Pega firme, que passa! Altas habilidades altamente negligenciadas

“Maria nascera ‘do Rosário’ em uma cidade do interior desse Brasil, filha de pais simplórios, mas atentos à educação da pequena. Era uma criança como qualquer outra, que não falava palavras difíceis aos 2 anos, nem brilhava nas redes sociais. Porém, tudo começou a mudar quando aos cinco os pais foram chamados pela professora. Ela que era atenta e participativa, começou a demonstrar desinteresse e apatia nas aulas. Recomendados, procuraram auxílio médico na Rede Pública de Saúde que identificou em Maria do Rosário ‘altas habilidades cognitivas’. Por conta disso, deveria receber atendimento especializado na escola. Retornando ao estabelecimento de ensino, apresentaram o documento do médico à Diretora, que prontamente tranquilizou os aflitos pais – Não se preocupem, isso é normal na idade de Maria, é só pegar firme que passa!”

Dia desses, assistindo a um programa na TV que mostrava as habilidades de pequenos gênios – crianças de alto QI – o apresentador terminou o quadro com um dado estatístico que transcrevo aqui “A Organização Mundial da Saúde estima que 5% da população mundial tem altas habilidades. No Brasil, são 2,5 milhões de estudantes, mas só cerca de 24 mil (1%) são identificados e acompanhados”. Tamanha discrepância pode até parecer exagero, mas infelizmente não é.

A questão do atendimento a essas crianças (Altas habilidades: quem apresenta um QI entre 121 e 130; Superdotação: quem apresenta QI acima de 130) apesar de prevista em Lei – com acompanhamento especializado e currículo diferenciado – está muito longe de ser uma realidade, principalmente quando se trata de Educação Pública (a situação na Rede Privada também não é muito diferente, com poucas exceções).

De fato, como demonstraram os números apresentados no programa televisivo, os casos são negligenciados e isso porque o Sistema de Ensino brasileiro ainda não aprendeu a trabalhar com as diferenças, e muito menos consegue avaliar o desempenho de uma criança ou jovem com base em outro critério que não seja o classificatório (0 a 10), ao invés de aferir sua eficiência de aprendizagem.

Dessa forma, os alunos de alto rendimento (ou considerados avançados) são ignorados e desestimulados em suas habilidades pois têm que seguir um currículo e um “livro didático” que foram feitos para uma classe de insuficiência e de baixo aprendizado. Quando não são tratados como problemáticos, e encaminhados ao setor de “Atendimento Educacional Especializado” das escolas, junto com crianças deficientes, ou portadoras de algum tipo de transtorno.

Triste realidade, pois mesmo com os avanços metodológicos trazidos pela BNCC, a dita autonomia do aluno durante sua aprendizagem (em especial dos avançados), ainda é uma questão meramente retórica, que não encontra ressonância na Academia, e muito menos nas salas de aula. E enquanto isso acontece, de cada 100 crianças brasileiras com Altas Habilidades, 99 delas recebem o mesmo tratamento que Maria do Rosário – “Pega firme, que passa”.

Sobre a luta do Bem contra o Mal

Dramático este título, não? Mas pode ficar tranquilo, neste texto não tratarei de nenhuma batalha de caráter bíblico, nem tampouco farei apologia (ou defesa) da posição de certo candidato que usa essa expressão como bordão de campanha. Ao contrário, se tudo der certo, espero ao final dessa narrativa ter conseguido desconstruir uma opinião, travestida de verdade.

Falando em ideias e opiniões, você sabe qual é a diferença entre Debate e Embate? Em ano eleitoral essa deveria ser uma diferenciação conhecida por todos, mas, ao que parece, não o é.

O escritor Moçambicano Mia Couto afirma que “Muito do debate de ideias é substituído pela agressão pessoal. Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demônios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa”.

Apesar de tanto o Debate quanto o Embate remeterem ao sentido etimológico de “bater”, no caso do primeiro o que se espera é uma discussão respeitosa onde, uma ou mais pessoas, apresentem pontos de vista distintos sobre um tema, com base em argumentos e fatos, com vistas ao convencimento das partes.

