Dias frios

Aquela manhã gelada não me inspirava a levantar da cama. Então, Boris meu companheiro fiel, pulou em meu peito, e começou a lamber-me o rosto, como a dizer.

-Levanta, não desista!

Com muito esforço, e pouco ânimo, fui cumprir o ritual. Arrumei a cama, tomei banho, escovei os dentes, comi alguma coisa, tratei do Boris e saí. Antes de fechar a porta, voltei, e dei uma última olhada no meu amigo.

Ainda na garagem, meu coração e minha mente pareciam mais congelados, do que o frio invernal do lado de fora de casa.

No caminho, tive que aguardar em uma passagem de nível, enquanto os vagões do trem voavam.

-Essa seria uma boa, e decisiva, oportunidade, pensei.

A cancela abriu. Segui meu caminho. Na repartição, eu era apenas mais um, dentre tantos outros mortos-vivos. No meio do expediente, um alvoroço despertou meu pouco interesse.

-Fonseca se matou! Gritou uma colega sem nome.

No banheiro, um corpo envolto em sangue, e uma faca atravessada na jugular.

-Porra! Porque não pensei nisso antes desse imbecil do Fonseca?

Com o óbito registrado, a repartição fechou mais cedo, para que fosse dado encaminhamento aos procedimentos cadavéricos.

No caminho de volta, fiquei parado no viaduto – troca de tiros entre polícia e facção. Uma bala perdida achou o vidro do meu carro, e acertou o encosto de cabeça do banco do carona.

-Sujeitinho ruim de mira, imaginei.

Chegando em casa, Boris estava no mesmo lugar onde o havia deixado. Parecia que o frio da manhã havia congelado tudo.

Fechei a porta, tirei o telefone do gancho, abri o gás do fogão na cozinha, e me enfiei debaixo do edredom. Boris saiu da sala, pulou na cama, deitou no meu peito – como de costume – e começou a ronronar. Dormi para nunca mais acordar.

Bola dentro

Amadeu era um heteronormativo, que nunca imaginou ter qualquer envolvimento fora da curva. Morando com Bruna há seis meses, a intimidade dos dois era presumível. Ao contrário do namorado, era uma jovem de alma livre, que não se prendia aos tabus da sociedade.

Certa noite, depois de algumas taças de vinho, durante o pré-jogo, Bruna surpreendeu com uma pergunta:

-Amor, o quanto você gosta de mim?

-Porque essa pergunta agora?

-É só responder sim ou não.

-Sim, podemos voltar para o aquecimento?

-Ainda não.

-Tá de sacanagem, Bruna?

-É justamente essa a questão.

Curioso, Amadeu guardou a chuteira.

-De que tipo de sacanagem estamos falando aqui?

-Ah Amadeu, você é tão preconceituoso!

–Começou? Agora termina!

-Você nunca desejou ter uma relação à três?

-Ah, tá. Uma suruba?

-Olha como você é, não estou falando de baixaria.

-Tá certo, ménage,.Todo homem hetero tem vontade de pegar duas mulheres.

-Mas pode ser também entre dois homens e uma mulher.

-Onde você quer chegar com esse papo?

-Na cama – eu, você e um outro rapaz.

-Pô Bruna, eu sou centroavante matador, não divido bola com ninguém.

-Mas não faria isso por mim? Quem vai receber a bolada sou eu, ué?

– Por acaso você está me traindo?

-Claro que não seu bobo. A gente contrataria um garoto de programa.

-Beleza. Para provar que não sou esse cara preconceituoso, eu aceito. Mas não me pede para participar da escalação. Você resolve tudo, e me avisa.

A moça escolheu o estádio, contratou o melhor atacante, e a partida teve início. Foi muita bola dentro – gol de placa, gol de cabeça, gol por cobertura. Findo o jogo, já voltando para casa, ela perguntou ao namorado.

-E aí Amadeu, você gostou da brincadeira?

-É, foi bom sim, até que o rapaz jogou bem. Mas ainda sou melhor atacante que ele.

Na semana seguinte, sem que a namorada soubesse, marcou um amistoso com o GP. Afinal, gostou tanto da chuteira do moço, que não resistiu à vontade de levar umas boladas nas costas.

