Por uma escola como a de nossos pais?

“Existem escolas que são gaiolas, e escolas que são asas”. Penso que essa frase do mestre Rubem Alves nunca fez tanto sentido quanto no momento atual, onde os olhos do mundo se voltam para a relação (conflituosa?) Educação X Tecnologia. Pois vamos aos fatos.

Tudo começou na Suécia que ao identificar um déficit de aprendizagem com a leitura dos seus estudantes, entendeu que o celular em sala de aula seria o causador dessa anomalia, proibindo assim seu uso. Outros países já tinham tomado a mesma atitude. Junte-se a isso a publicação pela UNESCO do Relatório “Tecnologia na Educação: uma ferramenta a serviço de quem?”, que chama a atenção para os problemas que o seu uso pode ocasionar, sem a necessária reflexão crítica.

Vale lembrar que, há pouco mais de dois anos, essas mesmas tecnologias eram a “panacéia” da Educação durante os tempos de Ensino Remoto, e agora elas parecem ter assumido o papel de algozes da aprendizagem. O que pode ter mudado em tão pouco tempo?

Na verdade, absolutamente nada. Elas continuam sendo o que nasceram para ser dentro de uma sala-de-aula – meio, mecanismo para ajudar o aluno na construção do conhecimento. E mesmo passado o isolamento pouco (ou quase nada) se aprendeu sobre seu uso; por isso o celular, o tablet ou qualquer outro ferramental tecnológico deixaram de ser meios, para tornaram-se finalidade dentro do contexto educacional – é como se o conteúdo ministrado fosse pensado para uma determinada ferramenta, e não a ferramenta escolhida para ajudar a desenvolver um conteúdo.

Em razão disso, hoje já se vê construído um movimento do ‘antes era melhor”, que defende a volta ao modelo tradicional de ensino, com livros didáticos, onde as crianças aprendiam a ler e fazer as contas, logicamente, sem a presença do abominável smartphone. Na contramão disso, o estado do Paraná investiu massivamente nas tecnologias educacionais, experiência agora que se pretende repetir no estado de São Paulo, que já promete aulas através de slides. Mas então, qual a visão de ensino seria a mais correta? Para responder a essa pergunta temos que esclarecer alguns pontos importantes:

O primeiro trata das soluções encontradas (ou problemas apresentados) no sistema de Ensino dos outros países que não são os mesmos, nem tampouco se aplicam à nossa realidade de país continental, com uma diversidade cultural, geográfica e social totalmente singular. Esse foi um dos grandes erros cometidos durante a Pandemia, ao servir-se de modelos e estatísticas importados, que não davam conta dos déficitis de aprendizagem do jovem estudante brasileiro, em sua maioria anteriores ao Ensino Remoto. Sendo assim, não vamos tomar a Suécia como base de comparação para justificar as nossas perdas educacionais.

O segundo diz respeito às Tecnologias. Concordo com a conclusão da UNESCO quando fala de reflexão crítica sobre o uso dessas ferramentas, pois, uma das consequências da COVID para a Educação foi o investimento sem planejamento em Tablets e Notebooks para professores e alunos, cursos em profusão sobre novas Metodologias de Ensino e até canais de TV e Centros de Mídias foram criados – tudo isso para atestar que aquela Rede de Ensino estava pronta para responder aos anseios dos pais sobre a formação de seus filhos, chancelada pela marca “Educação 3.0” – revolucionária – mas sem sucesso, como demonstrado pelos indicadores pós-Pandemia.

O terceiro e último, trata da aprendizagem por si mesma. Falando novamente do caso sueco, imaginar ou pretender que o celular seria suficiente para influenciar negativamente na questão das habilidades leitoras é muito para um teimoso professor (como o que aqui escreve), sabedor que o é que esse é um hábito construído fora da sala-de-aula, próprio de famílias onde pais leitores influenciam positivamente os filhos através da repetição dos gostos. De fato, por melhor que sejam minhas aulas, conseguirei – talvez – vencer o ranço e a barreira da primeira página com meus alunos, mas torná-los leitores? Isso demanda tempo, e muito trabalho. E não podemos esquecer que o Brasil ainda é, na sua essência, um país de não-leitores.

Uma escola como a de nossos pais? Do que depender de mim, certamente que não. Nem tampouco vou fazer coro com os saudosistas que cantavam tabuada nas aulas de matemática, ou repetiam incansavelmente os verbos e as classes morfológicas nas arguições de Português. Não! Os tempos são outros, nossas crianças já nascem com habilidades diversas das que tínhamos, e a sociedade oferece aos nossos jovens a tentação de servir-se de uma Inteligência Artificial para fazer uma Redação, ou um trabalho escolar.

Por isso é necessário que a aprendizagem seja sempre significativa para o aluno, pois somente assim ele estará preparado para viver nesse “Admirável Mundo Novo”, mas que ainda causa tanto estranhamento e furor. Quanto às tecnologias? Sempre serei a elas favorável e defensor – sejam midiáticas, de realidade aumentada, ou dialógicas – desde que nunca percam seu papel dentro do processo: servir de ferramenta para a construção do conhecimento, e nunca o fim em si mesmas. Ah, já ia me esquecendo de uma última tecnologia, e mais acessível a todos, mas que percebo em desuso nas classes, infelizmente – a vontade, para transformar os limões das adversidades educacionais, em uma saborosa limonada no processo de ensino.

