Março

Certamente quem é do interior, ou por lá já viveu, deve ter escutado muitas histórias sobre a Quaresma. Esse período de jejum para os católicos, que se guardam em penitência até a Páscoa, no imaginário popular é recheado de lendas e folclores.

Lá de onde eu venho, me contaram um desses causos sobre as quadragésimas, que de tão fantástico, até parece mentira. De toda forma, como é melhor acreditar desconfiando, vou relatar a estória que era mais ou menos assim…

Há muito tempo, no Desterro de Baixo existiu um padre amargo e ranzinza, que foi expulso da cidade na base do porrete. Isso não sem antes praguejar que durante a Quaresma, as criaturas da mata, se reuniriam em concílio para julgar os pecados dos moradores. E aqueles que não estivessem em penitência cumprindo o jejum, teriam um destino terrível.

Naquelas bandas existia um tal de Onofre, homem curioso e desconfiado, que resolveu enfrentar a praga do padre expurgado.

– Ceis são tudo um bando de borra bota. Acreditá nessa história de Padre e de Quaresma? Só bobo memo pra bota fé nisso!

Dizia pata os amigos, numa roda de pinga, na venda do Joaquim.

– E pra prová proceis, que isso é tudo conversa fiada, amanhã é Sexta-feira da Paixão – eu vo afunda a noite no mato adentro, pra mostrá que essa história de bicho que leva gente, é tudo conversa pra boi dormi!

O bravo falastrão estufou o peito, enquanto a plateia admirava a coragem do homem, que resolveu encarar a maldição, que acompanhava a história daquele povo desde muito.

Eram onze horas da noite. A cidade inteira se reuniu no Largo da Matriz, para acompanhar a saída do aventureiro em sua jornada rumo ao desconhecido. Onofre, todo cheio de si, subiu no coreto e fez um discurso em tom desafiador.

– Olha aqui cambada de homi froxo. Hoje eu vo prová proceis tudo que essa balela de Padre e de Quaresma é coisa de maricas. Amanhã, quando eu voltá aqui, às nove hora, antes da Missa, oceis vão conhecê a verdade.

De forma triunfal, ele desceu do coreto, e saiu rua afora em direção à Mata da Fornalha, o lugar mais escuro e assustador da cidade, onde até de dia as pessoas botavam medo de entrar, pois, segundo os antigos, lá tinha onça e mula sem cabeça.

Chegando na boca da Mata, o machão sentiu um arrepio gelado na espinha:

– Eita, que raio é isso!

Parou, pensou mas o brio o impediu de dar meia volta. Então, tomou coragem e entrou naquele mataréu, de onde só se ouvia o piado das corujas.

Segundo reza a lenda, a Mata da Fornalha tinha esse nome, porque no meio dela existiria um buraco de onde saía fogo o tempo todo, vindo diretamente das profundezas do inferno. Se é verdade ou não? Difícil saber, até porque aqueles que tentaram descobrir, nunca voltaram para confirmar.

Mas voltando ao Onofre, depois de muito caminhar sem rumo no escuro, ele viu uma luz bem lá no fundo, e começou a ouvir uns barulhos, sem saber distinguir se era de gente ou de bicho.

Chegando mais perto, se escondeu atrás de uma árvore, e viu um buraco enorme, de onde saía fumaça e fogo. Em volta dele estavam sentados uma Onça, um Bugio e, no centro, a Mula sem Cabeça. O corajoso, mais do que depressa, fez o sinal da cruz e o esconjuro, e se abaixou para tentar entender o que eles estavam falando. A onça então disse:

– Senhora Juíza, honorável Mula sem Cabeça, já estamos prontos para começar mais uma sessão de Julgamento dos Pecadores dessa região. Peço permissão a sua honorabilidade para chamar o primeiro réu.

– Que assim seja feito. Tragam o primeiro caso. Disse com autoridade a criatura da mata.

Então, uma tropa de bugios veio escoltando a primeira alma pecadora. E qual não foi a surpresa do Onofre quando reconheceu o pobre incauto. Era João Floriano, o dono da banca de jogo do bicho, que também fazia as vezes de agiota, quando alguém precisava de uns trocados:

Os macacos, então, apresentaram ao Bugio, sentado ao lado da Mula, o assustado homem.

– Senhor Chefe da Tropa, Bugio Maior, está aqui o homem para que seus pecados sejam julgados.

Assim se pronunciou o primata:

– Honorável Juíza, aqui está o primeiro caso da noite. Este homem, pecador contumaz, avaro e egoísta, expropriou até o último vintém daqueles necessitados, que buscavam com ele algum recurso. Diante do altar, na Quarta-feira de Cinzas, se comprometeu como penitência a ser generoso, e repartir por 40 dias seu pão e seu dinheiro, com todos que o procurassem.

Então, a Mula sem Cabeça se levantou, e perguntou ao assustado pecador:

– O que você tem a dizer em sua defesa?

– Sou inocente dona Mula. Respondeu trêmulo o banqueiro.

– Mentira, bradou a Onça.

– Esse homem, Honorável Juíza, não cumpriu nem um dia que fosse com a penitência prometida. Ao contrário, ontem mesmo mandou buscar na casa de uma senhora doente, o único bem de valor que ela tinha, como forma de pagamento por uma dívida contraída.

Então, a cabeça da Mula se encheu de fogo, e ela falou exaltada:

– Canalha, patife, és um pecador. E como castigo serás jogado dentro da Fornalha. Bugio, que seja cumprida a sentença.

A um sinal do Bugio Maior, a tropa lançou o homem dentro do braseiro, sem que ele tivesse tempo de esboçar qualquer reação.

– Tragam o próximo caso! Ordenou a Juíza.

Mais uma vez, os soldados entraram escoltando um réu. Dessa vez era uma senhora, muito revoltada que se debatia e gritava:

– Me soltem, eu não fiz nada! Vocês pegaram a pessoa errada!

Quando Onofre a viu, quase caiu para trás. A dona que vinha entrando era a Dona Matilde, a maior fofoqueira da cidade, que nas horas vagas se disfarçava de beata.

– Silêncio, gritou a Onça. Pare com esse escândalo, não tem erro nenhum acontecendo aqui. A única pessoa que não fez a coisa certa foi você, sua intriguenta!!

E continua, esclarecendo:

– Honorável Juíza! Essa que agora quer se fazer de santa, que vivia na sacristia da Igreja lambendo as barras da batina do Padre, fora do Templo era a maior fofoqueira da cidade. Tanto assim, que na confissão das Cinzas, o próprio pároco lhe deu como penitência, não mais falar da vida alheia durante o jejum.

– E sabe o que ela fez Juíza? Continuou em sua sanha, derramando fel e maledicência. Ontem mesmo, ela conseguiu separar um casal, juntos há mais de 10 anos, graças a uma fofoca que disseminou na cidade, acabando com a reputação de um homem digno e de família. Mande essa víbora peçonhenta queimar nos quintos, Honorável!

De um pulo só, a Mula sem Cabeça levantou enfurecida, e uma grande labareda de fogo saiu de sua cabeça, enquanto esbravejava:

– Tirem essa mulher da minha frente. Que ela queime nos umbrais do Inferno!

Dessa vez a pecadora não se entregou sem lutar, esperneou, xingou e até babou como uma bruxa de Salém. Quando os soldados a jogaram na fornalha, podiam-se ouvir gritos e lamentos, vindos de dentro da cratera.

De tão assustado, Onofre deu um grito, e acabou entregando sua presença. Quando se deu conta, o Saci já estava atrás dele prendendo suas mãos com um cipó, e conduzindo o intruso à presença do Tribunal de Julgamento.

