Aproveitando o feriado do 7 de Setembro, retornei à Prosperidade depois de alguns meses afastado, e fui surpreendido com a notícia de que meu grande amigo, Professor Pandolfo, se convalescia após seu coração ter resolvido lhe pregar uma peça, e parar de funcionar subitamente.
Chegando à sua casa, meu letrado amigo tratou de me tranquilizar a respeito de seu estado de saúde, reconfortando-me que o mal havia sido menor, graças a Deus e a Medicina, que construiu duas pontes em seu peito, para colocar a máquina de novo em funcionamento. E “Viva o SUS”, bem lembrou o dileto gramático.
Já menos apreensivo, e saboreando um bom café preto, passado no coador de pano, nossa prosa descambou para a política. Em razão da data, o 7 de Setembro, o “sabioso” ancião tratou de me contar mais um daqueles causos, que só em Prosperidade poderiam ter acontecido, e foi logo explanando:
~ Essa história remonta ao tempo de meus avós, quando Prosperidade era ainda menor do que é hoje, e possuía, além do Prefeito, apenas um destacamento com quatro soldados. Nem Padre por aqui havia, por isso quem cuidava dos assuntos do Vaticano era Irmã Mercedes, uma bondosa Carmelita que batizava e realizava as exéquias no povoado. Quando havia casamento, ou festa da Padroeira, a Cúria mandava um Padre da Capital só para essa finalidade.
~ Naquela época, o Coronelato ainda era juiz e algoz na cidade, que se dividia entre o domínio das famílias Fortunato e Modesto. A primeira de raízes nos tempos sombrios da escravidão, com muitas mortes e desalento em suas costas. A outra, abolicionista de primeira hora, sempre fora mais Liberal e de há muito comandava a política, elegendo os mandatários da pequena cidade, dentre os seus.
~ Por conta das desavenças seculares, houveram perdas tanto de um lado, quanto de outro, desferidas na ponta da faca, ou no cano da pistola. Assim, Ferdinando Fortunato, o patriarca da família, não aceitava o prestigio que João Modesto, médico muito humano, reconhecido por todos, e Prefeito da cidade, tinha entre os municípes – dos fazendeiros à peãozada todos o respeitavam e admiravam.
~ Tomado de inveja, e entorpecido pela cobiça e desejo de Poder, o tresloucado Fortunato tramou junto aos seus um ardil para tomar a cidade das mãos dos Modesto, transformando-a em um estado independente – da Capital e até da República – tendo como nome “República do Queijo Qualho”, em referência ao lácteo produzido nas terras da família, de fama nacionalmente reconhecida.
~ Tramóia feita, faltava definir o dia para que a empreitada fosse levada a cabo, e qual melhor não seria que o 7 de Setembro, simbolizando um novo tempo para Prosperidade? Na véspera das comemorações cívicas, ainda pela madrugada, os Fortunato pegaram a jagunçada, e todos os colonos das fazendas, convencidos na base do salame e do couro, e ocuparam a Praça de Nossa Senhora do Rosário, transformando o adro da Igreja em verdadeiro campo de guerra.
~ Quando a cidade acordou, todos foram pegos de surpresa pela novidade, e só restou ao Prefeito e seu diminuto pelotão de soldados, acompanharem de longe a movimentação, e preparação do Coreto da Praça, transformado em palanque para o discurso de posse do novo mandatário da recém-criada “República do Queijo Qualho”.
~ Ao som de tiros e estampidos de foguetes, a cidade viu adentrar o largo Ferdinando Fortunato montado em um alazão, com chapéu e espada em riste, e uma cara Napoleônica, dando a entender à toda cidade que quem ali estava era o novo mandatário da nova República, recém-criada.
~ Tomando posição de destaque no Coreto, desandou a discursar falando das qualidades, e do compromisso dos Fortunato com a Ordem, o Desenvolvimento, a Honestidade e os valores da Família. Contrariamente, os Modesto tinham ex-padres, que largaram a batina para contrair matrimônio, mulheres descasadas que passaram a viver sem marido, além de um sem número de denúncias de mau uso do erário público. Só faltou chamar de Santo, da primeira à ultima geração da família rival.
~ Em meio a estoica fala do Napoleão Tupiniquim, eis que entra esfolegante Praça adentro, Tião Gavião, o faz tudo da família, que mal desceu do cavalo e foi atropelando os convivas para se aproximar do Coronel, enquanto lhe confidenciava ao ouvido uma mensagem secreta e reveladora.
~ De rubro de emoção, o agora assustado Presidente e Regente Real da República do Queijo Qualho, fora ficando lívido, e a empáfia de minutos antes, virou uma fala mascada pedindo desculpas ao Prefeito João Modesto, já que tudo não passara de um mal entendido, e que as palavras desonrosas ali proferidas, foram colocadas no “calor do momento”.
~ Tão rápido quanto chegou, o entontecido coronel e sua trupe foram embora sem deixar rastro, nem poeira, e assim a cidade pode finalmente comemorar, com a pompa e circunstância devidas, o Dia da Pátria com direito a desfile do destacamento militar, das crianças da escola até culminar com o Ato Cívico de hasteamento da Bandeira Nacional.
Intrigado com mais uma narrativa fantástica sobre aquele lugar, não pude me conter e perguntei se, por acaso, alguém descobriu o que Tião Gavião havia dito de tão revelador ao Coronel Fortunato, que passou de Leão Feroz, a gatinho assustado em tão pouco tempo?
~ Meu caro e jovem amigo, respondeu o esperto Professor. Desde que o mundo é mundo, existe uma força maior até do que a da política, que decide o destino e as ações de figuras carentes de retidão e probidez, como os Fortunato, que é o poder do dinheiro.
Na véspera, os Fazendeiros da região decidiram que não seria conveniente para os negócios, o rompimento com a Capital e a República, e assim mandaram Tião Gavião levar a seguinte mensagem ao Ex-Regente Real: “se você seguir com a sua empreitada, sua Fazenda não terá mais para quem vender Queijo Qualho. O que prefere? Manter uma “Coroa” sobre a cabeça, ou ver suas “coroas” escorrerem por entre os dedos?
Obviamente que para a posteridade, a versão que ficou guardada é a de que tudo não passou de uma “estratégia” tecida pelo sagaz Coronel, mas a verdade é que o apego ao vil metal, falou mais alto do que seus ataviados e lisérgicos sonhos de poder, e dominação política.
Ainda boquiaberto com toda a narrativa, terminei o café, me despedi do Professor e tomei o caminho de volta para casa, mais uma vez estarrecido com a prodigalidade das histórias de Prosperidade.