Com amor, da sua noiva cadáver

Júlia Cardoso de Oliveira

Aqui estou no mesmo lugar, onde prometi nunca te esquecer, só não sabia que seria assim. Por que você fez isso comigo, você parecia estar tão feliz?

Penso comigo mesmo, mas meus pensamentos são interrompidos pelo barulho da campainha. Atendo e lá está minha mãe, com um sorriso no rosto

– Como você está, meu filho? Perguntou minha mãe.

– Bem, eu acho.

Respondo com um sorriso falso em meu rosto

– Meu bem, já fazem três anos, desde que Liz se matou.. Sei que é difícil, mas você tem que seguir em frente!

Ela fala com uma cara de preocupada.

– Por favor, de novo não. Eu tô bem assim, só não entendo por que ela fez isso, ela parecia tão feliz…

Minha mãe não fala nada, apenas abaixa a cabeça com os olhos lacrimejando. Eu não aguento segurar, e sinto as lágrimas descendo em meu rosto.

Assim que ela vai embora vou para o meu quarto, mas no caminho paro em frente à nossa suíte – um lugar em que passamos a maior parte do tempo. Então penso por instantes, depois de três anos já está na hora de entrar lá de novo.

Ponho meu pé lá dentro, sinto um aperto tão grande no coração, e os flashbacks do pior dia da minha vida, de todos os sentimentos que eu senti naquele momento, voltam à tona, mas fico firme.

Sento na cama e respiro fundo, mas as lágrimas voltam a aparecer em minha face.

– Você era a pessoa mais feliz que eu conhecia, então por que fez isso?

Falo sozinho e um silêncio toma conta do lugar. Abro a gaveta do criado mudo, e avisto uma carta.

De:Liz

Para:Thiago

Meu coração acelera, eu quero ler mas não consigo nem encostar no papel, apenas saio daquele lugar e vou para o meu quarto.

No dia seguinte, me arrumo e vou trabalhar. Tenho pensado muito na minha carreira, já que agora não tenho mais nada que me dê vontade de fazer, tudo acontece como todos os dias, nada de diferente, mas dessa vez decido ir à casa da minha mãe.

Toco a campainha e ela me atende com uma cara de surpresa, mas ainda sim feliz.

– Filho, como é bom ver você aqui! Entre!

Disse ela com um lindo sorriso em seu rosto. Não falo nada, apenas sorrio e entro.

– Fico tão feliz em te ver.

Fala minha mãe emocionada. Mas antes de qualquer coisa digo:

– Liz deixou uma carta para mim…

Ela me olha assustada e pergunta:

– O que ela disse?

Segurando pra não chorar, apenas abaixo a cabeça.

– Não sei, não tive coragem de ler…

Ela apenas me abraça.

Depois de um tempo, vou pra casa e, sem nem pensar duas vezes, entro na suite e vou direto para a carta.

– Eu vou conseguir fazer isso… por você.

Abro a carta e lá está escrito:

– “Amor, quando você ler essa carta empoeirada, eu já terei me transformado em fantasma, mas não chore. Sempre serei sua noiva, mas agora sua noiva cadáver. Sei que você deve estar com mil perguntas na cabeça, mas infelizmente só vou poder responder uma: o porquê eu fiz isso. Eu não estava aguentando mais essa dor no meu coração… Por favor, me perdoe.

Com amor, da sua noiva cadáver.”

Não aguento mais conter as lágrimas, e comeco a chorar. Por que ela tinha feito isso? Meu amor não era suficiente? Será que tinha feito algo de errado? Me pergunto enquanto choro em cima da carta.

Depois de muito tempo coloco aquele pedaço de papel, tão simples mas com um significado tão grande, no criado mudo novamente e saio daquele lugar.

No dia seguinte, escuto um barulho na caixa de correio e vou lá ver o que era. Para minha surpresa não tinha ninguém na rua, estava vazia como de costume. Mas sem pensar muito, olho para a caixa de correio, e lá dentro estava um pequeno bilhete com um endereço. Eu conheço aquele lugar, era a casa de um velho senhor, muito estranho e levemente assustador, e embaixo tinha um pequeno recado:

– Vá pra esse local. Lá encontrará as respostas para as suas perguntas.

Sem nem pensar duas vezes, entro em casa pego a carta que Liz deixou pra mim, e vou em direção a essa casa. Estaciono o carro na esquina, e vou em direção a ela.

Não era uma casa muito grande, e estava bem suja, com a grama alta.

Toco a campainha e um senhor me atende. Ele estava com uma cara fechada, o que me assusta um pouco.

– Olha senhor, meu nome é Thiago e recebi esse bilhete, com o endereço da sua casa.

Mostro o bilhete para o velhinho e, como num passe de mágica, a cara fechada dele se transforma em um belo sorriso.

– Olá rapaz. Como vai? Você é famoso na região como o “cara da noiva cadáver”. Têm muitas lendas envolvendo a sua amada.

Fico sem palavras, apenas abaixo a cabeça e pego o bilhete que Liz deixou para mim.

– Meu nome é José, mas me chamam de senhor Zé.

Disse ele com um grande sorriso no rosto. Dou um pequeno sorriso, e explico o que me fez ir até a casa dele.

– Que falta de educação a minha, entre rapaz por favor.

– Vai ser um prazer. Digo enquanto entro na casa dele.

– Bom rapaz, não sei se vou poder te ajudar muito, pois não conhecia essa moça, mas eu tenho algo que pode ajudar.

Ele abre uma pequena gaveta de um móvel da sala, e tira um jornal e me estrega. Pego e olho a data – 01/11/2019 – e na capa estava escrito:

“Noiva se mata no dia do seu casamento, sua família e amigos ficam sem entender o motivo. De acordo com pessoas próximas, Liz era uma pessoa simpática que sempre estava com um sorriso em seu rosto.
Polícia afirma que a forma que ela fez isso é incomum.”

– Vocês iam se casar no Halloween? Pergunta o Senhor Zé.

– Sim, ela amava essa data.

– Eu não vou falar o que eu tô pensando, em respeito a você.

Dou uma risada, olho para o jornal e pergunto:

– Quem lê jornal hoje em dia?

– Eu gosto de sentir o cheiro de papel, e não tenho ninguém pra me ensinar a mexer no meu celular.

Responde o antiquadro velho, que logo depois solta uma tosse bem seca, e recosta em uma poltrona.

– O senhor está bem? Pergunto preocupado.

– Estou rapaz. É apenas uma tosse de nada, não precisa se preocupar.

Ele olha para o jornal, vê a foto de Liz e pergunta com uma cara de confuso. – Essa era sua noiva?

– Sim. Lembro do dia em que ela tirou essa foto.

– Vem comigo rapaz.

Não falo nada, apenas sigo ele e quando me dou conta, estava em um porão. – Você quer me matar? Pergunto preocupado.

