Dias de Covid-19: assistindo a vida pela fresta da minha janela

Há mais de três semanas que não publico uma linha sequer nesse Blog, e o motivo não foi a quarentena, mas não dizem por aí que “’a vida imita a arte”? Pois é, por uma brincadeira do Senhor das Artes, a “Cãojuntivita” que aterrorizou a pequena Prosperidade resolveu me pegar na esquina, começou no sapatinho, ‘’envermelhando” a vista esquerda e, em menos de uma semana, eu já estava com os dois olhos tomados, e com uma fotossensibilidade tão grande que mal conseguia nem abrir os olhos, e assim se foram mais quatro dias sem assistir TV (apenas ouvindo) e celular, chance nenhuma – dias de escuridão onde pude experimentar as sensações que a baixa visão produzem nos deficientes visuais. Depois que a fase mais aguda passou, um embaçamento ainda se fez persistente, e não me deixava fazer aquilo que mais gosto – escrever. Só agora consegui retomar a rotina, com minha acuidade visual retornando aos poucos. Com certeza, esse foi o maior experimento social que já vivi.

Coincidentemente, dentro desse meu isolamento visual, já estava em vigor o isolamento social, necessário para a contenção das internações, então eu vivi esse período de quarentena duplamente – pelo Covid e pela “Cãojuntivita” – e por esse motivo quero relatar hoje aqui minhas impressões sobre tudo que ouvi, e pude ver acontecer no mundo pela fresta da minha janela.

Como disse, quando minha visão “adoeceu”, já estávamos com pouco mais de uma semana de isolamento social decretado no país, eu já afastado do trabalho (cumprindo Home Office), e nesse momento já acompanhando a repercussão da doença no Brasil e no mundo, por isso primeiro vou falar da questão da Saúde Pública.

O tal “vírus chinês” a que ninguém deu importância (afinal, ele havia matado só comunistas, não é mesmo?) demonstrou a que veio de maneira avassaladora – mostrando primeiro ao Velho Mundo que era chegada a hora de abandonar suas velhas tradições e sua ultrapassada arrogância, mas os “Velhos Senhores da Guerra” demoraram a entender a mensagem que esse ser microscópico estava trazendo, e com isso milhares de vidas foram, e ainda estão sendo ceifadas, tudo por que era apenas um “vírus chinês”, um resfriado, que não teria (nem poderia ter) a capacidade de parar o mundo, mas parou.

Não demorou muito para que esse exército de um vírus só viajasse a bordo dos aviões, trens e navios e se espalhasse pelo Novo Mundo e pelo Oriente. Ao Brasil, que não demonstrou a menor preocupação (nem sequer nos Festejos de Momo) ele demorou, mas chegou, e ao que parece, veio para ficar.

Apesar da Campanha do Ministério da Saúde, iniciada em Janeiro, a ficha demorou a cair para a população e para os governadores, que relutaram tanto (afinal era apenas um resfriado que só matava velhos, não é mesmo?) e quando viram que a coisa era séria, por um descompasso entre o Governo Federal e os Estados, produziram uma quarentena caótica que parou o país da pior maneira possível, fechando aquilo que era essencial manter (logística, por exemplo, afetando a vida dos caminhoneiros) e causando pânico geral na população.

Realmente, a Covid-19 não é só um resfriado, nem tampouco só mata velhos, e os números cada dia mais comprovam o contrário. No mundo isso hoje virou um verdadeiro genocídio, ao que parece totalmente sem controle, pois o tal “vírus chinês” subjuga seus pacientes com a força de seu ciclo de vida, tendo início no contágio, passando ao ápice de devastação nos infectados e depois vai se esvaindo, conforme os sistemas imunológicos conseguem combater seus efeitos, e isso só vai mudar quando a Ciência conseguir produzir medicamentos que combatam a infecção, e assim evitem os óbitos, ou até que se descubra uma vacina eficaz que nos previna do Corona, mas isso não é esperado para hoje, nem tampouco para amanhã.

No Brasil, se por uma conjunção astral favorável, se pela manipulação de testados positivos, ou realmente pelo trabalho eficiente das autoridades competentes, os números de mortos pela Epidemia ainda não apresentaram um efeito tão devastador (que está ocorrendo nos Estados Unidos, por exemplo), mas o fato é que não estamos nem na metade do primeiro tempo dessa partida de futebol –  Brasil X Covid, por isso ainda tem muita bola para rolar nesse jogo, e se o placar final vai ser favorável para o nosso time, vai depender do outro ponto que quero analisar agora, que é Política e a Economia em tempos de Corona Vírus.

Ouvi muito nesses dias a comparação da Pandemia com um cataclismo marítimo – um Tsunami cuja primeira onda sentida foi a da crise na Saúde Pública mundial, e a segunda, tão devastadora quanto a primeira, seria a da Economia, paralisada mundo afora pela necessidade do isolamento social, colocando em xeque não só sustentabilidade das nações, como também a sobrevivência das pessoas que, de uma hora para outra, se viram sem condições de gerar a própria renda, necessária à sua subsistência.

No mundo globalizado, em especial na Europa, aqueles que acharam que a Economia era mais importante do que a Saúde (como a Itália) estão pagando um preço muito alto por esse erro pois, pela força do vírus foram forçados (ainda que contra a vontade) a parar a Economia e hoje vivem o caos na Saúde Pública pela demora em agir contra a doença, e por isso não conseguem atender ao aumento exponencial de pacientes graves, que acabam evoluindo para óbito.

A astúcia desse ser microscópico é inegável, pois as grandes nações, que formavam os grupos dominantes em poderio econômico, político e bélico foram todas rebaixadas ao mesmo status – dominadas pelo Corona – e como golpe de misericórdia, ainda levou alguns de seus principais líderes à internação, ou a engolir o  orgulho e reconhecerem o seu erro de leitura sobre a gravidade do problema, cito aqui Boris Johnson e o próprio todo-poderoso Donald Trump, que após tanto desmerecer o impacto da doença, teve que voltar atrás, depois que o coração do mundo dos negócios – a Big Apple – sucumbiu à Pandemia.

Mas um dos casos mais emblemáticos e que representa que essa doença não é só de pobres, nem de negros, nem de LGBT’s, mas de todos os países e povos, aconteceu em Israel onde o Ministro da Saúde (e líder do partido ultra-ortodoxo ‘Judaísmo Unido da Torá’) defendeu publicamente que a doença era uma punição divina aos gays – o Covid é implacável e não tolera soberba, essa pessoa foi mais uma vítima da doença.

Aqui no Brasil vi e ainda ouço muito debate extremista, tanto por parte daqueles que defendem a Saúde para salvar vidas, quanto daqueles que tratam a Economia como centro das atenções por salvar empregos e negócios. O que essas pessoas ainda não entenderam é que esse é um jogo que só vai ser ganho se o time jogar fechado: defesa, meio-de-campo e ataque, um trabalhando pelo outro, buscando um objetivo comum que é a vitória sobre o Covid ao final do tempo regulamentar.

Infelizmente, o grande responsável pela construção desse discurso desagregador é o nosso próprio Presidente que, no início da crise no país, perdeu a oportunidade de se apresentar como um líder, congregando e articulando para que todos trabalhassem juntos – Governo Federal, Estados e Municípios – ele próprio tratando a crise como um sub-produto da mídia esquerdista, minimizando os impactos da doença e colocando a questão econômica em primeiro plano, reforçando, dessa forma, a ideia daqueles que acreditam que é possível ganhar o jogo sem a defesa, jogando só com o meio-de-campo e o ataque.

Sinceramente desejo a ele que o Corona não venha a lhe cobrar o preço por sua atitude imprudente, cheia de amor próprio e orgulho ferido, pois, a seguir o Rito, a Covid-19 já deixou pelo caminho, tombados em um leito, ou sufocados por sua própria arrogância, outros que pensavam como ele pensa.

Apesar das pessoas só replicarem em suas redes sociais os boletins com números de mortos e infectado, os embates entre os que são favoráveis ao discurso do Presidente, ou contrários, ou entre a discussão se é mais importante “salvar vidas ou salvar empregos”, sempre se pode achar algo de bom, mesmo em meio a tanta dor e tristeza, e nesse caso não é diferente.

Nesses dias entremeados entre baixa visão e algum “enxergamento” pude ouvir (e algumas vezes ver) que o Corona está produzindo mundo afora um efeito colateral não esperado na humanidade – a (re)descoberta do outro, seja daquele mais próximo dentro de casa, com o qual as relações tinham se tornado quase virtuais (de tão frias), ou daquela vizinha idosa e solitária do terceiro andar (que sempre chamaram de ranzinza e aborrecida), mas que nesse momento virou o centro das atenções do prédio, porque precisa de alguém que lhe ajude com as coisas mais básicas, como comprar o pão e o leite.

E não fica só nisso, exemplos de voluntariado e solidariedade não faltam pelo Brasil e pelo mundo afora, desde o apoio àqueles que vivem em situação de rua (alvos fáceis do vírus), até o encantamento nesses dias de quarentena, produzidos por famosos e anônimos que dividem seu talento e sua arte nas redes sociais, nos prédios e nas ruas. Há três meses atrás isso seria impensável, pois ninguém se esforçaria tanto para alegrar o outro tendo como cachê apenas o sorriso, ou o agradecimento de alguém que não conhece.

Dizem por aí (mas não tenho dados científicos que comprovem), que até o Planeta Terra está sendo beneficiado pela Covid-19 – que os efeitos do aquecimento global diminuíram nesse período, que os rios e mares estão mais limpos e que o ar está mais puro. Se é verdade, não sei, mas espero que isso realmente esteja acontecendo e que, além dessas boas novas, a mudança no comportamento das pessoas, a redescoberta dos seus melhores sentimentos e do quanto é bom ser e fazer um pelo outro, permaneça como uma sequela permanente causada pela passagem do Corona Vírus por nossas vidas!  

Professor Sérgio Soares

A cidade “Pantasma” na epidemia de “Cãojuntivita”

Aproveitando a parada forçada na repartição pública onde trabalho (regime de Home Office) por conta do Covid-19, aproveitei para descansar e me prevenir de qualquer contágio na minha pacata Prosperidade (cidade longe de tudo e de qualquer coisa, e cheia de causos fantásticos) na casa de familiares.

Lá chegando, como de costume, fui até a venda do Geraldo, onde encontrei meu velho e bom amigo Lazin sentado tomando um café e pitando uma palha. Curioso como ele só, foi logo se apressando em perguntar o que eu fazia por aquelas bandas no meio da semana. Expliquei ao interessado contador de causos, que estava ali por conta do Covid-19.

Assustado, ele perguntou:

– “Covix” o quê? Isso é nome de remédio?

Respondendo ao intrigado amigo, expliquei que o Covid-19 era uma doença que estava afetando o mundo inteiro, que começou na China e agora havia chegado ao Brasil. Os sintomas são parecidos com os de uma gripe, mas em pessoas mais velhas e frágeis pode até ser fatal. Pela cara do velho, ele ainda não estava entendendo nada, então peguei meu Tablet e mostrei para ele fotos e vídeos explicando um pouco mais sobre a doença.

Depois de assistir ao material, o sabichão tratou logo de ir respondendo:

– Ará, esse tal de “Covix” aí num é nada não. Por aqui já teve coisa muito pior, e ficou todo mundo com essa cara de chinês aí.

Agora quem não estava entendo nada era eu. “Covix”? Rindo pra dentro. Então pedi ao Lazin que me contasse esse causo direito. Foi então que ele relatou o acontecido.

– Já faz prá mais de 3 ano, era uma sexta-feira 13. Quando o sol raiô e a cidade começô a acordá, logo que o Geraldo abriu a venda, seu Xico Onório apareceu prá pegar pão e pó de café. Foi então que o amigo do balcão aí se assustô com o que viu. Seu Xico tava com os zóio, pequenininho, parecia os desse tal de chinês que você mostrô aí.

– Assombrado, o vendeiro perguntô o que havia acontecido com o homem, mas seu Xico não soube explicá, só sabia que tinha acordado com os zóio daquele jeito. Geraldo ainda recomendô que ele procurasse o Posto de Saúde pra vê o que era aquilo. Ele concordô, pegô o pão e o pó de café e saiu.

– Até o meio dia daquela sexta-feira, mais da metade da cidade já tava com os zóio fechado, foi aí que o Prefeito e o Secretário de Saúde resolverô tomá pé da situação, e descobrirô que aquilo era uma tal de “Cãojuntivita”. Uma doença que pegava igual sarna, e por isso resolverô fechá Escola, Igreja e até a Venda do Geraldo, que já tava ruim das vista também.

– Aquele dia foi um fuzuê só. A cidade ficô toda em polvorosa. Ninguém nunca tinha ôvido falá daquela tal doença, mas começô a corrê na boca pequena que como era sexta-feira 13, e o nome tinha a vê com cachorro, que isso devia de sê obra do “coisa ruim”, e que o melhó era dá sumiço nos pulguento que andava solto pelas ruas de Prosperidade.

Coitado dos quatro pata, se não fosse Dona Elza Salgueiro, uma sitiante famosa na cidade por cuidá dos bichinhos de Deus, e devota de São Francisco de Assis, não tinha sobrado um vivo.

– No sábado a cidade parecia uma cidade “pantasma”, nem de dia nem de noite você via viva alma nas rua, nem a Igreja (que tava de porta aberta) teve fiel na hora das Missa, Venda fechada, Posto de Saúde fechado (porque até us médico e enfermeiro pegaru a danada) e foi aí que veio o nó do borogodó. Sem médico e sem enfermeiro quem ia tratá dos zóio dos morador de Prosperidade?

