Setembro

“Tinha apenas 14 anos quando conheci Paulo André – ele um repetente da 7ª série, já com seus 17 anos – eu uma novinha ingênua, tímida e sem experiência, aluna aplicada, e boa filha. Essa foi a fórmula perfeita para me envolver, e ceder a todos os seus caprichos e vontades. Quando me dei conta, já estávamos namorando, ainda que a contragosto de toda a minha família.

Paulo André, além dos problemas escolares, tinha um histórico de violência e envolvimento com drogas. Todos na escola sabiam disso, e os meninos da minha idade morriam de medo dele. Sem uma estrutura familiar, foi criado por sua avó que fazia todas as suas vontades, e nunca aceitou que falassem mal do neto – para ela o Paulinho era um bom menino.

Que de bondoso não tinha nada. Desde o início da nossa relação, sempre fui submissa. Não conseguia me desvencilhar, mesmo ele já tendo sido bruto comigo várias vezes. Quando me pegava com violência, parecia que era atraída pelo seu beijo, e pelo gosto de cigarro em sua boca. Dos amassos para a relação sexual, foi só questão de tempo…

Como toda menina inocente ficava imaginando como seria minha primeira vez – ah, será com alguém especial, que goste muito de mim, e me trate com carinho. Na hora do ato, será algo mágico, o encontro de dois corpos que se querem muito, e se respeitam. Primeiro ele me tomará em seus braços, acariciará meus cabelos, beijará minha boca e tocará levemente meus seios. Depois, me colocará delicadamente na cama, beijará cada parte do meu corpo, até me penetrar carinhosamente e sem dor, somente desejo e amor. Por fim, na hora do gozo, serei transportada para o mundo das fadas, e aquela será a melhor sensação da minha vida, coroada com nossos corpos enredados em um longo e definitivo beijo. Na vida real, eu perdi a virgindade dentro do banheiro da escola, de quatro num vaso sanitário sujo e mal cheiroso. Paulo André arrancou com brutalidade minha calcinha e me penetrou com força, enquanto que com uma mão tapava minha boca, e com a outra puxava meus cabelos, me cavalgando como se eu fosse uma égua. No final, com o sangue escorrendo pelas minhas pernas, ainda perguntou:

– E aí novinha, o sistema aqui é bruto, gostou?

Trêmula de dor apenas sorri, e acenei com a cabeça concordando que sim.

O sexo passou a ser a razão de nosso relacionamento, o que não quer dizer que tenha sido menos doloroso, e desagradável nas outras vezes, pelo contrário. Para ele não existia hora nem lugar, era quando tinha vontade, assim transamos atrás do muro da escola, debaixo da ponte e até num lixão perto de casa. Foi aí que comecei a conhecer suas perversões, e sadismo.

Quando completei 15 anos, já namorando há oito meses, desmaiei dentro da sala de aula. Fui levada para e enfermaria, e de lá para o Pronto Socorro. Quando os médicos me examinaram veio a notícia – estava grávida de seis semanas. Aquilo explodiu como uma bomba em minha casa, já que meus pais nem sonhavam que eu já transava com meu namorado, e também na minha vida – pois nunca imaginei que isso pudesse acontecer, apesar de ter consciência dos riscos que corria, já que ele nunca aceitou usar preservativo.

Como Paulo André já era maior de idade, minha família o obrigou a assumir a responsabilidade, e acabamos indo morar na casa de sua avó que, toda orgulhosa do neto, mobiliou nosso quarto, e pagou todas as despesas até o nascimento da bebê. Contudo, por conta de um infarto fulminante, morreu um mês depois de conhecer a bisneta.

Com a morte da avó que nos sustentava, ele herdou a casa onde morávamos, e alguns quartinhos de aluguel que ela mantinha no fundo do lote. Mas, mesmo assim, as despesas eram altas, por isso ele foi obrigado a arrumar um serviço. Eu parei de estudar logo depois que descobri a gravidez, e agora vivia para cuidar da minha filha, e da casa.

Se durante a gestação ele quase não me procurou para fazer sexo, pois a avó estava sempre por perto, agora sozinhos em casa tudo voltou a ser como antes. Aliás, pior do que era antes. Além de me forçar a ter relação, ainda me batia.

Passados dois anos, eu estava prestes a fazer 18, quando descobri que estava grávida novamente, apesar de estar tomando pílula, que pegava no posto escondido. Quando ficou sabendo que seria pai outra vez, até ficou feliz, achando que agora teria um filho homem – seu grande sonho. Mas quando peguei o resultado da ultrassonografia, e descobri que teria outra menina, ele ficou transtornado e saiu pra rua. Voltou bêbado tarde da noite, e me espancou, depois me pegou com brutalidade e fez sexo. No final, urinou em cima de mim – segundo ele era um “banho dourado”, meu prêmio por não ter sido capaz de fazer o filho homem que tanto queria – e as perversões estavam apenas começando.

Na segunda gravidez não houve uma noite sequer de paz, em que eu não tivesse que atender aos seus desejos, cada dia mais sujos e nojentos. Já com nove meses, e uma barriga enorme, trouxe para casa uma travesti, e me obrigou a ter relação com ela enquanto assistia – aquele foi o pior dia da minha vida.

Pouco depois que minha segunda filha nasceu ,e ainda no resguardo, continuava a me procurar. Mas preocupada com minhas filhas – a essa altura minha única razão de viver – eu atendia aos seus caprichos. Um dia, quando estava passando mal, com muita enxaqueca, pedi que me deixasse quieta pois não estava bem. Furioso, disse que se eu não fizesse o que ele queria, quem iria pagar seriam as meninas. Assustada, e temendo por elas, cedi mais vez.

Seis anos se passaram e nada mudou, só os vícios que aumentaram. Paulo André agora havia se tornado um viciado – cheirava pó dentro de casa, perto das crianças. Emprego já não tinha há muito tempo, vivíamos dos aluguéis que mais falhavam do que vinham, por isso, decidi começar a trabalhar como diarista, para que não faltasse nada em casa para minhas filhas. Apesar de ter apenas 24 anos, minha aparência já era de mais de 30, com as marcas da violência doméstica estampadas em meu rosto, e em meu corpo.

