Trem mineiro

– Bom dia Cumpadi Tonho.

– Bom dia Neca.

– O Cumpadi tá sabeno do urtimo acontecido?

– Ara, mais to sabeno não.

– Então dexa eu te contá. Teve um causo de morte matada lá no trem.

– Deus Pai, Jesus Cristo Cumpadi. Cume é que foi isso Neca?

– Me contaro que o marido pego a muié com o amazio dela, e o corno não perdoo. Sentô o dedo no 22 e mando os dois lá pros quinto. Despois enfio o cano na boca, e se mato-se.

– Isso tudo dentro do trem Cumpadi?

– Tudo lá dentro Tonho. Diz que foi um furdunço só.

– Jesus Cristo, e as pessoa que tava dentro do trem, Neca? 

– Cumpadi nem te conto, saíro tudo desembestado. Homi, muié. Tudo pelado escondeno as parte.

– Valha-me Deus Cumpadi. Já penso cê entra no trem e acontece um trem desses?

– Pois é Cumpadi Tonho, despois disso fecharo o trem. Agora, pras pessoa  furnicá, tem que sê destrás do muro do cemitério.

O monge

Filipe nasceu com um estigma familiar, que o acompanharia por toda a vida. Por conta disso, ainda bem jovem foi mandado para o seminário. Quando foi ordenado Padre, escolheu a clausura como proteção – tornou-se monge cartuxo.

Essa ordem eremitica tem como característica a reclusão, como forma de adoração e encontro com o Espírito Santo, e lá Filipe pode preservar seu segredo.

A cada lua cheia, o mesmo ritual. No poente, era trancado dentro de uma cela, com mãos e pés acorrentados. Durante a noite e madrugada, uivos de dor e ódio ecoavam pelos corredores do monastério. Só quando o sol nascia, que era libertado e o monge voltava à vida.

Só que um dia, as correntes se soltaram, e a besta fera conseguiu escapar. Com gana de vingança, devorou os monges e fugiu para o vale. Desde então, Filipe nunca mais foi visto, restando apenas a fera.

À margem

Alfredo era um ícone entre os seus. Enaltecido, desejado e até copiado, estava sempre rodeado por uma multidão. O que ninguém sabia (ou fingia não saber) era da solidão que preenchia seu peito – tão cheio e tão vazio ao mesmo tempo. Tinha todos, mas não lhe sobrava ninguém para dividir, conversar e até chorar. 

Um dia, decidiu abandonar a beira, e pular no rio de águas revoltas. Enquanto seus pulmões eram preenchidos pelo líquido escuro e lamacento, não se sentia mais sozinho pela primeira vez. As criaturas das profundezas, que pouco depois iriam devorar suas carnes, eram naquele instante a melhor companhia que nunca havia conhecido.

Missa de finados

Chego em casa ainda muito abalada, pois fui ver Débora depois da missa. Antes de entrar, deixo sapato, roupas tudo do lado de fora, e vou direto para o chuveiro. Minha avó era cheia de superstições, e dizia que não se devia entrar com roupa de cemitério dentro de casa. O motivo? Não sei, mas acabei guardando essa mania.

Há um ano ela havia partido. O que doía não era só a perda, não era a enorme falta que ela fazia em minha vida, mas a maneira como tudo tinha acontecido. Por quê?

“ 18 de março, dia de São José, nosso padrinho de namoro. Estávamos comemorando cinco anos de relacionamento. Débora estava radiante de felicidade. Acordamos cedo, fomos à missa, e saindo da Igreja ela me perguntou:

-Então meu amor. Para onde você quer ir agora?

-Pra qualquer lugar onde eu esteja com você.

Entramos no u e saímos. No meio do caminho, ela recebeu uma mensagem no celular. Deu uma freiada brusca, e encostou.

-Meu amor vou ter que resolver uma coisa urgente. Pega um Uber e me espera em casa, para almoçarmos juntas.