– Quem és tu, intruso? Perguntou a incomodada Mula sem Cabeça.

Antes que ele tivesse tempo de se explicar, o Bujio se apressou a apresentá-lo:

– Ora ora, que surpresa, Honorável Juíza. Esse seria o nosso terceiro, e último caso dessa Quaresma, porém, nossos homens bateram toda a cidade de Desterro, e não o encontraram. E não é que ele estava mais perto do que imaginávamos?

Tentando se justificar, Onofre gaguejando responde:

– Ma Ma Mais eu num fiz nada, num rôbei nem explorei ninguém, num falei mal, nem destruí a moral de ninguém. Num sô pecador, sô homi temente a Deus.

– Mais um falseador! Riu de lado a Onça! – Ô terrinha de gente cheia de pecado, Senhora Juíza. Mas sou muito paciente, e faço questão eu mesma de contar a história desse pé de cana!

– Realmente, ao contrário dos outros dois, esse não tentou contra a vida, ou a dignidade de ninguém. Temente a Deus? Muito. Tanto o é que rogou a Santo Antão uma graça – sofria de cirrose, graças a uma vida de abuso com a bebida – e foi atendido.

– Na sua penitência da Quarta-Feira de Cinzas, prometeu que não iria colocar uma gota de álcool na boca. E cumpriu o prometido?

– Claro que não. Não houve um dia em que não tivesse bebido – é um grande traidor, talvez um dos piores, pois traiu a confiança de um Santo que atendeu de bom coração, à sua súplica. Seu destino, Juíza, deve ser o mesmo dos outros dois!

– Que seja cumprida a sentença capital. Soldados, joguem o traidor na Fornalha! Decretou a Mula sem Cabeça.

Entre gritos de horror, medo e dor o ex-valentão sentiu seu corpo queimando, até chegar ao fundo da cratera, e dele não se ter mais sinal.

No dia seguinte, na hora combinada, às nove da manhã, em frente à Igreja e antes da Missa, a cidade toda se reuniu para aguardar a volta do explorador, que esclareceria a verdade sobre a Mata da Fornalha. Passou nove, passou 10, acabou a Missa e nada do homem aparecer.

Depois daquele dia, na cidade de Desterro ninguém mais soube falar do paradeiro do João Floriano, da Dona Matilde ou do Onofre. Verdade ou mentira? Melhor esperar a próxima Quaresma para descobrir se a praga do Padre, realmente caiu sobre o lugarejo.

Fevereiro

– Oi moça bonita, será que eu posso saber seu nome?

Geralda fica totalmente desconcertada com o gracejo. Realmente sua beleza chama a atenção por onde passa. A pele branca como as nuvens do céu, contrastam com o azul turquesa dos olhos, enquanto o loiro dos cabelos contorna um corpo esculpido a mão pelo mais talentoso dos artistas. Daquela boca rubra, como a casca de uma maçã, sai apenas um sopro em forma de nome.

– Me chamo Geralda. Enquanto sorri envergonhada.

O galante rapaz não se dá por satisfeito.

– Muito prazer então, Geralda. Me chamo Gustavo, Gustavo Aroeira, mas nunca te vi por essas bandas. É a primeira vez que vem passar o carnaval aqui no interior?

Ainda muito sem graça, a moça apenas acena com a cabeça no mesmo momento em que é puxada pela mão pela amiga que, percebendo as intenções do moço, a “salva” daquela situação embaraçosa.

Na verdade, aquela era a primeira vez, desde que se formara em Jornalismo, que viajava sozinha. Sempre muito recatada, sua vida foi dedicada aos estudos – aliás a inteligência era outro atributo que contrastava com sua beleza. Mas já era hora de se abrir pro mundo, e convencida por sua melhor amiga – Clarice – aceitou passar o carnaval numa cidade do interior, onde os festejos de Momo ainda eram mais sadios e seguros.

Com uma história de vida marcada por tragédias, Geralda se formou para escrever e discutir sobre a discriminação e o preconceito – dois estigmas que sempre a acompanharam desde o nascimento:

“…filha caçula de outros nove filhos homens do casal de lavradores Sebastiana e José, nasceu e cresceu em um sítio humilde, na zona rural de um lugarejo em Minas. Desde muito cedo foi cercada de cuidados por toda a família – tanto os pais, quanto os irmãos, nunca deixavam a pequena sozinha, que por isso mesmo não teve contato, ou fez amizade com outras crianças de sua idade. Por esse motivo, o seu ingresso na escolinha foi atrasado. Mas, sem outra opção, começou a estudar aos cinco anos.

Muito tímida e introvertida, a pequena quase nem era notada na salinha cheia. No início e fim das aulas – bem como na hora do recreio – a menina sempre estava acompanhada por, pelo menos, um de seus irmãos, que tinham com a caçula um cuidado maior do que poderia se esperar, em uma relação fraternal.

E assim os anos foram se passando. Sempre quieta, e sem amigos, Geralda foi vendo a sua vida mudar e, por conta dessas mudanças, sua “singularidade” começou a ficar mais evidente, tanto é que a mãe sempre lembrava à menina “que nunca deveria se mostrar sem suas roupas para ninguém, nem para as professoras”. Os zelosos pais conseguiram até um atestado médico, que a proibia de acompanhar as aulas de Educação Física.

Até que um dia, já com seus doze anos, o que a família lutou a vida inteira para esconder, foi descoberto: quando usava o banheiro da escola, achando que estava sozinha, foi surpreendida por um grupo de meninas que ao perceberem uma “coisa” entre suas pernas, saíram gritando pelo corredor afora que a Geralda era um menino. 

A escola virou um pandemônio, os irmãos começaram a brigar nos corredores para defender a irmã, e a confusão só terminou com a chegada dos pais que pegaram Geralda e os filhos e nunca mais foram vistos na região. Abandonaram o sítio, e se mudaram para o Norte do país, lá pras bandas do Pará, onde Sebastiana tinha parentes.

Mas ter paz não era o destino da pobre menina. Sem entender que a filha não era uma aberração, um castigo de Deus, seu José – o pai -, se entregou ao desgosto e à bebida, e acabou vindo a falecer pouco depois. A mãe, apesar de muito amá-la, também não conseguia lidar com a situação, nem tampouco com a revolta dos outros filhos, que culpavam a irmã por todas as desgraças da família.

Sendo assim, com pouco mais de doze anos, foi mandada de volta para Minas, para morar com a madrinha de batismo, que tendo posses poderia lhe assegurar a educação em uma escola especial, e era uma das poucas pessoas que conhecia a verdadeira história daquela família. Nunca mais voltou a ver a mãe, ou os irmãos. Se falavam apenas ao telefone, em poucas datas especiais. Sua vida seguiu cercada de mistério e isolamento. Nunca namorou, de tão recatada nunca conheceu o gosto de um beijo, ou o calor de um carinho. Muito inteligente sempre se destacou tanto na escola, quanto na faculdade, contudo, para evitar exposição, assinava seus trabalhos acadêmicos com um pseudônimo – XXY.”

– Você viu como o rapaz ficou interessado em você?

– Ficou nada Clarice, deixa de besteira, eu sou muito sem graça. Ninguém nunca se interessou por mim.

– Besteira? Então olha pra trás que a sua “besteira” está chegando de volta.

– Meu Deus! Disse a jovem com o coração em pulos.

– Dá licença, mas você não vai ficar livre de mim tão fácil assim não! Será que podemos conversar um pouco? Tomar uma cerveja?