– Foi aí que lembraro da Dona Latércia, benzedeira famosa da região que ensinô prás pessoas que remédio bão pra limpar zóio era banhá com arruda e rosa branca. Mas não pudia sê qualquer ramo de arruda, tinha que sê do broto mais novo, e a rosa tinha que sê colhida no raiá do dia, antes do sol levantá na cabeça do morro, porque ela tinha que tá ainda com o orvaio da noite. Depois era colocá tudo numa vasilha de lôça branca, com água, deixá descansá, e banhá 4 veiz ao dia, sempre fazendu o sinal da cruiz com o raminho da arruda em cima de cada vista.

Dito e feito. Num demorô muito e os zóio das pessoa começô a abri, quando foi lá pra quarta-feira já num tinha quase ninguém doente mais, tanto é assim que na quinta-feira, completâno os 7 dias que a “Cãojuntivita” apareceu, a cidade voltou ao normal, Escola abriu, Venda abriu, Prefeitura e Posto de Saúde, tudo isso graças à receita que Dona Latércia ensinô.

Para não perder a oportunidade de soltar uma das suas, encerrando a conversa Lazin soltou essa pérola.

– Pois é, eu achava que ocê devia passá prus seus amigo lá do seu serviço essa receita da Dona Latércia, garanto que ninguém lá ia pegá esse tal de “Covix” mais”!

Não me aguentei, e soltei uma gargalhada. Terminei o café e me despedi do velho contador de causos. Figura folclórica da boa cidade de Prosperidade.

Que bom seria se a vida pudesse imitar a arte, e com a receita da Dona Latércia pudéssemos curar os milhares de infectados mundo afora pelo Covid-19 com um ramo de arruda, em uma infusão de rosas brancas, só que a realidade dos fatos não me permite acreditar nisso, ao contrário, mostra que atitudes simples de higiene e urbanidade (evitar contatos físicos desnecessários, e aglomeração em locais fechados) podem ser decisivas não só no controle da pandemia (pois estamos tratando de uma doença viral, que como tal tem um ciclo de vida definido), mas também colaborarão para que o tratamento daqueles indivíduos, que tendo evoluído para um quadro grave da doença (em torno de 20%, desses 15% que necessitarão de internação, e os outros cinco para respiração mecânica), consigam ser atendidos dentro das Redes Pública e Privada do país.

Hoje recebi um áudio de um familiar que mora na Itália, no centro da zona de infecção, em Lodi, onde ele relata a sensação de quem está sentindo na pele os efeitos devastadores da contaminação, que não são só físicos, digo de antemão, mas principalmente sociais e econômicos. Em sua fala ele destaca que as pessoas aqui no Brasil estão tratando a doença como uma simples gripe, dando a ela pouca atenção o que, na visão dele, é um grande erro.

Sim, realmente o Covid-19 é uma infecção viral, na maioria dos casos assintomática, e que quando manifestados se assemelham aos de uma gripe. Dos poucos que evoluem para grave, apenas 5% se enquadram na condição de muito graves, necessitando de suporte mecânico para a respiração. Daí a “fama” equivocada de que é uma doença que só é letal em velhos, ou em pacientes que já apresentem um caso de comorbidade (portadores de doenças crônicas ou pacientes imunodepressivos).

Mas voltando à Itália, esse meu familiar destaca que o maior estrago que a doença trouxe àquele país não foi a letalidade (apesar de alta), mas o caos social que lá se formou, com uma Rede de Saúde estrangulada, com falta de leitos e respiradores para atendimento dos pacientes muito graves.

Somente na Lombardia (em um único dia) foram registrados mais de 800 casos considerados graves, onde o respirador é necessário. Nenhum país tem esse montante disponível, e mesmo investindo na produção de novos equipamentos, estes ainda seriam insuficientes, por isso a China anunciou que vai ceder à Itália aqueles que utilizou, já que agora a epidemia se encontra sobre controle naquele país.

Em seu relato ele comenta ainda que, saindo com a esposa de casa para ir ao Supermercado (uma das condições autorizadas de circulação nas ruas – já estão há duas semanas reclusos dentro de casa), sofreu um pequeno acidente no caminho, e quando os policiais chegaram para atender a ocorrência, se disseram tranquilizados por ninguém ter sofrido nenhum tipo de lesão, pois, caso contrário, não encontrariam atendimento hospitalar, e ainda correriam o risco de entrar em uma unidade de saúde com um braço quebrado, e sair infectado pelo Corona Vírus. Isso sem falar nos reflexos na economia italiana, agravada por uma crise dentro da União Europeia, em razão do Covid.

O resumo de tudo isso é que, apesar da população estar bem informada pelos órgãos governamentais sobre a doença (seus efeitos e tratamento), a sensação transmitida pelos médicos (e sentida pelos italianos) é a de que estão revivendo os dias tristes da Segunda Guerra Mundial.

Enquanto isso, no Brasil… há duas ou três semanas atrás o país acompanhava a epidemia pelo retrovisor, guardando ainda uma distância segura. Contudo, o vírus já emparelhou e agora o Governo deve tomar as medidas necessárias para sua contenção, evitando assim que ela tome de assalto toda a Rede de Saúde do país.

Claramente a região Sudeste hoje é a mais afetada, com Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais já tendo mudado de patamar no quadro infeccioso, passando de paciente que teve contato (ou se infectou) fora do país em áreas de risco, para um quadro que eles tratam como infecção comunitária, onde a disseminação da doença não é mais rastreável, e se dá de indivíduo para indivíduo, dentro do território nacional.

Vale destacar que o Ministério da Saúde e os demais órgãos de controle sanitário já estão trabalhando intensamente (antes que o quadro venha a se agravar) para tentar manter o que eles chamam de curva de infecção “achatada”, evitando assim o estrangulamento da Rede de Saúde, com um número maior de casos graves do que ela pode atender (o caso da Itália citado a pouco).

Pesquisadoras brasileiras sequenciaram o genoma do vírus, a FIOCRUZ está trabalhando na produção de kits para testagem da doença, por outro lado já está sendo desenvolvida no país uma vacina para prevenir o Covid-19 (com tecnologia e pesquisadores brasileiros), que promete ser mais eficaz do que aquelas que estão em estudo em outros países. Junte-se a isso o fato de que o Ministério da Saúde está desenvolvendo campanhas de orientação e conscientização sobre os riscos de infecção, e sobre as formas de prevenção do contágio por todo o país, em regime de colaboração com as Secretarias de Saúde.

O recado está dado, as orientações são simples, o desconforto do distanciamento social é necessário e o pânico de acessar as Redes de Saúde Pública e Privadas só vai criar um risco maior de contaminação (a orientação é que isso ocorra somente em caso de evolução dos sintomas: febre alta persistente e dispneia – mesma coisa que falta de ar). Lembrando que, na maioria das vezes, o portador do vírus se encontra assintomático, ou com sintomas semelhantes ao de uma gripe comum.

Como bem lembrou o médico Dráuzio Varella (ontem no Fantástico) essa não é a primeira epidemia de caráter mundial que atinge o país, não será a última e nem é a mais letal. A melhor forma de evitar o contágio (já que cura não existe – é um vírus que tem tempo de vida definido como o de uma gripe) é respeitar as orientações dadas pelo MS, cuidando da atenção com a higiene, mantendo o distanciamento social, e evitando se expor desnecessariamente a situações onde possam existir aglomerações de pessoas (ou ambientes fechados).

Além disso, resguardar ao máximo aqueles que são os principais alvos dessa doença – idosos e portadores de outras doenças pré-existentes. Para esses a recomendação é clara, isolamento total, até que o pico de contaminação da epidemia (que deve acontecer em até um mês e meio segundo relatos de especialistas) aconteça e ela comece a perder o poder de infecção, como já aconteceu na China, e em outros países asiáticos.

Até lá, o melhor remédio é aquele velho conhecido de todos (e muito recomendado pelas vovós) – canja de galinha e cama. Quanto aos teimosos, cuidado! Por aqui não temos nenhuma Dona Latércia, nem tampouco fazer beberagens com arruda e rosa branca vai aliviar a barra daqueles que, irresponsavelmente, brincam com a própria saúde, e a dos outros também!

Professor Sérgio Soares

Geração IDEB: produzindo “fazedores de provas” de Português e Matemática

Hoje em dia, quando se trata de escola pública, não há como não ouvir falar sobre o tal do IDEB. Se baixo ou se alto, não importa, porque ele sempre aparece dentro da pauta dos Conselhos de Classe, ou nas rodas de conversa das reuniões pedagógicas. Mas afinal, será que as pessoas sabem de fato o que é o IDEB, e para qual finalidade ele foi criado?

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) foi criado em 2007 pelo Ministério da Educação com a finalidade de ser um instrumento de medida da qualidade da Educação Básica no país, bem como para servir de parâmetro para as políticas de distribuição de recursos (financeiros, tecnológicos e pedagógicos) do MEC. Sua divulgação é bianual e a escala das notas vai de 0 a 10, tendo sido fixada como 6 a meta a ser alcançada em todo o país até 2021 (chegou-se a essa nota 6 tendo como base a média das notas de proficiência dos países desenvolvidos da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Ele é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar (ou seja, com informações enviadas pelas próprias Escolas e Redes), e médias de desempenho nas avaliações do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira): o Saeb – para os Estados e o Distrito Federal, e a Prova Brasil – para os municípios.

Esclarecimento feito, no último post do Blog falei sobre a “fama” de Sobral, notabilizada como referência na Educação Básica no país, título controverso como demonstrei. Acontece que, coincidentemente no mesmo dia, recebi em minha tImeline uma notícia antiga do jornal El Pais Brasil sobre o desempenho da cidade de Oeiras (primeira capital do Piauí) no último IDEB. Na oportunidade fiz uma crítica à construção da matéria que era, a meu ver, tendenciosa pois  criava um cenário de sucesso na Educação Básica (IDEB de 7,1 nos Anos Iniciais), que no corpo do texto a própria Secretária de Educação desmentia, pois os números dos Anos Finais não são tão animadores quanto os dos Anos Iniciais.

Esse comentário que fiz rendeu uma polêmica injustificada (já desfeita), mas que serviu para me fazer enxergar um problema muito maior do que Sobral – de que forma, ou melhor, com que propósito estão sendo usados os números dos indicadores da Educação Básica no país? Eles estão de fato avaliando a qualidade do Ensino, ou servindo apenas para ganho político de governantes e grupos políticos que estão ocupando espaço no cenário nacional graças ao trabalho de “treinamento” de seus estudantes?

Para ser bem objetivo (e não ficar preso a impressões) fiz uma análise das dez cidades com melhor desempenho na avaliação de 2017 (Oeiras não está dentro desse grupo), para construir uma hipótese que validasse minha tese sobre o uso político dos indicadores. Pois então, vamos aos números.

Das dez cidades analisadas, nove delas são de pequeno porte (menos de 20.000 habitantes) e apenas uma delas (Sobral) é de porte médio com mais de 200.000 habitantes. Esse primeiro dado já chama a atenção, pois nenhuma capital (ou cidade de maior porte) faz parte desse ranking.  Será que as maiores são mais ineficientes na construção de suas políticas públicas para a Educação, ou nas pequenas redes atingir o desempenho esperado na Educação Básica é mais fácil?

Entre as dez melhores, seis delas se encontram no Ceará (incluindo Sobral) duas no Paraná, uma em São Paulo e outra em Minas Gerais. Será que o modelo Sobralense de ensino realmente se consagrou como eficiente no estado do Ceará, por isso é devido a ela o título de referência em Educação Básica no país?

Vamos aos fatos! Quanto à variação entre o IDEB dos Anos Iniciais e dos Anos Finais, em oito das nove cidades analisadas, a diferença média ficou em 31%, com diferença máxima registrada em uma cidade cearense de 41%, e a menor diferença, também em uma cidade do Ceará, de 22%. A nona cidade é do interior de São Paulo e só oferece os Anos Iniciais no município, por isso não faz parte dessa média.

Como se pode notar não existe nenhum número assustador, apesar dessa diferença entre Anos Iniciais (IDEB maior) e Anos Finais (IDEB menor) já sinalizar que há algo errado, contudo, é na análise dos níveis de proficiência (que se dividem em Avançado, Proficiente, Básico e Insuficiente), onde se mede se o aprendizado adequado ocorreu (somatório dos alunos avançados e proficientes), ou seja, se o aluno de fato aprendeu, é que surgem as maiores distorções, e os maiores problemas.

Portanto, considerando as oito cidades analisadas (lembrando que a do Interior de São Paulo oferece apenas os Anos Iniciais) o déficit médio no nível de proficiência entre os alunos dos Anos Iniciais e dos Anos Finais para Português foi de 43%, e para Matemática foi de 53%, com maior déficit de aprendizagem registrado de 68% para Português e 74% para Matemática, em uma cidade do Ceará, e o menor déficit de aprendizagem de 14% para Português e de 22% para Matemática, também em uma cidade do Ceará, curiosamente a segunda menor em número de habitantes (menos de 4.000).

Quanto às Taxas de Rendimento (reprovação, abandono e aprovação) os nove municípios apresentaram média de aprovação de 100%, em todos os anos escolares, mesmo no Fundamental II (Anos Finais) onde, como demonstrado, existe uma perda geral de quase 50% no nível de aprendizado adequado. Então o que esses números podem nos dizer sobre a qualidade da Educação Básica no país?