“Sobre o Burro e a Cobra” – os bastidores da política nacional

Diz uma antiga história que: ´” Como recompensa por um serviço prestado, os homens pediram a Júpiter a eterna juventude, o que ele concedeu. Pegou na juventude, pô-la em cima de um Burro e mandou que a levasse aos homens. Indo o Burro no seu caminho, chega a um ribeiro com sede, onde estava uma Cobra que disse que não o deixaria beber daquela água se não lhe desse o que levava às costas. O Burro, que não sabia o valor do que transportava, deu-lhe a juventude a troco da água. E assim os homens continuaram a envelhecer, e as Cobras renovando-se a cada ano.”

Somente recorrendo à ficção moralizante das fábulas, para tentar explicar um pouco do que se passa na Política desse planeta chamado Brasília. Em tempo, ainda estamos reclusos, sorvendo o período de Banzo, mas como esse é um tema pujante, retornamos em edição extraordinária para falar sobre as vigarices (que não tem nada a ver com o vigário) intentadas no embate entre duas Excelências nacionais.

Voltando à historieta, ao Burro são associadas as características da simplicidade (e porque não um alazão branco?) e da confiabilidade, já que a ele é conferida uma missão nobre que mudará a vida de toda a humanidade. No que diz respeito à Cobra, ela é identificada como oportunista e traiçoeira ao vincular sua permissão para o uso da água à troca da carga que o muar trazia no lombo. Qualquer semelhança com os revezes da política brasileira, não é mera coincidência.

Diante desse cenário, temos de um lado uma figura que representa a vontade popular, e à qual foi outorgada a tarefa de retomar o desenvolvimento do país, em contraponto com uma outra que foi escolhida para representar os interesses de um extrato da política – (ex) nanicos que cresceram, transformaram-se em baixo clero, e hoje querem reinar em seus feudos (as “Bancadas”) sob a égide de um Soberano.

Brasília, que já foi reconhecida como a “terra do toma lá dá cá”, por conta dos seus acordos nem sempre Republicanos, vive hoje às turras com as agruras de um Presidencialismo de coalisão que exige do governo a capacidade de articulação e negociação com quem é a seu favor, mas também com os contrários. Até aí tudo dentro do esperado, ou como costumava repetir um ex-presidente “dentro das quatro linhas da Constituição”.

O que pegou todos de surpresa (inclusive esse que vos escreve) foi a postura de certo ofídio que, resolvendo “cobrar” pela prestação dos seus serviços, colocou o governo (tal como o muar) refém do apetite do grupo que representa em troca da água do ribeiro – governabilidade e interesses nacionais – em um flagrante delito de chantagem, de extorsão política que atinge não apenas o pobre equino, mas todo o país.

Mas afinal, a culpa é do Burro? Certamente que não, nem tampouco vale dizer que é reflexo “somente” das bestialidades do último quadriênio presidencial. O nexo causal dessa distopia vem de bem antes, quando no Brasil ainda existiam os grandes Partidos, que foram perdendo espaço no mesmo ritmo em que seus baluartes foram morrendo, ou saindo de cena. Por conta disso, o que deveria ser exceção – o mau político – acabou transformando-se em regra, quando não condição sine qua non para investidura no cargo.

E qual é a Moral da releitura dessa fábula à brasileira? A ocasião (sempre) faz o ladrão!

As singularidades da menina Geralda

Retornando a Prosperidade, depois de um tempo afastado, encontrei com o Velho Lazin na venda que, entre um café e outro, veio me atualizar sobre as últimas acontecências da cidade. Foi então que me falou sobre a história da menina que era homem, escândalo que colocou toda Prosperidade em polvorosa. O causo se deu mais ou menos assim.

Geralda, filha caçula de outros nove filhos homens do casal de lavradores Sebastiana e José, nasceu e cresceu em um sítio humilde, na zona rural de Prosperidade. Desde muito cedo foi cercada de cuidados por toda a família – tanto os pais, quanto os irmãos, nunca deixavam a pequena sozinha, que por isso mesmo não teve contato, ou fez amizade com outras crianças de sua idade. Dessa forma, o seu ingresso na escolinha foi atrasado, mas, sem outra opção, ela começou a estudar aos cinco anos.

Muito tímida e introvertida, a pequena quase nem era notada na salinha cheia. No início e fim das aulas – bem como na hora do recreio – a menina sempre estava acompanhada por, pelo menos, um de seus irmãos, que tinham com a caçula um cuidado maior do que poderia se esperar, em uma relação fraternal.

E assim os anos foram se passando. Sempre quieta, e sem amigos, Geralda foi vendo a sua vida mudar e, por conta dessas mudanças, suas “singularidades” começaram a ficar mais evidentes, tanto é que a mãe sempre lembrava à menina “que nunca deveria se mostrar sem suas roupas para ninguém, nem para as professoras”. Os zelosos pais conseguiram até um atestado médico, que proibia a pequena de acompanhar as aulas de Educação Física na escola.

Até que um dia, já com seus doze anos, o que a família lutou a vida inteira para esconder, foi descoberto: quando usava o sanitário da escola, achando que estava sozinha no banheiro, foi surpreendida por um grupo de meninas que, ao perceberem uma “coisa” entre suas pernas, saíram gritando pelo corredor afora que a Geralda era um menino.

