Qual a memória afetiva que você guarda do 7 de Setembro? A minha sempre foi a dos desfiles que ia acompanhar junto de meu pai. O som dos dobrados, a marcha das tropas, o desfile dos carros militares encantava aquela criança que, mesmo sem entender, já trazia no seu peito um sentimento de amor à nação, que alguns chamam de patriotismo. Mas qual o verdadeiro sentido de se amar a Pátria? Qual a (melhor?) forma de demonstrar esse amor?
“Já podeis da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil”
Os dois primeiros versos do Hino da Independência do Brasil (que para muitos pode parecer confuso) nos lembram que os filhos da Pátria já podem ver contente sua mãe gentil – o Brasil – recém liberto dos grilhões que o prendiam à Coroa Portuguesa. Mas, passados 200 anos será que ela ainda estaria satisfeita com o país que seus filhos construíram?
O Brasil é um país complexo em razão de sua geografia, diverso por sermos frutos da miscigenação de raças e singular no que diz respeito à cultura e aos costumes de cada região – somos muitos Brasis dentro de uma mesma nação. E são justamente esses traços identitários que representam a grandeza cantada no Hino à Independência brasileira, mas que passados dois séculos ainda convive com a fome, com a desigualdade econômica e social, com o preconceito e com a corrupção.
Portanto, se o patriotismo é a máxima representação de amor à uma nação, e se é verdade o dito popular – quem ama, cuida – posso me arriscar a concluir, em um silogismo apressado, que não somos os filhos da Pátria que a “mãe gentil” sonhava ter.
Partindo desse pressuposto, sou obrigado a indagar sobre as razões que levam alguém a se vestir de verde e amarelo, pintar o rosto, e balançar bandeiras inflamadas. Se fosse em 1984, ano em que o povo brasileiro saiu às ruas para lutar pelas “Diretas Já” (ainda que eu fosse um adolescente à época), me lembro bem que o motivo era uma causa nacional – ter o direito de livremente escolher o Presidente do país – de sentido verdadeiramente pátrio, cujo resultado mudou toda a história da República daquele ponto em diante. Mas e hoje?
Reconhecendo o direito de cada cidadão de se manifestar, e apoiar quem quer que seja (não pretendo aqui emitir juízo de valor, ou de cunho partidário), sou forçado a concluir que não existe um nexo causal entre as manifestações de 84 e as que vi acontecerem no último 7 de Setembro. E a razão para tal dissonância é bem simples – se a motivação de outrora era o futuro de toda uma Nação, a atual é garantir o sucesso de um projeto de reeleição e governabilidade.
Sendo assim, a (melhor) forma de demonstrar amor à Pátria é lutando por uma Educação de qualidade e isonômica, valorizando e preservando a nossa Cultura, combatendo as desigualdades sociais e econômicas – não importando se você é um empregador doméstico ou um megaempresário – e sendo um algoz impiedoso de todo tipo de preconceito e corrupção. Mas que fique bem claro: isso deve acontecer durante os 365 dias do ano, e não apenas em datas cívicas ou comemorativas. Assim, quem sabe, a nossa “mãe gentil” possa voltar a ficar contente, orgulhando-se da sua brava gente brasileira.