– Aí, pelo amor de Deus né. Não sou tão burro assim. Você provavelmente avisou alguém que viria até minha casa. Se eu quisesse te matar, já o teria feito.

– Eu não avisei ninguém que estava vindo. Falo em voz baixa.

Senhor Zé apenas olha para mim e fala:

– Você é burro ou o quê? Você vai à casa de uma pessoa que não conhece, e não avisa ninguém?

Nós dois começamos a rir, e depois um tempo de risada ele pega um pequeno quadro e me mostra.

– Essa era a sua noiva?

Olho com uma cara de assustado, e lá estava Liz com um lindo vestido de noiva. Mas algo parecia diferente nela. Ela parecia uma noiva, mas uma noiva cadáver.

As lágrimas voltam ao meu rosto novamente, e o Senhor Zé apenas me abraça.

– Vai ficar tudo bem rapaz, não chore.

– Por que você tem esse quadro? Pergunto intrigado.

– Meu filho que o pintou,  há algum tempo.

– Cadê seu filho?

Pergunto enquanto saía do abraço.

Ele se matou, há três anos.

– Sei o que o senhor está sentindo.

– Bom rapaz, se quiser pode ficar com quadro.

– Sério? Muito obrigado!

– De nada rapaz.

Volto pra casa, e coloco o quadro em cima da mesa. Já era tarde, então vou dormir e logo pego no sono.

– Alguém aí??

Escuto uma voz feminina me chamando.

– Oiii estou aqui.

Respondo mas não escuto nada de volta, até que vou andando para fora de casa, e lá está ela.

– Liz! Você voltou? Mas como?

Grito mas ela parece não me escutar, e eu não consigo chegar até ela.

– Liz, me responda por favor!

De novo, sem resposta.

– Por que você tá fazendo isso comigo?

Ela dá um grito, mas antes que eu pudesse responder, uma outra voz masculina fala:

– Como assim querida? Eu te amo!

– Você sabe quem eu amo, vamos nos casar dia três agora, então, por favor, não me faça escolher.

– Vamos ficar juntos meu amor.

– Me chame pelo meu nome!

Acordo assustado e suando frio, isso tudo foi só um sonho,mas quem era aquele homem que dizia amar ela?

Depois do trabalho fui ao túmulo de Liz, e lá tinha uma foto dela, com um lindo sorriso em seu rosto.

– O que te levou a fazer isso meu bem?

Me pergunto enquanto olho para o túmulo dela. Nunca tinha reparado, mas ao lado tinha um outro, com exatamente a mesma data de falecimento.

E na lápide estava escrito:

“Eu me matei da maneira mais dolorida, me apaixonei por alguém que nunca poderia ter me apaixonado. Aqui descansa, Thomas.”

Leio aquela frase, e sinto um grande aperto no coração. Vou para casa pensando na frase, e assim que entro avisto o quadro de Liz, mas ele parece diferente, estava deformado como se tivesse derretido.

Lembrei do que o senhor Zé me falou, que seu filho tinha se matado há três anos também. Resolvo voltar à casa dele. Chego lá, toco a campainha e então o velho abre a porta com um sorriso:

– Olá rapaz, como você está?

– Bem, eu acho.

– Acha por que? Aconteceu alguma coisa?

– Tive um sonho estranho.

– Você quer falar sobre isso?

Conto pra ele todo o sonho, e como o quadro ficou. Depois também conto que fui ao túmulo de Liz, e sobre a frase que vi escrita no túmulo ao lado.

– Pera aí. Você falou Thomas?

Ele me perguntou com uma cara assustada.

– Sim, por que?

– Thomas era meu filho!

Falou com uma cara triste.

– Antes de morrer, me deixou uma carta.

Ele procurou em um móvel, e depois de um tempinho conseguiu achar.

– Nunca tive coragem de ler. Poderia ler pra mim?

– Claro!

Pego a carta da mão dele, e começo a ler.

“Olá papai, como você está? Peço desculpas de uma vez, o senhor não deve estar entendendo o porquê disso, mas eu me matei da maneira mais dolorida, me apaixonei por alguém que não posso ter. Com amor, Thomas.”

As lágrimas dele começam a descer em seu rosto, eu apenas o abraço sem dizer nada, pois sabia exatamente o que ele estava sentindo. Mas lembrei que tinha visto essa frase em algum lugar.

– Ele tinha um diário, no qual escrevia todos os dias. Prometi pra mim mesmo que nunca leria, mas acho que ele não se importaria se você lesse.

Senhor Zé foi até um cômodo de sua casa, e saiu de lá com um pequeno caderno preto, com pequenos detalhes em branco.

-Toma. Leia e talvez encontre algo sobre sua noiva.

Converso mais um pouco com ele, e logo depois vou para casa.

Assim que chego, dou de cara com o quadro, e ele estava do mesmo jeito que de manhã, derretido. Abro o diário de Thomas, e na primeira página estava escrito:

“Querido diário, hoje meu amor foi pedida em casamento por outro homem, eles vão se casar dia 31 de outubro de 2019. O amor da minha vida encontrou o amor da vida dela.”

A cada palavra que ia lendo, o aperto em meu coração ia aumentando, mas passei para próxima página:

“Querido diário, não queria tomar essa decisão, mas é a única coisa que vem em minha cabeça. Nós vamos ficar juntos! Se não for nessa, que seja na outra vida.”

Não tenho mais nenhuma reação. Mil coisas passam pela minha cabeça nesse momento. Lembro do sonho que tive na noite anterior, e a cada minuto perguntas borbulham na minha cabeça.

Deixo o diário de Thomas pra lá, e vou pra suite onde dormia com Liz procurar o diário dela. Encontro um pequeno caderno, com uma capa de margarida – sua flor favorita. Abro e na última página estava escrito:

“Querido diário. Amanhã é meu casamento, vou me casar com o amor da minha vida. Estou tão feliz, mas também preocupada com o Thomas. Ele era um bom amigo, mas acabou confundindo as coisas. Amo o Thiago mais do que tudo, e não posso deixar o Thomas estragar meu dia, o nosso dia.”

Uma ideia veio em minha mente, mas não acredito que ele seria capaz de fazer uma coisa tão cruel. Ele disse que a amava. Vou para o computador e pesquiso se tem alguma notícia do dia em que Liz, supostamente, se matou. E lá estava, a mesma reportagem do jornal do senhor Zé.

Paro pra pensar um pouco, e realmente a forma com que Liz se matou era estranha. Quem se mata com um tiro na barriga, me pergunto?

Depois de um sábado estranho como esse, decido ir tomar meu banho e dormir. Amanhã volto a me preocupar com isso.

Pego no sono rapidamente e acordo, já no dia seguinte, com o barulho da chuva. Está um dia triste, com nuvens escuras.