A escola virou um pandemônio, os irmãos começaram a brigar nos corredores para defender a irmã, e a confusão só terminou com a chegada dos pais que pegaram Geralda e os irmãos, e nunca mais foram vistos em Prosperidade. Abandonaram o sítio, e vizinhos próximos disseram que eles se mudaram para o Norte do país, lá pras bandas do Pará, onde Sebastiana tinha parentes.

Lazin contou essa história com requintes de crueldade, dizendo que a cidade inteira havia sido enganada pelos pais da menina, que criaram um menino, como se fosse menina. Pausa para mais um café, expliquei (de maneira didática) para o Velho que aquilo era incomum, mas possível de acontecer e que, na verdade, a “coisa” que as adolescentes viram entre as pernas de Geralda, era apenas uma parte da genitália dela que havia se desenvolvido mais do que o normal. A Medicina chama isso de Falso Hermafroditismo, que é quando o clitóris da menina se desenvolve de maneira anormal, assemelhando-se a uma genitália masculina.

Findo o café, me despedi do Velho, e tomei meu rumo.

Professor Sérgio Soares

Vivendo como galos e galinhas: uma metáfora da vida em sociedade

Nunca havia criado penosas, reconheço! Minha experiência se restringia aos freezeres dos supermercados, ou a visita às saudosas “frangolândias”. Mesmo tendo memórias infantis da vida na roça, quando visitava a casa dos avós, minha formação era totalmente citadina, daquele tipo que tinha medo de levar “bicada” da galinha, galo então? Era um perigo!

Por isso, quando tive que fazer o caminho da roça – saindo da cidade e indo para o interior – me senti várias vezes um extraterrestre, por total falta de afinidade com os sons e cheiros do local. Hoje, já aclimatado e me sentindo um “roceiro” da gema (de pé cascudo, que anda descalço no chão de terra batida), e tendo a oportunidade de conviver com os galináceos, posso dizer que entendo como funciona essa sociedade de penosas e, graças a isso, posso afirmar que existe mais de galinheiro em nossas vidas, do que poderia julgar nossa vã filosofia.

Da forma de Governo: Republicana, com a existência de apenas um governante – o Galo, mandatário do poleiro – escolhido por aclamação, graças aos seus dotes físicos, que não cede e nem delega seus poderes para nenhum outro membro do grupo. Para manter sua hegemonia, não transige de chegar às vias de fato.

Das relações de trabalho: papéis muito bem definidos, às galinhas cabem a função de produzirem os ovos, e aos galos a de galar e garantir às futuras mamães um ninho pronto e fofo (função que eu nunca tinha imaginado que pertenceria ao galo), as esperando apenas para o choco . Daí que acho vem a expressão popular “a galinha canta para botar o ovo”, mas o que não sabia é que ela canta para avisar ao galo que quer botar, por isso ele que  se apresse em arrumar o ninho. Quando estes existem outros machos (no caso do galinheiro lá de casa um galote e um macho d’Angola), lhes cabe um papel secundário na urbe penosa não podendo nem mesmo cantar, para não ofender o Senhor do Poleiro.

Das relações sociais: o dia-a-dia é sempre muito agitado, com constantes desentendimentos entre seus pares, seja pela disputa de um pedaço de minhoca, seja pelo melhor lugar no ninho (mesmo que você deixe cinco à disposição, todas vão querer colocar no mesmo). Desde que nascidos no local, os galos e galinhas aceitam qualquer um, até de raças diferentes, como os D’Angola, no meu caso como exemplo. Agora, coloque um estrangeiro dentro e o caos está formado!

Da relação com a maternidade: essa é uma parte muito interessante da vida das galináceas, pois existem mães de sangue que mal rompidas as cascas, abandonam seus pintos para começar outro choco, e até mães de aluguel que recebem os ovos de outras e os tratam como se seus os fossem, levando a responsabilidade da maternidade até o momento em que os pequenos já são autossuficientes. Mas o que de fato mais me chamou a atenção foi a guarda compartilhada de ovos e pintos – duas galinhas, dividindo a responsabilidade de choco e de cuido da mesma ninhada,  e isso acontecendo de maneira totalmente harmoniosa.

Das relações de/pelo poder: como dito, o Galo centraliza em si o poder de mando e escolha no poleiro (até a hora e a parceira para a cópula é ele quem define), além disso, não permite que nenhum outro macho o faça representar na hora do canto. Agora, basta se ausentar para cumprimento de agenda externa, ou licenciar-se para tratamento de saúde que o bicho pega (lá em casa, recentemente, aconteceu isso – o Galote que se fingia de franga para não apanhar do Galo, tomou coragem – assumiu o poleiro, passou a régua nas frangas e começou a soltar a voz. Só que o macho d’Angola – apesar de ser de outra raça – resolveu que também queria esse posto, e aí a casa caiu – voou pena para todos os lados!). Mas fiquei sabendo de um caso que me assustou – num galinheiro vizinho um bando de galos Índios assassinou um galo caipira. Por puro prazer e maldade, acabaram com o penoso, foi terrível!

Essa é a vida no galinheiro lá de casa, mas se quiser posso dizer que também é a vida da cidade onde moro, ou mesmo do país onde vivo – dos menores grupamentos sociais – no caso as famílias – até os maiores como a nação, me arrisco a afirmar que vejo repetidos muitos dos traços de comportamento e personalidade que encontrei nos galos e galinhas do meu terreiro. Quem não tem, ou conhece casos de famílias onde mães abandonam os filhos ainda bebês, ou contrariamente, daquelas que mesmo não sendo as genitoras cuidam e amam os filhos de outra, como se seus os fossem.

