O dia em que inventaram a dor

Era para ser mais uma manhã de sábado, como todas as outras manhãs. Maria acendeu a casa, com o cheiro do café. Ricardinho, o caçula e mais matreiro dos filhos, tratou logo de pular da cama, pegou um pão na cozinha, e se despediu da mãe com um beijo lambuzado de margarina.

Como tantas outras mães da comunidade, cuidava sozinha da família. O marido foi embora, quando as gêmeas tinham apenas dois anos, e o mais novo estava na barriga. Dos seis filhos, apenas Ricardinho, Tayla e Mayla moravam com ela. O primogênito cumpria pena por receptação e associação criminosa, e os outros dois estavam casados.

Enquanto cuidava dos afazeres domésticos, entre a água no arroz, e a roupa no varal, a calmaria da casa foi quebrada pelos tiros no morro, e pela vizinha do lado gritando, e anunciando a tragédia:

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A operação “Devoto Fiel” começou a ser planejada meses antes. O serviço de inteligência da Polícia descobriu que o Morro do Feijão, tinha se tornado a porta de entrada para o armamento pesado, que era distribuído nas outras comunidades controladas pela facção.

O alvo da operação era “Playboy”, o traficante que controlava o Feijão, e se tornou o maior receptador de armas do estado. Era um homem perigoso, que só andava com escolta, e armado até os dentes o tempo todo, menos em um dia. “Playboy” ia à Igreja aos sábados, logo cedo – sim, ele era evangélico. Lá o pastor celebrava um culto reservado, somente para o dono do morro. Esse era o único momento em que ele ficava desarmado, e nessa hora o bote seria dado.

Assim que Ricardinho saiu de casa, tratou de passar no posto de comando, pegou seus instrumentos de trabalho, e assumiu o turno na laje. Com o rádio em uma mão, e a caixa de foguetes em outra, se transformava em Foguetinho, o melhor fogueteiro do morro. O moleque era um corisco, miúdo e esperto conseguia disparar o artefato, e sumir antes da pólvora pipocar.

Naquela manhã tudo estava tranquilo na comunidade, por isso Foguetinho levou um baita susto, quando o rádio gritou:

-Os homi tão subindo!

No mesmo instante, tirou o canudo da caixa, acendeu o pavio e, mal o bicho subiu, tratou de pular da laje. Só que o moleque esperto e matreiro, dessa vez não teve tanta sorte.  Enquanto descia o escadão correndo, acabou entrando no meio de uma troca de tiros, entre a polícia e os homens do “Playboy”.

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A mãe largou as panelas no fogo, as roupas do varal pelo chão, e saiu de casa desesperada. Fatidicamente, quando chegou ao local, já não havia mais o que fazer – encontrou o corpo do filho ensanguentado, e sem vida. Uma bala perdida havia achado Ricardinho, mas naquele dia quem morreu  foi Maria.

Carpe Diem

“que toda viagem/ é feita só de partida”

(Paulo Leminski)

Theo e Rosana se conheceram no ensino médio. Da paquera entre adolescentes, até o sim no altar, bastaram apenas 10 anos. Ele médico, ela engenheira, agora eram um casal à espera do novo membro da família – Bento, que crescia sossegadamente na barriga da mãe.

A vida sorria dentro daquele lar, onde não faltava nada, e sobrava carinho e cuidado. Theo era amoroso nos pequenos detalhes. Do ramalhete deixado sobre a mesa, no café da manhã, até uma apaixonada declaração em via pública. Tudo sempre acompanhado de uma incomum assinatura – Carpe Diem.

-Amor você é maravilhoso, sou a mulher mais feliz, e amada desse mundo. Te amo. Disse Rosana em uma mensagem para o marido, ao abrir a janela do quarto, e dar de cara com a foto do casal junto de uma cegonha, que trazia um bebê em seu bico, estampada em um outdoor.

Naquele dia marcaram de se encontrar na hora do almoço, na clínica onde seria feito um novo ultrassom de Bento.-Tudo certo com o bebê, afiançou o médico.Claramente emocionado, acariciou a barriga da esposa.-Meu filho, você é meu presente de Deus. Papai vai te amar até o infinito, estando perto ou longe.

Como que entendendo o recado, Bento começou a se mexer no ventre da mãe.

-Olha amor, como nosso menino está chutando, vai ser craque de futebol. E os olhos marejados deram lugar aos risos de felicidade.

