República do Queijo Qualho: o dia em que Prosperidade (quase) declarou Independência

Aproveitando o feriado do 7 de Setembro, retornei à Prosperidade depois de alguns meses afastado, e fui surpreendido com a notícia de que meu grande amigo, Professor Pandolfo, se convalescia após seu coração ter resolvido lhe pregar uma peça, e parar de funcionar subitamente.

Chegando à sua casa, meu letrado amigo tratou de me tranquilizar a respeito de seu estado de saúde, reconfortando-me que o mal havia sido menor, graças a Deus e a Medicina, que construiu duas pontes em seu peito, para colocar a máquina de novo em funcionamento. E “Viva o SUS”, bem lembrou o dileto gramático.

Já menos apreensivo, e saboreando um bom café preto, passado no coador de pano, nossa prosa descambou para a política. Em razão da data, o 7 de Setembro, o “sabioso” ancião tratou de me contar mais um daqueles causos, que só em Prosperidade poderiam ter acontecido, e foi logo explanando:

~ Essa história remonta ao tempo de meus avós, quando Prosperidade era ainda menor do que é hoje, e possuía, além do Prefeito, apenas um destacamento com quatro soldados. Nem Padre por aqui havia, por isso quem cuidava dos assuntos do Vaticano era Irmã Mercedes, uma bondosa Carmelita que batizava e realizava as exéquias no povoado. Quando havia casamento, ou festa da Padroeira, a Cúria mandava um Padre da Capital só para essa finalidade.

~ Naquela época, o Coronelato ainda era juiz e algoz na cidade, que se dividia entre o domínio das famílias Fortunato e Modesto. A primeira de raízes nos tempos sombrios da escravidão, com muitas mortes e desalento em suas costas. A outra, abolicionista de primeira hora, sempre fora mais Liberal e de há muito comandava a política, elegendo os mandatários da pequena cidade, dentre os seus.

~ Por conta das desavenças seculares, houveram perdas tanto de um lado, quanto de outro, desferidas na ponta da faca, ou no cano da pistola. Assim, Ferdinando Fortunato, o patriarca da família, não aceitava o prestigio que João Modesto, médico muito humano, reconhecido por todos, e Prefeito da cidade, tinha entre os municípes – dos fazendeiros à peãozada todos o respeitavam e admiravam.

~ Tomado de inveja, e entorpecido pela cobiça e desejo de Poder, o tresloucado Fortunato tramou junto aos seus um ardil para tomar a cidade das mãos dos Modesto, transformando-a em um estado independente – da Capital e até da República – tendo como nome “República do Queijo Qualho”, em referência ao lácteo produzido nas terras da família, de fama nacionalmente reconhecida.

~ Tramóia feita, faltava definir o dia para que a empreitada fosse levada a cabo, e qual melhor não seria que o 7 de Setembro, simbolizando um novo tempo para Prosperidade?  Na véspera das comemorações cívicas, ainda pela madrugada, os Fortunato pegaram a jagunçada, e todos os colonos das fazendas, convencidos na base do salame e do couro, e ocuparam a Praça de Nossa Senhora do Rosário, transformando o adro da Igreja em verdadeiro campo de guerra.

~ Quando a cidade acordou, todos foram pegos de surpresa pela novidade, e só restou ao Prefeito e seu diminuto pelotão de soldados, acompanharem de longe a movimentação, e preparação do Coreto da Praça, transformado em palanque para o discurso de posse do novo mandatário da recém-criada “República do Queijo Qualho”.

~ Ao som de tiros e estampidos de foguetes, a cidade viu adentrar o largo Ferdinando Fortunato montado em um alazão, com chapéu e espada em riste, e uma cara Napoleônica, dando a entender à toda cidade que quem ali estava era o novo mandatário da nova República, recém-criada.

~ Tomando posição de destaque no Coreto, desandou a discursar falando das qualidades, e do compromisso dos Fortunato com a Ordem, o Desenvolvimento, a Honestidade e os valores da Família. Contrariamente, os Modesto tinham ex-padres, que largaram a batina para contrair matrimônio, mulheres descasadas que passaram a viver sem  marido, além de um sem número de denúncias de mau uso do erário público.  Só faltou chamar de Santo, da primeira à ultima geração da família rival.

~ Em meio a estoica fala do Napoleão Tupiniquim, eis que entra esfolegante Praça adentro, Tião Gavião, o faz tudo da família, que mal desceu do cavalo e foi atropelando os convivas para se aproximar do Coronel, enquanto lhe confidenciava ao ouvido uma mensagem secreta e reveladora.

~ De rubro de emoção, o agora assustado Presidente e Regente Real da República do Queijo Qualho, fora ficando lívido, e a empáfia de minutos antes, virou uma fala mascada pedindo desculpas ao Prefeito João Modesto, já que tudo não passara de um mal entendido, e que as palavras desonrosas ali proferidas, foram colocadas no “calor do momento”.

~ Tão rápido quanto chegou, o entontecido coronel e sua trupe foram embora sem deixar rastro, nem poeira, e assim a cidade pode finalmente comemorar, com a pompa e circunstância devidas, o Dia da Pátria com direito a desfile do destacamento militar, das crianças da escola até culminar com o Ato Cívico de hasteamento da Bandeira Nacional.

Intrigado com mais uma narrativa fantástica sobre aquele lugar, não pude me conter e perguntei se, por acaso, alguém descobriu o que Tião Gavião havia dito de tão revelador ao Coronel Fortunato, que passou de Leão Feroz, a gatinho assustado em tão pouco tempo?

~ Meu caro e jovem amigo, respondeu o esperto Professor. Desde que o mundo é mundo, existe uma força maior até do que a da política, que decide o destino e as ações de figuras carentes de retidão e probidez, como os Fortunato, que é o poder do dinheiro.

Na véspera, os Fazendeiros da região decidiram que não seria conveniente para os negócios, o rompimento com a Capital e a República, e assim mandaram Tião Gavião levar a seguinte mensagem ao Ex-Regente Real: “se você seguir com a sua empreitada, sua Fazenda não terá mais para quem vender Queijo Qualho. O que prefere? Manter uma “Coroa” sobre a cabeça, ou ver suas “coroas” escorrerem por entre os dedos?

Obviamente que para a posteridade, a versão que ficou guardada é a de que tudo não passou de uma “estratégia” tecida pelo sagaz Coronel, mas a verdade é que o apego ao vil metal, falou mais alto do que seus ataviados e lisérgicos sonhos de poder, e dominação política.

Ainda boquiaberto com toda a narrativa, terminei o café, me despedi do Professor e tomei o caminho de volta para casa, mais uma vez estarrecido com a prodigalidade das histórias de Prosperidade.

“Como um náufrago à deriva no mar, em um bote fazendo água” (A história desafortunada de José)

José era um sujeito comum, sem mais nem menos, apesar de alguns lhe oferecerem a alcunha de “perfeitinho”, “inteligentinho” e até de “anjinho”, mas na verdade era apenas mais uma sombra na multidão, um flâneur, ou se preferir um verdadeiro “passante” ao melhor estilo do sempre Verde, Cesário Verde.

Meu encontro com o sujeito se deu de maneira inusitada: fui apresentado a ele no entrecortar das vagas, no meio do oceano, à deriva, em um bote furado, fazendo água e, por mais óbvio que pudesse parecer, não pude me conter e perguntei como ele havia chegado naquela situação.

Respondendo prontamente, José me disse que para explicar o embróglio em que se metera, tinha que relatar o encontro profético com três personagens distintas – um político, um religioso e um cientista.

Como dito, a vida do tal José nunca fora melhor nem pior do que a de ninguém, como também não fora marcada por nenhum fato trágico, ou espetacular, nem pobre nem rico, apenas sobreviveu e tudo ia seguindo seu fluxo de vida mediana, de um sujeito classe média, até que um dia, como se fosse um avião fazendo piruetas, sua vida entrou em estol (quando uma aeronave em situação de estol não está voando, mas sim caindo). E agora José?

Primeiro encontro – O Político: ao relatar ao Legislador as desventuras que o levaram a estolar, colocando em queda livre suas expectativas, anseios e projetos de vida, ouviu uma explicação típica de um “Odorico Paraguaçu de Sucupira”, segundo o qual José tinha que entender a complexidade e o simbolismo da vida, que poderia ser comparada a uma roda gigante, onde hora estaria no topo, hora estaria no chão, mas que por se tratar de um movimento cíclico, em algum momento a vida ia melhorar, era só esperar.

Não convencido da explicação, José só respondeu ao representante do povo que, muito provavelmente, a roda gigante da vida dele havia emperrado no chão, sem perspectiva real de voltar a subir.

Segundo encontro – O Religioso: seguindo seu périplo em busca de respostas, nosso amigo encontra um “Homem de Deus”, na esperança de, recorrendo à divindade, encontrar uma explicação para suas desventuras em série, já que a primeira explicação, não tinha sido capaz de lhe convencer, nem tampouco consolar.

Começando sua pregação, o Religioso lembra ao náufrago que Deus, Jeová, Ser Supremo ou Inteligência Universal não impõe ao seu filho um fardo maior do que ele pode carregar, e que tudo, no final das contas, era nada mais nada menos do que uma “prova de Fé”.

Mais uma vez, o desesperançado homem não se sentiu convencido, isso porque, dentre as inúmeras alcunhas que havia recebido em sua vida, uma delas era a de ter sido um “Homem de Fé”, demonstrada em suas palestras inflamadas e recheadas de citações e exemplos bíblicos.

