Democracia, voto e participação popular: um triângulo amoroso, onde a fidelidade não é a regra

“O momento mais alto da expressão democrática é, simultaneamente, o momento da renúncia ao exercício democrático. Falta, então, desenvolver a participação como cultura, por forma a lutar contra o espírito do “Quem vier atrás que feche a porta”. E quando deixar de haver porta para fechar!?” Quem faz essa afirmação contundente é o escritor português, José Saramago – um intelectual que não temia o flerte com a política. E por falar em flerte, é justamente sobre a relação de infidelidade nos relacionamentos aqui epigrafados que construiremos a narrativa dessa semana.

Usando uma definição conhecida, a Democracia “é o regime político em que a soberania é exercida pelo povo. Os cidadãos são os detentores do poder e confiam parte desse poder ao Estado para que possa organizar a sociedade.” Poder esse que é outorgado através do voto, e que tem como condição sine qua non o envolvimento da sociedade. Se, em tese, tudo está correto, porque na prática parece não estar funcionando?

Falando então dessa conturbada relação, temos que a Democracia hoje deixou de ser a expressão máxima da vontade do povo, para tornar-se a representação dos interesses políticos e econômicos de determinados grupos, lamentavelmente.

Ao mesmo tempo, o voto (que era qualificado na Democracia Ateniense, onde os cidadãos deveriam estudar Retórica, Direito e Política para fazer jus a esse direito) vive uma crise de legitimidade – de um lado os que o defendem como manifestação expressa da vontade do povo, por isso não optativo. De outro, os que veem nessa obrigatoriedade um desrespeito à liberdade de escolha, além dela estimular o voto de cabresto, e de eleitores que não sabem votar (???).

Saramago afirma que uma das formas de se construir Cidadania é através de uma “Cultura de Participação Popular” – política, social, cultural, de todos os tipos. Na questão aqui colocada, esse “comprometimento popularesco” é tão grande quanto o das microempreendedoras individuais do sexo, que prestam seu serviço àquele que melhor lhes remunerar, sem nenhum tipo de remorso, ou crise de consciência, por tratar-se de uma troca consentida de interesses.

Como estamos em ano eleitoral eu teria a resposta na ponta da língua, caso fosse perguntado por candidatos à Governadoria ou Presidência da República, sobre qual a solução para os problemas aqui levantados – através da Educação. Com uma ressalva, não falo aqui de ideologização do ensino, nem tampouco de partidarismo. O que proporia seria o ensino de Cidadania – da Educação Básica à Superior – tendo como base os clássicos gregos: Retórica, Direito e Política sob uma ótica contemporânea, obviamente. Penso que, assim, com uma ou duas gerações veríamos a mudança esperada na Democracia e na sociedade.

Encerro, então, essa prosa com uma fala emblemática do Nobel português com a qual concordo, sem pestanejar – “A doença mortal das democracias é a renúncia do cidadão à participação.” Triste (e ainda persistente) realidade.

Sobre Fé e Racionalidade: o vácuo de percepção que separa o crer e o seguir

Sou um homem de pouca Fé, reconheço isso. E por muito tempo pensei o contrário, abastecido por um “notório saber” sobre o etéreo e o divino, que por várias vezes exortei, em outras tantas ensinei. O que não quer dizer que não houvesse religiosidade (ou mesmo sinceridade) naquilo que fazia. Porém, chega uma hora em que a vida lhe dá um soco no estômago tão bem dado, que você cai no chão de joelhos. E é nessa hora que você busca algo em que se agarrar… e não encontra.

Fé em grego é “pistis” com o sentido de acreditar – crer, já em latim o vocábulo correspondente é “fides” significando ser fiel – seguir. No entanto, o simples fato de vincular-se a uma denominação religiosa não lhe oferecerá a garantia de que sua edificação não sucumbirá, quando o tremor de terra teimar em jogar ao chão todo o prédio.