Ao contrário disso, o que se vê hoje é o confronto de opiniões, cada vez mais exacerbadas, sobre todo tipo de assunto, como bem destacou Mia Couto que, via de regra, têm se configurado em agressão física de fato – e lembro aqui do trágico episódio de intolerância política que chocou todo o país recentemente.

Mas falando sobre Política, já que estamos em ano de eleição, é importante lembrar que o contraditório e o discenso alimentam a Democracia, que é construída através da negociação e do diálogo, em prol de um bem comum. Contudo, o que se percebe (em especial aqui no Brasil) é uma onda de autoritarismo e violência, disfarçada de ideologia, que busca impor suas posições, em detrimento de uma civilizada contraposição de ideias.

Como consequência desse comportamento, o discurso de que existe uma luta do bem contra o mal faria todo o sentido se estivéssemos falando aqui de Heróis e Deuses (como no Mito Sebastianista), que surgem de forma redentora para restabelecer a honra e a glória da nação. Mas esse não é o caso, são figuras humanas, falíveis, corruptíveis que, mesmo tentando agir corretamente, poderão vir a cometer deslizes e equívocos.

E aqui não se trata de Esquerda ou de Direita, de fulano ou de beltrano. Quando uma pessoa se torna figura pública, principalmente na Política, ela estará sujeita a erros e acertos, até porque o gérmen da cobiça e da soberba não tem legenda partidária, e a história brasileira está recheada de biografias que caíram no mesmo valão. Por isso, não ouça o canto da sereia, confie sempre desconfiando, analise ideias e não se deixe levar por opiniões porque, no final das contas, seja quem for o ganhador desse pleito, a chance de ele ser picado pela “Vespa Cerúlea” – a infame Mosca Azul – e colocar tudo a perder, sempre irá existir.

Lado A e Lado B

“Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.”

Fazendo-me valer desses lindos versos do alter ego de Fernando Pessoa sobre a construção da identidade humana, lembro que os da minha geração (e os que vieram antes dela) ainda se reconheciam dentro de uma linhagem familiar – este é filho de fulano, aquele é neto de beltrano, e isso por si só já denotava uma historicidade (ainda que positiva ou negativa).

O que não ocorre hoje, pois o que se percebe é um apagamento das origens e dos vínculos familiares, em um reducionismo digital que tende a nos transformar em simulacros de nós mesmos, ou como se costuma dizer nas Redes Sociais – nossos avatares. Mas afinal? Quem está com a razão? Caeiro que buscava o autoconhecimento através do esquecimento para se reconhecer, ou as novas gerações que buscam através do apagamento de suas origens, reconstruírem-se em um ambiente novo e idealizado?

A verdade é que, tal como na “Casa Velha” de que fala Rubem Alves, que de tantas demãos de tinta, esqueceu-se da origem nobre do seu Pinho de Riga, nós também somos o somatório de todas as palavras, ensinamentos, traumas e problemas com os quais fomos marcados durante nossa existência. E o grande problema é que, muitas das vezes, o lado bom de nosso espírito fica soterrado em camadas espessas de histórias que não são nossas, nem tampouco representam nossa essência.

Como consequência convivemos hoje com uma geração das Síndromes. Já repararam isso? E se antes eram próprias dos adultos, hoje chegam cada vez mais cedo aos infantes – fobia disso, fobia daquilo, transtornos e déficits. Não quero parecer simplista e dizer que nos tempos da vovó isso não ocorresse, até pode ser que sim, mas certamente não com essa intensidade. E como resultado desse novo modo de vida, o que antes só se via em países “desenvolvidos” como os Estados Unidos da América, hoje já se encontra por aqui como ameaças de extermínio em escolas, e jovens e adultos cada vez mais paranoides e problemáticos.

Álvaro de Campos já dizia que “Sou o intervalo entre o que desejo ser, e os outros me fizeram [ ..]” Sábia e doída verdade! Ninguém é de todo mal, nem tampouco nenhuma pessoa é isenta de maldades. Todos nós temos um Lado A e um Lado B em nossa história, que para entendê-la temos que fazer como antigamente, colocando o LP na vitrola e ouvindo com paciência (e às vezes coragem) os dois lados da bolacha. Só assim poderemos reconhecer em nós a mania de grandeza daquela tia distante, ou o amor fraterno do avô que nem chegamos a conhecer. Juntando esses pedaços é que construiremos nossa Identidade e, talvez assim, iremos economizar um bom tempo e dinheiro em terapia e remédios. Esquecer para lembrar é um caminho necessário, mas atenção: esteja preparado para encarar anjos e demônios e, talvez descobrir que na origem você seja menos angelical do que acreditava ser.