Mesmo tentando evitar ao máximo, com 26 descobri que estava grávida outra vez. Fiquei desesperada, com medo de ser outra menina, mas quis o destino que dessa vez viesse o filho que ele tanto desejava. Quando ficou sabendo do resultado, quase explodiu de felicidade, prometeu que mudaria e que, dali em diante, tudo seria diferente. E até foi, por um tempo. Diminui com o álcool, e parou de cheirar dentro de casa, começou a fazer uns biscates e a me tratar com um certo respeito, durante o sexo.

Quando a criança nasceu veio a surpresa, e a decepção. Ao pegar meu bebê no colo, ainda na sala de parto, percebi que tinha algo de errado com ele. Pouco depois fui descobrir que ele nascera com Síndrome de Down – provavelmente por conta dos abusos do pai com as drogas, durante a gestação. Paulo André ficou revoltado com a notícia, me culpou por ter dado a ele um filho retardado, e rejeitou a criança.

Depois desse dia, minha vida virou um inferno. Tinha que cuidar do meu filho especial, das meninas que a essa altura eram meu único ponto de apoio, e ainda atender às vontades do meu marido. Suas perversões agora tinham ganhado outro sentido – seu prazer era me fazer sentir dor e humilhação, por isso se divertia enfiando as coisas dentro de mim durante o sexo, me amarrando e me espancando. Seu sadismo chegou ao ponto de me obrigar a ter relação perto dos meus filhos, com eles assistindo.

A essa altura minha filha mais velha, já com 12 anos, depois de ter crescido naquele ambiente, vendo as surras e a forma como o pai me tratava, tinha se tornado minha melhor amiga, mas também desenvolvido uma revolta e um ódio mortal contra ele, que o ímpeto da adolescência não deixava esconder. Estavam sempre brigando, ela o enfrentando enquanto meu marido ameaçava espancá-la. Para evitar que o pior acontecesse, ia para o quarto e deixava que descontasse em mim toda sua raiva e frustração.

Até que um dia, entrando em casa ouço os gritos da minha menina mais velha. Quando chego no quarto, vejo Paulo André em cima dela, tentando tirar sua roupa para violentá-la. Naquela hora o sangue subiu à minha cabeça – eu que sempre me submeti às vontades daquele monstro, que nunca chorei ou reclamei durante o sexo sujo, não podia permitir que ele fizesse a mesma coisa com a minha filha. Num ataque de fúria agarrei ele com força e o joguei no chão, que bateu a cabeça num móvel, e caiu sangrando. Corri até a cozinha, peguei a maior faca que encontrei, e comecei a furá-lo sem dó, até que em volta de mim só restasse sangue e alívio.”

Minha filha, termino aqui essa carta com a certeza de que você e seus irmãos agora estão bem, e em segurança junto de seus avós. Fiz questão de lhe contar a história desde o início, para que conhecesse as razões que me levaram a estar onde estou e, mais do que isso, para que entendesse que você foi – e sempre será – a melhor parte de mim, minha melhor amiga, meu porto seguro. Por esse motivo, nunca poderia deixar que nada de mal lhe acontecesse. Sei que cometi um grande erro, e estou pronta para pagar por ele, mas hoje meu amor, dia sete de setembro, quando se comemora a Independência do Brasil, acredite que eu também comemoro a minha independência. Pela primeira vez, em quase 20 anos, me sinto livre novamente.

Fica com Deus, e nunca se esqueça que sua mãe te ama muito.

Sistema Prisional Estadual
Presidio Feminino – cela 35/pavilhão 2

Agosto

Bastava chegar agosto, para que os moradores da pequena Santo Antônio da Bocaina ficassem em polvorosa, temendo a passagem da Maria Preta – será que ela voltaria novamente? E isso se repetia há mais de 10 anos. Não existia uma mãe ou pai que ficasse sossegado durante esse mês, temendo pela segurança de seus bebês, afinal 12 já haviam sumido misteriosamente, sempre no dia 13, e nunca foram encontrados. Até a polícia da capital havia sido chamada para investigar os desaparecimentos, mas, sem sucesso, não encontraram pista sequer que levasse ao paradeiro dos rebentos.

Por conta disso, a Igreja resolveu enviar um padre exorcista, especialista em assuntos desse tipo, para investigar o mistério que envolvia aquela cidade, já que para a população local a culpa era uma maldição que se abatera sobre o povoado.

Segundo contavam os mais antigos, quando Bocaina ainda era a terra dos Barões do café, existia na região uma famosa parteira – a Maria Preta – uma escrava alforriada que trazia ao mundo os filhos da região – dos nobres aos mais humildes, era sempre ela quem chamavam para cuidar.

Até que um dia, algo deu errado. Durante o nascimento do primeiro filho do Barão de Bocaina, a mãe e a criança perderam a vida, em razão de complicações na hora do parto. Transtornado e cheio de ódio, o homem mandou açoitar a pobre mulher, que implorando misericórdia, morreu no tronco, jurando se vingar daquele povo malvado.

Passados mais de 100 anos do ocorrido, a primeira criança sumiu de seu berço, em uma noite de agosto, 13. Para desespero dos pais, ela nunca foi encontrada, e mais 11 haviam desaparecido, desde então – uma a cada ano. Muito supersticiosa, a população atribuía a culpa dos sumiços à maldição da “Maria Preta parteira”, que havia jurado vingança.

Para acabar com qualquer chance de aquele ser um fenômeno sobrenatural, padre Antônio Pio acabara de chegar à cidade, com a missão de investigar a fundo aqueles desaparecimentos. O religioso era um especialista em questões desse tipo, já tendo desvendado várias fraudes, mas também comandado inúmeras sessões de exorcismo, sempre servindo-se das orações, e da cruz de São Bento para curar as almas atormentadas por criaturas malignas.

