Quando a chama de uma vela se apaga

Como explicar a morte? Como falar desse tema tão lúgubre? Se fosse há tempos atrás eu teria não apenas a resposta, mas faria uma palestra explicando cada pormenor dessa “passagem”, em minúcias. Hoje, não mais. Não quer dizer com isso que minhas crenças mudaram, mas sim que mudei a forma de enxergar a vida, e as coisas para além dela. Afinal, como consolar alguém que sofre com uma dor de dente se você nunca teve uma cárie? Como falar sobre os desafios do Magistério no Brasil, se você nunca saiu de seu confortável gabinete na universidade, para dar aulas em uma Escola Pública?

Thiago Brado, um jovem cantor que conheci de pouco, canta nos versos de uma música uma necessária verdade: “Ame mais, abrace mais, pois não sabemos quanto tempo temos para respirar. Fale mais, ouça mais, vale a pena lembrar que a vida é curta demais”. Pois é, quando você menos esperar, pode ser surpreendido, e a vela se apagar.

E para esse momento o imaginário religioso construiu várias possibilidades de desfecho (ou recomeço): do mais sombrio que traz a figura do barqueiro dantesco, de capa e foice, que vem buscar as almas para o purgatório, até a imagem de céus e mundos excelsos onde a alma livre continuará vivendo, junto de anjos, arcanjos e serafins, enquanto aguarda o reencontro eterno. Mas tanto em um caso, quanto em outro, essas são respostas para aqueles que se vão, e não para os que ficam, e têm que lidar com o enlutamento e o vazio que a perda traz.

Engraçado tratar essa ausência como uma perda, pois para os especialistas da psiquê humana isso pode denotar apego, o que realmente não é saudável. Contudo, sem fugir do problema recorrendo a eufemismos, a morte é um lapso, um hiato que se cria (definitivo ou não, de acordo com a crença de cada um) e que vai gerar um desconforto, um vazio, uma saudade que não se explica, nem se resolve com palavras.

Quando em minha casa perdemos (de maneira trágica) um pet, tratei logo de conseguir outro para preencher aquela lacuna que havia se formado, e curar o trauma e o entristecimento gerados (contrariando inclusive a recomendação da veterinária que sugerira a necessidade de vivermos o luto). E ainda que fosse um placebo de patas e pelos, para aquela situação funcionou.

Mas como fazer isso quando se trata da perda de um filho? Os pais vão até o orfanato mais próximo e adotam outro para substituir o que se foi? Como viver com esse sentimento que pode ser muito nocivo para algumas pessoas? Note-se que nem mesmo a religiosidade basta nesses casos – Padre Fábio de Mello sofreu duramente a perda de sua mãe, e até hoje ainda se mostra ressentido com essa ausência.

Portanto, não adianta dar conselhos, ou tentar explicar algo que você não sentiu na pele (e no peito). Como bem lembrou o iluminado cantor em seus versos – viva cada dia da sua vida como se fosse o último, porque realmente ela é curta demais — e frágil como a chama de uma vela que uma leve brisa pode apagar. E quando isso acontecer, só o que irá restar serão as histórias, e as pessoas que o seu brilho iluminou. Carpe diem – trate de colher as rosas do seu jardim, enquanto elas ainda são botões.

Sobre a Relativização das coisas: quando parecer não significa ser

Desde o Princípio da Relatividade de Galileu, até o Relativismo da Filosofia, a existência de verdades absolutas já era questionada, e isso deveria ser um senso comum para todos – tudo depende do ponto de vista, do contexto ou da intenção de quem produz a análise. Infelizmente, na nossa vida em sociedade o que se vê é exatamente o oposto disso – somos a todo momento bombardeados por absolutismos textuais ou estatísticos.

E por falar em dados estatísticos, já há alguns anos que venho me dedicando ao questionável prazer de analisar séries históricas relacionadas à Educação – em especial os indicadores oficiais de proficiência e aprendizagem como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB e do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica – Saeb. E posso afirmar, com uma certeza “relativa”, de que aquilo que prenunciei na abertura desse Artigo, é o que na maioria das vezes vêm ocorrendo.

