Aquela manhã gelada não me inspirava a levantar da cama. Então, Boris meu companheiro fiel, pulou em meu peito, e começou a lamber-me o rosto, como a dizer.
-Levanta, não desista!
Com muito esforço, e pouco ânimo, fui cumprir o ritual. Arrumei a cama, tomei banho, escovei os dentes, comi alguma coisa, tratei do Boris e saí. Antes de fechar a porta, voltei, e dei uma última olhada no meu amigo.
Ainda na garagem, meu coração e minha mente pareciam mais congelados, do que o frio invernal do lado de fora de casa.
No caminho, tive que aguardar em uma passagem de nível, enquanto os vagões do trem voavam.
-Essa seria uma boa, e decisiva, oportunidade, pensei.
A cancela abriu. Segui meu caminho. Na repartição, eu era apenas mais um, dentre tantos outros mortos-vivos. No meio do expediente, um alvoroço despertou meu pouco interesse.
-Fonseca se matou! Gritou uma colega sem nome.
No banheiro, um corpo envolto em sangue, e uma faca atravessada na jugular.
-Porra! Porque não pensei nisso antes desse imbecil do Fonseca?
Com o óbito registrado, a repartição fechou mais cedo, para que fosse dado encaminhamento aos procedimentos cadavéricos.
No caminho de volta, fiquei parado no viaduto – troca de tiros entre polícia e facção. Uma bala perdida achou o vidro do meu carro, e acertou o encosto de cabeça do banco do carona.
-Sujeitinho ruim de mira, imaginei.
Chegando em casa, Boris estava no mesmo lugar onde o havia deixado. Parecia que o frio da manhã havia congelado tudo.
Fechei a porta, tirei o telefone do gancho, abri o gás do fogão na cozinha, e me enfiei debaixo do edredom. Boris saiu da sala, pulou na cama, deitou no meu peito – como de costume – e começou a ronronar. Dormi para nunca mais acordar.