Sobre “Escolas que são asas”

Rubem Alves assim as define “Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.” Então alguém pode estar se perguntando: de onde esse sujeito tirou essa ideia? Simples e bem objetiva a resposta. Das salas de aula por onde passei, e das escolas por onde andei, pois tudo que não vi por lá, foi justamente aquilo que meu dileto autor tão bem definiu em sua epifania educacional.

Culpa da Escola? Talvez. Culpa dos colegas “ensinantes”? Possivelmente. Mas a proposta aqui não é apontar o dedo na cara de quem quer que seja, ao contrário, propor uma reflexão sobre o problema para, quem sabe, encontrar uma solução.

Um primeiro ponto que deve ser entendido é a visão política que se tem sobre a Educação, pois já há muito tempo que ela é tratada como apêndice de Programas de Governo, e não como Politica de Estado, bem como uma despesa incômoda e desnecessária, e não como investimento de longo prazo. Por esse motivo, ouvir um gestor do MEC afirmar que ela deve ser tratada como investimento, como o fez o Senhor Ministro, Camilo Santana, além de alvissareiro, é de um ineditismo histórico.

Acreditando que tal pronunciamento não se deterá apenas na narrativa, vamos ao passo dois: discutir com os entes do pacto federativo – União, Estados e Municípios – os caminhos a serem seguidos. E aqui não cabe falar em modelos, pois isso significaria tentar enquadrar em um 3X4, uma foto panorâmica representada pela diversidade cultural e social desse país. Pensando apenas em Minas Gerais, por si só esse é um lamentável equívoco (que infelizmente é realidade na Rede de Ensino pública) já que de Norte a Sul, de Leste a Oeste do estado não se encontrará um padrão que possa ser adotado.

Dados os primeiros passos, necessário é reconhecer que educar é um processo construído na linha do tempo, que não dá saltos, e que não apresenta resultados imediatistas, por isso a recorrente análise e construção de indicadores educacionais, desconectados de uma série histórica capaz de construir um diagnóstico realista, que seja suficiente para produzir um prognóstico com a solução dos eventuais problemas, é repetir o erro da manipulação política de dados, com fins políticos e eleitoreiros, que só fazem agravar as severas distorções entre as Redes públicas e privadas, e entre os municípios e estados brasileiros.

Então, existem mesmo essas tais “\Escolas que são asas”? É possível construí-las em um país de dimensões continentais, e tão diverso por si mesmo, como o nosso?

Me valendo das palavras de Ariano Suassuna, sou um realista esperançoso, por isso a resposta a essa pergunta é sim. E o primeiro obstáculo a ser vencido é rever o processo de formação docente no Brasil que é caduco e ensimesmado, desconectado das realidades regionais, analfabeto funcional no que diz respeito às Metodologias de Ensino e Avaliação, e o mais grave – é um sistema de ensino superior que não forma professores, mas sim entrega “ensinantes” que vão disputar uma vaga nas redes públicas da Educação Básica, em oposição a uma seleta casta de futuros pesquisadores e doutores que vão alimentar o sistema, retornando para a Academia como docentes sem nunca terem vivenciado experiência outra que não fosse a do estágio curricular obrigatório, não conhecendo, portanto, a realidade da escola pública do país.

Feito isso é necessário (RE)ver a infraestrutura que as escolas públicas oferecem aos estudantes brasileiros, deixando claro aqui que existe um abismo a separar as redes privadas e públicas. E buscar essa equalização é uma grande sandice, quando não uma perda de tempo e dinheiro, visto que a estrutura dessas escolas, seu público-alvo e as demandas por ele exigidas são totalmente diversas daquelas dos da Rede pública. O que se deve fazer então é oferecer o necessário para viabilizar a qualidade do ensino oferecido, esse é o ponto.

E vale destacar aqui o grande equívoco que tem se construído quando o assunto é tempo integral na Rede Pública. Primeiro porque a maioria dos gestores não sabem nem a diferença entre Educação Integral e Educação em Tempo Integral. Segundo porque o modelo apresentado é meramente compensatório (contraturno) ao invés de ser humanista e formativo, deixando de lado as necessidades de um grande número de jovens, que não tendo a menor condição de passar o dia todo em uma sala-de-aula, por terem que trabalhar para reforçar o orçamento familiar simplesmente abandonam a escola, e seus sonhos. Há muito que se avançar e repensar no que diz respeito a esse tema.

Portanto, ensinar a voar é oferecer autonomia, protagonismo, oportunidades e perspectivas para o aluno. Se isso é possível em um país tão diverso quanto o nosso? Sim, ratificando minha opinião já expressa algumas linhas acima. E ouvindo a declaração do Senhor Ministro sinto um sopro de esperança, um sinal de que algo vai ser feito em prol daqueles que mais necessitam, e que buscam uma formação que lhes ofereça perspectivas reais de mudança, e não apenas um diploma para ser emoldurado e pendurado na parede da sala. Educação é coisa muito séria, por isso nunca vou cansar de repetir, não é para oportunistas nem tampouco para politiqueiros – “Educação é pra quem Conhece”.

Tudo me é lícito, mas será mesmo que tudo me convém?