Na noite malfadada, a cidade transpirava tensão, bastou escurecer para as ruas ficarem desertas, e as casas todas acesas – era uma sexta-feira 13 de agosto – não poderia existir pior presságio. Nas famílias onde haviam bebês, mães desesperadas agarravam-se a seus rebentos, temendo o pior.

Enquanto isso, padre Pio mantinha-se em oração na Igreja Matriz de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, rogando por iluminação no esclarecimento daquele mal, que afligia os pais e mães da pequena cidade.

De repente, alguém entra gritando dentro da Matriz:

– Padre, padre acode. A Maria Preta passou de novo!

De imediato, o religioso pegou seu terço de São Miguel Arcanjo, sua Bíblia e a insígnia de São Bento, e saiu em disparada para tentar não perder nenhuma pista, e ainda encontrar a criança em segurança.

Chegando na casa da vítima, o religioso encontra uma família em desespero. A mãe inconsolável se joga aos seus pés:

– Por misericórdia padre, me ajuda, levaram minha bebê!

Tentando entender o ocorrido, o padre busca acalmar a mãe e lhe pergunta:

– Calma minha filha, nós vamos encontrar sua filha, mas antes preciso que você me explique como tudo aconteceu.

Ainda em soluços, a pobre mulher lhe diz:

– Olha padre, nós tomamos todos os cuidados. Meu marido estava na sala com nossos dois filhos maiores, e eu fiquei no quarto com minha bebê, ao colo. Como ela havia dormido, eu a coloquei no berço, e saí apenas por um instante para ir ao banheiro, quando voltei ela já não estava mais lá. Pelo amor de Deus padre – em prantos – acha minha filha!

– Tenha fé, nós vamos encontrá-la. Me leve ao quarto onde a bebê estava!

Chegando ao local, o religioso pede para entrar sozinho. Faz uma oração rogando a São Bento iluminação, e começa a procurar pistas. Antes de ser apenas um religioso, padre Pio era um especialista forense, por isso investigava em detalhes todos os fatos, para somente depois tratar do sobrenatural. Vasculhando o local, encontra no chão, ao lado do berço, algo que chama sua atenção – um terço. Retorna à sala, e pergunta à família:

– Por acaso vocês reconhecem isso aqui?

A mãe e o esposo olham para o objeto sem entender a pergunta, mas não sabem explicar de onde teria surgido. Então, apressado, o religioso se despede e retorna à Matriz, prometendo descobrir a verdade, e o paradeiro da criança.

Chegando à Igreja, chama o vigário local e lhe faz a mesma pergunta:

– Padre João, o senhor reconhece esse terço aqui?

O homem então o pega nas mãos, e prontamente responde:

– Com certeza que sim, é da dona Virgínia, a catequista da nossa paróquia. Por que a pergunta? Onde o senhor o encontrou?

Sem tempo para dar explicações, pede ao vigário que lhe indique onde mora a tal senhora. Padre João, então, chama o diácono, e pede que leve padre Pio até a casa da catequista.

Intrigado, o homem chega no endereço da religiosa. Era um sobrado antigo, que ficava numa rua quase deserta. No local, a casa estava toda apagada, mas vindo do porão via-se uma luz mortiça, de onde era possível escutar um choro abafado de criança. Ele então orienta ao diácono que retorne imediatamente à Igreja, e peça ao padre João que acione a polícia, para que venham imediatamente ao seu encontro.

Enquanto aguarda a chegada do reforço policial, o investigador se aproxima do porão e vê, por entre a fresta de uma janela, algo terrível – 13 berços, um ao lado do outro.

Com a chegada do destacamento policial, o religioso toma a frente e consegue acessar uma porta que levava ao interior da casa. Chegando lá, encontra uma portinhola entreaberta, iluminada por uma luz de lamparina. Quando os homens se aproximam sentem um cheiro forte e desagradável, e ouvem o choro de um bebê. Então, se apressam para descer ao porão, onde encontram dona Virgínia que embalava carinhosamente a pequena em seu colo.

Surpreendida, ela a joga dentro de um berço vazio, e foge por uma porta lateral. O que eles encontraram ali era assustador. Nos outros 12 berços, 12 bebês enrolados em mantas, já em avançado estado de putrefação, com um detalhe sombrio – todos tinham as bocas cobertas por fitas adesivas, postas em formato de cruz.

Preocupado com a sobrevivente, padre Antônio a pega no colo, garantindo que ainda esteja bem, e com vida. Muito assustada e chorando, ela é entregue a um dos policiais, para que seja levada de volta à família. Então começa a perseguição pela criminosa, que cometera crimes tão bárbaros.

O efetivo policial empreende uma busca pela região, mas são avisados de que a fugitiva estava na torre da Igreja Matriz.

Chegando lá, padre Antônio vê uma mulher transtornada, e gritando:

– Ninguém vai tomar meus bebês, eles são meus, não vou perdê-los de novo!

A cidade toda corre para o largo da Matriz, para acompanhar o desfecho daquela trágica história. Sentindo-se acoada pelos policiais, que chegavam à torre para capturá-la, a enlouquecida assassina se atira do alto da Igreja, em um salto para a morte.

O que todos queriam entender era como o investigador tinha descoberto a sórdida trama, e o porquê daquela bondosa senhora, sempre tão zelosa com as crianças da paróquia, ter se tornado um ser tão abjeto e vil.

Para a primeira pergunta, Pio explica à comunidade:

– Bem, quando entrei no quarto encontrei um terço, caído no chão ao lado do berço. Mas não era um terço qualquer, e foi esse detalhe que me levou à assassina de crianças. Era uma relíquia de Santa Gianna Beretta Molla, uma santa italiana certamente pouco conhecida por aqui, e que por isso mesmo me ajudou a chegar até Virgínia.

E continua o padre:

– Tão incomum quanto à devoção a essa santa, é a sua história de vida – “Santa italiana, adoeceu de câncer e decidiu continuar com a gravidez de seu quarto filho, em vez de submeter-se a um aborto, como lhe sugeriam os médicos para salvar sua vida. Gianna estudou medicina e se especializou em pediatria. Casou-se e teve quatro filhos. Durante toda sua vida, conseguiu equilibrar o trabalho com sua missão de mãe. Morreu aos 39 anos, uma semana depois de ter dado à luz. Foi canonizada em 16 de maio de 2004 pelo Papa João Paulo II, que a tornou padroeira da defesa da vida.