A fome nossa de cada dia!

Em seu Livro dos Abraços, Eduardo Galeano profeticamente diz: “Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.”

Não há dúvida de que vivemos hoje no mundo, mas especialmente no Brasil, uma crise alimentar – 35 milhões de brasileiros passam fome. Outros tantos milhões (que a régua de medir não alcançou) quase passam fome, outros tantos ainda viram sua rotina alimentar – antes farta e saudável – hoje se tornar escassa e essencial. E digo isso apenas para lembrar que a crise não é exclusividade dos miseráveis. Mas como bem lembrou Galeano, existem outras fomes que consomem nossas vísceras diariamente.

Amar “não” é um verbo intransitivo (como disse Mário de Andrade) justamente porque necessita de um complemento, ele não se completa sozinho.  Ninguém ama só, essa é uma ação para ser realizada coletivamente, e é a falta dela que vêm nos matando, dia após dia, deixando-nos o espírito esquálido e débil de vontade, de empatia, de sororidade, de compaixão e de respeito, tal como a fome de alimento vem consumindo a carne e os ossos de tantos brasileiros.

Caetano Veloso já cantava em seus versos que “Enquanto os homens exercem seus podres poderes/Morrer e matar de fome, de raiva e de sede/São tantas vezes gestos naturais” e é nesse ponto que o ícone da música popular brasileira se encontra com o escritor e jornalista uruguaio – o Sistema tem nos levado a viver uma fome e uma sede de Justiça Social, com tanta insegurança e medo, que a cada dia mais nos parecemos com o Boi, sozinhos vamos nos lambendo melhor, nos desvinculando uns dos outros.

E isso não é um bom sinal, pelo contrário. Essa desassociação com o humano tem nos tornado individualistas, céticos e sórdidos ao ponto de ferir com armas (e palavras) pessoas ou animais com a mesma dose de crueldade – “O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada.” […]. Não importam mais os meios, desde que se alcance o fim desejado – e assim a sociedade vai vivendo tempos sombrios, de barbárie física, moral e emocional.

Woody Allen disse certa vez que “Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.” Sim! Que saibamos fazer as escolhas corretas para que o Sistema ofereça o pão para aqueles que sofrem, bem como para enxergar que a “fome nossa de cada dia” é também de benevolência, e isso não conseguiremos resolver nas urnas. Precisamos de comida e água, tanto quanto precisamos uns dos outros – essa é a condição para nos mantermos saudáveis, e vivos. No final das contas, amar é isso: um verbo para ser conjugado no plural.

Qual é o teu Impossível?

Gosto muito de brincar com a origem das palavras, por isso, buscando na etimologia a história do vocábulo “Impossível” descubro que essa prosa deveria terminar, antes mesmo de ter começado, já que em Latim significa algo que “’não é possível; que não pode existir; que não pode realizar-se; irrealizável’. Portanto, já que esse tema foi gerado natimorto, fiquemos por aqui. Até breve!

Mas será mesmo que tem que ser assim? O filósofo Mário Sérgio Cortella costuma dizer que “O impossível não é um fato, ele é apenas uma opinião”.

Um amigo (daqueles que a vida nos apresenta em cruzamentos nada casuais) desde o primeiro cumprimento insiste em me perguntar: qual é o teu Impossível? E toda vez que nos encontramos, a pergunta é sempre a mesma. Por conta disso, comecei a refletir sobre o assunto, e percebi que a vida nos impõem uma série de “impossibilidades”, em um negacionismo baseado nas vicissitudes, que são inerentes a qualquer conquista ou desafio.

Vejam bem, nos meus tempos de moleque, carro-voador existia somente nos desenhos dos Jetsons, e hoje essa já é uma realidade. Até poucos anos atrás, AIDS e Câncer eram doenças consideradas terminais, e a ciência médica caminha hoje, tanto no sentido de tratamentos cada vez mais eficientes, quanto da cura, como no caso de alguns tipos de câncer. Tudo isso considerado, até então, como “irrealizável” ou “improvável”.