O escritor francês André Gide, já no século passado, afirmava que a “A liberdade é difícil de se alcançar, mas o que fazer com a liberdade é muito mais difícil.” Em tempos de excessivas licenciosidade e expressão essa advertência torna-se mais relevante do que nunca, e exemplos disso não faltam – nos relacionamentos e na vida em sociedade, mas também nos movimentos sociais e reivindicatórios – por isso não dá para esquecer do último dia 08 de janeiro. “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm”, já dizia essa passagem bíblica há mais de 2000 anos.

Falando de vida em sociedade, as novas gerações já nasceram e estão sendo criadas dentro de um paradoxo conceitual, pois se para os da minha época (e os que vieram antes de mim) a Liberdade era apenas uma figura de retórica, e o Respeito (tantas vezes confundido com o temor) era a regra, hoje nossos jovens e crianças perderam a noção do segundo e ressignificaram a primeira – como disse Gide, saber o que fazer com ela, é muito mais difícil do que alcançá-la.

E aqui a discussão fica mais interessante, pois não dá para dissociar um e outra, isso porque fazendo uma análise etimológica dos dois vocábulos, o primeiro deles – Liberdade – tem como sentido mover-se sem amarras, sem restrições, ter autonomia. Enquanto o outro – Respeito – significa olhar ao redor, prestar atenção ao redor. Portanto, olha só que coisa reveladora, para ser livre tenho que olhar ao redor, prestar atenção naquele que cohabita meu espaço de interação social, sob o risco de (não o fazendo) invadir a privacidade de outrem, ou cercear suas possibilidades de expressão.

Como consequência disso, muito se fala hoje em respeito às liberdades individuais, mas com um olhar míope e enviesado dessa ação, que pressupõe somente o cuidado com as minhas necessidades e vontades, desconsiderando o princípio existencial de que não somos uma ilha, negligenciando, assim, o fato de que minhas ações e movimentos podem incomodar o vizinho ao lado.

Volto então a questionar: já que tudo me é permitido, será mesmo que tudo me convém? Gostaria de ouvir a resposta a essa pergunta da boca dos brasileiros e brasileiras que estão hoje privados das suas “liberdades” nos presídios de Brasília, como consequência dos atos cometidos no último dia 08 de janeiro, sob a égide de uma defesa contumaz da nação (em grave risco), embasados pelo “livre direito” de expressar-se, tantas vezes repetido por aquele que fugiu do campo de batalha, ao menor sinal de fumaça (sem intenção declarada de voltar).

Isto posto, poderia parecer aos mais desatentos que os desatinos, a falta de juízo, a destemperança e falta de limites seriam características das gerações anos 90, dos Millenium, Z e Y, mas na Papuda e na Colmeia, salvo melhor juízo, temos apenas adultos, senhoras e senhores, em sua grande maioria contemporâneos desse que lhes escreve, ou de gerações ainda mais longevas. O que leva a constatação de que o problema então não está na educação moral, cívico e religiosa que, em tese, asseguraria a formação de indivíduos que têm clareza das responsabilidades sobre suas ideias e opiniões, de maneira respeitosa e civilizada, mas sim na forma como se faz o uso dessa “livre expressão”, conferida a cada um de nós.

O Brasil tem uma história longa (e nem sempre bonita) de luta em defesa da Liberdade, e somente graças a isso que hoje é permitido a jovens e adultos, homens e mulheres, negros e brancos, de esquerda ou de direita a prerrogativa de manifestar e defender suas ideias. Mas como a todo direito existe um dever correspondente, a consequência por nossos atos e escolhas sempre vem. Depois de tudo que temos visto e ouvido na TV e nos noticiários, talvez seja a hora de repensar não as garantias às liberdades, mas o modo como ensinamos nossos jovens, e também os adultos, a fazer o (bom) uso desse direito universal que lhes foi concedido, pois, apesar de lícito nem tudo às vezes é conveniente.

Sobre a União e Reconstrução Nacional

A Onomástica é um ramo da Linguística que estuda o uso dos nomes próprios, e não por menor importância Machado de Assis sempre “brincou” com suas personagens, deixando velado sobre as alcunhas um segredo, uma pista sobre sua trama. Acredito que se a primeira impressão não é a que fica, ela pode causar grande impacto. Por isso, vendo o mote do atual governo para essa gestão, devo dizer que, para além de uma combinação feliz de palavras, ela esconde uma mensagem que para ser compreendida é necessário retroceder com a lente da memória ao último quadriênio.

O dia era 6 de setembro, véspera da Independência do Brasil, quando o então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, passou por uma experiência de quase morte, e o resultado dessa conjunção de fatos é que ele iria renascer na condição de “Messias”, o “Desejado”, o “Encoberto” que, tal como Dom Sebastião em Portugal, retornava do mundo dos mortos para restabelecer a honra e a dignidade da pátria.

O resto dessa história todos já conhecem, mas o que guarda maior significado nisso tudo é que ele de uma maneira lisérgica, e quase delirante, assumiu como personalidade essa personagem de “Salvador da Pátria”, enviado de Deus que tinha como missão resguardar a família e os “bons costumes” da sociedade brasileira, perseguida e ameaçada pelas perversões da Esquerda, e por uma invasão comunista eminente.