Surpresos com aquele relato, ficava agora a pergunta. Qual motivo teria levado aquela mulher, temente à Deus, a cometer tamanha loucura? Essa pergunta só foi respondida pela Polícia, depois de finalizadas as investigações.

Virgínia era uma mulher solteira que dedicou a vida às crianças, e à Igreja. Há mais ou menos 15 anos, teve um envolvimento amoroso proibido com um padre. O fruto dessa relação foi uma gravidez, interrompida por um aborto provocado, já que o relacionamento entre o casal nunca poderia ser descoberto.

Como consequência do procedimento abortivo, veio a infertilidade. Por isso, remoída pelo remorso e pela culpa, a mulher perdeu o juízo e roubou a primeira criança. Em uma lógica perversa e insana, para acobertar seu crime, espalhou entre os moradores que aquilo era culpa da maldição da “Maria Preta parteira” e, desde então, não parou mais de cometer seus bárbaros atos.

Ainda sob o impacto daquelas revelações, a cidade aos poucos foi retomando sua vida normal. Os corpos dos desaparecidos foram entregues às suas famílias para que fossem sepultados, e a bebê salva por padre Pio, devolvida à família bem e com saúde. Ninguém mais ousou falar de Maria Preta que, lenda ou personagem da história de Bocaina, foi absolvida dos crimes a ela imputados.

Quanto ao padre Antônio Pio, retornou para a Cúria onde um novo caso o aguardava, em sua nobre missão de investigar o sobrenatural, mas sobretudo de trazer a luz da verdade aos fatos.

La Catrina

Júlia estava lindamente radiante ao pisar no tapete vermelho, acompanhada de um pai que não cabia em si, de tanta felicidade. A nave central da igreja estava decorada com gérberas da cor lilás, que realçavam ainda mais os detalhes em dourado, bordados na enorme cauda do vestido.

Ao som de “All you need is love”, interpretada por um coro infantil, acompanhado pelo delicado som de um quarteto de sopro, a nubente alcançou o altar, onde Eduardo – seu noivo –  a aguardava trêmulo de emoção, vestindo um meio fraque bege.

“Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe.”, com essas palavras do evangelista Mateus, o pároco destacou em sua homilia que o casamento é um sacramento, um sinal visível da graça de Deus, que fortalece a união e a promessa de amor que perante a Igreja, só pode ser desfeito pela morte.

Na hora do tão esperado beijo, a noiva subitamente empalideceu, e caiu já sem vida, nos braços de um esposo assustado, que parecia não acreditar que o sonho de uma vida, pudesse acabar em um breve instante.

O acontecido virou manchete nos jornais, e até na televisão. Durante as exéquias, o viúvo estava transtornado – um morto-vivo, sem alma, esperança e desejo de continuar vivendo. Ao seu lado todo o tempo, estava Rafaella, gêmea de Júlia, que vencendo a dor da perda de sua única irmã, ainda encontrava forças para amparar o ex-cunhado.

Na hora do sepultamento, a comoção dos presentes foi geral, ao presenciarem o desespero de um jovem rapaz, que não resistindo à dor da perda de sua esposa, desfaleceu e teve que ser amparado por familiares, que o retiraram antes dos ritos finais. Terminada a cerimônia, todos haviam deixado o local, menos Rafaella que se aproximando do túmulo, tocou a foto da irmã, e foi embora.

As gêmeas nasceram em uma família de classe média alta – pai advogado, mãe dentista – por isso mesmo sempre tiveram todo o conforto e cuidado, que o dinheiro poderia lhes proporcionar. Apesar de idênticas na aparência, Júlia sempre foi mais doce do que a irmã que, ao contrário, parecia eternamente ressentida.

Ainda na fase escolar, enquanto uma era a queridinha dos colegas e professores, a personalidade forte da outra a tornava a antipática da turma. Já adolescentes, Rafaella se divertia trocando de lugar com a irmã, principalmente quando começaram a surgir os primeiros namoricos. Gentil e amorosa, Julia sempre cedia aos seus caprichos.

Com a chegada dos estudos universitários, a moça conheceu Eduardo no primeiro ano de faculdade, quando cursava Direito, e ele Administração. Foi um amor incondicional, os dois pareciam feitos um para o outro. A meiguice da jovem completava a simpatia do rapaz, que conquistou a família desde o primeiro dia, quando pediu ao Doutor Fonseca permissão para namorar em casa.

Ao contrário da outra gêmea, Rafaella nunca teve um relacionamento duradouro. Na faculdade de medicina ganhou a alcunha de “destruidora de lares”, pois colecionava entre seus casos e rolos, vários professores.

Durante o baile de formatura da irmã, no meio da festa,  e depois de muitas doses de whisky, ela roubou um beijo do cunhado, e disse em seu ouvido:

– Você ainda vai ser meu um dia!

Embalados pela alegria e pelo álcool, ninguém deu importância ao acontecido, e a vida das duas seguiu rumos bem diferentes. 

Júlia decidiu especializar-se em Direito da Família, passando a atuar voluntariamente em projetos sociais, enquanto se preparava para a magistratura – seu grande sonho.

Já Rafaella, terminou o curso de Medicina, e especializou-se em Psiquiatria. Segundo suas próprias palavras, “queria tratar de loucos, assim como ela”. Montou uma clínica, e passou a atender apenas endinheirados e famosos.

Um dia, a irmã virou sua paciente. Sofrendo com crises de ansiedade, por conta da proximidade do casamento, e do concurso que faria logo em seguida, pediu à doutora que lhe receitasse algo, para aliviar aquela tensão. Então, ela prescreveu um tarja preta tão forte, que não era vendido em farmácias, deveria ser encomendado diretamente do laboratório, a Venlafaxina.

Estranhando a prescrição, Júlia perguntou:

– Rafa, você tem certeza de que esse remédio não é muito forte?

