O rapto da “Virgem de Porcelana”

27.03.06

Dia desses, saindo da missa, avistei Seu Lazin sentado num dos bancos da praça, pitando seu cigarro de palha. Então resolvi parar e puxar um dedo de prosa com esse sábio velho.

Conversa vai, conversa vem, e vimos saindo da igreja a viúva Sossegado, que como boa beata, era sempre a primeira a chegar à Missa, e só saía quando Padre João Maria, já cansado e com fome, aceitava seu convite para o tradicional repasto dominical em sua casa. 

Assim, saía aquela velha toda encorcorada, com seu traje mais preto que as penas do anú, e o véu cobrindo o rosto. Padre João Maria, como era do tipo folgadão, seguia a incansável beata, com seu passo de pé de valsa, mas essa é uma outra história.

Revendo aquela cena fiquei intrigado pensando como em uma cidade tão pequena, poderiam existir tantos tipos incomuns como aqueles que o velho Lazin não perdia a chance de me apresentar, através de seus causos? Para não perder o costume, pedi a ele que me contasse a história daquela viúva, de nome tão esquisito quanto sua figura.

O bom velho deu mais uma tragada, ajeitou-se no banco e começou a contar:

Diz a história que a família Sossegado veio parar aqui em Morro Grande logo depois que os homenzinhos da Laranja por aqui passaram, por isso é uma das famílias mais tradicionais dessas bandas, e que ajudou a construir a cidade.

Na sua história tem todo tipo de gente – coronel rico, coronel quebrado, louca, bandido, padre e até bispo, mas a personagem mais famosa da família foi, sem dúvida, a “virgem de porcelana”.

Segundo contam, a viúva, de nome Maria das Graças, casou-se com um primo, de nome Tomás, como era bem do costume dessa família, pois, assim, na falta de algum deles, os bens permaneciam nos domínios dos Sossegado.

Apesar do nome, essa gente sempre foi muito agitada, e não perdia a chance de se meter em política e na vida clerical da cidade, tirando ou colocando Padre quando seus interesses eram contrariados, ou quando achavam que os dogmas da Santa Sé estavam sendo corrompidos.

Foi justamente por esse espírito belicoso que Dona Maria das Graças Sossegado ficou viúva ainda jovem, quando seu marido, Coronel Tomás Sossegado (que já nem tinha mais terras, mas não abria mão do título), à época candidato à vereância municipal, meteu-se em uma briga com os D’Agosto, família cuja tradição na cidade, era tão antiga quanto a rixa que separava as duas linhagens. Assim, durante o pleito municipal, o Coronel Tomás sacou da sua peixeira e atacou seu adversário político, o Dr. José D’Agosto, que, mais rápido, tacou-lhe uma azeitona no meio das fuças.

O velório foi motivo de frenesi, afinal não era todo dia que morria um morador tão ilustre na cidade. A viúva cuidou das celebrações mortuárias com esmero digno de um monarca, com direito a desfile do cortejo fúnebre pelas ruas e até missa de corpo presente celebrada em Latim, especialmente pelo Bispo da Arquidiocese, que veio da Capital especialmente para tal sacramento.

À celebração compareceram todos os Sossegados vivos, inclusive os dois filhos: o primogênito, Padre Pedro Sossegado, que fora enviado ao Seminário de Santo Onofre assim que completou idade, e Maria da Saudade, filha mais nova, que estava encomendada para o Convento, aguardando apenas completar os anos necessários.

Nessa época, Maria da Saudade era ainda uma menina, com apenas 13 anos de idade, mas já carregava aquela que seria sua marca na história da cidade, um véu branco, de fina renda, que cobria o rosto, deixando de fora apenas seus longos cabelos loiros, que corriam pelo seu ombro como as águas do Paraibanha que desciam em direção ao mar, contrastando com a alvez da sua pele, clara como a mais fina porcelana.

Além dos familiares mais próximos, somente o Padre João Maria e o Doutor Andradas –  conhecido como o “homem dos cabelos de fogo” – já tinham avistado seu rosto descoberto, e muitos apostavam que, por detrás daquele véu, devia se esconder a moça mais bela daquelas terras.

Passado o sepultamento, a viúva Sossegado (que foi como ela passou a se denominar) fez cumprir o luto oficial de um mês, prorrogado por mais seis meses e, não satisfeita, só liberou a família do enlutamento após três anos decorridos.

Foi nessa época que chegou à cidade, vindo da capital, um jovem moço cujo nome ninguém conhecia, dele só sabiam o ofício, pois vivia pelas ruas e pela praça declamando versos de amor, de bravura e de amizade. Para toda situação, o Poeta, como passou a ser chamado, trazia à boca uma estrofe.

Numa das manhãs de domingo, após a missa de três anos e meio de falecimento do Coronel Tomás Sossegado, o Poeta divisou aquela que jurou ser sua diva, a razão de toda sua inspiração – ao passar pela Praça, a jovem Maria da Saudade foi assaltada por versos de ternura que falavam do encantamento de um poeta diante da beleza velada naquela que chamou de “Virgem de Porcelana”.

Ao ouvir os gracejos do rapaz, a viúva Sossegado tratou de apertar o passo e puxar a jovem Maria, não deixando passar a chance de excomungar o moço, que ainda permanecia em estado de graça, diante da visão que acabara de ter.

Desse dia em diante, ouvia-se pelas ruas da cidade apenas versos de paixão e encantamento pela “Virgem de Porcelana”, entoados por um jovem poeta apaixonado.

Como a casa dos Sossegado era cercada por um grande muro, várias vezes se viu a viúva correndo de garrucha em punho, atirando sal no pobre moço que, em vão, tentava cortejar sua amada escondida naquela fortaleza.

Contudo, o amor tem razões que a própria razão desconhece por isso o jovem não desistiu da empreitada. Até que um dia, enquanto a viúva acabava de guardar os paramentos da missa, a jovem Maria distraída sentou-se em um dos bancos nos fundos da igreja.

Vendo a chance tão esperada, o jovem galante não perdeu a oportunidade e, entrando na igreja como um penitente – de joelhos e cabeça baixa – para não ser reconhecido, aproximou-se de sua musa, confidenciando algo em seus ouvidos, saindo logo em seguida, num galope só.

O velho Lazin parou, pensou, acendeu outro pito e continuou:

O que foi que o jovem poeta falou com a sua amada, ninguém sabe, o que se sabe é que, na manhã seguinte, ao chegar no quarto da filha, a viúva encontrou apenas a cama vazia. A velha saiu como uma louca gritando pela cidade afora, atrás de quem soubesse informar sobre o paradeiro da moça.

Porém, como durante tanto tempo ela escondera o rosto de Maria, não era de surpreender que passasse despercebido pelos moradores da cidade, um jovem casal apaixonado, que de mãos dadas tomou o rumo da estrada, e nunca mais foi visto por ali.

Surpreso com o final daquela história, perguntei ao velho amigo qual fora o fim da velha viúva?

Segundo ele, depois de muito tentar, em vão, localizar a filha, a viúva doou em vida todo o patrimônio da família à Diocese, evitando assim que a ingrata herdasse um tostão que fosse, e se entregou de vez ao ofício de beata e zeladora da Igreja de Morro Grande, e dos Padres que por ali passariam, até o fim de seus dias.

Mas a moça e o poeta? Deles nunca mais se tiveram notícias ? Perguntei curioso ao velho.

Mais uma baforada tranquila, e o bom amigo assim terminou mais esse causo.

Dizem que pouco tempo depois, foi visto um casal subindo em direção à Lima Duarte, que chamava a atenção pela alegria que transparecia em seus rostos, e pelos versos de amor que eram entoados pelo jovem moço. Esses versos foram ouvidos até que eles adentraram as matas da Serra do Macaco Bujio, um lugar mágico no meio de um grande paredão de pedras, e de onde até hoje se ouve, nas noites de lua cheia, entrecortados pelo cantar do macaco que dá nome ao lugar, os versos apaixonados do jovem Aedo para sua musa, a “Virgem de Porcelana”.

JRO

A estória da fundação de Morro Grande

Dia desses estávamos sentados na Mercearia do Geraldo o velho Lazin, o índio e eu tomando uma branquinha, e jogando conversa fora quando passou na televisão uma notícia sobre uma cidade do nordeste, construída dentro da cratera de um meteoro, que teria caído por lá há milhões de anos.

O assunto no boteco então descambou para a astronomia. Cada um dos bebedores de plantão deu a sua opinião sobre fim do mundo, astrologia, influência lunar e por aí afora. Até história de lobisomem apareceu. Foi aí que o velho Lazin deu uma pitada, tomou mais um gole, se encheu de sabedoria e resolveu se pronunciar. O boteco inteiro, então, parou para ouvir:

Disse o velho que, há muito tempo atrás, bem antes da abertura do Caminho Novo, e antes mesmo do velho alemão passar por essas bandas fazendo suas medições, quando a Pedra do Paraibanha ainda era um grande bloco, e o Rio um filete d`água, numa noite de sexta-feira 13, em agosto, mês de mau agouro, os céus da região se encheram de um clarão vivo e a noite virou dia. Todos os bichos e criaturas da mata se assustaram, até o Saci se escondeu dentro do bambu com medo daquela luz toda.

Foi então que, dos céus, desceu uma grande bola de fogo que caiu no chão fazendo o mundo tremer, segundo o bom velho parecia que a terra ia se rasgar ao meio. O impacto foi tão grande que foi sentido até lá pelas bandas do Rio de Janeiro.

Passado o susto, a bicharada começou a sair das tocas para olhar em volta e tomar ciência do acontecido. O Saci, como bom moleque do mato, ficou olhando de espreita por dentro de um buraco do bambu, aguardando para ver no que dava aquela confusão toda.

De repente, a grande bola começa a se abrir ao meio, como os gomos de uma laranja, e de dentro dela começam a saltar uns homenzinhos bem atarracados, de cabeça grande, corpo pequeno e sorriso no rosto, que saíram em disparada correndo as matas e morros da região, catando tudo que encontravam pela frente, mato, bicho e até gente dos vilarejos próximos.  Feita a cata eles voltavam tão rápido quanto foram, para dentro da Grande Laranja, e lá ficavam por um tempo. Então, saíam em disparada novamente e voltavam com nova leva. Esse vai-e-vem estendeu-se por toda noite-dia, mas o certo é que, ao amanhecer, a bola já não estava mais lá e no seu lugar ficara a Pedra, cortada como hoje nós a vemos, e o Rio, antes um filete, abrira-se em largas corredeiras e, assim, dentro desse vale, nascera a alvissareira Morro Grande.

Terminado o causo, a plateia em volta fez o sinal da cruz e tomou mais um gole para reforçar a reza. Foi então que um sujeito, sentado no canto do boteco, levantou-se e desafiou o velho Lazin a provar que aquilo tudo era verdade. Sem levantar os olhos, o velho tomou mais um gole, deu mais uma pitada e continuou o assunto sem dar conta do fulano.