Ainda sem acreditar no que estava acontecendo, a jovem aceita o convite, mas com uma condição.

– Tá bem, mas eu não bebo.

– Sem problemas moça bonita, tomamos um suco então – tratando logo de resolver o problema o despachado moçoilo.

Se afastando do barulho da banda de Marchinhas, o casal se senta em um banco da praça, enquanto saboreando um suco de laranja, começam uma história que marcaria para sempre a vida da doce Geralda.

Gustavo Aroeira era o filho varão de Antônio Aroeira – fazendeiro, político e um dos homens mais ricos e poderosos daquela região. Além da fama da família, o rapaz ostentava a pecha de ser o melhor partido da cidade, disputado pelas moças casadeiras. Mas com o compromisso o rapaz nunca quis assunto – sua fama entre os amigos era de garanhão e pegador.

O suco rendeu uma noite inteira de conversa. O moço se encantou pela beleza, mas também pelo bom papo de Geralda que – bem formada e vinda da capital – era muito diferente das “Mariazinhas” da roça. Quando se deram conta, a madrugada já havia chegado, e Clarice veio interromper os pombinhos – era hora delas voltarem para o Hotel – mas não sem antes o fogoso rapaz arrancar-lhe um selinho, e o compromisso de encontrá-la pela manhã, para apresentar os encantos da cidade.

No caminho, Clarice não resiste à tentação e pergunta a amiga:

– E aí? Rolou?

– Deixa de ser boba Clarice, rolou o quê?

– Ah Geralda, não se faz de sonsa. O moço é bonito, está afim de você, vai dizer que não rolou nem uns amassos?

– Você sabe que eu não posso, Clarice. Não rolou nem vai rolar nada. Ele é interessante sim, mas não passou do que você viu, apenas um beijo roubado.

– Ah, tá bom, disse a amiga já entrando no quarto do Hotel, para descansarem daquele dia cheio de novidades.

Na manhã seguinte, pouco antes da hora do almoço, o rapaz já estava aguardando a jornalista descer para mostrar-lhe os encantos e a hospitalidade do interior, como prometido.

– Bom dia moça bonita! Pronta pra passear?

– Passear? Onde você pretender me levar? – perguntou desconfiada.

– Pode ficar tranquila, vou te mostrar a cidade, e se quiser a fazenda do meu pai. A hora que você se cansar de mim – ou do passeio – te trago de volta.

– Tá bom, então deixa eu avisar a Clarice.

Os dois saíram de carro e o encontro durou o dia inteiro. Já no final da tarde, depois de conhecer todos os pontos turísticos da cidade, o moço a deixou no Hotel, roubando-lhe um novo beijo.

– Calma aí Gustavo, você ainda nem me conhece direito. Não tome liberdades comigo!

– Desculpa Geralda, mas eu me comportei o dia inteiro, e olha que em se tratando de mim, isso é uma coisa rara. Só que você é tão bonita, inteligente e agradável que não consigo resistir à tentação de beijar essa boca linda e vermelha.

– Realmente tenho que reconhecer, você se comportou sim, e obrigado por me respeitar. Mas tem muita coisa que você ainda não sabe a meu respeito. Vamos devagar, por favor!

– Tá bom moça bonita, mas vamos nos encontrar na praça á noite? Hoje tem batalha de confete e serpentina. Posso te esperar no mesmo lugar?

– Ok, vou avisar a Clarice, e te encontro às nove então.

Naquela noite, pela primeira vez em sua vida, descobriu o gosto de um beijo, e o calor do corpo de um homem tocando o seu corpo. Foi como se, num passe de mágica, tudo de ruim tivesse ficado para trás. Ela que nunca sequer imaginou beijar alguém, se via agora entregue aos carinhos e abraços de um moço que acabara de conhecer. E essa era apenas a segunda noite de carnaval.

No outro dia, logo cedo, lá estava o ansioso rapaz aguardando a forasteira. Hoje ele iria apresentá-la aos seus pais. Era aniversário do patriarca da família e, por isso, um grande churrasco em comemoração pela data iria acontecer na fazenda.

Chegando lá, a moça se espantou com a opulência e riqueza daquele povo. O lugar estava cheio de gente, todos com cara de ricos e muito importantes. Mas Geralda não só causou boa impressão, como foi o assunto da festa – primeiro por sua beleza e boa formação – depois por nunca terem visto o jovem herdeiro tão cuidadoso e respeitador com uma namoradinha, quanto estava demonstrando pela moça da capital que já estava sendo tratada como “da família”.

Findou o dia, e a essa altura eles já eram um casal, andando de mãos dadas pela cidade, causando inveja nas “Mariazinhas” que se perguntavam quem era a forasteira que havia fisgado o melhor partido do lugarejo.

Geralda também já não conseguia esconder seus sentimentos, estava totalmente envolvida pelo rapaz, e não sabia como iria lidar com aquela situação. Ela tinha um segredo, e ele tinha o direito de saber. Mas como contar? Teria que passar por todo aquele pesadelo novamente?

Na terça-feira de carnaval acordou decidida a contar toda a verdade para o moço, mesmo que ele não entendesse ou aceitasse. Mas então ela é surpreendida na recepção do Hotel com o buquê de rosas mais lindo que já havia existido, acompanhado de um longo e apaixonado beijo. A emoção daquele momento a fez esquecer de todos os problemas do mundo. Saíram então para um novo passeio, que iria mudar toda a sua história.

No caminho, ela pergunta a Gustavo:

– Onde você vai me levar, moço?

– Ah, hoje é uma surpresa. Mas te garanto que é um lugar muito especial, na verdade é o meu lugar secreto!

– Secreto? Perguntou a moça intrigada.

– Sim, mas pode confiar. Se você não gostar voltamos pra cidade, tá bom?

– Tá bom moço bonito, você já ganhou minha confiança e meu coração.

Chegando em uma área afastada, na zona rural da cidade, ele abre uma porteira que os leva a um recanto mágico – a Cachoeira do Amor.

Parecia até cenário de novela, de tão lindo que era o lugar. Geralda logo fica encantada pela novidade.

– Esse dia será somente nosso, moça bonita – promete o apaixonado rapaz, enquanto tira da caminhonete quitutes e gostosuras preparados na fazenda, especialmente para aquele momento.

Tudo estava perfeito, o dia, o sol, aquela vibração – perfeito demais para ser verdade. A sensualidade e a vibração do lugar acendem nos seus corpos jovens a chama do desejo, e ele toma a iniciativa.

– Espera! Grita assustada a entorpecida moça.

– O que foi? Você não quer? Você não gosta de mim?

– Não é isso, eu quero, e quero muito. Quanto a gostar, nunca imaginei que sentiria afeto e desejo por alguém. Mas eu tenho que te contar uma coisa. Tenho uma singularidade que você precisa conhecer antes de seguirmos adiante.

– Minha jornalista linda, não existe nada em você que eu não vá gostar, você é perfeita, a mulher mais linda que eu já conheci nessa vida, quero você pra todo o sempre!

Depois de uma declaração de amor como aquela, não havia mais como ter dúvidas ou inseguranças, por isso Geralda se entregou aos carinhos e desejos do primeiro homem de sua vida.

Como costumam dizer por aí, “Amor de carnaval é pra vida toda”, é definitivo. No caso de Geralda, infelizmente, foi fatal. Seu corpo foi encontrado pela polícia, dois dias depois, após Clarice denunciar seu desaparecimento. Estava sem vida, todo machucado e com uma mutilação sinistra – dos seus dois órgãos sexuais, apenas um ainda estava preservado junto ao corpo. Quanto a Gustavo, foi mandado pela família para fora do país, e o caso abafado pelas autoridades locais.