– Claro que não é sua boba, você acha mesmo que eu ia receitar algo que pudesse lhe fazer mal? Esse é um medicamento novo, que estou usando com meus pacientes, e tem apresentado ótimos resultados.

Confiando no carinho da irmã, e na competência da médica, a jovem tomou a medicação conforme indicado. Pouco depois, começou a ter fortes palpitações, dores no peito e sensação de desmaio. Questionada, a doutora disse que esses efeitos passariam em poucos dias, e que eram reações normais do organismo afetado pela ansiedade, ao medicamento.

E o dia tão esperado pelos noivos chegou. Rafaella não só acompanhou a irmã na escolha do vestido e na preparação da cerimônia, como deu de presente para o casal uma enorme tela, que tinha estampada a imagem de “La Catrina”, figura icônica da cultura mexicana, que desafia a ideia da morte como um fim, celebrando a vida e a memória dos mortos. Um símbolo de boa sorte e proteção segundo os mexicanos, disse ela aos nubentes.

No dia da cerimônia, ainda em casa e enquanto se arrumava, a moça começou a passar mal. Pensando tratar-se de outra crise de ansiedade,  chamaram Rafaella para atender a irmã, que lhe deu dois comprimidos da droga de uma só vez. Sem consciência do que estava acontecendo, restou a inocente noiva apenas tomar a medicação…

Eduardo e Rafaella agora vivem no México, para onde se mudaram logo depois do casamento. Ele trabalha com comércio internacional, e ela montou uma clínica psquiátrica na capital do país, que atende políticos e personalidades famosas da região. No hall de entrada, um grande mural ostenta a imagem de “La Catrina”.

Rasgados

Na alameda do cemitério, uma urna solitária é empurrada pelos coveiros. Desse passamento, nem mesmo os corvos quiseram participar. Em frente à cova, um padre impaciente aguardava para se desincumbir da missão sacerdotal. Com a chegada do féretro, o Cura rezou uma Ave Maria e deu por encerrado o caso, enquanto os coveiros desciam para as profundas, o corpo do maldito. No final, a mesma terra pela qual roubou e matou, seria sua última e derradeira companhia.

Antônio Cipriano era seu nome, mas gostava mesmo era de ser chamado de Delegado. O maior grileiro da região Norte, que carregava em seus ombros muita terra e cadáveres. Diziam por lá que rasgava na lâmina do facão, quem o desafiava. E assim, fez fortuna – tornando-se o homem mais rico de Santa Cruz do Norte. Sem família, nem filhos, sua única companhia eram as meninas de Dona Tereza, uma puta velha que comandava o maior rende vou da região, onde batia ponto toda noite. Diziam as moças que o encardido fazia questão de bater lá no fundo até doer, com um falo desproporcional, e que era seu motivo de maior orgulho. Até que um dia, tudo mudou.

Acabara de chegar ao bordel Leontina, uma moça jovem, faceira, mas cheia de ideias na cabeça sobre justiça e essas coisas. Não demorou nem uma Ave Maria para que Delegado fosse se deliciar do novo prato. Terminado o repasto, o homem ainda virou para a jovem em tom de mando:

– A partir de hoje você é só minha, não se deita com mais ninguém.

Como Leontina não se permitia colocar cabestro, tramou logo um plano de vingança;

Na noite seguinte, foi recebido por uma cabocla cheia de fogo. No meio do furdunço, ela ofereceu uma cachaça ao desinfeliz, que foi ficando bobo, bobo até virar um boneco sem reação. Somente os olhos mexiam.

Ainda vivo, mas sem poder reagir, foi levado para o meio da rua, onde começou a ser rasgado pelo povo que se juntou em volta, com a fúria de um chacal na carniça. A melhor parte ficou para Leontina – com uma peixeira na mão, cortou lentamente cada vaso e veia do falo do peste, que esguichava sangue em sua cara, cheia de prazer e contentamento. Já sem vida, o corpo foi deixado para os urubus, mas o grande troféu foi guardado, para ficar exposto no balcão do bar do puteiro de Dona Tereza.

O porão

Peguei a estrada, e fui para a fazenda de minha família resolver os últimos detalhes para sua venda, e encerramento do espólio. No caminho, a paisagem centenária do Vale do Café, me fez voltar no tempo, e recordar a cruel história de meus antepassados.

Meu bisavô, o Barão Antônio de Nogueira Sales e Sobreira, foi um dos portugueses mais ricos daquela região. Filho de nobres da Corte de D. João VI, veio ao Brasil em busca de aventuras, e se encantou por Dona Carolina Mendes e Sá, minha bisavó, filha da melhor burguesia brasileira. Casados, comprou a Fazenda da Boa Morte, a maior propriedade cafeeira da região, o que lhe rendeu a alcunha de Barão da Boa Morte.

Essa fazenda era famosa não só pela produção do melhor café, mas também por possuir a maior quantidade de mão-de-obra escrava do Vale. Nos seus tempos áureos, chegou a contar com mais de 500 cabeças de negros e negras de boa corpulência. Aliás, as negras sempre foram sua perdição, e motivo da maior lenda (ou maldição) que recaiu sobre minha família.

Segundo ouvia meu pai contar que seu avô, o Barão, tinha tamanho fascínio pelas escravas de seios fartos, que havia prenhado mais de 100. Mal saídas do ventre, as crianças eram levadas pelo capataz, e lançadas no Rio da Boa Morte. Todas, menos uma, a filha de Teresa, a preferida do malvado, que nascera de olhos azuis como a cor do céu, traço distintivo de minha família. Fato é que, ninguém mais soube da bebê depois de parida, se viva ou se morta. De tão revoltada, a negra morreu no açoite, praguejando e amaldiçoando o Barão, e todos que do seu sangue viessem.

Meu falecido pai, que sempre fora um ativista pela liberdade, nunca aprovou o modo de vida da família, tanto que fez fortuna por conta própria, sem se deixar envaidecer pelo sangue azul dos Sales e Sobreira, ao contrário de meus tios e primos que, coincidentemente ou não, morreram todos de maneira trágica. Então, eu era o último herdeiro vivo da linhagem do Barão da Boa Morte.