E isso ocorre porque há uma lacuna entre um e outro, que a razão não é capaz de mensurar. Talvez por isso doutos, clérigos e religiosos já tenham dado o testemunho de que não suportaram o tranco, sucumbindo à depressão, se entregando ao medo ou se revoltando com a doença. Então, você olha para o lado e vê aquela senhorinha humilde, vivendo na mais completa carestia de tudo que para você é importante (ou necessário), com um largo sorriso no rosto, bendizendo e agradecendo cada precioso minuto da “provação” que está passando.

Mas como isso é possível? Se eu que conheço as Leis, que sigo os Mandamentos, que cumpro com as minhas obrigações espirituais caio diante da primeira rasteira que a vida me dá? 

A justificativa para tal “despautério” é que separando o CRER e o SEGUIR existe um CONFIAR – uma experiência metafísica que vai muito além do conhecimento acumulado sobre o Sagrado e suas práticas, pois tem a ver com uma inocência d’alma própria dos puros de coração que, como uma criança, vivem o inesperado ou a tribulação sem questionar, sem racionalizar, apenas confiam – isso é a FÉ.

Portanto, no final das contas, ela é diferente de tudo aquilo que aprendemos a reconhecer como sinal de religiosidade – o rito, o letramento evangelista, a prática dos preceitos – essas são manifestações exteriores do credo professado, as quais podem realmente elevá-lo à condição de “Homem de Fé” diante do olhar mundano, isso até que a provação bata à sua porta, e o chão se abra sob seus pés.

Definitivamente, não sou esse Homem, pois a minha ainda é rasa como o fio d’água que se forma quando a chuva cai – que aumenta ou desaparece de acordo com o fluxo da intempérie, e hoje sou capaz de reconhecer isso. Contudo, para além dessa autocrítica necessária, a vida tem me levado a descobrir um sopro dessa confiança que sequer fazia ideia pudesse haver dentro de mim, até bem pouco tempo atrás. Oxalá, esse fio d’água possa tornar-se uma corredeira forte, caudalosa e constante.

“Farinha pouca, meu pirão primeiro”: os desalinhos de uma sociedade individualista

Nenhum outro dito popular representa tão bem o sentido da vida atual quanto esse, onde o coletivo perdeu-se por detrás dos muros engaiolados dos grandes condomínios, ou do firewall da banda larga dos citadinos modernos, cada vez mais ávidos por viverem em um Metaverso – a nova metáfora do individualismo humano, representada pelos sonhos e delírios juvenis de quem, provavelmente, sofre com uma séria crise de identidade.

Augusto Cury, psiquiatra e escritor brasileiro, nos lembra que “A individualidade deve existir, pois ela é o alicerce da identidade da personalidade.(…) Não há duas pessoas iguais no universo. Mas o individualismo é prejudicial”. E não haveria como ser diferente, visto que, ontologicamente somos seres sociais que apenas migraram de seus bandos ancestrais, para a vida nos agrupamentos urbanos, que hoje chamamos de cidade. Mas então, o que mudou?

Eu poderia ser simplista e dizer que esse é um efeito colateral da Pós-Modernidade, que nos fez viver em um simulacro de realidade – como Matrix, Blade Runner ou, de maneira mais moderna, um BBB. Mas não! Penso que a razão disso é anterior, e mais visceral.

Há alguns anos atrás eu presenciei uma cena que me marcou tão profundamente, que hoje retorno a ela. Em viagem a São Paulo, fui pegar um metrô, e ao chegar no guichê acabei sendo surpreendido por um cadáver estendido no chão, ao lado da fila, onde usuários permaneciam frios e inertes, enquanto aguardavam a vez de comprar o bilhete. Em sinal de respeito, apenas um vigia, provavelmente para evitar o vilipêndio do féretro, enquanto a ocorrência não era finalizada. Nem uma vela, nem uma Ave Maria sequer eu ouvi.

Ao que me parece, a humanidade perdeu-se nos descaminhos do Ego, e confundiu gostar-se, com gostar apenas de si, o que pode ser percebido nas relações sociais e afetivas, cada vez mais complicadas e transitórias. Para além do aspecto emocional, estamos tratando aqui da perpetuação da vida em sociedade, cada vez menos real (e possível), e desculpas para isso não faltam: violência, depressão, desemprego, Covid-19, falta de empatia e até desamor.

