Sobre Política, Felicidade e Justiça Social

Platão já dizia: “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.” Esse é um princípio basilar, em cima do qual construo hoje essa narrativa sobre a tão achincalhada, e mal vista, “Senhora da cidade-Estado”. Deixo claro aqui que concordo com Aristóteles, quando diz que “ela é a ciência que tem por objetivo a felicidade humana e divide-se em ética (que se preocupa com a felicidade individual do homem na pólis) e na política propriamente dita (que se preocupa com a felicidade coletiva da pólis)”.

Bom, deixando os gregos de lado, e falando sobre aquilo que nos trouxe até esse ponto, vamos direto ao assunto – os mandatários brasileiros. Para quem não sabe, o léxico da Língua Portuguesa assim os define: “aquele que recebe mandato ou procuração para agir em nome de outro”, sendo esse outro o cidadão que lhe outorgou tal prerrogativa através do voto, confiando que teria seus direitos e deveres individuais (e coletivos) assegurados. Contudo, a história recente nos mostra que esse não é um “Silogismo perfeito” devido a ineficiência e inabilidade de tantos que já ocuparam os cargos de governança no país, seja na instância municipal, estadual ou federal.

Por esse motivo, formulei uma proposta, no mínimo, ousada que aqui apresento publicamente – para alguém ter direito ao título acadêmico de Mestre ou Doutor, necessário é que, antes de tudo, apresente a comprovação de um curso de graduação concluído. De igual maneira, para um Especialista essa é a mesma condição sine qua non. Que bom seria se aos Prefeitos fosse exigido, como pré-requisito à investidura do cargo, formação em Ética e Administração Pública, que desse sustentação ao tripé – Educação, Saúde e Segurança – base da Justiça Social.

Da mesma forma, para chegar à Governadoria do Estado, deveria o candidato à mandatário apresentar a expertise necessária, fruto senão de uma formação (ainda inexistente nas cátedras), de uma exitosa gestão na municipalidade para só então, depois de percorrida essa trajetória hercúlea, postular seu nome ao mais alto posto de comando do país – a Presidência da República. Apesar de parecer mero preciosismo acadêmico, há muito mais de verdade por trás disso do que se possa imaginar.

Em um país que tem 26 estados (além do Distrito Federal) e conta hoje com mais de 5.000 municípios, como se pode imaginar um mandatário que não conheça os caminhos da municipalidade, ou as peculiaridades dos estados – Minas, por exemplo, que tem 853 municípios é do tamanho da Espanha – de tal forma a assegurar a “felicidade na Pólis”, defendida por Aristóteles?

O fato é que, enquanto continuarmos vendo a Política como um corpo estranho, e abjeto em nossas vidas, continuarão surgindo figuras cada vez mais exóticas e descompromissadas com o bem comum, escondidas no estereótipo do “bom burguês”, ou do “proletário revoltado”, do “intelectual”, ou do “analfabeto funcional”. Quem sabe até, de um “comediante”? Diz um dito popular que “é o olho do dono que engorda o gado”, nesse caso, é a participação social (que vai além do CONFIRMA) que pode garantir menos oportunistas, e mais mandatários graduados e pós-graduados em ÉTICA e COMPROMISSO PÚBLICO, aptos a garantir a qualidade de vida, e a Justiça Social em nosso país.

Sobre Memória e Identidade

Fui apresentado ao memorialista Pedro Nava pela Professora Ilma de Castro Barros e Salgado. Foi um encontro tão arrebatador que quis guardar todo o conjunto de sua obra em uma caixa mágica, como se possível isso o fosse. Pouco depois, ela me contou de seus gostos, do seu jeito e até a “cadeira fantasma” me mostrou. A conexão com o escritor foi tão grande, que saí em disparada, percorrendo quilômetros, passando pela Estação de Cotegipe onde sua avó vendia doces, até encontrar as ruínas daquela que fora a primeira morada dos Nava. Essa experiência foi reveladora, e transformadora em minha vida.

Como na crônica “Esquecer para Lembrar”, de Rubem Alves, onde a personagem raspa a tinta das paredes de sua casa em busca da cor original, camada por camada, até encontrar o Pinho de Riga, comecei a entender o quão importante é contar histórias, pois elas ajudam a (re)construir nossa identidade – individual e coletiva e, apesar de um dos traços da nossa Mineiridade ser o bom hábito de prosear, tomando um café preto feito no coador de pano (nada de estrangeirisses, como Capuccinos), me dou conta hoje de que nossas memórias estão se apagando, como se um vírus de computador estivesse invadindo nossas vidas, e as deletando de nossa história.