Disse ele que até hoje, nas noites de sexta-feira 13, em agosto, do alto da Pedra, é possível ouvir a barulhada que a Bola fez quando caiu, e ver a mata toda se mexendo num rebuliço só.

Disse mais, para aqueles que não acreditaram no ocorrido – nessa mesma noite, se o sujeito descer a Pedra, amarrado a um cipó, vai poder ver as marcas das unhas dos homenzinhos que rasgaram o grande bloco, isso mesmo, as unhas, pois, segundo dizem, eles rasgaram o maciço na unha.

Conta ele também que no fundo do Paraibanha, entre as corredeiras, os pedaços da Laranja que se partiram, se transformaram em ouro e estão lá até hoje para quem quiser pegar.

O sujeito desbocado deu de costas e saiu pisando duro, então o índio perguntou para o velho amigo se ele sabia o que tinha sido feito das coisas que os homenzinhos tinham levado para dentro da Laranja. O velho contador deu mais uma pitada, abriu um sorriso e continuou.

Na época do acontecido a região era muito pobre de mato, tinha uma ou outra braquerária, mas, em grande parte, a terra era ruim. O Rio ainda era um riacho, por isso não ajudava muito. O certo é que, depois que os homenzinhos se foram, a região mudou, o mato vicejou dando forma e vida às matas que vemos na Pedra, na Grota dos Macacos e em todo o entorno da cidade. As corredeiras do Rio trouxeram o verde e também peixe em abundância, e assim Morro Grande floresceu. Dizem que para marcar a sua passagem por aqui, eles deixaram as bromélias e as orquídeas que até hoje cobrem a região.

Quanto aos animais retirados da mata, eles teriam sido comidos pelos exploradores em sua viagem de volta. Mais ainda permanecia uma dúvida em todos que escutavam o causo. E as pessoas que foram capturadas? Que fim levaram? Foram devoradas também?

Uma pitada, e mais um gole, e nosso contador de causos esclarece a todos.

Conta-se que as pessoas que foram retiradas dos arraiais vizinhos tiveram um fim diferente. De cada grupo de dez, dois foram escolhidos e levados na Laranja, os outros foram, logo em seguida, devolvidos às suas casas. Que fim tiveram os que foram levados, ninguém sabe, mas até hoje tem gente que jura ver alma penada caminhando próximo à Pedra, de noite.

Um outro gole e mais um sinal da cruz da plateia quieta, e concluiu o velho Lazin.

Mas nem todos os homenzinhos foram embora, dizem que alguns se assanharam com umas caboclinhas que encontraram na mata, e por aqui ficaram, deixando hoje a sua marca nos herdeiros que viveram, e até hoje vivem nas fazendas da região.

Ouvindo meu amigo terminar seu causo não pude deixar de imaginar que a família do Tiziu, um sujeitinho famoso na cidade, bom de coração, mas ruim das ideias, seria herdeira dos primeiros habitantes de Morro Grande (cabeça grande, corpo pequeno, e um sorriso congelado no rosto). O certo é que, herdeiros ou não, a gente que nasceu nessa terra é gente humilde, mas de valor, e que soube preservar a beleza, o encanto e a simplicidade das terras das Gerais.

JRO

A Praça de Nossa Senhora do Rosário no “31 de Março”

20.07.2004

Dia desses estava eu sentado na porta de casa quando meu vizinho, o Sô Lazin, uma figura folclórica aqui em Morro Grande, famoso pela prosa solta e pelas mentiras mais soltas ainda, veio me contar a versão nativa do episódio histórico de 31 de março de 1964, quando o “General Popeye” dirigiu-se com suas tropas para o Rio de Janeiro, passando pela região.

Segundo o velho Lazin, naquela manhã de março, a cidade acordou mais cedo com uma movimentação diferente na Praça de Nossa Senhora do Rosário – barracas de campanha, soldados, obuses e caminhões invadiram o prazível espaço transformando-o num cenário de guerra. Logo, logo as ruas se encheram de curiosos que começaram a construir as mais diferentes conclusões sobre o ocorrido, mas, de acordo com o velho, até hoje se acredita que aquela era uma manobra dos alemães que vieram tentar estabelecer na alvissareira Morro Grande um novo posto do Reich Alemão, e que o próprio general era descendente direto do Herr commandant . Esse episódio não durou mais do que um dia, mas foi o bastante para que a cidade sofresse uma revolução, maior que a de 64.

Ao desembarcar de seu veículo, o Comandante logo se dirigiu à Casa Paroquial onde imediatamente destituiu a autoridade maior da cidade, o clero, de sua morada e estabeleceu naquele domicílio o centro de comando das operações abancando-se da cama do pobre pároco.

Contam que ele era uma figura esquisita, meio caricata, com um cachimbo sempre colado à boca, e um ar de constante prisão de ventre, ou nas palavras do velho Lazin, cara de peido. Ao falar, suas palavras sempre soavam como em um discurso de tribuna, alteando os finais de frase, o que realçava a impressão de que era uma pessoa com constantes problemas intestinais que, para segurar os ímpetos viscerais, espremia a voz e depois à soltava em alto som. A própria tropa comentava à boca pequena que durante as noites de campanha era comum vê-lo num vai-e-vem às casinhas.

Nunca Morro Grande ficou tão movimentada; as crianças, como pequenos silvícolas que recebem a visita do homem branco, encantaram-se com o poderio bélico daquele grupo. E não era pra menos, estava ali colocado o contingente de uma região militar inteira, que estava preparada para defender o solo pátrio da ameaça comunista, até o último homem.

Além dos pimpolhos, as jovens moças da cidade adoraram a movimentação dos rostos camuflados, elas que até então estavam acostumadas com o cheiro de bosta de boi dos peões da cidade, encantaram-se com o odor do diesel dos veículos e do chumbo da munição. A cena lembrava um pouco os tempos da Roma antiga, quando os soldados romanos conquistavam a terra, mas também o coração das aldeãs com o seu charme aquilino, barba feita, banho tomado e cuecas (coisa de romano), mas que era uma invenção altamente sensual para aquelas jovens bárbaras acostumadas com o cheiro de estrume de seus machos. Por isso, na bela Morro Grande aconteceu um fato que ficou famoso na memória do povoado, e até hoje é falado pelas tricotadeiras de plantão.

Na cidade existia uma linda moça, morena cabocla, de cabelos longos e ondeados como as corredeiras do Paraibanha, pele da cor da jabuticaba e olhos negros como a noite. Esse belo espécime de fêmea era famosa, não só pela beleza, mas também pelo pudor com que fora criada pelos pais. Porém, por trás daqueles belos olhos, escondia-se um braseiro adormecido aguardando ser ateado. Essa jovem chamava-se Maria e era filha dos donos da pensão, que fora “confiscada” pelo “General Popeye” que os incumbira de fornecer água e alimentação para a tropa.

No exercício do “serviço militar” Maria teve que ajudar os pais e, nesse contato, conheceu um jovem soldado, famoso entre a tropa pela boa lábia com as donzelas. Não demorou nada para que a boca de Maria estivesse colada à boca do Dom Juan belicoso. O curioso do acontecido não foi o beijo, mas na verdade a série de beijos que aconteceram em seguida – Maria, que era até então contida e recatada, viu seu fogo se acender e tomar conta de seu corpo juvenil; segundo o velho Lazin a moça ficou famosa na cidade por ter beijado, numa tarde, um pelotão inteiro, com cinquenta homens, tendo ganhado a alcunha de Maria Batalhão. Ainda, segundo meu vizinho, esse recorde não foi quebrado até os dias de hoje e conclui sabiamente: água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer, ninguém segura.

Dentro do plano de conquista do “General da Banda” era necessária a tomada de todos os pontos estratégicos que circundavam a cidade, garantindo, assim, total domínio sobre as entradas e saídas e consequente controle sobre o acesso à cidade do Rio de Janeiro, objetivo principal da empreitada. A Rua do Rosário, a Rua do Aristides, a Peneira, a Rua do Rocio e todos os outros pontos estratégicos foram devidamente entrincheirados, mas restava um problema, Morro Grande é uma cidade encaixada dentro de um vale, cercada de um lado pela altivez da Pedra do Paraibanha vislumbrando o horizonte, e de outro por uma série de matas e serras menores, sendo uma das mais estratégicas a Grota dos Macacos. Como era uma região inóspita, e o tempo era pouco para fazer um reconhecimento, Herr Commandant ordenou que fosse convocado à prestar serviço pátrio o melhor mateiro da região.

Sô Lazin, conta esse ocorrido com um sorriso largo nos lábios. Na cidade existia um rapaz famoso pela coragem e bravura, daqueles que pegavam o touro pelo chifre, mas também por conhecer cada trilha, cada mato, cada canto da região. O rapaz, de pele avermelhada, tinha, por isso, o apelido de índio e quando foi apresentado ao General demonstrou-se soberanamente insubordinado e só aceitou a empreitada quando foi convencido pela ponta da baioneta.

Assim sendo, diante de argumentos tão fortes, saiu com dois grupos de batedores e um sorriso “resignado” no rosto. Lazin conta que o índio era moço de caráter exemplar, mas que não aceitava cabresto fosse de padre, polícia ou prefeito – o único cabresto que havia permitido receber fora da sua preta, que havia domado aquele cavalo chucro.

Chegando ao pé da Pedra do Paraibanha indicou a trilha aos batedores, e logo já se viam no alto do monumento as bocas dos canhões mirando ao longe. Seguiu caminho e adentrou a Grota dos Macacos com o grupo de combatentes. À beira da trilha indicou para os jovens soldados o “melhor caminho”, deu de costas e saiu rindo matreiro. Conta o velho Lazin que até hoje, quando se entra na Grota, é possível ouvir os tiros de fuzil dos soldados perdidos que nunca mais foram vistos.

Na manhã seguinte, a Praça de Nossa Senhora do Rosário já havia reconquistado sua independência, as barracas, as tropas, os soldados o General e toda sua Banda já haviam se retirado. O pároco já voltara a ocupar a posição de Senhor do seu feudo, e a vida simples daquela gente havia tomado seu curso. Na memória ficaram as estórias que compõem uma parte da história do Brasil. Verdadeiramente verossímil ou verossimilmente verdadeira ninguém sabe, o que é certo é que causos como esse que o velho Lazin me contou é que constroem a cultura de um povo.

Quando perguntam ao velho se ele não exagerou, um pouco além da conta, ele se enfurece dizendo que tudo é verdade, das verdadeira, mas talvez meu velho amigo pudesse apenas repetir uma frase célebre de um outro contador de causos, famoso na literatura brasileira, de nome Chicó, que quando perguntado sobre a veracidade de suas histórias, sabiamente respondia: —— Num sei, só sei que foi assim!    