A consequência disso? Gerações nascidas acreditando que o “natural” é ser sozinho, cuidar da própria “individualidade” e da carreira (apenas). Mas e o outro lado? Ninguém é uma ilha, nem tampouco sobrevive sozinho em uma caverna. Como conviver com o diverso, com aquele que é diferente de mim? Mudando para um Conto de Fadas tecnológico, onde crio um fake travestido de Avatar?

De maneira pessimista, o Filósofo Luiz Felipe Pondé afirma que: “De alguma forma, a marca definitiva do contemporâneo é o narcisismo estéril e o individualismo histérico”, e quiçá ele esteja correto. Contudo, na condição de Homem de Letras prefiro continuar lutando contra finais trágicos, e acreditando que vale a pena querer-se bem, como também cuidar do outro. Ainda assim, se tudo der errado, e eu for expulso desse mundo acinzentado, que me mandem para Pasárgada, pois lá posso ser meu Alter Ego original.

Por uma Escola para Todos: sobre o ensino de princípios e de valores

Ainda no calor do Artigo da última semana, onde falei sobre Diversidade, decidi encarar de frente a polêmica que pode advir de dois temas que se cruzam, e “colocam fogo no parquinho” – a tão falada “Ideologia de Gênero”, que não por menos, é um dos fermentos do Movimento “Escola sem Partido”. Por método, tudo aquilo que teorizo e defendo (ou sobre o qual escrevo) é baseado em um estudo prévio. Mas e você? Sabe o que é essa tal Ideologia?

Ao contrário do que se pensa, a primeira referência oficial ao termo “Ideologia de Gênero” se deu em um documento da Igreja Católica, durante a Conferência Episcopal do Peru, em 1998. Para além de um discurso antimarxista, a questão posta referia-se à proteção da família – de modelo patriarcal, androcêntrico, heteronormativo, cisgênero e configurado por pai, mãe e filho(s) (um dos dogmas da Santa Sé), ameaçada por uma nova revolução feminista em curso, e pelo fortalecimento de grupos até então minoritários (como os LGBT à época).

Apropriando-se dessa terminologia, os movimentos de esquerda (fortalecidos pela reabertura democrática) o tomaram como bandeira do movimento feminista e de defesa dos direitos LGBT (legítimos e necessários por sinal, fazendo apenas uma ressalva – identidade é aquilo com o que você se identifica ou realiza, gênero é aquilo que você é: masculino ou feminino, ainda que forma e essência possam viver uma incompletude original).

Por conta disso, surge em 2004 o Movimento “Escola sem Partido” como uma resposta conservadora ao discurso esquerdista que “contaminava” o ambiente escolar. Em 2014, quando uma mudança no Plano Nacional de Educação propôs a inclusão da Educação Sexual, o combate às discriminações e a promoção da diversidade de gênero no documento, o movimento ganhou força, novamente, e a tal “Diversidade”, sobre a qual falamos semana passada, virou sinônimo dos movimentos LGBTQIA+ e Feminista.

Como se a Escola já não fosse a “casa mater” das diferenças, assim como a Democracia é o terreno fértil para a construção do diálogo, e do debate entre opostos. E que bom que assim o é, senão estaríamos vivendo em um regime Totalitário, onde todos “pensam” e “agem” da mesma forma, por força da Lei.

Então, penso que discursos extremados – à esquerda ou à direita – seriam esperados no modelo escolar no qual fui educado, ainda no século passado. Posto que hoje, o que se diz a respeito da localização geográfica daquele que ensina, é o centro da classe, já que ele não é mais o dono da verdade, e o lugar de fala agora é do aluno.

Nessa nova configuração, o professor é como se fosse o levantador em um time de vôlei, que coloca a bola na mão do atacante para que ele crave o ponto, em uma cortada fulminante. Brincando com as analogias, gosto de imaginar esse novo cenário de ensino como uma fogueira, onde cabe ao docente levar o lenho, o combustível e o fósforo para acendê-la – porém, toda fogueira pode virar braseiro, e se apagar, se não for cuidada e alimentada com lenho novo. E aos alunos cabe a função de manter as chamas, sob a orientação do professor, que hoje é também mediador. Por isso, não podem existir perguntas sem resposta em uma Escola, nem tampouco temas proibidos, desde que surjam de uma vontade (ou necessidade) do lenho fresco que queima no braseiro do saber.