Meses depois, o herdeiro chegou enchendo a casa de alegria. O silêncio foi quebrado pela presença do recém-nascido. Theo acompanhou cada momento importante do rebento – do primeiro banho às noites insones de dor de barriga, deliciando-se em conversas intermináveis com o filho, durante a madrugada.

-Pois é filhão, o papai já te contou como conheceu sua mãe? Não? Então vou contar agora.

Eu era um pouco mais velho do que você, e tinha acabado de mudar de cidade. Estava vindo de uma escola particular, para uma pública. Quando pisei no 1A, a coisa mais linda que vi foi uma ruivinha sardenta, sentada na primeira carteira, da primeira fila, ao lado da porta. Meu coração quase parou. Não conseguia disfarçar meu encantamento. Depois disso, não houve um dia sequer em que não estivéssemos um ao lado do outro.

E assim o tempo foi passando. Bento crescendo, a família feliz e realizada, até que um dia tudo mudou bruscamente.

Eram quatro horas da madrugada, quando Theo começou a passar mal. Uma forte crise de tosse lhe tirou o sono, e a vida. Quando acendeu a luz do abajur, viu o sangue escorrendo pela boca. Do socorro médico, até o registro do óbito foram menos de 24 horas No atestado, a causa mortis indicava – hemorragia pulmonar.

A trágica história do rapaz começou logo depois de seu nascimento. Theo foi o filho desejado de pais ansiosos, que já haviam passado pela dor de quatro gestações perdidas. Porém, o sonho azul da família logo se tornaria um pesadelo. Com apenas três meses de vida, uma infecção renal levou a criança para a UTI, onde permaneceu por quatro meses, até que os médicos chegassem ao diagnóstico – síndrome do bom pastor, uma rara doença autoimune onde o sistema imunológico ataca os rins e os pulmões, levando a danos severos, ou até mesmo a morte.

Revertido o quadro infeccioso, seguiu a vida como uma criança normal, convivendo com visitas ao médico, até que a doença se estabilizasse ao fim da fase infantil.

Já adolescente, os pais lhe explicaram tudo sobre sua condição clínica, que não possibilitava prevenção ou cura, e deixaram um doído e definitivo recado para o filho:

-Theo, você é a realização do sonho de nossas vidas, mas não podemos lutar contra o destino. Essa doença é perversa e traiçoeira, por isso só desejamos uma coisa – seja feliz, e aproveite cada minuto, como se fosse sempre o último.

Pouco tempo depois, mudaram-se da capital para o interior, em busca de qualidade de vida para o jovem. E foi justamente na turma do primeiro ano do ensino médio, em uma escola pública de cidade pequena, que Theo se apaixonou por uma ruivinha sardenta, que viria a ser a mãe de seu filho, e o amor maior de sua vida.

A rocinha da Nega

Reza a lenda que existiu um Barão muito rico, dono de uma das maiores Sesmarias do Brasil Colônia. Esse homem colecionou fortuna, e histórias em suas terras, desde uma parente tida como bruxa, até uma ama de leite, que de tamanha importância deu nome a uma de suas propriedades, e foi enterrada atrás da capela dos nobres. Até hoje há relatos de assombrações, e desaparecimentos nessa região.

Jonas era um representante comercial, que resolveu cortar caminho por uma estrada que não conhecia. De repente, no meio de uma curva, o carro simplesmente apagou – nada funcionava. O lugar estava um breu só.

Acendeu a lanterna do celular, levantou a tampa do motor, mas não viu nada de errado Decidiu então acionar a seguradora. Celular sem sinal. – E agora? pensou o homem.

Foi quando viu pra dentro do mato uma luz acesa e pensou – Lá devo conseguir alguma ajuda.

Clareou uma placa coberta de mato onde se lia – “Rocinha da Nega”. Imaginando ser o nome da propriedade, decidiu entrar, mas com medo de aparecer algum cachorro, bateu palmas e gritou:

-Oh de casa?

Daí a pouco, veio em sua direção um moleque vestindo umas roupas estranhas.

-Sinhô, o Barão mandô entrá.

Chegando mais perto, uma porta se abriu e ele entrou. Lá dentro, uma sala de jantar enorme, em estilo colonial, cheia de pessoas sentadas.

Na cabeceira, um homem trajando vestes incomuns, e ao seu lado uma negra, vestida como uma escrava. Então, o Barão levantou-se da cabeceira, e disse:

-Se aprochegue Jonas, nos estávamos lhe aguardando. Nega arrume um lugar para nosso convidado.