Por esses dias, acompanhando a polêmica sobre a divulgação dos números do IDEB 2021, onde se “afirmava” que o resultado aquém do esperado nas competências de Língua Portuguesa e Matemática eram consequência das “perdas” ocasionadas pela Pandemia – em especial na fase de alfabetização e letramento – me lembrei de que os indicadores de 2019 já não eram alvissareiros, e que, portanto, estudiosos sérios (e de gosto duvidoso como o meu por análise de séries históricas) já pediam cautela nessas conclusões.

Mas esse não é um problema exclusivo dos pesquisadores da área da Educação. Estando há menos de uma semana das Eleições Gerais, que irão definir os novos mandatários de nosso país, e os representantes das Casas Legislativas, o problema da relativização de números e discursos se torna mais evidente ainda. Basta ver das pesquisas de intenção de voto (que como o próprio nome diz não têm nada de absoluto) até os discursos inflamados e inflamatórios que surgem nas Redes Sociais – o novo espaço do qual os candidatos se apropriaram para fazer Campanha – para perceber que cautela e caldo de galinha são mais do que nunca recomendados.

De Padre que não é Padre, a Mito que não é Santo, encontramos de tudo e mais um pouco sendo veiculado como verdades absolutas (ou absolutistas e redentoras – Salve Dom Sebastião, o Encoberto) nesse espaço ideologizado, onde os mais humildes, mas também os letrados e abonados, são “levados” a acreditar em cantilenas salvacionistas que a lógica nos mostra serem tão consistentes, quanto o ar engarrafado.

Já disse aqui nesse mesmo espaço, mas acho necessário repetir, que a Política não é a vilã, nem a culpada pelos infortúnios da nação. Da mesma forma que nem todo político é corrupto e desonesto. Contudo, existe uma tal de Mosca Azul (ou Vespa Cerúlea como gosto de chamar), que faz toda a diferença nesse ambiente, onde a vaidade e a cobiça fazem morada e, por isso, podem levar à bancarrota “fichas limpas e imaculadas”.

Portanto, relativize tudo. Não se deixe levar por rostos bonitos, ou falas arrebatadoras e bombásticas. Não basta parecer honesto e confiável, há que ser e, mais do isso, ter compostura e respeito pelo cargo que almeja ocupar, pela instituição que pretende representar e, principalmente, pelo povo brasileiro que lhe dará no próximo dia 02 de outubro mais um voto em confiança, na esperança de que, assim, o Brasil encontrará a mudança que tanto ele deseja ver acontecer.

Quando perder (tempo) é ganhar

“Resta, quanto tempo? Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros. Só se ouve o tic-tac… Só posso dizer: “Carpe Diem” – colha o dia como um fruto saboroso. É o que tento fazer.” Salve Rubem Alves e suas sempre belas e desconfortáveis crônicas, que nos sacodem e tiram do lugar comum. Por isso, enquanto ainda há tempo, quero refletir sobre a vida que temos levado nesse mundo caótico e apressado.

É fato que o avanço tecnológico alcançado hoje facilitou muito nossa rotina diária, das tarefas mais simples como fazer uma ligação no celular sem usar as mãos, até às mais complexas como ter uma inteligência artificial em casa que cuida da climatização do ambiente, e dos investimentos na conta bancária. É a sociedade do imediato, do instantâneo, onde tempo é dinheiro por isso não se pode dar ao luxo de perdê-lo. Mas qual o preço que se paga por isso?

Quando foi a última vez em que você parou tudo que estava fazendo para olhar a lua e as estrelas? E sentir o cheiro da chuva? Você se lembra do dia em que ligou para um amigo, apenas para perguntar como ele estava passando? Você que é pai ou mãe, há quanto tempo não senta no chão para brincar com seu filho, ou contar-lhe uma história? E deitar a cabeça em um colo quente para receber um carinho? Se lembra da última vez em que isso aconteceu?

O grande maestro Tom Jobim já dizia que “a gente leva da vida, a vida que a gente leva” e, mesmo sabendo disso, acabamos criando um paradoxo existencial: temos à disposição todo tipo de facilidades tecnológicas que deveriam servir para tornar o dia-a-dia mais ágil e eficiente, mas acabamos nos tornando reféns da própria criação: ao invés de sobrar tempo para usufruir as coisas mais simples e prazerosas da vida, o ritmo acelerado e frenético que a sociedade digital e cosmopolita nos impôs, fez com que o prosaico se tornasse obsoleto e desnecessário, difícil e custoso.