Primeiro que a disparidade no nível de proficiência entre os Anos Iniciais e os Anos Finais nos faz crer que o Processo Educacional implementado no Brasil ainda é insuficiente (ou ao menos incompleto), pois não é aceitável que quase metade dos alunos com aprendizado adequado nos Anos Iniciais, não mantenham esse mesmo nível de proficiência no segmento seguinte.

Aponta também o que já deveria ser sabido de todos (mas ao que parece, não o é), que o IDEB é uma ferramenta que não permite análises parciais, ou apressadas. Sua validação enquanto ferramenta de medida da Educação Básica (objetivo final desse indicador) só pode se dar quando da aferição de todos os segmentos. Conforme definido pela LDB (Lei nº 9394/96) Artigo 21: A educação escolar compõe-se de: educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio.”, portanto, o bom resultado dos Anos Iniciais somente poderia ser considerado um ganho educacional efetivo, se os níveis de proficiência no segmento seguinte (Anos Finais) se mantivessem estáveis (ou apresentassem melhora), nunca piora como visto nos números acima apontados. De outra forma, só poderia se dizer que a Educação Básica no país está realmente avançando se o último segmento, o do Ensino Médio,  fosse avaliado de maneira integral tal qual é feito com o Fundamental, o que hoje não ocorre devido à ausência de dados que confirmem essa mudança.

Então faço uma pergunta incômoda, mas necessária. Por que então se vê, em especial por parte dos Municípios, uma divulgação tão empolgada desses indicadores, já que eles pedagogicamente não são consistentes? Vejamos, por exemplo, o estado do Ceará que criou um prêmio chamado Escola Nota 10, para premiar as “melhores escolas do Estado” (inclusive os Termos de Compromisso para o biênio 2020/2021 foram pactuados recentemente), e da mesma forma um Senador da República (do mesmo estado) está propondo criar, à semelhança do primeiro, um Escola Nota 10 nacional. Protagonismo político, quem sabe?

O fato é que os municípios estão se movimentando em torno dessa ideia, de um IDEB auspicioso, e Sobral é a prova cabal disso onde, além de melhorias na gestão escolar e na formação docente, implementou um plano de metas de aprendizagem que são revertidas em bônus pecuniários para as equipes pedagógicas e para os professores que alcançarem os targets estabelecidos. Talvez por isso deva-se a ela o título atribuído de “referência” em Educação Básica no Brasil?

O mais curioso disso tudo é que Oeiras (aquela cidade do interior do Piauí que foi manchete do Jornal El Pais) buscou socorro em Sobral para solucionar seus problemas de déficit de aprendizagem nos Anos Iniciais, mas, segundo a Secretária de Educação, não encontraram solução (não posso afirmar se por falta de resposta da cidade cearense, ou se pela não eficácia do modelo Sobralense na pequena cidade do Piauí).

Sem saída, os piauienses se reinventaram e criaram um método próprio para corrigir essas defasagens, chamado “Projeto Borboleta” (pensado e desenvolvido por duas professoras da própria Rede), que deu tão certo que conseguiram melhorar seu desempenho nos Anos Iniciais. Lamentavelmente, o mesmo não se repetiu nos Anos Finais, em grande parte por problemas de indisciplina, segundo palavras da própria Secretária de Educação do município.

Portanto, os municípios estão trabalhando sim, cada um a sua maneira, (controversos ou não os métodos adotados) em torno de um único objetivo – ser o “número um” em Educação Básica no país, desbancando assim as terras Sobralenses. O problema disso é que essas mudanças implementadas (metaforicamente falando), são como se eles pretendessem registrar toda a grandiosidade do Cristo Redentor, dentro de um 3×4; certamente o monumento não vai caber dentro da fotografia e, portanto, o registro vai ser parcial e incompleto.

Quanto à hipótese que pretendi validar com essa narrativa, de que a Educação Básica está sendo usada para fins políticos, por falta de dados objetivos (e para ser justo com aqueles que fazem um bom trabalho na Educação), prefiro acreditar que cada um dos municípios aqui analisados está fazendo (a seu modo) o que entendem ser o melhor para seus estudantes.

Respondendo a outra questão que levantei, sobre o uso correto (ou não) do IDEB, penso que os próprios números apresentados já falam por si mesmos, mas, reforçando minha opinião, reafirmo que ele virou apenas uma ferramenta de rankeamento de resultados, que sem a necessária validação dentro do processo de ensino-aprendizagem, são apenas números hierarquizados. E digo isso com muita segurança porque o processo de construção do conhecimento na Educação Básica é cumulativo (indo além de notas), e envolve a definição de um currículo baseado nas habilidades necessárias ao desenvolvimento do educando em cada fase escolar, bem como a formulação de metodologias adequadas ao contexto sócio-educativo de cada escola ou Rede. Além disso, há a necessidade da (re) valorização do planejamento pedagógico (enquanto modelo de formação continuada docente) e, por fim, a revisão dos processos avaliativos que não podem mais ser baseados apenas em uma nota 10 ou em uma nota 0.

Ao contrário disso, o que percebo hoje é que cada vez mais se investe no treinamento de alunos, e menos em sua formação multidisciplinar e humanística, tornando-os, assim, altamente capacitados para a resolução de provas oficiais, e conquista de troféus em Olimpíadas de Português e Matemática. Contudo, como esse processo de memorização de conteúdos não é perene, ele logo se esvai ao fim das avaliações, prova disso são os péssimos indicadores dos Anos Finais.

De quem é a culpa então? Certamente não é do IDEB, nem tampouco somente dos municípios e seus governantes, que devem enxergar (certamente) um propósito muito digno no investimento educacional feito em suas cidades. A conclusão a que chego, encerrando mais essa análise, é que o grande responsável por essa situação é, mais uma vez, a desvalorização da Educação Básica no país que, ao ser deixada de lado, sem investimentos e atenção, propiciou o surgimento de uma visão míope do que é importante quando se fala em Ensino, e em Aprendizagem.

Por isso, enquanto essa visão equivocada de Escola (e de sua função dentro da sociedade) não mudar, provavelmente ainda teremos muitas gerações de estudantes brasileiros formadas por excelentes “fazedores de provas”, especializados em Português e Matemática, mas de formação básica, quando não insuficiente, fora dessas avaliações e conteúdos previamente treinados. Infelizmente!

Professor Sérgio Soares

O caso Sobral: um modelo de Educação Básica 100%

Já há algum tempo (na verdade desde que tive a experiência de atuar como gestor em uma Rede Municipal de Ensino) que venho me debruçando sobre a análise dos indicadores oficiais de resultados (IDEB, ANA, Prova Brasil), por perceber que essas métricas são muito úteis (de forma analítica) na construção de Projetos para a Educação Pública, desde que esse estudo não se baseie apenas no aspecto numérico dos dados, mas sim no entendimento de suas séries históricas como proficiência, desempenho e fluxo, o que normalmente não ocorre.

Em razão disso, olho sempre com desconfiança, quando vejo noticiado na imprensa, manchetes espetaculosas mostrando o total desalinho da Rede Pública de Ensino, baseado nesses mesmos indicadores, e de outro modo o sucesso retumbante de determinada escola (ou Rede) graças ao bom desempenho apresentado em determinada avaliação. E esse é o ponto inicial dessa discussão, o case de sucesso da cidade de Sobral, no Ceará, destacando-se como a melhor Rede pública de Educação Básica do país, de acordo com a última avaliação do IDEB, inclusive citada como referência pelo Ministério da Educação constantemente.

Segundo o dito popular “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, mas trazendo essa máxima para o contexto educacional aprendi, na minha vida como professor, duas coisas que guardei como norte em minha prática no magistério: a primeira delas é que a Educação não dá saltos, ela é um processo, e como tal demanda tempo e planejamento, com início, meio e fim; a outra (e essa aprendi com o Diretor de uma faculdade particular onde lecionei) é que não existem turmas homogêneas, portanto, não existirá uma classe nota 10, bem como não existirá uma de nota 0, sendo assim, sempre deverão coexistir alunos bons, medianos e os de baixo aprendizado, consequentemente não existirá 100% de aprovação, nem tampouco, o inverso – qualquer coisa fora disso era demissão sumária do professor, naquela faculdade.

Pois bem, depois de ouvir falar tanto sobre o caso da cidade de Sobral, o “melhor ensino público do país”, não pude conter meu ímpeto investigativo, e fui atrás de dados que subsidiassem essa fama, e o primeiro passo foi saber como (e quando) surgiu esse “modelo inovador” de ensino no município cearense.

A história de Sobral começa em 1999 quando perceberam a necessidade de investir em educação, após um estudo feito pelo Instituto Airton Senna que apontou que 40% das crianças de oito anos não sabiam ler ao final do segundo ano do Ensino Fundamental. Com esses dados em mãos, a Administração Municipal decidiu focar em duas frentes – alfabetização das crianças até os 7 anos de idade, e correção do fluxo escolar daqueles alunos que avançaram para as séries seguintes, sem o domínio da leitura e da escrita.

Como estratégia de Política Pública Educacional ela construiu três eixos basilares: o fortalecimento da gestão escolar (Diretores e Coordenadores selecionados por concurso público); qualificação do trabalho em sala-de-aula (professores passaram a ter formação continuada) e a valorização dos profissionais (bonificação estabelecida por cumprimento de metas de aprendizagem).

O passo seguinte foi a adoção, em 2001, do Programa de Alfabetização na Idade Certa – PAIC , que definiu dois grandes objetivos para a educação local: alfabetizar crianças até os 7 anos de idade e torná-las proficientes em Português e Matemática ao término do ensino fundamental.

Com isso, em menos de 10 anos, os resultados apareceram, e o IDEB do município que em 2005 era 4,0 (nos Anos Inicias) passou para 4,9 em 2007, e desde então veio em um crescimento exponencial atingindo, em 2017, o fabuloso 9,1, destaque no ranking nacional. Os Anos Finais só começaram a ser avaliados a partir de 2013, iniciando sua série em 5,8, que virou 6,7 em 2015 até alcançar o índice de 7,2 em 2017. Mas o que está por trás dessa trajetória de sucesso? O que mudou na práxis pedagógica para que, em 10 anos, o município saísse de uma posição mediana, para a condição de referência em Educação Básica no país.

Na verdade, após fazer uma pesquisa bem detalhada sobre o assunto, não achei nenhuma ação metodológica inovadora, nem tampouco um programa de aceleração de aprendizado que justificasse tais resultados. O que se pode constatar é que Sobral realmente investiu na Gestão Escolar, dando liberdade às escolas de gerirem seus recursos (alimentados pelo FUNDAE, um fundo municipal dotado para o desenvolvimento da Educação), instituiu a avaliação bimestral da aprendizagem e, além dos processos avaliativos externos, o município criou avaliações próprias, ficando a cargo da Secretaria Municipal de Educação a construção do currículo básico, distribuição do material didático e acompanhamento do desenvolvimento de cada unidade escolar.

Em relação às práticas educacionais, o foco maior (desde o ano 2000) em todas as séries é a formação de leitores, com um trabalho sistematizado nas bibliotecas (presentes em cada escola), que conta com agentes atuando como fomentadores da leitura em atividades dirigidas, como a contação de histórias e o rodízio de livros.

Nos Anos Iniciais a atenção se dirige para as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, ficando História, Geografia e Ciências, restritas na grade a um encontro por semana.
Para os Anos Finais os horários são divididos entre as disciplinas tradicionais e aulas de protagonismo juvenil, projeto de vida, formação humana e introdução à pesquisa. Paralelamente, no contraturno, existe o Projeto de Tempo Integral, um trabalho de reforço escolar direcionado aos alunos que dele necessitem, com foco nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática.

Contudo (segundo dados de 2017), só existiam duas unidades no município que atendiam a esse modelo de ensino, e a meta era a construção de mais 12, com capacidade de atendimento de até 500 alunos em cada uma delas.

Pois bem, feito um panorama geral do que é desenvolvido no município, vou passar agora a analisar o que está por trás dos números do IDEB, pois é somente através desse estudo que se pode validar (ou não) os resultados apresentados para a sociedade.

Os números oficiais (2017) demonstram que Sobral alcançou um IDEB de 9,1 para os Anos Iniciais, quando a meta projetada para 2021 seria de 6,1, e um índice de 7,2 para os Anos Finais, quando a meta projetada seria de 6,6. Por detrás desses índices existem dois parâmetros que podem ser discutidos para confirmar esse desempenho acima da média do município (lembrando que os números que compõem esses parâmetros foram todos retirados do último Censo Escolar do município).

O primeiro deles analisa a proficiência dos alunos, que é a medição da efetiva aprendizagem daquele aluno em dado conteúdo, neste caso, em Português e em Matemática, avaliado nas séries finais dos Anos Iniciais e dos Anos Finais do nível Fundamental. Portanto, tem-se que, em 2017, de cada 100 alunos do 5º ano da Rede, 82 apresentaram um nível de aprendizado avançado em Português, quer dizer que esses alunos tiveram um desempenho muito acima do esperado (essa classificação divide-se em avançado, proficiente, básico e insuficiente); enquanto que em Matemática, de cada 100 alunos do 5º ano, 86 apresentaram um nível de aprendizado avançado, portanto muito acima do desejado.