O que nosso amigo não sabia à época é que falar sobre Fé para os outros é fácil, é apenas uma questão de teorizar sobre um tema como outro qualquer, contudo, viver e sentir na pele o problema vai muito além da teorização, e é nessa hora que se percebe que a tal “Fé que move montanhas” é apenas uma figura de Retórica.

O terceiro encontro – O Cientista: como não havia encontrado resposta nem na Política, nem na Religião, o desafortunado decidiu buscar na Ciência o lenitivo que até então não lhe havia sido oferecido. Ao chegar a um laboratório de última geração, o genial pesquisador, após ouvir o comovente relato do sofredor, se pôs a escrever em uma lousa fórmulas e sequências matemáticas, e após um longo tempo apresentou a José sua tese que explicava a situação em questão – o problema do desfalecido náufrago é que, estatisticamente, um em cada mil humanos nascem fadados ao insucesso, e quanto a isso nada se podia fazer, pois era um caso típico de seleção natural da espécie, onde somente os melhores sobrevivem.

Mais deprimido do que no primeiro e no segundo encontros, José só conseguia se lembrar da infalível Lei de Murphy, que tinha como princípio a máxima “nada é tão ruim que não possa piorar”.

Cansado de tanto buscar respostas e não as encontrar, o desacoçoado vagante se lembra que os místicos costumavam fazer viagens de iluminação e auto-conhecimento (como o Caminho de Santiago de Compostela) em situações de desespero e falta de respostas, como aquela que estava vivendo.

Sendo assim, decidiu largar tudo, entrou em um barco e saiu navegando sem destino em busca de sua iluminação.

Entretanto, a “Jornada de Ulisses” do inexperiente navegador, terminou no primeiro recife de corais, que levou sua Nau a fundo, restando a ele apenas se agarrar a um bote e a um balde.

O bote, enquanto equipamento de segurança do barco que, avariado com o desastre, fazia água através de um furo no centro do casco. E o balde – que foi a salvação que passou boiando ao seu lado, e lhe garantiu a preservação da vida, pois com ele tirava a água que insistia em entrar pelo buraco na pequena embarcação.

Depois de ouvir tão contundente relato me despedi de José, lembrando de vê-lo se afastando no horizonte, enquanto jogava para fora, a água que teimava entrar no barco. Ele que andou tanto buscando um sentido para os seus infortúnios, não havia percebido que aquele barco à deriva, fazendo água no meio do mar, era a própria metáfora que explicava tudo: sua vida era tal como aquele bote: não afundava porque a água que entrava era colocada para fora com o balde, mas também não progredia, nem tampouco chegava em terra firme, visto que as avarias da embarcação não lhe permitiam escolher, nem tampouco definir o rumo que gostaria de seguir.

Pobre desafortunado José!

Sobre Educar para (respeitar) as Diferenças

Esses dias fui instado a dar minha opinião sobre a questão da Diversidade dentro do ambiente escolar. Oportunidade ímpar de desfazer mitos e corrigir incorreções de sentido. Diversidade? Qual? Aquela que virou bandeira política a serviço do interesse de determinados grupos? E que a tem como chamariz ideológico? Não. Pelo menos para mim, não. Minha bandeira é a Educação, por isso esse “Canto da Sereia” não me atrai, nem tampouco me convence.

Somos unos e dispares, cada um tem uma assinatura, uma marca que lhe é própria e não me refiro aqui às questões meramente morfológicas (sem me ater ainda às da Psiquê). Nossa grafia é um traço identitário, como nossas digitais, nosso tom vocal, ou a íris, ou mesmo o nosso cheiro. Somos, naturalmente, diversos uns dos outros. Portanto, essa narrativa em torno de uma “diversidade” é, no mínimo, redundante. Dessa forma, em se tratando de Educação, qual o melhor caminho para se tratar desse assunto, tão intrínseco à nossa humanidade?

A resposta a essa pergunta eu encontro nas aulas de Filologia Românica, ministradas pelo saudoso, e eterno Magister, Professor Mario Roberto Zagari. Respeito – do Latim “Respectus“, proveniente do verbo “Respectāre, no sentido de “considerar” ou “prestar atenção ao redor”. E como um vocábulo que contém somente 8 letras pode ser a resposta para uma “polêmica” que parece insolucionável dentro das escolas nos dias de hoje?

Resgatando a “Cultura do Respeito”, e isso é bem mais simples do que parece, basta começar pela base, pelos pequeninos, na Educação Infantil que já são naturalmente desprovidos de “pré-conceitos”. O grande problema, no meu modo de enxergar as coisas, é que a nossa sociedade esqueceu-se do quanto é importante cultivar esse valor – só nos lembramos dele quando temos os interesses próprios, de algum modo, atingidos. Aí é um grande “(des)respeito”, não é mesmo? E como a própria raiz etimológica da palavra denota, respeitar não é sinônimo de amar, nem tampouco de ter como amigo, ao contrário, é apenas uma questão de ter consideração, de dar a atenção devida. Trocando em miúdos, o Respeito é o exercício diário da tolerância, a arte da boa convivência em sociedade.

Trazendo esse conceito para o ambiente escolar, antes de “ideologizar” a diversidade de coisas mais complexas como cor, raça, religião e orientação sexual (como os especialistas de plantão tanto gostam de fazer) é necessário falar com nossos educandos sobre coisas bem mais simples (e não lembradas) como a tolerância e a boa convivência com as suas famílias, com os mais velhos, com os professores e colegas de classe, com os meninos e com as meninas e, por que não dizer, consigo mesmos? Sem respeito às coisas mais simples, como tolerar as mais complexas?

Em tempos de Pandemia, a Covid-19 trouxe à baila a discussão de um tema pouco usual ao nosso olhar ocidental (e tão comum aos nipônicos), que é a cultura do autocuidado, representada hoje pelo uso das máscaras (cuidar de si, mas pensando também no outro), mas que deveria fazer parte do Currículo na Formação Básica em nossas escolas, menos pelo uso do acessório, e mais pela preocupação e tolerância com o próprio corpo, o qual se transformou hoje em uma grande vitrine para os jovens, onde é mais importante parecer (esteticamente ou socialmente) aceitável, do que ser saudável e bem resolvido com a própria história de vida, aceitando suas imperfeições morfológicas, incoerências sentimentais ou mesmo as deficiências (físicas ou não) a que esse invólucro material (apelidado de corpo humano) está sujeito.

Nesse sentido, questões como autocuidado, valorização e importância daquilo que deveria ser íntimo (esse termo perdeu totalmente seu sentido e alcance, já que os jovens vivem sob o domínio da espetacularização da intimidade) e maturação no tempo certo são deixadas de lado, e assim temos (cada vez mais) dentro das escolas públicas e privadas jovens (recém-saídos da fase infantil) transvestidos em adultos, mas sem a respectiva e necessária consciência das responsabilidades que um corpo assim demanda de quem o possui. E essas crianças adultizadas estão sendo educadas para (con-) viver bem e tolerar o próprio corpo?

A Escola deve ser a ‘Casa Máter’ do Respeito, do estímulo à tolerância e à boa convivência entre alunos, professores, servidores e famílias, sem que para isso seja necessário emitir juízo de valor ou opinião favorável (ou contrária) sobre as subjetividades do outro, isso porque um dos sentidos dessa palavra é justamente a consideração, que significa dar atenção, mas que não é sinônimo de concordância, por isso misturar o ideologismo de grupos minoritários (por mais justos e sedutores que possam parecer às nossas convicções políticas) com o conteúdo lecionado (ou mesmo com o Currículo da Formação Básica) podem levar a equívocos seriamente danosos à vida dessas crianças e jovens, futuros adultos problemáticos.

Um exemplo disso é a questão de gênero associada ao ideário do Feminismo (sem aqui colocar em dúvida se os valores desse movimento são certos ou errados). Enquanto a Escola (como alguns assim o desejam) discute o gênero em termos ideológicos, meninas são violentadas em casa por pais e familiares, professoras e servidoras se tornam estatísticas do Feminicídio no Brasil. Ao mesmo tempo, os meninos que acompanham esse tipo de violência (quando não participam, ou se tornam vítimas dela), poderão se tornar no futuro Maridos e Pais violentos e/ou violadores, isso porque eles não aprenderam a importância do respeito com o outro sexo – o feminino, até porque na sua escola nunca ouviram falar sobre Identidade e Igualdade entre homens e mulheres, somente sobre a tal Ideologia (a de Gênero).

Por esse ser um assunto tão sério, que expõe o quanto de preconceito e discriminação podem existir dentro do ambiente escolar que, em maio de 2015, durante a realização do Fórum Mundial da Educação, realizado na cidade de Incheon, na Coréia do Sul, 1600 participantes de 160 países, comprometendo-se com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável – ODS 4, (Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030), assinaram a Declaração de Incheon, que tem como princípio “Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos” . Mas para que isso de fato aconteça é necessário antes vencer barreiras discriminatórias que impeçam, ou dificultem, o acesso universal à uma educação de qualidade ao longo da vida.

Para tanto, os signatários da Declaração comprometeram-se ratificando que a Inclusão e equidade na e por meio da educação são o alicerce de uma agenda de Educação Transformadora e, assim, comprometem-se a enfrentar todas as formas de exclusão e marginalização, bem como disparidades e desigualdades no acesso, na participação e nos resultados de aprendizagem.