Oxímoro

Maria Beatriz e Izabel eram como água para vinho. A primeira meiga, transparente, muito aplicada nos estudos. Já a segunda, era atrevida, dissimulada e preguiçosa, principalmente quando o assunto era escola.

Cursando o segundo ano do ensino médio, a amizade já existia desde o infantil. De gênios opostos, mas sempre próximas, uma não desgrudava da outra.

Ocorre que algo mudou, com a chegada da adolescência. Não na personalidade, mas sim na sensualidade. Apesar de ambas terem experimentado namoricos infantis, nem uma nem outra havia firmado compromisso com moleque algum, e olha que Maria era uma linda morena cor de jambo, e Izabel uma ruiva de olhos verdes.

No baile de formatura, já com a turma tratando a relação das duas como namoro, Bel – a mais atirada – roubou um beijo de novela de Bia, no meio de todo mundo no salão. Ao contrário do que a maioria pensaria, as famílias aceitaram com naturalidade o relacionamento, até porque era evidente para todos (menos para elas) que havia muito mais do que amizade ali.

Os anos se passaram, Maria Beatriz se formou médica pediatra, e Izabel promotora de justiça. Casadas de pouco, decidiram buscar a fertilização fora do país, onde Bia seria a responsável pela gestação, e o óvulo seria retirado da companheira.

A boa, mas agitada relação das duas, só serviu para comprovar que se água e vinho não se misturam, podem se harmonizar perfeitamente. Isso porque um bom gole de tinto seco, pede a companhia de um generoso copo d’água, para limpar as papilas gustativas, salientando os sabores e aromas da relação, bem como para evitar a ressaca da rotina, no dia seguinte.

Resiliência

Dizem por aí que o brasileiro não desiste nunca, mesmo quando a vida insiste em lhe tirar o chão, e a vontade de continuar tentando.

Essa é a história de Osmar, um cara nota 1000. Gentil com todos, trabalhador esforçado que nunca fugiu da luta. Apesar de tudo isso, a vida nunca foi fácil. No meio do caminho sempre tinha uma pedra, que resignadamente lascava, até que ela se quebrasse. Nunca perdeu a paciência, nunca brigou, nem tampouco resmungou.

Até que um dia, seus esforços foram divinamente recompensados. A deusa da Fortuna lhe abençoou com um caminho dourado, deixando para trás os infortúnios e dificuldades. Mas não é que vieram lhe derrubar, roubar, difamar e até debochar, só porque o pobre homem havia se tornado alguém importante?

Calmo e paciente como sempre, foi até sua casa, abriu o guarda-roupas, pegou o estojo, tirou a pistola, carregou o pente, colocou na arma e saiu. No caminho passou de porta em porta, quebrando as pedras que haviam surgido na base do tiro. No final, parou na delegacia, entregou a pistola, pegou a chave da cela, trancou por dentro e jogou pela janela, deitou no chão, e sorriu. Finalmente, tudo estava dando certo em sua vida.

O hotel São Bernardo

Nunca gostei de passar por aquela rua pois sentia calafrios, e olha que isso acontecia todos os dias – era o meu trajeto saindo da faculdade, até o ponto de ônibus para casa. Devia ter mudado de faculdade, de ônibus ou até de endereço  enquanto tive chance.

Uma rua escura, mal iluminada, com prédios antigos, e dentre eles se destacava o Hotel São Bernardo – uma edificação centenária que, apesar de restaurada, ainda guardava um ar sombrio, e muitas histórias de fantasmas. A recepção escura, com seu mobiliário antigo aumentava essa sensação. Mesmo assim, continuava funcionando, e recebendo hóspedes.

Certa noite, caía uma garoa fina, fazia muito frio, e a rua estava deserta. Quando passo em frente à porta do São Bernardo, uma garotinha vem correndo lá de dentro, pedindo ajuda.

-Socorro, socorro!

-Que foi menina? O que aconteceu?

-Moça, moça me ajuda. Minha mãe está passando mal lá em cima.

-Ta bom meu amor, mas pede ajuda a alguém do hotel

-Não tem ninguém aqui, nós estamos sozinhas, me ajuda moça.

Sem ter como resistir, peguei a menina pela mão e fui em direção ao elevador.