Em relação ao preconceito com os estrangeiros, isso também é facilmente perceptível, basta abrir os jornais para ver as manchetes – imigrantes ilegais africanos abandonados – à deriva – dentro de navios e botes para não alcançarem a entrada dos países europeus. Mas até mesmo na escola (um outro tipo de galinheiro) essa situação se repete – basta chegar um novo aluno transferido de outro bairro ou zona rural, por exemplo, que o bullying mostra sua cara.

Agora quando se tratam das disputas de/pelo poder, e aí não falo só do poder político, mas de toda forma de mando – relações maritais, relações de comando e subordinação e até, claro, da vida pública ficam mais nítidas essas semelhanças. Nessa última, o momento que se vive no país hoje fala por si mesmo – um governo republicano, democraticamente eleito, que desde (d’antes) a posse vem sofrendo o rescaldo de uma derrota nas urnas, que o antigo mandatário (Galo antecessor) e seu grupo não aceitam. Para além disso, os frangotes da Câmara dos Deputados teimam em cantar mais alto para enfraquecer o Presidente (galo republicanamente eleito) ou negociar uma melhor posição no poleiro.

E aí vem a questão fulcral, basilar dessa história – quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? Ou fazendo uma releitura – quem é o verdadeiro animal? A galinha ou o homem?  Isso porque, se analiso os comportamentos dentro do galinheiro, vejo traços de sentimentos “humanos” como o amor maternal, mas também de inveja, ira, orgulho e luxúria, extratos do que há de melhor e de pior na humanidade. Ao mesmo tempo, quando olho a vida em sociedade, dita humana, vejo os mesmos traços instintivos “animalizados”, potencializados pela capacidade racional do homem, que podem provocar um efeito muito mais devastador. Então, deixo aqui esse retrato das tramas sociais e políticas do galinheiro lá de casa, como forma de reflexão sobre as disputas e excessos cometidos, diuturnamente, na vida em sociedade da “evoluída” espécie humana.

Quero voltar a ser Primata!

O que nos torna humanos? Para além de questões filosóficas, uma resposta possível a essa dúvida primordial seria o complexo (e sofisticado) emaranhado genético que nos difere dos chimpanzés – nossos primos mais próximos. Contudo, em artigo recente publicado na Revista Science, pesquisadores descobriram que não foi a presença, mas sim a ausência de fragmentos genéticos dos primatas, que foram sendo perdidos durante a transição evolutiva das espécies, que nos trouxeram à condição atual de Homo sapiens.

Segundo o poeta Augusto Branco, “Nesta vida, não somos mocinhos nem vilões: apenas humanos”, o que pode ser entendido, no contexto dessas novas pesquisas genômicas, como um defeito, e não uma virtude, pois veja que surpreendente: os chimpanzés – dos quais fazemos tanta questão de negar o parentesco – não ofendem, nem discriminam os seus. Quanto a nós? #Somos todos Vinni Jr.!

O mais curioso desse triste episódio é que o preconceito racial, na maioria das vezes, é um tipo de violência sofrida por negros periféricos, sem instrução e em sua grande maioria de baixa renda. No caso de Vinni Jr, ocorre justamente o oposto disso – apesar de sua origem humilde, tornou-se um jogador de sucesso, com muito dinheiro e que ainda desenvolve um projeto de grande responsabilidade social – o Instituto Vinni Jr – digno de destaque pois que tem como objetivo mudar a vida de crianças e jovens (pobres como ele o foi) através da Educação e do Esporte.

Enfim, esse deve ser o tal do Racismo Estrutural de que tanto se fala hoje no Brasil, e que não é menor do que o Feminicídio Estrutural, do que o Abuso Sexual Estrutural ou do que o Extermínio Estrutural – todos esses, certamente, consequências da falta daquele material genético que tínhamos – quando éramos Primatas – e o perdemos durante nossa “evolução” enquanto espécie, ou seria mais correto tratar como uma (in)volução?

De maneira soturnamente sombria, Clarice Lispector já alertava em sua prosa sobre aquilo com que hoje convivemos, e costumamos chamar de contemporaneidade – “E a escuridão se torna tão maior. Estou caindo numa tristeza sem dor. Não é mau. Faz parte. Amanhã provavelmente terei alguma alegria, também sem grandes êxtases, só alegria, e isto também não é mau. É, mas não estou gostando muito deste pacto com a mediocridade de viver.

Palavras duras sim, mas necessárias, pois que representam um modo de viver proposto pela sociedade atual, que é baseado na mais valia, no individualismo, na dominação, na falta de empatia e de respeito por pessoas, e pelo meio ambiente que nos cerca – modelo esse definitivamente baseado no que há de mais vil da exiguidade humana.

Não por menos, o filósofo francês Edgar Morin afirmou em uma de suas entrevistas: “A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos.”

Enquanto esse tempo de sombras não chega ao fim, vou-me embora dessa terra ensandecida, com destino à Pasárgada. Lá vou tomar de volta meu genoma perdido, para voltar a ser chimpanzé, Australopithecus, ou aquilo que me der na telha. Certo é que ficar nesse lugar de humanos malucos, abusadores, assassinos e discriminadores quero mais não. Fui!