O ambiente escolar, portanto, deve ser um espelho para a sociedade, e não o seu reflexo. Por isso é necessário (para que a Educação seja de fato transformadora) ater-se menos às Ideologias, e mais aos Princípios e Valores, tão esquecidos nesses tempos sombrios. E que fique claro, essa não é uma fala conservadora, outrossim, renovadora, assim espero.

Digo isso porque o Respeito (de todos o mais importante), a Liberdade, a Ética, a Justiça, a Verdade e a Integridade são princípios basilares de qualquer sociedade que se deseje desenvolvida. Da mesma forma que valores como empatia, solidariedade, honra, tolerância e responsabilidade a tornam menos rude e violenta. Mas isso é ensinado nas Redes de Ensino?

Certamente que não, por isso o que proponho é construir uma escola mais humana, e menos fabril, a qual se preocupa apenas com a produção em série de “fazedores de provas e de exames”, e que só servem aos interesses de gestores descompromissados, para rechear seus rankings desprovidos de realidade.

Rubem Alves já dizia que existem “Escolas que são Gaiolas, e Escolas que são Asas”. Eu, com certeza, fui educado na primeira, mas dela fugi na primeira oportunidade em que vi a portinhola aberta. Quanto à segunda, é nessa que acredito, sobre a qual escrevo e pela qual vou continuar lutando, ainda que seja uma luta solitária e vã, como Dom Quixote gladiando contra moinhos de vento, pois, acredito que a Escola deva ser não “Sem Partido”, mas “Sempre para Todos”!

Educação e diversidade, sem equidade: o (DES) compromisso com a EJA na Rede Pública

Aos leitores apressados, aqueles que se detêm na capa do livro, pode fazer parecer que o Artigo dessa Semana irá tratar de “Escola sem Partido”, Gênero e coisas desse tipo. Mas não ainda, quem sabe, em outra oportunidade. Isso porque o motivo dessa prosa é mais grave, e premente – vamos falar dos esquecidos, dos invisíveis, que buscam o conhecimento nas salas de Educação de Jovens e Adultos – a EJA, espalhadas pelo país.

Para quem não sabe, só a partir da metade do século passado que os brasileiros sem letramento passaram a contar com essa possibilidade – primeiro com o Movimento Brasileiro de Alfabetização, o famoso MOBRAL, depois com o Ensino Supletivo, até chegar à Educação de Jovens e Adultos que hoje conhecemos. Para não ser duro (e dizer que não houve mudança durante esse período) temos hoje o Exame Nacional para Certificação de Jovens e Adultos – o ENCCEJA – que substitui todos os modelos anteriores, bastando ao educando ser aprovado em um “Exame”, para fazer jus à formação básica, ou do Ensino Médio.

Somente os que já viveram a experiência de lecionar para esses pobres brasileiros esquecidos, poderão entender o quão diversa são essas classes – e nada equânimes, isso porque desde a sua criação nos idos de 45 (ainda no século XX), que a Educação Brasileira não “descobriu” uma forma de atender esse público com dignidade e qualidade E aí, talvez, até faça sentido uma prova como o ENCCEJA para conferir uma Certificação, já que nas salas de aula muitos ficam pelo caminho, abandonando o sonho e o direito de estudar e aprender.

Quiçá isso ocorra por serem turmas multisseriadas na maioria das escolas (1º ao 5º, 6º e 7º, 8º e 9º anos), ou pela disparidade entre as expectativas dos alunos – adolescentes que não podem mais seguir no Regular (por conta da repetência), ou adultos trabalhadores exaustos (alguns na terceira idade) que lutam contra todas as adversidades para aprender a escrever um parágrafo, ou fazer uma Regra de Três simples.

A razão do abandono pode ser, ainda, a falta de estrutura escolar, de uma Metodologia de Ensino apropriada à sua realidade, ou mesmo de uma Formação Continuada que qualifique os poucos professores que têm a coragem de encarar esse desafio. Por isso, nada justifica o tratamento dado à EJA no Brasil – o Governo Federal finge que não sabe, Estados e Municípios fingem que ensinam.