JRO 

****Em pleno exercício do gozo de minhas férias até 19.01.2020****

Promessas de Ano Novo

Mal as luzes do Natal se apagaram, e o brilho dos fogos de artifício já anuncia que mais um ano chega ao fim, e como reza a tradição é hora de construir meus votos para o Novo que se aproxima, fazendo assim o balanço das perdas (e dos ganhos) no ano que ficou para trás; renovando promessas – e fazendo novas; tempo de reflexão e de autocrítica: de perceber o que ficou pelo caminho, e o quanto de caminho faltou caminhar; de entender que o “não definitivo” recebido, foi capaz de abrir um mundo de possibilidades, que aquele “sim instantâneo” não seria capaz de proporcionar certamente; de assumir que faltou mais tempo para o sorriso e para o carinho despropositado, do que aquele gasto com a rede social e com as relações de trabalho. Enfim, hora de me posicionar novamente, por isso em 2020 prometo:

Amar mais ainda a mim mesmo, condição inequívoca para que seja capaz de amar o outro;

Sorrir mais, tanto em intensidade quanto em quantidade, por que a vida sem sorrisos é cinza e sem graça;

Observar mais as nuvens no céu, dedicando mais tempo ao singular, do que ao plural;

Olhar a vida com olhos de simplicidade, pois só assim serei capaz de enxergar a beleza e a substância das coisas;

Sonhar mais, pois o idílio é o que irá tornar minha vida mais doce, e se viver apenas no amargor do real, me tornarei um sujeito cartesiano.

Lutar pelos ideais, os de hoje e os de ontem, os meus e os nossos – 2019 foi apenas uma versão Beta do que ainda está por vir;

Escrevinhar mais, pois hoje descobri que minha vida é múltipla, que meus “Eus” são vários em um só, desdobrados em heterônimos e narradores, que se completam e que se misturam, em um universo ficcional que ainda estou aprendendo a descobrir;

Em 2020 quero continuar sendo um realista esperançoso, mas esperançoso do verbo esperançear que significa instigar, atiçar, envolver e que irá sempre em “busca de”, ao contrário daquele que passivamente apenas, espera. Pois no meu Novo Ano que se aproxima ainda há muito que amar, muito que sorrir, muito que olhar e observar, muito por que lutar e sonhar, muito para ser escrito nas páginas das minhas articulâncias.

E a você, que está aí do outro lado dessa tela, desejo que no próximo Ano você possa se (com) prometer mais com pessoas, com ideais e com projetos, isso por que a vida sem relacionamentos, sem objetivos e sem desafios se torna morna, monocromática e sem ritmo, uma Ode ao Insucesso, um Drama de final infeliz ou uma Trama sórdida, de roteiro baseado em angústia e decepção.

Por isso, para que a história de sua vida (ao final de 2020) não se encaixe em nenhuma dessas narrativas acima citadas, comece agora a escrever diferente, a pensar diferente e a amar diferente, pois só assim você poderá ser realmente Feliz no Ano Novo! (quem sabe???)  

Seja Bem-vindo Novo Ano Novo de 2020!!

Professor Sérgio Soares

Então, é Natal por quê?

24 de Dezembro já está se aproximando de novo, e no último Natal que passei (em 2018) me pareceu que o “Bom Velhinho” se despiu da tradicional roupa vermelha, cortou a barba branca e jogou fora os tradicionais presentes, para assumir um visual mais apocalíptico – bem no estilo Grynch – vestido de verde, com um mau humor infernal e um saco cheio de maldades e travessuras, posto que:

Nesse ano, logo no primeiro mês, 2019 já foi arrasado por um mar de lama e sangue em uma das maiores tragédias não naturais da história recente do Brasil e, se não bastasse essa, foram outras duas, logo nos meses seguintes – o incêndio no “Ninho do Urubu” que tirou a vida de 10 adolescentes no Rio de Janeiro, enquanto que, em São Paulo, uma dupla mais-que-imperfeita, resolveu brincar de Pulp Fiction, e arrasou a Raul Freire, deixando um rastro de luto e dor.

Nesse ano, a política que viveu um processo de transformação histórico após as Eleições para Presidência da República (onde a Esquerda perdeu sua hegemonia, e foi derrotada por um projeto de Direita), passou por tantos revezes durante os últimos 11 meses, que o Presidente hoje não tem mais partido, o Ministro da Justiça e Segurança Pública virou réu e o Congresso Nacional protagonizou cenas de amor – na mais bela representação do toma lá dá cá – e ódio – com a troca de farpas e tiros entre “colegas” da mesma bancada – assim quem era amigo virou inimigo, e quem era “pró” virou “contra”.

Nesse ano, a Justiça nos fez ter a certeza de que nem sempre a balança é justa (e pende para o lado correto), e que ainda vale no Brasil a Lei do “compadrio” e do “rabo preso”, onde cavaleiros e damas togados, decidem não mais baseados em critérios técnicos e constitucionais, mas sim em conveniências político-ideológicas (decisões essas tomadas para salvar a pele de apenas um), que podem colocar em risco toda a sociedade, devolvendo para as ruas a pior estirpe do mundo do crime. Enquanto isso, milhares aguardam reclusos em uma cela, a boa-vontade da “Dama de olhos vendados”, que é tão célere para poucos, e tão morosa e injusta para a maioria.

Nesse ano, o mundo ardeu em chamas, primeiro na Amazônia, depois no Cerrado, depois na Califórnia e hoje na Austrália, mas somente contra o Brasil os arautos do Meio Ambiente, como Gretas e Macrons, destilaram sua ira contundente, e seu discurso reprobatório, como se aqui fosse o pior lugar do mundo para se viver. Enquanto isso, no mundo real, o fogo consumiu vidas na África, e a queima do carvão, que alimenta as usinas de energia na Europa, continuou em brasa viva.

Nesse ano, a Educação Brasileira mostrou (mais uma vez) que está no ritmo e no caminho errados, com um início tumultuado e troca de Ministros no MEC, mas mantendo uma política educacional para o país que tem mais de ideológica, do que de técnica. Enquanto isso, as universidades patinam no que diz respeito à qualidade de ensino e produtividade acadêmicas, e o Ensino Básico sofre com o total descaso por parte dos entes federados que, mais preocupados com suas agendas orçamentárias e políticas, se esquecem de que a Educação é um Direito Universal, força transformadora de uma Nação, e que só através dela é possível transformar as pessoas, e mudar as suas vidas. Portanto, deve ser construída com base em políticas de estado, e não de governo, que estarão sempre sujeitas aos modismos e humores dos mandatários, como hoje ainda vemos acontecer.

Nesse ano, em Minas Gerais, os servidores terão que se contentar com galinha, ao invés de Peru, nas festividades natalinas, isso porque o estado só garantiu o pagamento do 13º salário para uma categoria, a da Segurança Pública, e para as outras duas – Educação e Saúde – tomou uma postura bastante Salomônica, atendendo apenas a parcela de menor remuneração (definição baseada no caráter social, segundo o governo), mas, curiosamente, essa parcela corresponde a mais de 60% dos servidores, números alcançados a partir de uma aritmética que eu realmente ainda não entendi. Na verdade, apesar da situação orçamentária ser muito limitadora, o que se viu em Minas no ano de 2019 foram uma série de políticas nada isonômicas, onde de acordo com o desgaste político previsto, certa categoria foi claramente beneficiada, em detrimento das outras que, com menos prestígio (ou menor poder de barganha) foram esquecidas no fundo da gaveta. E ao que tudo indica, em 2020, essa política deve ser mantida.

Nesse ano, mais de mil municípios foram encaminhados para a extinção, como se uma tragédia de efeitos cataclísmicos (como a que tirou do mapa os dinossauros) os pudessem atingir. E na cauda desse cometa, pagam os justos pelos pecadores, todos colocados no mesmo cesto, como se possível fosse “eliminar” o município, sem afetar a vida dos munícipes, esses que continuarão dependendo da máquina estatal para dar conta da sua educação, saúde, segurança e empregabilidade.

Portanto meus caros, é Natal justamente porquê essa é uma data para ser vivida intensamente (em tudo que ela é capaz de simbolizar –  seu significado traz o sentido de nascimento), ainda que em 2019 não tenhamos tido muitos motivos para sorrir e comemorar. Mas não me refiro aqui apenas ao caráter religioso da celebração, em respeito às diversas crenças que não tem essa como uma data importante em seu calendário.  

Penso que o seu verdadeiro espírito não está na troca de presentes – ou na partilha do alimento em torno de uma mesa – mas sim na oportunidade do reencontro, do recomeço, da alegria e da esperança, certeza de que – ao menos em um dos 365 dias do ano – ainda podemos voltar a ser como crianças que, com sua pureza d’alma, esperam com ansiedade a chegada das boas novas, representadas pelo “Bom Velhinho”.

Minha experiência com essas festividades evoca na memória os Natais da infância onde, apesar de viver em uma casa muito simples (e muito pequena), no dia 24 de dezembro ela se transformava e, como que num passe de mágica, ficava enorme para receber todos os parentes, cada um trazendo seu quitute, sua contribuição para ser partilhada durante a Ceia, que se não era rica em sofisticação no cardápio, era pródiga e farta no carinho e no amor colocado em cada prato, e partilhado entre os parentes.

E sei que essa não é uma experiência exclusiva, nem quero fazer crer que o espírito desta data seja apenas a festa. Muito pelo contrário, conheço histórias de tantas outras casas que, sob o zinco de uma varanda simples, ainda mantém vivos o espírito do reencontro e da reunião da família (que ultrapassa os laços de consanguinidade) e, ainda que falte o peru e o vinho, comemoram e se fartam com o frango e a maionese, com a farofa e com a cerveja, esquecendo-se nesse dia das divergências e das desarmonias, celebrando com a mesma intensidade e brilho, das fartas e sofisticadas ceias das casas abastadas, onde nem sempre o mesmo espírito se faz presente.

Mas apesar de não existirem mais na minha vida os “Natais da casa velha”, até hoje essa é a data que me desperta mais emoções (muito vívidas), sejam nas canções natalinas, sejam nos enfeites das ruas e das casas, ou mesmo nas campanhas de TV, isso porque – tal como nas Madeleines, de Proust, Em busca de seu tempo perdido – os cheiros, os sons, os brilhos e as cores me fazem voltar a ser como criança – e por isso acreditar que ainda há esperança, que a vida ainda possa melhorar e menos tragédias possam nos surpreender; e que a Política possa voltar a ser, tal como na Polis grega, uma missão, cumprida em prol dos interesses da coletividade; e que a Justiça de fato possa ser justa, para todos e de igual forma; e que o respeito à dignidade da pessoa humana, aos seus direitos essenciais, possa ser tão importante quanto o destaque dado às causas ambientais; e que a Educação possa se tornar, de fato, Universal para todos, e com a mesma qualidade; e que à mesa dos pais e mães de família, em especial dos servidores públicos das “minhas Gerais”, não possa mais faltar o básico, tendo todos os mesmos direitos e garantias respeitados e, por fim, que aqueles cidadãos, possíveis vítimas do cataclismo político que será a extinção de suas cidades, possam reconstruir suas vidas com dignidade e com justiça, e o apoio da sociedade e do governo.