E olha que essa prosa não tem nada de mística, nem tampouco vou adentrar aqui nos caminhos do etéreo, ao contrário, busco ser bem pragmático  –  quase cartesiano – para mostrar o quanto somos levados a crer no fracasso pela forma como vivemos nossa vida, com a certeza de que os motivos para não lutar por algo, serão sempre maiores do que as razões para insistir e tentar.

Um poeta, chamado Renato Russo, escreveu esses versos em forma de música, e que refletem bem o sentido da narrativa dessa semana “Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena / Acreditar no sonho que se tem / Ou que os seus planos nunca vão dar certo / Ou que você nunca vai ser alguém / … Quem acredita sempre alcança.”

Essa é certamente a história da vida de muitos que estão lendo esse Artigo (inclusive a minha), pois, por quantas vezes desistimos de sonhos, metas e objetivos baseados naquilo que o outro pensa ou acha sobre nós, ou nossos propósitos – e assim a vida vai se tornando cada vez mais vazia e sem sentido. Talvez, seja por isso que vejo tantos jovens (bem jovens mesmo), murchos igual uma flor, sem vida e sem brilho.

E por falar em flores, em nosso último encontro o tal amigo, cujo nome vou manter inconfidente, mas tem como sobrenome “Esperança” (no sentido lato de esperar com confiança de que vai dar certo) me entregou uma rosa branca, e ainda brincou –“Homem não costuma dar rosas para outro homem “ rsrs rsrs. Agradeço o presente, pois, saiba que ele fez com que voltasse a crer nos meus Impossíveis (tal como diz Renato em seus versos), com a certeza de que todo aquele que acredita, no fim sempre alcança, e se não alcancei ainda, é porque não cheguei no final da caminhada. Muito Obrigado!

Sobre fazer a diferença na vida de alguém

Um amigo, ao qual sempre volto quando surge uma inspiração, uma vez disse com muita propriedade: “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais…”. Salve Mestre Rubem Alves!

Despretensiosamente, costumo dizer que sou apenas um escrevinhador que desenha as palavras, por isso, tão acostumado que estou a falar de personagens que crio em universos paralelos, me vi surpreendido esses dias quando fui o protagonista da vida real, enquanto professor de escola pública, experiência que me fez compreender o real sentido da reflexão que hoje abre essa narrativa.

“Educação é pra quem Conhece” – essa frase de efeito estampa a capa de uma das minhas Redes Sociais há alguns anos e, para além de uma redundância semântica, por muito tempo (e ainda hoje) ela representou uma crítica aos modelos de Gestão e Políticas Públicas Educacionais vigentes. Agora, contudo, ela ganhou para mim um outro contorno, não menos crítico.

Qual é o pré-requisito para ensinar? Qual a habilidade necessária para ser professor? Basta ter um diploma de licenciado ou bacharel, ou ainda, apenas uma autorização para lecionar. Simples assim. Será?

A verdade é que “professorar” deixou de ser um ofício de vocação para tornar-se ocupação profissional, infelizmente. E ao dizer isso não quero parecer saudosista (Salvem as Professorinhas!) ou utopista. Educar vai muito além de conhecer os códigos alfanuméricos da BNCC , ou citar autores famosos. Ensinar então? Isso é para bem poucos, e as nossas Instituições de Ensino (que deveriam formar professores) transformaram-se em linhas de produção para fabricar colecionadores de títulos, e não educadores. E digo isso com muita tranquilidade, pois reconheço que estou em contínuo aprendizado.

Mas o que vejo acontecer nas salas-de-aula, me faz ter a certeza de que muitos sabem, mas poucos conhecem a realidade da Educação em nosso país. E em sua grande maioria, quando são confrontados com ela se assustam e mudam de ocupação, ou se acomodam alimentando um círculo vicioso que tomou conta das nossas escolas, e me refiro aqui especificamente às públicas.

“Educação é pra quem Conhece”, porque ela exige – Vontade, para oferecer sempre o melhor de si; Coragem, para ser incisivo (e austero quando necessário) sem perder a gentileza; Empatia, para reconhecer que atrás de cada aluno existe uma história de vida (muitas vezes traumática) e Respeito, pois ele é uma via de mão dupla: tenho que respeitar, para merecer o respeito do outro.  