-Em qual quarto vocês estão?

-No 506.

-Apertei o botão, a porta se fechou e só aí me dei conta de que era um daqueles elevadores antigos, que pareciam mais uma gaiola. Pensei comigo: ai meu Deus, tomara que isso não trave!

Chegando no andar, a garotinha saiu me puxando. A porta do quarto estava aberta. Fomos entrando, e vejo uma moça sobre a cama cheia de sangue, já sem vida, com o pescoço degolado.

-O que aconteceu aqui? Me viro assustada para perguntar a garotinha.

Nisso, a porta se fecha, e tudo fica escuro.

-Menina, cadê você?

Uma voz rouca e sombria responde.

-Aqui agora, somente eu e você!

-Quem está aí?

Num instante a luz se acende de novo, e vejo um homem todo de preto, com unhas grandes como garras, olhos vermelhos e uma faca nas mãos..

Antes que eu tivesse tempo de gritar, ele pulou em cima de mim, cortou meu pescoço, e o sangue começou a jorrar pelo chão do quarto do Hotel São Bernardo.

A sombra

Pedro havia nascido com um terrível estigma, em uma família cristã, mas conservadora e extremamente radical. Logo que começou a pronunciar as primeiras palavras, falou sobre uma sombra, que aparecia todas as noites em seu quarto.

Coisa de criança, daqui a pouco essas bobagens passam, diziam os pais. Só que isso não aconteceu, pelo contrário. Ao invés de uma, agora eram várias sombras, que o.menino enxergava a todo momento – de manhã, de tarde e de noite, em todo lugar.

Quando ingressou na escola, tudo piorou. Arredio e desconfiado, quando os colegas souberam de seu “problema* o apelidaram de “Senhor Estranho”. E o bullying nunca mais parou 

Já adolescente e rebelde revoltou-se com os pais e com a religião, já que ninguém acreditava no que ele dizia. Depois de uma violenta discussão em casa, foi excomungado pelo próprio pai. Aquilo foi a gota d’água.

Decidido a por fim àquele tormento, foi para o banheiro com a lâmina nas mãos, e enquanto enchia a banheira, as sombras apareceram novamente, lhe dizendo:

-Viemos te buscar Pedro, está pronto?

Sem dizer uma palavra sequer, apenas consentiu com a cabeça.

Pela primeira vez, o jovem sentiu-se acolhido. Não era mais o diferente, não era mais o maluco, nem tampouco o “Senhor Estranho”. Agora, ele também era uma sombra.

O capoeira

Todas as noites quando voltava da escola, o ônibus deixava Juliana na porteira da fazenda, e até chegar à sede era um bom chão, de escuro e medo. Nascida e criada no lugar, a menina já conhecia todas as lendas e histórias da região.

A fazenda do Mato Adentro havia sido uma grande propriedade cafeeira, mas desses tempos só restaram as ruínas da senzala, e a sede centenária.

E era justamente da senzala que vinham as histórias de assombração. Os mais velhos contavam que a alma do Capitão do Mato, havia ficado presa ali, por conta das suas maldades cometidas.

Naquela noite, a lua estava minguante, o que tornava o lugar ainda mais sombrio e assustador. A garota sempre passava ali no galope, mas nesse dia tropeçou num buraco e acabou caindo no chão. Com a força do tombo, perdeu os sentidos, e quando abriu os olhos, viu um homem de chapéu branco, olhos vermelhos como fogo, com um chicote na mão. Da sua boca saía uma risada diabólica.

Quando o Capitão levantou o chicote para bater, ela começou a ouvir uma cantoria, vindo de dentro da senzala.  Então, um capoeira veio rodopiando, e deu um rabo de arraia no malvado, que caiu no chão.

Foi o tempo necessário para ela se levantar, e sair correndo. Quando já estava distante, parou, olhou para trás e não viu mais ninguém, nem o capoeira, nem o Capitão do Mato. De longe, ouvia apenas a cantoria dos escravos, comemorando a vitória sobre o malfeitor.

Dezembro

Vazante era uma pequena cidade do interior de Goiás, reconhecida nacionalmente pela sua criação de aves, em especial os perus, que abasteciam as geladeiras e freezeres Brasil afora. A grande vedete do lugar era o peru Baltazar, uma espécie rara de peru branco real, que servia de matriz para todos os criadores e que, de tão importante, abria as comemorações do Natal em carro aberto todo ano, junto do Papai Noel.