Sugestivamente, fui cooptado a participar de um Grupo chamado “Baú de Ossos”, formado por um bando de loucos e idealistas (assim como eu) que tem por finalidade levantar a discussão, e propor ações que visem a preservação da Memória e da Cultura de Juiz de Fora. Desde então, tenho acompanhado seguidas demonstrações de nostalgia quando as pessoas reencontram a foto da “velha rodoviária”, ou os mais novos descobrem que no local onde hoje funciona uma famosa casa noturna, reza a lenda, já foi palco de uma tragédia matrimonial.

Mas nem tudo são flores, e o Grupo se vê hoje às voltas com a polêmica do (não) Tombamento do Estádio do Tupynambás – Estádio José Paiz Soares – que se outrora foi palco de vitórias e histórias, hoje se vê derrotado pelo poderio econômico, tal como tantos outros prédios que fizeram parte da vida da cidade – quem não se lembra da magnitude do Cine Excelsior, em oposição à pequenez do Cine Palace, ou dos casarões da Avenida Rio Branco que, do dia para a noite, vieram ao chão atendendo aos interesses de espólios familiares.

Sei que esse pode parecer um discurso romanceado e saudosista, mas, para além do drama, existe um fato real que impacta diretamente a nossa vida em sociedade – estamos perdendo o hábito de contar histórias. Em um mundo de instantâneos, de Likes e Follows, as novas gerações não se reconhecem, nem se identificam mais com o espaço onde nasceram e onde vivem, ao contrário, estão se preparando para viver em um “Metaverso” (quando ouço isso lembro de “Jornada nas Estrelas” que embalou minha imaginação juvenil) e isso, no meu modo de ver, é muito sério.

A capacidade de contar histórias é um dos traços distintivos de nossa condição humana, e é através dessa prática ancestral que revisitamos nossos antepassados, e atualizamos nossos mitos, construindo, assim, Identidade. Que velhos e jovens possam resgatar essa boa prática mineiríssima de contar causos, e prosear sobre as estórias de família acontecidas nas ruas e nos bairros da cidade, mantendo viva, assim espero, a nossa Memória.

Deu “Praia” em JF: sobre Arte-Educação e Escolas que são Asas

O filósofo francês, Edgar Morin, afirmou certa vez que “A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”. Considerando que, apesar de todas as tentativas, a Educação Básica Brasileira ainda vive compartimentada em caixas estanques, que não se comunicam, essa afirmação torna-se mais atual do que nunca, especialmente no mês em que se celebra os 100 anos da Semana de Arte Moderna no Brasil.

E por falar nisso, a progressista Manchester Mineira foi revisitada nos últimos dias por uma intervenção artística que ocupou o coração da cidade, com a instalação de uma “Praia” em sua principal rua. Há muito não se via um debate tão acalorado sobre o “valor” da Arte (como se possível fosse contabilizá-lo em moeda corrente), o que teria sido muito bom, se ele não tivesse sido contaminado pelo azedume da política partidária, em detrimento da oportunidade de construção de uma narrativa pedagógica, que explicasse à sociedade a importância do Movimento Modernista, enquanto vanguarda e ruptura, na Semana de 22.

Em Juiz de Fora a destacada, e necessária, aproximação entre Arte e Educação prenunciada por Morin, já acontece (em especial) na Rede Municipal de Ensino – Salve Professor Cristiano Fernandes – e vai muito além da espetacularização de datas comemorativas nas escolas. Ao contrário disso, baseia-se no diálogo entre os saberes – da Matemática conversando com o ritmo das notas musicais, da Física explicando o equilíbrio da acrobata na malha circense, da Geografia mapeando os coletivos culturais das comunidades, em um serpentear de ressignificações que atravessa os eixos da Educação Escolar, formando a transdisciplinariedade sobre a qual o filósofo francês já falava.

Rubem Alves fala em uma de suas crônicas que existem Escolas que são gaiolas, e Escolas que são asas – “Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar.” E é através da Arte, em suas múltiplas expressões e linguagens – não apenas aquela erudita e elitista, mas também, e principalmente, a coloquial e popular – que nossos pequenos pássaros encontrarão liberdade e autonomia para experimentar seu voo.