Por isso, desejando que o Natal de 2019 seja o melhor da vida de cada um daqueles que leem e compartilham minhas estorietas, esse escrevinhador de textículos deixa aqui seus mais sinceros votos de esperança, paz e alegria, na expectativa da chegada de um Novo Ano, que venha trazendo consigo somente Boas Novas, pois, como bem define Ariano Suassuna,

“Não sou nem otimista, nem pessimista.
Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos.
Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança.
Sei que é para um futuro muito longínquo.
Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo.”

Professor Sérgio Soares

Educação: direito universal do povo, força transformadora da Nação

Existem várias formas lícitas de se mudar de vida, dentre elas posso destacar: o anônimo da internet que de uma hora para outra “viraliza” um post, e se transforma em celebridade virtual; o moleque bom de bola, que cai numa peneira e vira astro do futebol europeu; o sujeito que dorme pobre e endividado, e acorda milionário, graças à um bilhete da MegaSena. Todas reais, e possíveis, mas só conheço uma maneira de transformar uma pessoa – a Educação. E antes que eu alguém venha dizendo que quem educa é a família, me refiro a Educação enquanto processo formativo e transformador, que permite ao indivíduo decifrar enunciados, construir sentidos e analisar o mundo à sua volta, indo assim, além dos valores subjetivos que a família pode oferecer tais como moral, caráter e honestidade.

A Escola, Casa Máter da Educação, vai muito além do Ler, Escrever e Contar, tão falado hoje em dia por movimentos conservadores, que acreditam que os desvios de rota da Escola brasileira, se resolverão através de um saudosismo pedagógico, que em nada se aplica à realidade plural e multifacetada que a vida em sociedade cobra hoje das novas gerações – é como tentar alfabetizar uma criança contemporânea, utilizando para tal uma cartilha do século passado, onde ainda se escrevia farmácia com ph.

Em textículo recente, comparei a escola (e seu desempenho) à famosa Torre de Pisa italiana que, depois de nascer inclinada, começou a ter sua deformidade corrigida graças a uma ousada intervenção de engenharia, que estaqueando toda a construção com cabos de aço, retirou a terra argilosa e lamacenta que ocupava suas sapatas, e as preencheu com chumbo, denso e pesado, que começou a devolver ao prédio uma estabilidade vertical, que nunca tinha tido antes.

A metáfora da Torre Inclinada representa perfeitamente o estado da Educação brasileira nos dias de hoje – da mesma forma que ninguém constrói um prédio para inclinar e cair, a Educação não pode ter como objetivo final ser um corpo semiacabado, incompleto e imperfeito, como o é hoje. Mas o que levou a Torre italiana a quase vir ao chão, é o mesmo motivo que faz com que o ensino no país seja ainda tão cheio de contrastes e ondulações, poucas ilhas de excelência, e um mar de deficiências – a Base, construída em terreno argiloso e lamacento, em Pisa, e por aqui abandonada e sem prestígio na Educação Infantil. Mas onde está o “engenheiro”, responsável técnico dessa obra, que está levando a Educação Brasileira a uma quase tragédia estrutural anunciada?

Na verdade, se eu for buscar um autor para essa obra, o roll de culpados pode ser maior do que toda a torcida do Flamengo, isso porque esse desastre começou a ser construído não agora, Dezembro de 2019, mas há alguns anos, na verdade décadas atrás, quando as “normalistas” começaram a desaparecer do mercado, sinalizando um gradual desprestígio desse ofício. Depois veio o Magistério, que também paulatinamente veio sendo apagado, com a facilidade do acesso às formações em nível superior em Pedagogia e, mais recentemente, em Normal Superior.

Esse excesso de especialização, causado pelo crescimento dos cursos superiores, levou à desvalorização da tarefa que deveria ser a mais importante de toda a docência, educar os pequeninos, por isso é difícil achar hoje professoras que queriam trabalhar com os ciclos iniciais (fato semelhante ocorre nas Universidades com o advento da “Doutorização” – temos muitos Doutores e Pós-Doutores nas instituições de ensino superior, e poucos Professores de fato, já que os “Doutos” não querem dar aulas nas turmas de graduação, talvez por representar algo de “menor” importância, ou ainda, menos rentável do que as Bolsas de Pesquisa que recebem (financiadas pelas Agências de Fomento).

Concomitante ao problema da carreira docente, a Educação no Brasil sofreu um profundo revés quando da implantação do projeto da Esquerda para o país que, validando seu discurso de oposição a tudo que lembrasse conservadorismo, ditadura e repressão, adotou uma postura diametralmente oposta, inspirada no modelo do Liberalismo econômico – o laissez faire – mas que de fato virou nos movimentos sociais um “deixa fazer”, ou um “libera geral”.

Essa esquerdização surgida nas universidades trouxe ainda impactos pedagógicos importantes, pois tudo que até então era visto como subversivo, revolucionário e contestador, antes restrito aos guetos ideológicos das faculdades e cursos da área de Humanas, tornou-se a práxis discursiva nos campi brasileiros, e na cauda desse cometa tomaram corpo e forma todo tipo de movimento social e político do país – do feminismo até os atuais coletivos sociais – que, tal quais os ônibus urbanos, têm para todos os gostos e opiniões.

O modelo de Educação que foi implantado no Brasil sepultou de vez qualquer brilho ou prestígio que pudesse ainda existir nas formações técnicas (como o Magistério e o Curso Normal, além dos demais cursos técnico-profissionalizantes), e assim foi difundida a cultura do Ensino Superior, como se o diploma de terceiro grau fosse o ápice do alpinismo social a que a classe humilde e trabalhadora pudesse almejar – formar um filho “Dotôr”– vendendo, assim, um sonho de realização pessoal e financeira. Para além das carreiras de ponta (segundo a visão da época), o Brasil precisava de mais professores – portanto ampliaram-se vagas (em especial no turno noturno), criaram-se novos cursos e novos campi, e incentivou-se a iniciativa privada a chegar até onde os braços do poder estatal não poderiam alcançar, inclusive através do Ensino à Distância.

Não bastasse a ampliação das vagas, dos cursos e dos campi, para que essa política de fabricação de diplomados fosse eficiente, era necessário ampliar o acesso, que deveria ser universal, e assim criaram-se as políticas de cotas, feitas sob medida para atender às tão bem quistas minorias sociai. Mas para facilitar ainda mais esse acesso, era necessário que as escolas não “embarreirassem” esses futuros novos professores, médicos e engenheiros, portanto, laissez faire, ou seja, facilita quem não complica, e assim cada vez menos retenção nas séries era o sugerido, e cada vez menos cobrança nas avaliações, era o esperado.

Como resultado da formação recebida, esses novos professores formados pela Universidade Universalista dos Movimentos Anti-Direitistas, trouxeram para dentro das salas-de-aula uma “bagagem” cultural e conteúdista “renovada” que se baseava no programa da heroica revolução marxista, leninista, socialista,  e “ista”, e mais “ista, transformando, assim, a Escola  em um palanque para a disseminação de Ideologias da Esquerda, e de construção de novas militâncias, totalmente distante do seu objetivo primordial, que é o de Ensinar, e não convencer.

Como a toda ação corresponde uma reação, como bem lembra Isaac Newton, esse “modelo de ensino” imposto ao país que não investiu na Educação Básica, e é baseado mais em uma visão de Ideologias, do que em uma prática metodológica e de conteúdos, teve como resultado um acesso universal que franqueava a entrada nos cursos superiores, mas não garantia sua saída; um crescimento sem controle dos cursos de graduação (das áreas mais nobres como Medicina, até às menos desejadas como Pedagogia) e que levou a um boom de graduados desempregados, ou trabalhando como motoristas de aplicativo (regra de ouro do mercado, muita oferta representa baixa empregabilidade); à queda na qualidade do ensino oferecido nas Redes Públicas (sofrível, para dizer o mínimo), como atestado pelos indicadores oficiais e, mais recentemente, à “descoberta” de que o ensino superior brasileiro, ao contrário do que se imaginava, apresenta baixa proficiência de ensino – confirmada pelos resultados do ENADE – e baixa produtividade e relevância científica – diagnosticada através do grande número de cursos Stricto Sensu descontinuados pela CAPES.

Retomando a metáfora da Torre de Pisa, posso afirmar que, se na Itália os engenheiros conseguiram conter a inclinação utilizando cabos de aço para sustentar a edificação (enquanto as medidas corretivas eram adotas), no Brasil, a “Torre” só não caiu ainda, graças à existência de um “estaqueamento” representado pelo Sistema de Ensino concorrente ao da Rede Pública – o da Rede Privada – que, antevendo o sinal dos tempos, veio se atualizando, modernizando suas práticas pedagógicas e investindo na qualificação do material humano (isso desde a Educação Infantil), o que lhes trouxe como consequência (por exemplo) fazer parte da fatia dos 2,5% dos alunos participantes do Pisa, que conseguiram atingir resultados satisfatórios nas avaliações realizadas no último exame.

Não existe melhoria do desenvolvimento social, econômico, da qualidade de vida e da distribuição de renda e riquezas em um país, sem um Projeto de Educação sério, consistente e que foque naquilo que realmente importa. Que invista em Educação Básica, de maneira isonômica, assegurando não só a existência da Educação Infantil (não basta construir creches e novas unidades educacionais), mas a qualidade do material humano e pedagógico utilizado para o seu desenvolvimento, base sólida como a do chumbo empregado na estabilização de Pisa.

Educação é um Direito Universal, portanto, não é despesa e sim investimento na formação dos milhões de Joãos, Marias, Josés e Alices espalhados por aí (único meio inexoravelmente democrático de transformação dos indivíduos), e que formarão a base sólida para a construção de uma Nação forte e soberana. Sem ela não haverá médicos, advogados e nem engenheiros, pois não haverá, também, professores capazes de ensinar àqueles que teriam como missão curar, defender e construir pelo país afora.

Esses dias ouvi uma expressão que chamou muito a minha atenção, e que se encaixa perfeitamente na conclusão desse textículo “EDUCAÇÃO É PRA QUEM CONHECE!” Realmente tenho que concordar, ela não é para leigo (nem para oportunista), mas para um iniciado, capaz de superar adversidades, construir pontes e unir caminhos, que a vida tantas vezes insistiu em separar, graças à sua alma de educador. E para quê faz isso? Por reconhecimento social ou financeiro? Não! O faz para não repetir os mesmos erros até aqui vistos, onde entregar à sociedade aprovados, concluintes e graduados é o que basta (como em uma verdadeira fábrica de diplomas), mas sim para transformar pessoas, essa é a sua missão! Só assim a Torre da Educação Brasileira deixará de ser, um dia, inclinada.