O filósofo espanhol Fernando Savater afirma que ““A boa educação é cara, e quem mais necessita dela é sempre quem não pode acessá-la. São pessoas que não têm livros em casa, não têm acesso a oportunidades culturais. A educação é a arma contra a fatalidade social”. E são esses os alunos que buscam uma aula noturna, nas turmas da EJA, fugindo das fatalidades, e buscando as oportunidades que a vida não foi capaz de lhes oferecer. Portanto, quando você ouvir alguém falando sobre “Diversidade”, lembre-se dos herdeiros do MOBRAL, merecedores de respeito, e carentes de “Equidade” de condições.

Ser ou Estar? Causa (e consequência?) dos relacionamentos fracassados

Certamente a questão posta nesse artigo não é inédita, nem tampouco tenho a pretensão de prescrever solução para a vida de quem quer que seja. Ele surge a partir de inquietações, e principalmente de devaneios que são o norte dos meus escritos, na maioria das vezes. Para ser bem realista, eles são fruto de 90% de inspiração e 10% de práxis textual. Mas, vamos ao que interessa.

Penso que, no que diga respeito às relações humanas, saber fazer a correta distinção entre um e outro – Ser e Estar – é sinônimo de maturidade, posto que a vida nos apresenta todos os dias infindáveis exemplos, do quão danosa pode ser a falta dessa consciência. Por isso, falemos primeiro do núcleo original – a família – onde tudo começa bem (ou não).

Deixando de lado sua visão idealizada (em parte construída pela formação religiosa e moral de cada um), uma família é uma reunião de opostos, e não de iguais, ao contrário do que possa parecer. E está aí a grande certeza – não existe família perfeita, mas individualidades que escolhem conviver em harmonia e respeito, ou não. Quanto ao elo que os liga – o amor familiar – quando em excesso vira posse, quando falta (o amor próprio) vira dependência.

Depois desse grupo importante conhecemos os amigos – de infância ou não, mas que de igual maneira são mal interpretados. Fazendo uma analogia, é como se todos embarcássemos na mesma estação de trem, mas com o mover dos trilhos, a cada nova parada um amigo desembarcasse e outro subisse, sem a certeza de um novo encontro na estação seguinte. Depositar em outrem as nossas expectativas, por esse motivo, é abrir as portas para a frustração.

Aí vem o casamento que é igual desde sempre, o que mudou hoje foi a motivação das pessoas para continuarem casadas. O que talvez alguns teimem em aceitar é que ele nunca foi (nem será) um conto de fadas, outrossim, é como a pedra bruta que sente o corte do buril para virar um diamante – exige paciência, vontade e, muitas vezes, até dor. O mais difícil na vida à dois é reconhecer que o erro (quase sempre) não está somente no outro.

Então, gostar-se é a resposta, e há dois milênios atrás alguém já dizia “ame o outro, como se ama a si mesmo” (mas do ensinamento só se guardou a primeira parte, ao que tudo indica). E talvez venha daí a celeuma do SER, que é perene, e do ESTAR que é transitório. Eu SOU quando me conheço, reconheço e me aceito – o amar-se é a consequência imediata dessas três condições. Quanto a outra parte, eu ESTOU junto de alguém, estou em uma situação confortável hoje, e pode ser que amanhã, não mais esteja.

O Autoconhecimento é a chave que faz girar toda essa engrenagem, mas para aqueles que não são iluminados, sugiro uma boa terapia, deixando aqui apenas uma ressalva – ela deve ser uma ferramenta de revolução, tirando para fora do armário todos os esqueletos. Algo diferente disso, compre um cachorrinho que vai te ouvir da mesma forma, concordar com você balançando o rabinho, e com um custo bem menor (apenas ração, vermífugo, antipulgas e vacinação anual).

O que te Inspira? Qual o motivo que te faz querer acordar todos os dias?