O galináceo era a cara e o espírito natalinos. Ao lado da “Casinha do Bom Velhinho” na praça central, havia também a “Casinha do Baltazar”, onde as crianças faziam fila para registrar uma foto com a maior celebridade municipal. Até que um dia algo terrível aconteceu, justo na semana que antecedia o desfile de Natal.

Ao chegar de manhã no viveiro para tratar de Baltazar, Antônio – seu cuidador – levou um susto. O peru havia sumido. Dentro do viveiro somente penas brancas, e pedaços cortados de barbela vermelha.

– Jesus Amado! gritou o assustado tratador, enquanto se aviava para pedir ajuda.

– Seu Luíz, seu Luiz, uma tragédia. Falou com o dono do aviário.

– O que foi Antônio? Perguntou preocupado o criador.

– Baltazar, seu Luiz. Baltazar morreu!

O homem quase caiu no chão de susto. Como assim? A ave mais cara, matriz da região, como pode ter morrido, se nem doente estava?

– Que história é essa Antônio? Você tá doido? Me mostra o que aconteceu. E saíram os dois apressados para checar o ocorrido.

Chegando no viveiro, Luiz encontrou exatamente o que Antônio havia visto – muitas penas, barbelas cortadas, e nenhum sangue. Só podia ser obra de onça, pegou o coitado pelo pescoço e arrastou para longe, sem dar nem tempo de sangrar, pensou o dono das aves.

– Você já achou o buraco por onde a danada passou, Antônio?

– Tô procurano seu Luiz, mas não tô vendo buraco arrombado não.

– Então Antônio é melhor chamar a Polícia Ambiental, se foi onça ou se foi gente, só eles vão poder dizer.

Na manhã seguinte, a cidade estava em polvorosa. Enquanto todos comentavam o trágico desaparecimento da ave, o tabloide local estampava em sua manchete:

ASSASSINARAM O PERU!
Baltazar foi morto com requintes de crueldade,
em circunstâncias ainda não esclarecidas

Ainda naquele dia, um grupamento da Polícia Ambiental se dirigiu à Vazante, para investigar o desaparecimento da ave, e apurar as circunstâncias e motivação do crime. Sob o comando do Sub-Tenente Cesário, os soldados chegaram à propriedade do Luiz.

– Bom dia, gostaria que me mostrasse o local onde estava a ave, e também quero ouvir o tratador que deu falta do animal.

– Antônio, leva o Sub-oficial até o viveiro do Baltazar, e conta pra ele tudo que você me disse.

– Tá bom, seu Luiz.

Chegando ao local, o tratador se apressou em explicar o ocorrido.

,- Olha seu guarda, foi assim. Todo dia de manhã sou eu que venho trata do Baltazar, ele já me conhece de longe, e começa a grita quando sabe que tô chegando.

– Ontem, quando vinha vindo, achei estranho que ele não chamô. Quando cheguei aqui, encontrei isso que o senhor tá vendo – pena branca, e barbela de peru cortada.

– Ok, e o senhor encontrou algum sinal, ou rastro de bicho?

– Oh seu guarda, o Baltazar pesava mais de vinte quilos, pra fazer isso tinha que sê uma onça. Mas não achei rastro, ou sinal da danada.

– E sangue? Tinha sangue no viveiro, ou próximo daqui? Perguntou o militar.

– Não seu guarda, nem uma gota, isso é coisa de onça, com certeza. Ela que trava o dente na jugular, e não deixa o sangue pinga, pra esconde o rastro da presa.

– Está certo seu Antônio, nós vamos fazer uma busca pela região, e se precisar, falo com o Senhor novamente.

O grupamento saiu da propriedade em busca de pistas que pudessem indicar o paradeiro da ave, percorrendo morros, brejos e ravinas, mas não encontraram nem sinal do peru.