Professor Sérgio Soares

A Torre de Pisa da Educação Brasileira

Em uma semana onde os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) dominaram os noticiários, devido aos baixos resultados apresentados pelos estudantes brasileiros, gostaria de falar de outra Pisa, essa italiana, construída no século XII, e que é um dos grandes patrimônios históricos da Itália, e faz parte do conjunto arquitetônico da Catedral de Pisa, declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO em 1987.

A Torre é um campanário da Catedral de Pisa e apresenta uma altura do solo ao topo de 55,86 metros no lado mais baixo, e de 56,70 metros na parte mais alta. A espessura das paredes na base é de 4,09 metros e 2,48 metros no topo. Seu peso é estimado em 14 500 toneladas. A torre tem 296 ou 294 degraus: o sétimo andar da face norte das escadas tem dois degraus a menos.

Sua história se confunde com o problema estrutural que a acompanha, desde a sua construção em 1173, pois já quando haviam apenas 3 andares construídos percebeu-se que o prédio estava inclinando, em razão de problemas na fundação da obra. No correr dos séculos várias foram as tentativas feitas para corrigir o problema, mas todas sem sucesso até que, em 1990, em uma obra de engenharia ousada, técnicos estaquearam a Torre com cabos de aço, enquanto a terra arenosa era retirada das sapatas atingidas, que foram preenchidas em seguida com chumbo.

Segundo os técnicos essa operação iria garantir estabilidade à obra que, desde então, parou de inclinar. Antes do trabalho de restauração realizado entre 1990 e 2001 a torre estava inclinada com um ângulo de 5,5 graus, estando agora inclinada em cerca de 3,99 graus.

Se na Itália a inclinação da torre se deveu a um erro de engenharia, que construiu o prédio em um terreno alagadiço (por isso pouco estável), aqui a Torre é outra, mas o problema é parecido, e representa a educação oferecida aos jovens brasileiros nas duas últimas décadas que apresenta problemas estruturais (na fundação) como na italiana, pois não se deu a devida atenção e responsabilidade à consolidação de habilidades e conhecimentos básicos, que deveriam ter sido construídos lá na Educação Infantil.

E o resultado dessa deformidade estrutural foi identificado no relatório do Pisa, que é um exame de caráter trienal, proposto pela OCDE desde 2000 para as nações membros e países convidados, tal como o Brasil. No último ano a edição foi aplicada para cerca de 600 mil estudantes de 15 anos de 79 países diferentes que juntos representam cerca de 32 milhões de pessoas nessa idade. A cada edição, uma das três disciplinas principais é o foco da avaliação – na edição de 2018, o foco foi na leitura.

O programa é muito criticado por alguns setores, que alegam ser esse um instrumento da esquerda para validar o discurso oprimido-opressor, outros falam que os números não representam a realidade dos fatos, pois os grupos amostrais não são os mesmos no eixo espaço-tempo, portanto, não haveria como se falar em melhora, piora ou estagnação, mas a verdade presente nesse exame é que ele é um estrato relativizado das consequências da falta de investimentos em Educação Básica e formação docente, que não foi feito no correr dos anos, e que denota um erro estratégico de análise e planejamento educacional.

Contrariando o discurso daqueles que insistem em afirmar que o Pisa não reflete a realidade da educação no país, segundo números extraídos dos indicadores oficiais (Prova Brasil – 2017) os alunos do 5º e 9º anos do Fundamental, quanto à proficiência em Português e Matemática, apresentaram os seguintes resultados no Brasil: no 5º ano 56% foram proficientes em Português, enquanto que 44% foram proficientes em Matemática, já no 9º ano 34% foram proficientes em Português, enquanto que apenas 15% foram proficientes em Matemática. Em relação ao 9º ano, que apresentou o pior desempenho, isso equivale a dizer que, de cada 10 alunos, 6 não aprenderam nada ou quase nada do conteúdo esperado em Português, e 8 aprenderam nada ou quase nada do conteúdo esperado para Matemática.

O cenário dos estudantes mineiros avaliados não é muito diferente: no 5º ano 64% foram proficientes em Português, enquanto que 52% foram proficientes em Matemática, já no 9º ano 36% foram proficientes em Português, enquanto que apenas 16% foram proficientes em Matemática. Em relação ao 9º ano, isso equivale a dizer que, de cada 10 alunos, 6 não aprenderam nada ou quase nada do conteúdo esperado em Português, e 8 aprenderam nada ou quase nada do conteúdo esperado para Matemática.

Olhando para os números do Pisa temos que, 4 em cada 10 alunos não aprenderam o conteúdo desejado para as disciplinas avaliadas, no caso, Português, Matemática e Ciências (identificar a ideia principal de um texto, ler gráficos, resolver problemas com números inteiros, entender um experimento científico simples), e esse resultado é coerente com os baixos índices alcançados por nossos estudantes, quando avaliados na Prova Brasil.

Alguns outros indicadores revelam outros resultados muito significativos, pois, segundo o Inep: 68,3% dos estudantes brasileiros que participaram do Pisa em 2018 estudavam na rede estadual de ensino/ 15,6% dos participantes estavam matriculados em escolas particulares / 13,7% foi a proporção de alunos da rede municipal que fizeram a prova e 2,5% estudavam em colégios federais, o que equivale dizer que, quase 85% dos alunos que foram avaliados, são estudantes da rede pública de ensino brasileira.

Voltando, então, o olhar para a Torre de Pisa brasileira (que está em processo de inclinação crescente), posso afirmar que a falta de análise e planejamento dessa construção, representada pelas habilidades desejadas na Educação Infantil, e na formação de professores – regular e continuada – para esse segmento, representam o mesmo erro estrutural que levou a Pisa italiana a quase cair, não fosse o investimento pesado (em toneladas e em dólares) na revisão estrutural do prédio, e é isso que se espera hoje da educação básica no Brasil.

Infelizmente o cenário que se mostra ainda não é o da “instalação de contrapeso nas sapatas”, ao contrário, os governos (em suas três instâncias) preferem mitigar o problema, ou simplesmente ignorá-lo sob a alegação de que a “culpa” da crise educacional brasileira está centrada no discurso sindical imposto pela classe docente, ou no aparelhamento da esquerda levado para dentro das escolas, o que as transformou em núcleos para formação de militâncias.

Realmente os dois problemas existem, contudo a qualidade do ensino que é oferecido nas escolas (públicas em especial) brasileiras não vai melhorar, sem que sejam amarrados cordames de sustentação e injetado muito chumbo na base, que nesse caso é a formação de massa crítica, representada por professores preparados para oferecer conteúdo adequado (e reformulado) para cada segmento, mais especificamente no da Educação Infantil; mudança dos paradigmas educacionais – metodologia de ensino, avaliação e planejamento escolar; investimento na construção de uma carreira docente que volte a torná-la atraente, para que assim possa surgir uma nova geração de educadores e a melhoria das condições de infraestrutura da escola brasileira, que hoje sofre com o estigma de ser tratada como “despesa obrigatória do estado”, e não como investimento a longo prazo.

Além disso, na esfera federal, apesar de alguns avanços no controle e fiscalização do sistema de ensino superior, o MEC ainda mantém um discurso muito distanciado desse modelo de investimento na Educação, e por vezes parece desacreditar que seja possível uma mudança estrutural, basta para isso olhar o foco dos programas em vigor (Médio e Formação Profissional e Tecnológica como forma de desoneração do custo “ensino superior”), e pouco ou nenhum enfoque em políticas públicas que possam fomentar a mudança na Educação Básica (a BNCC é uma delas), além do discurso do Ministro Abraham Weintraub, antevendo um resultado no Pisa, pior do que aquele que de fato ocorreu – previu erroneamente – a última colocação, mas acertou quanto ao baixo desempenho.

Em Minas Gerais a situação não é muito diferente: a ausência de um Planejamento para a Educação que seja consistente, em forma de política de Estado e com metas para curto, médio e longo prazos, faz com que o estado viva hoje um remake de velhas políticas educacionais, em quase sua totalidade focadas no Ensino Médio, deixando à própria sorte mais de 700.000 crianças e jovens – da Educação Infantil e do Ensino Fundamental. Esse discurso é validado por uma fala subliminar e irresponsável de que, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB reza, cabe ao estado apenas o Nível Médio de ensino, ficando a cargo dos municípios a Educação Infantil e a Educação Fundamental. E a desculpa para tal disparate é o caos fiscal nas contas públicas, com o comprometimento de 80% da receita do estado com folha de pagamento. Esse tipo de postura, realmente, só pode vir de pessoas despreparadas tanto em relação à educação, quanto em relação às políticas públicas, e que não têm o menor comprometimento com o maior patrimônio do estado – o povo mineiro.

Nos municípios a situação não é muito diferente, apesar de existirem (entre as escolas públicas), ilhas de excelência que deveriam ser tratadas como exemplo de boas práticas educacionais, mas infelizmente não são nem lembradas, na maioria das vezes.

Em Minas quase 80% dos municípios possuem menos de 20.000 habitantes, e dificuldades em cumprir as obrigações fiscais e orçamentárias por falta de receita. Então, a educação nessas localidades vira um apêndice, que só é lembrado quando da partição das verbas do FUNDEB, da merenda escolar e do transporte. Como são muito pequenos, não possuem Sistema próprio de Ensino, por isso dependem totalmente das Superintendências Regionais de Ensino, que deveriam dar o suporte necessário para que cumprissem, com êxito, o que pede a LDB, mas (como isso não acontece) propor, ainda que subliminarmente, que estes arquem com a responsabilidade da Educação Infantil e da Educação Fundamental é, no mínimo, desumano.

A seguir nessa toada, em breve tempo verei estampada em letras garrafais na grande mídia, nacional e estrangeira, uma manchete apocalíptica que dirá – Torre de Pisa vem ao chão, perda total – causa provável da tragédia: falta de correções estruturais na sua base. Só que a Torre que ruirá não será a italiana, mas sim a brasileira, a da Educação!

Professor Sérgio Soares

Parafraseando Titãs, “Você tem medo de quê”? A relação (des) harmoniosa entre educação e novas tecnologias

Posso dizer que tive a sorte de poder acompanhar a liberação do acesso à internet para o público em geral, porque aqui no Brasil, até então, ele era restrito aos núcleos e grupos de pesquisa do ambiente acadêmico. O ano era 1994 e nessa época eu era técnico-administrativo em educação de uma universidade. Foi a partir desses incipientes acessos à rede, que comecei a dar meus primeiros passos rumo a essa trilha tecnológica, que se mostra a cada dia mais deja vú dos filmes de ficção científica que marcaram minha adolescência – Perdidos no Espaço, Jaspion, 2001 uma Odisseia no Espaço, Jornada nas Estrelas, Blade Runner, dentre outros.