Janeiro

Passados os festejos da virada, começa a depressão do início de mês, que se completa com a ressaca do novo ano, misturada com os problemas do anterior que não se resolveram, acrescidos agora das providências que tenho que tomar logo na primeira semana – Pulta que los Parilo! Para o ônibus que eu quero descer, oh motorista!!

Então, sou gentilmente acordado com um carinhoso cutucão de Marisa, chamando para levar o Digby para fazer xixi no quintal.

– Levanta André, o cachorro quer mijar, e se ele sujar meu tapete, você quem vai limpar!

Linda forma de começar o ano – acordando de ressaca, com a chata da minha mulher mandando levar o raio do cachorro pra mijar! Sigamos.

Abro a porta da cozinha, e quase caio pra trás – parece que passou um furacão no meu quintal – então lembro que a festa da virada da “família” foi aqui em casa. É copo quebrado, churrasqueira suja, piscina toda cagada, cheia de bola – aliás queria saber quem foi o filho d’uma égua que inventou de decorar a piscina com bolas. Ah, lembrei. O babaca fui eu. Toma otário!

Enquanto o infeliz do cachorro roda pensando em qual mesa irá levantar a perna pra descarregar, sento na espreguiçadeira e acendo um cigarro, aproveitando aquele raro minuto de silêncio e paz em minha casa. Silêncio esse que é logo quebrado com a gritaria vinda do quarto das gêmeas – Antônia e Rafaela. Minha amada esposa delicadamente grita, ainda repousada na cama:

– André as meninas estão brigando! – como se eu já não tivesse percebido isso.

Apago meu cigarro, ponho o cachorro pra dentro e vou resolver a primeira briga do novo ano das minhas princesas.

– Que foi Antônia? Por que você está brigando com sua irmã?

– Ah pai, você sempre dá razão pra Rafaela!

E começa a chorar estridentemente:

– Calma filha, o pai só está perguntando qual o motivo da briga.

– Rafaela por que você está brigando com sua irmã?

– Ih pai, essa menina é muito chata e fresca, só tá fazendo showzinho porque eu disse que o Cauã, do 6 A, falou que eu sou mais bonita que ela!

– Mas filha, vocês são gêmeas, idênticas, como é que uma pode ser mais bonita do que a outra?

– Tá vendo pai, você gosta mais da Antônia do que de mim!

E começa uma nova orquestra de choro estridente! Pulta que los Parilo, criar menina já não é fácil, gêmeas mais difícil ainda, e pré-adolescente, ninguém merece. Então agora sou eu quem grito.

– Marisa, suas filhas estão te chamando!

Antes que ela tenha a chance de me xingar, entro no banheiro, fecho a porta e sento no meu trono pra tentar ler as notícias do dia no celular – raros momentos de paz. Barro despachado, vou pro box, ligo a ducha e fico meia hora debaixo só curtindo o som da água batendo no meu corpo – ah se pudesse ser assim o tempo todo. Mas como tudo que é bom dura pouco, logo ouço a dona encrenca bradando na porta do banheiro.

– Morreu aí? Tenho que chamar o SAMU? O café está na mesa!

Desço e encontro minha linda família reunida, as meninas até parecem comportadas agora, minha adorável esposa me recebe com todo carinho.

– Senta logo na mesa porra, se o café esfriar não vou passar outro.

Ah, que dia feliz – 01 de janeiro, e pensar que o ano está só começando!

Findo o animado desjejum, é hora de encarar o quintal, enquanto Marisa destroça a cozinha. Não sei se você já passou por isso, mas o “bom” de comemorar a passagem de ano com toda a família reunida na sua casa, é que a “festa” (ou pesadelo, se preferir) nunca acaba com o término da queima de fogos em Copacabana, transmitida pelo Plim Plim. No dia seguinte, a parentada vem para os melhores momentos, com a sobra do peru, da farofa e do pavê, complementados com um churrasco à beira da piscina – só felicidade!

Rapaz, como alguém consegue sujar tanto assim um gramado? E olha – vomitaram dentro da lata de lixo? Meu Deus. Outra coisa, nunca mais faço festa usando aquelas tacinhas de plástico coloridas de Réveillon. Acho que uma mesma pessoa bebe em pelo menos três ao mesmo tempo, e ainda consegue quebrar as três. Têm micro pedaços de acrílico espalhados pelo gramado inteiro – ninguém merece!

Mas é hora de juntar forças para limpar a piscina – quem foi o idiota que permitiu encherem uma piscina de 40 metros quadrados com bolas coloridas? O mesmo idiota que está limpando! O mais surpreendente não é a sujeira sobre a água, mas sim o que eu encontro embaixo dela – de guimba de cigarro, até a parte de baixo de um biquini – mas como assim? Quem ficou pelado na festa e eu não vi?

Depois de muito esforço consigo colocar a danada pra filtrar, afinal, daqui a poucas horas vai estar cheia de gente, e suja novamente. Agora é hora de dar uma geral na geladeira. Colocar a cerveja nas caixas térmicas para que nenhum primo irritante reclame que a “gelada” está quente. Aí começa uma nova tragédia – o gelo acabou durante a madrugada, e eu não percebi. A questão é: onde vou achar uma casa de bebidas aberta no dia 01 de janeiro às 09 hs da manhã, para comprar gelo?

Puto da vida, entro no carro e começo a peregrinação. Meia hora depois, retorno com o pedaço de um iceberg da Antártida e coloco as Brahmas, Budweiser e Heineken pra gelar. Aliás, um adendo. Você já percebeu como existem marcas de cerveja hoje em dia, cara deve ter pelo menos umas vinte com diferentes sabores – malte, duplo malte, triplo malte, largen, pilsen – sem falar das Artesanais, caríssimas! Mas garanto que se você colocar dois copos diferentes sobre a mesa, e oferecer para um conviva tomar, vai achar que ambos vieram de uma “puro malte e lúpulo da Baviera” de 100 paus a garrafa. Vai entender?

Quintal arrumado, piscina limpa e cerveja gelada é hora de receber os convidados para o Black Friday do ano findo. Eu não sei se alguém já parou para fazer essa conta, mas sempre parece que no dia seguinte tem mais gente do que na noite anterior. Será que é um caso de multiplicação de parentes chatos, ou seriam os penetras chatos que invadem a sua casa acompanhando os parentes? Sei lá, mas já estou a postos com a barriga na churrasqueira, preparando a picanha, a fraldinha e a costela que vão encher o bucho do povo. Aliás, como alguém ainda consegue ter estômago para comer costela, depois de uma virada regada a champanhe, cerveja e caipirinha? E ainda pedir sobremesa?

Ah, esqueci de um detalhe que nunca falta nesses eventos familiares – o primo sem noção que traz pra sua casa um pitbull lata que, além de latidor, quer a todo custo cruzar o seu cachorro – será que o Digby é gay? E a festa está só começando.

Com a piscina cheia de criança, adulto e velho expondo suas carnes enrugadas, minha amada patroa lembra que eu ainda existo, me chamando docemente:

– André, seu burro! Você esqueceu que eu tinha combinado que você ia buscar a Tia Maria na casa dela? A velha tá aqui me enchendo o saco no ZAP, por que ninguém apareceu para pegar ela ainda!

Bom, quem combinou foi ela, mas quem paga o pato, e tem que ir buscar a matusalém fedendo a mofo sou eu.

– Tá bom meu amor, fala com a Tia que eu já estou indo!