Que a chegada da “Praia” à terra de Murilo Mendes e Pedro Nava possa ter deixado um legado vanguardista em suas “Escolas de Asas”, onde Arte e Educação caminham juntas, e são o combustível para que crianças e jovens possam se tornar indivíduos socialmente éticos, por saberem reconhecer a imanência da Identidade e da Cor Local do outro, bem como esteticamente civilizados, por entenderem que “bonito – feio, bom – mau, próprio – impróprio” são construções subjetivas que, portanto, não podem ser usadas para definir ou mensurar a qualidade (ou a pertinência) de uma obra ou expressão artística. Que seja, assim, a Princesa de Minas cada vez mais pródiga para o surgimento dessas intervenções, que resgatam o espirito pioneiro e inovador que já marcou sua história.

Sobre a capacidade humana de fazer escolhas

Pedro Bial, em 2003, já falava que “Faça o que fizer não se auto congratule demais, nem seja severo demais com você. As suas escolhas têm sempre metade das chances de dar certo, É assim para todo mundo.” Essa é uma verdade, daquelas bem verdadeiras, que deve (ou deveria) servir de norte em nossa vida, até por que não somos máquinas para tomar decisões baseadas em estatísticas e probabilidades, mas sim pessoas humanas que erram e aprendem com seus erros e acertos. E por falar em máquinas que fazem escolhas …

O ano era 1997. Uma partida de xadrez ficou marcada na história, isso por que o maior enxadrista de todos os tempos, àquela época, o russo Gary Kasparov, perdeu uma partida para uma máquina – o supercomputador DeepBlue, projetado pela IBM, que era capaz de calcular 200 milhões de posições em um segundo. Para quem não conhece, o xadrez é um jogo de estratégia baseado na movimentação das peças em um tabuleiro, por isso, essa capacidade de definir as jogadas, fez toda a diferença. Passado o vexame, Kasparov jogou outras 5 partidas contra a máquina empatando duas, e ganhando três.

Nos dias atuais um DeepBlue seria considerado brinquedo de criança com os avanços da Inteligência Artificial (IA) cada vez mais presente, e popularizada, em nosso dia-a-dia através de assistentes domésticos, serviços bancários e até na condução e segurança dos veículos. Em um futuro bem próximo, o veículo será 100% autônomo, mas a questão é: e se o veículo tiver que desviar de dois obstáculos, sendo um deles um cachorro e uma criança – qual decisão ele irá tomar? Baseada no menor poder de destruição e impacto? E, se ao invés de um cachorro, fossem uma idosa e uma criança?

Para além de números e percentuais, escolhas não são sempre objetivas. Ao contrário, na maioria das vezes, baseadas em valores morais e éticos que as máquinas, ao menos por enquanto, ainda não conseguem reproduzir. Por isso mesmo, a chance de a sua escolha não ser a mais acertada vai sempre existir, e acontece todo dia em nossas vidas. E este será um ano de tomada de decisões, onde os brasileiros deverão definir qual caminho desejam que o país deva seguir, a partir de 2023.

Muito mais do que escolher entre programas e legendas partidárias, entre Direita, Centro ou Esquerda, necessário se faz que cada um tome uma decisão baseada nos princípios éticos, nos valores que melhor os representa, afinal, segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, a Ideologia seria “um conjunto de ideias e de valores que tem como função orientar comportamentos políticos e coletivos” e, no Brasil, os partidos políticos demonstram a todo momento que isso para eles, é mero sinônimo de escambo e oportunismo eleitoral (a maioria deles???).

Por isso, não troque os seus princípios por sacos de cimento, promessas de dinheiro fácil ou emprego público – no final das contas, como não somos um DeepBlue ou uma Inteligência Artificial, nunca teremos certeza do resultado, nem pesquisa eleitoral nenhuma dará essa garantia, mas como bem lembrou Bial, “As suas escolhas têm sempre metade das chances de dar certo, É assim para todo mundo!”, e isso já é o bastante para fazer valer a pena.

Respeito é bom, e eu gosto!

Vivemos hoje em um tempo de suscetibilidades, onde deve-se pensar não três, mas trinta vezes antes de se emitir um posicionamento público – ainda mais quando tratar-se de Costumes (gênero, raça, credo e orientação sexual, por exemplo). Não que isso seja ruim, ao contrário. Mas será que as pessoas, realmente, sabem do que se trata aquilo que elas tanto cobram?