Durante esses vinte e cinco anos também vi a forma de acesso mudar: do discado infernal, para a conexão em banda larga por fibra ótica de alta velocidade; os equipamentos mudaram dos PC’s (386, 486 e da inacreditável linha Pentium), para os cada vez mais compactos e potentes Smartphones, Tablets e Ipads. E o conteúdo também mudou, passando das páginas estáticas, para as de conteúdo dinâmico atuais, que apresentam desde animações cada vez mais bem elaboradas, até os filmes, jogos e séries que até então só podia assistir na TV ou no Cinema. Mas, talvez, a mudança mais radical e suscetível às subjetividades do usuário da rede, foi a entrada dessas novas tecnologias em sala-de-aula – mudança paradigmática que atingiu diretamente a vida do professor, e dos alunos.

Não vim aqui hoje com o propósito de discorrer, ou fazer uma defesa enfática, sobre a “Influência das Novas Tecnologias na vida do Educando e do Educador”, não.  O propósito desse escrito é falar sobre Ideologia e medo, dois temas tão distintos, mas ao mesmo tempo tão recorrentes, na vida de quem precisa lidar com tecnologias de aprendizagem. E o mote para essa análise veio de uma matéria publicada no Jornal El Pais, onde mostra que a França pretende proibir o uso de telefones celulares nas escolas, para crianças e jovens até 15 anos, sob o argumento de que assim as estará protegendo dos perigos e do assédio na internet, e também porque o Ministério da Educação francês considera que o uso do aparelho atrapalha no processo de ensino-aprendizagem, por tirar a concentração e diminuir a interação das crianças e jovens no espaço público.

Quando afirmo que a postura do governo Francês é demonstração de um conservadorismo exacerbado, e um nacionalismo profundo que busca revitalizar a imagem de uma França que se perdeu no tempo e no espaço (em valores e em prestígio), pode parecer um exagero, ou mesmo uma afirmação falaciosa para quem não acompanha as publicações do jornal latino como eu faço, mas basta voltar a ler algumas edições anteriores para entender que há muito mais de ideológico, do que de metodológico nessa narrativa.

Além da proibição do uso de celulares, o Ministério da Educação Francês preconiza em seu modelo de ensino, um reducionismo no processo de ensino-aprendizagem da Educação Infantil, dando ênfase ao reforço de habilidades básicas como ler, escrever e contar, como se essas três habilidades pudessem dar conta sozinhas de todo o quadro de competências cognitivas, sensoriais e relacionais necessárias a esse período formativo.

Eu poderia até acreditar que esse é um bom projeto de escola (caso fosse um leitor desavisado e ingênuo), isso porque essas iniciativas – e aí se inclui o retorno das aulas de Latim e Grego à grade das escolas – surgem como resposta ao debate sobre a inserção de novas tecnologias no ensino (dentre as quais a internet é um exemplo), e que é recorrente em vários os Sistemas de Educação da Europa, e de outras partes do mundo.

Segundo, o Ministro da Educação da França, Jean-Michel Blanquer, “Devemos estar atentos para que este novo mundo, caracterizado pela Internet e as novas tecnologias, não nos dê soluções enganosas. Quanto mais entramos neste mundo em que temos que saber programar, mais interessante é conhecer a história grega e latina” em uma construção retórica que associa tecnologia ao algoz, e o classicismo ao herói capaz de contrapor essas vilanias do “novo mundo”.

A verdade é que, nem dentro da França, o projeto educacional proposto por Blanquer é visto como inovador ou coerente, ao contrário, entendem que ele não discute com profundidade as questões pedagógicas que propõem alterar, permanecendo no raso de um discurso que, por ser mais ideológico do que metodológico, não se consubstancia em um modelo de ensino que vá promover melhorias na educação dos jovens franceses.

Antes disso, se atém a questões periféricas como a revitalização do ensino das línguas clássicas (sem torna-las obrigatórias), à restrição ao uso de aparelhos celulares nas escolas sob uma falsa alegação de vigilância e proteção. Mas ao mesmo tempo em que proíbe, permite que eles sejam usados em atividades pedagógicas (algo contraditório). A própria questão do respeito, posta como se fosse uma das habilidades básicas esperadas dos infantes (ler, escrever e contar), segundo os críticos franceses, nada mais é do que uma forma de aumentar o controle sobre a comunidade muçulmana, com forte presença dentro do país (na França, país laico, o estado não promove ou estimula nenhuma crença religiosa).

Mas esse foi apenas o mote para entender, de fato, o porquê do temor quando o assunto são  novas tecnologias, tecnologias essas que se apropriaram de espaços que até então eu só conseguia ver dentro das telas de cinema. O telefone, por exemplo, até o século passado ainda era nosso principal meio de comunicação – primeiro falando, depois trocando mensagens de texto via SMS que evoluíram para as mensagens via WhatsApp, e depois para as comunicações por voz e vídeo (tal qual os comunicadores utilizados pelo Capitão Kirk e a tripulação a bordo da Voyager).

Ainda assim era um telefone, que ganhou o apelido de inteligente (Smart), mas que em tese se restringia a falar e ouvir o que alguém queria nos dizer. Com a recente mudança das plataformas de acesso a rede, esse comunicador virou também uma ferramenta de pesquisa (e de acesso à internet), transformando-se, então, em um pequeno computador de bolso. Só que hoje em dia ele ganhou novas funcionalidades tais como ligar o carro à distância, controlar os sistemas de automação inteligentes das novas residências – abrir portas, ligar e desligar alarme, acionar o sistema de ar condicionado, controlar a TV – dentre outras funções. Então, porque motivo essa ferramenta tão útil se tornou a bruxa má, que merece ser queimada na fogueira, quando o assunto é Internet?

Estudo recente publicado no relatório “Digital in 2018: The Americas” mostra que 62% da população brasileira está ativa nas redes sociais. Dentre as mais acessadas estão o YouTube, com 60% de acesso, o Facebook com 59%, o WhatsApp com 56% e o Instagram com 40%. Segundo dados da revista Exame “Com 130 milhões de usuários mensais em atividade, a rede social Facebook é uma das redes com o maior número de brasileiros. Anualmente sua base de usuários cresce na escala de 7%, conforme análise do ano de 2017 – registrada no relatório mencionado. A navegação através do celular também já é a mais comum, sendo que 92% dos usuários acessam o seu feed pelo aplicativo mobile”.

Em parte está explicada a popularidade dos Smartphones quando o assunto é comunicação digital, pois além de estarem presentes nas classes mais empoderadas, estão também nas de menor poder aquisitivo, fato comprovado por pesquisa realizada pela FGV, recentemente publicada, que aponta que no Brasil existem hoje 230 milhões de Smartphones ativos, sendo dois dispositivos digitais por habitante, incluindo aí smartphones, computadores, notebooks e tablets. Ou seja, posso afirmar, sem parecer exagerado, que o telefone celular é hoje a ferramenta de comunicação mais popular do país.

Porém ainda fica a questão principal sem resposta – porque uma ferramenta tão útil, e popular como essa, pode ser alvo de tantas críticas quando tratamos da relação entre processos de ensino-aprendizagem e tecnologias? A França é um exemplo dessa resistência, mas não é o único, pois aqui no Brasil o mesmo acontece, em especial quando se trabalha com a Educação Pública.

A explicação para esse problema é que, senso comum, quando se fala em tecnologia e internet a primeira associação que se faz é com o acesso ao Facebook, WhatsApp e Instagram, como se a parte pudesse representar o todo. Sim, no que diz respeito a isso existem problemas, mas que não estão nas redes, e sim na forma como os usuários se comportam dentro delas. Por isso, a justificativa para esses “comportamentos” vai além desse textículo, por adentrar questões relacionadas ao modo de vida contemporâneo (cada vez mais isolado e centrado no ensimesmamento), e também filosóficas e psicológicas (que remetem, também, a uma mudança nos relacionamentos humanos). Contudo, demonizar um telefone por conta dos problemas causados pelo uso equivocado das redes sociais (ou transtornos causados por esse mau uso), é como culpar o nordestino pela seca do Nordeste.

O mundo evoluiu e por conta disso as tecnologias que eu só conseguia ver nos filmes de ficção também evoluíram, e estão cada dia mais presentes (ou possíveis) no dia-a-dia das grandes cidades, como os sistemas de inteligência artificial (Joice e BIA são exemplos disso), os veículos de transporte público autônomos (que já são quase uma realidade), a internet das coisas e a impressão em 3D, mas também dentro do espaço pedagógico, pois a Escola descobriu hoje que essa união estável – Educação e Tecnologia – pode ser uma relação promissora. Exemplo disso é que existem hoje uma série de recursos que podem complementar, e melhorar, o sistema de ensino, tais como: o armazenamento em nuvem; o Microlearning e o Blended Learning (ensino híbrido – presencial + EAD); a Inteligência Artificial (IA); a Realidade Virtual e Aumentada e o Edutainment (gamificação). Todas essas, são tecnologias educacionais que podem (também) ser utilizadas em sala-de-aula através de um smartphone.

Portanto, a justificativa para o não-uso do aparelho em sala-de-aula, baseada em acesso a sites proibidos, desconcentração do aluno e comunicação não autorizada em redes sociais, perde o sentido porque existem filtros na própria rede wireless da escola, que definem o tipo de site e conteúdo a que os alunos poderão ter acesso. Mas o problema não está aí, e sim na forma como o homem enxerga sua relação com a tecnologia (que sempre foi de temor e ameaça), basta lembrar do livro “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley ou do filme “Matrix”, onde a relação entre máquina e homem era marcada pela dominação de um em relação ao outro.

Ainda nos meus tempos de faculdade (no curso de Letras), acompanhei o surgimento dos e-books, onde há época se dizia que todos os livros iriam desaparecer (e isso não aconteceu), depois quando os jornais começaram a migrar para as plataformas digitais, que o impresso sumiria (também não sumiu), com o surgimento do Youtube falava-se do fim das rádios e TV’s abertas, que não sumiram, mas foram obrigadas a disponibilizar conteúdo na grande rede.

Como espero ter consigo demonstrar, sempre existirão discursos de viés ideológico que irão tratar as tecnologias como meio de massificação (basta ver o exemplo recente das últimas eleições presidenciais) e perversão e crime (a Deep Web é prova disso), da mesma forma que sempre existirá o medo de que essas novas ferramentas diminuam postos de trabalho, e entre professores esse discurso é ainda mais comum, e a prova disso é que ainda conheço colegas que não acessam e-mail, em uma quase total tecnofobia. Para esses o futuro reserva um choque de realidade quando, conformados ou não, convictos ou não, terão que se render às facilidades de uma CNH digital (apresentada ao guarda de trânsito pelo celular em uma blitz), ou quando forem realizar uma compra, e precisarem fazer a leitura do QR Code do produto através do Smartphone.