Engraçado é que os cinquentões da minha geração, apesar de terem presenciado a transição do mundo analógico para o digital, ainda guardam boas memórias de um outro tempo, onde chupar jabuticaba no pé, brincar de pique na rua, ou mesmo jogar conversa fora com os vizinhos na porta de casa eram a regra, e não a exceção. E os que vieram antes de nós então? Ah…esses de fato souberam “perder” seu tempo em uma vida cheia de cores, cheiros e sensações; de dores, mas também de amores. Viveram!

Colher o dia como um fruto saboroso é muito mais do que uma bela metáfora existencial. Certamente a sociedade seria menos cruel, as pessoas menos solitárias, os adultos menos deprimidos e nossas crianças e jovens menos problemáticos se pudéssemos embarcar no DeLorean para uma viagem “De Volta para o Futuro”. Quem sabe lá entenderíamos que a vida é como o fruto no pé, que tem que ser provado maduro – antes da hora amarga a boca, passado de vez faz mal ao estômago – por isso é importante que ela não seja tão somente um ‘corre’ diário (como os mais novos costumam dizer). O ter não deveria nunca ser mais importante do que o ser e o estar, até por que “perder tempo”, nesse caso, pode representar justamente o sentido para a “vida que a gente leva”, como bem lembrou o Maestro.

E viva a pátria amada Brasis!

Qual a memória afetiva que você guarda do 7 de Setembro? A minha sempre foi a dos desfiles que ia acompanhar junto de meu pai. O som dos dobrados, a marcha das tropas, o desfile dos carros militares encantava aquela criança que, mesmo sem entender, já trazia no seu peito um sentimento de amor à nação, que alguns chamam de patriotismo. Mas qual o verdadeiro sentido de se amar a Pátria? Qual a (melhor?) forma de demonstrar esse amor?

“Já podeis da Pátria filhos,

Ver contente a mãe gentil”

Os dois primeiros versos do Hino da Independência do Brasil (que para muitos pode parecer confuso) nos lembram que os filhos da Pátria já podem ver contente sua mãe gentil – o Brasil – recém liberto dos grilhões que o prendiam à Coroa Portuguesa. Mas, passados 200 anos será que ela ainda estaria satisfeita com o país que seus filhos construíram?

O Brasil é um país complexo em razão de sua geografia, diverso por sermos frutos da miscigenação de raças e singular no que diz respeito à cultura e aos costumes de cada região – somos muitos Brasis dentro de uma mesma nação. E são justamente esses traços identitários que representam a grandeza cantada no Hino à Independência brasileira, mas que passados dois séculos ainda convive com a fome, com a desigualdade econômica e social, com o preconceito e com a corrupção.

Portanto, se o patriotismo é a máxima representação de amor à uma nação, e se é verdade o dito popular – quem ama, cuida – posso me arriscar a concluir, em um silogismo apressado, que não somos os filhos da Pátria que a “mãe gentil” sonhava ter.

Partindo desse pressuposto, sou obrigado a indagar sobre as razões que levam alguém a se vestir de verde e amarelo, pintar o rosto, e balançar bandeiras inflamadas. Se fosse em 1984, ano em que o povo brasileiro saiu às ruas para lutar pelas “Diretas Já” (ainda que eu fosse um adolescente à época), me lembro bem que o motivo era uma causa nacional – ter o direito de livremente escolher o Presidente do país – de sentido verdadeiramente pátrio, cujo resultado mudou toda a história da República daquele ponto em diante. Mas e hoje?

Reconhecendo o direito de cada cidadão de se manifestar, e apoiar quem quer que seja (não pretendo aqui emitir juízo de valor, ou de cunho partidário), sou forçado a concluir que não existe um nexo causal entre as manifestações de 84 e as que vi acontecerem no último 7 de Setembro. E a razão para tal dissonância é bem simples – se a motivação de outrora era o futuro de toda uma Nação, a atual é garantir o sucesso de um projeto de reeleição e governabilidade.