Tomo meu café, e continuo lendo o diário de Thomas. Mas o que eu não tinha percebido é que, como o diário não era aberto há três anos, algumas páginas estavam coladas, e na última página estava escrito:

“Querido diário. Provavelmente essa é a última vez que vou escrever em você. Não queria estar fazendo isso, mas é o único jeito de nós ficamos juntos. Isso é por você, meu amor!”

Meu coração gelou, não acredito no que estava lendo. Thomas dizia que a amava, como ele foi capaz de fazer uma coisa dessas com ela?

Saio correndo de casa, e vou para frente da casa do senhor Zé, mas não aguento entrar. Apenas sento na varanda, e começo a chorar descontroladamente.

Ouvindo meu choro, o velho sai de sua casa com uma cara de preocupado. – O que aconteceu, meu jovem?

Tento me recompor, ele me convida pra entrar e me oferece um copo de água. Depois de um tempo explico tudo.

Ele não fala nada. Parece que estava em estado de choque. Ele não podia acreditar que seu filho teria coragem de fazer uma coisa tão cruel.

Ainda sem entender, ele me diz transtornado:

– Como ele pode fazer isso com sua família? Eu não sei o que dizer, Thomas nunca me falou nada sobre ela. O que será que fiz de errado?

Tento acalmá-lo, e respondo:

– Nao se culpe por isso. A culpa não foi do senhor, ele estava louco de paixão. Qualquer um pode perder a cabeça por amor.

– Mas e a carta que Liz deixou pra você? E o bilhete que mandava você vir até a minha casa. Qual a explicação?

– Bom eu não sei como o bilhete foi parar lá, mas eu comparei as letras e o bilhete tinha mesma letra, do diário e da carta.

Ele não fala nada, e abaixa a cabeça com uma expressão triste em sua face.

– O que parecia ser a noiva cadáver, era na verdade um cadáver apaixonado. Mas ao que tudo indica, essa história não acabou aqui

Sobre o futuro de uma geração perdida (?)

Ouvir essa expressão pode causar grande desconforto (quase uma sensação de fracasso) naqueles que não são “meros ensinadores”, ainda que o bom resultado do processo educacional não dependa apenas deles. E olha que ela foi repetida várias vezes (no período pós-Pandemia) para “justificar” a alta evasão escolar e a baixa proficiência em Língua Portuguesa e Matemática, dentro de uma limitada análise classificatória da qualidade do sistema de ensino brasileiro. E está aí o cerne do Artigo dessa semana – qual é o alcance dessa “perda” de que tantos falam? Apenas no letramento e na assiduidade de nossas crianças e adolescentes ?

O filósofo prussiano, Immanuel Kant, lá no século XVIII já afirmava que “O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”, por isso mesmo, enquanto a Academia se ocupava com a construção de indicadores que explicassem a crise educacional instalada, uma outra (muito mais séria) já vinha sendo gestada na sociedade, causando um impacto imediato nas relações e nos valores dessa juventude dita “perdida”.

Trato aqui de questões que não começaram a acontecer mês passado, nem tampouco no ano passado, nem há quatro anos atrás – na verdade elas vêm surgindo em um crescente, que hoje tomou uma proporção muito perigosa. Falo da perda de referências positivas, bem como de valores humanos e éticos, que assolam o mundo moderno sim, mas em se tratando de Brasil pode ser mais sentida da virada do século para cá, e que tem como origem o divórcio litigioso ocorrido entre Família e Escola – à primeira caberia a tarefa de educar, enquanto à outra a de ensinar, não era o que se dizia por aí?

Pois é, ao que me parece, a sobrecarga de compromissos laborativos e sociais que a sociedade contemporânea lhes impôs, seja a razão para a perda de comprometimento dos pais com a formação dos filhos, transferindo integralmente para a Escola essa tarefa. Essa, por sua vez, também mudou (o que não quer dizer que tenha sido para melhor). Sendo assim, apesar de perceber os descaminhos dessas crianças e jovens, preferiu manter-se fiel ao compromisso de ensinar (será mesmo?), deixando do lado de fora de seus portões, questões que fugissem ao caráter estritamente pedagógico.

Não é necessário ser um sociólogo, nem tampouco um pesquisador em Educação, para perceber as consequências desse rompimento. Basta folhear as páginas de um jornal, ou dar um “Google” na internet para encontrar – automutilação, depressão e suicídio infanto-juvenil abuso de drogas licitas e ilícitas, sexualização precoce. E agora, de modo mais contundente, preconceito por gênero, raça e religião além de práticas de extermínio com ascendência nazista – o caso de Aracruz é apenas um trágico exemplo recente, ainda que outros tenham ficado apenas nas ameaças em redes sociais, e portas de escola.

Então alguém poderia dizer que a culpa disso é do Bolsonarismo, que disseminou o discurso de ódio no país. Essa seria uma análise sobremaneira simplista (até porque seu surgimento é anterior a Bolsonaro) porque esse movimento só sobrevive “ainda” graças ao apego a um falso mito, a uma liderança estóica que dia após dia vai se desconstruindo, no mesmo ritmo em que o caráter humano do Messias, vai se sobrepondo ao do “Salvador”.

Mas sim, ele tem sua responsabilidade na medida em que, enquanto figura pública, incentivou e deu voz a esse tipo de comportamento, causando um impacto negativo muito grande especialmente nos adolescentes (ao tornar-se um anti-herói), já que a Escola e a Família abriram mão da prerrogativa de construir valores, e formar cidadãos comprometidos com o respeito às diferenças, a paz, a democracia e a união entre os povos.

O comportamento do homem é reflexo da educação que ele recebe, já dizia o filósofo prussiano, portanto, não se trata apenas de analisar o tamanho da defasagem idade-série do estudante brasileiro, ou de quantificar seu déficit de aprendizagem em Português e Matemática – a questão pujante aqui é: quem é esse indivíduo que a nossa sociedade está formando? Será que estamos diante de um caminho sem volta? Estaremos, pois, construindo uma geração comprometida com a barbárie e a ignomínia? Oxalá que não, e que tenhamos a sapiência para corrigir a rota a tempo, e assim salvar esses futuros adultos do abismo que se anuncia, com um olhar sempre esperançoso e poético, como o do Mestre Rubem Alves: “Meu único desejo, meu tema musical, meu diamante é a educação”.

Carta ao Senhor Presidente

Excelentíssimo Senhor Presidente da República. Na condição de Chefe de Cerimonial Público (note que essa é uma prerrogativa própria daqueles que têm expertise na área, proficiência comprovada sobre rito, protocolo e legislação, além de um zelo inabalável pela ordem e pela hierarquia – e não apenas a investidura em um cargo comissionado) entendo que posso chamar-lhe a atenção nessa missiva para algumas atitudes e posicionamentos que atentam contra a dignidade e o respeito devidos ao cargo mais representativo da nossa República. Para além disso, falo também como um dos milhares de brasileiros que, em 2018, acreditaram em um projeto de Direita, outorgando-lhe por isso – através do voto – a responsabilidade de conduzir esse processo, que, diga-se de passagem, fracassou peremptoriamente.