Mas a grande verdade desse textículo é que ir contra a realidade dos fatos, é como enxugar gelo – as tecnologias foram criadas pelos homens, para melhorar a vida dos homens e na Educação não pode ser diferente. Por isso não adianta se apoiar em uma retórica conservadorista que prega que “no tempo das professorinhas era melhor”, por isso Ler, Escrever e Contar basta, porque a sociedade (e as nossas crianças e jovens também) mudou, portanto temos a responsabilidade de oferecer um sistema de ensino eficiente e eficaz, e que oportunize todas as possibilidades que esse “novo mundo”, como disse Blanquer, pode oferecer. Então, afinal, você tem medo de quê?

Professor Sérgio Soares

“Educação é coisa séria” : investir agora, para não gastar depois!

Em uma semana cheia de notícias sobre Educação, não poderia encerrá-la sem trazer à baila a discussão sobre esse, que é um tema muito polêmico, e vem ocupando o cenário político local e nacional – como implementar ações efetivas para a melhoria dos indicadores, e mudança dos paradigmas  adotados em sala-de-aula, que se demonstram mais ineficientes a cada dia? Afinal, Educação é investimento ou despesa? Para responder a essa questão vamos dar um giro pelo mundo, identificando as boas práticas de ensino, e discutindo a relação entre eficiência e eficácia no investimento público.

Japão – reconhecido como o país da gentileza e dos bons hábitos, o sistema educacional japonês é baseado na formação do caráter das crianças primeiro, para depois se preocupar com a aquisição de conhecimento, por isso, os primeiros anos da vida escolar japonesa são dedicados ao desenvolvimento do respeito pelo próximo, compaixão e generosidade, bem como a introdução de conceitos de certo e errado, justiça, autocontrole e determinação. Essas habilidades estabelecem o equilíbrio necessário para alcançar sucesso dentro da sala de aula, e por todo o resto da vida desse estudante.

Finlândia – país reconhecido por oferecer um dos melhores sistemas de ensino do mundo, e que tem como princípio a lógica do “menos é mais”.  Os professores na Finlândia gastam cerca de 600 horas anuais dentro da sala-de-aula, o que representa metade do tempo gasto pelos professores nos Estados Unidos, por exemplo. A vantagem de ficar menos tempo em sala, é que os docentes ganham mais tempo para investir em suas próprias habilidades e desenvolvimento profissional, o que tem como resultado uma maior qualidade, e não quantidade, de horas ensinadas. Ou seja, ganham os professores e ganham os alunos.

Singapura – país reconhecido pela melhor taxa de conclusão do período escolar na Ásia, e que tem como foco do seu sistema educacional, o investimento nas tecnologias para auxiliarem professor e alunos no processo de ensino-aprendizagem. Além disso, nos últimos anos, Singapura percebeu a necessidade de investir no que chamam de mindset, que nada mais é do que o desenvolvimento das habilidades emocionais, e de resiliência das crianças. Essas mudanças foram fundamentais dentro da sala-de-aula, e usadas para moldar a forma como as matérias são ensinadas, além de estimular a positividade na vida dos alunos.

Alemanha – neste país não se adota (nem se estimula) o ranqueamento e a disputa dentro do sistema de ensino, por entender-se que ao colocar pressão no desempenho sobre as crianças, acaba-se comprometendo todo o processo de ensino-aprendizagem. Lá também não existe a separação de turmas deficitárias, ou que apresentem alunos com dificuldades cognitivas ou de comportamento, sendo assim as escolas atuam de forma mais generalizada e compreensiva, permitindo que crianças de diferentes níveis possam aprender juntas, na mesma sala-de-aula. Segundo o entendimento dos alemães, isso diminui a segregação entre os estudantes, e aumenta a flexibilidade em lidar com pessoas diferentes.

O que há de comum entre esses quatro modelos de ensino, distintos entre si, mas com um objetivo em comum que é a formação qualificada das suas crianças, é a busca pela eficiência e eficácia no ensino. Mas o que diferencia a eficiência da eficácia?

Esses dois termos foram apropriados dos processos fabris, em uma linha de produção, onde ser eficiente consiste em fazer certo as coisas, ou seja, realizar as operações com menos recursos – menos tempo, menor orçamento, menos pessoas, menos matéria-prima, etc… Já a eficiência é fazer as coisas certas, ou seja fazer as melhores escolhas para que o nível de eficiência seja maximizado.

O investimento no PIB, por exemplo, no Japão é de 3,3% em Educação, abaixo do investimento médio global que é de 4,9%. Já a Finlândia investe 6% de seu Produto Interno Bruto, enquanto Singapura e Alemanha investem 3,7% e 4,8% respectivamente em educação, e ainda assim são referências internacionais com seus sistemas educacionais. Portanto, como se pode ver, investir muito não significa investir certo, o que é o caso do Brasil que usa 6% do seu PIB em Educação, contudo, não obtém o retorno esperado nos índices avaliativos, insatisfatórios no cenário internacional (63º em Ciências, 59º em Leitura e 65º em Matemática segundo ranqueamento do PISA), e no cenário nacional (5,5 anos iniciais, 4,4 anos finais e 3,5 no ensino médio, segundo o IDEB).

Reconhecendo que na última década e meia o governo federal investiu pouco, ou quase nada, na Educação Básica, direcionando todos os seus esforços para a melhoria do ensino superior, os números do último Exame Nacional de Avaliação do Desempenho Escolar – ENADE não justificaram os investimentos feitos, até então já que apenas 5,8% dos cursos avaliados em 2018 no ENADE conseguiram atingir a nota máxima da avaliação, Das faculdades privadas, apenas 3,3% conquistaram o conceito máximo (5) na avaliação; da rede pública, 20% dos cursos alçaram a nota 5 e mais de 300 graduações ficaram sem conceito na avaliação.

Com a mudança de governo, o MEC apresentou no correr do ano uma série de ações que pretendem modificar o cenário educacional brasileiro, atuando de forma crítica e incisiva nas universidades, reavaliando critérios e modelos de avaliação, com a intenção de melhorar seus indicadores. Contudo, os investimentos em educação básica ainda se demonstram tímidos, com foco na educação médio e tecnológica, com vistas ao resgate do prestígio da educação técnico-profissionalizante entre os jovens, em uma clara tentativa de desconstruir o “mito” da formação superior como melhor forma de realização financeira e profissional.

No cenário estadual, a nova administração do estado que herdou um passivo de problemas financeiros e de gestão (em especial na educação que amarga um péssimo resultado nos indicadores oficiais, e problemas ainda maiores dentro da Rede – infraestrutura, formação docente e contaminação por discursos alheios ao objetivo final da escola), seguindo o pensamento do governo federal, investe seus esforços hoje em uma “revitalização” do ensino médio, propondo um Médio para 2020 mais “colorido”, segundo palavras da própria gestora estadual de educação, com foco em um sistema integral (ou integralizado?) que valoriza a formação técnico-profissionalizante. Só esqueceram de explicar que esse projeto não contempla todos os alunos da rede estadual, nem em números absolutos, nem tampouco no que diz respeito aos turnos, já que essa “revitalização colorida” do Médio não atinge os alunos que cursam o turno noturno, nem tampouco aqueles que cursam a Educação de Jovens e Adultos.

Como se não bastasse, o modelo adotado pela atual gestão mineira desconsidera mais de 700.000 alunos, matriculados no Fundamental II, que não são lembrados dentro da política educacional do estado, ao contrário, o que está proposto é a municipalização desse segmento de ensino, oferecendo a esses jovens um futuro incerto, já que as redes municipais têm seus próprios problemas para resolver, e receber os alunos do Fundamental II trará como consequência uma piora, ainda maior, nos indicadores.

Como já dito, investir muito não significa investir certo, e esse é o resumo da educação brasileira – investiu-se 6% do Produto Interno Bruto – PIB e a rede federal de ensino não melhorou em relação aos indicadores internacionais, isso porque os conceitos de eficiência e eficácia não foram respeitados, explico: se o objetivo do modelo de ensino adotado pela esquerda, era melhorar o acesso à educação superior, e por isso investiu em novas vagas, em cotas de ensino, em novos Campi e na contratação de novos servidores para suprir essa demanda, essas ações foram ineficazes, pois os números não melhoraram e só fizeram aumentar o custo de uma “máquina”, que hoje está em cheque diante do novo cenário no governo federal, que trabalha com a noção de investimentos baseados em resultados.

E um dos motivos para esses resultados ruins está justamente em um erro lógico – educar não é um ato objetivo, antes é um processo cheio de subjetividades, que se não começar da maneira correta (na educação infantil) nunca alcançará bom desempenho na educação superior, pois as deficiências devem ser corrigidas no tempo certo, caso contrário se tornarão cumulativas no decorrer da formação dessa criança – jovem – adulto.

Da mesma forma, o modelo proposto pelo governo estadual repete o  equívoco da rede federal, erro na eficácia (mudança de modelos com foco em consequências e não nas causas dos déficits educacionais da rede – desconsiderar os problemas de proficiência do Fundamental I e II é um exemplo disso, direcionando todos os esforços para o Médio) e na eficiência, pois devido às limitações orçamentárias impostas pela situação fiscal do estado,  tem investido pouco, e muitas vezes errado em ações já testadas em outras gestões, e que também não apresentaram bons resultados.

Fazendo uma síntese das experiências exitosas nos países citados, temos que: é importante valorizar a formação do caráter das crianças, antes mesmo da questão formal do ensino; incentivar o desenvolvimento das habilidades emocionais, para construir jovens e adultos mais seguros; propiciar uma relação positiva com as novas tecnologias, ao contrário do modelo de “demonização” proposto pela ideologia de esquerda da educação francesa; investir na formação docente, onde a lógica do “menos é mais” faz todo sentido, desde que haja o comprometimento da classe docente com o retorno do tempo investido, através da melhoria das aulas oferecidas, além de um modelo de ensino que valorize as qualidades, e não as deficiências, como ainda é visto em nossas redes.

Portanto, o investimento na educação básica é o caminho sustentável para a mudança desse cenário educacional brasileiro, com a consequente melhoria dos seus indicadores, e a Base Nacional Comum Curricular – BNCC é a estrada pronta e pavimentada para essa mudança. Ao mudar a educação de um país, serão mudados também seus indicadores sociais e, assim, a qualidade de vida do povo brasileiro irá melhorar, pois o caminho mais seguro para o desenvolvimento de qualquer nação é através do investimento com eficácia e eficiência no ensino das suas crianças e jovens. Por isso, gestores educacionais e governantes, deixo aqui um alerta: não brinquem quando o assunto é ensinar, porque “Educação é coisa séria”!