A palavra Respeito tem sua origem no Latim e significa “olhar para trás”, “olhar novamente”, o que nos remete à ideia de que “Respeitar” é demonstrar empatia com expressões e posicionamentos que sejam diferentes dos nossos – trocando em miúdos, é aceitar que o mundo não gira em torno do nosso umbigo, portanto, existem outros pontos de vista e formas de pensar, talvez, até melhores do que o nosso. E é justamente aí que mora o “X” da questão.

No mundo contemporâneo Liberdade, Licenciosidade e Liberalidade são confundidas a todo momento por indivíduos, tribos, coletivos e agremiações político ou religiosas, pois, enquanto a primeira representa um Direito Universal e inquestionável, a segunda traz uma falsa ideia de que tudo é permitido, e na defesa desse “livremente expressar-se” é evocado erroneamente o Artigo 5º da Constituição Brasileira, que trata justamente da garantia das Liberdades Fundamentais de todo cidadão.

Quanto ao último, a Liberalidade é a expressão de quem se define “Liberal” (e vai muito além de uma legenda partidária) como bem destaca o escritor peruano Mário Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura, quando afirma que “O liberalismo não é uma receita econômica, mas uma atitude fundada na tolerância e no respeito, no amor pela cultura, na vontade de coexistir com o outro e numa defesa firme da liberdade.”

Ora, portanto, o Respeito e a Liberdade são irmãos gêmeos, siameses, daqueles ligados umbilicalmente, onde um morre se o outro se afastar, e graças a isso não vivemos mais em cavernas, ou pelo menos deveria ser assim. Só que a realidade dos fatos, estampada nas manchetes dos jornais, mostra uma volta à barbárie e ao individualismo, basta ver o assassinato brutal do jovem refugiado congolês em um dos pontos turísticos mais badalados da orla carioca – crime de xenofobia e racismo.

Respeito é bom, e eu gosto muito, só que o caminho que leva a esse princípio de civilidade foi construído em uma rodovia de mão dupla, com tráfego intenso nos dois sentidos, onde tudo vai bem quando cada condutor mantém seu veículo na mão correta de direção, respeitando as regras e a sinalização de trânsito. No entanto, quando um afoito resolve invadir a outra pista, o acidente é quase certo e quando ele não se transforma em uma tragédia fatal, pode causar sérios danos à capacidade de coexistência harmoniosa em sociedade, levando à morte os irmãos xipófagos – Respeito e Liberdade.

Portanto, antes de sair levantando bandeiras, agredindo pessoas e destruindo vidas e reputações sob a égide da Liberdade de Expressão, não se esqueça de que a condição causal para que você seja respeitado, é respeitar o direito, a voz e a opinião daquele que trafega na via oposta à sua.

Pandemia e Educação

Às vésperas do início de um novo ano letivo nas Redes de Ensino, nos vemos às voltas, mais uma vez, com a discussão sobre as perdas (ou ganhos?) que a Pandemia de Covid-19 deixou como legado para a Educação, como se não tivesse existido uma história anterior ao mês de Março de 2020, ou ainda,  como se antes desse vírus a Educação Brasileira fosse um case de sucesso, como nas escolas finlandesas. Nem tanto, nem tampouco.

Brotam agora fórmulas mágicas, receitas de bolo, como se reforço escolar no contraturno, por exemplo, fosse a solução para a correção dos “déficits” de aprendizagem da “Geração Covid” (para alguns já perdida). Mas tudo feito de maneira empírica, já que não existe um documento técnico tabulado, com base metodológica, que apresente um diagnóstico do que foi feito durante esses dois anos de Aprendizagem Remota na Educação Básica no país (ou mesmo no Estado, sequer no município), e gere um prognóstico quanto à correção das falhas, e melhora dos indicadores educacionais (e que fique claro não é “Avaliação Diagnóstica”, como o próprio MEC propõem através de uma plataforma).

Ao que me parece, não se quer enfrentar o real problema da Educação Básica, que entra governo, sai governo não se resolve. Até se tentou através da LDB, e com a Base Nacional Comum Curricular, mudar o rumo dessa prosa, mas como Base não é currículo, nem tampouco surte efeito se não houverem mudanças estruturais nas Redes, tanto no que diz respeito às Metodologias de Ensino, quanto ao Processo de Avaliação da Aprendizagem e ao próprio modelo de Planejamento Pedagógico, pouco se avançou.