Não se pode conferir a Bolsonaro nessa trama burlesca, um papel de protagonismo diante do que viria a acontecer, pois sua investidura celeste sempre foi marcada pela conveniência dos fatos, sendo assim ele deve ser tratado apenas como um coadjuvante importante. Digo isso por que, verdadeiramente, o papel principal dessa história cabe à própria sociedade brasileira, conservadora por excelência, mas que guardava (dentro de uma caixa) todas as marcas que pudessem identificar seus predicados preconceituosos e atávicos de quem ainda não aprendera a conviver com a diferença, nem tampouco com o contraditório, aguardando apenas um sinal para serem mostradas.

Victor Hugo já dizia que “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” Melhor definição não há para o que se viu acontecer nos últimos dois meses no Brasil, mas em especial no último final de semana, em Brasília. Uma turba de seguidores, entorpecida pelas palavras de um Falso Mito (já que ao primeiro sinal de fumaça foi passear na Disney) que pregou o ódio e a cizânia, como quem ateia combustível ao braseiro, mas quando o fogaréu sai do controle, se exime da responsabilidade e da autoria do incêndio.

Palavras têm força e têm poder, por isso União e Reconstrução, para além de uma bela marca, representa a necessidade de promover a reaproximação entre irmãos que se afastaram, e reconstruir uma nação fragilizada pelo ataque contumaz à Democracia, às suas instituições e, de forma vil, a algo muito maior e que sempre foi a marca do povo brasileiro – seu espírito pacífico e ordeiro.

Não trato aqui de ideologia partidária, mas tenho a convicção de que melhor governante não haveria para lidar com essa crise do que Luiz Inácio Lula da Silva – e não falo isso para enaltecer o Presidente, mas sim porque sem a experiência que a vida lhe conferiu, somada aos anos deixados como marcas em seu rosto, talvez o estratagema criado pelo “Messias” teria dado certo, e nem posse teria havido. Contrariando o “Desejado”, ele soube fazer do limão a limonada, e transformou o que seria uma gafe no ato mais simbólico de Posse de um Presidente da história da República.

De igual modo, quando a sanha e a ira tomaram de assalto a Praça dos Três Poderes, poderia ter contemporizado, se acovardado até, mas não fugiu à responsabilidade que a maioria dos brasileiros lhe outorgou através do voto, sendo duro quando necessário, e sagaz o suficiente para reunir os mandatários de todos os poderes constituídos do país, aliados e opositores, em torno de um único projeto – reconstruir a nação brasileira, ato marcado pela simbólica descida da rampa do Planalto.

Coincidência, sorte na escolha das palavras? Não há como ter certeza, mas o fato é que ninguém poderia imaginar que um mote de governo, um slogan, poderia ter tanto significado e simbolismo quanto União e Reconstrução tem nesse momento histórico. Como bem nos lembra Rubem Alves, “As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor.”, então que seja esse o renascimento de um Brasil melhor.

Ocaso de um Velho Ano

Na iminência da virada do calendário, vozes mundo afora proclamam a chegada do Novo Ano – Frohes Neues Jahr / Sana sa’eedah / Feliç any nou / Godt nytår / Feliz año nuevo / Bonne année / Kali chronia / Shana Tova /Happy New Year / Buon anno / Feliz ano novo / La mulți ani! – em um coro laudatório, repleto de simbolismos, promessas e expectativas, crendo que aquele que vem nascendo, será melhor que o que se vai deitando no poente.

No último 31 de dezembro, coloquei dentro de uma Arca minhas proposições e projetos de vida para o ano de 22, mas junto a eles desejei também que fossem dias de paz e prosperidade em todo o mundo, sem o temor da COVID-19 e seus trágicos efeitos. E que no Brasil ressurgisse a esperança, graças às mudanças que o ano de eleições gerais poderiam (e deveriam) trazer ao povo brasileiro, tão sofrido e machucado pela falta de comida, de saúde, de emprego e de boas novas.

O fato é que, logo no início do Novo Ano, o mundo foi surpreendido por um conflito armado entre nações que compartilhavam a mesma origem, dividiram o mesmo território, mas que atingidas pelo vil desejo humano de dominação e conquista, colocaram irmãos para se digladiar em um campo de batalha. Passados quase doze meses, a egolatria e a intransigência, tanto de um lado, quanto do outro, transformaram um conflito territorial, em uma guerra que parece ainda distante do fim.

Os dias de isolamento da COVID-19 acabaram – ainda bem – mas faltou ao aluno aprender a lição, que só mesmo uma doença de impacto mundial poderia ter deixado como ensinamento. O negacionismo, a falta de responsabilidade com o autocuidado e o descrédito com a eficácia da vacinação cobraram (e ainda estão cobrando) um preço muito alto. A doença não acabou, as mortes não cessaram e, ainda assim, o noticiário mostrou essa semana que no Brasil mais de 30% do público-alvo não completaram o calendário de reforço vacinal previsto pelo Ministério da Saúde.

Enquanto isso, no outro lado do mundo, a China que impôs à população o mais severo controle de circulação e isolamento (no primeiro momento da Pandemia), vive hoje a sua pior crise da doença, justamente por ter negligenciado a única profilaxia eficiente para combater o vírus, que sempre foi a vacinação.