“Como um náufrago à deriva no mar, em um bote fazendo água” (A história desafortunada de José)

José era um sujeito comum, sem mais nem menos, apesar de alguns lhe oferecerem a alcunha de “perfeitinho”, “inteligentinho” e até de “anjinho”, mas na verdade era apenas mais uma sombra na multidão, um flâneur, ou se preferir um verdadeiro “passante” ao melhor estilo do sempre Verde, Cesário Verde.

Meu encontro com o sujeito se deu de maneira inusitada: fui apresentado a ele no entrecortar das vagas, no meio do oceano, à deriva, em um bote furado, fazendo água e, por mais óbvio que pudesse parecer, não pude me conter e perguntei como ele havia chegado naquela situação.

Respondendo prontamente, José me disse que para explicar o embróglio em que se metera, tinha que relatar o encontro profético com três personagens distintas – um político, um religioso e um cientista.

Como dito, a vida do tal José nunca fora melhor nem pior do que a de ninguém, como também não fora marcada por nenhum fato trágico, ou espetacular, nem pobre nem rico, apenas sobreviveu e tudo ia seguindo seu fluxo de vida mediana, de um sujeito classe média, até que um dia, como se fosse um avião fazendo piruetas, sua vida entrou em estol (quando uma aeronave em situação de estol não está voando, mas sim caindo). E agora José?

Primeiro encontro – O Político: ao relatar ao Legislador as desventuras que o levaram a estolar, colocando em queda livre suas expectativas, anseios e projetos de vida, ouviu uma explicação típica de um “Odorico Paraguaçu de Sucupira”, segundo o qual José tinha que entender a complexidade e o simbolismo da vida, que poderia ser comparada a uma roda gigante, onde hora estaria no topo, hora estaria no chão, mas que por se tratar de um movimento cíclico, em algum momento a vida ia melhorar, era só esperar.

Não convencido da explicação, José só respondeu ao representante do povo que, muito provavelmente, a roda gigante da vida dele havia emperrado no chão, sem perspectiva real de voltar a subir.

Segundo encontro – O Religioso: seguindo seu périplo em busca de respostas, nosso amigo encontra um “Homem de Deus”, na esperança de, recorrendo à divindade, encontrar uma explicação para suas desventuras em série, já que a primeira explicação, não tinha sido capaz de lhe convencer, nem tampouco consolar.

Começando sua pregação, o Religioso lembra ao náufrago que Deus, Jeová, Ser Supremo ou Inteligência Universal não impõe ao seu filho um fardo maior do que ele pode carregar, e que tudo, no final das contas, era nada mais nada menos do que uma “prova de Fé”.

Mais uma vez, o desesperançado homem não se sentiu convencido, isso porque, dentre as inúmeras alcunhas que havia recebido em sua vida, uma delas era a de ter sido um “Homem de Fé”, demonstrada em suas palestras inflamadas e recheadas de citações e exemplos bíblicos.

O que nosso amigo não sabia à época é que falar sobre Fé para os outros é fácil, é apenas uma questão de teorizar sobre um tema como outro qualquer, contudo, viver e sentir na pele o problema vai muito além da teorização, e é nessa hora que se percebe que a tal “Fé que move montanhas” é apenas uma figura de Retórica.

O terceiro encontro – O Cientista: como não havia encontrado resposta nem na Política, nem na Religião, o desafortunado decidiu buscar na Ciência o lenitivo que até então não lhe havia sido oferecido. Ao chegar a um laboratório de última geração, o genial pesquisador, após ouvir o comovente relato do sofredor, se pôs a escrever em uma lousa fórmulas e sequências matemáticas, e após um longo tempo apresentou a José sua tese que explicava a situação em questão – o problema do desfalecido náufrago é que, estatisticamente, um em cada mil humanos nascem fadados ao insucesso, e quanto a isso nada se podia fazer, pois era um caso típico de seleção natural da espécie, onde somente os melhores sobrevivem.

Mais deprimido do que no primeiro e no segundo encontros, José só conseguia se lembrar da infalível Lei de Murphy, que tinha como princípio a máxima “nada é tão ruim que não possa piorar”.

Cansado de tanto buscar respostas e não as encontrar, o desacoçoado vagante se lembra que os místicos costumavam fazer viagens de iluminação e auto-conhecimento (como o Caminho de Santiago de Compostela) em situações de desespero e falta de respostas, como aquela que estava vivendo.

Sendo assim, decidiu largar tudo, entrou em um barco e saiu navegando sem destino em busca de sua iluminação.

Entretanto, a “Jornada de Ulisses” do inexperiente navegador, terminou no primeiro recife de corais, que levou sua Nau a fundo, restando a ele apenas se agarrar a um bote e a um balde.

O bote, enquanto equipamento de segurança do barco que, avariado com o desastre, fazia água através de um furo no centro do casco. E o balde – que foi a salvação que passou boiando ao seu lado, e lhe garantiu a preservação da vida, pois com ele tirava a água que insistia em entrar pelo buraco na pequena embarcação.

Depois de ouvir tão contundente relato me despedi de José, lembrando de vê-lo se afastando no horizonte, enquanto jogava para fora, a água que teimava entrar no barco. Ele que andou tanto buscando um sentido para os seus infortúnios, não havia percebido que aquele barco à deriva, fazendo água no meio do mar, era a própria metáfora que explicava tudo: sua vida era tal como aquele bote: não afundava porque a água que entrava era colocada para fora com o balde, mas também não progredia, nem tampouco chegava em terra firme, visto que as avarias da embarcação não lhe permitiam escolher, nem tampouco definir o rumo que gostaria de seguir.