-Mas o que houve?

-Nada sério minha linda, apenas confia e faz o que eu tô te pedindo.

Sem entender nada, desci, chamei um Uber e fui pra casa. Débora nunca mais voltou. Na manhã seguinte, seu carro foi encontrado dento de um precipício. A Polícia concluiu que ela tirou a própria vida, pois não havia razão para o veículo tomar aquela direção…”

No meio do banho, o telefone da sala toca. Me enrolo na toalha, e vou atender:

-Alô?

Do outro lado nenhuma resposta, apenas o som de uma respiração. Desligo. Certamente era um trote. Termino meu banho, e vou para cozinha arrumar meu café. O telefone toca de novo:

-Alô?

Dessa vez ouço uma resposta.

-Sou eu, meu amor!

De repente, o aparelho de som liga sozinho, e toca nossa música preferida.

-Não pode ser você Débora. Deixei uma rosa na sua lápide, agora há pouco.

Desligo assustada. Quem estaria brincando comigo? E toca outra vez::

-Que palhaçada é essa? Atendo irritada.

Então, a tela do computador acende, e nela aparece a palavra – SAUDADE. Do outro lado da linha, a voz responde:

-Meu amor, por que está me tratando assim?

-Isso não é possível. Respondo com os olhos marejados.

Meu celular vibra, e surge um SMS, cheio de emojis de coração.

-Onde você está? O que está acontecendo? Pergunto angustiada, ainda ao telefone

-Estou aqui.

Ouço a maçaneta da porta girar, e então, ela se abre…

La Catrina

Júlia estava lindamente radiante ao pisar no tapete vermelho, acompanhada de um pai que não cabia em si, de tanta felicidade. A nave central da igreja estava decorada com gérberas da cor lilás, que realçavam ainda mais os detalhes em dourado, bordados na enorme cauda do vestido.

Ao som de “All you need is love”, interpretada por um coro infantil, acompanhado pelo delicado som de um quarteto de sopro, a nubente alcançou o altar, onde Eduardo – seu noivo –  a aguardava trêmulo de emoção, vestindo um meio fraque bege.

“Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe.”, com essas palavras do evangelista Mateus, o pároco destacou em sua homilia que o casamento é um sacramento, um sinal visível da graça de Deus, que fortalece a união e a promessa de amor que perante a Igreja, só pode ser desfeito pela morte.

Na hora do tão esperado beijo, a noiva subitamente empalideceu, e caiu já sem vida, nos braços de um esposo assustado, que parecia não acreditar que o sonho de uma vida, pudesse acabar em um breve instante.

O acontecido virou manchete nos jornais, e até na televisão. Durante as exéquias, o viúvo estava transtornado – um morto-vivo, sem alma, esperança e desejo de continuar vivendo. Ao seu lado todo o tempo, estava Rafaella, gêmea de Júlia, que vencendo a dor da perda de sua única irmã, ainda encontrava forças para amparar o ex-cunhado.

Na hora do sepultamento, a comoção dos presentes foi geral, ao presenciarem o desespero de um jovem rapaz, que não resistindo à dor da perda de sua esposa, desfaleceu e teve que ser amparado por familiares, que o retiraram antes dos ritos finais. Terminada a cerimônia, todos haviam deixado o local, menos Rafaella que se aproximando do túmulo, tocou a foto da irmã, e foi embora.

As gêmeas nasceram em uma família de classe média alta – pai advogado, mãe dentista – por isso mesmo sempre tiveram todo o conforto e cuidado, que o dinheiro poderia lhes proporcionar. Apesar de idênticas na aparência, Júlia sempre foi mais doce do que a irmã que, ao contrário, parecia eternamente ressentida.

Ainda na fase escolar, enquanto uma era a queridinha dos colegas e professores, a personalidade forte da outra a tornava a antipática da turma. Já adolescentes, Rafaella se divertia trocando de lugar com a irmã, principalmente quando começaram a surgir os primeiros namoricos. Gentil e amorosa, Julia sempre cedia aos seus caprichos.