Por aqui realmente vivemos um ano de eleições histórico, marcado pela polarização do eleitorado, atestada pelo resultado das urnas que confirmaram a força e a maturidade do processo democrático brasileiro. O que se acreditava, então, é que proclamado o resultado vencedores e vencidos tornassem às suas posições de origem – todos filhos da mesma pátria. Eis que não ocorreu assim, pois o efeito colateral dessa cizânia, alimentado por um messianismo idólatra, fez com que passados dois meses do pleito, o país ainda esteja em estado de alerta, temendo um atentado, ou um proclamado golpe que nunca aconteceu. Enquanto isso, o “Desejado”, o “Encoberto”, o “Messias” tratou logo de embarcar em um avião para salvar a própria pele, deixando seus seguidores frustrados e molhados na porta dos quarteis.

Quanto a mim? Bom nunca poderia dizer que esse foi um ano ruim, ou infeliz – seria ingrato com tanta coisa boa que aconteceu. Contudo, meus propósitos e projetos não se realizaram (ainda). E tenho a clareza de que isso não ocorreu porque entre o desejar e o realizar existe um mar de incertezas que, via de regra, nos atinge com suas vagas gigantescas, teimando em nos fazer sucumbir. Mas agarrado que estou, a minha boia chamada esperança, vou superando uma a uma, na certeza de que após as águas revoltas vou encontrar a calmaria, e lá minha realização.

Os ponteiros do relógio já caminham para o infinito. É hora de depositar na Arca da Promessa meus projetos e propósitos para 2023, com a certeza que somente um poeta das coisas simples, como Mário Quintana, poderia me proporcionar numa noite como essa: ‘Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado. Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição – morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.”

A sinestesia do Natal

Quando Marcel Proust “em busca de seu tempo perdido” saboreia o pedaço de uma madeleine, misturada ao gole de uma xícara de chá, como que num passe de mágica, sua memória traz de volta as lembranças da tia Léonie, nas manhãs de Combray. Aqui Literatura e realidade se entrelaçam, pois, é para falar das memórias sensoriais evocadas pelas comemorações natalinas, que construo esse Artigo como forma de reconciliação com um tempo passado, que ficou guardado nas minhas recordações infantis.

Afinal, para você o que significa o Natal? E não me refiro aqui ao simbolismo religioso do Advento, do nascimento de Emanoel. Qual a imagem, qual a lembrança que você guarda dessa data em sua vida?

Pergunto isso porque (ao menos para mim) ele tem um sentido, um efeito sinestésico, que evoca as mais doces e saudosas lembranças de uma época que não existe mais. Em tempo, segundo a Psicologia sinestesia é uma relação espontânea entre sensações diversas, mas intimamente ligadas na aparência como cheiro, cor, sons dentre outras.

A primeira imagem que Mnemosyne, a deusa da Memória, resgata dos meus tempos idos é a da simplicidade – uma casa muito modesta, mas onde nunca faltou o abrigo e o pão, e sempre sobrou aconchego e acolhimento, tanto é que no período das festas a pequena residência de 6 cômodos se agigantava, tornando-se quase um salão onde a lógica geométrica era quebrada por um sem número de pessoas acomodadas no mesmo espaço.

Esse era o tempo da espera, da ansiedade – primeiro pela data em si mesma, pois aguardava ansioso o último mês da folhinha – enquanto ficava na expectativa da chegada dos parentes, vindos de longe, para o reencontro e a celebração.

Uma outra evocação vem dos sons natalinos que sempre tocaram muito fundo minh’alma, desde o tradicional Jingle Bells, até os temas de final de ano da TV Globo – bastava começar o primeiro acorde para o meu espírito se encher do brilho e da alegria, que esse tempo representava em meu imaginário infantil.

E por falar em brilho, como não lembrar dos enfeites natalinos – da árvore de Natal e das luzinhas piscantes – aqui cabe um adendo, estou falando de um tempo vivido há mais de 30 anos, portanto, muitas das tecnologias de hoje nem eram sonhadas naquele tempo. Devido à simplicidade da casa, obviamente, a árvore era também singela, bem como muitas das bolas eram amarradas com arame nos ramos natalinos, devido ao desgaste do tempo. Mas isso nunca diminuiu a magia que a criança guardava nos seus olhos.

Natal sem cheiro e sabor? Então, certamente ele não aconteceu. E para mim essa mistura de sensações era representada pelos pratos que cada conviva trazia para a ceia – a um cabia a ave, a outro o pernil, a farofa só podia ser do fulano, a maionese do beltrano – e era essa mistura de temperos que fazia daquela noite um momento único, onde a fartura não se confundia com a soberba. Comer antes da meia-noite? Impensável, pois antes de tirar qualquer naco de comida ainda havia a distribuição dos presentes. E assim, caminhava para o fim mais uma comemoração, cheia de sensações e simbolismos que ainda hoje inundam as lembranças de um cinquentenário saudoso, graças a esse embriamento dos sentidos.

Hoje os tempos são outros – a criança virou um adulto, e o encantamento dos olhos do menino se perderam em alguma curva da memória. O Natal mudou – tornou-se protocolar, refinado, onde a troca de presentes (enquanto demonstração de um real afeto) se transformou no sorteio de um “amigo” fortuito. Sua magia acabou? Logicamente que não, ainda conheço histórias de famílias que se reúnem com a mesma simplicidade que conheci outrora. Mas e para você? Qual o cheiro, a cor e a sensação que o tempo do Natal lhe evoca?