Pobre desafortunado José!

Vou-me embora pra Pasárgada: reflexões de um gauche em desencanto

Banzo. Esse é o sentimento que me define. Fastio, desagrado, desconforto em relação ao estado das coisas, sensação de não pertencimento, de impotência. Saudades de tempos que não vivi, de um lugar onde desejo estar. Por isso estou pedindo as contas. Vou-me embora dessa terra de incertezas – quero embarcar no próximo trem azul em direção à Pasárgada, pois, somente lá encontrarei o destino para o qual fui inventado – minha “Ulissipona”.

Se aqui continuar, seguirei vivendo a desdita do “homem perfeito” – Mestre exemplar, porém impotente diante das armadilhas do Sistema; autor eloquente mas sem notoriedade, que talvez devesse fazer como Hilda Hilst – escrever um outro caderno, rosa como o de “Lori Lamby”, para conquistar likes, views e, assim, atingir o nirvana dos Trending Topics. Como cidadão da Polis, preocupado com o bem comum, não conquistei credibilidade, nem tampouco consegui mudar o mundo. Ao contrário, continuo agindo como se Dom Quixote o fosse, lancetando moinhos de vento. O porquê de tanta desilusão? Explico.

Sempre acreditei que o Magistério fosse muito mais do que uma escolha profissional. Utopia ou não, a experiência me mostrou que aqueles que de outra forma pensavam, sucumbiram diante das agruras da Rede. Talvez, por isso mesmo, na minha história de vida busquei a reflexão sobre a práxis pedagógica, e a função do educador na formação do cidadão. Não por menos me tornei gestor, e depois crítico dessa mesma Rede.

Fato é que, quando vejo hoje nos noticiários a discussão sobre o Ensino Médio ser tratada como bandeira político-classista, isso me causa profunda revolta. Menos pela questão curricular ou conteudista (parte mais simples de se resolver), mas sobretudo pela omissão, pela negligência com que a Educação (e o futuro) desses jovens vem sendo tratada no país.

Seriamente me pergunto se esses especialistas, doutos e sábios da Academia, alguma vez se dispuseram a lecionar em uma turma do médio público. Digo isso por que o discurso posto faz parecer que, antes da “Reforma”, vivia-se em um ambiente de excelência, o que é uma grande falácia. A formação secundarista no Brasil (falando aqui especificamente da pública) já agonizava uma “morte anunciada” há tempos e governantes, Academia e educadores nada fizeram para reverter isso.

Enquanto isso, na Cidade-Estado chamada Brasília, quando um governo de esquerda sustenta a necessidade dessa mudança, ainda que isso represente “rever” a própria Reforma (até porque acredito que os equívocos se deram na execução, e não na concepção da mesma), seus próprios pares fazem coro em uma crítica uníssona, em uma clara demonstração de comprometimento com a “classe sindical”, quando ao invés disso deveriam ser compromissados com a “classe escolar “, objetivo sine qua non do processo de ensino-aprendizagem.

Ainda falando sobre Educação, ouvindo um noticiário o comentarista ao falar sobre as ameaças e ataques recentes, afirmou que o problema (e sua solução) não está dentro da escola, já que a origem da violência está na sociedade, e o ambiente escolar é apenas o reflexo dessa realidade. Raciocínio com o qual sou forçado a concordar, e que vem de encontro ao desencanto do Mestre que, sentindo-se vencido diante da força e agressividade com que o status quo se impõe, só enxerga um caminho – abandonar a missão.

O mundo (como hoje se apresenta) não é mais lugar bom para se viver, basta colocar a cabeça para fora da caixinha do individualismo para perceber isso. Se Apocalíptico eu fosse diria que é o “Sinal do Fim dos Tempos”, quando justos e pecadores deverão acertar contas com o Divino. Note que até mesmo lideranças religiosas, tantas vezes enaltecidas – como Dalai Lama para os budistas, e Divaldo Franco para os espíritas – caíram em desgraça diante das artimanhas da vida mundana.

Tentando, pois, encontrar algum sentido nisso tudo, talvez devesse fazer como Doutor Simão Bacamarte, na distópica Itaguaí, e aceitar que o errado – o gauche da história – sou eu e, portanto, condenar-me ao autoexílio em uma cela da Casa Verde, até o fim de meus dias. Ou, quem sabe, de forma menos heroica, fugir daquilo que me incomoda. Pergunto, enfim, ao moço do guichê na estação: – Que horas parte o próximo trem com destino a Pasárgada?

E agora José? Os desassossegos de um cinquentão novato

Sempre ouvi falar de uma tal “crise dos cinquenta anos”, mas achava tratar-se de histeria de pessoas mal resolvidas e sem objetivos na vida. Qual não foi minha surpresa quando esse que vos escreve, ao aproximar-se das fronteiras do Cabo da Boa Esperança, na eminência de cruzá-lo, se viu tomado por inquietações que não supunha pudessem advir da passagem de mais um cumpleaños.

Logo “ele” – tão bem resolvido, cheio de propósitos e projetos, escrevinhador de textículos, pesquisador e crítico das políticas públicas educacionais, professor comprometido com seus alumnus (e não apenas com a cátedra), homem de (pouca) Fé e um realista esperançoso. Como explicar tais desassossegos?