Sim! É possível fazer a diferença na vida de alguém, e minha eterna Professorinha, Cora Coralina, sempre me lembra que é “Feliz aquele que transfere o que sabe”, mas também aprende com aqueles a quem ensina. |Por isso “Ensinar é um exercício de imortalidade”, mas também de responsabilidade, humildade e solidariedade.

A culpa é da Escola!

Cultura Maker, Vaucher, Charter School, Open Robotics, Blended Learning. Você sabe o que significam essas expressões? Provavelmente não, mas a tendência de importar modelos e técnicas educacionais é cada vez mais recorrente por aqui. Se elas funcionam? Certamente que sim, mas a questão é saber como usar, para quê usar e com quem usar e, nesse caso, ouso dizer que grande parte dos educadores e gestores (que gostam desses estrangeirismos modistas) não têm a capacidade de fazê-lo.

Mas faltou falar de um outro (também importado), que está em pauta após sua aprovação na Câmara dos Deputados – o Homeschooling – ou ensino domiciliar como é conhecido. Para além da tramitação do Projeto de Lei (que ainda precisa passar pelo Senado para só depois ir à sanção ou veto Presidencial), a questão é que esse modelo americano, que cresceu com John Holt e o casal Moore, sempre teve um viés ideológico muito forte, e mesmo com todas as proposições feitas pelos Deputados, essa ainda é uma questão preocupante.

Isso quer dizer que o Homeschooling é ruim? Claro que não, se assim o fosse a Finlândia – referência em Educação no mundo – onde ela é quase na sua totalidade pública, não permitiria que ele fosse adotado em seu território. O problema mais uma vez é: saber como usar, para quê usar e com quem usar.

Conheço um caso de Homeschoolers (famílias que adotam esse modelo) que foi levada a tomar a essa decisão porque a Rede onde sua filha estava matriculada não deu conta de lidar com suas altas habilidades. E isso não é um problema exclusivo do ensino público, visto que a maioria das escolas particulares também não sabem como trabalhar com alunos avançados (com Super Dotação ou Altas Habilidades) e que por isso acabam sendo negligenciados, ou tratados da mesma forma que aqueles com deficiências cognitivas ou físicas.

Essa questão gera muita polêmica, pois, se por um lado temos casos iguais ao citado, existe uma vertente que enxerga no ensino domiciliar uma forma de “preservar” as crianças e jovens da contaminação de ideologias estranhas ao seu modo de enxergar o mundo, e isso é muito sério. Segundo os críticos a esse modelo (com os quais concordo), privar a criança do convívio em sociedade, além do ideologismo inerente a essa atitude, pode comprometer sua formação pedagógica, humana, crítica e ética e até gerar jovens e adultos – alienados e preconceituosos – que não saberão lidar com a diversidade, inerente e necessária ao convívio social e democrático.

Segundo o educador português José Pacheco “aula não ensina, prova não avalia”. Sim, temos muitos problemas a resolver. Nosso sistema de ensino ainda é “bancário”, como dizia Paulo Freire, mas a resposta para isso não é o negacionismo, ao contrário, somente o investimento de longo prazo em Educação poderá mudar esse cenário, o que bem sabemos não vêm ocorrendo. Infelizmente, hoje a política pública mais valorizada por aqui é a do “Pão e Circo” (basta ver os escândalos dos cachês sertanejistas) e enquanto isso não mudar, a culpa de tudo continuará sendo, sempre, da Escola.

Sobre caos e Políticas Públicas no Brasil

Motivado pela leitura da crônica do grande amigo, e brilhante jornalista, Marcos Araújo publicada em um jornal de grande circulação, onde ele problematizou a questão da desumanização da sociedade (a partir do episódio do assassinato de Genivaldo de Jesus dos Santos), percebi a necessidade de trazer para o Artigo da Semana a questão da equidade para a Educação, a Saúde e a Segurança.

Segundo o dicionário Michaelis, essa palavra pode ser definida como uma justiça natural; disposição para reconhecer imparcialmente o direito de cada um, contudo, adotando um olhar mais inclusivo é o oferecimento de condições iguais, a quem a vida proporcionou oportunidades diferentes, o que deveria ser, em tese, o princípio das Políticas Públicas que norteiam o tripé aqui exposto.