Quando foi se sentar, percebeu que na mesa só existiam cadáveres. Antes que pudesse fugir, a porta da Capela mortuária se fechou, para não mais abrir.

Na estrada, ao lado do seu carro, o vento descobriu a placa, onde estava escrito – Cemitério da Rocinha da Nega.

A presa

Em uma noite sombria e gelada de junho, sentado sozinho na rodoviária, folheava as notícias no celular, enquanto aguardava o ônibus. De repente, ouviu um lamúrio vindo do banheiro feminino. Intrigado, bateu na porta, e perguntou:

-Oi, tudo bem aí? Está precisando de alguma ajuda?

O choro parou. Pensou – deve ser coisa da minha cabeça. Voltou para o banco, e seus jornais.

Então, escutou de novo, agora um grito bem alto.

-Me larga! Socorro!

Correu e empurrou a porta. Quando ela abriu, encontrou uma adolescente encolhida no chão, com as roupas rasgadas e sujas de sangue.

-Meu pai do céu, o que houve com você menina?

-Me ajuda moço, pedia a jovem em prantos.

-Ajudo, mas o que foi que aconteceu?

De repente, as lágrimas cessaram, o semblante ficou transfigurado, e ela se levantou.

-Você não se lembra mesmo?

-Me lembrar? Do que você está falando, garota?

-Canalha! Você não reconhece quem violentou, e depois matou?

Quando olhou para o lado, viu o corpo da jovem no chão, e seu transtornado algoz tirando a própria vida com uma faca.

-Não, isso não pode ser verdade!

-Seu babaca, olhe a data no celular. Há sete anos essa cena se repete todas as noites. Estou presa nesse inferno por sua culpa!

Quando olhou para a tela do aparelho, a cabeça começou a rodar, e toda a história se passou à sua frente, como da primeira vez.

Em uma noite sombria e gelada de junho, sentado sozinho na rodoviária, folheava as notícias no celular, enquanto aguardava o ônibus… Foi quando uma jovem entrou no saguão, e foi direto para o banheiro. O cheiro de presa atiçou o predador, que aproveitou a oportunidade, e tratou de segui-la. Trancou a porta para que ninguém entrasse, e então o pior aconteceu.

O pacto

Fausto era um homem perfeito, em todos os sentidos. Casado com uma linda esposa, pai de filhos amorosos e marido exemplar. Sua erudição e altas habilidades inatas fizeram dele uma figura pública famosa, e bem sucedida. Autor de três best sellers de suspense, sua fortuna só fez aumentar, quando o primeiro de seus livros recebeu uma adaptação para cinema. Hoje, ele comanda um grupo editorial, com filiais em Portugal e na Espanha.

Mas tudo na vida tem um preço, resta saber se você está disposto a pagar por ele. Certo é que a fatura chegará, e alguém baterá à sua porta para cobrar.

Era uma segunda-feira, e Fausto tinha acabado de chegar na Editora. Enquanto lia as mensagens do final de semana, sua secretária avisa:

-Fausto, tem uma pessoa aqui querendo falar com você, dizendo que é seu sócio, mas eu não o conheço.

-Pode mandar entrar Andreia.

A porta se abre, e um homem de terno branco, e lenço vermelho no paletó entra.

-Bom dia Fausto.

-Já imaginava que você viria hoje.

-Sim, hoje é o dia de fazermos nosso acerto.

-Eu sei, e já me preparei para isso.

-Então, qual foi sua decisão? Quem você me entregará em troca de tudo que eu lhe ofereci? Sua mulher, ou um de seus filhos?

-Na verdade, nenhum deles.

-Como assim? Você já sabia quais eram as condições de nosso acordo, e as consequências em caso de descumprimento.

-Sim, por isso disse que já estava aguardando sua visita.

Então ele abre a gaveta da mesa, pega uma pistola, coloca em direção à boca, e dispara.

Com o barulho do tiro, a secretária entra correndo, e encontra Fausto caído sobre a mesa banhada em sangue, já sem vida. Do homem de terno branco, nem sinal.

A boneca

Todos os dias ele se sentava em um banco na pracinha, e ficava lendo seu jornal. Era um homem de meia idade, com boa aparência, bem vestido, barba branca bem cuidada – um homem de bem, acima de qualquer suspeita. Enquanto as crianças brincavam, suas mães vigiavam as crias. 