O tempo – parceiro frio e cruel de caminhada – é o antagonista da tragédia de nossas vidas. Mário Quintana, o poeta das coisas simples, nos mostra isso nesses versos: “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa./ Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…/ Quando se vê, já é 6ª-feira… / Quando se vê, passaram 60 anos!”. Então, tudo se resume a brevidade da história de vida, como se ela um Conto fosse ao melhor estilo Dublinenses de James Joyce. Uma narrativa curta, embricada pelo realismo das escolhas, conflitos e conquistas que culminam em uma epifania catársica, que leva o protagonista a confrontar-se com si mesmo, caminhando para um porvir nem sempre poético.

Certamente, por isso, esse cinquentenário é tão simbólico, pois representa que sigo em direção ao terço final de minha jornada (dentro de uma perspectiva otimista) que, por isso mesmo, deve ser entendido como um ponto de convergência, o clímax onde deverei revisitar minhas memórias (Salve Pedro Nava), e raspar as camadas de tinta que foram depositadas em minhas paredes (como bem me lembra Rubem Alves), sendo obrigado, portanto, a encarar a resenha crítica dessa narrativa.

Pode ser, então, que você que me lê esteja se perguntando – Mas afinal, o que você encontrou em sua epifania que foi tão ruim assim?

Na verdade, nada houve que tenha sido nem tão ruim nem tão bom, tão certo ou errado a princípio. Tudo o que fiz foi baseado em escolhas,, por isso não há arrependimentos. Contudo, o desconforto (e essa é a palavra que melhor define o sentimento) vem do fato da vida não ser uma equação matemática, onde 2 + 2 são 4. Essa inexatidão faz com que, ao olhar para trás, ainda que tenha sido o narrador e protagonista dessa história, perceba que não tenho (nem nunca tive) controle algum sobre o desfecho que ela tomará.

É como se, abruptamente, tivesse acordado “com um gosto amargo na boca – daqueles que só sente quem abusa na véspera da quantidade (e qualidade) do Whisky, de procedência duvidosa. E o pior é que essa sensação vem se repetindo a cada manhã, a cada semana, já há alguns meses”.

O tempo passou muito rápido como bem lembrou Quintana, apesar de algumas vezes ter parecido o contrário. Quando abandonamos o idílio da juventude, e ingressamos na aspereza da vida adulta é como se os ponteiros do relógio entrassem em um modo acelerado, por conta da carreira que temos que construir, da vida pessoal que temos que organizar, do sucesso profissional que necessitamos alcançar e “Quando se vê, já é 6ª-feira”.  Então, a inexorabilidade do calendário bate à porta, nos lembrando que a areia da ampulheta está por um fio, sinalizando o término da história.

Por fim, não poderia encerrar esse solilóquio queixoso de forma outra que fosse dividindo com Drummond minhas agruras por ter escolhido ser um gauche nessa vida – “Sozinho no escuro / qual bicho do mato, / sem teogonia, / sem parede nua para se encostar, / sem cavalo preto que fuja a galope, / você marcha, José! / José, para onde?”

Sobre Religião e religiosos: o avesso da Verdade e da Fé

Religião – em Latim religare tem como uma de suas definições “tornar a ligar, unir de novo o humano ao divino.” E é sobre essa conexão (ou a falta dela) que tratarei nesse artigo, tendo como provocação o frenesi causado pela divulgação dos comentários de um baluarte do Espiritismo, durante uma de suas palestras em Salvador, na Bahia. Antes de mais nada, que duas coisas fiquem bem claras – não se trata aqui de julgar a pessoa por suas ideologias ou crenças, nem tampouco desqualificar a obra, por conta da expressão das opiniões do obreiro, pois, a primeira é perene, e naquela Mansão muitos já encontraram consolo e alimento, enquanto o segundo é transitório e errático.

Segundo, então, o que foi publicado na mídia esse famoso orador espírita teria – por mais de uma vez durante sua fala – deixado transparecer simpatia por ideais “bolsonaristas”. Para além disso, recebeu também das mãos do próprio, ainda em seu governo, uma grande honraria nacional. O somatório disso foi suficiente para expor a cizânia que, tal como na política, invadiu o movimento espírita agora dividido entre esquerdistas e direitistas – lulopetistas e bolsonaristas. E isso é uma exclusividade do atual momento político brasileiro? Certamente que não.

O tempo era outro, o século também. Há mais de 40 anos nascera uma criança em berço esplêndido da Fé espírita, educada dentro de seus preceitos, com uma genealogia que lhe garantiria um futuro auspicioso na religião professada. A criança angelical logo tomou-se um jovem prodígio que, apesar da pouca idade, já assumia funções de evangelização próprias de um adulto, tomado sempre, por esse motivo, como exemplar junto aos seus.

Contudo, ainda que instintivamente, por alguma razão aquela veste não lhe servia. Sempre tomado por um desconforto, preteriu as tribunas em favor do trabalho com os jovens, e do consolo dos necessitados através da musicalização. E assim o fez até que a vida lhe cobrou o tempo que à religião dedicava, afastando-se, logo em seguida, do movimento.

O que somente tempos mais tarde fora entender, era que o tal “desconforto” vinha daquilo que enxergava dentro das Casas e do Movimento Espírita, mas a falta de maturidade não lhe permitia compreender – idolatria, egolatria, preconceito e discriminação por classe social, nível cultural e, até mesmo, orientação sexual – isso há mais de 30 anos atrás. Trazendo esse cenário para o contexto atual, o que é o tal “bolsonarismo” senão a síntese de tudo isso?

