Trisal

Izabel e Otávio eram um casal jovem, bonito e saudável. Casados há pouco mais de dois anos, ainda viviam o calor de uma relação quase juvenil. Tudo ia bem, até que um dia, Otávio lhe disse:

-Bel, precisamos ter uma conversa séria

-Conversa séria, vamos inaugurar a primeira DR de nosso casamento? E deu risada achando que era uma brincadeira.

-O assunto é sério Bel, e se quiser pode entender como uma DR.

Sem entender o que estava acontecendo, ela apenas responde:

-Está bem então. Diga qual é o problema.

-Não dá mais pra sustentar essa situação

-Que situação, do que você está falando Otávio?

-Da gente.

-O que tem errado com a gente? Responde agora com ar de preocupada.

-Vou falar de uma vez então. Existe uma outra pessoa.

-Outra pessoa? Você só pode estar de sacanagem comigo.

-Não, não é sacanagem. Eu nunca faria isso. Até porque eu gosto muito de você, mas com a outra pessoa é diferente. Somos apaixonados desde a adolescência. Tentamos manter isso em segredo, nas agora não dá mais.

Com os olhos cheios de lágrimas, a moça apenas diz:

-Isso não pode estar acontecendo comigo.

-Não precisa chorar. Nós conversamos, e decidimos te fazer uma proposta, assim ninguém precisa sofrer.

-Proposta?

-Sim, vamos viver uma relação poliamor, como um trisal.

-Trisal? Poliamor? Some da minha frente e da minha vida Otávio.

Depois daquele dia, Izabel voltou a morar com os pais. Entrou em uma depressão profunda, tem pensado até em tirar a própria vida.

Quanto a Otávio? Embarcou em uma viagem romântica para as Ilhas Maldivas, com seu grande amor, Leandro, onde pretendem se casar em uma cerimônia à beira-mar.

O forasteiro

Há muito tempo, chegou na estação da pequena Esmeraldas, um homem trajando um terno escuro, chapéu Panamá e calçando luvas verdes. Sua figura incomum chamou a atenção de toda a cidade. As fofoqueiras de plantão ficaram ouriçadas com sua presença. Dona Rute,a proprietária da pensão, se apressou logo em abordá-lo ainda na rua.

-Bom dia moço, sou a dona da pensão. O senhor vai pernoitar por aqui?

-Sim. – respondeu secamente o forasteiro.

-Ah, então vou lhe preparar o melhor quarto. Para solteiro?

-Certamente.

-Vai ficar muito tempo?

-O necessário.. – respondeu dando de costas para a fuxiqueira, enquanto seguia em direção ao Paço Municipal.

No passado, a exploração da gema preciosa enriqueceu a região, e muitas famílias tradicionais. Uma delas foi a do Prefeito, Doutor Waldir Peçanha de Sá Trigueiro.

Contudo, a cidade não era mais nem sombra do que já havia sido, e um dos motivos era justamente a família Sá Trigueiro. Falidos, mas ainda dominando a política local, mantinham a pose e as contas, graças ao erário público. Uma “Gestão familiar”- esse era o mote da administração.

Bastou o homem misterioso aparecer, para a vida do prefeito virar de pernas pro ar. Suas negociatas, tramóias, acordos e propinas foram parar nos postes, e nas caixas de correio. A cidadela virou um campo de batalha, nas ruas uns saíam em defesa do chefe do Executivo, enquanto outros pediam sua cabeça.

Jurando vingança ao caluniador, Doutor Waldir chamou a população para um pronunciamento, em frente à Prefeitura. Mas antes mesmo que pudesse começar a discursar, viaturas policiais entraram pela praça afora. De uma delas desceu o delegado, acompanhado do juiz da Comarca, e deu voz de prisão para o Prefeito, e toda sua trupe.

Da estação, o homem da luva verde aguardou o desfecho da história, e em seguida embarcou num trem para seu próximo destino, onde uma nova missão o aguardava.

Amor pra vida toda

Aurora e Mateus se conheceram ainda na adolescência – desse encontro veio o primeiro beijo, a primeira transa e o casamento.
Ainda muito jovens, ela com 19 anos, ele com 20, resolveram viver o conto de fadas da casa montada, do primeiro jantar a dois, do primeiro almoço para receber as famílias. Tudo como reza a lenda dos recém-casados.
Passado o calor e a empolgação dos primeiros meses, a vida à dois começou a cobrar seu preço. A primeira DR por causa da roupa molhada no banheiro, a primeira cobrança pela divisão de tarefas domésticas, dormir e acordar junto com a TPM da esposa. Até que a coisa ficou insustentável – Aurora descobriu que Mateus amava outra.
Desde muito novo, ele sempre fora apaixonado por futebol. Trocava qualquer programa, pelo joguinho de sábado com os amigos.
Logo que casou, ainda no clima do “felizes para sempre”, abriu mão dessa hábito. Mas agora, passada a novidade, e com a chegada das cobranças e da rotina, decidiu que era hora de retomar o velho costume.
Então, ela resolveu dar um ultimato no marido:
-Mateus, você vai ter que escolher – ou ela ou eu.
Na semana seguinte, lá estava ele de calção, chuteira e meião. A paixão falou mais alto. Era um caso antigo, que nada podia apagar. O grande amor da sua vida era ela – a pelada.