Reconheceram, também, a importância da igualdade de gênero para alcançar o direito à educação para todos. Dessa forma, estarão empenhados em apoiar políticas, planejamentos e ambientes de aprendizagem sensíveis ao gênero; em incorporar questões de gênero na formação de professores e no currículo; e em eliminar das escolas a discriminação e a violência de gênero. Por isso que a Sub-Secretária da ONU e Diretora-Executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, afirmou que “A Declaração de Incheon nos compromete adequadamente com uma educação não discriminatória, que reconheça a importância da igualdade de gênero e do empoderamento das mulheres para o desenvolvimento sustentável.”

Por esses e outros motivos (e pela objetividade que essa narrativa exige) que reforço a premissa que deu origem a todo esse palavrório, a qual preceitua que é necessário repensar a Escola que é oferecida, hoje, aos nossos educandos – ao invés de um espaço de disputas por “protagonismo ideológico”, que ela seja uma Escola Viva que ensine o “Respeito às diferenças”. Mas não podemos nos esquecer: ele (o Respeito) é uma rodovia de mão-dupla, e para obtê-lo é preciso também oferecê-lo. A não observância dessa regra (invadindo a contramão de direção) pode causar um grave acidente de trânsito, com vítimas tanto de um lado, quanto de outro.

Ah, e já ia me esquecendo, como disse na abertura desse textículo, foi solicitado que eu me posicionasse sobre a questão da Diversidade no ambiente escolar, mas acabei falando tanto, que não deixei clara qual foi a minha resposta sobre o assunto. Então, como trabalhar o tema da “Diversidade na Escola?

– Com o Respeito, é claro!

Professor Sérgio Soares

Entre o “Olhar” e o “Ver”

Enxergando além da “menina dos olhos”

Ao iniciar mais um textículo, posso afirmar que essa foi uma semana reveladora – primeiro porque penso ter vivido uma experiência transcendental, quase mística, ocasionada por uma troca de olhares – não amorosos, nem tampouco afetivos, mas carregados de subjetividades. Ao mesmo tempo, ouvindo a Live de um amigo, onde ele falava sobre o quão aguçados ficaram os nossos sentidos da visão e da audição por conta da restrição sensorial que as máscaras anti-Covid nos levaram a descobrir tentei, mas não resisti ao comichão de escrever sobre a menina dos olhos, janela de entrada de nossa alma, e entender o que, de fato, se passou comigo. Mas para fazer isso resolvi recorrer a frases feitas, do palavrório populesco, outras de elevada estirpe, para demonstrar (ainda que em parte), o quão profundo e revelador pode ser um simples ato de olhar.

Aquilo que os olhos não veem

o coração não sente”

Não é isso mesmo? Vã filosofia,.pois em tempos de relativização dos sentidos, onde não é mais necessário ver (como Tomé o fez) para se.convencer da realidade que a vida (transformada em um instantâneo de Redes Sociais) grita a altos brados, fica difícil não sentir a dor do amor perdido ou mesmo da amizade traída. Portanto, dói sim, da mesma forma, ou até com mais intensidade, pois passa a ser uma dor sentida em tempo real, e compartilhada por seus infinitos seguidores (ou per-seguidores).

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.”

Em tempos de escolha de novos Gestores Municipais, Machiavel nos brinda com essa afirmação. Mas para alcançar a amplitude de seu significado é preciso enxergar além da narrativa ideológica, já que nem sempre uma bandeira partidária representa o verdadeiro compromisso com a (res)publica, a coisa pública, nem tampouco pressupõe a competência para conduzi-la. Por isso olhar em volta é tão importante, como dizia José Saramago “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

As palavras estão cheias de falsidade ou de arte; o olhar é a linguagem do coração”. (Willian Shakespeare)

Ser ou não ser, eis a questão já bem dizia o pai de Otelo. Em tempos de distanciamento social, e relações cada vez mais superficiais, saber diferenciar a parceria e a camaradagem da dissimulação (olhos de Capitu) e do proveito próprio se tornou um verdadeiro tratado de Semiologia, cada vez mais complexo onde a análise discursiva envereda por um sem número de enunciados, que como diria a rainha dos solilóquios Clarice Lispector “Quantas coisas cabem em um olhar! É tão expressivo, é como falar.”

“Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação.” (Provérbio Árabe)

Aqui está a síntese da diferença entre o olhar e o ver (enxergar). Para quem não consegue entender o óbvio e ululante, posto diante de si em letras garrafais, não adianta escrever um textão, pois esse é um tipo de analfabetismo funcional que nem a práxis pedagógica mais inovadora dará conta de solucionar. O olhar está no raso, o enxergar pressupõe que o interlocutor-narrador-personagem se arrisque nas águas profundas. Já bem define Henry Miller “O destino de alguém não é nunca um lugar, mas uma nova forma de olhar as coisas.”

“Às vezes, o que precisamos está tão próximo… Passamos, olhamos, mas não enxergamos. Não basta apenas olhar. É preciso saber olhar com os olhos, enxergar com a alma e apreciar com o coração. O primeiro passo para existir é imaginar. O segundo é nunca se esquecer de que querer fazer é poder fazer, basta acreditar.” (Pedro Bial)

Com uma quase totalidade de certeza posso dizer que a experiência que vivi com a troca de olhares não teve nada de transcendental, nem tampouco de mística, bem como o que me tocou na Live do amigo que falava sobre máscaras e olhares não foi somente o lado poético da narrativa, ao contrário, tanto em um caso quanto em outro o sentimento foi outro – o de Acreditar – na alma escondida dentro do olhar, no artista por trás do narrador com a certeza, como disse Bial, de que  “querer fazer é poder fazer, basta acreditar”.

Professor Sérgio Soares

Política X Educação: antagonismo de princípios ou oportunismo eleitoral?

No momento em que a Educação virou assunto nas Redes Sociais e na grande mídia, por conta da Pandemia, não posso deixar de refletir aqui no Blog sobre a relação confusa, e complexa, entre Política e Educação, por que se assim não o fosse, certamente o cenário educacional no país, em especial quando se trata da Escola Pública, seria outro que não o de insucesso que o Brasil ostenta. Então trata-se de um caso real de antagonismo de princípios, ou de mero oportunismo eleitoral?

Para tentar entender como se dá esse relacionamento (pouco amigável) preciso voltar os olhos para tempos ancestrais, nesse caso, à Grécia antiga de Platão, considerado o primeiro pedagogo da história.

Segundo o filósofo grego a Educação era a mais nobre das ciências, à qual conferia o status de bem maior da vida, e que tinha como objetivo a formação de cidadãos virtuosos, lembrando que o significado de virtude para Platão não se relacionava com o sentido de boa conduta moral,, outrossim à racionalização dos sentimentos próprios de cada indivíduo, em outras palavras, virtude remete à capacidade de racionalização do sujeito – a Educação governa o homem, a virtude domina a razão.

Não por menos, segundo o Filósofo, na formação dos cidadãos gregos, primeiro se cuidava do ensino da virtude, com toda a carga de experiências, sentimentos e valores próprios de cada núcleo social, para só depois se cuidar da formação intelectual. Certamente, aquela máxima popular “a família educa, e a escola ensina”, segundo a lógica platônica, não deixa de ter algum sentido.

Por isso, a “Alegoria da Caverna” traduz bem a importância desse processo educacional, vista aqui como um instrumento de formação de cidadãos, articulados e inquietos, que não se conformando com o senso comum, com a resposta mais simples, rompem com os grilhões da ignorância, e levantam-se para enxergar além da parede, descortinando um mundo novo de informações e sensações. 

Se como dito no início dessa análise, a Política e a Educação vivem hoje uma relação nada amistosa, na Grécia elas compunham, junto com a Ética, os pilares para a formação integral do homem grego, base para a construção de uma sociedade política e eticamente justa, composta de cidadãos com capacidade de argumentação e retórica.

Berço da Política; na Grécia seu sentido era bem diverso daqueles que hoje conhecemos – naquele tempo ela tinha como princípio o bem comum da Polis, e os cidadãos que participavam da vida na cidade-estado, colocando o interesse coletivo à frente do pessoal, eram chamados de Politikós, ao passo que aqueles outros que, não comungando desse ideal, preocupavam-se apenas com os próprios interesses, eram denominados Idiótes. Não é difícil fazer uma analogia com os dias atuais para perceber que, ao contrário da Polis, temos hoje mais Idiótes, que Politikós, subversão total de princípios.

O resultado disso, para me ater ao tema Educação, é que na Esfera Federal o Poder Executivo tergiversa sobre suas obrigações legais dentro do previsto a cada ente federado, na LDB. A bem da verdade, na atual gestão, nem do Ensino Superior e do Técnico-Profissionalizante – sua obrigação – o Governo Federal está dando conta, basta ver a ineficácia e a ineficiência do MEC no último ano e meio, com a descontinuidade de gestão, perdida em um debate ideológico que em nada contribuiu para a construção de uma Política de Estado para a Educação Brasileira, que a retire da condição de insucesso e estagnação em que se encontra hoje.