Enquanto isso na cidade, uma figura muito suspeita acompanhava em silêncio o furdunço do sumiço de Baltazar. Era Melquíades, um velho que morava só, lá na tapera, e tinha fama de maluco e poucos amigos. Segundo diziam, ele tinha ficado ruim das ideias, depois que perdeu a mulher e o filho, vítimas de febre maculosa. Então se tornou recluso, morando sozinho em uma casa de pau-a-pique, sem vizinhos, ou parentes.

Melquíades entrou na venda do Joaquim português, e fez um pedido inusitado:

– Dia Joaquim, separa pra mim umas incomenda. Tá tudo nessa lista aí, que mais tarde passo aqui e pego.

O português pegou o pedido, não sem antes se surpreender com as encomendas: um pão para rabanada, um pacote de farofa, ameixa, uva passa, fios de ovos e uma garrafa de vinho Sangue de Boi. O dono da venda achou estranho, mas sem dar maior interesse, separou as encomendas, e deixou em cima do balcão para o velho buscar.

De volta ao aviário, Tenente Cesário e seus homens foram ao encontro do Luiz, para repassar o resultado da missão – afinal, será que encontraram o Baltazar?

– E então Tenente, perguntou o aflito avicultor. Acharam algum sinal da minha ave?

– Infelizmente não, meu senhor. Isso realmente deve ter sido obra de onça, por que achamos muito rastro, e fezes do felino na região. Nossa sugestão é que melhore a segurança da propriedade, porque certamente ela vai retornar para pegar outros perus.

Desconsolado, o pobre homem agradeceu o empenho da tropa, e despediu-se da patrulha, que retornou para o quartel deixando Luiz em profunda tristeza, e prejuízo.

Ao saber do veredito, o prefeito de Vazante decretou Luto oficial de três dias no município, e suspendeu todos os festejos. Nem mesmo o desfile do Noel aconteceria, em respeito à memória da figura mais ilustre do lugarejo, que havia partido de maneira tão brutal. Afinal, Baltazar era o próprio espírito do Natal na cidade.

Na cidade chorosa, não houve casa que comemorasse a data. No dia 24 de dezembro o lugar ficou deserto, não se via viva alma pelas ruas, nem a Missa do Galo teve na Igreja. As casas estavam todas apagadas, e em silêncio, menos uma.

Na tapera, um casebre simples estava todo iluminado com lamparinas coloridas, e do interior se ouvia a música de uma radiola entre risos alegres – o lugar emanava o verdadeiro espírito natalino. Lá dentro havia uma mesa com quatro cadeiras, recheada com quitutes, rabanada, farofa, arroz de festa e uma garrafa de vinho. Em uma delas a foto de uma mulher, na outra a de uma criança, na terceira Melquíades – alegre como nunca se viu, que conversava divertidamente com Baltazar, que tinha o rabo depenado e as barbelas aparadas, mas ainda assim respondia ruidosamente às gargalhadas do novo amigo.

Novembro

– Meninos, boa tarde. Hoje o tema da nossa aula são as Datas Comemorativas do mês de novembro. Alguém sabe me dizer uma data que é celebrada nesse mês?

– O dia da Bandeira, Professora Gertrudes. 19 de novembro – disse a sabida Mariazinha.

– Parabéns minha querida, essa é uma data muito importante sim, e temos que lembrar sempre do nosso pavilhão.

– Eu também sei Professora. Se adiantou Joãozinho, o mais estudioso da turma. O dia da Consciência Negra, onde celebramos a memória de Zumbi dos Palmares – 20 de novembro.

– Muito bem Joãozinho. Essa é uma história que não podemos esquecer jamais. Infelizmente, o preconceito e a discriminação racial ainda existem na nossa sociedade, por isso devemos lutar contra eles todos os dias.

– Eu também sei uma Fessora. Levanta o dedo o abilolado Toinzin.

– Que bom Toinzin, fico muito feliz em ver você participando.

– E então, me diga qual é a data comemorativa de novembro que você conhece? Pergunta Gertrudes.

– Finados, Fessora.

Sem entender, a gentil senhora pergunta:

– Finados, Toinzin? Sim, essa é uma data primordial do calendário católico, mas porque você acha necessário comemorar esse dia?

– É purque meu pai sempre fala que depois que minha vó morre, ele vai dá uma festa todo Finados, com foguete, cerveja e churrasco pra rua inteira. Diz que a morte da “peste daquela véia” vai sê um livramento pra família, e pra ele.