O primeiro ponto que destaco nessa epístola, diz respeito à postura esperada de um Chefe de Estado. Que fique bem claro, não se trata aqui de emitir juízo de valor sobre a pessoa protegida pela imunidade do cargo, mas sim sobre a autoridade pública constituída da qual esperam-se posicionamentos respeitosos, republicanos e, até diplomáticos. Note bem Senhor Presidente, diz a sabedoria popular que existem coisas que se falam, mas não devem ser feitas, de igual forma outras que não são ditas, mas as fazemos e ainda aquelas que se falam, são feitas mas não se devem deixar tornar públicas quando acontecem.

Isso porque quando estamos em uma posição de destaque (seja em que nível for) inevitavelmente nos tornamos referência – exemplos de boa ou má conduta – para aqueles que nos seguem, por isso a necessidade da atenção com a imagem pública é tão relevante. Usar palavreado de baixo calão, achincalhar mortos, estimular o preconceito e a balbúrdia, desmerecer a ciência só denotam uma bazófia, uma fanfarrice com o cargo, que não são aceitáveis e que deixam agora, como legado de seu mandato, uma legião de mortos-vivos à espera de um mito Sebastianista, de um “Encoberto” que, após a facada em traição, voltou do mundo dos mortos. De um Messias Salvador que, de fato, nunca existiu e hoje se protege dentro das paredes seguras de um Palácio.

Não menos preocupante, o outro ponto de reflexão dessa carta trata da questão da construção dos “feudos” no cenário político brasileiro. Por definição, a Política é o cuidado com a Polis, com o bem e com os interesses da coletividade, e quando se toma aquilo que seria do povo, em proveito próprio (de um grupo ou família) surge aí uma das mais deletérias excrecências da política (com “p” minúsculo) nacional.

Nesse quesito tenho de reconhecer que a família que ora carrega seu sobrenome foi pródiga, não por ter feito carreira na vida pública, mas por não ter produzido nada de saudável, ou com vistas à coletividade, em tantos anos somados de mandato. Ao contrário, após a vitória de 2018 pensaram-se hegemônicos, lideranças de uma Direita que não representa (nem nunca representou) o projeto a que me referi no caput dessa missiva e que agora, na eminência do cadafalso, começam a correr como ratos que pulam no mar, quando a embarcação começa a fazer água.

Senhor Presidente, existe um dito popular que é inexorável na vida pública – “Rei posto, Rei morto” – e a agonia que Sua Excelência mesma já deixou clara em declaração pública, de que gostaria ter passado a faixa logo após o término das apurações oficiais desse pleito, só denotam o amargor da consciência de um político que tendo a oportunidade de mudar o Brasil, e de consagrar-se como Chefe de Estado de uma das mais importantes nações em desenvolvimento no mundo moderno, no apagar das luzes, deixa como marca de seu mandato, além de um negacionismo institucionalizado, milhares de cadáveres, o isolamento internacional do país e a cizânia de um povo, que pode levar a uma das mais graves crises civis de nossa história recente.

“Rei posto, Rei morto”, Presidente, por isso mesmo aqueles que jornadearam na garupa de sua moto, e com muitos dos quais manteve relações pouco republicanas, começam a abandoná-lo, descolando da própria imagem a marca de uma gestão que mais mal fez, do que bem à nação, buscando, dessa forma, se reposicionar no jogo, mudando de lado no tabuleiro. E posso assegurar-lhe, Excelência, que esse é somente o primeiro compasso do Réquiem que marcará o fim de um período da história brasileira, que certamente, não deixará saudades.

Respeitosamente,

Professor Sérgio Soares

Chefe de Cerimonial Púbico

Sobre a paixão do brasileiro por Futebol e por Política

“Vivendo e aprendendo a jogar/ Vivendo e aprendendo a jogar/ Nem sempre ganhando, Nem sempre perdendo/ Mas, aprendendo a jogar “. Embalado pelos versos dessa música da sempre musa da MPB, Elis Regina, abrimos a partida dessa semana, onde trataremos de duas das maiores paixões nacionais: o futebol e a política. Passional como ele só, o brasileiro se empolga e acaba transformando toda disputa (seja ela no campo de futebol ou nas urnas) em um eterno FlaXFlu, e isso mais uma vez ocorreu antes, durante e depois de divulgados os resultados das últimas eleições gerais.

Ainda sobre os efeitos do rescaldo de 30 de outubro, os ânimos teimam em não asserenar, prolongando um embate que encerrou-se no último debate televisionado pela Rede Globo. Ruas ocupadas, manifestantes entrincheirados nas portas dos quartéis, gritos inflamados e histeria coletiva descambando para o xenofobismo, alienação e até a exaltação ao nazismo. Tudo isso por conta de uma partida onde o VAR apontou, em um lance polêmico e muito disputado, a vitória do time desafiante, deixando a torcida da casa inconformada com o resultado. Como diria Arnaldo César Coelho, “a regra é clara”.

Coincidentemente (ou não) dia 15 de Novembro, data em que se comemorou a Proclamação da República, recebi a notícia de que meu último conto fora indicado para publicação na “Revista Literalivre” e, não por menos sorte do destino, essa trama narra uma história ocorrida em Prosperidade (um dos meus universos ficcionais) onde a disputa pelo poder levou um dos grupos políticos locais a tomar de assalto a cidadela, em um 7 de setembro, proclamando daquele momento em diante a criação da República do Queijo Qualho. Para não dar spoiler sobre a história, só posso dizer que, nesse caso, a “Arte imitou a vida”.

Voltando ao entendimento do VAR sobre o resultado da última partida eleitoral, enquanto os inconformados torcedores protestam nas ruas debaixo de chuva, e com água tomando os joelhos, li essa semana que o partido do time derrotado havia contratado uma auditoria externa, que chegou à conclusão de que o jogo deveria ser anulado, por inconsistência nos dados. Logo que essa notícia veio á tona, o Presidente da legenda tratou logo de desmentir o fato, justificando que o caso ainda estava em análise, portanto, não havia como atestar o erro da arbitragem até aquele momento.

Esse é o nosso Brasil, cheio de cores, sabores, cheiros, mas também contrastes e incoerências, onde o jogo político nem sempre é jogado dentro das quatro linhas do gramado, e os cartolas (tal como os do futebol) exercem um poder $$ maior do que o dos próprios grupos políticos (quando não definem seus rumos). Está aí um dos casos em que isso se configura em curso.

O que talvez nossos “incautos” e “mal informados” torcedores (que clamam pela anulação da partida – doídos e inconformados) ainda não tenham se dado conta, apesar da obviedade do fato, é que cancelar esse jogo significa cancelar todo o campeonato, então os times vencedores das outras rodadas teriam seus placares também alterados, não havendo, portanto, nenhum interesse ou vantagem para nenhum destes em mudar o resultado, que fora confirmado pelo VAR.