Apesar da Pandemia, em Minas a situação já não era (antes do isolamento social), nada alvissareira devido justamente à falta de um Projeto Político, que conferiu a Secretaria Estadual de Educação um papel de “síndico” das escolas, atendo-se a questões de “perfumaria”, enquanto os graves problemas do ensino em Minas como baixa proficiência dos alunos, distorção idade-série, sucateamento da Rede, desvalorização do magistério e uma gestão com baixos resultados não foram sequer vistos desde o início desse Governo. Isso sem falar no descaso com a Educação de Jovens e Adultos, e na construção de um novo modelo de Ensino Médio que não é nada inclusivo, ao contrário, só reflete a realidade dos alunos da Região Metropolitana, desconsiderando o perfil e as necessidades dos alunos das regiões periféricas, e do interior do estado.

Nota-se aqui em Minas Gerais um distanciamento real entre Política e Educação, justamente por que existe aí uma divergência de princípios. Para o Governo ela é um mal necessário, do qual ainda não conseguiu se ver livre. Basta ver as tentativas de enxugamento da Rede com a  municipalização do Fundamental II, o eterno Voucher que, segundo “especialistas”, vai resolver o problema da baixa qualidade de ensino da Educação Básica e, não poderia me esquecer, o inimigo número 1 do equilíbrio fiscal do estado, o servidor público, em especial os da Educação, que são muitos, e para os quais não se achou, ainda, uma solução terminal.

Como se pode perceber, portanto, em Minas a Educação é entendida como “Despesa” (e uma das grandes), que não lembra em nada o princípio platônico de formação de cidadãos capazes de opinar e participar da vida e das decisões sobre os rumos de uma sociedade mais justa – um projeto de longo prazo. E por que isso acontece?

Por que, infelizmente, ainda temos governantes que tomam decisões baseadas apenas em números, esquecendo-se que, por detrás de cada indicador, existe um sujeito que deve ser considerado em toda a sua complexidade e necessidades. Aliás, por falar em números e indicadores, estou curioso para saber como foi o desempenho dos alunos da Rede Estadual na última avaliação do Proeb. Por que será que esses números ainda não foram divulgados?

E então chegamos ao elo mais fraco da cadeia, ao primo pobre do pacto federativo, os municípios, que em Minas são muitos (853), e em sua grande maioria de pequeno porte (com menos de 20.000 habitantes). Agora imaginem só, se o pai de todos (o governo federal) não vem cumprindo com suas obrigações com a Educação, se o estado de Minas está quebrado e, independente da questão fiscal, não se compromete com a construção de uma Política Estadual de Ensino, o que se pode esperar dessas pequenas localidades que sobrevivem dos recursos emprestados pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e, na Educação, da verba oriunda do Fundeb?

Pouco ou quase nada. E não falo isso afirmando que seja um caso de  má fé de seus Prefeitos, mas é que na verdade eles reproduzem um discurso apreendido desde cedo, onde Educação não é o objetivo de um cidadão. Seguindo essa lógica de interior, o principal objetivo é ser capaz de votar, porque é através do voto que ele vai conseguir bater a laje da sua casa, trocar a dentadura ou até de carro e, por isso,, quanto mais filhos, mais votos, sendo assim, receberá mais benesses dos padrinhos, donos dos currais eleitorais. Agora imaginem vocês se esse tipo de político (ou deveria chamar de Idiótes) vai ter algum comprometimento com a correta aplicação do Novo Fundeb?

É por isso que entendo necessário, pelo bem da Educação Básica e Pública, a construção desse debate sobre antagonismo de ideais e a má fé de Idiótes, disfarçados de Politikós, que em tempos de pleito constroem discursos inflamados sobre a importância do ensino público e de qualidade (isso virou um bordão, como se ter qualidade não fosse condição sine qua non para a existência do Ensino), prometem investir para melhorar o Ideb de suas localidades, e tecem elogiosos discursos sobre o papel e a importância dos professores e servidores da Educação no processo de Ensino e Aprendizagem de nossas crianças e jovens.

Em especial, nesse tempo de exceção, onde o panorama futuro, e próximo, sugere todo um rearranjo físico nas escolas, mas também de metodologia, acho essa mudança irreversível e independente do surgimento da vacina contra a Covid-19, pois a cultura do autocuidado (que já faz parte da rotina dos países asiáticos), veio para ficar. Isso por que o Corona nos mostrou que nem a invencibilidade bélica, que as grandes potências sempre ostentaram, não é capaz de sobrepor-se e defender-se da força de um organismo unicelular. 

Com a eminência real de que outras Pandemias como a da Covid possam surgir, esse novo paradigma de sanitarismo é algo inevitável, e a consequência disso na Educação é óbvia, como se pode perceber nos últimos 4 meses nas escolas pelo Brasil afora.. 

Sendo assim, mais do que em qualquer tempo, é necessário que sejamos hábeis e astutos na escolha dos futuros Prefeitos já que dessas escolhas nascerão os novos Gestores em Educação das 853 cidades mineiras. Por essa razão, deixo aqui para que meus amigos eleitores reflitam, quatro princípios da Educação que penso devam nortear o voto nos futuros postulantes aos Paços Municipais, lembrando a lógica Platônica de que Política, Educação e Ética, são os pilares para a construção de uma sociedade política e eticamente justa, composta de cidadãos com capacidade de argumentação e retórica.

O primeiro princípio é o Respeito – via de mão dupla que deve considerar e respeitar as idiiossincrasias e os costumes do núcleo familar, mas também as necessidades e o protagonismo do aluno – objetivo final de qualquer processo educacional, isso sem esquecer-se de que os Mestres são os  parceiros desse processo, e não devem ser tratados como eternos opositores e inimigos da Educação.

O segundo é o Resultado não entendido como um mero somatório de números e indicadores, mas sim como o produto final de um processo, que deve ter métrica, método e controle, que demanda tempo e que não dá saltos.

O terceiro é a Transparência que não é um simples exercício de marketing político, mas que se dá na postulação de um Projeto Educacional para o município claro, mas também viável, sem o qual nada que se faça ou fale chegará a bom termo, quando se trata de Ensino Público.

Por último, e talvez o mais importante, é a Competência esperada de um Gestor da Área Educacional, que não pode ser confundida aqui com ilustração, currículos recheados, que nada representam se esse Dirigente Municipal de Ensino não demonstrar proficiência técnica para a Gestão, e também para Política.. Aqui vale pesar a diferença entre o Saber (conhecimento academicista) e o Saber Fazer (conhecimento academicista somado à experimentação, à vivência que tornam sólidos esse cabedal de informações).

Um futuro Prefeito que não reconheça, nem entenda, esses princípios como base para a construção de um Projeto de Educação para a sua localidade é apenas mais um oportunista que, se eleito, vai passar os quatro anos de seu mandato dando desculpas para o baixo desempenho da Rede de Ensino, quando não, transferindo a culpa para os atores desse processo – os alunos e os professores. 

Não se esqueça, candidato a Prefeito que não reconhece que “Educação é pra quem Conhece”, e não um cargo para ser loteado entre apadrinhados, não merece seu voto, nem tampouco o seu respeito!

Professor Sérgio Soares

Doutor Jota Brasilino: a história do homem que copiava

Entrei na venda do Geraldo para pegar uns mantimentos, e enquanto esperava o vendeiro separar as encomendas, o noticiário na TV falava sobre uma denúncia de plágio em material didático, que foi entregue aos alunos de uma Rede de Ensino.

Fiquei tão chocado e revoltado com a notícia, que não me contive e soltei um sonoro palavrão, que causou risada no Geraldo e nos frequentadores da venda, chamando a atenção do Professor Pandolfo, que, sentado numa mesa ao fundo, me convidou para sentar:

– Meu caro amigo. Foi digna de reparo sua indignação com o relatado no noticiário, mas não tome isso como algo inédito. Aqui por essas bandas já ocorreu algo parecido.

– Essa história começou quando chegou à cidade, vindo da capital, um tal Doutor Jota Brasilino, “Especialista” encaminhado pelo Governo Central, com a missão de remodelar o material pedagógico, utilizado pela Rede Municipal de Ensino.

– O forasteiro chegou ostentando um currículo recheado de títulos e honrarias, que bastaram para convencer do Prefeito à Diretora da única escola, que aceitaram como verdade absoluta, tudo que o “especialista” dizia. Assim, não tardou para que todos os cadernos pedagógicos da cidade estivessem atualizados pelo ilustrado Doutor.

– Tudo ia bem, até que uma sabida professora daqui, Dona Fatinha, percebeu algo de errado no material oferecido aos alunos. Em um dos cadernos, havia uma citação que chamou a atenção da professorinha. Na abertura de um dos conteúdos estava assim grafado “Feliz aquele que transfere o que sabe, e aprende o que ensina”, Jota Brasilino.

– Dona Fatinha já tinha visto aquela frase em algum lugar, por isso, pesquisando nos livros descobriu que era uma citação famosa de uma outra professorinha, chamada Cora Coralina.

– Em seguida àquela descoberta, vieram outras e mais outras e mais outras. E foi assim que o tal Doutor foi desmascarado – ele era um copiador contumaz, que tinha por mau hábito apropriar,-se das ideias e escritos de outros, como se dele os fossem. Pesquisando a ficha corrida do larápio, descobriram também que seu imenso e recheado currículo – da graduação ao doutoramento – era fruto de roubo de direitos autorais alheios. O espertalhão saiu corrido de Prosperidade, para nunca mais voltar.

Enquanto Geraldo terminava de ensacar minhas compras, Pandolfo encerrou nossa conversa com um atleta:

– Meu dileto amigo, apropriar-se de ideias alheias é uma das formas mais abjetas de roubo, pois significa tomar do outro um bem tão valioso, quanto subjetivo, que é sua inspiração, resultado do esforço para produzir algo original.