Falando de Segurança, já que os noticiários estão repercutindo o caso da PRF em Sergipe, e a ação da PM na Vila Cruzeiro, lembro que sou neto de um policial militar, e tenho muito orgulho disso. Por outro lado, ouço alunos em sala de aula falando que tem “ódio” de polícia. O que mudou então? Por que motivo ser agente da segurança virou sinônimo de violência e truculência? Por que aqueles que deveriam ser os guardiões, são vistos hoje como algozes da sociedade?

Quanto à Saúde, o Brasil viveu uma prova de fogo (ou ainda está vivendo) com a Pandemia de Covid-19, mas uma coisa ficou clara nesse período – apesar de todos os problemas nas Redes, da falta de estrutura e da má gestão dos governos nas diferentes instâncias, foi graças ao Sistema Único de Saúde que o coronavírus não causou estrago maior em um país de dimensões continentais como o Brasil, ao contrário do que se viu em países na Europa (alguns do tamanho de nossos estados, como Minas Gerais ou Rio de Janeiro).

Então, chegamos à base do tripé, aquela que liga as outras duas pontas, a Educação. Eu poderia discorrer aqui sobre um sem número de problemas que o país vive com o ensino – público e privado, da Educação Básica à Superior – dos “déficits” que a Pandemia trouxe para as nossas crianças e jovens, mas para além disso tudo, é ela – a Escolarização – que vai dar sustentação a todo o Sistema Público, que produzirá uma sociedade menos violenta, mais justa e com uma Saúde eficaz. Isso sem falar na construção de valores como Empatia e Respeito – quem já não foi esculachado por um agente de (in)segurança, ou mal atendido por um profissional da saúde (tanto na Rede Pública quanto na Particular)?

Salve Ariano Suassuna! Sou um realista esperançoso, consciente dos problemas graves e urgentes que o país sofre nesses três pilares, por isso, ao invés de ficar chorando ou reclamando do Estado, prefiro fazer a minha parte como, Educador e Escrevinhador, para garantir a construção de uma sociedade mais equânime, nem que seja necessário para isso escrever mil vezes sobre esse mesmo tema. Quanto aos governantes (ou candidatos a tal) deixo aqui uma advertência – o maior legado que uma figura pública pode deixar, como marca indelével de seu mandato, é a garantia de condições para que o tripé – Educação, Saúde e Segurança seja universal, e com a qualidade que a sociedade merece.

Quanto vale uma Guerra?

Ao refletir sobre o Artigo dessa Semana, foi inevitável trazer no retrovisor da memória as aulas de Filologia Românica do saudoso Professor Mário Roberto Zágari, onde ele nos ensinava que a dominação romana nos territórios bárbaros teve a influência de três fatores: a Língua (no caso o Latim) o Direito Romano e as “cuecas” dos soldados, em uma inferência à higiene e bons modos da tropa que acabou seduzindo as aldeãs bárbaras, e criando assim as variantes do Latim, hoje faladas em boa parte do mundo ocidental.

Os tempos são outros, mas falando agora do conflito recente entre Ucranianos e Russos, uma disputa entre irmãos de sangue – já que a história de um se confunde com a do outro – não posso deixar de lembrar um trecho do célebre discurso do “Grande Ditador” de Charles Chaplin: “O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.”

E se à época dos romanos a Língua, as Leis e o asseio foram bastantes para ajudar a definir o novo contorno geopolítico de Roma, nos dias atuais a Globalização, a Economia de Mercado e a sedução de uma vida baseada no Capitalismo já estão sendo decisivas nesses três meses de conflito armado para mostrar que, mesmo que saia vitoriosa nas batalhas na Ucrânia, a Rússia pode perder a Guerra dentro do próprio território, e isso fica claro com as recorrentes demonstrações de insatisfação dos oligarcas russos, bem como de altas patentes contrariadas com a condução do conflito por Vladimir Putin.