Tereza

Na tela do computador, anônimos e conhecidos acompanham a cena ao vivo. Em frente à câmera, a garota segue atentamente as ordens da voz:
-Primeiro você vai pegar os lençóis da sua cama, e amarrá-los com um nó bem forte, o mais forte que conseguir. Precisa de pelo menos três, para cumprir o desafio da Tereza.
E a voz segue dando as instruções..
-Feito isso, você vai abrir a janela do quarto, amarrar uma das pontas do lençol na cama, e a outra jogar para o lado de fora. Tudo certo até aqui?
-Sim. – responde a menina, empolgada com a aventura.
-Então, o barato dessa prova é que ela vai testar se você tem duas habilidades – coragem de se pendurar na corda jogada pela janela, e sua força. Ganha quem ficar mais tempo do lado de fora, segurando na corda. Está pronta para o desafio?
– Sim, vão bora! – diz soltando um estridente grito de guerra.
Quando a garota se inclina para jogar o corpo fora da janela, seus pais entram no quarto, acompanhados da polícia, evitando uma tragédia. Atentos, eles monitoravam as conexões, e os contatos da filha adolescente na Rede.

Honra ao mérito

Tunico era um funcionário exemplar. Em 30 anos de empresa, faltou somente duas vezes – uma quando a mulher sentiu as dores do parto, e a outra quando sua mãe faleceu.

Com uma ficha impecável, chegou o tão esperado dia de sua aposentadoria. Em um ato solene, o diretor lhe presenteou com um relógio banhado a ouro, e uma placa de homenagem como reconhecimento pelos seus 30 anos de serviços prestados no mesmo cargo – Supervisor de Área.

No mesmo evento, Laureano, um jovem rapaz que estava na empresa há pouco mais de dois anos, e nesse período faltou mais do que trabalhou, além de ter sido acusado de assédio pelas colegas, estava recebendo sua promoção para o cargo de Gerente Administrativo.

De igual modo, teve discurso e entrega de placa ao “Funcionário Revelação”. Só que, ao contrário de Tunico, Laureano tinha ótimas referências que o qualificaram para o novo posto – era o filho mais novo do diretor da empresa.

TOC

Adalberto sempre foi um sujeito cheio de manias. Na hora do café, a xícara recebia 4 gotas de adoçante bem contadas, e a manteiga tinha que estar perfeitamente espalhada, em toda superfície da fatia de pão. Na mesa do almoço, os talheres deveriam estar corretamente dispostos: garfos à esquerda do prato, com os dentes voltados para cima, e as facas à direita, com o corte virado para dentro. Nunca ao contrário, ou em posição diferente.

As cuecas e meias na gaveta? Eram arrumadas em uma escala cromática, das mais escuras até as brancas. As sacolas de supermercado eram dobradas, até ficarem uniformemente compactadas. Os livros eram organizados na estante, com as lombadas em ordem alfabética. Mas sua maior cisma mesmo era com o cabelo. Cultivava uma cabeleira loira, com uma grande franja que era milimetricamente partida para a direita.

Até que um dia, Adalberto morreu de causas naturais. Na funerária, durante a preparação do corpo, o vestiram com o terno cinza (que já estava previamente separado, e identificado com uma etiqueta – post mortem), maquiaram seu rosto para tirar a palidez mortuária, e pentearam o cabelo, jogando a franja loira para a esquerda. Terminado o serviço, o rapaz se preparava para fechar o caixão, quando, de repente, o defunto abriu os olhos e deu um grito: 

-Não, seu burro. É pra direita, e não pra esquerda!

Dito isso, fechou os olhos, e morreu de novo.

Orgia gastronômica

Tudo começou quando a Salada Caesar ficou cheia de vontade, e resolveu seduzir o Antepasto de Berinjela. Quando a temperatura aumentou, apareceu um Sorbet de menta, que preparou as papilas gustativas pois a coisa ia ficar hot com a chegada do Penne ao molho vermelho apimentado, só para atiçar a libido. Em um ménage de sabores, o Medalhão de Filé Mignon picante incendiou o Salmão ao curry com molho de abacaxi, que se deixou misturar ao Chili de carne e feijão. Extasiados de luxúria e gula, estremeceram em um frenesi orgástico. Fechando esse surubão com chave de ouro, lambuzaram-se em um delicioso Pudim de manga, com calda de maracujá, para depois relaxarem gostosamente na hidromassagem.

Clausura

Jonas era um jovem do interior, recatado, religioso e de poucos amigos. Sua rotina resumia-se a cuidar dos pais idosos, e frequentar os cultos na igreja, onde era obreiro. Não fazia gracejos, nem tampouco se envolvia em conversas mundanas. Sua vida era pautada pela moral, e pelos bons costumes essenciais a um servo do Senhor.

Isso de segunda a sexta-feira. Aos sábados, com o  pretexto de sair para evangelizar, contratava um cuidador para os pais, e viajava para a capital.

Chegando lá, se transformava em Jane Twister, a Drag Queen mais badalada do circuito LGBTQIA+.

Na segunda, o obreiro do Senhor estava de volta. Pudico, temente a Deus, e totalmente avesso às tentações, e desvarios do mundo.

Óbolo

 – Na porta da igreja, o mendigo implora:

– Uma ajuda, pelo amor de Deus!

A benevolente senhora responde.

-Filho, não tenho trocado, somente notas de 100 reais. Mas confie, que Deus proverá.

-Ô dona, tem problema não, pode me dar a de 100, que eu tenho troco aqui.