Ao me deparar com esses resultados a primeira impressão que tive é que realmente se tratava de um caso excepcional de eficácia e eficiência em Política Pública de Ensino, contudo, minha experiência de sala-de-aula (e como gestor) me ensinou que o grande gargalo da Educação Básica está na passagem de ciclo (do Fundamental I para o Fundamental II), o que leva à perda na proficiência, ao aumento na distorção idade-série e à evasão escolar. Mas vamos aos números.

Em 2017, de cada 100 alunos do 9º ano da Rede em Sobral, 33 apenas apresentaram aprendizado avançado em Português; em Matemática a situação foi pouco melhor, de cada 100 alunos avaliados, 38 apresentaram desempenho avançado. Então surge a primeira pergunta: como dentro de um mesmo grupo amostral, onde mais de 80% dos alunos se encontravam em um nível avançado de aprendizagem, na avaliação correspondente, esse mesmo grupo cai para menos de 40% de proficiência?

A outra ponderação que deve ser feita é em relação às taxas de rendimento, que vão demonstrar como a proficiência aconteceu dentro de cada ano escolar, nesse caso não apenas nas disciplinas de Português e Matemática, mas em todas as outras também. Nos Anos Iniciais, segundo dados de 2017, 100% dos alunos foram aprovados, houve 0% de abandono e 0% de reprovados (na verdade, apenas 5 alunos).

No entanto, quando analisadas as taxas de rendimento dos Anos Finais, uma surpresa: 99,4% dos alunos também foram aprovados, houve um aumento na taxa de abandono que passou para 0,1% e o número de reprovados passou para 0.5%. Então fica a pergunta: como uma turma de 9º ano que teve uma queda na proficiência tão sensível (em relação aos números do 5º ano) pode apresentar um índice de aprovação tão alto?

Analisando as taxas abertas por cada ano escolar, outro dado me chamou a atenção, pois nas duas situações houve um movimento uniforme nas taxas de reprovação dos dois ciclos (1º ano EF: 0%/2º ano EF: 0%/ 3% ano EF: 0%/ 4º ano EF: 0,2% / 5º ano EF: 0,0% – 6º ano EF: 0,6%/ 7º ano EF: 0,6%/ 8º ano EF: 0,8%/ 9º ano EF: 0%).

E qual conclusão posso tirar diante do que foi exposto até aqui? A primeira delas é que tratar a cidade de Sobral como modelo de Política Pública de Educação (como tem sido feito pela imprensa e por Secretarias de Educação de vários estados, inclusive o de Minas Gerais), seguindo o próprio raciocínio defendido pelo Ministério da Educação, de construção de Políticas Públicas de Ensino baseadas em evidências científicas, não é factível, pois o modelo lá implementado é totalmente baseado em uma formulação empírica, sem o menor embasamento metodológico, ou validação científica que a sustente.

Como afirmei no início dessa análise, aprendi que a Educação não dá saltos, e que nem tampouco existem turmas padrão, por isso os resultados da proficiência dos Anos Iniciais e Anos Finais daquela Rede me levam a crer que exista algum tipo de inconsistência – ou nos resultados do IDEB, ou nos números apresentados no último Censo Escolar.

Do mesmo modo, essa inconsistência se repete nas taxas de rendimento – não é exequível imaginar que exista uma Rede com 100% de aprovação, muito menos no caso identificado dos Anos Finais, (onde os índices de proficiência demonstraram uma inversão total no nível de aproveitamento), portanto (mais uma vez), os números apresentados pelo INEP devem estar errados. Coloco essa como uma possiblidade, pois não quero entrar na seara de teorias conspiratórias de fraude (apesar de existirem investigações em curso no Ministério Público do Ceará), procurando me ater aos fatos objetivos.

Outro ponto polêmico na política educacional da cidade cearense é a distribuição de bônus a Secretários, Diretores, Professores e Equipe Pedagógica pelo cumprimento de metas de aprendizagem. Não entrando no mérito de ser justo ou não tal bonificação, com base no que foi aqui apresentado posso ponderar que essa política cria uma lacuna de legitimidade no sistema de ensino, posto que todo professor se esforçará (certamente ao máximo) para o cumprimento de suas metas. O problema disso é que os números tabulados sugerem, no mínimo, que em algum momento alguém se equivocou (ou a Rede ou o INEP mais uma vez?).

Ao término desse exercício analítico não posso negar que o município certamente tem seus méritos, podendo destacar a melhoria na Gestão Escolar como um deles, mas no que diz respeito à prática pedagógica adotou posições (no meu entender) carentes de embasamento teórico e metodológico. Digo isso me referindo ao modelo de ensino baseado em treinamento, como lá é realizado, e que tem como objetivo final capacitar seus alunos para obtenção de alto desempenho nos exames oficiais.

No meu entendimento, a Educação (enquanto Política Pública) é muito mais do que colecionar troféus, ao contrário, ela deve se basear na transformação integral do ser humano, dotando esse individuo de autonomia para pensar e agir, com apurado senso crítico. E isso não acontece estimulando apenas a competitividade, nem tampouco preterindo conteúdos programáticos de outras disciplinas, pois, em algum momento da vida adulta desses jovens, eles serão chamados a demonstrar que são muito mais do que especialistas em Língua Portuguesa e Matemática.

Encerrando essa conversa, posso afirmar que atribuir ao município de Sobral a condição de referência em Educação Básica no país não é uma atitude sensata (nem tampouco legítima), até porque o desempenho acima da média do nível Fundamental, não se repetiu no Ensino Médio, bem como, em 2017 mais da metade das crianças de até 3 anos de idade ainda não eram atendidas na Educação Infantil pela Rede Pública. Além disso, pelo fato do modelo de ensino adotado basear-se em formulações empíricas (sem embasamento científico, e que consideram apenas o caráter quantitativo dos resultados), não é possível validar o Processo Educacional por eles implementado de maneira qualitativa, com abordagens sistematizadas quanto ao método e quanto à eficiência do modelo de ensino durante toda a formação do educando (e não apenas em avaliações temporais e específicas), condição sine qua non para conferir a ela o título de melhor Educação Básica do Brasil.

Professor Sérgio Soares

“Bom pra todos, ou não é bom pra ninguém!”

O jeito Salomônico de resolver querelas

Contam os relatos bíblicos que existiu em Israel um Rei que ficou conhecido por sua sabedoria, prosperidade e longevidade, seu nome era Salomão. Uma das passagens mais famosas sobre sua vida, conta a história de duas mulheres que moravam na mesma casa. Ocorre que uma delas deu à luz uma criança, e passados três dias a outra também teve um filho. Certa noite, uma se deitou sobre a criança, matando-a sufocada. Vendo a situação, tomou o filho da outra enquanto dormia, e colocou a seu lado a criança morta. Ao acordar, a mãe enganada percebera que aquele bebê morto não era o seu filho, e diante da insistência da outra mulher em teimar a troca, foram ter com o Rei Salomão.

Explicado ao monarca o imbróglio, este tomou em suas mãos uma espada e profetizou que, em razão do interesse demonstrado de ambas, a criança seria dividida ao meio, e entregue a cada uma das mães a sua metade. Não suportando ver a iminente morte de seu bebê, a mãe biológica disse ao Rei que preferia ver seu filho nos braços de outra, do que morto. Ao contrário, a farsante aceitou as condições do Rei, entregando o pequeno ao sacrifício. Ouvindo essas palavras, o sábio homem ordenou que a criança fosse entregue à primeira, pois esta demonstrara ser, de fato, a mãe biológica da criança.

Não raramente na vida passamos por momentos de difícil escolha, como esse relatado na história bíblica, em que precisamos colocar à prova nossa perspicácia e sabedoria, tal qual o grande Rei. Por exemplo, quando na condição de chefe, somos obrigados a escolher dentro de uma equipe quem será demitido, na posição de professor quando é necessária uma reprimenda coletiva a toda a classe ou, quando o pai precisa ensinar aos filhos que nem sempre é possível ter tudo que se deseja.

Na primeira situação, a do chefe, a escolha pende entre proteger aquele funcionário amigo (ou que “mais” precisa do emprego, apesar de ser o “mais” ineficiente), ou privilegiar o caráter técnico, mantendo na empresa aquele mais capaz. No segundo caso, o do professor, a escolha se divide entre ser reconhecido pelos alunos como o Mestre severo e rigoroso quanto ao cumprimento das regras, ou como o professor “gente boa”, que não quer se comprometer, nem tampouco ver abalada sua imagem de “professor”. No último caso, o pai que criou os filhos sem limites (e sem noção do valor que cada coisa tem), divide-se entre a oportunidade de ensinar-lhes que a vida nem sempre é feita de abundância, ou de render-se à vontade dos rebentos, colocando em risco a manutenção e a segurança econômica de toda a família.

Nas três situações encontram-se apresentadas situações polêmicas sim, mas que só se tornaram reais por que outras escolhas foram feitas anteriormente (notadamente equivocadas), e que levaram, portanto, a esses desfechos inconvenientes. Via de regra, na vida em sociedade, quando deparados com situações de impasse como essas, as pessoas teimam em se esquecer daquela decisão tomada lá atrás, e que acabou levando direta (ou indiretamente) à construção do momento de crise vivido naquele instante, e acabam colocando a culpa em Deus, na crise econômica do país, no Presidente ou no vizinho ao lado.

E esse tipo de comportamento desculpista é percebido (de maneira recorrente) também na vida pública quando, diante de uma crise instalada, os políticos envolvidos na pendenga procuram buscar a justificativa para o problema nos posicionamentos do outro, e nunca naqueles que ele próprio tomou, esquecendo-se que, da mesma forma que na Lei da Física, para toda ação existirá uma reação de mesmo valor e direção (mas com sentido oposto), na Política existe uma regra de ouro (inspirada na filosofia de Salomão) que diz que “O interesse coletivo vem sempre antes de interesses unilaterais. Se não puder fazer assim, não o faça de nenhum outro modo. Melhor brigar com um, do que apanhar de todos”, regra essa que quando quebrada pode gerar muita dor de cabeça.

Trazendo essa situação para a vida real, analiso com você a situação da imigração nos Estados Unidos da América, país esse que abriga a maior quantidade de imigrantes do mundo. Segundo dados de 2019, seriam 44,4 milhões de pessoas, o que representaria quase 14% de toda a população americana. Deixando de lado a controvérsia entre o discurso Republicano e o Democrata sobre o assunto, o certo é que a sociedade estadunidense não se sente muito confortável com esses números, pois enxergam nos imigrantes concorrentes diretos aos seus postos de trabalho, além de atribuírem a eles o aumento na criminalidade e com os gastos sociais, argumentos esses carentes de comprovação.

Mas o certo é que esse número tenderia a continuar aumentando (em razão da entrada pela fronteira com o México) senão fosse a chegada ao poder do candidato Democrata, Donald Trump, que já tinha em sua plataforma de campanha um discurso contra a entrada de imigrantes, baseando-se justamente nos argumentos acima expostos – perda de postos de trabalho e gastos sociais – e assim acabou sendo eleito o 45º Presidente da República Americana.

Polêmico por natureza, Trump demonstrou toda a sua visão xenófoba sobre a imigração, quando propôs ao Congresso Nacional a construção de um muro na fronteira com o México, que impedisse definitivamente a entrada de ilegais em solo americano, isso acontecido depois de outra polêmica, quando a imprensa mostrou fotos de celas superlotadas com imigrantes presos que tentaram atravessar a fronteira, um número recorde de mais de 200.000 ilegais apreendidos entre outubro de 2018 e maio de 2019, mais do que o dobro em relação ao mesmo período do ano anterior.

Donaldo Trump, então, tomou para si a espada de Salomão (ao contrário do que poderiam recomendar os organismos de Defesa dos Direitos Humanos), quando propôs a construção desse muro, mas arbitrariedades e preconceitos à parte, seguiu a regra de Ouro, “Melhor brigar com um, do que apanhar de todos”, não criando exceções à regra, portanto, não entra criança, jovem, adulto ou idoso em solo americano de forma ilegal e, por essa razão, ainda sofre com o peso político de sua decisão, pois não existe (como nunca existiu, nem na decisão Salomônica) uma escolha sem perdas, ou sem desgastes. A decisão a ser tomada é o quanto perder, ou de que forma se desgastar. 

Estamos presenciando hoje, no cenário regional, uma situação se não parecida com a da imigração ilegal americana, de mesmo impacto quando o assunto é a tomada de decisão frente a uma situação polêmica. Estou falando aqui da crise que se formou no estado de Minas Gerais em razão do Projeto de Lei enviado pelo governo para a Assembleia Legislativa, que trata da reposição das perdas salariais da categoria da Segurança Pública estadual.

Para além de ser contra (ou não achar justa tal reposição), o acordo que deu origem ao PL, fechado em 2019 com a categoria, no início do mandato de Romeu Zema, se transformou em uma grave crise política, primeiro quando os Deputados de oposição fecharam-se em bloco para incluir no Projeto emendas que previam a extensão dessa medida às outras categorias, que não somente a da Segurança. Depois dessa, outra crise se formou pelo risco da decisão de Zema (de ceder à pressão política da categoria da Segurança) gerar um efeito cascata nos outros estados, em meio a uma crise no Ceará, o que desagradou (e muito) governadores que até dias atrás elogiavam o trabalho do mandatário mineiro.

Contrapondo-se à crise, o Governador rebateu as críticas afirmando que a reposição é justa e necessária, visto que essa categoria (ao contrário de outras, como Educação e Saúde), não recebeu nenhum tipo de reajuste nos governos anteriores, além de ter apresentado desempenho satisfatório no controle da criminalidade do estado, mesmo com o efetivo reduzido, demonstrando (segundo o governo), eficácia e eficiência em suas ações.