Fim de jogo 

Mais um ciclo se encerra. Mochilas fechadas, quadro apagado, armários desocupados, sala vazia. Na secretaria, diários devidamente riscados e entregues, Ata do Conselho de Classe final – assinada, petiscos e refrigerantes entrecortados por troca de presentes e votos de boas festas. Para os “da casa”, um descanso remunerado até o início de fevereiro. Para os temporários o caminho é outro, buscar novas listagens de contratações para o próximo ano letivo. E isso se repete, ano após ano, nas escolas públicas desse país. E nessa sequência de acontecimentos, o que se pretende mudar no processo de ensino-aprendizagem para o ciclo seguinte?

De antemão, posso responder que nada irá acontecer. E isso se dará por uma única razão: nosso modelo Educacional (ao menos nas Redes Públicas) não é reflexivo. Ao contrário, funciona como uma o forno de uma grande padaria – que deve assar todos os pães sempre da mesma forma, tanto na aparência quanto no sabor – e se algum sai fora desse padrão, o caminho do desvirtuado é o descarte. Vendo por essa ótica, portanto, não há o que mudar, pois tudo está como sempre esteve.

No entanto, algum sabichão pode refutar minha análise com os resultados dos últimos Exames Oficiais de Proficiência, que demonstram melhora nos indicadores. Ah, as palavras! Podem ser pérolas ou farelo que se esparrama com o vento. Nesse caso (cabe dizer) se enquadram na segunda opção. Isso porque (como o próprio vocábulo denota) eles “apenas” indicam, mas não solucionam nada e, tão acostumados que estamos a fazer sempre os mesmos pães, esses dados “cientificamente tabulados” não modificam a receita, e assim não alteram seu formato ou sabor.

Um dos campos de estudo da Linguística é a Metalinguagem, que é a linguagem que fala de si mesma. Ou seja, serve-se do próprio código para explicá-lo. Talvez fosse, portanto, apropriado falarmos aqui de Metaeducação, como uma maneira (ainda que empírica) de refletir sobre o que se faz, e o que se diz dentro do sistema de ensino brasileiro.  Conversando esses dias com um colega sobre o porvir do próximo governo, destacava a relevância e a pertinência do debate, e do investimento na Educação Básica, para conseguir mudar a qualidade, e o acesso ao Ensino Superior.

Falando então, mais uma vez de Rede Pública (e de pães) é como se tivéssemos em uma mesma padaria dois padeiros – um da casa e um contratado: o primeiro faz a massa seguindo sempre a mesma receita, e não aceita que seu pão pode melhorar; o outro busca inovar acrescendo um tempero próprio, para oferecer um produto diferenciado. Mas como o seu vínculo é temporário, findo o contrato, tudo volta ser como sempre esteve.

Nas escolas, a lógica perversa da descontinuidade de ações leva a situações como essa: muitas das vezes um professor (contratado) desenvolve um trabalho durante todo um ano letivo, alcançando resultados significativos no processo de aprendizagem, mas no ciclo seguinte (sem a sua presença) o establishment fala mais alto, e tudo volta a ser como d’antes no Reino de Abrantes. E Isso só acontece porque, como dito no início desse Artigo, a Educação Pública não é reflexiva, nem tampouco autocrítica.

Contudo, hoje sou eu quem encerra mais um ciclo no sistema de ensino. Passo, então, a fazer parte daquele grupo de colegas aguardando nova contratação. Mas concluo meu trabalho com a convicção de que apresentei um pão diferenciado, com um tempero especial aos que ensinei, e se não consegui fazer tudo que precisava, fiz o que estava ao meu alcance para inspirá-los, e encorajá-los a voar.

E como “De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra” (Salve Rubem Alves) isso por si só me deixa com a consciência tranquila, na certeza do dever cumprido, esperando que daqui pra frente, ao menos com aqueles que foram meus alunos, nada mais fique como sempre esteve, sendo assim, Fim de Jogo.

A menina do Campo

Francilaine da Silva

Samantha é uma menina de 14 anos que mora em uma fazenda com seus pais e  irmãos mais velhos. Lá moram muitas outras pessoas também, por isso tem muitos amigos.

Ela está cursando o 9° ano, junto com suas outras duas irmãs – Sarah e Stefany,- pois são trigêmeas. Mas apesar de gêmeas, não se parecem muito, só quando eram mais novas. Além delas, têm mais quatro irmãos: os mais velhos que também são gêmeos: Sandra e Félix de 22 anos, Isabella de 20 anos e Catarina de 18 anos. Sua mãe se chama Carla, e seu pai Eduardo.

De segunda à sexta ela acorda às 8h da manhã para tomar café, e fazer os seus deveres. E quando dá 10h ela e suas duas irmãs, Sarah e Stefany, vão se arrumar para esperar o ônibus, que busca os alunos que moram na fazenda, para levar eles para a escola na cidade.

Chegando ao ponto de ônibus; Samantha, Sarah e Stefany encontram com Gabriela, Lara, Rafaela, Raissa e Eduarda. Elas se cumprimentam rindo e brincando e, como de costume, sentam todas no mesmo banco para esperar o ônibus.

O ônibus chega e todos os alunos entram, e em poucos minutos chegam na escola. Eles desembarcam e vão para o pátio; depois de alguns minutos o sinal toca, e é hora de todos irem para as suas salas.

Chegando lá, Samantha se senta com Rafaela na última carteira, na frente das duas sentam-se Stefany e Lara, e do lado Sarah com Gabriela. Na última carteira da outra fileira, ao lado de Samantha e Rafaela, e na frente da Sarah e Gabriela, sentam-se Eduarda e Raissa.