Deixo o namorado da minha sobrinha (aquele novato, recém-chegado que quer agradar a família), no comando da churrasqueira, mas não sem antes tecer um rosário de recomendações, especialmente sobre a picanha, que é maturada, foi cara pacas, e não pode passar do ponto, senão ferra tudo. Mas tenho a impressão de que isso não vai prestar, ele tem cara de panaca, mas na falta de tu, vai tu mesmo!

Saio de carro e logo chego na portaria do prédio para buscar a velhota, que já está a postos, com cara de brava, e uma outra velha à tiracolo.

Logo que entra no carro, antes mesmo de dizer bom dia, a simpática Tia Maria começa a reclamar que esqueceram dela, como podem fazer isso com uma septagenária, que isso é uma falta de respeito e blá, blá, blá… bla, blá, blá… De repente, sinto um cheiro de peido azedo no carro, que está com o vidro fechado por causa do ar, e não aguento:

– Puta merda Tia Maria, a senhora peidou dentro do carro?

A velhota responde desaforada:

– Não fui eu, seu mal educado. Foi a Conceição, minha vizinha do 701. Coitada, ela não pode segurar senão dá dor nas costas, tem que peidar mesmo. Você não é capaz de respeitar os problemas de constipação de uma pessoa idosa?

Por sorte, já estava chegando na garagem de casa. Me apresso em descer do carro para não vomitar de tanto fedor. Enquanto Marisa vem receber a Titia, vou logo ver se o panaca do moleque não fez merda com a minha picanha.

– Oi Tio André, fiz tudo como o senhor pediu. Tá aí oh, a picanha está do jeito que o senhor queria!

Tio? Só faltava essa, mas para não parecer estúpido, agradeço ao moleque e assumo meu posto.

Já são mais de três horas da tarde, e depois de muita cerveja, calor e churrasco só faltava uma coisa para completar a festa – o barraco em família. E tudo começa porque o cunhado que é vascaíno, não gostou da brincadeira que o primo flamenguista inconveniente fez sobre o rebaixamento do time cruzmaltino no ano que passou.

Enquanto eles partem para as vias de fato, Marisa me dá outra bronca (acho que deve ser a vigésima do dia):

– André, seu frouxo. Você não vai fazer nada? Vai deixar seu cunhado apanhar?

Na verdade, era essa a minha intenção, assistir de camarote ao fight, mas depois de ser instado a me posicionar face ao ocorrido, entro com o bloco do deixa disso, separando a contenda com duas longnecks bem geladas, esfriando a cabeça dos lutadores, que logo se abraçam num pedido de desculpas típico de bebuns.

Graças à Deus! Os ponteiros do relógio marcam cinco horas. Depois de um dia de tortura, sol e apurrinhação o último parente se despede. Lembra da Tia Maria e da Conceição? Pois é, essas eu consegui despachar mandando o namoradinho da sobrinha levar em casa – e olha que ele foi todo satisfeito. Coitado, mal sabe ele dos problemas de constipação da Conceição, agravados por muita carne e cerveja.

Os portões se fecham, apago a luz do quintal, sem nem olhar para trás, para não ver o estrago e sofrer antes da hora. As meninas já estão de banho tomado assistindo TV na sala, Marisa está ao telefone falando com a irmã sobre os acontecimentos da tarde em família.  Então, depois de um banho revigorante, sento na sala de jantar, abro uma gelada e vou ver as contas que tenho que pagar na semana – IPVA, IPTU, matrícula das meninas, material escolar e, opa, o que é isso aqui? Vejo um envelope com resultado de exame, com o nome da Marisa?

– Amor, você está doente e não me falou nada? Que exame é esse aqui?

– Ah, o exame, não te falei não? Com toda a agitação do Réveillon acabei esquecendo de te dizer, estou grávida, de novo! E continua o assunto com a irmã ao telefone, como se nada tivesse acontecido.

Meu copo de cerveja cai no chão junto com a minha sanidade. Grávida? De novo? Após 12 anos vou ser pai novamente?

– Oh seu motorista, para o ônibus que eu quero descer! E isso é porque o Ano Novo está apenas começando! Pulta que los Parilo!!!

A ponte do Rio Catanduva

Naquela manhã, acordou mais cedo, despediu-se de todos e saiu. O sol já enchia o céu, e a umidade fazia o corpo chorar. Desceu a viela em sentido à saída da cidade, e parou sobre a ponte do Rio Catanduva. Debruçou-se no parapeito, e ficou observando o movimento das águas, embalado pela forte correnteza que arrebentava sobre as pedras nas corredeiras. Sempre sentiu-se fascinado por aquele lugar – a rudeza das correntezas, em contraponto com a beleza da região, o fascinava. De repente, todo aquele calor abrasador foi interrompido por uma brisa suave e refrescante. Foi como se o mundo inteiro tivesse parado. Então, naquela paz interminável, começou a recordar – infância, juventude até o dia em que sua vida perdeu totalmente o sentido. O movimento das águas no leito, parecia convidá-lo a se juntar ao fundo. Três dias depois, seu corpo foi encontrado agarrado a uma galhada, quilômetros abaixo da Ponte do Rio Catanduva.

Julho

Ego da Silva Santos nasceu em uma pequena cidade do interior. Filho de família muito católica, ficou órfão cedo – o pai não conheceu – e foi criado pelo avô materno – Bento – que devoto Mariano, sempre dizia:

– Meu neto, nunca se esqueça. Em primeiro lugar suas obrigações e devoções com a Santa Madre Igreja, depois com a família!

O menino já nasceu predestinado a seguir a vida religiosa. Pouco antes da morte da mãe – ainda pequeno – foi prometido que se tornaria Padre. Talvez até por isso, virou coroinha muito novo, e sua brincadeira favorita era “celebrar” missas para os cachorros da casa, seus fiéis seguidores.

O tempo passou, e quando terminou o ginásio, o avô conseguiu com o Vigário um encaminhamento para o Seminário na capital, onde continuaria os estudos até ser ordenado. Na despedida, antes de embarcar, Bento fez questão de abençoá-lo, lembrando-o de suas obrigações:

– Meu filho, o vô está muito orgulhoso. Sua mãe, no céu, também deve estar muito feliz. Vá com Deus, e não se esqueça – nunca traia seus compromissos com a Igreja, nem com a família!

Muito tímido, apenas concordou com a cabeça, deu um último abraço no avô, e entrou no ônibus, deixando para trás toda a sua história.

A vida seguiu seu curso. O jovem logo se adaptou à rotina no Seminário, e ao final dos primeiros seis meses de internato, teve a oportunidade de passar férias com a família. Como estava com a saúde debilitada, Bento decidiu mandá-lo para a casa de uns parentes, que eram colonos em uma fazenda no interior. Mas Ego, com toda sua ingenuidade, nem imaginava o que estava por vir.

Ao chegar no lugar, foi logo percebido por Olga – filha de um falecido colono da propriedade, morrido de pouco. Em razão dos anos de serviço e confiança, os patrões tinham deixado ela e o irmão – Adonis – morando por lá, onde o moço já ajudava na lida, antes mesmo da morte do pai.

Olga era uma menina-moça muito bonita, morena cor de jambo e uma beleza quase selvagem. Apesar de contar apenas 16 anos, já causava atração nos jovens, mas também nos mais velhos. Era como se seu corpo transpirasse sensualidade, e seus olhos estivessem sempre cheios de lascívia, o que fazia dela uma presença pouco desejada pelas mães, e senhoras do lugar. Muito despachada, foi logo tratando de se aproximar do visitante:

– Oi menino, você que é o padrezinho que veio da capital?