Sendo assim, a (melhor) forma de demonstrar amor à Pátria é lutando por uma Educação de qualidade e isonômica, valorizando e preservando a nossa Cultura, combatendo as desigualdades sociais e econômicas – não importando se você é um empregador doméstico ou um megaempresário – e sendo um algoz impiedoso de todo tipo de preconceito e corrupção. Mas que fique bem claro: isso deve acontecer durante os 365 dias do ano, e não apenas em datas cívicas ou comemorativas. Assim, quem sabe, a nossa “mãe gentil” possa voltar a ficar contente, orgulhando-se da sua brava gente brasileira.

Zé Anacleto e a cidade chamada Desgosto

Primeiro dia no novo posto de trabalho. Zé Anacleto acabara de ser transferido para o serviço postal de uma cidadezinha chamada Desgosto. – Nome esquisito, pensou ele. Mais esquisito era o gentílico dos nascidos lá: Desgostosos. – Coisa de interior mesmo, finalizou já abrindo a Agência e colocando sobre o balcão sua plaquinha da sorte, onde se lia escrito:

Seja Bem Vindo – José Anacleto, Agente Postal a seu dispor.

Zé era assim – homem simples, sempre com um sorriso estampado no rosto, e por ter uma vontade incurável de ser útil, esse carteiro logo, logo ficou famoso na comunidade. Lamentavelmente uma tragédia acometeu Desgosto – uma tromba d’água épica quase varreu a cidade, derrubando postes e destelhando casas, até a Prefeitura e o Posto Médico foram atingidos. Mas o pior é que a única ponte que ligava o município à rodovia foi levada pela enxurrada.

Zé foi o primeiro a sair às ruas para ver se todos estavam bem, batendo de porta em porta. Até multirão de limpeza e reforma foi ele quem organizou, e foi graças à um telégrafo velho que conseguiu avisar as autoridades, e trazer ajuda para a comunidade.

Até que um dia o Posto dos Correios não abriu. Passaram dois, passaram três dias e os desgostosos começaram a comentar e reclamar maldosamente: – Vai ver tá assistindo jogo! – Ah deve estar é com mulher aí dentro! – Nada, é um preguiçoso mesmo que não quer atender a gente. Somente quando as carnes começaram a feder, que a PM foi chamada para arrombar a porta. Ao entrar encontraram Zé já morto, com o corpo debruçado sobre o balcão de atendimento, e as mãos postas sobre a sua plaquinha da sorte.

Você conhece algum Zé Anacleto? Pois deveriam existir muitos mais dele por aí, talvez assim a sociedade fosse menos acinzentada e triste. Isso porque a cada dia estamos mais armados, metaforicamente falando (alguns de fato), acreditando sempre no lado mais obscuro do humano, desconfiando de tudo e de todos. Mas a pior consequência desse mal da contemporaneidade é a perda da empatia, que não é caridade, nem tampouco simpatia.

Segundo a Psicologia é a capacidade de você sentir o que uma outra pessoa sente caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela, ou seja: procurar experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro a fim de tentar compreender sentimentos e emoções. Difícil isso, não é? Especialmente quando estamos cada vez mais individualistas e ensimesmados nas nossas neuras e frustrações.

Engraçado que, durante a Pandemia de Covid-19, essa virtude floresceu em cada rua, em cada esquina – cantores anônimos alegravam seus vizinhos nas sacadas, voluntários levavam comida para os idosos isolados nos apartamentos, as famílias se reencontraram, depois de uma vida inteira, na mesa do almoço. Pena que isso foi só uma nuvem passageira. Passadas as restrições do vírus, ao que parece, nenhum aprendizado restou dessa experiência cataclísmica.

Hoje voltamos a viver em um mundo cruel e egoísta, onde mesmo que você veja o vizinho do 9º andar (com quem você nunca trocou nem um oi) com o carro quebrado na esquina, irá fazer de conta que não enxergou para não ter que ajudar. Ou se um desconhecido cair na sua frente na rua, irá mudar de calçada para não ter que prestar socorro. Afinal, você não é paramédico e nem pode perder tempo esperando o SAMU chegar, não é essa a lógica? E o vizinho idoso, que mora só, chato e ranzinza? Se ele ficar sem colocar a cara na rua um, dois, três dias que diferença fará? Afinal quem vai sentir falta, não é mesmo?