A primeira aula que elas têm é a de História – a favorita do grupo – depois de outras três aulas toca o sinal para o recreio. Elas vão para o refeitório comentando sobre a prova que fizeram, e sentam-se para lanchar enquanto conversam.

Samantha então pergunta:

 – Vamos andar a cavalo hoje, quando chegarmos em casa?

Todas respondem alegres:

 – Vamos!

Rafaela fala:

– Estava mesmo querendo andar a cavalo esses dias!

As outras falam juntas:

– Também estava!

Elas acabam de lanchar e, depois de uns minutos, o sinal toca e elas voltam para a sala. Tiveram mais quatro aulas, e então o sinal de saída bate – já estava na hora de ir embora. Elas embarcam no ônibus, e Samantha e suas duas irmãs chegam em casa falando alegres:

 – Chegamos!

A mãe delas comenta:

– Nossa, que alegria!

Sandra e Isabella falam juntas:

– Aposto que vão andar a cavalo!

As três respondem juntas e animadas:

– Simmmm! Vamos!

A mãe e as irmãs perguntam:

– Como foi a aula de vocês hoje?

E elas respondem:

– Foi muito legal e muito divertida!

Então elas sobem para os seus quartos, trocam de roupa e depois vão para o estábulo, para pegar os cavalos. Com tudo pronto, elas saem para encontrar as amigas e aproveitar o passeio. Satisfeitas com a aventura, voltam cada uma para suas casas no final da tarde.

Samantha é uma adolescente muito feliz com a vida que ela tem, e o que ela mais adora fazer é andar a cavalo todos os dias. Ela gosta muito da cidade, mas adora mesmo é morar no campo, isso porque ama viver na natureza, gosta muito de cuidar dos animais e brincar com eles. Seus cachorros se esbaldam correndo pelo campo cheio de flores, uma mais bonita do que a outra. Também ama ler livros deitada no gramado, perto das flores, ao lado de seus cachorros, gatos e cavalos.

O final do ano já está se aproximando, e ela está muito feliz por que suas férias estão chegando. Foi aprovada e ano que vem irá estudar no primeiro ano do Ensino Médio. Suas duas irmãs e suas amigas também estão muito felizes, por que também foram passaram. Tiveram até Festa de Formatura, onde se divertiram muito.

Para as férias ela planeja acordar todo dia bem cedo, ir para o estábulo cuidar dos cavalos, enquanto seu pai e seu irmão cuidam das outras coisas na fazenda. E depois disso – andar a cavalo, como sempre! Juntamente com suas irmãs e amigas já montaram todo o roteiro do período de descanso:  andar muito a cavalo, passear pelos campos floridos e fazer muitos piqueniques. Pura diversão!

Futuro Anjo

Yara Barbara De Paula

Edward sempre gostou de olhar as estrelas todas as noites antes de dormir, ele colocava o tapete no chão e se deitava com o seu binóculo nas mãos olhando as lindas estrelas piscando. Mais um certo dia algo diferente aconteceu – uma chuva de estrelas cadentes. Ele achou aquilo lindo, mas estranhamente uma delas continuou brilhando, e logo caiu perto de sua casa. Curioso, foi ver o que tinha acontecido.

Era tão brilhante, que mal conseguia abrir os olhos. Não era uma estrela, mas sim um anjo, seu Anjo do Futuro, dizendo que veio alertá-lo sobre o que deveria fazer para se salvar.

O enviado estelar disse que se ele não destruísse o colar de diamantes que foi de seu avô, ele estaria correndo o risco de morrer.

– O que?  Como assim? Por que? Perguntou Edward assustado.

– No passado seu avô lutou por esse colar, pois ele tem o poder de falar com vidas que já se foram. Se ele cair em mãos erradas, não sabemos o que será do mundo. Afirmou o Anjo.

– O que eu devo fazer então?

– Destrua-o o mais rápido possível, disse o Anjo enquanto era levado embora por nuvens douradas

Edward corre em casa, pega o colar e o destrói, mas então algo estranho começa a acontecer – ele começa a se desmanchar. Assustado, grita:

– O que está havendo aqui?

Nesse instante o Anjo e diz que na verdade ele é do Mal, e por ter destruído o colar morrerá, e assim no futuro não existirá mais, nem no presente. Então, o jovem observador das estrelas morre, e vai para o outro mundo, onde reencontra seu avô que lhe diz que existe uma única maneira dele voltar a vida – que é recuperando o colar destruído.

– Você terá que matar aquela pessoa onde o Anjo do mal está encarnado, para que possa voltar a viver, prendendo ele em um pote. Só assim conseguirá recuperar o colar, e a sua vida. Explica seu avô.

Então ele volta para sua casa como fantasma, e enquanto todos velam seu corpo descobre que o Anjo está escondido no corpo de sua vizinha, Helena, e que por isso terá que matá-la.

Ao chegar em casa Helena não vê, mas Edward faz com que ela caia da escada, e acabe morrendo, liberando assim o Anjo maligno, que é imediatamente aprisionado em um pote. Assim ele volta à vida em seu velório, e todos ficam chocados quando se levanta do caixão.

Então ele sai rápido, vai até seu quarto e procura o colar. Para sua surpresa ele está no mesmo lugar onde sempre esteve, como se nada tivesse acontecido.