Muito educado, e ingênuo, lhe respondeu:

-Sim, sou eu mesmo, me chamo Ego, Ego da Silva Santos. Muito prazer!

– Ih, você fala sempre assim? Pergunta curiosa.

– Assim como menina? Qual o seu nome?

– Me chamo Olga, mas é só Olga mesmo. Você já é Padre? Parece Padre falando.

– Ah, desculpa. Não sou Padre não, entrei esse ano no Seminário, mas se Deus quiser vou me formar e servir à minha Igreja.

– Eita, você é muito estranho, quer conhecer a fazenda?

– Quero sim, deixa eu só guardar minhas coisas.

Enquanto Ego entrava na casa dos parentes, Olga começou a reparar no corpo do jovem, com olhos de malícia e desejo.

– É, ele é meio chato e bobo, mas até que é bonitinho!

Na verdade, apesar de totalmente inocente, ele tinha uma aparência que chamava atenção. Seu corpo, já bem formado, destacava a pele muito branca, com traços finos e delicados. Seus cabelos eram negros, como a noite, e encaracolados – fazia lembrar a figura daqueles anjos barrocos, pintados nas paredes das Igrejas.

– Pronto, podemos ir? Perguntou o educado visitante.

– Bora então, e sai puxando o rapaz pelas mãos.

A propriedade era grande, cheia de ribeirões e cachoeiras. Chegando em um açude isolado, ela pergunta ao garoto:

– Você sabe nadar?

– Claro que sei, porquê?

Antes que pudesse se dar conta, Olga já havia tirado as roupas e pulado dentro d’água. Envergonhado, ele fica sem reação.

– Ou, você não vem nadar?

– Mas é que eu não estou de sunga.

– Deixa de frescura, e vem pra água!

Sem graça, tira as roupas e, muito desajeitado, entra no açude.

– Você nunca nadou pelado? Pergunta a fogosa cabocla.

– Pelado? Nunca.

– Vai dizer também que nunca viu uma menina pelada? Entre risos.

– Claro que não!!! Responde quase ofendido.

– Tá bom padrezinho, precisa ficar bravo não. Quer saber, você é muito chato, cansei de nadar, vamo embora!

Decidida, a oncinha brava sai do açude e vai vestindo a roupa sobre o corpo molhado. Sem entender nada, e muito envergonhado, Ego também sai e começa a se vestir.

Já era final da tarde quando chegaram de volta à casa dos parentes, e sua nova amiga já vai avisando a programação do dia seguinte:

– Oh, amanhã se apronte cedo, hein, que vou te levar pra nadar na cachoeira mais bonita da fazenda, tá?

Sem ter tempo para discordar ou concordar, ele vê a menina indo embora num galope, enquanto entrava para jantar e se preparar para dormir.

Logo que o sol nasceu, já estava ela na porta chamando para sair.

– Ô padrezinho, se apressa aí, quero aproveitar o dia e a cachoeira é longe!

Ainda com um pedaço de pão na boca, o jovem sai tentando acompanhar o ritmo acelerado da caboclinha.

Depois de quase uma hora de caminhada, chegam no lugar e, mais do que depressa, a menina tira suas roupas e pula n’água. Dessa vez, prevenido, o garoto tira o xort e dá um mergulho, vestido com sua sunga.

– Ué, você não vai nadar pelado hoje não? Pergunta maliciosamente.

– Não, porquê? Responde o seminarista.

– Como você é chato hein? Lá no Seminário vocês não nadam pelados não? Lá tem menina?

– Pelados? Nunca. Meninas só nos conventos.

– E você nunca viu os outros meninos pelados também não?

– Oh menina, você é meio doidinha! Claro que não. Porque eu deveria ver outro seminarista sem roupa?

– Ué eu já vi meu irmão pelado, a gente sempre nada junto sem roupa. Não vejo problema nenhum nisso.

Sem saber o que responder, e para fugir do assunto, o menino dá um mergulho. Quando tira a cabeça fora d’água leva um baita susto – Olga estava em sua frente, com o corpo nu encostando no seu. De repente, ela puxa sua cabeça, e lhe dá um longo e molhado beijo.

Pela primeira vez, aquele corpo virgem sentia os caprichos dos desejos carnais, e o gosto de um beijo em sua boca. Sem lhe dar tempo para reagir, a faceira menina pega a mão do rapaz, e coloca sobre seus seios macios e molhados.

Assustado, puxa a mão e sai correndo em direção à margem. Sem saber como lidar com aquela situação, tenta esconder o volume entre as pernas, que a sunga não consegue conter.

Com cara de deboche, ela pergunta ao envergonhado rapaz:

– Que foi? Você não gosta de meninas? Gosta é de meninos?

– Tá doida? Deus me livre. Isso é pecado!

– Mas você não gostou? Do meu beijo? Do meu corpo? Me achou feia?

– Não! Fala quase gritando, ainda sem saber o que responder. – Você é muito bonita sim, é que … eu nunca fiz nada parecido com isso!

– Nunca fez o quê? Beijar ou tocar em uma garota?

– As duas coisas. Responde ele, vermelho de vergonha e excitação.

Como uma onça no cio, ela sai d’água com o corpo em brasa, e pula em cima do moleque que não reage, e apenas deixa o instinto falar mais alto. Naquele momento sentiu prazer pela primeira vez, como todo homem deve sentir.

Entorpecido e dependente, desde então, passaram a se pegar na cachoeira, no açude, no pasto e até na rede da casa dela. Era como se nunca tivesse existido seminário, celibato ou Igreja. Seu corpo gritava por prazer, e Olga fez com ele coisas que nunca imaginou que um casal pudesse fazer na intimidade.

Até que um dia, foi surpreendido por uma cena que lhe roubou o chão. Ao chegar no ribeirão, vê sua amiga se esfregando em outro rapaz – seu sangue ferve de ódio e ciúmes. E então grita:

– Ou, o que vocês estão fazendo?

– Sem esboçar preocupação, ela vai até ele, tira sua roupa, e o arrasta para dentro do filete d’agua:

– Deixa eu te apresentar meu irmão, Adonis.

O peão era puro músculo, e nenhum cérebro. De fato, apesar de ser o mais velho, quem comandava a casa (e a vida incestuosa) era ela – então a menina se coloca entre os dois, sendo beijada por um, enquanto o outro a encoxava por trás. Daquele dia em diante, as brincadeiras ganharam um novo tempero – às vezes com Ego e Olga, em outras com Adonis e Ego, e muitas outras à três – em uma cópula pecaminosa e devassa.

Duas semanas se passaram e, como se o último grão de areia da ampulheta anunciasse o fim das férias, era hora da despedida – de voltar para o Seminário. Na hora de partir, visivelmente transtornado, ele não consegue conter as lágrimas, enquanto sua amiga – friamente – se despede com um beijo seco no rosto:

– Boa viagem, te espero aqui de novo nas férias de dezembro, tá?

De Adonis, apenas um aperto de mãos.

Entrando na condução o jovem estava perdido em um turbilhão de pensamentos – como viveria sem o calor e o cheiro do corpo deles? Ao mesmo tempo, sentia-se traído – Será que não sentirão minha falta também? Se perguntava inconformado.

“- Meu filho, o vô está muito orgulhoso. Sua mãe, no céu, também deve estar muito feliz. Vá com Deus, e não se esqueça – nunca traia seus compromissos com a Igreja, nem com a família!”