Com a chegada dos estudos universitários, a moça conheceu Eduardo no primeiro ano de faculdade, quando cursava Direito, e ele Administração. Foi um amor incondicional, os dois pareciam feitos um para o outro. A meiguice da jovem completava a simpatia do rapaz, que conquistou a família desde o primeiro dia, quando pediu ao Doutor Fonseca permissão para namorar em casa.

Ao contrário da outra gêmea, Rafaella nunca teve um relacionamento duradouro. Na faculdade de medicina ganhou a alcunha de “destruidora de lares”, pois colecionava entre seus casos e rolos, vários professores.

Durante o baile de formatura da irmã, no meio da festa,  e depois de muitas doses de whisky, ela roubou um beijo do cunhado, e disse em seu ouvido:

– Você ainda vai ser meu um dia!

Embalados pela alegria e pelo álcool, ninguém deu importância ao acontecido, e a vida das duas seguiu rumos bem diferentes. 

Júlia decidiu especializar-se em Direito da Família, passando a atuar voluntariamente em projetos sociais, enquanto se preparava para a magistratura – seu grande sonho.

Já Rafaella, terminou o curso de Medicina, e especializou-se em Psiquiatria. Segundo suas próprias palavras, “queria tratar de loucos, assim como ela”. Montou uma clínica, e passou a atender apenas endinheirados e famosos.

Um dia, a irmã virou sua paciente. Sofrendo com crises de ansiedade, por conta da proximidade do casamento, e do concurso que faria logo em seguida, pediu à doutora que lhe receitasse algo, para aliviar aquela tensão. Então, ela prescreveu um tarja preta tão forte, que não era vendido em farmácias, deveria ser encomendado diretamente do laboratório, a Venlafaxina.

Estranhando a prescrição, Júlia perguntou:

– Rafa, você tem certeza de que esse remédio não é muito forte?

– Claro que não é sua boba, você acha mesmo que eu ia receitar algo que pudesse lhe fazer mal? Esse é um medicamento novo, que estou usando com meus pacientes, e tem apresentado ótimos resultados.

Confiando no carinho da irmã, e na competência da médica, a jovem tomou a medicação conforme indicado. Pouco depois, começou a ter fortes palpitações, dores no peito e sensação de desmaio. Questionada, a doutora disse que esses efeitos passariam em poucos dias, e que eram reações normais do organismo afetado pela ansiedade, ao medicamento.

Rafaella não só acompanhou a escolha do vestido e a preparação da cerimônia, como deu de presente para o casal uma enorme tela, que tinha estampada a imagem de “La Catrina”, figura icônica da cultura mexicana, que desafia a ideia da morte como um fim, celebrando a vida e a memória dos mortos. Um símbolo de boa sorte e proteção segundo os mexicanos, disse ela aos nubentes.

No dia da cerimônia, ainda em casa e enquanto se arrumava, a moça começou a passar mal. Pensando tratar-se de outra crise de ansiedade,  chamaram Rafaella para atender a irmã, que lhe deu dois comprimidos da droga de uma só vez. Sem consciência do que estava acontecendo, restou a inocente noiva apenas tomar a medicação…

Eduardo e Rafaella agora vivem no México, para onde se mudaram logo depois do casamento. Ele trabalha com comércio internacional, e ela montou uma clínica psiquiátrica na capital do país, que atende políticos e personalidades famosas da região. No hall de entrada, um grande mural ostenta a imagem de “La Catrina”.

Dias frios

Aquela manhã gelada não me inspirava a levantar da cama. Então, Boris meu companheiro fiel, pulou em meu peito, e começou a lamber-me o rosto, como a dizer.

-Levanta, não desista!