Servindo-me, então, da célebre frase Barrosiana – “Perdeu mané, não amola!” – concordo que não é fácil (nem tampouco prazeroso) perder, mas isso já está previsto no regulamento – seja em uma partida de futebol, seja em uma eleição – um perde e o outro ganha e assim segue-se a vida, até a próxima disputa onde, de maneira legal e transparente, o resultado pode ser mais favorável aos derrotados.

Ocorre que, de uns tempos pra cá, parece que o “tapetão futebolístico” tem tentado se impor também dentro do jogo político, e isso é uma quebra de paradigma contra a qual todo cidadão brasileiro, que vive e preza a Democracia, deve se contrapor. Liberdade de expressão, diferença de opiniões sempre serão aceitas e bem-vindas, dentro de um sistema onde o respeito é a máxima prevalente, contudo, não podemos nunca nos esquecer (sob o risco de flertarmos mais uma vez com regimes autoritários) do que a “pimentinha” nos deixou como ensinamento nos versos de sua canção, – “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo mais, aprendendo a jogar”.

Endorfina Literária: quando um vício vira uma virtude

Em um país de não-leitores onde temos em abundância mais exemplos de “Jair” do que de “Machados”; onde as esferas de governo (que deveriam cuidar da Educação) entendem que à escola basta a tarefa de ensinar a fazer contas e juntar letras; onde a Diacronia da Língua Falada foi transformada em régia decapitação de fonemas e grafemas, tornando a leitura em Redes Sociais quase um ato de decifração icônica; onde grande parte das crianças não conheceu o salutar hábito de ler quadrinhos, ou sequer conhecê-los (nem tampouco de ir aos “Sebos” trocar o “Almanacão” da Disney pelos exemplares do Recruta Zero e da Turma da Mônica), realmente conhecer um João Cata-Letras pode parecer algo muito incomum, e é sobre ele que passo agora a falar.

7: 00 – o despertador toca anunciando a chegada de um novo dia.

7:20 ­– já lavado e composto, enquanto aguarda o café, saboreia o perfume do pó preto, como se “Madeleinnes” o fosse, levando-o de volta aos tempos de criança na roça.

7:25 – Entre um gole e outro, sorve mais um verso de um “Fazedor de Amanhecer”.

7:45 – Enquanto aguarda a chegada do coletivo no ponto, vislumbra a mulher “Frígida” que passa, arrebatando-lhe os sentidos. Hora de embarcar.

10:00 – Pausa para o café na Repartição. Entre uma piada e outra, transmite a uma colega um “Recado aos amigos distantes”. Fim do intervalo.

12:30 – Parada para o almoço. Com a praticidade de um Fast Food, recolhe-se a um “Canto” da sala para saber como foi a “Chegada de Aquiles aos Portões de Tróia”. Fim do desjejum.

16:00 – Pausa para o café. Enquanto a turma discute a desfaçatez da Política Brasileira, João se diverte “Com Licença Poética” com as “Sete Faces do Poema”.

18:30 – Fim do expediente. “Vou-me embora pra Pasárgada”, lá sou amigo do Rei, é só que no pensa enquanto no balançar do coletivo, folheia as páginas de um livro.

19:30 – Cuidar das tarefas comezinhas da casa: alimentar o gato, lavar a louça, varrer a casa, banhar-se e ceiar.

21:00 – Melhor hora dia – relaxar na poltrona, enquanto deixa-se inebriar pelo perfume  das “Flores do Mal”.

00:00 – Os ponteiros do relógio apontam para o infinito. Tempo de fechar o livro, apagar a luz e recolher-se para recomeçar toda a jornada no dia que não tarda a nascer.

A rotina de João Cata-Letras repete-se de segunda às sextas-feiras. Aos finais de semana é hora de “Maratonar”, mas não as séries da NetFlix, e sim os grandes prosadores. Para o próximo sábado os Latinos, começando com um “Ensaio sobre a Cegueira” e os contos fantásticos de um “Aleph”. Para o domingo o cardápio é um “Finnegans Wake”, embalado pelo melhor da música céltica e, à tarde, “Estórias Abensonhadas” no clima das Savanas Africanas.  À noite, hora de cumprir o compromisso com a Santa Sé, acompanhando a missa na Matriz.

Em tempo, João Cata-Letras nasceu João da Silva, filho de pais lavradores, criado na roça, educado em escola pública de interior. Devido às dificuldades com as palavras, o apelido João Cata-Letras nasceu ainda no ensino primário, e acabou virando sobrenome. Já na fase adulta, preparando-se para um Concurso Público muito concorrido, as dificuldades com o letramento oriundas da formação primária viraram um problema por isso, acompanhando as orientações de seu Professor, começou a ler para melhorar a leitura e a escrita. Quando perguntado pelos colegas o porquê da avidez na leitura dos livros, ele rapidamente responde:

– Tudo é uma questão de empenho, engajamento e esforço. Mas não pensem que esse foi um caso de “amor à primeira vista”, ao contrário. Nos primeiros livros era um tormento, quase um sacrifício, mas com o passar do tempo, e com o treinamento dos olhos, o sacrifício virou hábito, o hábito virou prazer e o prazer virou vício, tal qual os praticantes de atividades físicas que, graças à Endorfina, levam seu corpo aos limites da extenuação, no meu caso, uma “Endorfina Literária”.

Segundo dados da 5ª edicão da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (Instituto Pró-Livro/Itaú Cultural/Ibope Inteligência), publicada em Setembro de 2020, o Brasil perdeu mais de 4 milhões de leitores nos últimos 4 anos, e os números encontrados não são nada animadores. Entre 2015 e 2019 (quando foi feito o último censo) a porcentagem de leitores no Brasil caiu de 56% para 52%. Já o número de não-leitores aumentou nos últimos cinco anos para 48%, o que equivale a quase 100 milhões de brasileiros.

O aspecto mais impressionante desse levantamento é que, ao contrário do que se imaginava, as maiores quedas foram registradas entres os mais letrados, com nível superior, passando de 82% em 2015 para 68% em 2019, e na classe A de 76% para 67%. Isso seria um resultado da Pandemia, ou a culpa (como dizem alguns ditos especialistas) seria das Redes Sociais?

O fato é que, os melhores resultados foram encontrados na leitura dos pequenos (faixa de 5 a 10 anos) passando de 67% em 2015 para 71% em 2019, o que demonstra que o caminho para a formação de leitores está no incentivo da prática, e hábito da leitura na primeira infância (e não apenas no ato de juntar letras, como muitos ainda defendem).