Clarice Lispector já dizia que ”todas as noites no travesseiro vivemos de uma realidade quase intraduzível por palavras, mas que ninguém pode negar, realidade livre, sem freios e que nos pertence quase mais do que o dia a dia que vivemos. O dia a dia que se torna às vezes mais pobre que o sonho”.

Mês passado, quando a roda do tempo me aproximou do jubileu de ouro, me peguei pensando sobre os últimos 49 anos de uma vida singular – cheia de erros, mas também de acertos – por isso não pude tirar da cabeça essa incômoda pergunta, que acabou virando tema da semana. O que te inspira a continuar vivendo? O que te faz desejar seguir adiante?

Quando somos crianças o sonho e realidade ainda se misturam, por isso, se questionados sobre o futuro os pequenos têm sempre uma resposta na ponta da língua – ser bombeiro, médico, Homem-Aranha, astronauta, caminhoneiro e tudo que possa caber na imaginação de um infante. Nesse tempo-espaço mágico não há lugar para frustrações, tudo é possível.

No momento seguinte – a adolescência – o caos passa a reinar quando fazemos a mesma pergunta, isso porque a ebulição dos hormônios sufoca todo o empreendedorismo da primeira infância, e o – NÃO SEI PROFESSOR – é o lema dessa efervescente fase.

Então, chega a juventude onde as escolhas são compulsórias, e não mais relativas, e nessa hora tudo vira uma loteria, com inúmeras variantes – grupamento social, nível cultural da família e o mais importante (e difícil de acontecer) a tal da vocação, que quase nunca funciona como o esperado.

Depois disso a vida entra em um modo automático, e é como se DESEJOS e INSPIRAÇÃO fossem valores abolidos da vida adulta. Tudo vira rotina, necessidade ou ambição e, quando você menos espera, metade de um século se passou. Aí você se pergunta – então, o que vem depois? a aposentadoria? a velhice e a sepultura?

Clarice, lindamente, me lembrou que o sonho é sempre melhor que a vida real, e penso que esteja aí o pulo do gato, para não viver uma vida autômata e sem sentido – descobrir a cada despertar um novo motivo pelo qual valha a pena esforçar-se para tornar realidade. Sucesso ou fracasso? Não há o que garanta, mas o belo de olhar a vida com os olhos de uma criança, é que se um sonho não se realizou hoje, você pode dormir e encontrar um novo na manhã seguinte.

Quanto a mim, com o jubileu batendo à porta, posso garantir que já passei por todas as fases aqui descritas – com vitórias e desastres – em sua maioria desastres, mas já há algum tempo descobri uma inspiração para hoje, e para os próximos 50 anos – ESCREVINHAR TEXTÍCULOS. Se eu acredito em sucesso de crítica e público com isso? Claro que não. Mas como no mundo dos devaneios tudo é possível, prefiro passar os próximos anos sonhando e escrevendo uma nova história a cada dia.

A Mosca Azul e os amigos do Rei: quando a impessoalidade perde a precedência para o apego ao poder

De acordo com o Direito Administrativo, “o princípio da impessoalidade estabelece o dever de imparcialidade na defesa do interesse público, impedindo discriminações e privilégios indevidamente dispensados a particulares no exercício da função administrativa.” Portanto, essa deveria ser a norma a ser seguida por todo aquele investido de função pública, ao tratar de assuntos de interesse do Estado, mas, qual não foi minha surpresa (??) ao ver noticiado essa semana nos veículos de comunicação, a escandalosa denúncia (mais uma) de que um Ministro fora pego em flagrante delito de prevaricação, ao destinar recursos públicos para atendimento de interesses pessoais.

Maior sordidez se imputa a esse fato por tratar-se de verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE (que sofreu cortes significativos recentemente), por determinação de uma figura pública que, além de estar Ministro, é reconhecida como uma liderança religiosa. Ainda que tal desfaçatez tenha sido cometida para a construção de creches e escolas (em municípios comandados pelos “amigos do Rei”), o princípio da Impessoalidade está quebrado. Mas o que levaria um “Homem de Deus” a cometer tal pecado?