Gearhead

Miguel Martins Dias

Às vezes acho que trocaram meu coração por um motor, e o meu cérebro por uma turbina.  A única coisa que importa são os próximos dez segundos, só tenho esse tempo para ficar em primeiro. A bordo de um “supra” laranja, só escuto o motor, o escape e a turbina.

Rachas para nós são como uma partida de futebol – um vencedor e um perdedor – e eu não posso perder; e não é pelo dinheiro em jogo, e sim pelo fato de ser a única coisa que eu sei fazer de melhor.

Tipo assim, nos reunimos depois da meia noite, e aceleramos como se não houvesse amanhã, pois a coisa melhor do mundo é ouvir o barulho da turbina, quando tiramos o pé do acelerador por três milesimos de segundos, e cada troca de marcha é uma melodia que sobe para meus ouvidos

Ás vezes eu preciso fugir de mim mesmo, preciso fazer só o que me faz bem. Talvez isso um dia me mate, mas… eu amo isso, essa vida…

Dentro do 2JZ, a mais de 100km, eu nem sei se eu vou bater, junto dos meus irmãos. A mais de 300km eu não enxergo nada, tô na contramão deixando tudo de lado – os problemas? Eu não ligo não. Essa mina do meu lado segurando a minha mão, passo a terceira, a quarta, a quinta. Clico no botão do sistema NOS que faz o meu carro voar. Não vejo mais nada, só escuto o som do motor, do escape e do turbinão.

Vejo uma curva, jogo a terceira e puxo o freio de mão, bombando o acelerador pneus gritando… Drift. Meus irmãos vindo a milhão olham e falam: esse moleque tem o dom!

Me perdi nessas curvas, não consigo mais me achar. Juro que até tentei parar, mas eu não consigo. 700 cavalos, essa noite eu vou acelerar, e se a policia brotar ativo meu nitro. O Mazda vai cortando giro, e queimando asfalto, meu carro tá no chão e o meu Deus lá no alto. Se eu tomar esse enquadro, com certeza vou em cana, mas se eu ganhar esse racha levo a mina pra cama.

O mundo JDM não é para qualquer um não. Você não tem que ser só veloz, tem quer ser um verdadeiro Gearhead, tem que estar em sintonia com o seu carro a todo momento. Você e seu carro juntos em um só, cada marcha é um passo para a vitória

A sigla JDM significa Japanese Domestic Market, mais isso é muito mais do que uma sigla. Para nós é um estilo de vida, de personalização da cultura Gearhead, baseado nas influências japonesas.

O sonho de todo Gearhead é morar no Japão, pois lá é o paraíso automotivo, onde você encontra peças de performance, customisação, nitro e diverssas outras coisas que você não encontra em nenhum outro país facilmente. Os carros de lá são o sonho de qualquer um que goste de JDM, desde os  mais conhecidos como Supra, Skyline, Mazda e Silvia a um bom e velho Toyota AE86, ou o Nissan ALSI-1.

Ser um Gearhead não é só gostar de carros, mas ser fanático pelos motores. Sua cabeça funciona 24h por dia pensando em carros; tudo que ele faz ou fala tem algum sentido relacionado com o mundo automotivo. Seu melhor amigo é o seu carro, não importando quantos ele tenha – todos serão seus melhores amigos. Quando algo dá errado em sua vida, ele sai para acelerar; quando ele está feliz, sai para acelerar; quando está cansado, sai para acelerar. Tudo se resume a carros e velocidade.

Drift é uma arte criada pelo piloto japonês Kunimitsu Takahashi, em 1970, que ficou famoso ao entrar nas curvas em alta velocidade fazendo seu carro deslizar, saindo dela com mais velocidade do que o normal. Mas quem é conhecido como o Drift King (Rei do Drift) é o japonês Keiichi Tsuchiya. Ele ficou conhecido por treinar, e aprimorar as técnicas do Takahashi, dirigindo um Toyota AE86 Sprinter Trueno, ganhando assim diversas corridas usando a técnica Drift.

Meu mundo se resume a carros, tunagens e irmãos que apreciam e amam este mundo, tanto quanto eu. No nosso mundo nossos Deuses são os: velozes e furiosos Takahashi e Tsuchiya, e nossos melhores amigos são os carros. Uma frase que resume um Gearhead é: Se um dia a velocidade me matar, não chore. Saiba que eu morri sorrindo – Paul Walker

Numa manhã de sol

Maria Eduarda de Souza Castro

Todos nós precisamos de uma manhã de sol,

depois de uma grande tempestade.

21 de fevereiro – Era uma manhã chuvosa, por volta das 6h. Eu acabara de acordar para ir ao trabalho, e aliás, sou uma investigadora. O clima estava tenso, meus olhos estavam cansados, as gotas de chuva caiam e me arrepiavam, algo estava errado.

Ao chegar no trabalho, às 8h, todos cochichando e escondendo algo. Como sempre faço, entrei na seção, peguei o meu novo caso a ser investigado e, ao ler o nome, meus olhos encheram-se de água. Não acreditei, era minha melhor amiga de muito tempo, no boletim feito pelo legista com o depoimento de um amigo nosso, dizendo:

– Bruna saiu na tarde do dia 19, em um carro preto com alguém de cabelos claros e olhos claros. Ela estava de blusa de moletom rosa, calça jeans escura e tênis, com cabelos soltos.