E agora estamos às voltas com um novo ciclo que se inicia, com as mesmas perguntas, ainda sem resposta. O tal protagonismo do aluno, a mediação do professor, as ferramentas inovadoras educacionais (que não é “tecnologismo”), tão faladas durante os dias de Aulas Virtuais, ao que parece ficaram no retrovisor da memória, guardadas como um efeito colateral da doença. Bom será se tudo puder voltar a ser como “D’Antes no Castelo de Abrantes” nas nossas escolas, mas…e se não puder ser assim? E se não pudermos voltar para o presencial? O que a Educação aprendeu durante esses dias de Covid-19?

Justo e necessário, mas improvável

Já bem diziam os antigos “quando a esmola é demais, o Santo desconfia”, mas parece que as pessoas preferem se deixar enganar, a encarar a realidade dos fatos. E isso, no Brasil, não é novidade, aliás, de quatro em quatro anos vemos essa mesma ladainha se repetir com promessas mil, sem segurança jurídica ou viabilidade orçamentária que as sustente.

Refiro-me aqui ao tão sonhado, e polêmico, Piso Salarial do Magistério, uma reivindicação histórica dos professores de todo o Brasil, prevista em Lei (a Lei do Piso), com distorções cada vez mais gritantes, quanto mais se afasta do Centro-Sul do país. São Paulo, por exemplo, “prometeu” aos seus professores, para o ano de 2022, um salário inicial de cinco mil reais, o que representa um reajuste de 73%. Enquanto isso, no restante do país…

A discussão do momento é o aumento anunciado pelo Presidente da República de 33,24% no Piso do Magistério, o que vem causando frissom em todas as escolas do país, e desespero entre Secretários de Educação e Prefeitos que já fazem as contas para saber como arcar com essa despesa extra, isso por que, segundo analistas, o acréscimo desse valor na folha de pagamento consumiria todo o montante dos recursos do FUNDEB (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), não sobrando os 30% previstos em Lei para a Formação Continuada de Professores e investimentos nas escolas, com a possibilidade, real, de ainda ter que ser feita complementação com recursos próprios das Prefeituras para pagamento dos salários.

Lembro que o ano passado terminou com uma polêmica sobre o mesmo Fundo, por conta do rateio autorizado pelos órgãos fiscalizadores, dos recursos não investidos pelas Prefeituras e Estados no ano de 2021, o que gerou um 14º salário para alguns e a indignação por não receber o mesmo benefício para outros.

O que ficou claro nessa confusão toda é que, apesar de todo o controle, a utilização dos recursos destinados ao financiamento da Educação Básica no país, ainda precisa ser melhor visto, especialmente com a chegada do Novo FUNDEB que prevê aumento de receita para investimento nas Redes Públicas de Ensino.

O outro senão dessa história é que o Presidente tentou “vender o peixe” como sendo uma conquista de sua Gestão, o que não é verdade – o que fez (ou está tentando fazer) é cumprir uma Lei já regulamentada, e quase nunca respeitada. Espertamente, com uma mão acena o reajuste do Piso (aumento ou reposição das perdas?), e com a outra “rouba” do Orçamento da Educação para 2022 mais de 400 milhões de reais, justamente do Fundo que viabilizaria o pagamento da folha dos profissionais do Magistério. Seria essa a hora de celebrizar aquela famosa tirada “Me engana que eu gosto”?

É direito da categoria, está previsto em Lei Federal, a crise econômica e a inflação corroeram o orçamento das famílias, mas penso que, apesar disso tudo, não vai ser agora que os professores de todo o país terão seus contracheques corrigidos, e as discrepâncias atenuadas. Essa é uma demanda justa e necessária, mas, ainda improvável conjunturalmente.

Sobre Whisky barato e Dom Quixote: um réquiem para a Educação

Hoje acordei com um gosto amargo na boca – daqueles que só sente quem abusa na véspera da quantidade (e qualidade) do Whisky, de procedência duvidosa. E o pior é que essa sensação vem se repetindo a cada manhã, a cada semana, já há alguns meses.

Logo cedo o fígado e a cabeça me cobram pelas escolhas (des) acertadas que fiz, pois, cumprindo meu ritual de atualização sobre os fatos do dia nos “Brasis”, levo um soco na boca do estômago ao ver que o Ministério da Educação está em franco processo de desmonte – aliás MEC para quê, não é mesmo? Se já até falaram em extinguir essa pasta por sua inoperância e ineficiência?! Então, realmente o processo em curso está dentro do previsto.