Chegando à sede, fui recebido por Justino – um velho negro que ainda cuidava do que sobrou da história daquele lugar.

– Boa tarde Justino. Como estão as coisas por aqui?

– Boa tarde, Dotô Gustavo. Vão indo como Deus qué, por que bem aqui nunca teve mermo.

As palavras do homem me fizeram perceber o quanto de ranço, e rancor, ainda existiam ali.

– Dotô, o senhor vai pernoitá por aqui? Perguntou com um ar de incômodo o empregado, enquanto abria a porta da sede.

-Pretendo não Justino, por quê?

-Nada não Dotô, só cisma de um nego véio mermo.

Ao entrar no casarão, a luz do sol que já ia caindo, coloria de laranja a sala decorada com vitrais portugueses. Estava tudo como me lembrava de criança, nas raras visitas que fazia aos meus avós. A cor escura da madeira dos móveis, dava ao lugar um tom mais sombrio ainda. Os sofás de veludo vermelho, a enorme mesa de jantar, com suas cadeiras de espaldar alto.  Os lustres gigantescos. As porcelanas da família guardadas na cristaleira. O relógio de pêndulo inglês estacionado nas nove horas. Tudo parecia congelado no tempo. Não fosse a poeira, diria que alguém ainda morava na casa.

Realmente, não pretendia ficar muito tempo naquele lugar, pois ele me dava arrepios, porém alguma coisa me puxava para dentro das histórias ali guardadas.

De repente, me recordei das brincadeiras de moleque, quando eu e meus primos corríamos de um lado para o outro, explorando cada cômodo. Então, me lembrei do porão, que ficava nos fundos da cozinha. Meus avós não gostavam de tocar nesse assunto, nem tampouco as empregadas, mas os filhos dos colonos sempre disseram que lá dentro vivia um monstro. Coisa de criança. Será? Mas era como se estivesse sendo chamado, para descobrir a verdade por trás daquela história.

Já estava escurecendo, então acendi uma lanterna, arrastei um móvel e achei o tal covil do monstro. Forcei um cadeado velho que se partiu, e abri a portinhola. Um cheiro desagradável de morte e dor queimou minhas narinas, quase me fazendo sufocar, contudo não conseguia mais voltar atrás, tinha que ir até lá embaixo.

Então, desci as escadas, e a luz branca começou a revelar o passado escuro de minha família. Em uma das paredes vejo pendurados algemas, anjinhos, gargalheiras e ferretes, certamente herança dos tempos de tortura e escravidão da Boa Morte.

Em outro canto muitos baús. Me aproximei, e abri um deles. Dentro encontrei pedaços de pano sujos.  N’um deles reconheci estampado, com algo que parecia ter sido sangue, o corpo de um bebê – um sentimento de revolta e nojo invadiu meu corpo.

-Meu Pai do Céu, será então que as histórias do Barão eram reais?

Descontrolado me virei, e o foco de luz encontrou uma cama. Cheguei perto, e sobre ela vi o que sobrou de um corpo.

Confuso, e sem conseguir raciocinar direito, senti alguém tocando meu ombro. Com o corpo gelado de medo me virei, e quando a lanterna iluminou o cômodo, gritei de pavor…

Então, tudo ficou escuro e quieto, para sempre.

Lykanthropía

Essa é mais uma daquelas estórias de interior, onde a Quaresma dos católicos ainda é cercada de lendas e invenções. De procissão de defuntos à meia-noite da Sexta-Feira Maior, até a aparição de assombrações na madrugada que antecede o sábado de Aleluia.

Num desses povoados muito beatos, existiu um tal de velho Nestor. Um homem já de idade avançada, que morava em uma tapera no Barro Preto, uma localidade deserta do vilarejo. Sem família e história, todos acreditavam que ele era louco. Só ia ao povoado, duas vezes por mês, uma delas para pegar mantimentos na venda do Anésio. Não trocava palavras, só rosnava, mas como o vendeiro já sabia o que oferecer, era dinheiro pra cá, e mantimentos pra lá.

A outra era na primeira missa, do último domingo de cada mês. Acompanhava a celebração, mas não comungava. Sempre em silêncio, acendia uma vela no velário. Mas o mais curioso era a maneira como deixava a Igreja. De costas para o Santíssimo, saía de cabeça baixa e de joelhos, com as mãos e os pés apoiados no chão, até chegar à rua.

Contam os mais antigos, que no ano em que o lugar sofreu várias tragédias – de tromba d’agua até o rompimento de barragem – no intervalo do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo até a Quaresma, na Sexta-Feira da Paixão, a cidade foi acordada com a maior gritaria:

– Acode gente, a casa do velho Nestor tá pegando fogo!

Os locais correram com balde, enxadas e pás para apagar o incêndio, mas quando chegaram só restavam cinzas. Nem sinal de corpo, ou do velho. Em sua memória, foi celebrada uma missa de corpo presente no domingo de Páscoa. Ninguém nunca mais teve notícia do homem – se vivo ou se morto.

Desde então, a cada Sexta-Feira Santa era possível escutar um uivo de lobo pelos arredores. Há quem diga ter avistado uma criatura andando ajoelhada, com as mãos e os pés apoiados no chão, exatamente como o velho fazia nas missas. Verdade? Mentira? Vai saber, na dúvida melhor fazer o sinal da cruz. Esconjuro, e que Nossa Senhora do Perpétuo Socorro nos proteja!

Capitu

Otaviano tinha acabado de morrer. Naquela sala, via as pessoas em torno do caixão – umas chorando, outras comentando o motivo de sua morte.

– Dizem que foi suicídio, mas a família quer abafar – especulava uma carpideira.

– Suicida? Eu? Essa mulher só pode estar louca.

No outro canto da capela, sua mulher parecia perdida no espaço-tempo, certamente ainda em choque pela tragédia. Na hora de fechar o caixão, ela se aproximou do corpo e não esboçou reação, nem uma lágrima.  

– Estranho isso – pensou o morto.