E o que mais me preocupa nisso tudo é que a Escola, que deveria ser a mola transformadora da sociedade, é conivente com essa situação. Quantas catástrofes, próximas ou distantes, já vivemos nos últimos tempos? Você conhece alguma que promoveu campanha de arrecadação para os desabrigados, ou uma gincana beneficente para apoiar aqueles que a diversidade atingiu? Se nem ela consegue estimular a empatia em nossos futuros adultos, realmente não dá para esperar outro fim para Zé Anacleto que não seja feder sozinho até que as carnes sejam comidas pelos vermes.

Leonardo Boff afirma que “Temos, urgentemente, que curar nossa alma ferida, resgatar nosso Centro e nosso Sol interior, mediante a acolhida das diferenças sem permitir que se tornem desigualdades, através do diálogo aberto, da empatia face aos que mais sofrem”. Enquanto isso não ocorrer, nossa sociedade vai continuar produzindo mortos-vivos que apenas vagueiam pela bruma espessa, sem enxergar uns aos outros, e nesse entremeio as carnes do vizinho irão se decompor, esquecidas no sofá da casa ao lado.

Sobre o dia da Família na Escola

Se você tem filho em idade escolar (especialmente na Escola Pública) já deve ter ouvido falar sobre o “Dia da Família na Escola”, uma proposição feita pelo Ministério da Educação, em 2001, para divulgar os resultados positivos do Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB aos pais que acompanhavam o desenvolvimento dos filhos.

Essa semana, quando alertava minha turma para essa comemoração, fui surpreendido pela pergunta de um aluno que me deixou sem ação e sem resposta, e motivou a escrita desse Artigo: – Mais Professor, e se meus pais não quiserem vir? Para conseguir responder a essa espinhosa indagação, tenho que primeiro levantar uma outra questão: será que a máxima “Escola ensina e família educa” é mesmo verdadeira?

É fato que a Educação vive hoje uma séria crise de credibilidade no país, coisa que nos meus tempos de outrora, quando frequentei o Grupo Escolar Francisco Bernardino e o “Estadual Patrus de Souza” era inconcebível – até porque esses eram o destino certo de qualquer um que não fosse filho das castas superiores (alunos das tradicionais escolas confessionais da cidade). Inclusive, nessa mesma época, ainda não existia o advento da “Família na Escola”, mas, sem sombra de dúvidas ela lá estava sempre (mesmo sem ser chamada) participando da vida dos estudantes, e das decisões da unidade escolar. O que não ocorre hoje, infelizmente.

Rubem Alves sempre me lembra que existem escolas que são “Gaiolas” e escolas que são “Asas”, e fazendo uma paráfrase dessa bela metáfora, digo que existem escolas que são “Estacionamento de alunos”, enquanto outras são de “salto em queda livre” (sem paraquedas).

E assim sou obrigado a concordar com meu impertinente aprendiz, pois, há pais “Manobristas” (que deixam os filhos na “vaga” no início do turno, e voltam para buscar no final), e os da “antiga” (bem poucos) que são os verdadeiros Amigos da Escola. Essa é uma realidade tanto nas Escolas Particulares, quanto nas Públicas.

Não cabe a mim julgar, ou definir a forma como os filhos dos outros devam ser criados, mas enquanto Professor posso afirmar que sempre que é marcada uma Reunião de Pais, os que comparecem são sempre os mesmos – os “Amigos da Escola”. Enquanto isso, os “Manobristas” (que são a grande maioria), estão sempre muito ocupados para voltar ao Estacionamento fora do horário previsto.

Então, quando se dão conta, a “vaca já foi pro brejo” e nesse momento tudo é motivo para justificar o problema – a Pandemia, a falta de infraestrutura da Escola, o currículo e até o Professor. Só esquecem de falar que sua criança/jovem ficou esquecida no Estacionamento.

Mas para ser justo, a Escola é corresponsável sim por essa morte anunciada, pois ao invés de ser “Asas”, ela muitas vezes solta os alunos em um voo cego, e queda livre, isso porque é mais fácil não ver a criança abusada, ou depressiva, do que oferecer ajuda, já que esse ‘problema não é seu (Escola), mas do outro (Família), portanto, não lhe cabe resolver (manda para o Conselho Tutelar), afinal, sua obrigação é apenas “Ensinar”, não é mesmo?