Em outra página, descubro que mais uma escola interrompeu suas atividades presenciais após um surto de Covid-19. Mas isso também não é um problema, já que nunca se morreu tão pouco dessa doença no país (isso li em outra notícia). E, além do mais, o importante é que as crianças voltaram à sua rotina pré-Pandemia: escola, recreio, quadro negro e livro didático, sem esquecer, logicamente, das tarefas de fixação para fazer em casa, já que a “Escola ensina, mas é a família que educa”. Assim já dizia o senso comum.

Hoje acordei com um gosto amargo na boca, ao reconhecer que fui um tolo por acreditar que a Educação no Brasil seria levada a sério, e por não aceitar que ela é nada mais do que despesa pública para o Estado, e nada menos do que lucro para as instituições privadas.

Por ter sido tão ingênuo ao defender, por tantas vezes, que o MEC seria realmente um Ministério essencial à nação, devido às suas funções de Coordenação, Distribuição e Avaliação muito importantes dentro do Sistema Educacional, além de cuidar, é claro do Ensino Superior. Fazendo uma analogia futebolística, o MEC não deveria ser o dono da bola, mas sim o árbitro que garantiria a legitimidade e a legalidade do jogo.

Me iludi sim (e como) ao acreditar que os atores envolvidos no processo decisório da Educação Brasileira – Gestores, Governantes e Pesquisadores – que durante os dois últimos anos não se furtaram à tarefa de falar sobre os “prejuízos” que o Ensino Remoto trouxe para as crianças e jovens em todo o mundo (mas em especial no Brasil) iriam agora, no processo de retomada, apresentar um diagnóstico e um prognóstico para essa situação. 

Lembrando que essa deveria ter sido uma análise acadêmica (e não empírica) baseada em dados previamente tabulados onde, a partir de um referencial teórico, seria possível comparar um cenário de Pandemia com o outro sem a Pandemia e, a partir daí, extrair-se uma avaliação do impacto que esse período causou na vida dos estudantes – tanto nas questões de aprendizagem, quanto nas outras questões, como as sóciocognitivas, por exemplo. 

Mas, a realidade dos fatos é que isso não aconteceu, nem tampouco a retomada está vindo acompanhada de alguma mudança pragmática nos processos de ensino, ao contrário, o que tenho visto é uma “Operação-Padrão” para que se volte, o quanto antes, ao mais do mesmo nas salas-de-aula – “voltemos todos para nossas caixinhas”. E o mais inacreditável disso tudo é que poderiam existir duas variáveis a serem discutidas – as ditas “Perdas” e os possíveis “Ganhos” durante o período, mas, ao que parece, a herança que a Covid-19 deixou para a Educação é somente maldita, portando deve ser defenestrada o quanto antes.

Hoje acordei com um gosto amargo na boca, por ter que assumir que sou um “Estrangeiro na minha própria Terra”, um idealista desesperançado, um louco dentre os sãos, um Dom Quixote lutando contra moinhos de vento, isso por que a Educação, que tantas vezes defendi, hoje não passa de “Ensinagem”, de uma “Educação Bancária”, como bem sinalizou Paulo Freire. Que, realmente, a aula não ensina, nem tampouco prova avalia, como vaticinou José Pacheco e por isso o estado de coisas que aí está posto, teima em não mudar. 

Se, porventura, fosse eu um Doutor Bacamarte, já teria soltado das celas os loucos, e prendido os sãos que hoje governam os caminhos da educação brasileira. Digo até que tentei fazer isso, alimentado pelo meu Ego inflado, achando que Retórica e Sagacidade seriam bastantes para cooptar outros e formar um bando, e assim colocar em prática meu plano santo. Mais um soco na boca do estômago, pois, em “Verdade vos digo”, as pessoas ainda não cultivaram o bom hábito de ler o que os outros escrevem (em sua maioria, obviamente, acenam apenas com um Like) e, assim, meu estratagema midiático naufragou. Bem me lembrou, um dia, um sábio amigo – Educação não é uma pauta viável, nem tampouco que desperte interesse dentre aqueles que podem fazer por ela, nosso (des) ilustrado meio político.