De repente, como que num lampejo de lucidez, lembrou-se das palavras de vô Bento, antes de embarcar para o Seminário:

Naquele momento se deu conta do que tinha feito. Como pode trair seu avô, desonrar a memória da mãe, e romper com seus votos de castidade? Parecia que nada mais fazia sentido – a culpa era toda dela, ela que o havia seduzido. Mas ao mesmo tempo em que tentava achar um culpado, seu corpo queimava por dentro, lembrando dos prazeres proibidos que acabara de conhecer.

– Meu Deus, o que foi que eu fiz? Desabafa em um grito mudo.

Chegando ao Seminário, visivelmente abatido, o Reitor pergunta se ele estava se sentindo bem.

– Estou bem sim, Padre. Apenas cansado da viagem.

– Então, suba para o dormitório guarde suas coisas, e descanse. Disse-lhe o preocupado regente.

Na manhã seguinte, Ego foi encontrado caído no banheiro, em uma poça de sangue, depois de cortar os pulsos, tirando a própria vida. Naquela noite entendeu que não conseguiria conviver com a culpa pelos seus erros, mas também com a falta que sentia de Olga e Adonis, por isso preferia expiar seus pecados no inferno, como um anjo caído que agora se tornara.

Quanto à fogosa menina? Na semana seguinte à partida do padrezinho, chegou na fazenda uma nova família de colonos – o pai, a mãe e uma jovem filha do casal. Seu instinto predador logo acendeu quando conheceu Clara dos Anjos, sua nova amiga – e objeto de desejo.

Soturnos

Oswaldo tinha acabado de ser nomeado. Cidade nova, colegas novos. Aquilo o incomodava, por conta das suas dificuldades de relacionamento. Logo no primeiro dia, um choque – sua turma era problemática: os piores do ensino médio.

A primeira aula foi um caos, no entanto, uma aluna chamou sua atenção: no fundo da sala, cabelos castanhos compridos, pele muito branca, e que não interagia com a turma, apenas o olhava fixamente. Finda a aula, todos começaram a sair, e quando reparou, já tinha sumido.

No dia seguinte, com um semblante triste,  a viu sentada na mesma carteira. Hora do recreio e todos correram, menos ela Então, Oswaldo se aproximou e perguntou.

– Qual seu nome mocinha?

– Alice, respondeu a jovem.

– Reparei que você não conversa com os colegas. Posso saber o motivo?

– Não gosto de gente. Respondeu com dureza.

Aquilo o balançou, pois também não se sentia bem com as pessoas. Fim do intervalo.  A aula recomeçou, mas a menina havia desaparecido. Então,  foi até a Secretaria, onde descobriu que não havia nenhuma Alice matriculada em sua turma. De tanto insistir, a secretária disse que deveria ser a aluna que tinha se suicidado. Mas esse assunto era proibido dentro do colégio.

Foi para casa com aquela história na cabeça. Buscou nos jornais, e descobriu que Alice tinha se matado por causa de um professor que abusou de sua inocência, e depois a desprezou. Por isso se cortou dentro do banheiro.

No outro dia, quando entrou na classe, lá estava ela novamente. Se aproximou e disse:

– Já sei quem é você, e qual a sua história. Só queria entender o porquê ainda está aqui.

– Estou aqui por sua causa. Você é a única pessoa em quem sinto confiança.

Depois disso, Alice nunca mais foi vista. Oswaldo também sumiu. Seu corpo foi encontrado dentro do banheiro de casa, com os pulsos cortados. Agora, ele e Alice vagam pelas sombras, como um casal estranhamente soturno, e perfeito.                    

Sítio do Pica-Pau Amarelo

Seu Anastácio era conhecido na vila como um grande contador de causos, mas também um bom mentiroso, que se gabava de ter amizade com todas as criaturas da mata. 

Um dia, os agentes do Programa de Saúde da Família foram visitá-lo, para ver como andava sua saúde. Chegando na tapera simples onde morava, começaram o atendimento. Foi quando, do nada, apareceu um moleque na janela.

-Bença Tio Anastácio.

-Deus te abençoa, meu fio.

Curioso, o médico pergunta:

-Não sabia que o senhor tinha sobrinho, Seu Anastácio.

-Tenho não Dôtor. Sô sozinho nesse mundo. Eu, meu Pai Oxóssi e meus amigo da mata.

Com cara de deboche, ele apenas riu de lado.

-Tio, o qui que eles tão fazeno cum ocê?

-Nada não fio, precisa percupá não.

Ainda desconfiado, o moleque pergunta:

-Tio, posso pegá seu fogo prá acendê meu pito?

-Pode fio, pega ali no fogão de lenha.

Então, o médico, a enfermeira e a agente comunitária levaram o maior susto. Entrou pela porta um moleque de short, sem camisa, com uma perna só, um cachimbo n’uma mão, e um gorro vermelho na outra. Pegou a brasa, acendeu o cachimbo, e saiu pitando.

-Intão bença Tio. Ah Tio, o Tatá mandô avisá que despois que iscurecê, ele vem cá proseá cum o sinhô.

-Tá bão fio, vem ocê tumem. Respondeu o caboclo.

De queixo caído, o médico encerrou o atendimento tremendo de medo, e caiu no trecho junto com sua equipe, antes que o Caipora, o Curupira ou a Mula Sem Cabeça resolvessem aparecer por ali, para ter um dedo de prosa com o velho Anastácio.

Erato

Aquele era para ser apenas mais um dia na vida de Jordão. Ao chegar à escola, cumpriu seu ritual – assinou o ponto, pegou no armário os livros que usaria, higienizou com álcool suas canetas e apagador, colocou o jaleco, e seguiu para a sala-de-aula – em silêncio. Homem sistemático – e de temperamento difícil, solteiro e solitário, não gostava de pessoas. apenas de livros e de suas criações – era taxidermista.

– Bom dia classe. O tema da aula de hoje é mitologia grega. Vamos falar sobre as nove filhas de Zeus e Mnemósine.

Enquanto ajeitava as coisas sobre a mesa, percebeu uma agitação incomum na turma, que estava estranhamente ruidosa naquela manhã.

– Atenção alunos, a aula já começou. Posso saber o motivo desse burbúrio?

– Professor, é que a Tereza do 2A está desaparecida há cinco dias. O senhor não ficou sabendo?

– Desaparecida? Então é por isso que ela não tem vindo às minhas aulas, certamente.

– Estão desconfiados de que ela morreu, professor. Os pais encontraram seu celular jogado em uma lixeira, aqui perto da escola.

– Bobagem isso, vai ver que ela fugiu de casa com algum namorado, e não quer ser encontrada. Isso é normal entre vocês adolescentes.

Então, o aluno mais irritante e abusado da turma, Roberto, levantou a mão e perguntou:

– Professor Jordão, o senhor já desejou matar alguém? Ou já matou?

Enrubescido, o lente teve uma crise nervosa.

– Moleque petulante e mal educado. De onde você tirou essa ideia estapafúrdia? Você está me chamando de assassino? Como ousa, seu impertinente!

Transtornado e tremendo, o homem alegou um mal súbito, e encerrou a aula. Chamou a supervisão para cuidar da turma, e foi à direção. Pediu para ir embora, justificando a necessidade de procurar atendimento médico.

No caminho de volta para casa, sua cabeça parecia girar em um turbilhão de pensamentos e emoções. Não conseguia concatenar um raciocínio, suava e delirava, queria apenas chegar rapidamente.

Com sofreguidão, abriu a porta, entrou e fechou todas as cortinas, tirou o telefone do gancho, e foi direto para o quarto. Sentado na beira da cama, fitou longamente, depois tocou com carinho o rosto de uma jovem, desnuda e sem vida – era Tereza.

