Ruido de comunicação

Sexta-feira. A molecada está toda ouriçada. Na aula de Português o Professor apresenta as Funções da Linguagem. Arthur, o mais atentado da turma, pede insistentemente:

,-Fessor deixa nóis ir pra quadra!

Desconsiderando o pleito do moleque, passa no quadro as funções fáticas. Então, agora é Antônio quem resmunga:

-Fessor libera nóis!

Inflexível, escreve sobre a necessidade do feedback em um ato comunicacional. Quando resolve se dirigir à turma, toma um baita susto – o silêncio sepulcral de uma sala vazia.

Tontamente, o Doutor das Linguagens não entendeu os sinais fáticos naquela comunicação mal sucedida.

Desconsolado, retruca:

-Maldita Sexta do rola bola!

Mineirinho, o eleitor

De cima do palanque, o candidato discursa:

– Meu povo, quem me conhece sabe da história da minha família, do que fizemos pela cidade, e por isso me coloco à disposição do meu eleitor. Eu não prometo, eu faço!

Na plateia, o mineirinho ouve desconfiado aquele palavrório, e pergunta ao comprometido candidato.

– Dá licença Dotor, eu conheci seu avô, seu pai e seu tio. O primeiro roubo a Prefeitura, o otro a Escola e seu tio, o Banco . Discurpa minha caristia de entendedura, mais como o senho é muito famia, prometi e cumpri, o senho vai rouba o quê mermo ?!

Sono dos justos

Ainda no altar ouviu que deveria ser fiel e servir somente ao marido. Na noite de núpcias, depois de rasgar sua dignidade, saiu e voltou cheirando álcool e prostíbulo.

E assim acontecia todas as noites. Primeiro o álcool depois o sexo, em seguida a surra . Mas Deus foi bom – três gestações infrutíferas, a última após outro espancamento.

Até que um dia, cansada e revoltada esperou ele completar seu ritual e, enquanto dormia, pegou uma faca na cozinha e o rasgou ao meio.

Naquela noite, enfim, após vinte anos dormia em paz, em uma cama de cimento gelada, cercada por grades.

Amigo Urso

Paladino era um sujeito da paz, sempre via primeiro o lado bom das pessoas. Nos relacionamentos íntimos sempre foi fiel e companheiro, preocupado com a felicidade da outra pessoa, e não apenas consigo mesmo.

Mas tudo na vida tem um preço, e uma consequência. No caso dele o preço foi ter se tornado ingênuo e despreparado para as relações sociais e afetivas. A consequência?

Bom, essa veio no dia em que seu melhor amigo lhe roubou o emprego, a esposa e, não satisfeito – a vida.O corpo de Paladino foi encontrado, semanas depois, numa vala em avançado estado de decomposição.

Engajamento Político

-Bom dia, o senhor vai votar em quem?

-Votar?

-Sim, na próxima eleição.

-Eleição?

-Sim, vai dizer que o Senhor não tá sabendo que vai ter eleição?

-Olha moço, lá onde eu moro tem essas coisas não.

-Mas o Senhor nunca votou? Nunca depositou seu voto em uma urna ?

-Urna? Ah tá, isso eu conheço. Seu Melquíades faz umas muito bonitas, num preço muito bom. Tudo decorada pra família do falecido ficar feliz. Mais tem que depositar o dinheiro antes do defunto. Se o moço estiver necessitado eu passo o telefone dele procê.

Churrasgato

A vizinhança acorda no sábado com um mix de estilos nas caixinhas bluetu, do louvor ao funk, mas o ponto alto do dia é o churrasco.

Olavo chega do trampo e a nega já deixou a churrasqueira pronta, o suco de cevada gelado, faltando só a carne: 1 quilo de linguiça, 1 quilo de asinha, meio quilo de pernil e 800 gramas de picanha – o prato principal do dia.

O bom desses eventos é que sempre chega mais um, e mais um, e a brasa vai queimando. Quando menos esperam:

-Olavo, a carne tá acabando! – avisa a esposa.

-Nega, o gato da vizinha ainda tá aí no muro?!

Ascânio de que?

Ascânio era funcionário de uma universidade. Lá Ingressou como continuo, e hoje orgulhava-se de ser o porteiro do gabinete, com 40 anos de serviço recentemente completados.

Com tempo mais do que suficiente para se aposentar, preferiu manter sua rotina – primeiro a chegar e o último a sair, com seu velho terninho cinza, e um sorriso estampado no rosto.

Então, chegou a comemoração da véspera do Natal. Terminada a troca de presentes e os salgadinhos, todos foram embora, aproveitar o recesso administrativo, menos ele. Passadas as festividades natalinas, a segurança foi acionada por conta de um forte cheiro vindo do gabinete – era Ascânio que foi encontrado caído sobre a mesa, que ele tinha tanto orgulho de ocupar. Sem família ou parentes conhecidos viveu e morreu por aquele lugar.

-Ficou sabendo do velho que bateu as botas no gabinete do Reitor?

-O da portaria? Fiquei sim, mas era Ascânio de que mesmo?

Boate Azul

Nicácio sempre foi muito desconfiado, nunca aceitava nada sem antes checar a fonte, e sua idoneidade.

E não é que mesmo assim o escabreado sujeito caiu em uma enrascada?

Saindo à noite de uma boate,, uma bela moça lhe pediu informação. Como parecia de boa família, o papo logo terminou em um motel.

Na manhã seguinte, ela já não estava mais lá, mas havia esquecido a carteira. Então, foi checar os documentos para achar seu endereço. Aí quase caiu para trás. No RG estava escrito “Joel Maromba da Silva”.

Pobre Nicácio, confiou na idoneidade, mas se esqueceu de checar a fonte!

Menina-flor

Todos os dias passava em frente à sua janela, só para admirá-la. Nunca trocaram uma palavra sequer, apenas olhares. Esse ritual durou três anos. Ele agora contava 20, ela desabrochando como flor para a vida. 

Até que um dia, encontrou a casa fechada. Se aproximou, e viu na janela um bilhete:

-Ainda vamos nos reencontrar!

Dez anos se passaram, e um grave acidente quase lhe tirou a vida. Quando abriu os olhos no hospital, quem viu? A menina-flor, que tinha se tornado uma linda mulher. Enfermeira naquele lugar, o reconheceu logo no primeiro dia, e desde então nunca mais se afastou. Com um sorriso no rosto, disse-lhe docemente:

-Não falei que iríamos nos ver de novo?

Será que vai dar namoro?

Dias de Sol

Ele se chamava Sol, ela Lua. A relação era  tão improvável quanto o encontro dos dois. Mas decidiram se amar, ainda que só pudessem se ter por poucos instantes – no poente e no nascente. 

Compadecido daquela situação, o Senhor dos Astros decidiu ajudar criando o Eclipse, quando poderiam estar um no outro por inteiro. E essa condição perdurou longamente.

Apesar do muito querer, e da felicidade que transbordavam, passaram por provas e tempestades. Mas o amor superou todos os percalços, e agora aguardam a passagem da estrela cadente que lhes trará Íris, o fruto divino desse amor astral.