Faço aqui, por fim, uma nova proposição: que além do dia da “Família na Escola”, as autoridades competentes também promulguem o dia da “Escola na Família”, pois, quem sabe assim, eu possa vir a  ter uma resposta pronta para alunos impertinentes como o meu.

Aperta o verde, e confirma!

Você acredita na Política (e nos Políticos)?

E foi dada a largada para a Corrida Eleitoral de 2022. Se essa fosse uma prova de Atletismo, seria a de 100 metros rasos com toda certeza – pois demanda força, velocidade e muita disposição para fazer e falar muito, em curto espaço de tempo. Estamos há pouco mais de 40 dias do primeiro turno, mas as campanhas já estão a todo vapor, entre coligações e rompimentos, troca de farpas e acusações antes mesmo dos debates começarem a acontecer. Agora resta saber – você se sente preparado (e convencido) para confirmar a sua escolha?

Segundo Aristóteles “o homem é um ser político e está em sua natureza o viver em sociedade”, por isso fazemos política da hora em que nos levantamos, até quando vamos nos deitar – no café da manhã com a esposa, na fila do banco, no cafezinho com os colegas do serviço – e isso acontece porque ela é a arte de negociar e gerenciar situações e demandas em prol de um bem comum. Ora, se é algo natural, e que beneficia a todos, por qual razão então caiu em tamanho descrédito, especialmente em nosso país?

Para explicar isso relembro acontecimentos recentes, e que chocaram a sociedade, onde médicos foram denunciados por abusos sexuais, e negligência com aqueles a quem juraram curar. Pois bem, a culpa por esses desvios de conduta é da Medicina, ou dos médicos?

Com a Política ocorre a mesma coisa – não existe boa ou ruim, como costumam dizer. O que há é o uso equivocado ou acertado que dela se faz perante a sociedade. Contudo, a história recente nos apresenta mais “desvios” do que acertos e, por conta disso, os justos acabam pagando pelos pecadores, como se “fazer política” fosse sinônimo de maracutaias e corrupção.

Na contramão de tudo isso, eu não só acredito como também defendo que o caminho para transformar a sociedade, e alcançar a desejada Justiça Social, ainda é através dela. Não por menos, brinco que a Política é o fermento da Democracia – quando usado na dose certa o bolo cresce e fica apetitoso, mas quando se erra a mão o resultado é um bolo “solado”, e nada atrativo.

E falando em Justiça Social, não posso deixar de levantar minha bandeira. Sei que muitos colegas doutos vão querer me execrar, mas afirmo e ratifico que a mudança na Educação nesse país não passará pela Academia, mas sim pela garantia democrática do acesso, qualidade e equidade através da Política. Anísio Teixeira, no século passado, já nos lembrava que “Democracia é, literalmente, educação. Há, entre os dois termos, uma relação de causa e efeito. Numa democracia, pois, nenhuma obra supera a da educação. Haverá, talvez, outras aparentemente mais urgentes ou imediatas, mas estas mesmas pressupõem, se estivermos numa democracia, a educação”.

Um amigo, o qual prezo e respeito muito, costuma dizer com muita propriedade que “Política se faz com a cabeça, mas também com o coração”, e esse princípio simboliza tudo aquilo que foi dito nesse Artigo, me dando a tranquilidade para “Apertar o botão verde, e confirmar”, pois é nisso que, de fato, acredito.

Floresça onde Deus te plantar!

Outro dia um homem muito sábio me disse essa frase, que simboliza a resiliência necessária para viver nesse mundo que se mostra, por tantas vezes, caótico e desanimador. Aliás, por falar em caos, o Professor e Filósofo Mário Sergio Cortella afirma que “Uma das coisas que mais me entristece hoje é ver uma casa infeliz, e uma casa infeliz é aquela que se entra e está tudo arrumado. É uma casa sem uso. Você vai à sala e as almofadas estão no lugar, como se a Revista Caras fosse entrar para fotografar, uma casa que não tem nada fora do lugar é uma casa morta.”

Uma vida que não tem desordem, dificuldades e desafios é uma vida de faz-de-conta – tal como a incômoda casa do filósofo – justamente por que ela não vem pronta e acabada, não é como um fast food que você pede sentado no banco do carro, e depois sai comendo enquanto dirige. Ao contrário, está mais para uma costela feita no bafo, que para ficar tenra e suculenta demanda tempo e habilidade culinária.