Hoje vou dormir com um gosto amargo na boca, com uma interminável ressaca moral, por finalmente entender que sou um louco letrado e idealista, que não tem superpoderes para mudar o mundo e, amanhã, quem sabe, quando eu acordar, esteja em Pasárgada, pois, lá sou Amigo do Rei, e aí descubra que tudo não passou de um sonho ruim, de um pesadelo, e as coisas na Educação não são tão ruins quanto achei que poderiam ser/parecer.

Panegírico à Teoria da Comunicação de Roman Jakobson

Segundo Roman Jakobson, famoso Linguista Russo, considerado o pai da Teoria da Comunicação, todo ato comunicacional pressupõe uma intenção, um objetivo, seja ele realizado através da fala, da escrita ou do gestual, portanto, aquela velha máxima “falei por falar” está peremptoriamente derrubada.

Não, esse também não é um revival das aulas de Linguística da Professora Doutora Maria Margarida Martins Salomão, a quem reverencio, bem como aos Mestres da Linguística que marcaram minha formação – salve Professor Mário Roberto Lobuglio Zágari. Outrossim, essa é uma experimentação textual baseada no empirismo de um professor-autor, que escreve e confidencia suas ideias através de textículos.

Desde a época em que as mensagens das missivas eram transportadas nas asas dos pombos-correio, passando pelos avanços das Telecomunicações com Alexander Grahan Bell (quem não se lembra do Disque-Amizade – 145), chegando aos recursos da Telemática, em seus primórdios com as Short Message Service (SMS), passando pelo ICQ (I Seek You), até o contato em tempo real através do WhatsApp, o princípio continua o mesmo – um emissor que transmite a um receptor (previamente escolhido), uma mensagem para a qual espera uma resposta (sendo que a interpretação equivocada da mensagem – chamada ruído – já são respostas esperadas), mas nunca a ausência dela.

Mark Zuckerberg veio dar um upgrade nesse esquema Comunicacional através das Redes Sociais, como o Facebook (herdeiro do Orkut) e hoje o Instagram que virou febre planetária, enquanto ferramenta de comunicação e de negócios, com a monetização do prosaico e da futilidade, onde um anônimo deita e dorme desconhecido, e amanhece celebridade com milhões de seguidores (e de Reais ou Dólares em sua conta). Ainda assim, o princípio é o mesmo proposto por Jakobson. Mais, e daí Professor?

Bom, como já bem dizia o Linguista Russo, ninguém escreve sem uma motivação, ou ainda, todo mundo escreve para ser lido (e comentado), é uma necessidade intrínseca ao Ser Humano, portanto, em um mundo onde vivemos logados nas Redes, onde os Posts e os Directs viraram quase que uma Sessão de Terapia de Grupo, o mínimo que se espera é que o destinatário, aquele a quem foi endereçada a mensagem, a leia, ainda que não goste ou não a aprove.

Ocorre que esse mundo Telemático trouxe, junto com a facilidade da comunicação global em tempo real, uma disruptura no processo comunicacional – o Like – aquele sinalzinho gráfico que deveria representar a compreensão da mensagem, ou mesmo sua aprovação. Só que, na prática, não funciona bem assim.

Seja pela velocidade da informação, que faz com que recebamos várias mensagens simultâneas, sejam pelas atribulações de nosso dia-a-dia que tornam seletivas as leituras, ou mesmo pela falta de hábito, que torna um texto com mais de três linhas cansativo e extenuante, o fato é que esse ato de “aprovação” virou uma convenção social, mas que fere o princípio de qualquer ato comunicacional – ser recebido (compreendido, talvez).

Para além de uma questão metodológica e linguística, essa prática infame se popularizou ainda mais nos tempos de isolamento da Pandemia – onde se passou mais tempo nas Redes – o que não significa dizer que fomos mais atenciosos e empáticos com nossos correlatos virtuais, que, certamente, passaram, tal como nós, momentos de angústia, depressão e até regozijo (porque não), acreditando que estavam compartilhando suas agruras e vitórias com seus pares.

Imagine você que esse textículo que estou construindo, fosse uma carta-testamento, ou uma carta-suicida, e que eu fosse declarar minha intenção fatal apenas neste instante, no nono parágrafo da segunda lauda. Certamente meu ato derradeiro somente seria descoberto depois que minhas carnes fedessem, e o mau cheiro incomodasse os vizinhos. E isso aconteceria porque meus diletos leitores apressados, antes mesmo de terminar a leitura  do intróito dessa narrativa, já teriam se desobrigado da sua função social. me parabenizando com um Like.