As pessoas começaram a sair, então ele viu um sujeito sentado em cima de uma sepultura, que lhe perguntou:

-Você não vai com eles?

-Tá falando comigo? – disse surpreso.

– Claro, você acha que é o único defunto aqui?

– Único não, mas não imaginava encontrar com outro. Você tá aqui há muito tempo?

– Ah, mais ou menos uns trinta anos.

– E morreu de quê? 

– Morte matada. E você?  Perguntou a alma penada.

– Eu? Sabe que até agora não sei? Disseram lá no velório que me matei, mas nunca faria isso. Nem teria motivos – tinha uma boa casa, condição financeira e uma mulher linda que me amava.

– Xi, então foi morte matada.

– Que isso cara, tá doido? Retrucou irritado.

-Tá bravo por quê? Se você não estava doente, não se acidentou nem se matou, é só juntar lé com cré. Qual é a última coisa de que se lembra?

– Deixa eu ver. Eu tinha acabado de almoçar. Minha mulher fez a sobremesa que eu mais gostava, depois não me recordo de mais nada.

– Tá vendo? Agora você já sabe até quem te matou.

– Não é possível? Ela me amava muito.

– A minha também. E me deu estricnina pra beber, misturada com cachaça. Aí cheguei aqui.

– Meu Deus, será que isso é possível? E porque ela faria isso?

– Dinheiro, e provavelmente com a ajuda de um amante.

– Amante? 

De repente um filme começou a passar em sua cabeça. E a figura de Roberto, seu sócio e melhor amigo. veio à tona. Os olhares dele para Silvia, sua esposa. O carinho excessivo dela com ele. Um ódio começou a subir dentro de Otaviano.

-E o que faço agora? Perguntou ao morto falante.

-Ora, se vinga dela e dele. É um direito capital seu, enquanto marido traído. Te garanto que se for até sua casa, vai encontrar os dois juntos agora.

Como que na velocidade do pensamento, ele e o alma penada chegaram em frente a uma casa muito bonita. Na garagem o carro de Silvia, e o de Roberto.

-Tá vendo? Disse o espírito de porco.

A raiva era tão grande, que ele parecia estar em chamas. Num piscar de olhos, estavam os dois dentro da sala, onde encontraram Silvia abraçada ao sócio, que acariciava seus cabelos, enquanto ela chorava.

– Desgraçados. Como puderam fazer isso comigo? Disse inconformado.

– Calma, Silvia, vai ficar tudo bem agora. Tranquilizava o amigo urso.

– E agora Roberto? Como vou viver com essa culpa? Resmungava a viúva traiçoeira.

– Você fez tudo o que podia fazer. Ninguém vai te cobrar nada. Consolava o descarado.

– Basta! Não quero ouvir mais nada. Como faço para acabar com os dois? Bradou o transtornado falecido.

-Mata eles ué? Respondeu o fantasma.

-Mas como faço isso se estou morto, porra?

-Você é burro ou o quê? Acha que morto não faz estrago? Tá vendo aquela vela acesa ali no oratório? Derruba ela.

E assim foi feito. A vela caiu e o fogo tomou conta do cômodo. Silvia e Roberto se abraçaram assustados, enquanto o sócio tentava proteger a viúva.

-Agora trava as janelas e as portas. Ordenou o secretário do Belzebu.

E assim foi feito. As chamas consumiram o casal, que queimou junto um do outro.

-Morram desgraçados. Tô aqui no inferno esperando vocês! Gritava Otaviano, enquanto gargalhava de satisfação.

Sobre a mesa da sala, um atestado de óbito em brasa indicava a causa mortis– Acidente Vascular Cerebral.

Síndrome de Cinderela

Giovanna foi um bebê muito esperado, e desejado. Cláudio e Patrícia, seus pais, tentaram por três vezes, até que finalmente deu certo.

Ela era uma criança linda, parecia saída de um conto de fadas. A pele branca como as nuvens, contrastava com os olhos azuis turquesa, e a boca vermelha como um rubi. Seus cabelos de tão loiros, pareciam fios de ouro – uma bebê perfeita.

Até que, com 30 dias, uma anomalia no coração a levou de volta ao hospital. Ficou internada por dois meses, até que uma junta médica, formada especialmente para cuidar de seu caso, deu o diagnóstico. Giovanna sofria de uma doença muito rara, causada por uma alteração cromossômica, que atinge um indivíduo por milhão, e faz com que o coração tenha um prazo determinado de funcionamento. Atingido esse limite, simplesmente para de bater. Por conta disso, a doença foi denominada Síndrome de Cinderela. No caso da pequena, os médicos estimaram em 15 anos, seu tempo máximo de vida.

Aquela notícia abalou profundamente a família, que quase sucumbiu ao desespero. Mas por muito amor à sua princesa, decidiram que fariam de tudo para que ela fosse feliz, enquanto tivesse vida. E assim aconteceu. 

A menina cresceu saudável, apesar da Síndrome, e foi cercada de muito amor. Giovanna era linda, doce e parecia ter o poder de encantar a todos. Na escola, cativou professores e colegas, desde o infantil até o fundamental, mas então chegou a data tão temida.

Perto de completar 15 anos, a garota escolheu Cinderela como tema de sua festa de debutante. Tudo foi feito do jeito que ela pediu. Na noite do baile estava linda, parecia realmente uma princesa. Bailou com seu pai e seus amigos, e parecia flutuar no salão . Quando o relógio bateu meia noite, a menina se transformou em moça, e dançou sua última valsa. 

Naquela noite, após comemorar sua décima quinta primavera, Giovanna foi dormir, para nunca mais acordar.

O livro vermelho

A família Vaz Bragança era tradicional na região de Bocaina de Baixo, trecho histórico da Estrada Real. De origem portuguesa, teve entre seus próceres o Barão do Arresto, dono da maioria das terras do lugar, e colecionador de histórias, nem todas dignas de lembrança.  

Com a morte de seu último herdeiro, Antonio Vaz Bragança Neto, um octogenário sem filhos, foi indicado um interventor para cuidar do espólio, e atender aos termos testamentais, previamente definidos.

