e apto a descobrir sentido nas novas formas de comunicação, é inconcebível imaginar um modelo de Educação que não siga nessa mesma linha, que não transforme o professor em um mediador do conhecimento, e onde o aluno não assuma um papel de protagonismo na sua formação. Fazer diferente disso é alimentar o discurso “escola boa era a escola de nossos pais…”.  Muito antes, as grandes escolas das redes privadas já haviam percebido a necessidade de se reinventar nesse processo de ensino-aprendizagem, por isso hoje estão caminhando anos-luz à frente da rede pública.

Sendo assim, afirmo peremptoriamente que Ideologização nenhuma, nem à Direita, nem à Esquerda, contribuiu ou poderá contribuir para o resgate da Educação no Brasil, pois enquanto uma e outra se perdem na formulação de teorias, ou no resgate de modelos de ensino do século passado que justifiquem seus discursos, a Educação Básica agoniza em uma UTI, com escolas quebradas, alunos perdidos e professores apavorados, todos querendo achar uma forma de fugir daquele espaço.

Enquanto isso, seus grandes problemas ficam esquecidos como: a formação docente ineficaz (a Academia – em especial as Licenciaturas – forma cada vez mais professores, mas com pior qualidade e menos preparados para enfrentar os desafios que a carreira impõe); a questão das mudanças metodológica, de planejamento e de avaliação, princípios para a implementação da Base, sem os quais ela não se torna funcional; a ruptura no processo de ensino-aprendizagem na passagem de segmento – em especial do Fundamental I para o Fundamental II – como demonstrado nos indicadores de desempenho do IDEB e o não cumprimento da meta 6 do PNE que prevê implementação do tempo integral em todas as Escolas de Educação Básica do país (esse é um bom exemplo – o tempo integral – adotado pelas escolas militares que deveria ser seguido), para citar apenas alguns.

Portanto, não adianta que o MEC baseie seu discurso em uma visão cartesiana de Educação, que se prende a números e índices (sendo que esses indicadores só têm valor quando analisados e ponderados dentro de um contexto, e de uma série histórica), nem tampouco pense que vai resolver o problema da Alfabetização , importando modelos que deram certo em outro contexto, em outro país (e no século passado). Basta lembrar, mais uma vez, o exemplo de Minas Gerais – tente aplicar, unicamente, os estudos da Ciência Cognitiva, em um território como o mineiro, com sua diversidade social, cultural e linguística que (além de demorar) você vai chegar à conclusão de que precisa, de fato, construir uma Base, um roteiro comum, que permita a cada região desenvolver seus currículos, respeitando a cor local e a diversidade intrínseca aquela comunidade, sendo esse o caminho que se apresenta para melhorar o nível de alfabetização da rede, e como consequência os indicadores e a Educação Brasileira como um todo.

Professor Sérgio Soares