Ainda de queixo caído, e sem ter o que comentar, a Professora anuncia.

– Aula encerrada. O tema de amanhã é Geometria.

Outubro

Houve um tempo, em um passado longínquo, onde o homem e a mulher eram os únicos responsáveis por tornar a vida à dois prazerosa para ambos. Logicamente que isso não era uma equação matemática, por isso nem sempre dava certo – questão de pele e de carinho – mas, de maneira geral, era assim que os casais se formavam, e viviam sua sexualidade em plenitude. Hoje, ao que parece, alguma coisa mudou …

Tida e Fernando eram um casal moderno. Jovens, se conheceram em uma balada de final de semana, e logo já estavam morando juntos. Na intimidade um sabia exatamente aquilo que o outro gostava, então prazer nunca fui um problema para eles. Não viviam em um relacionamento aberto, mas também nunca se furtaram a experimentar novidades, quando elas surgiam. Outubro já vinha chegando, e depois de mais uma noite de folia, Tida vira para o namorido e pergunta:

– Nando, o que é que eu vou ganhar de presente no Dia das Crianças?

Rindo, e com cara de deboche, ele pergunta:

– Tá falando sério, amor?

– Claro, responde ela. Vamos fazer uma brincadeira, eu te dou um presente, e você me dá outro. Mas vamos trocar presentes de adultos, topa?

– Presente de adulto? O que seria isso?

– Brinquedos eróticos, amor.

– Ah tá, agora entendi. Gostei da ideia.

– Mas tem uma condição, disse a empolgada parceira.

– E qual seria ela?

– Você não pode saber o que eu vou lhe dar, nem você me dizer o que comprará pra mim. Tem que ser surpresa.

– Beleza então, eu topo.

Trato feito, o casal se apressou em providenciar os mimos. Cada um escolheu aquilo que acreditava daria mais daria prazer e satisfação para o outro, e ficou combinado que a entrega seria na noite do dia 12, em um quarto de Motel. Nem um nem outro conseguia esconder a ansiedade e a excitação, e para não estragar a brincadeira, combinaram de enviar os presentes para o quarto reservado, pois assim só descobririam a surpresa quando lá chegassem.

Tida se perfumou, colocou a lingerie mais sexy que tinha, enquanto Nando deu um trato no “Joãozinho”, deixando a área toda lisa e sem pelos, como sua mulher mais gostava.

Entrando no quarto, a grande revelação aconteceu.

Para Tida, ele escolheu um estimulador erótico de dupla função – além de vibrador, o brinquedo também servia como massageador do clitóris, na cor preferida dela – rosa.

Não é preciso dizer que a jovem adorou a surpresa, mas surpreso mesmo ficou Nando, quando levantou o lençol da cama, e descobriu qual era o seu brinquedinho – uma boneca japonesa, incrivelmente realista, em silicone.

O rapaz ficou boquiaberto com o tamanho do presente, tinha 1,58m – quase a altura da namorida – e era realmente impressionante como parecia uma mulher de verdade, muito bonita e atraente por sinal, que até mesmo o calor nas regiões íntimas era capaz de simular.

Aquela noite foi longa e quente – ambos aproveitaram ao máximo seus novos acessórios, juntos e separadamente, e só saíram do Motel quando o sol já estava a pino, muito bem acompanhados pelas novidades que haviam recebido um do outro. Os dias e meses que se seguiram foram de pura diversão, não havia uma noite sequer em que não recorressem aos mimos, para estimular e apimentar ainda mais uma relação que já era, naturalmente, quente.

Foi então que algo muito singular começou a acontecer – quando se deram conta, ela estava se relacionando apenas com seu estimulador, e ele a havia trocado por Suzy, nome sugerido por Tida para sua amante nipônica.

Bem resolvidos que eram, decidiram pela separação. Cada um foi para o seu canto, viver a vida junto daquilo que lhe dava satisfação, sem ter que conviver com o mau humor do outro, sem a bendita TPM, sem a toalha molhada em cima da cama e a tampa do vaso suja de xixi – desconfortos naturais, e esperados, em qualquer relação à dois. Sinais da modernidade, que somente os entendidos, entenderão.