Do outro lado do tabuleiro o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, parece-me às vezes esquecer que é um Chefe de Estado e não mais um ator de TV, pois em muitos momentos (guardada a diferença nas motivações) me parece estar seguindo o roteiro do filme “Mera Coincidência” de 1997, para usar (e muito bem) a mídia a seu favor, inclusive mudando a tônica do discurso, que se antes era a busca do consenso e da paz, agora é beligerante.

O engraçado disso tudo é que um candidato à Presidência da República (aqui do Brasil) foi duramente criticado ao dividir a culpa pelo conflito entre os dois dirigentes – ucraniano e russo – no que sou obrigado a concordar vendo o desenrolar da guerra, onde o interesse econômico e político, tanto de um lado quanto de outro, falam mais alto do que a preocupação com as vidas perdidas, e exiladas de sua terra natal.

Quanto vale, então, uma Guerra? Deixo essa resposta para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que travou uma conversa definitiva com o “senhor Futuro”: Aí está o problema, senhor Futuro. Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam como se fosse uma pelota. Brincam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes o espremem, como se fosse um limão. A continuar assim, temo eu, mais cedo do que tarde o mundo poderá ser tão só uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem água, sem ar e sem alma.”

Sobre resiliência e limões: as reviravoltas (e os tombos) que a vida nos dá

Confesso! O Artigo dessa semana era outro, e estava em processo adiantado de gestação, mas como sou movido, também, por incômodos e desconfortos, relendo Lya Luft achei essa pérola: “Não queremos perder, nem deveríamos perder: saúde, pessoas, posição, dignidade ou confiança. Mas perder e ganhar faz parte do nosso processo de humanização”. Perfeita lição de vida, se não fosse um fator primordial, e condicionante desse processo: perder nunca é bom (nem fácil)!

Segundo a Filosofia Estóica “Resiliência é a habilidade de suportar, superar e limitar o impacto negativo que as dificuldades têm em nossa mente” e este é o ponto – dessa vez não vim falar de Fé, de sonhos nem tampouco de objetivos, mas de limões galegos (e bem azedos) que a vida nos oferece injejum, sem a opção de declinar da golada.

Por isso o texto dessa semana não é motivacional, e muito menos de autoajuda, ao contrário, vamos falar aqui de frustrações e decepções que nos são apresentadas sem a menor cerimônia – chegam, vão entrando e bagunçando tudo aquilo que acreditávamos estava arrumado.

Oscar Wilde já dizia que “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” Por isso, pensando no limoeiro dessa narrativa, ser resiliente tal como prega o Estoicismo é muito difícil, pois, quem aqui não tem uma história para contar sobre ‘aquela’ oportunidade de emprego perdida, ‘aquela’ promoção no serviço que era sua, mas acabou indo parar na mesa do “colega” ao lado? Do carro ‘recém-comprado’, que aí veio o vizinho e esbarrou?

Saindo das coisas comezinhas, e falando de relacionamentos então? Sempre vai existir um espírito de porco que se incomoda com a sua felicidade e paz de espírito, e vai teimar até conseguir arrancá-la de você. E sabe qual a explicação para isso tudo? O lado negro da força (como diria Lucky Skywalker) que habita dentro de cada bicho homem, e que se compraz com o fracasso do outro, bem como se alimenta de doses diárias de cobiça, inveja e malquerença.

Gostaria muito de escrever aqui sobre um mundo de paz e harmonia, com seres excelsos e angelicais, que trabalham em prol do bem comum. Contudo, a minha fantasia de Querubim já foi devolvida para a produção do Big Brother da Vida há algum tempo, e hoje reconheço que o maior obstáculo à minha realização pessoal (bem como à sua) é que tem mais gente “existindo” do que “vivendo”, e a consequência disso é que – do pedreiro ao engenheiro, do leigo ao religioso, da mulher ao homem vai sempre existir alguém querendo te dar um tombo.

Sim, temos que ser resilientes, afinal, o brasileiro nunca desiste, não é mesmo? Além disso, como bem lembrou Lya Luft, perder e ganhar fazem parte do nosso processo de crescimento (bem parecido com o estímulo positivo e negativo que usamos para adestrar nossos cães). Mas sendo muito sincero, transformar esses limões diários em limonada não é coisa para gente fraca não. Há que se ter muita temperança, iluminação e autoconhecimento para dar conta de tanta trairagem que tenho visto acontecer. Sinal dos tempos, será?