Reza uma antiga lenda oriental, que “um servo foi picado por uma Mosca Azul e, a partir daí, começou a se olhar como se o próprio sultão fosse. Embevecido, ele se despersonalizou e começou a se achar muito mais importante do que realmente o era”. Tendo como base essa lenda, não temo em afirmar que esse é um mal que já tornou-se endêmico entre o meio político do país, e o Ministro em questão é apenas mais um dos vitimados pelo veneno da vaidade, do apego ao poder, da soberba e do orgulho – mal esse que pode fazer sucumbir doutos e néscios, bastando a eles que recebam o pico da vespa cerúlea.

No Cerimonial Público, seara onde atuei por mais de 15 anos, existe uma célebre frase do Embaixador Argentino Jorge Gastón Blanco Villalta que resume bem as consequências da quebra da impessoalidade aqui tratada. Afirma Villalta, que a precedência “É reconhecer a primazia de uma hierarquia sobre a outra, e tem sido, desde os tempos mais antigos, e em todas as partes, motivo de normas escritas, cuja falta de acatamento provoca desgraças”. E não há desgraça maior, no meu entender, do que roubar da nação recursos que poderiam garantir a transformação social através da Educação.

De toda forma, o que é inaceitável é o fato de que, do grande ao pequeno escalão, continua sendo reproduzida a prática (tão antiga quanto a própria República) de usar a máquina estatal para satisfazer interesses vis e personalíssimos com um único propósito – a troca de favores para manutenção do poder político – resguardados pela ”quase” certeza de impunidade que ainda reina no país. Oxalá as Ciências Médicas, junto com um antídoto para o vírus da COVID-19, possam descobrir uma profilaxia eficiente no combate à contaminação das autoridades públicas pelo veneno da Mosca Azul, em especial aquelas que hoje dirigem os municípios, os estados da Federação e o Planalto Central.

15 de março – Dia nacional da Escola: você sabia?

Provavelmente não, como eu também só vim saber dessa data nacional por conta do sem número de matérias e posts que vi publicados sobre o assunto. Me sentindo um professor alienado, fui buscar o fundamento dessa comemoração, e então descobri que o 15 de março havia sido incluído no calendário de datas comemorativas pelo Congresso Nacional, como forma de resgatar a dignidade e prestígio da Escola, perdidas durante a Pandemia. Mais uma falácia que ouço sobre Pandemia e Educação, mas essa é uma outra história. Afinal, quem é essa “Senhora”? Um monte de tijolos e carteiras, recheada de livros e pessoas?

A origem de seu nome vem da Antiguidade, na Grécia, onde se chamava scholé, que significava “tempo do ócio ou de lazer”. Nesse ambiente dedicado ao prazer e ao deleite, os grandes Mestres recebiam seus discípulos para discutir política, filosofia, artes e aritmética com o objetivo de formar futuros governantes. Já nos primeiros anos da Era Cristã ela foi um espaço de ensino para clérigos e nobres. A Escola como conhecemos nasceu no Brasil com os Jesuítas e, somente no século XVIII, surgiu a primeira laica, sem o controle direto da Igreja, a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho.

Bom, não sei para vocês, mas para os da minha geração (e os de antes dela), o seu significado é totalmente afetivo. Sou de um tempo onde ir para a escola (ainda que fosse uma obrigação) era prazeroso (como não lembrar dos desfiles de 7 de setembro, e das quadrilhas nas Festas Julinas?). Não por menos, ainda tenho guardadas na retina da memória a Dona Conceição nos recebendo na porta do Grupo Escolar Francisco Bernardino, do escadão de Santa Terezinha que subia e descia todos os dias para chegar no Patrus de Souza, sem falar das histórias vividas no Colégio Técnico Universitário – o CTU. Nesse tempo Escola e Família ainda mantinham um diálogo amistoso, por isso a presença de uma na outra era sempre constante.

Hoje, o que deveria ser um espaço de transformação, virou de formação político-ideológica, e não que discutir Ideologias seja errado, ao contrário. O problema é quando aquilo que deveria ser um debate de ideias (saudável dentro de um ambiente democrático) torna-se um embate de opiniões, onde quem sempre sai perdendo é a Escola, no caso a Pública, carinhosamente apelidada por alguns de “depósito de alunos”. Para as famílias abastadas, diferentemente, existe um cardápio de opções para seus filhos – das confessionais às Montessorianas, de Waldorfianas às Americanas… – variando de acordo com o poder aquisitivo, onde esse tipo de embate ainda não chegou.