Ainda surpreso, e desconcertado com a aula de ética e respeito que recebi do sábio Professor, peguei minhas encomendas, me despedi e segui o meu caminho.

Dedo de prosa: o dia em que tomei um café com o Governador

(Narrativa baseada em um encontro ficcional, que poderia ter sido real ou, quem sabe, será?)

Boa tarde Senhor Governador, que bom que o Senhor aceitou meu convite para um café, abrindo um espaço em sua agenda, que sei está tomada de compromissos, em especial nesse momento que o estado vive, de enfrentamento dessa Pandemia. Aliás, apesar do convite ter sido para falar de Educação, não posso deixar de parabenizá-lo pelo trabalho da Saúde e por sua postura diante da crise, abrindo mão do debate político de 2022, para pensar no seu povo e no seu estado.

Bom mas o convite foi para um café, por isso.  – Moça, por favor, dois cafés pretos e quatro  pães de queijo. Obrigado!

Então Governador – enquanto o café não chega – o Senhor não deve saber mas tentei falar-lhe em Novembro do ano passado, até enviei uma carta, mas imagino que o mensageiro encarregado de levá-la até o Senhor deve tê-la perdido no caminho, ou mesmo o Senhor não a leu, porque certamente devem ser milhares de correspondências, mas isso não vem mais ao caso. Ah, o café chegou.

Bom prometo ser objetivo e o Senhor pode ficar bem a vontade, saboreando seu café e seus pães de queijo, enquanto me ouve, pois o assunto da nossa prosa é Educação e o Senhor já externou, por mais de uma vez, que preza demais esse tema, até por questões familiares, não é mesmo? Suas Tias eram professoras, estou correto?

Sou um escrevedor e tenho um Blog, chamado Articulância, onde deposito as minhas ideias sobre Política e Educação, quando quiser me dar a honra de visitá-lo ficarei muito feliz, mas, voltando ao assunto, além de escrevedor sou professor, e um lutador pela Educação desse nosso estado Diamante, meu Governador. Por isso insisti, teimei, briguei até conseguir marcar esse encontro.

Assim, sendo um mineiro teimoso, mas também muito observador, que desde o início de sua Gestão vem anotando, e matutando sobre as coisas da Educação daqui de Minas, que tenho que dizer para o Senhor – ainda que não tenha dúvida de que foram bem intencionadas – que as ações apresentadas até agora para a solução dos problemas de Ensino aqui em Minas, são rasas de assertividade, e poucas de conexão com a realidade. Desculpe-me a sinceridade, mas não poderia faltar com a clareza dos fatos, diante do Senhor.

O café está bom? Quer mais um pão de queijo?

Por que eu digo que são rasas de assertividade? Sabe meu Governador para cuidar da Educação de um estado como o nosso não basta apenas uma boa formação acadêmica, ou um bom currículo, é necessária uma boa dose de experiência de gestão, e outra dose de vivência política. Juntando as duas, meu Governador, você passa a ter a dose bem medida para cuidar dessa pasta e construir um Projeto Educacional eficiente e eficaz, que possa dar conta dos problemas educacionais de Minas.

E por que falta conexão com a realidade, o Senhor deve estar se perguntando. Simples. A Educação que lhe foi apresentada, as escolas que o Senhor visitou e foram divulgadas, não representam nem um 3X4 da nossa realidade, quiçá um retrato da Educação em Minas. E sabe o porquê disso Governador? Por que só poderia lhe mostrar com fidedignidade o que são as escolas e seus problemas, quem tivesse vivido e convivido nesse ambiente: nas escolas co-habitadas, nas escolas de interior, nas escolas “improvisadas”em galpões e contêineres. Se por lá o Senhor tivesse andado, certamente sua visão seria outra.

– Moça me traz mais um café, e dois pedaços de broa de queijo?

Sabe Governador, vejo muito o Senhor falar em indicadores, em números, e eu adoro indicadores, principalmente por que sei que detrás de cada um deles existe uma história que precisa ser contada, para que eles façam sentido, e se tornem verdadeiros. O Senhor veja, o tal do IDEB – um indicador que hoje é usado para quase tudo, mas que se não conhecida a história desses alunos, seu aproveitamento em sala-de-aula, se houve distorção idade-série ou não, como foi a evasão escolar e, o mais importante, como foi a taxa de aprovação desses meninos e meninas, esse indicador vale tanto quanto uma cédula de R$15,00.

–  O Senhor quer mais um pedaço de broa?

O Senhor está entendendo agora? Educação não é só uma questão de saber, mas principalmente de saber fazer, escolhas inclusive, por que são a partir delas que os resultados projetados lá no início, no nosso caso que não houve, vão se tornar realidade meu Governador (ou não, se a escolha feita foi a errada). Mas o bom da Política é que a qualquer tempo a gente pode mudar tudo, e recomeçar fazendo novas escolhas.

O Senhor veja, está para começar o Programa de Ensino Não-Presencial no estado, para nossos alunos, por conta do distanciamento social. Eu se fosse o Senhor olhava isso com mais cuidado, já existem repercussões negativas no Brasil todo a respeito desse modelo de suplementação de aulas, e a proposta até então apresentada pela Secretaria de Educação vai de encontro a tudo que tem sido questionado por pais, entidades, professores e Sindicatos junto ao Ministério Público.

Aliás, sobre professores, ontem ouvi o Senhor falando para uma entrevistadora que lhe parece que na Educação todos vestem vermelho, e estão contra o seu mandato. Posso lhe afirmar com 100% de certeza que temos vermelhos sim, mas temos laranjas, azuis, amarelos e tantas cores quantas forem as linhas ideológicas. E não meu Governador, não é verdade que todos estejam contra o Senhor ou sua Gestão.

O que eu acho que ocorra, nesse caso, é uma contaminação do discurso, tanto de um lado quanto de outro. Por parte dos servidores existirá sim uma corrente, a que perdeu a eleição, que vai sempre inflar a categoria com uma fala belicosa, buscando em cada Ato do Governo um motivo para levantar a polêmica entre os pares, usando para tal um cardápio de reivindicações, muitas vezes justas, outras não, mas que para serem exequíveis precisam de um ambiente fiscal e econômico do estado saudáveis, o que não vai acontecer por agora certamente.

Por outro lado, a voz do Governo nem sempre é apaziguadora, ao contrário. Nas últimas manifestações antes da Covid-19, quando se discutia o reajuste salarial das categorias do funcionalismo, vi por várias vezes a voz do Governo tratar a Educação como os “demais”. E isso, além de deselegante, só faz estimular a dissensão entre os servidores que já se sentem desrespeitados, e aqui abro um parênteses, meu Governador.

– Mais dois cafés por favor!

Não concordo e nem vou fazer aqui o discurso de vitimização dos servidores públicos estaduais, dentro dessa categoria existem servidores de muito valor, dedicados, mas também servidores cansados, desestimulados, que realmente não contribuem em nada para a qualidade do serviço prestado, a sorte é que esses são bem poucos. Mas de toda forma existe um problema de RH, comum aos dois.

O estado, enquanto Gestor, esqueceu-se que capacitação e atualização são tarefas primordiais para a eficiência do serviço público, e isso não é um problema da sua Gestão, já vem de tempos, e para não ser leviano, vou falar apenas da Educação.

Das três esferas – a Federal, onde hoje estou funcionário público, a Estadual, onde já atuei como Professor da Rede e a esfera Municipal, onde já lecionei e fui Diretor Municipal de Educação, a que menos investe na capacitação de seus servidores é a Estadual, e o reflexo disso pode-se perceber agora com o problema das aulas não-presenciais, onde os professores sentiram-se despreparados e desorientados sobre qual a melhor forma de agir, nesse novo ambiente.

E essa questão de capacitação é deficitária não só entre os docentes, mas entre os demais servidores também, o que acabou levando a uma acomodação entre a categoria que por isso é duramente criticada por setores de governo e grupos políticos que, miopemente, acham que os cansados e incompetentes são a maioria, o que não é verdade.

Sei que seu tempo é curto, o Senhor quer mais alguma coisa? Já estou acabando.

Junte- se a isso, meu Governador, por diversas vezes vi o Senhor falando sobre faixas salariais de servidores públicos que não se aplicam à Educação, e acho que nem tampouco à Saúde e Segurança. Ao contrário salários na faixa de R$20.000,00 são próprios de carreiras de estado, muito específicas, e que não representam nem de longe a realidade da maioria do funcionalismo. E esse tipo de discurso só serve para alimentar a tensão existente dentro de uma categoria que sofre com o parcelamento de seus salários há 4 anos, e hoje, com a crise financeira do estado, sem reposição de perdas e implementação do Piso do Magistério, ainda sente-se desprestigiada diante da diferença de tratamento entre categorias do mesmo funcionalismo.

Quanto a esse ponto, me perdoe a impertinência, prometi que íamos falar apenas sobre Educação, mas não posso me conter. Meu Governador, além de escrevedor e de Professor, também fui Assessor Político, e uma de minhas maiores preocupações sempre foi com a imagem da autoridade a quem servia, por isso não me contenho em perguntar – o Senhor de fato tem uma assessoria política, e de imagem? Não falo isso desmerecendo quem quer seja, caso o Senhor os tenha, mas fatos como esse dos valores pagos a servidores, e inúmeras outras situações pelas quais já o vi passar me fazem pensar que o Senhor trabalha sozinho, aliás tenho que destacar que, sozinho ou não, sua postura, seus posicionamentos melhoraram consideravelmente, desde o início da Gestão até hoje.