Além disso, mesmo Minas aguardando anuência Federal para ingressar no Regime de Recuperação Fiscal (RRF), segundo Zema, o estudo de impacto financeiro realizado para a aprovação do reajuste, garantiria a implementação do benefício, sem comprometer as negociações em andamento para o RRF do estado.

Em meio a essa polêmica instalada, o Governador definiu que a análise sobre a possibilidade da extensão dos reajustes às demais categorias, só seria tomada depois de estudo de viabilidade (a ser realizado pela equipe de governo depois do Carnaval), e que refletiria sobre o assunto em momento sabático, junto de sua família.

Da mesma forma que Trump, Zema tem em suas mãos uma decisão Salomônica a ser tomada: agradar a uma categoria, desagradando a todas as outras, com o risco iminente de ser o causador de uma crise nacional, ou não atender a nenhuma delas, revogando assim a tratativa feita com os servidores da Segurança, eximindo-se da responsabilidade com os outros estados.

Conforme dito, as pessoas têm a tendência de transferir a culpa da crise em que se colocam sempre a terceiros, não reconhecendo a própria responsabilidade sobre atitudes ou posicionamentos tomados, que levaram à configuração da contenda. Nesse caso, em especial, Romeu Zema ainda não conseguiu enxergar que o verdadeiro estopim para a deflagração do problema não está nas emendas à PL, nem tampouco no queixume de categorias como Educação e Saúde que reclamam isonomia de tratamento, mas sim na sua própria decisão de fechar acordo com uma categoria, em separado, por mais justo que isso pudesse parecer à época.

O governador se esqueceu da Regra de Ouro da Política, “O interesse coletivo vem sempre antes de interesses unilaterais. Se não puder fazer assim, não o faça de nenhum outro modo.”, e assim colocou em suas mãos a espada de Salomão. Basta agora saber se ele será astuto o bastante para tomar a decisão mais acertada, lembrando que, de uma forma ou de outra, perdas sempre existirão, afinal o estrago já está feito. A sapiência está em saber escolher entre a ruim, e a menos pior, enxergando nesse cenário qual fará menos estrago à sua imagem enquanto político, e a imagem (e ao caixa) do estado como um todo.

Professor Sérgio Soares

“Me engana que eu gosto – viva o Povo Brasileiro”

A subversão dos papeis sociais nos Festejos de Momo e na Política Brasileira

E o Brasil, hein? Já está em ritmo de Pré-Carnaval. Blocos e foliões se espalham aos milhões pelas principais cidades do país. A semana foi uma contagem regressiva para os Festejos de Momo que começam oficialmente hoje, não só para os cidadãos comuns, mas principalmente para a classe política que está a postos, aguardando seu bloco passar. Nada contra a festa, nem tampouco contra os foliões, mas me preocupa ver o estado de torpor que o país assume nessa data festiva (como se não existissem mais crises), como se o Brasil fosse o lugar idílico com que todos sonham, e onde gostariam de viver.

A origem do Carnaval (enquanto festa pagã), remonta à Antiguidade, mas foi na Grécia e em Roma que as Bacanais e as Saturnais (festejos que antecediam o período de jejum), se consagraram pela perda de pudores, e maximização de excessos (tanto no que diz respeito às bebidas e comidas, quanto aos prazeres da carne). Contudo, um traço comum a todos esses períodos históricos (e que eu desconhecia) é que desde a Mesopotâmia já se praticava a inversão dos papeis sociais durante os festejos – reis se vestiam de escravos, escravos eram alçados ao papel de realeza, para depois serem sacrificados – e isso prosseguiu nas celebrações greco-romanas, continuou na Idade Média, até chegar aos dias de hoje, onde homens e mulheres trocam de lugar durante os dias de folia.

Me permito aqui fazer uma extrapolação metafórica do sentido dessa festa em relação ao trabalho do Legislativo no Brasil, ressalvando desde já que estou me referindo àqueles Edis, Deputados e Senadores que, em sua maioria, legislam em causa própria, afastando-se do sentido real da palavra “Política” que remete à “Polis” grega (cuidar dos interesses da Cidade-Estado e de sua coletividade). Não quero dizer com isso que não existam problemas no Executivo, mas devido aos recentes acontecimentos no cenário nacional (e também no Estado de Minas), a classe legislativa é a que melhor representa nesse momento a “Farra Momesca”.

Pois bem, como dito no primeiro parágrafo dessa análise, um dos aspectos que mais me chamam a atenção no período do Carnaval é justamente o quanto absorto o povo brasileiro se torna durante esses quatro dias – os erros de português do Ministro da Educação, a crise do Funcionalismo Público, as PEC’s e as Reformas no Congresso, os problemas da família Bolsonaro, o caso do Capitão “insepulto” do BOPE e até o Covid 19, se apequenam diante do objetivo final da festa – extravasar as emoções e desejos (às vezes os mais recônditos) durante os dias de folia, para tudo se acabar na Quarta-feira de Cinzas, onde os católicos começam o período de penitências que antecede a Páscoa, enquanto o povo brasileiro tem que encarar a ressaca moral de viver em um país cheio de problemas, que por alguns dias tentou fazer parecer que não existiam.

E isso não era justamente o que os gregos e romanos buscavam nas Bacanais e Saturnais? Aproveitar ao máximo tudo que a carne poderia oferecer, sabendo que daí a três dias teriam que se entregar à privação? Mas o ponto mais importante desse enredo carnavalesco, com certeza, não é o samba e nem a passista, mas sim o quesito “fantasias” – uma das marcas da festa pagã que contaminou o país, e que não acontece somente durante os quatro dias de Momo.

No Brasil, quando se fala em Política o senso comum traz à mente a imagem do dinheiro guardado na cueca, do Mensalão e do Petrolão, do nepotismo, das mordomias e vantagens que são atribuídas a quem está detentor de um mandato público. Por isso, estar político hoje (em especial nas Casas Legislativas) virou sinônimo de profissão (por sinal uma das mais bem remuneradas, e com melhores benefícios), onde se trabalha pouco (e por pouco tempo), para em seguida se locupletar de uma gorda aposentadoria, ao contrário do restante do povo brasileiro, que trabalha muito e por muito tempo, para sobreviver com tão pouco ao final da vida.

Como se não bastassem tantas vantagens dessa função pública, ela ainda apresenta um outro aspecto, tão perverso quanto imoral, que traz sérios danos à sociedade que os elegeu – o corporativismo escrachado, na forma de desfaçatez que não tem o menor pudor em aprovar Leis em benefício próprio, ao mesmo tempo em que postergam (ao prazo máximo) medidas que seriam de interesse social, ao ponto delas caducarem, tornando-se sem efeito. Um exemplo recente disso? A Carteira de Estudante Digital.

Senão pior, mais sujo é o sentido de autoproteção dado aos seus mandatos por essa classe de “eleitos” (que se considera acima do bem e do mal), onde Centro, Direita ou Esquerda se fecham em blocos quando lhes é conveniente para garantir vantagens, ou salvar do cadafalso aqueles espúrios que, notoriamente, tramaram contra o interesse nacional, ou desviaram para seus próprios bolsos o dinheiro que era do povo.

Aproveitando-me ainda da metáfora do Carnaval, esses políticos vestem suas “máscaras e fantasias”, e colocam o bloco na rua com o samba-enredo “Me engana que eu gosto – viva o Povo Brasileiro”. Ao fazerem isso, jogam pelo ralo abaixo o compromisso assumido com seus eleitores, compromisso esse que é a real missão de seus mandatos – fazer Leis, e fiscalizar seu cumprimento, e não “infringir”, “burlar” essas mesmas Leis que ajudaram a criar.

Se na Antiguidade essa mudança de papeis tinha uma finalidade “divina”, o que se percebe (ao contrário) no comportamento desses maus políticos são o deboche e o escárnio públicos, em uma demonstração de arrogância de quem não aceita ser contradito, ou contrariado. Apresento a seguir dois fatos recentes da semana, que demonstram como se dá esse jogo de cena, nos bastidores das Casas Legislativas.

O primeiro caso ocorreu no Senado Federal, onde foi aprovada a ampliação de 24 para 33 anos de idade a cobertura do plano de saúde corporativo da Casa, para os dependentes dos parlamentares (vantagem essa que foi estendida, também, aos filhos dos Servidores). Em um país onde a maioria da população depende do Sistema Único de Saúde (que é deficitário e ineficiente), uma Casa Legislativa dessa envergadura aprovar medida tão improba, é vestir (sem o menor pudor) uma “fantasia de menor infrator”, batendo a carteira do contribuinte (com a certeza da impunidade própria desse tipo de delito), que é quem irá pagar mais essa conta, salvaguardados pela imunidade que o mandato lhes confere.

Por outro lado, aqui em Minas, na Assembleia Legislativa, os ânimos ficaram exaltados, tudo isso por que uma das categorias do funcionalismo estadual (a da Segurança Pública) conseguiu, através de negociação com o Governo, a reposição de suas perdas salariais. Enquanto isso, outras duas, a da Saúde e a da Educação (essa última reivindicando o cumprimento do Piso do Magistério) foram preteridas ficando sem qualquer tipo de correção.

Na última terça-feira, durante Sessão da Comissão de Fiscalização, Financeira e Orçamentária para aprovação do Projeto de Lei que asseguraria esse acordo, o grupo de oposição ao Governo fez uma manobra política que estendeu à maioria das categorias do funcionalismo os reajustes, em um claro discurso de manipulação das bases. A Emenda apresentada é, senão inexequível do ponto de vista orçamentário em razão da situação financeira do Estado, improvável de ser sancionada pelo Governador sob o risco de que não se cumpram as exigências do RRF. Mas, assim mesmo o Projeto de Lei foi aprovado, deixando a cargo do Executivo o ônus da negação.

Assistindo aos debates durante a votação da PL pude identificar vários foliões fazendo uso do microfone, mas os que mais me chamaram a atenção nesse bloco carnavalesco imoral, que desfilou nos corredores da ALMG, foram o dos “Irmãos Metralha” (aqueles mesmos dos quadrinhos, que bolavam mil e uma maneiras para assaltar os cofres do Tio Patinhas), e o bloco dos Romanos, representados na figura de “Pôncio Pilatos” que, vestidos com suas togas, sentaram-se confortavelmente em cima de seus muros e lavaram as mãos, entregando ao Governador a Salomônica decisão sobre quem ele deixará de atender – a Segurança Pública, ou os “demais”?

Felizmente, ainda existem nessas Casas Legislativas figuras que “brincam o Carnaval de cara limpa”, demonstrando coerência e fidelidade às suas convicções ideológico-partidárias, e à confiança neles depositada pelo povo, representada pelo mandato que receberam. Para esses, os festejos de Momo duram apenas quatro dias (contados no calendário), e nos outros 361 continuam desempenhando seu trabalho de legisladores sérios, que lutam pela garantia da Justiça Social para todos, da responsabilidade com o dinheiro público e da condição de governabilidade em suas respectivas esferas.

Para os tantos outros, que ainda se escondem por detrás de máscaras e fantasias para usurpar, debochar e vilipendiar o Povo brasileiro, só posso deixar registrado aqui meu descontentamento com a atuação de Vossas Excelências, e minha reprovação pública pela falta de dignidade no tratamento do mandato para o qual foram eleitos, alentado pela certeza-esperança de que, mesmo sabendo que o povo ainda não sabe votar  (prova disso são os casos que aqui relatei), pode demorar, mas ainda vai chegar o dia em que não serão mais eleitos em nosso país esses enganadores (travestidos de políticos), graças a um tão desejado (e necessário) expurgo na Política.

Professor Sérgio Soares

Prosperidade e o dia do “Queima-Livros” – uma data para não ser esquecida

Semana passada, em uma de minhas rotineiras visitas à Prosperidade, tive a grata oportunidade de reencontrar um amigo que tenho em grande conta, pela empatia e por seu prestígio como educador – o Professor Pandolfo. Acho que você deve se lembrar dele, pois já comentei por aqui que a sua marca era ensinar contando histórias, mas continuando de onde parei, ao chegar a Prosperidade, logo avistei o sabido amigo, sentado na praça, lendo um livro, como era de costume. Parei logo o carro e fui ao seu encontro.

Saudações feitas, pedi a Pandolfo que me atualizasse sobre como andavam as coisas naquela acolhedora cidade, em especial na Educação, que era sua área (havia visto recentemente que Prosperidade tinha alcançado destaque nos exames oficiais, tornando-se referência em ensino no Estado).

O nobre professor me contou que os ditosos resultados alcançados foram fruto de uma década de trabalho intenso, enxergando o ensino como um processo que deve ter início, meio e fim, portanto, começado com os pequeninos, até entregar os jovens prontos e preparados para os desafios que a vida porventura lhes apresentará.

Interrompendo a fala do querido (e modesto) amigo, não pude deixar de destacar que isso aconteceu durante o período em que ele esteve à frente da Secretaria de Educação de Prosperidade e que, por esse motivo o mérito dessa conquista também se devia a sua sempre competente e lúcida forma de enxergar o processo de ensino-aprendizagem.

Tirando de si o reconhecimento, e compartilhando com os alunos, professores e equipe pedagógica das escolas, lembrou que infelizmente nem sempre foi assim, e por isso mesmo, para que não fosse esquecido o momento negro pelo qual passou Prosperidade, o Legislativo Municipal aprovou a criação de uma data cívica no calendário oficial da cidade – dia 14 de Julho como o dia do “Queima-Livros”.