Por isso, e reiterando a história de nosso fictício ledor João Cata-Letras, que certamente é a história de vida de muitos outros brasileiros, motivos para não ler sempre irão existir em maior número do que as razões para folhear um livro ou impresso – seja em tempos de exceção como o que se vive hoje, ou de normalidade. A questão é descobrir em cada subjetividade a real motivação para se tornar um leitor habitual, e não eventual e, neste caso, para além de questões profissionais, haverá que se ter, tal como no início da prática de atividades físicas por recomendações médicas 90% de coragem, empenho e esforço, e os 10% restantes para outras razões menos importantes.

A prova de fogo da Democracia

No último dia 30 de outubro encerrou-se o pleito para a escolha dos novos mandatários do Brasil durante os próximos quatro anos, ou pelo menos assim era esperado que tivesse acontecido, após a promulgação do Tribunal Superior Eleitoral dos eleitos em segundo turno. Contudo, no que tange à disputa presidencial, o que se viu no decorrer da semana foi a tentativa de instalação de um terceiro turno das eleições, a partir do questionamento do resultado das urnas em um claro processo de ruptura com o rito democrático brasileiro. Então fica a pergunta: a Democracia deve se curvar à conveniência e aos caprichos do derrotado?

Demo” significava povo e “krátos” poder soberano. Da junção desses dois vocábulos gregos surgiu a Democracia Ateniense, sistema político que dava ao povo daquela Cidade-Estado o direito de tomar suas próprias decisões, de maneira igualitária e através do voto direto em Assembleias. Como forma de assegurar que ela não fosse usada de maneira indevida, criaram o “ostracismo” que previa a expulsão de Atenas, por um período de dez anos, daquela pessoa que atentasse contra o sistema democrático, usando-o em benefício próprio, ou concentrando grande poder político que colocasse em risco seu funcionamento.

Já nos dias atuais, desde o início do processo de Redemocratização no país, nunca se viu um período eleitoral tão conturbado quanto o que presenciamos nesse ano. Na verdade, a afronta ao sistema democrático já vinha se impondo desde 2019 – início do atual governo – com manifestações pontuais, mas frequentes, dando o sinal de que (como previsto) essa seria uma eleição para não ser esquecida.

A consequência dessa ruptura sem paralelo com o rito democrático foi a cizânia de toda uma nação, dividida entre “Cruzados” – defensores da pátria, da verdade e da família e “Bárbaros” – comunistas, ‘invertidos’ e corruptos que se degladiaram até o último voto levando a um resultado inédito nas eleições presidenciais de “quase” empate, mas também muito simbólico por atestar quão grave foi o dano desse quadriênio de práticas nada republicanas.

Contudo, o que se esperava dentro de um regime baseado na igualdade de direitos de escolha, através do voto direto é que, promulgado o resultado final do pleito, vencedores e vencidos tornassem aos seus papeis de cidadãos brasileiros, filhos de uma mesma pátria, e para a qual deve convergir todos os esforços e atenção. Mas não foi isso que vimos (e ainda estamos vendo) acontecer, passada já uma semana do término do processo eleitoral.

A tão deletéria e falada polarização levou às ruas uma multidão de pessoas, inconformadas e altamente desinformadas, manipuladas por aqueles que não sabem “jogar” dentro das quatro linhas, a contestar o resultados das urnas e (carecendo de lógica e bom senso) pedindo “Intervenção Federal” – uso da Lei de Segurança Nacional – o que traria de imediato, caso fosse acatado, uma ação direta contra os próprios requerentes – já que a erroneamente clamada “Intervenção Militar” nem enquanto instrumento legal existe.

Ruas tomadas, estradas fechadas, desabastecimento, prejuízo à economia, danos à vida e à saúde de quem teve o acesso impedido nas estradas, tudo sob a ótica do livre direito de manifestação, seguidas de uma chuva de informações mentirosas e descabidas que serviram (e ainda servem) de combustível para a sanha de uma população entorpecida pelo apego a um Mito, fanatizados por um ideal messiânico que a inexorável lógica das eleições dará conta de resolver – “Rei posto, Rei morto”.

Ainda assim, apesar de todos os revezes ela, a co-irmã da Política, se impôs e nada há que os descontentes possam fazer, a não ser aceitar a derrota e se (re)organizarem para em 2026 (quem sabe) alcançarem o resultado que tanto desejavam. Enquanto isso não acontece o bloco passa, e como na política partidária brasileira tudo é muito “fluído” os opostos começam a se atrair, em um jogo dialógico próprio e necessário do regime democrático. Quanto aos insufladores, financiadores e mentores intelectuais de toda essa balbúrdia, que sejam condenados ao “ostracismo”, senão o de Atenas, o do esquecimento e do opróbrio público devido àqueles que atentam contra a Democracia, ou tentam servir-se dela em proveito próprio.

Por um Novo Tempo

Faltando apenas algumas horas para a definição do pleito presidencial, Ivan Lins canta nos versos de sua música que “No novo tempo / Apesar dos perigos / Da força mais bruta / Da noite que assusta / Estamos na luta”. E por quê lutamos? Pela sobrevivência da Democracia? Sim, mas não somente; nossa luta vai muito além disso, como bem lembra Mia Couto – “é a defesa da própria ideia de humanidade” – que nos últimos anos vêm sendo ameaçada, ao se instilar na sociedade brasileira comportamentos preconceituosos, de ódio e de violência. Por isso, é chegada a hora de dar um basta nesse estado de coisas.

Brasil, terra de Vera Cruz, berço esplêndido onde tudo em se plantando dá, de povo miscigenado e acolhedor, pátria de chuteiras, mas também de povo aguerrido e trabalhador, que sempre recebeu de braços abertos todos que aqui chegaram buscando abrigo, não merece ser tratado como um pária diante da comunidade internacional, por conta dos equívocos e sandices desse ou daquele grupo, pois o povo brasileiro, em sua grande maioria, não é assim, nem compactua com essas barbáries.

Claro que existe (e sempre existirá) o lado negro da força em cada um de nós, mais latente ou mais adormecido nesse ou naquele indivíduo. Por isso não se pode imputar a uma única pessoa a responsabilidade por todo tipo de desatino cometido ou falado, sob a égide da “defesa da família”, ou dos “interesses pátrios”. Mas, obviamente, quando uma figura pública, investida do maior cargo nacional, os estimula através de falas e comportamentos, cria-se um movimento muito perigoso de tirar do armário aquele lado mais sombrio, que se mantinha guardado e escondido de todos há muito tempo.

De igual modo, quando se subverte o sentido da Religião (Religare em Latim – ligar, voltar a ligar) para um discurso sectarista, de proporções bíblicas, de luta do bem contra o mal, estimula-se a cizânia entre irmãos de fé, e o que era para ser uma ligação entre o humano e o sagrado, torna-se uma relação de exploração e controle social profanando Templos e Igrejas, com discursos inflamados e politicamente ideologizados.