Há de se levar em conta que no início do mandato, a transição do empresário para o político foi difícil, e por vezes o primeiro falou mais alto do que o segundo. Hoje já arrisco dizer que o político se impôs nesse jogo dialético e isso é muito bom – sua experiência de gestão é importantíssima, mas sem a visão política ela perde em efeito e substância – é aquela história que falei a pouco com o Senhor, a diferença entre o “Saber” e o “Saber Fazer”, hoje o Senhor depois de tantas crises que já viveu no estado, em pouco mais de um ano, está demonstrando que já “Sabe Fazer”.

De toda forma Meu Governador, já encerrando essa prosa, essa questão do Assessoramento é séria, pois o Senhor não é obrigado a ter todas as respostas, ao contrário deve estar sempre bem brifado para que não seja pego em saias justas, mas para além dessa questão comunicacional, existe um outro perigo à sua volta, que como bom mineiro o Senhor deve tomar tento. Olhando com “olhos de estrangeiro”, sem a contaminação da emoção e do convívio, da mesma forma que o vejo mal assessorado, vejo também que, politicamente, o Senhor deva ficar mais atento às informações que lhe são passadas, confiar desconfiando, e checando sempre que possível pois, ao menos na Educação, parece que estão lhe vendendo gato por lebre.

Muito obrigado pela companhia meu Governador, pela deferência de ter aceitado meu convite, e espero que possamos nos encontrar novamente, em breve. Até mais!

Professor Sérgio Soares

E agora José?

A crise de credibilidade da Aprendizagem Remota no país

Parafraseando o mineiro Drummond:  E agora José, que a Pandemia não se foi, que as aulas não retornaram  e que os modelos adotados para suplementação das aulas presenciais, começam a ser questionados tanto em relação à sua eficiência, quanto à sua pertinência, não mais pelos professores e Sindicatos, mas sim pelas associações de Pais e sociedade civil? E um dos, senão o maior motivo de crítica à Aprendizagem Remota é justamente o fato dela poder ser contabilizada como carga horária obrigatória (portanto, como conteúdo lecionado), conforme aprovado pelo Parecer 05/2020 do Conselho Nacional de Educação  – CNE, aguardando homologação.

Segundo o grupo “Campanha Nacional pelo Direito à Educação” (que é uma rede de defesa do direito à educação, reunindo organizações e entidades nacionais há 20 anos, com representantes em 24 unidades da federação) é “Claro que a escola precisa sugerir atividades, promover debates sobre o momento que estamos vivendo, contextualizar, mas de forma complementar, que não conte como dia letivo e carga horária obrigatória”.

Enquanto isso… Minas Gerais se prepara para no próximo dia 11 de Maio dar início a um ambicioso modelo de ensino remoto – o Regime de Estudos não-Presenciais – que contará com Tele-Aulas  (transmitidas pela Rede Minas), e um Projeto de Estudos Tutorado – PET  (composto por apostilas), onde tanto uma quanto o outro serão contabilizados para o cumprimento da carga horária exigida de 800 horas-aula, para os seus quase 1 milhão e setecentos mil estudantes.

Contudo esse entendimento não é comum a todos os Estados, a Bahia (citada como inspiração e referência na construção do modelo de ensino mineiro), além do Distrito Federal, Mato Grosso, Espírito Santo já estão trabalhando com o ensino não-presencial, mas sem contabilização das horas.

Ocorre que o CNE, ao considerar-se legalmente impedido de deliberar sobre a questão da carga horária (já que o Ministério da Educação desde o início da Pandemia havia flexibilizado o cumprimento dos 200 dias letivos), deixou a cargo das Redes ou Sistemas de Ensino locais a organização do trabalho de Aprendizagem Remota (uma das formas possíveis de atendimento aos alunos, além da reposição pós-pandemia) criando, a meu ver, um grande embaraço, e de difícil solução para Minas, por exemplo, ao definir as seguintes recomendações:

“Previsão de formas de garantia de atendimento dos objetivos de aprendizagem para estudantes e/ou instituição de ensino que tenham dificuldades de realização de atividades pedagógicas não presenciais;” (No caso de Minas Gerais, por exemplo, onde quase metade dos alunos não terão acesso ao Regime de Estudos não – Presenciais, como será garantido esse atendimento?)

“Garantir a sistematização e registro de todas as atividades pedagógicas não presenciais, durante o tempo de confinamento, para fins de comprovação e autorização de composição de carga horária por meio das entidades competentes;” (Essa é uma questão mais complexa ainda, pois, voltando ao modelo mineiro de Aprendizagem, como auditar ou garantir que as Tele-Aulas estão sendo assistidas, ou que os PET’s  estão sendo acompanhados? E ainda que isso esteja acontecendo, como será feita a avaliação desses alunos para assegurar que as atividades propostas atingiram os objetivos pedagógicos previamente estabelecidos?)

Além disso, questões importantes como o atendimento à Educação Infantil durante o isolamento, e aos Anos Iniciais (período de Alfabetização), ficaram condicionadas a um suporte pedagógico das Redes (virtual, ou através de material impresso) aos grupos familiares (pais e/ou responsáveis) que assumiriam o papel de tutores dessas crianças, tanto em um segmento quanto em outro.

Para dar conta da formação que esses pais não possuem, o CNE sugere que eles façam o curso online proposto pelo MEC, “Tempo de Aprender”, onde se trabalha a Literacia familiar, como forma de desenvolvimento das habilidades leitoras e cognitivas das crianças, com a ajuda de seus familiares. Mas ora, se o problema da Aprendizagem Remota (de forma geral no país) é justamente a falta de acesso das famílias de baixa renda a uma banda larga de qualidade, que lhes garanta aos filhos o acompanhamento de atividades não-presenciais, como se espera que essas mesmas famílias (com baixa formação escolar), façam um treinamento desse nível, com alguma aprendizagem?

Segundo ainda o CNE, todos os problemas advindos desse período de isolamento social deverão ser tratados quando do retorno às aulas presenciais, através de um trabalho de acolhimento de alunos, pais e professores nas escolas, e da avaliação diagnóstica das turmas para definição do planejamento das atividades, desse ponto em diante, visto que o Conselho reconhece que nem todos terão conseguido acompanhar com aproveitamento os estudos feitos à distância. Contudo, com relação às provas e exames, fica valendo o conteúdo devidamente lecionado (ainda que a sugestão seja ater-se ao essencial).

Olha que situação interessante, a proposta é: faça o básico, como der para ser feito (mesmo sabendo que muitos ficarão de fora), mas compute esse tempo como dia letivo e conteúdo lecionado, que deverá ser usado como conteúdo previsto para as avaliações e exames oficiais. Realmente, os pais e entidades que se preocupam com a qualidade do ensino, têm motivos reais para sua indignação e questionamento sobre a validade desse modelo de “ensino”, adotado para suplementar as aulas presenciais não dadas durante a Pandemia.

Então percebo que, de fato, existiu um vício, um erro de origem, quando se pensou em um sistema de acompanhamento não-presencial dos alunos durante esse período de distanciamento  social. A premissa deveria ter sido “O que ensinar” e “Por que ensinar”, onde aí sim faria todo o sentido discutir o “Como fazer”, e não apenas o desenvolvimento de modelos suplementares de ensino para compensação de horas-aula.

Professora Angela Dalben, Secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte coloca muito bem essa questão em entrevista concedida a um veículo de comunicação da Grande BH, dias atrás onde ela diz: “A educação a distância tem sido justificativa para contar horas e descontar no retorno. Vejo essa situação como preocupante, porque não pode forçar uma situação sem entender o lado do outro”.

E esse outro é justamente o aluno que não tem acesso às redes sociais e internet, às meninas que, segundo a UNESCO, devido às tarefas domésticas (inerentes ao gênero em condições de baixa renda) teriam menos possibilidades de acompanhar os estudos remotos, do que os meninos. Esse grupo de estudantes (quando do retorno às aulas) estaria em condições desiguais de aprendizagem, em comparação com aqueles que tiveram acesso e acompanharam todas as atividades, o que poderia se tornar um motivo para o aumento da defasagem idade-série, quando não da evasão escolar.

Portanto, talvez o mais sensato teria sido seguir o modelo adotado pela Secretaria de Educação de Belo Horizonte, que optou por não antecipar férias para compensar os dias parados, nem tampouco repassar orientações a distância a seus quase 202 mil alunos. Segundo a Secretária de Educação: “Nossa preocupação primeira foi acionar a rede de proteção à criança e ao adolescente na parte nutricional”, e complementa “O que temos são trabalhos importantes de vídeos para interação com as famílias, que falam de afetividade e da importância de estimular a criança. No caso dos maiores, uma sugestão de leitura ou de um filme que passará na TV”. A Secretaria de Educação de Belo Horizonte acredita que, com o fim do isolamento social, previsto para Junho, seja possível compensar a carga horária perdida.

E enquanto isso… A Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais se prepara para iniciar em 11 de Maio seu “Regime de Atendimento não-Presencial”, que já começa com um déficit de cobertura estimado em quase metade dos alunos, mas isso não é problema, não é mesmo? Pois, conforme já ouvi de alguns (e o próprio CNE ratifica esse raciocínio), o importante é atender à maioria, ou o que for possível. O que ficar “de fora”, na avaliação diagnóstica se corrige, não é mesmo?