Professor Sérgio Soares

NÓS contra ELES – o discurso do dissenso dentro das redes sociais

Nos últimos dias tenho acompanhado nas redes sociais uma série de manifestações/provocações entre internautas, que vão muito além das corriqueiras disputas entre bolsonaristas e lulistas. Com essas já me acostumei, apesar de ainda não concordar, porém o conteúdo dessas colocações extrapola o das militâncias, parte para um dos lados mais vis do ser humano – o ódio e a discriminação por razão de classe – onde não pertencer a um segmento elitizado, ou fazer parte de uma pequena comunidade (ou cidadela) torna uma pessoa menos importante, dispensável e culpada por todos os erros e equívocos que pessoas ou políticos possam ter cometido, enquanto agentes públicos.

Mas essa retórica da polarização do discurso começou com a Esquerda (não de agora, mas há quase trinta anos atrás) que, para afirmar sua identidade, em um país reinventado democraticamente de pouco, construiu esse discurso do NÓS contra ELES, onde o primeiro congregava toda a sorte de minorias, que ficava, portanto, sob a tutela de uma ideologia que era mantida a partir da condição de subserviência, da falta e da carestia. Caso satisfeitas essas necessidades, deixariam de ser minorias.

Do outro lado tinha o ELES, formado em sua maioria pelos partidos de situação, e pela classe média e alta, em sua maioria representada por profissionais liberais e empresariado que, detentores do capital, eram vistos como a classe opressora do pobre e assalariado, mais uma vez reforçando a tese de que existia uma disputa de classes – opressor X oprimido.

Esse discurso só teve uma mudança significativa, quando o proletariado chegou ao poder (isso com a primeira eleição de Luís Inácio Lula da Silva), em 01 de Janeiro de 2003, e assim teve início um período de mudanças políticas e econômicas no país que levariam essa minoria a descobrir as benesses do capitalismo – o pai dos pobres ajudou a criar uma geração de endividados das classes C,D e E que puderam usufruir de bens de consumo com os quais sempre sonharam (apesar da inscrição de seus CPF’s no SERASA).

Com a elitização dessa Esquerda (que passou a dominar os cenários cultural, político e intelectual do país, e das universidades brasileiras), ganharam força os movimentos feministas, LGBTQI’s, ambientalistas e, mais tarde, uma série de coletivos sociais (movimentos surgidos dentro das universidades), que consolidaram o discurso de apoio às minorias e formam hoje sua nova militância, revigorando e fortalecendo a cada dia, o discurso do NÓS contra ELES, mais uma vez.

Eis que surge então (depois de quase duas décadas de Esquerda no poder), um governo de Direita com um discurso conservador quanto aos costumes – em oposição ao crescimento dos movimentos anárquico – libertários que surgiram nesse período – e de orientação liberal quanto aos aspectos da economia e do mercado, com a promessa de tirar o país do caos, provocado por uma ideologia que afastou o Brasil da rota de crescimento sustentado, ao se aproximar de regimes totalitários, com os quais firmou negócios tão obscuros quanto à pertinência, quão carentes de legalidade, abrindo uma chaga no coração do país chamada corrupção.

Contudo, apesar de todas as suas qualidades, esse mesmo governo de Direita (que está colocando o país nos trilhos e lutando contra a corrupção) também é formado por pessoas – com identidade e valores próprios, e esse é o fermento para o caos, para a criação da disputa e da dissenção entre os pares, pois, quando alguém toma para si o discurso em nome do outro (seja através de um microfone, caneta ou touchscreen de uma tela), a fala que é produzida vem requentada por toda sorte de vícios e influências sobre quem produziu a narrativa.

Está formado aí o combustível para o surgimento do braseiro, que virou fogueira do ELES contra NÓS, protagonizado hoje por uma parcela considerável da sociedade (antes tímida e calada por ser e pensar como Direita), que hoje se autodenomina militância e grita, a brados fortes, palavras de ordem contra a corrupção, mas também contra tudo aquilo que não vai de encontro ao ideário que ela representa. E é aí que mora o perigo, e d’onde surgiram as manifestações/provocações a que me referi no início desse textículo.

Nos estudos da Lógica Aristotélica existe uma figura chamada Silogismo, que é uma forma de raciocínio dedutivo, que vai do geral para o particular, isto é, a partir de uma afirmativa, tira-se uma verdade que é aplicada a todos os seus componentes, para se comprovar ou negar que a outra parte possui, ou não, as mesmas características inerentes ao todo.

Porém, ocorre que nem sempre as premissas que formam esse raciocínio são verdadeiras, então ocorre o que chamamos de Silogismo apressado, ou Falácia por generalização excessiva. Nesse caso um dos argumentos utilizados não é suficiente o bastante para justificar a afirmativa, incorrendo-se assim em um erro lógico.

De forma geral, isso é o que mais tenho visto nas publicações e discursos ditos de Direita, pois ainda que o objetivo seja justo e necessário – a reestruturação econômica do país, que terá como consequência a melhoria da qualidade de vida da população – discursos como intervenção militar, destituição do Poder Legislativo e Judiciário, demonização do funcionalismo público, e mais recentemente, com a PEC da Municipalização, não corroboram, ou colaboram, com a tese da construção de um novo país, outrossim só fazem estimular a tão malfadada polarização, pois isso dá conteúdo para que a Esquerda estimule ainda mais a dissensão entre o NÓS e o ELES.

O risco maior disso tudo é que, aquilo que poderia parecer bravata de uma discussão acalorada, tem se transformado em um discurso de ódio e perseguição, digo isso especificamente em relação à questão do funcionalismo público, aliás, de tudo que seja público, e da própria municipalização, onde municípios pequenos, e insolventes, deixarão de existir.

No caso dos servidores públicos, por conta da ineficiência própria da máquina estatal, que produziu sim (algumas vezes) a cultura da leniência e do pouco cuidado com aquilo que é de todos, construiu-se hoje um discurso de que essa é uma classe totalmente ineficaz e dispensável, tanto pela concepção de estado zero que muitos direitistas erroneamente adotam (e não estado mínimo como é a proposição liberal), quanto pela baixa qualidade do serviço que é prestado, muitas vezes.

Ora, será que em um país de dimensões continentais como o nosso, considerando saúde, educação, segurança e demais serviços públicos, todos os servidores se enquadram nesse perfil? Será que pelo fato da escola pública hoje ser a mais mal avaliada, com maior carência de infraestrutura, com os piores (?) professores deveria ser extinta como vi afirmado, há poucos dias, durante uma troca de mensagens em uma rede social?

A lógica me obriga a acreditar que não, e mais ainda, em uma concepção de estado mínimo, a figura do servidor público será necessária e salutar justamente para que, corrigidas as falhas estruturais do sistema, o serviço oferecido à população seja de ótima qualidade, no que diz respeito à saúde, educação e segurança, tal qual se vê em países desenvolvidos social e economicamente.

Então surge uma proposição antiga da frente municipalista brasileira que, preocupada com as distorções do Pacto Federativo, cobrou e o governo anuiu com a necessidade da reestruturação do mapa político no Brasil, através da extinção de municípios com menos de 5.000 habitantes, e cuja receita não seja suficiente o bastante para cobrir todas as despesas obrigatórias da localidade.

Feito o levantamento, distorções graves foram identificadas, em sua maioria geradas por políticas eleitoreiras que elevaram à condição de cidade, pequenas localidades e distritos que não tinham, nem nunca teriam, condições de gerar receita própria para arcar com os custos de uma estrutura municipalizada.

Por outro lado, cidades com condições de pagar essa conta, acabaram se tornando ineficientes pelo vício da politicagem de interior (e do coronelato ainda vigente em muitas dessas regiões), o que levou toda uma população a sofrer com a falta de recursos e de serviços básicos como saúde e educação, enquanto que edis e prefeitos se locupletam com os parcos recursos públicos do município, em grande parte oriundos de verbas estaduais e federais.

Pronto! Está montada mais uma narrativa apressada da Direita – extinguam-se todos os municípios deficitários, pois estes são como parasitas a carcomer a já deficitária economia brasileira!

Está claro que este é mais um erro de raciocínio, com base na lógica, onde se tomam os errados como totalidade, e aqueles que, apesar da baixa receita, ainda guardam as boas qualidades de cidades do interior, prestando serviços públicos de qualidade, tornam-se vítimas de um genocídio municipalista, onde nivelam-se todos pela mesma régua, não deixando espaço, assim, para o contraditório.

E olha, como tenho visto exatamente essa afirmação esparramada por aí, e aqui faço um parênteses, esparramada não só por aquela massa pouco letrada da Direita, mas sim por uma grande massa ilustrada que defende sem hesitar esse, que é um dos maiores paradoxos de uma ideologia que se pretenda liberal, pois, ser liberal é justamente respeitar as liberdades individuais, dando-lhes as condições para que se desenvolvam plenamente sem a subserviência estatal.

Mas tenho que concordar que essa é uma pauta política de repercussão ampla, que tem grandes chances de ser implementada in totum, ou parcialmente, até porque, segundo os dados apresentados, o impacto social na maioria dos estados será menor do que os benefícios alcançados com a municipalização. Contudo, pelo menos dois estados sofrerão esse choque de maneira mais expressiva, primeiro o Rio Grande do Sul e depois Minas Gerais, esse último que hoje ocupa o 1º lugar no ranking do número de municípios no país – 853 – perderia, num primeiro momento 211 cidades.

O drama por detrás dessa trama, e que não está posto nas peças publicitárias, nem tampouco nas narrativas construídas pelos que a defendem, é que a extinção desses pequenos municípios não extinguirá seus munícipes, nem tampouco suas necessidades básicas como saúde, educação e segurança, ou seja, elas terão que ser supridas pelo município vizinho, que os receberá na condição de bairros ou distritos.

Um outro levantamento feito em Minas indica que dos 650, dos 853 municípios do estado, arrecadam menos do que 10% de suas receitas, portanto, aquelas cidades que receberão as extintas (e já eram deficitárias quanto às suas receitas), sofrerão ainda mais com o surgimento de novas despesas oriundas dos municípios apagados do mapa.

Concluindo meu raciocínio, tudo que aqui está posto só se tornou um problema porque, em algum momento da narrativa política brasileira, alguém resolveu escrever – em algum lugar – que a culpa por TODOS os problemas da nação está concentrada no modelo de estado centralizador e paternalista construído pela Esquerda – ELES contra NÓS – portanto, tanto os causadores desses problemas – agentes públicos e governo, quanto aqueles atingidos por suas consequências diretas – funcionalismo público e munícipes de pequenas cidades do interior (em uma visão estrábica da ideologia direitista) devem ser responsabilizados pelos danos causados.

Assim está criado o pano de fundo ideal para as dissenções, brigas, ofensas e desvarios dentro dessa novela chamada polarização do discurso político no Brasil, que só vai ter fim quando, tanto de um lado, quanto de outro, a razão e a lógica falarem mais alto do que a insensatez e a beligerância das publicações e pronunciamentos, que só fazem deixar terra arrasada por onde passam, fazendo como vítimas não só pessoas e reputações, mas as instituições e, por fim, o próprio país.

Professor Sérgio Soares