Intrigado com aquela informação (que eu desconhecia), pedi ao Professor que me contasse o porquê daquele nome, e qual a razão para ter se tornado tão importante, a ponto de virar data cívica? Então, o bom contador de histórias começou a narrar:

“Tudo começou com a chegada à cidade da nova Secretária de Educação, enviada diretamente da capital do Estado, pelo Governo Central. Seu nome era Gina, Professora Gina Catabriga. Tão estranho quanto o nome, era sua aparência: esquálida, com roupas sempre confusamente combinadas, e um olhar vazio, como se estivesse perdido em algum lugar do tempo-espaço. Contudo, era muito eloquente, sua fala convencia o mais duro dos interlocutores, e foi por isso que, em menos de um mês, a Educação de Prosperidade já havia sofrido uma revolução, ou poderia dizer, uma ‘involução’.

Turmas foram fechadas, alunos foram remanejados, conteúdos foram revistos, tudo sobre a ótica de uma ‘Nova Pedagogia’, e como as pessoas têm a incômoda mania de dar muito valor às novidades (a grama do vizinho é sempre mais verde do que a nossa), a estrangeira conseguiu rapidamente o apoio dos pais e das autoridades municipais para implementar seu projeto, dito revolucionário, e que levaria a Educação de Prosperidade a posições de destaque nacional.

Até na nossa escola, onde desenvolvíamos um trabalho diferenciado com as crianças da zona rural, ela tentou mexer, querendo fechar a turma e redirecioná-la para a escola da sede. E foi aí que começou nossa “guerra” com a senhora Catabriga. Como a escola funcionava dentro da propriedade de minha família, e os alunos eram, em grande parte, filhos dos colonos da fazenda, não aceitei, portanto, sua ingerência e os mantive sem alterações, ainda que contra a vontade da gestora.

Mas a grande tragédia foi quando, após seis meses desse novo pedagogismo, Catabriga resolveu baixar uma normativa proibindo a leitura de obras literárias, segundo a tresloucada ‘malditas’, e não bastando, propôs que esses livros fossem recolhidos das prateleiras das bibliotecas escolares e queimados em Praça Pública, representando, dessa forma, a necessária limpeza moral do município, para evitar que as crianças e jovens fossem contaminadas por ideologias estranhas ao ensino.

Importante destacar que, antes do dia marcado para o ‘Queima-Livros’, a Secretária havia participado de duas audiências públicas no Legislativo Municipal e convencido todos os Edis não só da pertinência da proposta, bem como os convidado a participarem do Ato Solene, iniciativa que foi aplaudida de pé pelo plenário, e registrada em ata.

A tal ‘lista maldita’ era composta por mais de uma centena de obras, da literatura brasileira à universal, começando com Monteiro Lobato, que segundo Gina fazia apologia ao racismo e à escravidão, passando pelo conjunto das obras de Machado de Assis, e chegando a Franz Kafka, com sua Metamorfose, cujo sentido da obra, segundo a gestora, remetia a ideia de transformação, análoga a transmutação, que por consequência incitava o transexualismo, portanto, imprópria aos escolares por remeter àquelas coisas de ‘Ideologia de Gênero’.

Logo que soube da história, corri à cidade para ter com o Prefeito e indagá-lo sobre o aceite de tal sandice. O mandatário não quis nem comentar o assunto, bem como o Presidente da Câmara. Sendo assim, fui direto à raiz do problema e travei acalorada palestra com a entontecida Catabriga que, ainda assim, ao término reconheceu minhas qualidades como educador, mas reafirmou que sua posição estava tomada, e nada iria demovê-la dessa ideia.

No dia marcado, quando todos os livros já estavam empilhados na Praça de Nossa Senhora do Rosário, com a população chegando para acompanhar a “limpeza moral” de Prosperidade, em um rompante de desespero saí trupicando em cima de um “Quincas Berro D’Água”, amassando um “Lusíadas”, até alcançar o topo da pira, me sentando sobre um “Livro do Desasossego”, enquanto folheava as páginas de um “Alienista”. Estava disposto, se necessário fosse, a me deixar queimar junto com as obras.

Quando Gina Catabriga soube da novidade, chegou à Praça esbravejante, com as veias de seu magro pescoço quase pulando para fora do corpo, desferindo xingamentos e maldições contra minha pessoa. Não tendo demonstrado afetação, a enlouquecida ‘pedagoga’ tomou das mãos do funcionário da prefeitura o galão de gasolina e os fósforos e desatou a despejar o combustível sobre os livros. Na hora certeira, em que ia acender o queimador, eis que entra Praça adentro o Juiz da Comarca, acompanhado de um médico, um pelotão da Polícia e enfermeiros, interrompendo assim a sanha da professora.

O notório Juiz fez saber a toda a audiência que, seguindo determinação do Governo Central, a Senhora Gina Catabriga estava sendo encaminhada de volta a capital, para dar início ao seu tratamento de saúde. Nesse momento os enfermeiros tentaram imobilizar a paciente, que esperniante se recusava a ceder, tendo sido levada para a ambulância aos berros, gritando em alto e bom som, ‘Viva a Raça Ariana’, ‘Salve a Raça Ariana’.

Todos estavam estupefatos, inclusive eu que desci do ‘Monte do Saber’ onde me encontrava, para tentar entender o que havia se passado. Foi então que o magistrado logo explicou o ocorrido.

Gina Catabriga foi realmente gestora da Educação na capital, contudo, diagnosticada com um quadro grave de esquizofrenia paranoide, que colocava em risco a sua saúde, e a daqueles com quem ela convivia, fora encaminhada para tratamento psiquiátrico em uma clínica próxima da região metropolitana. Contudo, algum descuidado burocrata, ao invés de direcioná-la para a Clínica Psiquiátrica Prosperidade, escreveu no despacho ‘Encaminho a Professora Gina Catabriga para Prosperidade, tendo a certeza de que isso é o melhor a ser feito pela servidora. ’ E foi assim que a história toda se deu.”

Ainda surpreso com aquela narrativa, perguntei ao dileto amigo o que havia acontecido depois da inusitada situação.

“Bem!” – disse Pandolfo com ares conclusivos, “com o afastamento da professora, e a vacância do cargo, havia a necessidade de que alguém assumisse a função, até para colocar de volta à normalidade, todo o caos criado pela tresloucada Gina no sistema de ensino municipal. Foi então que o Prefeito, com a cara mais deslavada do mundo, me desafiou a aceitar a incumbência, e transformar a educação de Prosperidade, já que, segundo ele, ‘eu me achava tão bom assim como Professor’.

Missão dada, missão cumprida e assim conseguimos, dez anos depois, colocar nossa cidade em condição de destaque, contudo, mais importante do que os números, conseguimos mudar a mentalidade das pessoas, e dos políticos, convencendo-os de que a Educação não dá saltos, ela é fruto de um trabalho organizado e contínuo, que quando bem realizado dá frutos.

Como forma de marcar simbolicamente aquela data nefasta, onde Prosperidade quase entrou para a história como uma cidade de orientação ‘Ariana’, a Câmara aprovou o 14 de Julho, como o dia do ‘Queima-Livros’, data que representa o dia em que o ‘Saber’ quase foi consumido pelo fogo da ‘Ignomínia’”.

Me despedi de Pandolfo, ainda extasiado e surpreso, entrei no carro e segui meu caminho convencido de que, realmente, Prosperidade era um lugar mágico, cheio de mistérios e boas histórias para se contar.

Para além da ficção, a Educação brasileira vive hoje também dias nefastos com o surgimento de falsos profetas (entronizados em seus saberes), que pretendem ao sabor de ideologias próprias, tal qual Gina Catabriga, construir um novo “Pedagogismo” que se pretende contrapor a fieira de saberes construídos, ao longo de quase duas décadas, por uma esquerda vacilante e corrompida, que tinha como propósito preparar terreno fértil para a construção de um regime totalitário, aos moldes de países vizinhos latinos, e da América Central.

Ocorre que essa contraposição (como toda reação extremada) tem se apresentado desprovida de crítica e de bom senso, e isso pode ser visto logo no Governo Federal, representado pelo Ministério da Educação que, mesmo baseado no pragmatismo cartesiano de seu gestor, próprio de alguém oriundo das Ciências Econômicas (que entende de números e estatísticas, e não de pessoas), carrega subliminarmente um discurso messiânico e beligerante, eivado de radicalização quanto aos costumes e às ideologias, desconsiderando assim a necessidade da construção de uma Política Educacional de Estado (e não de Governo), tendo por isso acabado se tornando refém de sobressaltos políticos, com trocas constantes de gestores, o que vem ocasionando uma perigosa descontinuidade em importantes Projetos e Programas da Rede.

Descendo para os Estados da Federação, a situação não é mais animadora, pois existe claramente demarcada a presença de um Ideologismo partidário na Educação, baseado na legenda majoritária de cada ente federado, sendo assim, naqueles onde a Esquerda conseguiu melhor desempenho nas urnas, o sistema de ensino mantém-se preso ao modelo já conhecido, e que teve como resultado toda a sorte de problemas que encontramos hoje nas escolas públicas – baixo índice de aprendizagem, evasão escolar, ideologismo e perda do sentido de respeito e valores (dentro e fora da sala-de-aula).

Por outro lado, onde a Direita saiu vitoriosa, acompanhando a onda Bolsonarista, encontramos um cenário não menos preocupante, e o exemplo mais recente dessa condição aconteceu no Estado de Rondônia, onde o Secretário de Educação “baixou” um memorando orientando que um rol de livros, da literatura brasileira e universal, fossem recolhidos das escolas, após denúncia recebida de que algumas obras apresentavam palavreado chulo, segundo informou a Secretaria de Educação em nota.

Logicamente essa ordem absurda (e desprovida de qualquer sentido pedagógico e literário foi revogada), mas para além desse lamentável equívoco fica clara a marca dos mesmos equívocos que acometem o MEC, tratando a Educação como se fosse uma ferramenta de doutrinação, ainda que o objetivo final seja diverso daquele intentado pela Esquerda durante os anos em que esteve no poder.

Contudo, não é só nos costumes que um desses segmentos da Direita (e não falo aqui de forma generalizada) vem demonstrando inabilidade no trato com a Educação. Existe hoje no cenário político nacional uma teoria encampada por alguns direitistas (partidos e pessoas) que entende a Educação Pública como despesa, e não como investimento. Segundo essa ótica, o Estado deve desobrigar-se das despesas referentes a esse serviço, por sua reconhecida incapacidade de gestão, demonstrada pelos baixos índices alcançados nos indicadores oficiais, bem como pela relação conflituosa e sem solução com o funcionalismo público – cheio de privilégios, com pouca produtividade e alto custo de manutenção.

Como solução apontada para essa questão, o caminho seria entregar à Rede Privada a gestão dessas demandas, baseando-se nos critérios de competitividade na prestação do serviço, formação de quadro técnico-pedagógico baseado nos princípios da eficiência e na qualidade do ensino oferecido, algo que deveria produzir como resultado a melhora da Educação nos índices oficiais de avaliação. Para ter acesso a esse “serviço”, o estudante receberia um “cheque-educacional” (custeado pelo governo), através do qual escolheria em qual escola gostaria de estudar. Para aqueles alunos que, por qualquer motivo, não conseguissem serem admitidos em uma escola privada, o Estado ofereceria o ensino público nos moldes tradicionais. Essa teoria é baseada no modelo de “Voucher”, proposto pelo economista liberal, Milton Friedman.

Esse é um daqueles casos em que uma boa ideia se perde por conta de uma crítica mal feita, ou desprovida de fundamentos, digo isso por que, conforme bem lembrou Pandolfo em sua fala “as pessoas têm a incômoda mania de dar muito valor às novidades (a grama do vizinho é sempre mais verde do que a nossa)”, e nessa situação vale a pena conhecer bem o gramado alheio, antes de mexer no próprio.

A teoria proposta por Friedman, em tese, tinha tudo para ser um sucesso de venda e críticas, contudo, depois que foi implementada mundo afora, após análise das séries históricas de desempenho, os gestores começaram a perceber que a situação não era bem como se imaginava. Vejamos dois casos emblemáticos, o do Chile onde os preceitos da “Escola de Chicago” encontraram maior ressonância, e o da Suécia.

Implantado em 1981 no Chile o modelo de Voucher Educacional representa 90% da demanda de estudantes em todo o país, e é o único programa desse tipo no mundo de amplitude nacional. Os defensores do modelo apontam o melhor desempenho dos alunos, como mérito do programa, enquanto os críticos apontam a questão socioeconômica como o maior problema da proposta – existem no Chile hoje escolas de pobres e escolas de ricos. Quanto a relação custo-aluno, o valor desembolsado pelo governo chileno é comparável ao gasto no Brasil para subsidiar a Rede Pública de ensino.

Em 1992 a Suécia promoveu uma grande reforma no seu Sistema de Ensino, municipalizando a oferta e dando a possibilidade da rede privada também oferecer o serviço, recebendo em contrapartida o valor referente ao custo-aluno. Para incentivar a competitividade dentro da Rede, e o consequente aumento na qualidade de ensino, a verba oferecida estava condicionada ao número de alunos matriculados na escola.

Mais de vinte anos depois de sua implementação, as autoridades suecas classificam o programa como um fracasso político, pois os resultados nos indicadores oficiais de ensino (PISA), não se demonstraram satisfatórios, ou mesmo justificáveis face ao investimento feito. Vale destacar que na Suécia o Sistema Educacional ainda é misto (público – municipalizado) e privado.