Isso é o que acontece, via de regra, em nossas relações sociais que passaram a ser baseadas em Likes, Dislikes, Follows e Unfollows, porém, para além da construção ou término dos relacionamentos virtuais, mais do que nunca perdemos a capacidade de ouvir (mesmo que seja com os olhos, através da leitura) aquilo que o outro tem para nos dizer – o que considero um retrocesso, uma sequela nociva que os avanços Telemáticos trouxeram para as relações humanas, baseadas na Comunicação.

Se você foi um Leitor-Destinatário corajoso, e que chegou até o final desse textículo – Parabéns – mesmo que considere que tudo que escrevi não passou de verborragia mental. Contudo, acredito que esse Panegírico às Relações Comunicacionais que foi aqui produzido, receberá centenas de Likes de meus fieis seguidores sem, contudo, um ao menos ter completado a reflexão necessária sobre o seu papel no Processo de Comunicação Humana, mais uma vez!

Professor Sérgio Soares

Endorfina Literária

7: 00 – o despertador toca anunciando a chegada de um novo dia.
7:20 – já lavado e composto, enquanto aguarda o café, saboreia o perfume do pó preto, como se “Madeleinnes” o fosse, levando-o de volta aos tempos de criança na roça.
7:25 – Entre um gole e outro, sorve mais um verso de um “Fazedor de Amanhecer”.
7:45 – Enquanto aguarda a chegada do coletivo no ponto, vislumbra a mulher “Frígida” que passa, arrebatando-lhe os sentidos. Hora de embarcar.
10:00 – Pausa para o café na Repartição. Entre uma piada e outra, transmite a uma colega um “Recado aos amigos distantes”. Fim do intervalo.
12:30 – Parada para o almoço. Com a praticidade de um Fast Food, recolhe-se a um “Canto” da sala para saber como foi a “Chegada de Aquiles aos Portões de Tróia”. Fim do desjejum.
16:00 – Pausa para o café. Enquanto a turma discute a desfaçatez da Política Brasileira, João se diverte “Com Licença Poética” com as “Sete Faces do Poema”.
18:30 – Fim do expediente. “Vou-me embora pra Pasárgada”, lá sou amigo do Rei, é só no que pensa folheando as páginas de um livro, no ritmo do balançar do coletivo.
19:30 – Cuidar das tarefas comezinhas da casa: alimentar o gato, lavar a louça, varrer a casa, banhar-se e ceiar.
21:00 – Melhor hora do dia – relaxar na poltrona, enquanto deixa-se inebriar pelo perfume das “Flores do Mal”.
00:00 – Os ponteiros do relógio apontam para o infinito. Tempo de fechar o livro, apagar a luz e recolher-se para recomeçar toda a jornada no dia que não tarda a nascer.


A rotina de João Cata-Letras repete-se de segunda às sextas-feiras. Aos sábados e domingos é hora de maratonar, mas não as séries da TV, e sim os grandes prosadores. Para o próximo sábado os Latinos, começando com um “Ensaio sobre a Cegueira” e os contos fantásticos de um “Aleph”. Para o domingo o cardápio é um “Finnegans Wake”, embalado pelo melhor da música celta e, à tarde, “Estórias Abensonhadas” no clima das Savanas Africanas. À noite, hora de cumprir o compromisso com a Santa Sé, acompanhando a missa na Matriz.

João nasceu João da Silva, filho de pais lavradores, criado na roça, educado em escola pública de interior. Devido às dificuldades com as palavras, o apelido Cata-Letras surgiu ainda no ensino primário, e acabou virando sobrenome.

Já na fase adulta, preparando-se para um Concurso Público muito concorrido, as dificuldades com o letramento viraram um problema, mas acompanhando as orientações de seu professor, começou a ler para melhorar a leitura e a escrita. Quando perguntado sobre o porquê da avidez na leitura dos livros, rapidamente responde:

– Tudo é uma questão de empenho, engajamento e esforço. Mas não pense que esse foi um caso de “amor à primeira vista”, pelo contrário. Nos primeiros livros era um tormento, quase um sacrifício, mas com o passar do tempo, e com o treinamento dos olhos, o sacrifício virou hábito, o hábito virou prazer e o prazer virou vício, tal qual os praticantes de atividades físicas que, graças à Endorfina, levam seu corpo aos limites da extenuação, no meu caso, uma “Endorfina Literária”.