Por isso não existe “família de margarina”, todas têm suas qualidades e defeitos, da mesma forma que não existe relacionamento perfeito, o fazer dar certo depende de muito querer de ambas as partes. Também não vai existir nunca uma profissão (ou emprego) que lhe pague tudo que você pensa ser o justo e apropriado à sua qualificação, nem onde a cobiça, o orgulho ferido e a inveja não tentem lhe puxar o tapete a todo instante – há que se ter jogo de cintura e competência para manter-se empregado.

Sempre irão existir um senão, um porém, um talvez que lhe farão querer chutar o pau da barraca. Em outras vezes você poderá se sentir como náufrago em um bote à deriva, com um buraco no casco fazendo água. E o que não te deixará afundar é apenas um balde velho com o qual jogará a água para fora. Assim você não afundará, mas também não irá navegar, tornando-se refém da correnteza. Qual a decisão mais acertada? Tentar sobreviver jogando água fora, enquanto espera a ajuda chegar, ou lutar para chegar à uma praia segura?

Viver é arriscar-se, por isso não encontraremos respostas prontas, nem tampouco um terreno preparado para semear e dar os frutos que almejamos. Contrariando nossas expectativas pode ser que ele esteja cheio de pedregulhos e espinhos. Lembre-se que o segredo para não se afogar é saber usar a correnteza a seu favor, e não se debater lutando contra ela.

“A vida é boa. Saber viver é a grande sabedoria.”, já declamava em seus versos minha poetiza preferida, Cora Coralina. Sou um Homem de Letras, um escrevinhador que gosta de contar estórias, mas no final de tudo, a verdade é que ser resiliente para encarar e sobreviver aos desafios que a vida nos impõe não é uma obra de ficção, por isso escolhi essa temática para o Artigo da Semana. Cada um terá a “casa do Cortella” que merecer, bagunçada ou arrumada, feliz ou infeliz, a depender do trabalho e do esforço que dispensar no cuidado da terra, e no plantio das sementes – afinal, rosas não florescem entre pedras, nem germinam em solo arenoso ou ressequido.

Sobre a animalização do Humano: a besta-fera está à solta

Qual sentido há em provocar dor e sofrimento no outro? Compulsão? Sadismo? Segundo Mark Twain “De todos os animais, o homem é o único que é cruel. É o único que inflige dor pelo prazer de fazê-lo.” Seria essa a explicação para atos violentos – a busca pelo prazer? Nelson Rodrigues disse em sua última entrevista, antes de falecer, que” O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz. É somente isso, uma verdade e, portanto, uma obsessão.”

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados mês passado, o Brasil teve 41,1 mil mortes violentas em 2021, o menor número desde 2007, e que representa uma queda global de 7% no número de ocorrências. Mas se o número de crimes violentos diminuiu, o que justifica os casos de fratricídio, feminicídio e violência sexual contra crianças e jovens recentemente noticiados pela imprensa?

Para os religiosos, a resposta para esse movimento de banalização da vida, configurado em crimes tão impactantes, seria a falta da crença no Divino, a perda do sentido daquilo que é Sagrado, em uma clara demonstração da arrogância humana que, não crendo, pensa ser o próprio Deus, portanto, com o direito de por ou de dispor da vida de alguém.

Já segundo os conservadores mais ortodoxos, a culpa por essas tragédias em série é da liberalidade escancarada nos meios de comunicação – TV’s e mídias digitais – que incentivam comportamentos libertinos em jovens e adultos, ao tornarem público aquilo que deveria ser mantido apenas na vida privada.

Ao que me parece, tanto um quanto outro podem ter argumentos válidos, pois se a religiosidade é um fator que pode favorecer a empatia e o respeito entre os indivíduos, a perda da noção daquilo que é íntimo e privado é um dado preocupante, pois faz com que se crie uma falsa impressão de naturalidade para todo tipo de excesso e exposição.