O problema é que, quando se trata de Educação, as coisas não são simples assim, e só quem realmente viveu e conheceu a realidade das salas-de-aula (em especial da Rede Pública), é capaz de entender que aquilo que está se fazendo é excluir da escola uma parcela considerável de crianças e jovens, que já trazem consigo déficitis e perdas cognitivas e de aprendizagem que (somadas a esse período sem acompanhamento) vão gerar isolamento e desinteresse pela continuidade dos estudos. Mas o que importa é que a “maioria” vai conseguir avançar para a série seguinte, mesmo que essa parcela significativa excluída do Sistema Educacional venha a se tornar (no futuro) parte do “Problema Social”, não é mesmo?

Mas por que se preocupar com tudo isso? Se o que importa é que no próximo dia 11 de Maio está previsto o início do arrojado modelo de ensino remoto de Minas, com uma carga horária semanal de 20 horas-aula (além daquela a ser computada com os PET’s). Realmente um investimento ousado, ainda mais considerando-se tudo que aqui foi posto de questionável sobre a forma como a Aprendizagem Remota tem sido trabalhada no País. Mas isso é um mero detalhe, não é mesmo?

E Agora José? E Agora Senhor Governador Romeu Zema? E Agora Senhores Deputados Estaduais da Base de Apoio do Governo? E Agora Senhores Deputados Estaduais da Bancada Oposicionista? E Agora Senhores Secretários de Estado e Diretores de Autarquias?

Até quando vocês continuarão de olhos fechados, fingindo que tudo anda bem na Educação em Minas Gerais ??

Professor Sérgio Soares

João Flôres Ribeiro: a lenda do cadáver insepulto

Passando por Prosperidade, aproveitei para visitar Dona Minervina, irmã maia velha do meu amigo Professor Pandolfo. Tia Vina, como ela gosta de ser chamada, é uma quituteira de mão cheia, por isso é improvável passar por lá, e não saborear as melhores quitandas da culinária mineira, bem como uma boa conversa, cheia de causos.

Mesa posta, entre um pão de queijo e um bolinho de chuva, entremeados por um café coado no coador de pano, Tia Vina, do alto dos seus 84 anos, veio me atualizar sobre as histórias do lugar – casamentos desfeitos, heranças perdidas em uma mesa de carteado, e o assunto que mais gostava – a política do interior.

Nesse dia ela resolveu me contar a história do Coronel João Flôres Ribeiro, antigo Prefeito de Prosperidade, mas que alcançou notoriedade na cidade não pelos seus feitos, mas por sua morte, tendo dado origem a “Lenda do Cadáver Insepulto”.

– Meu filho, essa história começou há tempo atrás, pouco depois de Prosperidade ter alcançado sua emancipação, sendo promovida de arraial à cidade. A família Flôres Ribeiro já era conhecida àquela época como a “dona” da região, tendo como patriarca Joaquim Ozanan Flôres Ribeiro.

– Seguindo a tradição da família, João Flores ~ seu primogênito – foi o primeiro prefeito da recém-criada Nossa Senhora da Prosperidade, que se tornaria depois, a cidade que você conhece hoje. E continuou:

– Coronel Flôres, como passou a ser tratado, reinou por duas décadas à frente do Paço Municipal, tendo sido seu feito ilustre a construção da Praça de Nossa Senhora do Rosário, a maior e mais suntuosa da região, com um grande coreto ao centro, em estilo inglês, de onde sempre discursava aos domingos, logo que terminava a missa na Matriz.

– O Prefeito não abria mão de rapapés, nem tampouco aceitava desfeita de espécie alguma. Ainda assim foi um bom governante, trazendo algum desenvolvimento para a cidadela, graças ao seu prestígio político na capital, onde ia pelo menos uma vez ao mês, ter com o Senhor Governador. E foi numa dessas viagens que tudo mudou para João Flôres, e para a pequena cidade.

– Ao retornar do compromisso mensal, algo estranho aconteceu com o Coronel. Antes cordato com todos, começou a agir com rispidez, até mesmo com os mais próximos, como o Presidente da Câmara.

Pausando a prosa para servir uma broa de fubá, a falante senhora prosseguiu com a história:

– O tom de seus discursos também mudou, e ele passou a falar que existia um complô para tirá-lo do poder, mas que nem debaixo de bala abandonaria sua cadeira de Prefeito.

– Para complicar as coisas, chegou um Juiz novo para a Comarca. Rapaz jovem de extrema cultura, notada educação e respeito com todos – do serviçal da Comarca ao Senhor Padre. E foi justamente por isso que começou a cisma.

– Em razão de sua grande simpatia, o Juiz logo conquistou a cidade, e por isso o Coronel elegeu aquele “juizinho de merda” como seu inimigo público numero um, passando a atacá-lo publicamente, dizendo que havia sido enviado para tomar o seu lugar, mas que isso só aconteceria passando por cima de seu cadáver.

– Como as cismas começaram a ficar recorrentes demais, e o Prefeito demonstrava não andar bem das ideias, os vereadores convenceram o Juiz a concorrer no pleito que se aproximava.

– Não demorou muito para que a novidade se espalhasse pelas ruas, e antes que o Coronel pudesse dar conta da situação, o Juiz já havia sido eleito o novo Prefeito daquela cidade.

– Depois de duas décadas no poder, a família Flôres Ribeiro finalmente perdia sua força política, e o baque da perda de sua cadeira fora demais para o Coronel. Sucumbindo a um delírio paranóico, tomou posse do Coreto da Praça, transformando-o em gabinete, com direito a mesa e cadeira de espaldar alto, exatamente igual à que ocupava no Paço da cidade.

– Diariamente, cumpria ali seu expediente , ,despachando com os loucos e bebuns que frequentavam a Praça, isso quando não se punha a discursar em alto e bom som. Até que um dia, o Coronel João Flôres Ribeiro foi encontrado sentado em seu “gabinete”, já sem vida.

– Suas exéquias foram como as de um Chefe de Estado, tendo comparecido personalidades da região, de fazendeiros a políticos. Até o Governador fez questão de ir se despedir do amigo de lide política.

– Passado o sepultamento, o que parecia resolvido, de nada estava. Na manhã seguinte, quando o encarregado da limpeza chegou ao Cemitério Municipal, encontrou a porta do jazigo da família Flôres Ribeiro aberta, e lá dentro apenas a urna funerária, sem o corpo do falecido Coronel dentro.

– Essa história correu feito rastilho de pólvora na cidade, e para lá se dirigiram o Prefeito, o Delegado e todos os Vereadores da Câmara. O corpo nunca foi encontrado, e as autoridades registraram o caso como subtração de cadáver, dando a ocorrência por encerrada.

– O que não se encerrou foi o assombro que passou a acometer a cidade. Contam que todo dia 27, depois que os relógios marcavam meia noite, era possível ouvir uma voz no Coreto, bradando entre impropérios:

– “Ninguém vai me derrotar, nem tomar a minha cadeira na Prefeitura.” 

– A ladainha, que era ouvida em toda a cidade, prosseguia até o primeiro instante em que o sol apontava na serra. Essa história ficou conhecida na região como a “Lenda do Cadáver Insepulto”.

Ainda de boca aberta, enquanto engolia um pedaço da broa,  pergunto a Tia Vina se alguém sabia o que teria levado aquele homem a perder a sanidade.

– Segundo contam, o Coronel Flôres havia sido picado por um inseto em sua última viagem à Capital, chegando até a ficar internado por conta disso.

– O inseto era uma tal “Mosca Azul”, cuja picada devastadora tinha como efeito a perda do senso de realidade, de princípios e valores, exacerbando a ganância, ambição e o apego ao poder. Nos casos mais graves , podia levar a delírios e alucinações.

Depois de ouvir aquele relato fantástico (e já de barriga cheia), me despedi de Tia Minervina, e tomei o rumo de casa, mas não sem antes dar uma paradinha em frente ao Coreto da Praça, para espiar, e ver se encontrava por ali o Coronel Flôres Ribeiro.

Sobre Bolhas e Cortinas de fumaça: Manifesto (-ME) sobre a Educação em Minas

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Com essas palavras, Oswald de Andrade abre seu Manifesto Antropofágico em Maio de 1928, com o objetivo de repensar a dependência cultural brasileira. Logicamente que não tenho a pretensão de comparar-me a Oswald com o meu Manifesto (-ME), ou rediscutir a questão cultural brasileira, mas, de outro modo, repensar sim a Educação em Minas, meu objeto de análise e preocupação. Portanto, peço permissão ao grande “Antropófago” para reescrever a abertura de seu Manifesto, servindo-me para tal da licença poética.

 Só a Educação nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Sim, essa é uma afirmação incontestável, pois sem Educação não há sociedade, voltaríamos aos tempos da barbárie; também não há Economia, pois quem irá analisar os números, construir projeções, ou mesmo fazer o mercado funcionar, se não souber ler, escrever ou fazer contas? E a filosofia? Essa então… De origem grega (philosophia) significa “amor à sabedoria” e consiste no estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem – imagine se seria possível “filosofar” sem a Educação, aqui entendida como formação do indivíduo através do processo de Ensino-Aprendizagem construído dentro do ambiente escolar.