E a pior parte não foi essa, mas sim ler o que o perito descreveu:

– Bruna foi estuprada, enforcada e assassinada com 10 facadas, um crime por ódio.

Eu me desmanchei em lágrimas. Meu chefe ao ver isso não queria que eu pegasse o caso, e insistiu que eu passasse para outro do departamento, mas se tinha alguém que precisava, e iria resolver esse assassinato, seria eu.

Arrumei toda a papelada para poder começar a investigação, mas isso demora, já eram 21h, então acabei indo pra casa.

Deitada na minha cama eu pensava em quem poderia ter feito aquilo, e um detalhe que esqueci de contar pra você – esse amigo em comum era meu ex-namorado, Vinícius, com o qual tive um relacionamento de quase cinco anos. De repente, alguém bate à porta. Era ele que, preocupado comigo, veio ver como eu estava.

De alguma forma seus olhos verdes me traziam um pouco de paz, e deitada ao lado dele, enquanto passava a mão em seus cabelos loiros, me sentia mais calma, pensando que precisava buscar justiça pelo que fizeram com Bruna.

22 de Fevereiro – Já acordando na correria, me despeço do Vinícius, entro no meu carro e saio apressada para a delegacia. Pego o boletim e vou direto ao local do crime. Era um beco molhado, frio e sujo ao lado de um bar onde que ela adorava frequentar, íamos lá todo domingo à tarde, para beber e comer.

Entro no bar e lá estava o dono. Ao chegar pergunto se ele poderia responder algumas perguntas, e me apresentar as filmagens da câmera de segurança. Nervoso, ele disse que não faria isso, e só as entregaria com um mandado. Mas quando cheguei vi uma coisa grande e brilhante no chão, era um brinco. Saí dali e fui olhar o beco onde aconteceu o crime, e adivinha? O outro par do brinco estava lá.

Então entrei no bar pelos fundos, onde eu e Bruna fumávamos escondido, e que dava na sala do dono do estabelecimento.

Enquanto ele estava lá em baixo nervoso, consegui pegar as imagens das câmeras e passei para o meu celular. Corri para fora do lugar pelos fundos, e entrei no meu carro. Ao abrir a filmagem, vi Bruna correndo para fora do bar chorando, e um homem vinha atrás tentando beijá-la. Ela o empurra e então eu vi tudo – ele a estupra e mata cruelmente, esfaqueando-a no peito dez vezes.

Eu sentia meus pés gelados, minha mão fria e meu corpo bambo de tanto chorar. Peguei o brinco, e ao olhar bem estava escrito um V, da marca de joias Vivara.  Saí dali e fui direto ao shopping, onde ficava aquela joalheria. Chegando na loja mostrei o brinco para uma atendente, que entrou no sistema e descobriu que quem havia comprado aquele par de brincos era um tal de V.S.D..

Eu conhecia essas siglas, era a senha do computador do Vinicius, mas por que ele compraria uma joia para a Bruna se ele nunca me deu joia nenhuma? Me perguntei isso o caminho todo de casa, e ao deitar na minha cama comecei a pensar que ele estava calmo demais para quem tinha acabado de perder uma amiga. E estavam só Bruna e ele naquele bar? Por que?

Bruna não falava comigo já tinha uma semana e Vinícius sempre tinha uma desculpa para não me ver, será que era isso? Eles estavam tendo um caso em segredo? O meu choro foi compulsivo, não conseguia me conter, eram duas traições em um só dia – uma amiga que considerava irmã, e meu ex-namorado de cinco anos de relacionamento, não era possível?

Me levantei da cama às 3h da manhã, peguei o carro e fui correndo pra casa dele. Cheguei lá e ele estava acordado, sentado em uma cadeira com uma faca na mão, a mesma faca suja de sangue que ele usou em Bruna. Então ele me disse:

– Já estava achando que você não ia descobrir mais.

Então respondi:

– Como pode fazer isso comigo? Ela era minha melhor amiga, e se estavam juntos por que matou ela tão friamente?

Sem esboçar remorso, ele respondeu:

– Eu me apaixonei pela Bruna, mas ficamos apenas aquela noite no bar. Só que ela era muito fiel a você, e não quis ir pro Motel comigo. Então me enfureci e a matei – se ela não ficasse comigo, não iria ficar com mais ninguém.

Senti um ódio tão grande, meus olhos se encheram de lágrimas, minha cabeça ferveu, meu corpo gelou e quando me dei conta já havia atirado na garganta dele. Caí no chão chorando, enquanto via ele se afogar no próprio sangue.

Os vizinhos escutaram o tiro, e chamaram a polícia. Chegando ao local, acionaram o socorro médico, e me levaram pra delegacia. Aleguei legítima defesa, assinei uma papelada e fui pra casa.

Ao sentar na mesa da sala de jantar, não saberia descrever o que sentia – era um misto de sensações: uma dor tão grande no peito, eu havia sido traída por minha melhor amiga, e ainda havia perdido ela. Mas ao lembrar dele se afogando no próprio sangue, de alguma forma isso me acalmava. Mas nem tudo fazia sentido nessa história. Por que o cara do bar estava tão nervoso? O que mais faltava esclarecer nesse caso? É, acho que minha manhã de sol ainda não chegou, e esse não é o fim dessa história…