Ainda assim, isso me parece pouco para justificar crimes como o cometido contra a menina Bárbara Vitória, ou o da Policial Militar que matou a irmã, ou da avó que incentivou o filho deficiente a tirar a vida da própria neta em uma discussão doméstica, ou ainda, do abandono de uma recém-nascida no meio do mato para morrer, com a mesma naturalidade com que se descarta no rio, dentro de um saco, filhotes de gato ou cachorro indesejados.

Em uma conversa sobre vocação e carreira com meus alunos, dia desses, fui surpreendido quando um me disse que seu sonho era ser “matador”, e o de um outro “cafetão”. Espantado com as respostas, fiz questão de confirmar se eles tinham mesmo noção do que estavam falando. Um outro ainda falou que seu herói era o “dono do morro”, e que no futuro queria ser tal como ele.

Aí as coisas começam a fazer sentido, e percebo que, para além da falta de religiosidade e de uma moral conservadora, o que sobra hoje é uma total inversão de valores e a Escola tem uma grande parcela de responsabilidade sobre esse paradoxo social. Dessa forma, o lado cruel e mais instintivo do bicho Homem encontra porteira aberta para libertar sua besta-fera, de bote armado e pronta para atacar. Por isso, cuidado! O perigo pode estar mais próximo de você do que imagina.

Pra quê escrever? Exortação ao Dia Nacional do Escritor

“Hoje comecei a escrever! Escrever minhas primeiras linhas. Apesar de saber que o resultado final vai ser algo entre o sofrível e o mediano, resolvi tomar coragem e vencer a barreira da página em branco.” Esses versos, incipientes e cheios de insegurança, foram escritos há uma eternidade atrás, quando refletia sobre os motivos que me levavam a querer ser um escriba. Hoje, aproveitando as comemorações do Dia Nacional do Escritor, em 25 de julho, volto a me perguntar. Pra quê escrever?

Segundo dados da última pesquisa “Retratos da Leitura” do Instituto Pró-Livro, o brasileiro ainda lê pouco, uma média de 2,6 livros por trimestre, sendo que destes apenas um foi lido na íntegra, e pouco mais da metade seria de Literatura. Então, não é difícil imaginar que o motivo para encarar essa empreitada não é a audiência, nem tão pouco os aplausos do público.

Pois bem, como Professor de Literatura eu poderia construir aqui um Ensaio sobre a importância da Leitura na formação Humana e Social das Crianças nos primeiros anos de Letramento. Certamente não me faltariam argumentos, e com mais certeza ainda seria relevante esse debate, mas prefiro ouvir meu Mestre Rubem Alves que diz: “Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar.” E assim terminaria meu Ensaio (risos).

Como engajado político bradaria que “minha pena é minha espada”, e com ela lutarei para que as Políticas Públicas Educacionais no Brasil se tornem efetivas e eficazes. Mas não há como pensar em qualidade na Educação, sem se falar em Incentivo à Leitura. Infelizmente, ao que parece, a Escola esqueceu-se de que “Ler é Brincar” e tornou esse bom hábito uma prática normativa e enfadonha. Aliás, o pré-requisito para um postulante a Professor deveria ser, antes de tudo, que ele fosse um leitor contumaz. Quem não lê, nunca será capaz de convencer uma criança ou jovem sobre a importância da leitura.

Na condição de autor-escrevinhador afirmaria, sem hesitar, que a finalidade da minha escrita é tornar público aquilo que minh”alma manteve guardado por tanto tempo em gavetas. O que seria uma meia verdade. Isso porque o Autor, o Engajado, o Professor, bem como Lazim, Pandolfo e tantos outros são versões de um mesmo “Eu”, em uma heteronímia complexa, e fragmentada em universos paralelos como Prosperidade, Morro Grande, o aqui e o agora.

E é essa persona que, via de regra, narra e rege todas as minhas experiências sensoriais com a escrita. O Livro, fruto dessa relação erótica e afetiva com o texto, é um filho que tem vida própria, e que só vai nascer na hora que assim o desejar. Então, por que escrevo?

Voltando aos mesmos versos incipientes que abriram esta incitação, dela me despeço com a maior desfaçatez e ironia:: “Se você, destinatário e fim de meu processo comunicacional, vai gostar? Sinceramente não sei, nem me preocupo. Decreto a partir de hoje abolida a escravidão da insegurança e promulgo nesta data a instituição da liberdade poética em minha vida, da minha Liberdade.”