Um dia, quando o homem do jornal chegou, havia apenas uma garotinha brincando com sua boneca. Ela tinha cachinhos loiros, como os de um anjo, e estava acompanhada de uma descuidada babá, mais preocupada com a conversa no celular, do que com a segurança da pequena.

Então, o senhor de barba branca, simpático como de costume, chamou a criança:

-Bom dia anjinho. Como você se chama?

-Gabriela.

-E a sua bonequinha, qual o nome dela?

-Essa aqui é a Marie.

-Oi Marie, será que você e a Gabriela aceitam comer um doce bem gostoso?

Inocentemente, a pequenina consentiu com a cabeça, pegou a Marie e saiu de mãos dadas com o novo amigo.

Na manhã seguinte, o corpo da menina foi encontrado em uma vala, ao lado de sua boneca. Naquele mesmo dia, no banco da pracinha, lá estava o homem de meia idade, com boa aparência, bem vestido, barba branca bem cuidada –  um homem de bem, acima de qualquer suspeita.

Metaverso

Praxedes era um sonhador contumaz, que perdeu o contato com o mundo real, vivendo apenas no seu metaverso onírico. Preocupados com a sua sanidade, seus familiares resolveram interná-lo em uma clínica psiquiátrica.
Na primeira consulta com o médico, ele explicou:
-Doutor, deve estar havendo algum equívoco. Eu não tenho problema algum.
-Com certeza não, Praxedes. E eu estou aqui para garantir isso. Afirmou o experiente médico.
-Pois é Doutor, meus parentes cismaram que estou maluco, só porque eu vivo em dois mundos. Esse aqui que é chato e cruel, e em Pasárgada, onde sou amigo do Rei, das fadas e dos gnomos. O senhor concorda que isso é um exagero?
-Claro, meu rapaz. Todos nós temos um lugar onde nos sentimos bem, e acolhidos. Vamos combinar assim. Você fica aqui comigo uns dias, só para sua família achar que está em tratamento, e depois você volta para Pasárgada.
-Está bem Doutor. Que bom que o senhor concorda comigo.
Os dias viraram meses, e a medicação fez efeito. Já de alta, foi despedir-se do psiquiatra.
-Doutor, já estou de saída. Quero lhe agradecer por sua ajuda.
-Não tem o que agradecer. Agora tenho a certeza de que você está pronto para voltar para sua casa, nesse mundo. Não é mesmo, Praxedes?
-Claro Doutor, esse negócio de dois mundos é coisa de gente maluca, pinel. Só existe um mundo.
-Então está certo. Espero que não precise retornar aqui nunca mais.
Terminada a despedida, dirigiu-se para a saída da clínica, onde um táxi já o aguardava.
-Bom dia moço, para onde o senhor quer ir? perguntou o taxista.
-Toca pra Pasárgada, respondeu o alienado Praxedes.

A testemunha

Pela fresta da porta, uma criança aterrorizada vê o padrasto tirar a vida da própria mãe, durante uma discussão. O assassino fugiu, e a garotinha, em choque, nunca mais falou – emudeceu com o trauma.

Anos depois, morando com os avós, quando voltava da escola, um homem a agarrou, e arrastou para um terreno baldio.

-Então você ficou muda sua pirralha, será mesmo? Eu devia ter feito o serviço completo naquele dia. Quando matei aquela vagabunda da sua mãe, deveria ter dado fim em você também, mas isso eu resolvo hoje.

Apavorada, a jovem reconheceu o assassino, e sem conseguir falar, tentou se desvencilhar do maldito.

-Vem cá sua putinha, até que você ficou bem bonitinha. Já que não fala mesmo, vou me divertir antes de acabar com você.

Quando o homem tentou tirar sua roupa, ela conseguiu se soltar com um chute, bem no meio das pernas do monstro, e saiu correndo.

-Vem cá sua vagabunda. Disse o pilantra, que começou a persegui-la.

No cruzamento de uma avenida movimentada, ela quase foi atropelada por um ônibus. A mesma sorte não teve o padrasto. Sobre as rodas do coletivo, ficou seu corpo estraçalhado.

Quando a jovem viu o que tinha acontecido, sentindo-se vingada, olhou para o corpo e disse:

-Vai queimar no inferno, seu desgraçado!

Depois de anos de medo e pavor, finalmente podia seguir a vida, deixando para trás o que tinha visto pela fresta daquela porta.