Conforme narra o evangelista Mateus “a boca fala daquilo do que o coração está cheio”, nesse caso cheio de individualismo e orgulho, mas esvaziado de Amor. Como consequência, as pessoas estão cada vez menos empáticas e respeitosas umas com as outras, cada qual com sua própria Verdade que será sempre melhor que a do outro (Certo X Errado – Esquerda X Direita), e isso vale tanto para os que professam uma Fé, quanto para aqueles que se dizem descrentes.“

E por falar em crença, Karl Marx já afirmava que “a religião é o ópio do povo” no que sou obrigado a discordar com veemência. O problema não está no credo, mas sim no crente, pois, via de regra, é ele quem desvirtua, corrompe e desqualifica a Fé, a qual não pode ser racionalizada (visto que é fruto de uma vivência singular boa ou ruim) e é, em essência, o amálgama para a conexão entre o humano e o divino.

Portanto, para que as religiões sejam de fato esse elo de ligação do humano com Deus, Jeová, Javé, Buda ou Krishna necessário se faz que não exista mais a figura do fiel ou seguidor. Mas como isso não é factível de acontecer, que saibamos reconhecer o caráter falível dos religiosos, em oposição à necessidade indelével de buscar uma conexão com a deidade que é, por definição, o papel de toda Religião.

Cunhatã e Curumim

“Imagine você desempregado, pobre, passando fome, doente. Dentro da sua casa, tem um quadro do Picasso que vale US$ 1 bilhão. O que você faria? Venderia. Aí, pega o dinheiro e melhora sua qualidade de vida. Igual aos indígenas americanos”. Essa afirmação estapafúrdia e infeliz foi proferida pelo Governador do Estado de Roraima, território onde está localizada a reserva Yanomami, cenário de uma das mais graves crises humanitárias da história recente do Brasil.

Em resposta a pessoas que pensam como o Senhor Governador, apresentamos aqui o pensamento do escritor e professor Daniel Mundurucu, pertencente à etnia indígena Mundurucu “Olhar os povos indígenas brasileiros a partir de uma visão rasa de produção, de consumo, de riqueza e pobreza é, no mínimo, esvaziar os sentidos que buscam para si.” E assim começa aqui a história de Cunhatã e Curumim.

Desconhecer que os povos originários desse país foram, até bem recentemente, esquecidos, colocados à margem e explorados por todo tipo de gente seria corroborar o discurso fascistóide do desorientado governante. O que não pode traduzir-se na minimização da tragédia, do verdadeiro genocídio, ocorrida com os indígenas Yanomamis.

Homens, mulheres e crianças abandonados à própria sorte, degredados dentro de sua própria terra e sem condições de cuidar da subsistência da tribo, por conta da contaminação dos rios. Aliciados pelo tráfico e pelo garimpo ilegal, oferecendo suas jovens em troca de ouro, e doentes por conta da presença do homem branco, que além de lhes roubar a terra, levaram também a saúde e costumes, conforme noticiado durante a semana, onde jovens mães Yanomamis não puderam ter seus filhos dentro da própria tribo, por conta do agravado estado de desnutrição e outras enfermidades que lhes acometiam, sendo assim removidas para maternidades.

O nome para isso é extermínio, exatamente como ocorreu com os indígenas americanos, a que fez referência o Governador Antônio Denarium (a propósito, sugestivo sobrenome que em sua origem, significava “dinheiro”). Lá, o branco invasor tirou-lhes a terra, aculturou sua gente até que não existissem mais, e (ao que parece) o projeto intentado por aqui pelo governo Bolsonaro (apoiado pelo “Senhor Dinheiro”) era, se não igual, bem parecido. Não fosse a vontade do povo brasileiro expressa através do voto, e a mudança de paradigma empreendida pelo Presidente Lula, que criou o Ministério dos Povos Originários lhes oferecendo voz e representatividade, o pior teria se consumado certamente.

E foi graças a essa nova visão e cuidado que houve tempo de salvar os indígenas daquela tribo, em um verdadeiro esforço de guerra que vem repercutindo internacionalmente. Por conta dessa repercussão que conheci Cunhatã e Curumim, servindo de inspiração para esse Artigo. Seus nomes? Realmente não os conheço, mas a imagem que ficou gravada em minha retina (e mexeu profundamente com minhas convicções) foi da pequena Cunhatã – uma indiazinha ainda criança – protegendo com um abraço seu irmão menor – o Curumim – dentro de um helicóptero que os resgatava, levando-os para o socorro médico.

O medo estampado nos olhos daquelas crianças, engolidas por aquele bicho grande, que faz barulho e voa, só não era maior do que a força ancestral do seu povo que sempre lutou pela própria sobrevivência, e assim o continuará fazendo, tão logo os invasores sejam expulsos de suas terras, e a autonomia e liberdade para viver sua cultura e costumes lhes sejam devolvidas.

E para aqueles que ainda pensam que tudo que foi mostrado pela imprensa, resume-se a mais uma ação humanitária de combate à fome, fica como reflexão as palavras do professor Mundurucu, que resgatam a essência da alma e da cultura indígenas: “É por isso que não basta dar alimento apenas ao corpo, é preciso também alimentar a alma, o espírito. Sem comida o corpo enfraquece e sem sentido é a alma que se entrega ao vazio da existência.”