Ao contrário do que possa parecer, minha posição aqui não é a de negar a relevância de um projeto como o Voucher (ou Cheque-Educacional, como é tratado por aqui), pois como afirmei acima, essa é uma boa ideia que perdeu sua eficiência devido à falta de crítica. Vejamos os dois exemplos citados: Chile e Suécia são, respectivamente em extensão territorial, pouco maior e pouco menor do que Minas Gerais. Em que isso importe, o Chile é o único país onde esse modelo foi aplicado em todo o território, em outros países esse modelo ainda é usado de maneira pontual. No caso da Suécia, ela municipalizou o sistema de ensino, e abriu a livre concorrência para que o setor privado também oferecesse o serviço, custeado pelo estado. Em comum entre as duas experiências (olhando apenas pelo prisma econômico) o investimento feito com dinheiro público não trouxe igualdade de acesso ao sistema, nem tampouco o tão esperado boom de desempenho acadêmico.

O grande problema que enxergo hoje na sociedade brasileira é que o extremismo ideológico (que tantas vezes já critiquei por aqui) contaminou outros ambientes que não só o da Politica, enveredando pela Economia, Costumes e até na Educação, por isso posturas desprovidas do menor bom-senso, como a do Secretário de Educação de Roraima, e mesmo a defesa de uma “terceirização” do ensino público aos moldes do Chile ou Suécia, não se sustentam à luz de uma crítica técnica, e não contaminada pelo pragmatismo partidário.

Em momentos de alto ideologismo (como o que se vive hoje) é natural que surjam teorias conspiratórias, promessas messiânicas e falsos profetas que irão prometer expurgar da Terra a ameaça vermelha, ou por outro lado, combater o militarismo sem fardas. Nem uma nem outra demonstram resolutividade quando se pensa em um país que, para voltar a desenvolver-se, precisa superar a grave crise que vive, crise essa que não é só econômica, mas também de valores, onde a Educação perdeu seu real sentido, que é o de promover a transformação do homem dentro da sociedade, assegurando-lhe a capacidade de alcançar prosperidade, com o devido senso crítico para analisar a realidade à sua volta.

Encerrando essa narrativa, que já se alongou por demais, faço minhas as palavras do Professor Pandolfo que, a meu ver, define acertadamente aquilo que o cidadão e o Estado devem esperar do ato de educar, portanto, devem cobrar da Escola:

“mais importante do que os números, conseguimos mudar a mentalidade das pessoas, e dos políticos, convencendo-os de que a Educação não dá saltos, ela é fruto de um trabalho organizado e contínuo, que quando bem realizado dá frutos”.

Professor Sérgio Soares

Cizânia – a linha tênue que separa a Liberdade e o Respeito

Tempos estranhos esses em que vivemos hoje! Digo isso porque se voltarmos o olhar para trás, umas três décadas aproximadamente, será possível perceber que o clima na sociedade era tenso, pesado, isso em razão dos ecos ainda ressonantes dos tempos dos governos militares. A sociedade começava (naquela época) a buscar seu espaço de representação política através da construção de pautas sociais e de contestação, ressentidas em razão dos anos de silêncio.

Passada a repressão, o que deveria ter sido um avanço com a possibilidade da livre-expressão do pensar acabou por se tornar um paradoxo, pois, se em tempos de cerceamento das liberdades o algoz era o militar, nos de livre expressão (como o que se vive hoje), o inimigo é outro, na verdade, o Outro, aquele com quem se fala e de quem se fala isso porque a sociedade vive uma “síndrome de radicalização de ideias e posturas”. Saímos de um extremo repressivo, para outro, agora permissivo demais, que tem demonstrado ser tão danoso e ferino, quanto aquele em que as vítimas sofriam com o flagelo físico e psicológico, só que o açoite hoje é outro, o moral.

Em razão disso, vive-se hoje em um constante clima de beligerância, onde a cizânia (que tem como sinonímia a discórdia, a querela, a desinteligência) surge a todo o momento, nas questões mais simples, como uma briga de trânsito, até nas mais complexas que envolvem o Estado e os direitos constitucionais do cidadão. No final de tudo a narrativa é sempre a mesma – a conservação do direito a liberdade a qualquer preço, esquecendo-se, contudo, do respeito à liberdade do outro – está construído aí o enredo da trama que tão mal tem feito às pessoas, e ao país.

Basta ver alguns exemplos factuais, como o caso recente envolvendo a Ministra Damares, e um famoso advogado da esquerda. Quanto à Ministra, suas ideias sempre foram conservadoras, e nisso não há nenhum demérito, pois se trata de sua formação ideológico-humanista, portanto, dignas de serem respeitadas, mesmo que nem sempre consensuais com as demais formas de pensar.

No caso em tese, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos lançou uma campanha para estimular a abstinência sexual entre os jovens e adolescentes, como forma de prevenção da gravidez precoce e do risco de contágio de doenças sexualmente transmissíveis. Narrativa totalmente alinhada não só à sua Pasta, mas também a ideologia pregada por sua gestora, uma pastora evangélica.

Interessante destacar que, ao contrário do que muito se comenta, a campanha proposta por Damares não é pela abstinência, mas sim pela reflexão sobre o melhor momento de iniciar a vida sexual, junto com a já tradicional distribuição de preservativos, o que a torna, portanto, menos radical do que algumas aplicadas em outros países, como no caso dos Estados Unidos, onde em 34 dos 50 estados americanos o tema da abstinência sexual é tratado dentro das escolas, e em 25 deles os professores são orientados a enfatizar que não fazer sexo é a única maneira 100% eficaz de evitar gravidez indesejada e DST’s. Em Ohio o discurso é mais radical, e o mote da campanha é praticar a abstinência até o casamento.

Eis então que, criada a polêmica sobre o tema, surge certo Senhor advogado, notabilizado por suas causas em favor de notáveis da Esquerda brasileira, que discordando da política implementada pelo Ministério de Damares, resolve ultrapassar a linha que separa o direito à discordância da agressão direta e injustificada, e disfere em uma rede social comentários de baixo calão contra a honra não só de Damares, mas de seus familiares, deixando claro não só o sentido misógino de sua fala, como também o DNA do viés partidário que ela ostenta.

O caso agora é outro, não se trata mais de uma Política Pública de Educação Sexual para adolescentes, mas sim de uma escolha personalíssima, onde uma reconhecida atriz brasileira, Regina Duarte, decidiu aceitar o convite para assumir a Secretaria de Cultura do Governo Federal. Vale lembrar que Regina nunca escondeu sua simpatia pelas ideias de Bolsonaro tendo, inclusive, feito campanha em seu favor durante as últimas eleições.

Mas o que causa espanto nessa notícia não é o convite (nem tampouco a posição ideológico-partidária da atriz), mas sim a repercussão que ela teve em toda a classe artística brasileira, onde a maioria se posicionou contrária ao aceite (por discordar das políticas implementadas pelo Governo, em especial na Cultura), e um grupo menor de colegas que declarou apoio incondicional à empreitada de Regina, considerando que a atriz poderia ser decisiva na melhoria das relações entre setor cultural e governo, por ter uma trajetória artística respeitável, com bom trânsito e respeitabilidade entre seus pares.

Até aí nada a comentar, a decisão de aceitar ou não é da atriz, e é natural em uma sociedade democrática que nem todos concordem (e até divirjam publicamente), mas ainda assim mantendo-se o respeito às escolhas feitas, direito natural de todo brasileiro.

O que não é natural (e nem aceitável) é quando um colega de profissão, em um denotado ataque de fúria, resolve despejar publicamente ofensas contra a decisão da atriz, que vão muito além da questão da capacidade técnica para assumir a função, passando ao desrespeito a todas as mulheres quando afirma que “Vagina não transforma em ser humano”, demonstrando de que o dito “colega de profissão” é desprovido de caráter (ou o tem corrompido), é misógino, e sua fala está carregada de partidarismo, pois o mesmo nunca escondeu sua posição política contrária ao atual governo, nem tampouco seu desafeto em relação ao presidente eleito. Está rompida, novamente, a barreira que transforma opinião, em querela.

Mas ainda há uma forma de cizânia que deve ser tratada nesse textículo, por ser recorrente na sociedade (dentro do ambiente de trabalho), que é o assédio moral, tão difícil de ser documentado, e que fere grandemente o direito a liberdade do empregado, quando o empregador desrespeita as cláusulas previamente contratadas,  lhe impondo constrangimento ou opressão de maneira persistente e contumaz.

No setor privado esse tipo de comportamento é tão recorrente, quanto deletério às relações de trabalho, mas, ainda assim, mais fácil de ser contraposto judicialmente, contudo, é no setor público que essa condição de constrangimento e opressão se torna mais evidente (e de difícil solução), por que ela está condicionada a um regime próprio, o qual possui um sistema de monitoramento e avaliação das relações de trabalho, quase sempre moroso e ineficaz.  

Dias atrás tive acesso à informação de uma situação (análoga ao assédio), que ocorre desde abril do ano passado dentro da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais. Naquela data a Secretaria Estadual de Educação produziu memorando para toda a Rede informando que “a participação de servidor público da Secretaria de Estado de Educação – SEE/MG sob representação de seu cargo em qualquer evento deverá ser aprovada pelo Gabinete da SEE/MG”.

Não bastasse o documento de caráter restritivo, que tolhia a liberdade de escolha dos servidores estaduais (bem como desrespeitava a capacidade das chefias imediatas de decidir sobre tais demandas), pouco mais de uma semana depois, a mesma Secretaria protocolou novo documento onde refinava o sentido da proibição, definindo que o alvitre sobre a participação de servidores comissionados em eventos de natureza científica, técnica, político-partidária ou mesmo de movimentos sociais (ainda que na condição de convidados), ficaria a cargo do Gabinete da Secretaria Estadual de Educação.

No que toca à participação, essa deve ser de livre escolha de qualquer pessoa, mas em se tratando de servidor público, não gerando ônus, nem comprometendo sua jornada de trabalho, não cabe a Chefia imediata (ou mesmo ao Gabinete), nenhum tipo de interferência sobre a decisão, exceção feita quando da participação em representação oficial de autoridade estadual, mas ainda assim, nesse caso, existe legislação própria que regula o ato, ficando, aí sim, o servidor condicionado ao cumprimento de regras e normas, quanto à sua postura e a pronunciamentos públicos.

E foi justamente esse o ponto usado como justificativa pela SEE/MG para a definição do controle sobre a pertinência (ou não) dessas participações. Transcrevo: “Ressaltamos que, na condição de servidores públicos, em especial, aqueles que detêm cargos de representação política, é necessário zelo e prudência quanto a participação em eventos públicos, pois é fundamental o cuidado com a postura e a mensagem declarada no exercício do cargo.”

Postura e mensagem declarada no exercício do cargo? Zelo e prudência? E onde fica o direito de livre expressão do pensamento, preconizado na Constituição Federal, bem como o direito à livre associação, lavrado na mesma carta? Exceção feita à representação oficial (como demonstrado acima), todos os outros atos e manifestações emanadas de um cidadão, ainda que na condição de funcionário público, estão condicionadas à razoabilidade e a verdade, valores que quando descumpridos são passíveis de imputação legal, conforme previsto no Código de Direito Civil Brasileiro. E onde está tipificado o assédio nessa normativa da Secretaria Estadual, além claro, da supressão velada das liberdades individuais?

Quando o Gabinete da SEE protocola um documento (que tem caráter normativo), o descumprimento dessa regra faz com que o servidor em desalinho com a mesma, seja passível de reprimenda ou punição, conforme previsto no Estatuto dos Funcionários Públicos Civis do Estado de Minas Gerais – LEI nº 869, de 5 de julho de 1952, que reza que “o não cumprimento, ou desobediência de ordem direta, pode levar o servidor a ser enquadrado no Art. 245 do referido dispositivo, sob pena de repreensão ou suspensão”.

Vale destacar que, no caso de Minas Gerais, a dissensão causada pelo entendimento equivocado dos limites cabíveis a um Gestor, serviu de fermento para uma crise muito maior (que envolve outros cenários e procedimentos em desajuste na Rede), e que se configurou hoje na deflagração de um movimento grevista em todo o Estado. Quem sabe, se em abril de 2019, houvesse existido mais sensibilidade política, e respeito a livre expressão de ideias e opiniões, talvez o cenário da Educação em Minas fosse diverso do que está estabelecido hoje – caos e desorganização.

Quando a relação de equidade entre Liberdade e Respeito se quebra, como exposto aqui nos três exemplos – o desrespeito à Liberdade de um Ministério na construção de suas Políticas Públicas; o desrespeito à Liberdade de escolha de um cidadão comum quanto aos caminhos que deseja seguir, e por fim, o desrespeito à liberdade de expressão e livre associação do indivíduo, o que se configura como resultado é a querela, o desalinho, isso por que perdeu-se o filtro do bom senso, tão necessário nas relações sociais, e que serve de linha divisória entre o direito de me fazer expressar, e o respeito à identidade e aos valores do outro. E por que isso aconteceu?

Por conta do paradoxo estabelecido na expressão das liberdades (a que me referi no início dessa narrativa), onde antes vivia-se em uma sociedade repressiva, hoje se inverteu o polo e ela tornou-se permissiva demais – para tudo e para todos, e reitero que essa não é uma condição singular dos movimentos de esquerda ultrarradicais, mas também dos de direita, dos de centro e até dos isentões.