Com muito esforço, e pouco ânimo, fui cumprir o ritual. Arrumei a cama, tomei banho, escovei os dentes, comi alguma coisa, tratei do Boris e saí. Antes de fechar a porta, voltei, e dei uma última olhada no meu amigo.

Ainda na garagem, meu coração e minha mente pareciam mais congelados, do que o frio invernal do lado de fora de casa.

No caminho, tive que aguardar em uma passagem de nível, enquanto os vagões do trem voavam.

-Essa seria uma boa, e decisiva, oportunidade, pensei.

A cancela abriu. Segui meu caminho. Na repartição, eu era apenas mais um, dentre tantos outros mortos-vivos. No meio do expediente, um alvoroço despertou meu pouco interesse.

-Fonseca se matou! Gritou uma colega sem nome.

No banheiro, um corpo envolto em sangue, e uma faca atravessada na jugular.

-Porra! Porque não pensei nisso antes desse imbecil do Fonseca?

Com o óbito registrado, a repartição fechou mais cedo, para que fosse dado encaminhamento aos procedimentos cadavéricos.

No caminho de volta, fiquei parado no viaduto – troca de tiros entre polícia e facção. Uma bala perdida achou o vidro do meu carro, e acertou o encosto de cabeça do banco do carona.

-Sujeitinho ruim de mira, imaginei.

Chegando em casa, Boris estava no mesmo lugar onde o havia deixado. Parecia que o frio da manhã havia congelado tudo.

Fechei a porta, tirei o telefone do gancho, abri o gás do fogão na cozinha, e me enfiei debaixo do edredom. Boris saiu da sala, pulou na cama, deitou no meu peito – como de costume – e começou a ronronar. Dormi para nunca mais acordar.

Bola dentro

Amadeu era um heteronormativo, que nunca imaginou ter qualquer envolvimento fora da curva. Morando com Bruna há seis meses, a intimidade dos dois era presumível. Ao contrário do namorado, era uma jovem de alma livre, que não se prendia aos tabus da sociedade.

Certa noite, depois de algumas taças de vinho, durante o pré-jogo, Bruna surpreendeu com uma pergunta:

-Amor, o quanto você gosta de mim?

-Porque essa pergunta agora?

-É só responder sim ou não.

-Sim, podemos voltar para o aquecimento?

-Ainda não.

-Tá de sacanagem, Bruna?

-É justamente essa a questão.

Curioso, Amadeu guardou a chuteira.

-De que tipo de sacanagem estamos falando aqui?

-Ah Amadeu, você é tão preconceituoso!

–Começou? Agora termina!

-Você nunca desejou ter uma relação à três?

-Ah, tá. Uma suruba?

-Olha como você é, não estou falando de baixaria.

-Tá certo, ménage,.Todo homem hetero tem vontade de pegar duas mulheres.

-Mas pode ser também entre dois homens e uma mulher.

-Onde você quer chegar com esse papo?

-Na cama – eu, você e um outro rapaz.

-Pô Bruna, eu sou centroavante matador, não divido bola com ninguém.

-Mas não faria isso por mim? Quem vai receber a bolada sou eu, ué?

– Por acaso você está me traindo?

-Claro que não seu bobo. A gente contrataria um garoto de programa.

-Beleza. Para provar que não sou esse cara preconceituoso, eu aceito. Mas não me pede para participar da escalação. Você resolve tudo, e me avisa.

A moça escolheu o estádio, contratou o melhor atacante, e a partida teve início. Foi muita bola dentro – gol de placa, gol de cabeça, gol por cobertura. Findo o jogo, já voltando para casa, ela perguntou ao namorado.

-E aí Amadeu, você gostou da brincadeira?

-É, foi bom sim, até que o rapaz jogou bem. Mas ainda sou melhor atacante que ele.

Na semana seguinte, sem que a namorada soubesse, marcou um amistoso com o GP. Afinal, gostou tanto da chuteira do moço, que não resistiu à vontade de levar umas boladas nas costas.