Como demonstrado então, realmente só a Educação é capaz de nos unir, de nos fazer pessoas e nação mais fortes, de produzir o conhecimento necessário para debelar os males que afligem a Humanidade (vide agora os esforços da Ciência no combate à Covid-19), mas também de criar o ambiente propício para que as desigualdades sociais, econômicas, políticas, religiosas, étnicas e de gênero acabem, isso porque, quando o indivíduo é capaz de refletir e de se posicionar criticamente dentro da sociedade, nenhuma força política ou poder econômico será capaz de subjugar seu espírito, mesmo que grilhões lhe sejam impostos aos pés e às mãos.

Pode ser que alguns que acompanham meu Blog, achem que nessa narrativa vou dar voltas sobre os mesmos assuntos (já discutidos em outros textículos), mas asseguro-lhes que não – a provocação desse Manifesto vai de encontro às situações que, no meu entender, estão inviabilizando a Educação em nosso Estado Diamante, especificamente no que diz respeito à Rede Pública Estadual de Ensino.

Passados mais de doze meses em que me dedico à análise das ações e procedimentos adotados pela Secretaria Estadual de Educação – SEE (todos destacados publicamente nesse Blog, ou na página onde repercuto as notícias e fatos sobre Conjuntura e Política Educacional – EducaMinas), sinto-me bem à vontade para discorrer sobre esse tema, visto que, eu próprio já me fiz portador de tais questionamentos, perante autoridades públicas, bem como a Deputados Estaduais (da base de apoio) e ao próprio Governador.

Desta forma, o que passo a tratar a seguir – Sobre bolhas e Cortinas de fumaça – são apontamentos fundamentados na experiência de um cidadão, professor e político que, preocupado e incomodado com o atual estado das coisas (no que tange à Educação mineira) não se furtou nem se furtará de cobrar publicamente (ao menos) um posicionamento coerente daqueles a quem compete cuidar das Gerais.

Por que “Sobre Bolhas”? Não é de hoje que venho identificando um procedimento, no mínimo não recomendado, dentro das tratativas com e sobre o Governo – inicialmente tratei como uma falta de espaço político (e mesmo de representatividade) da minha pessoa que tornasse irrelevante (ou mesmo irreconhecível no meio de tantas outras) minhas colocações ou apontamentos. Para corrigir tal situação criei dois canais de comunicação (primeiro esse Blog, depois uma página para discutir Conjuntura e Política Educacional).

Minha estratégia funcionou, em parte, pois saí daquela condição de “mais um na multidão” para o status de “escrevedor” com credibilidade, isso dentro e fora de Minas, fruto da minha preocupação constante em produzir material de qualidade, de viés critico, mas responsável e fundamentado, respeitando sempre a dignidade e a honra daqueles sobre quem tratei, direta ou indiretamente. Por isso nunca me referi às pessoas, mas sim às autoridades investidas de um cargo público.

Ocorre que o tempo foi passando e eu fui percebendo que o problema não era só comigo,  alguns de meus pares começaram a relatar situações parecidas onde, apesar da seriedade do assunto, ele nunca encontrava ressonância, ou mesmo resposta, quando dirigido a determinadas autoridades. Refiro-me aqui, pontualmente às tratativas relacionadas ao próprio Governador e à Secretaria de Estado de Educação.

Como disse acima, graças à credibilidade que consegui nesse período, construí pontes e abri portas, que me levaram a ter acesso a figuras públicas importantes dentro da Governança Estadual (Deputados e outras autoridades), e realmente cheguei a crer que os problemas de comunicação estariam resolvidos. Infelizmente, o que vi acontecer foi justamente o contrário. Apesar do tratamento sempre polido e cordial, e até de alguma resposta aos meus questionamentos, a “Bolha” que existe dentro da Cidade-Administrativa (referindo-me mais uma vez à figura do Governador e à Secretaria Estadual de Educação) é formada por um cristal que é tão transparente e invisível, quanto inquebrantável.

Para não fazer parecer que esse é um discurso personalista, eivado de orgulho ferido, cito um caso emblemático dentro da Assembleia Legislativa de Minas Gerais – a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia já promoveu várias audiências dentro do Programa “Assembleia Fiscaliza” com o sentido de apurar, ou mesmo solicitar esclarecimentos sobre temas relacionados à área de atuação da SEE, tendo obtido pouco ou nenhum sucesso.

Por isso me pergunto, por que essa postura? Será que realmente alguém acha, que agindo dessa forma, a Educação e Minas Gerais se tornarão melhores, mais expressivas no cenário nacional? A que (ou a quem) convém tal comportamento?

Como essas são perguntas que não ousaria responder aqui, sem incorrer no risco de ser leviano e cometer injustiças, passo agora a tratar das “Cortinas de fumaça”. Segundo o Dicionário, elas remetem a uma estratégia de guerra onde uma nuvem espessa de fumaça, era produzida pelas chaminés dos navios (ou artificialmente com produtos químicos) com o propósito de encobrir a visão dos oponentes para os despistar ou enganar. 

Nos tempos atuais os navios não são mais utilizados, mas o princípio ainda é o mesmo – usar um elemento físico, comunicacional ou até mesmo político para encobrir uma atitude, projeto ou programa que não seja um sucesso de público ou crítica ou que, de fato, não exista. Assim, com esse blefe, se ganha tempo para encontrar a solução correta, ou mesmo transformar uma meia verdade, em verdade inteira e definitiva.

Transportando esse conceito para a questão em foco nessa análise, durante o último ano em que tenho acompanhado e analisado o trabalho da Secretaria, o que posso afirmar é que as ações propostas e desenvolvidas até aqui não passaram de “Cortinas de Fumaça”, com o propósito de encobrir o real problema dessa Gestão – a falta de um Projeto para a Educação, sem o qual não existe planejamento para curto, médio e longo prazos, nem tampouco objetivos e metas a serem alcançados.

O que está em questão aqui não é o juízo de valor sobre esse erro estratégico (não estou tratando como má fé de quem quer que seja), mas o fato é que o problema existe, persistiu durante todo o ano de 2019 e quando 2020 chegou trouxe consigo uma crise sem precedentes com problemas nas matrículas, nas remoções de professores, na designação de temporários e no fechamento das turmas. Como consequência disso, os servidores entraram em greve tendo como pauta os problemas de gestão já elencados, o cumprimento do Piso do Magistério para a categoria e o  pagamento do 13º  salário.

Seguindo a Lei de Murph que preceitua que “Tudo que puder dar errado, dará!”, em pleno período de greve, chegou a Pandemia provocada pela Covid-19, que levou toda a Rede de Ensino (Pública e Privada) a cumprir isolamento social, interrompendo assim todas as atividades acadêmicas presenciais.

Esse é um dos momentos em que percebo claramente a falta de organização e assertividade da atual Gestão, pois, passado quase hum mês da paralisação das atividades por conta da Epidemia, ainda não existe uma resposta efetiva e viável para o acompanhamento remoto das aulas pelos alunos, ao contrário de outros Estados da região Sudeste (São Paulo é um exemplo, nesse sentido). Junte-se a isso, apesar de manifestações oficiais da Gestora nas Redes Sociais, anunciando o Tele Trabalho para os servidores, oficialmente a greve continua, então não dá para prever o que irá acontecer nessas condições.

No fim das contas, o que se percebe é um grande cordão de isolamento em torno dessa Pasta, que nem quando questionada pelo Ministério Público de Minas Gerais, por mais de uma vez, pareceu se sentir ameaçada. Enquanto isso vários navios (quiçá grandes Transatlânticos) continuam produzindo uma Cortina de fumaça tão espessa, que mesmo a bancada oposicionista ao Governo parece se dar conta (ou interessar-se) pelo que de fato acontece na Educação por essas bandas.

Aproveito para fazer uma ressalva, pois me referi nessa análise à Base Governista, e agora à Bancada Oposicionista, por isso não quero fazer pensar que todos os Deputados estão catalépticos em relação aos temas escolares no Estado, ou apenas acordam, momentaneamente, para tratar de temas como Piso do Magistério e 13º, e agora da Aprendizagem Remota provocada pela Covid-19. Muito pelo contrário, como destaquei aqui existe uma Comissão na Assembleia empenhada nesse debate, bem como, sei de outros que sempre demonstram sensibilidade e preocupação com o tema.

Finalizando mais essa narrativa, pode ser que ela tenha gerado em você que me lê um desconforto (ou inquietação) pelo fato de eu não ter mencionado o nome de nenhuma das personalidades aqui citadas – o motivo para tal cuidado vai além da preservação da dignidade e da honra dos envolvidos. Como afirmei no início desse textículo (parafraseando Oswald de Andrade) “Só a Educação nos une”, por isso esse “Manifesto (-Me) pela Educação em Minas” nunca poderia ser apenas um instrumento de ataque e desgaste político, nem tampouco de afronta e embate, ao contrário, ele é um conclame, um chamamento para que esses a quem me referi (e a quem mais interessar possa) despertem para a necessidade urgente do diálogo, e principalmente da crítica inteligente e necessária sobre os rumos que as coisas estão tomando por aqui. Não quero, nem nunca pretendi ser, ou parecer, melhor do que ninguém! Apenas observo, analiso e escrevo esperando que dessa forma possa contribuir para que Minas volte a ser, como já foi outrora, destaque com o melhor Ensino do país. É o que desejo, e é nisso que acredito!

Professor Sérgio Soares