O dia em que inventaram a dor

Era pra ser mais uma manhã de sábado. Maria acendeu a casa com o cheiro do café. Ricardinho, o caçula de seis, e mais matreiro dos filhos, tratou logo de pular da cama, pegou um pão na cozinha, e se despediu da mãe com um beijo melado de margarina.

Enquanto cuidava dos afazeres, entre uma panela e a roupa no varal, a vizinha grita anunciando a tragédia:

-Maria, corre aqui que machucaram seu filho!

Em disparada, ela chega no escadão e encontra o corpo do filho ensanguentado.

Uma bala perdida havia encontrado Ricardinho. Naquele dia, quem morreu foi Maria.

Tabus

Você acredita em amor por toda vida? Pois é, eu também não acreditava, até ouvir essa história.

Eram diametralmente opostos, perfeitos em suas imperfeições, por isso nunca faltou cumplicidade, respeito, amor e muito desejo, afinal, eram de carne e osso.

Tinham tudo – dinheiro, realização pessoal, mas faltava o som de passos e risos de uma criança naquela casa.

Inférteis, filhos biológicos não teriam, por isso adotaram quatro, todos irmãos. A felicidade invadiu aquele lar.

Até que um dia, o câncer levou a alegria deles embora. Na lápide, ficou gravada uma última declaração de amor:

-Sempre teu, até o infinito, Jonas!

Tempus Fugit

TIC TAC – o relógio marca meio dia, começa a contagem ao som de um choro. TIC TAC – agora são 3 horas, período de descobertas, brincadeiras e transformações. TIC TAC – 6 horas, os dias de molecagem acabaram, é chegado o momento de tomar decisões. TIC TAC – no marcador já são 9 horas, três terços do caminho ficaram para trás, a areia da ampulheta está por um fio. Trimmmmmmm – toca o despertador avisando que o tempo acabou. Os ponteiros apontam para o infinito, é hora de iniciar uma nova história.

O defunto

-Tá morto?

-Sim, agora podemos ficar juntos meu amor!

Essas foram as últimas palavras que ouvi, antes de ficar tudo escuro.

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Entro numa sala e vejo vários rostos conhecidos, alguns chorando, outros contando piadas e no centro um caixão com uma coroa de flores. Me aproximo e vejo que o defunto sou eu. Ao lado do corpo minha amada esposa em prantos, e meu melhor amigo a ampará-la.

Olho para aquela cena e minha garganta torna a queimar e o ar faltar, então lembro das últimas vozes que ouvi.

-Juntos? Nunca. Estou de volta minha amada e fiel esposa!

Domingueira

Sentada no sofá, ela assiste seu programa favorito e come pipoca. Júnior e Antônio Augusto jogam videogame no quarto. A gata princesa dorme deitada na janela.

Na copa, Eustáquio – o marido, de short rasgado e sem camisa com barrigão de cerveja, toma uma gelada enquanto mexe no celular. Na tela um chat erótico onde extravasa suas fantasias de homem hetero, cisgênero e macho alfa da casa.

Enquanto isso, ela continua na sala dando risadas, e se divertindo com a programação dominical na TV.

Retrato de mais uma tarde suburbana de domingo em família.

Sortilégios

Desço apressado do ônibus, e de repente sinto alguém puxar minha mão. Era uma cigana, que fita meus olhos e profetiza:

-Sua vida vai mudar radicalmente!

Atrasado, sigo meu caminho, com aquilo na cabeça.

Chegando no serviço, logo imagino que serei promovido. Fim do expediente, e nada.

Chego em casa e lembro da Mega Sena, confiro o bilhete, e nada.

Então, cai a ficha:

– Ai Jesus, é hoje que morro!

Acordo com o despertador tocando. Nada aconteceu.

Me preparo para sair, quando vejo um envelope embaixo da porta – era uma ordem de despejo.

– E não é que a cigana tinha razão?!!

A Dona Morte

Acordo com alguém me cutucando.

– Bom dia José!

Ainda meio sonado, respondo:

– Bom dia Dona Morte. Como vai a senhora?

– Bem! Mas temos contas a acertar.

– Temos?

– Sim, pelo meu cronograma está chegando o seu dia.

– Putz Dona Morte, me esqueci disso. Mais deixa eu falar uma coisa, ainda tenho algumas contas a acertar, será que a senhora não me dá mais um tempinho, pra não termos que renegociar?

– Olha José, como você sempre foi bom pagador, lhe ofereço uma prorrogação de prazo. Mas só dessa vez hein?!

Trato feito, torno a dormir sossegado, enquanto espero a inominada voltar.

O Cura que baila

Na pequena São Manoel existiu um Padre de nome Antônio Maria. Zeloso com suas obrigações eclesiásticas, mas também bom pastor de suas ovelhas. Suas missas tinham uma singularidade: eram embaladas por muita música, e um animado pároco dançante. Ele sempre dizia :-” Quem canta, reza duas vezes”. Até que um dia, não mais acordou. Seu velório não teve choro, só cantoria que o acompanhou até a lápide. Graças à sua bondade, alegria e Fé ganhou fama de milagreiro na região. Hoje a cidade prepara sua festa de Beatificação, com muita música certamente, afinal ele era o “Cura que bailava”.

Re(i)ptilianos

Sua Majestade, o Rei, e a Rainha Consorte recebem os cumprimentos protocolares das delegações oficiais no Salão Oval. Enquanto isso, em outro cômodo do Palácio…

-Você pegou tudo?

-Peguei.

-Anéis, os estojos com os relógios? E as esculturas?

-Ih, acho que ficaram embaixo da cama, vou conferir.

Enquanto a dupla dá cabo da missão “nada oficial”, não percebem que estão sendo observados pelo Princípe herdeiro. Sem que tenham chance de esboçar qualquer reação, Sua Realeza abre a bocarra e, com a língua sibilina, dá conta dos “infiéis depositários” dos regalos reais.

Lenda urbana

Dizem que ele é um homem de capa preta e unhas grandes, outros que é um sugador de sangue, outros que até voa. Foi avistado pela última vez, à noite, na Pracinha da Baleia. Todos estão assustados. Bobagem pura, criancices da molecada. Esse povo inventa cada uma? Bom, hora de dormir. Apago a luz, e caio nos braços de Orfeu. Sinto um bafo quente e fedorento na minha nuca. Meio dormindo, abro os olhos e dou um grito de terror – Meu Deus! Ele está aqui! Essas foram minhas últimas palavras antes de ser devorado por aquele ser demoníaco!