Para essa função foi indicado Marcelo Gonzaga, um jovem advogado que assumia pela primeira vez uma função como essa, dentro do escritório. Ao chegar na fazenda do Barrete, tratou de procurar o encarregado, para ter acesso ao imóvel, e começar seu trabalho.

-Bom dia, onde acho o Seu João?

-Dia moço, sou eu mermo. O Dotor deve ser o homi que veio resôver as coisa aqui.

-Sim, seu João. Me chamo Marcelo e serei o interventor que cuidará do espólio da família. O senhor pode me levar até a Sede? Ainda é possível pernoitar por lá? Vi que aqui é distante da cidade, e não gostaria de pegar essa estrada de noite.

-Oia Dotor, pode o sinhô pode, mais num acho boa ideia.

-Por que Seu João? A casa é assombrada? respondeu com ar de deboche.

-Sei não Dotor, só falei por falá. Vô abri a casa pro sinhô, Tá tudo arrumado lá.

Ao entrar no casarão Marcelo ficou boquiaberto. O lugar era ricamente decorado, e parecia congelado no tempo. Tudo estava arrumado, como se ainda houvesse vida ali. No canto da sala, dentro de um altar, ladeado por dois enormes anjos, um grande livro vermelho. Pensando se tratar de uma bíblia, perguntou ao homem.

-Seu João é a primeira vez que vejo uma bíblia tão grande  assim.

-Num é bíblia não sinhô, e é meior não buli ali não.

-Por quê? Perguntou o advogado.

-Coisa de gente antiga Dotô. Oia, esse aqui é o quarto do Sinhô. Agora licença que tenho que recoiê o gado.

– Está bem Seu João. Qualquer coisa lhe chamo.

Quando o homem saiu, Marcelo começou a andar por dentro do imóvel que era enorme. Ao entrar em um dos banheiros, reparou a torneira da pia entreaberta pingando, e a tolha de rosto molhada – estranho, pensou ele.

Sentou na enorme mesa de jantar, abriu sua pasta, e começou a analisar a documentação do espólio, para ter exata noção do tamanho do problema. 

Sem que desse conta, já estava entardecendo. O sol mortiço atravessando os vitrais da janela, coloriram o ambiente, transformando totalmente o clima. De repente, tudo começou a ficar sombrio. Se levantou, e acendeu todas as luzes, para  diminuir a sensação incômoda.

Sentou novamente na mesa, e continuou seu trabalho. Foi quando ouviu um barulho vindo da cozinha, como se alguém estivesse preparando algo – mas como seria possível se estava sozinho ali?  Se levantou, e foi ver o que estava acontecendo.

Chegando na porta, quase caiu para trás. O lugar estava cheio de vida, e de gente. Mulheres vestidas como as antigas negras das cozinhas, senhoras trajadas finamente  como em tempos passados. Entrou no cômodo, mas elas continuaram seus afazeres, como se ele não estivesse ali. De repente, um homem vestindo casaca, colete, calça e botas, entra no cômodo e pergunta:

-E então mulher? Está tudo pronto para a ceia de hoje?

-Sim meu Barão, da forma que o senhor aprecia.

-Negrinha, dê-me um gole de vinho.

-Tá bom Sinhô, respondeu uma serviçal acabrunhada.

Sem entender, voltou para a sala, e quase desmaiou de susto. O lugar antes vazio, agora estava repleto de homens e mulheres. Sentados à mesa, nos sofás, como se estivessem esperando algo. Foi quando o Barão entrou, e foi em direção ao livro vermelho.

-Caros confrades. Como fazemos há duzentos anos ininterruptamente, a confraria do Livro Vermelho se reúne para honrar a memória de nosso deus Balor. Antes de servirmos a ceia, passemos ao sacrifício memorial. Guardiães, tragam o convidado.

De repente, os anjos tomaram vida, e foram em sua direção. Sem que tivesse tempo de correr, o pegaram pelos braços, e colocaram diante do altar.

-Que isso? O que está acontecendo aqui? disse o homem assustado.

-Cale-se! Ordenou o Barão.

-Oh, grande Balor. Tu que és o grande líder dos Fomorianos, onipotente e poderoso, e guarda nossas almas pela eternidade, receba essa oferenda como prova de nossa devoção.

Então, o livro se abriu, e de dentro saiu uma grande labareda. Foi quando os anjos lançaram o homem dentro das chamas, que se apagaram em seguida, e ele se fechou.

Quando amanheceu no dia seguinte, Seu João entrou na sede em silêncio. Do advogado? Nem sinal. O empregado fechou a porta, e saiu sem olhar para trás, nem dizer uma palavra sequer. 

Junho

João foi dormir muito chateado naqueles dias. Tudo porque tinham dito pra ele que a Festa em sua honra não iria acontecer, por conta de uma tal epidemia de Covid-19.

 – Ara, pensou ele muito desgostoso. Que raio de doença é essa? Cumo é que as criança vão dança quadrilha, pula fogueira, solta estalinho e subi no pau-de-sebo, se elas tão tudo trancada dentro das casa?

Manoel, reconhecido por ser muito paciente, vendo João tão desconsolado, resolveu recorrer a Pedro, o homem de confiança do pescador, em busca de uma solução.

– Pedro, o João tá muito aborrecido com essa história de não ter Festa. O que você pode fazer pra ajudar o meu amigo?

Pedro parou, pensou um instante, e logo deu a sentença.

– Tome aqui meu caro. Junte a molecada e mande espalhar esse remédio dentro das caixas d’água, e assim todo mundo vai poder comemorar junto de novo.

Intrigado, Manoel pergunta ao sabido homem:

– Mais que remédio é esse que você arrumou, que faz tanto milagre assim?

Pedro então responde com toda a segurança que lhe era peculiar:

– O nome dele é vacina, meu amigo resignado.

O mandado foi cumprido. Todas as casas tomaram daquela água santa, e assim aconteceu em Campina Grande o maior arraial de todos os tempos, em honra a São João, São Pedro e São Manoel.