Todos hoje se acham possuidores de direitos absolutos e inquestionáveis (pessoas, movimento sociais ou coletivos), assegurados por uma “pseudo” liberdade de expressão, que de fato se tornou uma imposição da forma de expressar-se (muitas das vezes), desconsiderando a figura do Outro no processo dialógico, que em um espaço democrático de ideias deveria ser respeitado, bem como deveria ser respeitado o contraditório, condição sine qua non para que a sociedade se torne mais justa e garantidora das liberdades individuais de seu povo.

Nélson Mandela que entregou sua vida em troca de um ideal, onde liberdade e respeito deveriam andar juntos, em um país dividido pelas divergências sociais e raciais, escreveu uma frase com a qual encerro essa narrativa, por ser a síntese de tudo que acredito sobre o tema, e por isso tentei deixar demonstrado nessas breves linhas:

Ser livre não é apenas quebrar as próprias correntes,
mas viver de uma maneira que respeite e aumente a liberdade dos outros.

(Nelson Mandela , 1918-2013)

Assessor ou Acessório? A história de Ascânio, o funcionário “necessório”.

Reza uma daquelas lendas urbanas, que existiu um sujeito chamado Ascânio, cuja história ficou marcada pelo seu discurso de despedida, em sessão solene de homenagem quando da sua aposentadoria. Se ele realmente existiu, ninguém sabe, mas o fato é que seu discurso é emblemático quando o assunto é o assessoramento político ou administrativo de autoridades.

Ascânio era um daqueles sujeitos boa praça, bem quisto por todos, que esbanjava simpatia e educação, sempre tratando com a mesma cordialidade e respeito, do gari ao Juiz. Sua história de vida confunde-se com sua trajetória profissional, funcionário de carreira em uma repartição pública, passou boa parte dos seus 30 anos de trabalho, dedicando-se à função de Assessor de Gabinete da Presidência da casa.

Sua marca sempre foram os costumes (de alfaiataria, e sob medida), claros para os eventos vespertinos (inclusive no dia-a-dia da repartição), e escuros, como manda a etiqueta, para eventos após as 18h. Fora a vestimenta, sua eloquência e preciosismo com o uso da Língua Portuguesa também lhe renderam vários elogios, pois sempre que perguntado sobre o significado de alguma palavra, à reposta se seguia uma explicação etimológica, elucidando assim a ancestralidade daquele vocábulo, como ele bem gostava de dizer.

No desempenho de suas funções era discreto e eficiente, ficando a seu cargo as tratativas com outros órgãos de governo, e repartições, bem como o acolhimento das demandas vindas da sociedade civil, às quais respondia com presteza e exatidão. Sempre que o Presidente da casa necessitava despachar sobre determinado assunto, era com ele que se reunia previamente, o qual lhe entregava de maneira pormenorizada o tema do despacho e suas implicações políticas externas e internas, tudo devidamente detalhado em corretíssimos briefings.

Passados trinta anos de efetivo exercício de suas obrigações, quando de sua despedida da repartição, Ascânio fora surpreendido por uma homenagem solene, organizada pelo Gabinete (com a anuência do Chefe maior), no Salão Nobre da instituição. Para ela foram convidados todos os Presidentes que com ele trabalharam, bem como autoridades representativas de outras esferas, e colegas de trabalho em atividade, e os aposentados também.

A cerimônia teria sido perfeita, senão fosse uma gafe cometida pelos organizadores do evento (que não teve como passar em branco), pois no momento em que o dirigente daquela Sessão Solene procedia à entrega da homenagem (um Diploma e um relógio banhado a ouro), a plateia ficou estupefata ao ver projetada em uma grande tela a imagem do documento, que apresentava a palavra Assessor grafada erroneamente: onde deveriam haver os dois “esses”, algum desavisado grafou um “cê”, ficando assim escrito “Acessor”.

Passado o mal-estar geral, com um imediato pedido de desculpas apresentado pela mesa diretora, assegurando a troca imediata do diploma por outro corretamente escrito, foi franqueada a palavra ao homenageado, para que este fizesse seu discurso de agradecimento. E foi assim que Ascânio deixou gravada para a posteridade, sua última fala enquanto servidor daquela casa:

“Excelentíssimo Senhor João de Deus, Presidente desta casa que me recebeu há exatos 30 anos, ao saudá-lo deixo aqui registrada minha saudação às demais autoridades presentes, colegas e familiares. Neste momento em que a emoção e a razão estão em batalha lancinante dentro do meu peito, peço vênia à Vossa Excelência para fugir do protocolo, evitando assim que minha fala seja abafada pelas lágrimas de emoção, que insistem em tentar rolar. Portanto, seguindo o rito ao qual fui afeito durante o tempo em que ao seu lado estive, gostaria de sugerir uma correção, que espero não a entenda como desagravo, nem tampouco, crítica.

“Senhor Presidente, a palavra Assessor, tem origem no latim “assessor” ou “assessoris”, e é um substantivo simples que tem como significado aquele que dá assessoria, auxilia, exercendo atividades e/ou cargos com o intuito de ajudar alguém em suas tarefas ou funções, tendo como sinônimos os vocábulos adjunto ou assistente, dentre outros.

Portanto, Senhor Presidente, ao grafar no honroso diploma que ora recebi, o referido vocábulo com a letra “C”, criando assim um neologismo na Língua Portuguesa, creio que esta mesa estivesse pretendendo me comparar aos “ACESSÓRIOS” de um automóvel, daqueles bem sofisticados – e de última geração – que valorizam sobremaneira o veículo, elogio que agradeço penhoradamente, mas creio não ser digno de recebê-lo. Sendo assim, ao invés de ter-me em tão alta conta, prefiro que guarde desse auxiliar a lembrança daquele que tentou ser, antes de mais nada, “NECESSÓRIO” a Vossa Excelência durante a prática de suas atividades profissionais. Muito obrigado, e uma boa noite a todos!”

Professor Sérgio Soares

Sobre liberdade de escolhas e responsabilidade

“Tudo me é permitido“, mas nem tudo convém. Com essas palavras o evangelista Paulo exorta os Coríntios sobre a necessidade da responsabilidade sobre os próprios atos, isso há mais de 2.000 anos atrás. Contudo, esse chamamento continua tão pertinente hoje, quanto nos tempos da cristandade, isso porque a sociedade vive tempos de liberalismo, onde tudo se faz e tudo se fala, e quanto a isso não pode haver questionamento sob o risco de incorrer no cerceamento da “liberdade” do indivíduo, ainda que as consequências advindas dessas escolhas possam trazer efeitos deletérios não apenas a quem as produziu, mas como também a toda a coletividade.

Vejamos por exemplo, mal começado o ano de 2020, a crise criada entre Irã e Estados Unidos que tem deixado o mundo em alerta, sob o risco de um conflito armado que pode trazer riscos severos à segurança das nações. E por que isso aconteceu? Porque o Presidente Donald Trump fez uma escolha (ainda que teoricamente justificável) apressada, sem ouvir a comunidade internacional, portanto assumiu o risco e a responsabilidade sobre os eventuais danos que sua tomada de decisão pode vir a causar.

No cenário nacional vivemos algo parecido, mas sem o aspecto belicoso do colega estadunidense. O Presidente Jair Bolsonaro, decorridos mais de 12 meses do início de seu mandato, demonstrou coragem e assertividade no modo de fazer suas escolhas, como, por exemplo, na formação de seu Ministério, tomando para si a responsabilidade, e o peso da caneta, quebrando assim uma tradição de indicações partilhadas (ou negociadas?) com o Parlamento.

Acertou em muitas dessas decisões, como Infraestrutura, Justiça e Segurança Pública e Economia, em outras pastas, nem tanto, como no caso do Ministério da Educação, haja vista o sem número de polêmicas criadas desde a mudança de governo. Mas ainda assim (ponto a seu favor), por pressão ou consciência do equívoco ocorrido, ainda sabe voltar atrás e corrigir, antes que o estrago se torne maior, basta ver o exemplo recente do Secretário de Cultura, exonerado após uma infeliz “coincidência”, segundo o próprio.

Em nosso estado, o Governador Romeu Zema, ao contrário do Presidente Jair Bolsonaro, preferiu franquear a responsabilidade pela escolha dos nomes da sua equipe, a uma personalidade virtual chamada “Processo Seletivo”. Acho que ele não atentou para o fato de que sua decisão poderia vir a ter um peso muito maior, do que se ele tivesse, de fato, assumido o ônus das indicações. Dentro da política, mesmo que acordos sejam feitos durante o período de construção da equipe (pensando na governabilidade do mandatário), eles têm vida útil previamente definida, que pode ser maior ou menor, de acordo com o Projeto de Governo, e o acerto ou não das indicações e de suas ações.

Ocorre que, quando um mandatário faz a opção de não se expor (ou se arriscar) em suas escolhas, ele está automaticamente assumindo a responsabilidade de eventuais erros advindos dessa decisão, que se tornam muito mais difíceis de corrigir (tal como fez o Presidente Bolsonaro) justamente pelo fato dessas indicações (no caso mineiro) terem sido feitas com base (teoricamente mais uma vez) em critérios técnicos, portanto, substituir um membro da equipe com base em ineficiência (ou erros na gestão, por exemplo), pode colocar em risco a credibilidade de todo o processo de escolha anteriormente realizado, e que foi alardeado como inovador no processo de montagem de um staff de governo.

Na vida pessoal isso não é diferente, quantos de nós já não escolheu o caminho errado em uma rodovia, escutou a opinião errada em uma situação de escolha, ou mesmo imaginou que aquela pessoa, aquela profissão eram as opções corretas, e a vida sabiamente nos mostrou o contrário. E o pior disso tudo, além da sensação de incapacidade e incompetência é quando, ao invés de aceitar o fato como lição para não errar novamente, o sujeito se revolta contra tudo e contra todos, e transfere o ônus da responsabilidade para o outro – na verdade é muito mais fácil assim, dá menos trabalho, e não precisa encarar o problema (que é ele mesmo) de frente, portanto, não precisa mudar, até cometer o mesmo erro novamente, em um ciclo vicioso que só será quebrado às custas de muitas perdas e sofrimento.

Esse ano a capacidade de escolha de cada um de nós, será posta a prova novamente, pois é ano de eleição para os cargos municipais, e é justamente nesses momentos que, invariavelmente, cometem-se os mesmos erros e são feitas as escolhas erradas, motivadas por razões nem sempre republicanas, muitas vezes pouco louváveis. E o que acontece depois? Frustração, decepção, reclamações e protestos que transformam a “pobre” figura pública, que você ajudou a eleger, em algoz do povo, em larápio contumaz, em governante tirano, só que tudo isso estava escrito no contrato, (em letras miúdas) assinado no momento em que você registrou o seu voto. Mas passado o instante fatal do “CONFIRMA”, parece que essas pessoas passam a sofrer de uma amnésia seletiva (ou de uma absolvição celestial) que as tornam inimputáveis de culpa, e assim resistentes a qualquer tipo de crítica – a bruxa má – que insiste em assombrar o livre arbítrio do homem.

Via de regra, o ser humano não gosta de ser contrariado, talvez isso seja explicado por uma altivez conquistada no dia em que os primatas decidiram ficar eretos, e assim passaram a considerarem-se mais importantes do que seus pares quadrúpedes (só que existem ainda hoje animais de quatro patas com mais “humanidade” do que muitos Homo Sapiens). Ocorre, contudo, que imperfeito que é o homem falha, incorre em erros e se equivoca, e como é bom (e difícil) encontrar nesse mar de arrogância, um espécime da raça que saiba, humildemente, reconhecer seu erro – sinal de grandeza de espírito e consciência da falibilidade de suas decisões. Mas afinal, o que é a crítica?

A palavra crítica tem sua origem no Grego, com o verbo KRINEIN, “separar, decidir, julgar”, que originou o vocábulo KRITIKOS, “capacitado para fazer julgamentos”, relacionado a KRISIS, “julgamento, seleção”. Em Latim, CRITICA, “apreciação”, “julgamento”. Ambos os termos tem relação com a partícula do indo-europeu KREI-  “separar”, “peneirar”, portanto, crítica é a arte de julgar, de promover transformações em situações de crise, mas também é aquilo de serve de filtro, de peneira, para nossas atitudes e escolhas, ou seja, é o necessário (e saudável) olhar externo, de estranhamento ao fato, que pode trazer contribuições significativas ao processo de autoconhecimento e mudança do indivíduo Homem.

Dessa forma não se deveria falar em crítica positiva ou negativa, essa valoração do comentário (ou observação feita) sobre dado fato, tem mais a ver com o ego de quem a recebeu – laureado ou ferido – do que com a análise em si, visto que, conforme demonstrado pela etimologia da palavra, toda e qualquer crítica, antes de ser vista como julgamento de valor, deveria ser encarada como um filtro, filtro esse necessário à exortação de um acerto, ou a correção dos seus desvios de sentido, com vistas à adequação ao seu objetivo inicialmente proposto.

Portanto, quando você for criticado por um texto que escreveu, por uma atitude que tomou, por uma fala que proferiu, ou ainda, quando alguém criticar essa ou aquela proposição de seu político de estimação, não se revolte nem se irrite. Mesmo vindo dos lábios daquela pessoa sabidamente ferina, esse “novo olhar” sobre o fato pode, e irá certamente, contribuir para que você seja mais cuidadoso em suas futuras escolhas. E lembre-se, “Tudo me é lícito”, mas será mesmo que tudo me convém?

Professor Sérgio Soares