Antes que pensem o contrário, não. Não acredito em (falsos) Mitos e Profetas Messiânicos, nem tampouco em Salvadores da Pátria. Creio sim que a Política, enquanto ferramenta para promoção do bem comum, que pensa e trabalha pelos interesses coletivos, pode mudar esse estado de coisas. Junte-se a ela sua co-irmã – a Democracia – sem a qual a primeira não consegue ser em sua plenitude, para entender que dentro do processo que está posto, e do momento que se aproxima, só existe um lado possível para escolher, o qual irá permitir que uma e outra tragam o trem de volta aos trilhos. Isso é fato, e contra fatos não há argumentos.

Ainda falando de Mia Couto, o escritor Moçambicano que ajudou a abrir essa narrativa, ele diz em entrevista recente a um canal de notícias brasileiro que “O que está em causa no Brasil não é apenas a escolha de dois candidatos. É a última possibilidade de evitar algo que o Brasil já viveu e muitos querem esquecer: um regime de medo e violência, um governo que agrida as instituições democráticas.”

Infelizmente, o que o biólogo de Moçambique (que virou escritor) não sabe é que esse tempo de medo e violência, que agride e denigre as instituições democráticas já chegou por aqui, e é por isso que acredito e espero pela chegada de um Tempo Novo, onde os ânimos possam se acalmar, onde fome, miséria e desemprego voltem a ser combatidas. Onde Educação, Saúde e Segurança voltem a ser prioridades. Onde vacina volte a ser sinônimo de cuidado, e não de deboche. Onde meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sejam parceiros da vida novamente.

O Brasil em que acredito, e espero, é de todos e para todos, onde Deus é brasileiro sim, e por isso mesmo não se deixa usar em jargões falaciosos. Oxalá, nesse país que tanto amo, como disse o menestrel, estejamos crescidos, estejamos atentos e mais vivos, para quê? “Pra que nossa esperança / Seja mais que vingança / Seja sempre um caminho” que deixaremos de herança aos nossos filhos, aos filhos do nosso Brasil.

“Bancada da educação sofre baque em eleições e busca salvar pautas até janeiro”

Princípio do Fim? Novo recomeço? Como interpretar essa manchete que foi retirada da CNN Brasil, e aponta que dos atuais 20 membros da bancada no Congresso Nacional, apenas 9 conseguiram se reeleger? Em especial nessa semana, onde o tema Educação veio à baila no primeiro debate dos candidatos à Presidência da República e expôs duas visões antagônicas sobre o assunto – de um lado o cuidado em dividir com Estados e Municípios a responsabilidade pela recuperação das perdas de aprendizagem, de outro conferindo a um aplicativo pedagógico essa mesma tarefa – só posso dizer aquilo que já defendo há algum tempo em minhas Redes Sociais: “Educação é pra quem conhece”!

Por isso, necessário se faz esclarecer e qualificar os responsáveis. Vamos falar primeiro do Poder Legislativo, foco da matéria citada pelo veículo de comunicação. Sabido é que no Congresso Nacional que se asseguram os direitos, e a viabilização dos recursos para o fomento à Educação – o Novo Fundeb é uma conquista recente que só aconteceu graças ao trabalho legislativo. Sendo assim, o esvaziamento da Bancada é um problema real, pois isso certamente irá ter reflexo na construção, e na viabilização de novas Políticas Educacionais, na próxima legislatura. Além disso, essa resposta das urnas sinaliza o que já era sabido – a Educação não é uma pauta de prestígio na Política, infelizmente. E isso explicaria, em parte, o insucesso dos parlamentares que não conseguiram novo mandato.

Falando agora do Poder Executivo, temos aqui o maior desafio à construção de um projeto educacional brasileiro que tenha equidade, qualidade e continuidade. Isso porque, via de regra, para nossos mandatários essa é uma “despesa” amarga e desnecessária, já que não se converte em votos nas urnas (como ficou demonstrado nas últimas eleições para as Casas Legislativas). Não por menos, ela acaba virando apêndice de Programa de Governo, e moeda para favorecimento político e acochambro de interesses pouco republicanos, ao invés de privilegiar a competência, a experiência e o comprometimento com a formação de nossas crianças e jovens.

E o resultado cruel desse desprestígio e falta de cuidado é uma Educação Pública em avançado processo de desmonte, mas principalmente a Educação Básica – o filho manco que a “família” faz questão de esconder por conta de suas debilidades, que na prática tem uma série histórica de resultados ruins muito mais pela negligência, falta de investimento e visão de futuro, do que por conta das “perdas” acarretadas pelos dois anos de isolamento (os obstáculos que a Pandemia de Covid-19 trouxe só fizeram cronificar um quadro que já era ruim).

Por esse motivo é justa a preocupação dos parlamentares com uma Bancada enfraquecida, bem como é necessário destacar a diferença de importância que as proposições que um e outro candidatos dão ao tema “Educação” em suas proposições. Só que vou além – Deputados sejam eles Estaduais ou Federais, bem como Governadores ou Presidente da República, em sua maioria, não são educadores, nem tampouco foram gestores educacionais, então suas propostas são baseadas em um Projeto construído por assessores, na maioria das vezes teóricos educacionais, doutores em teses sem a menor ressonância com o dia-a-dia, e os problemas das escolas. Quem nunca pisou num chão de escola – pública ou privada – não pode se dizer especialista em Educação.

“Educação é pra quem conhece” não é apenas um mote de campanha, nem tampouco uma frase de efeito para impressionar seguidores de redes sociais. Defendo essa ideia já há alguns anos por acreditar que ela responde boa parte das indagações que levantei durante a construção desse artigo, pois tem como premissa quatro pilares inegociáveis, e interligados: Respeito sempre e por todos/ Resultado como um projeto de longo prazo, e não baseado somente em indicadores/ Transparência nas ações, nos projetos e nas posturas e, o mais importante deles, a Competência, que não pode ser baseada em apadrinhamento político, nem tampouco se pautar em ilustração curricular ou láureas, pois para transformar a Educação não basta saber, tem que saber fazer, e fazer para todos.

Não basta (apenas) viver, tem que prosperar

Esses dias me peguei em mais um solilóquio existencial, refletindo sobre os percalços da vida, e as escolhas que nela fiz. Quanto aos caminhos que decidi trilhar, não tenho do que reclamar – toda tomada de decisão pressupõe chances de dar certo, ou de dar errado – por isso não me arrependo de nenhuma delas. Já sobre os percalços tenho que fazer ponderações, e por esse motivo esse textículo será escrito em primeira pessoa – serei o narrador-personagem desse causo – e tenho a certeza de que muitos que me seguem, e tantos outros, vão se identificar com aquilo que aqui será tratado.

Em primeiro lugar tenho que me qualificar nessa narrativa – sou um sujeito saudável, de boa formação humana e religiosa, com uma história de vida que me permite afirmar que conheci seu lado doce e amargo, com dotação intelectual e acadêmica acima da média e culturalmente bem formado. Trocando em miúdos, sou um exemplar daquilo que já se chamou (um dia) de classe média nesse país.