– Já voltei minha menina. Agora somos somente nós dois. Eu lhe prometo que nunca mais sentirá dor ou tristeza, nem tampouco irá envelhecer minha pequena. Cuidarei para que continue linda por toda a eternidade, sendo esse anjo que arrebatou meu coração e meu espírito. Ficaremos juntos até o fim dos dias, minha Musa.

O dia em que inventaram a dor

Era para ser mais uma manhã de sábado, como todas as outras manhãs. Maria acendeu a casa, com o cheiro do café. Ricardinho, o caçula e mais matreiro dos filhos, tratou logo de pular da cama, pegou um pão na cozinha, e se despediu da mãe com um beijo lambuzado de margarina.

Como tantas outras mães da comunidade, cuidava sozinha da família. O marido foi embora, quando as gêmeas tinham apenas dois anos, e o mais novo estava na barriga. Dos seis filhos, apenas Ricardinho, Tayla e Mayla moravam com ela. O primogênito cumpria pena por receptação e associação criminosa, e os outros dois estavam casados.

Enquanto cuidava dos afazeres domésticos, entre a água no arroz, e a roupa no varal, a calmaria da casa foi quebrada pelos tiros no morro, e pela vizinha do lado gritando, e anunciando a tragédia:

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A operação “Devoto Fiel” começou a ser planejada meses antes. O serviço de inteligência da Polícia descobriu que o Morro do Feijão, tinha se tornado a porta de entrada para o armamento pesado, que era distribuído nas outras comunidades controladas pela facção.

O alvo da operação era “Playboy”, o traficante que controlava o Feijão, e se tornou o maior receptador de armas do estado. Era um homem perigoso, que só andava com escolta, e armado até os dentes o tempo todo, menos em um dia. “Playboy” ia à Igreja aos sábados, logo cedo – sim, ele era evangélico. Lá o pastor celebrava um culto reservado, somente para o dono do morro. Esse era o único momento em que ele ficava desarmado, e nessa hora o bote seria dado.

Assim que Ricardinho saiu de casa, tratou de passar no posto de comando, pegou seus instrumentos de trabalho, e assumiu o turno na laje. Com o rádio em uma mão, e a caixa de foguetes em outra, se transformava em Foguetinho, o melhor fogueteiro do morro. O moleque era um corisco, miúdo e esperto conseguia disparar o artefato, e sumir antes da pólvora pipocar.

Naquela manhã tudo estava tranquilo na comunidade, por isso Foguetinho levou um baita susto, quando o rádio gritou:

-Os homi tão subindo!

No mesmo instante, tirou o canudo da caixa, acendeu o pavio e, mal o bicho subiu, tratou de pular da laje. Só que o moleque esperto e matreiro, dessa vez não teve tanta sorte.  Enquanto descia o escadão correndo, acabou entrando no meio de uma troca de tiros, entre a polícia e os homens do “Playboy”.

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A mãe largou as panelas no fogo, as roupas do varal pelo chão, e saiu de casa desesperada. Fatidicamente, quando chegou ao local, já não havia mais o que fazer – encontrou o corpo do filho ensanguentado, e sem vida. Uma bala perdida havia achado Ricardinho, mas naquele dia quem morreu  foi Maria.

Carpe Diem

“que toda viagem/ é feita só de partida”

(Paulo Leminski)

Theo e Rosana se conheceram no ensino médio. Da paquera entre adolescentes, até o sim no altar, bastaram apenas 10 anos. Ele médico, ela engenheira, agora eram um casal à espera do novo membro da família – Bento, que crescia sossegadamente na barriga da mãe.

A vida sorria dentro daquele lar, onde não faltava nada, e sobrava carinho e cuidado. Theo era amoroso nos pequenos detalhes. Do ramalhete deixado sobre a mesa, no café da manhã, até uma apaixonada declaração em via pública. Tudo sempre acompanhado de uma incomum assinatura – Carpe Diem.

-Amor você é maravilhoso, sou a mulher mais feliz, e amada desse mundo. Te amo. Disse Rosana em uma mensagem para o marido, ao abrir a janela do quarto, e dar de cara com a foto do casal junto de uma cegonha, que trazia um bebê em seu bico, estampada em um outdoor.

Naquele dia marcaram de se encontrar na hora do almoço, na clínica onde seria feito um novo ultrassom de Bento.-Tudo certo com o bebê, afiançou o médico.Claramente emocionado, acariciou a barriga da esposa.-Meu filho, você é meu presente de Deus. Papai vai te amar até o infinito, estando perto ou longe.

Como que entendendo o recado, Bento começou a se mexer no ventre da mãe.

-Olha amor, como nosso menino está chutando, vai ser craque de futebol. E os olhos marejados deram lugar aos risos de felicidade.

Meses depois, o herdeiro chegou enchendo a casa de alegria. O silêncio foi quebrado pela presença do recém-nascido. Theo acompanhou cada momento importante do rebento – do primeiro banho às noites insones de dor de barriga, deliciando-se em conversas intermináveis com o filho, durante a madrugada.

-Pois é filhão, o papai já te contou como conheceu sua mãe? Não? Então vou contar agora.

Eu era um pouco mais velho do que você, e tinha acabado de mudar de cidade. Estava vindo de uma escola particular, para uma pública. Quando pisei no 1A, a coisa mais linda que vi foi uma ruivinha sardenta, sentada na primeira carteira, da primeira fila, ao lado da porta. Meu coração quase parou. Não conseguia disfarçar meu encantamento. Depois disso, não houve um dia sequer em que não estivéssemos um ao lado do outro.

E assim o tempo foi passando. Bento crescendo, a família feliz e realizada, até que um dia tudo mudou bruscamente.

Eram quatro horas da madrugada, quando Theo começou a passar mal. Uma forte crise de tosse lhe tirou o sono, e a vida. Quando acendeu a luz do abajur, viu o sangue escorrendo pela boca. Do socorro médico, até o registro do óbito foram menos de 24 horas No atestado, a causa mortis indicava – hemorragia pulmonar.

A trágica história do rapaz começou logo depois de seu nascimento. Theo foi o filho desejado de pais ansiosos, que já haviam passado pela dor de quatro gestações perdidas. Porém, o sonho azul da família logo se tornaria um pesadelo. Com apenas três meses de vida, uma infecção renal levou a criança para a UTI, onde permaneceu por quatro meses, até que os médicos chegassem ao diagnóstico – síndrome do bom pastor, uma rara doença autoimune onde o sistema imunológico ataca os rins e os pulmões, levando a danos severos, ou até mesmo a morte.

Revertido o quadro infeccioso, seguiu a vida como uma criança normal, convivendo com visitas ao médico, até que a doença se estabilizasse ao fim da fase infantil.

Já adolescente, os pais lhe explicaram tudo sobre sua condição clínica, que não possibilitava prevenção ou cura, e deixaram um doído e definitivo recado para o filho:

-Theo, você é a realização do sonho de nossas vidas, mas não podemos lutar contra o destino. Essa doença é perversa e traiçoeira, por isso só desejamos uma coisa – seja feliz, e aproveite cada minuto, como se fosse sempre o último.

Pouco tempo depois, mudaram-se da capital para o interior, em busca de qualidade de vida para o jovem. E foi justamente na turma do primeiro ano do ensino médio, em uma escola pública de cidade pequena, que Theo se apaixonou por uma ruivinha sardenta, que viria a ser a mãe de seu filho, e o amor maior de sua vida.