A questão posta então é: ela seria realmente um amontoado de tijolos e carteiras, recheada com pessoas e livros, ou uma “Ponte” que leva a novos caminhos? A “Casa Máter”, onde diversidade e ideologia andam juntas, assim como o Respeito e a Liberdade, gêmeos siameses, que não sobrevivem um sem o outro? Talvez, o grande desafio para essa convivência harmoniosa seja que a estrada que leva a esse lugar tão desejado, é uma via de mão dupla, portanto há que se respeitar, para alcançar o respeito. Para mim, definitivamente, aquelas escolas por onde passei vão continuar sendo as melhores lembranças que consigo acessar, quando olho para trás pelo retrovisor da memória.

A difícil, e imprescindível, arte de ensinar a voar

“Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim “affetare”, quer dizer “ir atrás”. É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.” Assim já dizia meu Mestre Rubem Alves, falando mais uma vez sobre a Educação e suas singularidades. Mas a questão hoje aqui posta é:  por que se dedicar a esse tão “penoso”, e poucas vezes reconhecido, ofício de ensinar a voar?

Não posso falar por outrem, por isso o artigo dessa semana será totalmente intimista e espero que, assim, desperte em tantos colegas com quem dividi salas, senão uma inspiração, uma reflexão necessária sobre o exercício do magistério.

Se eu dissesse que fiz a opção do meu curso de graduação baseado em um ímpeto vocacional estaria sendo grandemente mentiroso – como muitos da minha geração (e classe social) naquela época a Licenciatura (no turno noturno) era a opção viável para quem não era filho de Doutos e abastados. Por isso, prestei vestibular para Letras achando que seria professor de Língua Inglesa. Vã ingenuidade da juventude rsrs … nossas escolhas nos levam a caminhos, que nem o maior dos exploradores seria capaz de precisar com exatidão.

Como dizia meu saudoso amigo João Carlos Gonzaga – o Jornalista João Vermelho – “a vida é uma roda gigante”, por isso comecei minha história docente no Magistério Superior em salas de faculdades realizado com o exercício da função, e com uma boa remuneração. É fato que das aulas nunca me afastei, mas, em dado momento, me vi lecionando na Educação Básica, em escolas do interior, com todas as adversidades possíveis (e imagináveis) para quem já vivenciou essa situação – e foi justamente nesse chão de escola que entendi o significado da palavra “Professorar”, e que ele vai muito além de cumprir conteúdo programático e ementas.

Depois disso, por um acaso do destino (Será?), não me afastei mais dessa experiência sensorial, desse teste de resignação e fé, que é trabalhar em escolas públicas, e foi justamente por conta dessa oportunidade que a vida me ofereceu, que eu entendi qual o meu papel em uma sala-de-aula, e qual a minha função na construção da tão desejada “Justiça Social para Todos” – ensinar aos meus alunos que é possível, e necessário, sonhar – antes disso, fazê-los acreditar que seus sonhos podem se tornar realidade.

Respondendo à questão posta no início desse textículo, em forma de artigo: por que se dedicar a esse tão “penoso” ofício? De maneira assertiva, e com base em fatos concretos, posso afirmar que dia desses, como já aconteceu inúmeras outras vezes (sou humano e falível) encarei uma turma tomado de torpor, cansaço, ansiedade e angústia por conta das vicissitudes que a vida nos impõe, mas, bastou começar a aula para que todo o mal estar e desconforto ficasse para trás. Por isso, ouso afirmar sem medo de cometer mal juízo, que esse é o verdadeiro sentido da profissão que escolhi. Como diria minha eterna professora Cora Coralina, o professor é “feliz por que transfere o que sabe aos seus alunos, mas, ao mesmo tempo, aprende com aquilo que ele ensina” – ensinar a voar, e a acreditar nos próprios sonhos. É por isso, e a favor disso, que devemos trabalhar sempre.