A vida é uma roda gigante, como sempre me lembrava um bom amigo, (que passou para as bandas de lá), e por esse motivo temos que saber interpretar suas fases. Problema há quando esse mecanismo emperra – em cima porque você perde a noção do que é real, mas principalmente quando ela resolve parar embaixo – aí meu amigo está a razão de contar essa história de hoje – não dá para apenas viver, sem vislumbrar a oportunidade de voltar a prosperar. E pode ser que alguém ache que estou falando aqui de valores monetários, do quanto tenho guardado em minha conta bancária, ou dos bens que consegui amealhar. Não é isso. Na verdade, falo sobre ter qualidade de vida, que tem a ver com o direito de fazer escolhas: das mais simples, como o que vou servir no almoço em minha casa, até as mais complexas – como, por exemplo, qual o tamanho da família que desejo construir, ou mesmo se pretendo ter filhos.

E esse entendimento sobre o que é importante (ou necessário) para me sentir realizado, explica tanto o modo de vida do Senhor Joãozinho que mora em uma tapera, e se sente bem dessa maneira, até o meu caso – um professor (expurgado da classe média para o limbo social) que deseja ter de volta a prerrogativa de escolher qual o modelo de ensino, e em qual escola irá matricular seus filhos. E aí, realmente, a questão financeira vai fazer toda a diferença, tanto em uma quanto em outra, pois tratam-se de expectativas e de objetivos distintos, não existindo, portanto, certo ou errado nesse caso.

Mas a roda da vida tem que voltar a girar, isso é fato. A dupla sertaneja César Menotti e Fabiano canta nos versos de uma música que “Nem era para você está aqui / Mas Deus falou assim / Esse aí vou levantar / E onde colocar a mão ele vai prosperar.” e esse é o sentido que busco construir para a minha vida, ao reconhecer que existe um tempo para tudo: de florescer e de murchar, de nascer e de morrer, mas que nem por isso posso colocar na conta de Deus a responsabilidade pelos meus infortúnios, ou fracassos.

Então, se o que eu busco é voltar a progredir (e ter qualidade de vida) não posso me acomodar diante dos obstáculos, nem tampouco ficar sentado achando que irá cair dos céus, em meu colo, a solução para os problemas que me impedem de chegar aonde desejo estar – tenho que levantar do chão, sacudir a poeira e persistir, até fazer acontecer de novo.

Não sei quanto a você, mas encerrando essa prosa metafísica digo que para mim a vida não pode ser resumida em levantar para ir trabalhar, dormir e pagar as contas no final do mês. Ela tem que ser mais do que isso, sob o risco de em não o sendo, transformar-se em um mero e enfadonho contar de dias na folhinha, “Com a boca escancarada, Cheia de dentes, Esperando a morte chegar”, como diria Raulzito, nosso eterno maluco beleza Raul Seixas.

Sobre aquilo que é íntimo e privado

Você divulga nas redes sociais a senha da sua conta bancária? Certamente que não, porque essa é uma informação da esfera privada. Os da minha geração, que conheceram as famosas “amarelinhas” (ou listas telefônicas), devem se lembrar que o assinante tinha a opção de divulgar (ou não) seu número telefônico, que seria tratado, então, como uma informação pública. De igual maneira, existem particularidades do seu corpo – uma cicatriz, uma celulite – que você trata de esconder, isso porque é algo que tem a ver com sua intimidade e, portanto, não é para ser socializado com a coletividade. Mas ao que parece, hoje se tomou uma coisa pela outra e não sabe-se mais reconhecer a diferença entre aquilo que é público, do que é privado.

Como “Homem de Letras” gosto de conhecer a história das palavras e, pesquisando, descobri que o vocábulo íntimo (que é de origem latina – Intimus) significainterior, o que é de dentro”, de igual origem o outro vocábulo privado (Privatus – em Latim) tem o significado de “colocado à parte, pertencente a si mesmo”. Portanto, estamos falando de coisas interiores, intrínsecas, que pertencem somente a nós e, dessa forma, devem ser apartadas das outras pessoas.

Vivemos no tempo da “livre expressão”, e ainda bem que é assim. Os dias de obscurantismo, censura e de opróbrio ficaram para trás, e não cabem mais em uma sociedade múltipla e diversa como a que estamos experimentando. Por isso é direito (previsto em Lei) de quem quer que seja tornarem públicas suas ideias, opiniões e até intimidades, se assim o desejar.  Essas são atitudes personalíssimas que devem ser respeitadas, no entanto deve-se tomar o cuidado para não as tratar como um novo regramento para a convivência social.

O fato de compartilharmos quase tudo, tanto nas redes sociais, quanto em aparelhos eletrônicos, pode estar contribuindo para essa desconstrução do sentido de intimidade e privacidade. Hoje não se procura mais um amigo para desabafar ou contar infortúnios – publica-se um post. O WhatsApp há muito que perdeu seu sentido original, que era o de ser um meio de comunicação instantânea – virou sessão de terapia em grupo (ou bate-boca). Ninguém mais revela fotografias – as publica nos Stories, tornando-se assim refém da aprovação de likers, ou do escárnio de haters. E os vídeos então? Há todo momento deve-se ficar atento para não ser flagrado em situação indiscreta, ou desconfortável – e virar “meme” nas redes de relacionamento.

Sinal dos novos tempos? Sim! Para os que conviveram na minha geração era diferente? Com certeza! O que não quer dizer que era melhor, até porque não se trata aqui de emitir juízo de valor sobre o modo de vida das pessoas, sob o risco disso parecer um discurso conservador, ou retrógrado.

Ao contrário, a reflexão que proponho com essa narrativa vai muito além de uma pauta de costumes. Na verdade o que me causa preocupação é aonde esse excesso de exposição está nos levando? Até que ponto o meu direito de expressão, não está invadindo a privacidade do outro, ou violando o direito dele de não querer compartilhar as suas intimidades? E o que é ainda mais grave (na minha opinião enquanto professor) é analisar de que forma essa ressignificação da impessoalidade (já que tudo se tornou público) está influenciando na formação da personalidade de nossas crianças e adolescentes?

O mesmo sal que tempera e dá sabor à comida, quando em excesso afeta o paladar, quando em pouca quantidade torna o prato insosso. Penso que essa deva ser a medida no caso das particularidades aqui discutidas, a do bom senso – não devemos educar com base em tabus e preconceitos (como muitos de nós fomos criados), mas também não podemos incentivar uma publicização desmedida – de corpos e posicionamentos – sob o risco de entrarmos em um estado de convulsão social, ao formar indivíduos jovens e adultos que não reconhecendo um limite ético para as próprias vontades e opiniões, perdem a noção de respeito pelo outro. E isso, infelizmente, já está ocorrendo: basta entrar em uma sala de aula, ou zapear as manchetes diárias dos veículos de comunicação para constatar esse (triste) sinal dos tempos!