O dia depois de amanhã

Nasceu na roça. Viveu uma vida simples, estudou em escola rural, mas sempre acreditou que poderia ter uma vida diferente. Pena que os sonhos nem sempre refletem a realidade, que pode ser dura, e deixar marcas no corpo e na alma, daqueles que tem no sangue, o estigma da pobreza.

Então ele acorda com o telefone tocando. Era o serviço de quarto do hotel avisando do horário de saída de seu vôo, e que o motorista já o aguardava, no lobby.

Sete horas

Congelado no tempo, os ponteiros marcavam sete horas. Pouco antes, quando eram seis e quarenta e cinco, o Papa anunciava a benção entre pessoas do mesmo sexo. Ás seis e meia, Gaza sofria novo ataque de Israel. Os ponteiros indicavam seis e quinze, e o maior Iceberg do mundo navegava à deriva – sabe-se lá pra onde. São sete horas – a Coreia do Norte acaba de disparar um míssil intercontinental em direção aos EUA. Sete e um minuto, o relógio volta a se mover, no mesmo instante em que o mundo explode em um grande cogumelo de fumaça e cinzas.

Conto de Natal

Naquela noite, prostrado de joelhos no quarto, com os olhos marejados e o coração doído, cansado e sem esperança, só conseguia olhar para os céus e suplicar misericórdia. Na manhã seguinte, nada mudou. E isso se.repetiu por várias noites e manhãs, sem que o consolo tão desejado lhe chegasse. Até que no dia 24 de dezembro, pouco antes da meia noite, um telefonema lhe trouxe a notícia que iria mudar toda sua vida. Mais uma vez, de joelhos prostrados, agradeceu e chorou, mas dessa vez foi um choro de felicidade e gratidão.

Zé Ninguém

Zé Ninguém era um bom sujeito. Anônimo, como tantos brasileiros mas cheio de empatia – dívida o pouco que tinha, e era sempre o amigo certo das horas incertas. Mas um dia a vida lhe cobrou uma conta amarga, e nessa hora difícil não achou quem lhe desse o pouco. Só que as coisas mudam, e a vida dele também mudou. Não era mais anônimo. Os “amigos”? Todos queriam apertar a mão do enricado. E agora José ? Continuar a servir aos outros, ou cobrar a fatura pelos dias servidos?

Alcova

João e Maria eram um casal normal. Vida morna e na cama – papai e mamãe. Os dias seguiam a linearidade própria desse tipo de relação, até que João decidiu checar o celular da esposa, após perceber mudanças em seu comportamento.

– Meu Deus, Maria está me traindo – com outra mulher! disse em desespero, ainda sem acreditar.

Naquela noite seguiu o ritual cotidiano – Papai e Mamãe e depois sono, mas ele não dormiu. Enquanto Maria ressonava, foi até a cozinha e pegou uma faca…

Na manhã seguinte, tudo normal, vida morna que segue. Despediu-se dela e foi trabalhar. Segundo João, o que é da alcova deve permanecer na alcova.

Sobre Mudanças na UFJF

O ex-presidente americano John Kennedy tem uma frase muito significativa para servir de epígrafe a esta prosa: “A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro.” E estamos agora passando por esse momento – o de mudar olhando para o Futuro. E por que esse processo para alguns parece ser tão penoso?

Você já tentou mudar um móvel de posição em casa, sem que isso lhe gere um sem número de incertezas? E na hora de trocar de carro – compro o mais econômico ou o mais luxuoso? E se o assunto é a profissão? Escolho a que me dará mais realização pessoal, ou maior retorno financeiro?

De toda forma, esse sempre será um momento de grande angústia e apreensão, mas ao mesmo tempo salutar pois passado o mar revolto, a calmaria trará um novo ponto de vista sobre aquelas águas, até então desconhecidas.

Assim acontece em todos os momentos da vida, e com a UFJF não é diferente.A cada fim de ciclo de uma gestão, a inquietação é a mesma – mudar ou permanecer no mesmo ponto? No meu entendimento a Chapa 1 e a Chapa 2 (co-irmãs) não trarão melhores respostas aos anseios da coletividade, por isso, a Chapa 3 é a que melhor representa a tão desejada transformação.

Fato é que todo processo de mudança, seja ele de vida, ou de uma gestão, começa dentro de uma única pessoa – você mesmo. O que não quer dizer que isso o torna mais fácil, pelo contrário. Envolve senso de coletividade, posto que sua decisão (ou omissão) poderá afetar a vida de outras pessoas. Demanda força de vontade, pois terá que sair da caixinha para olhar em volta, conhecer o que está em jogo, e o que está sendo proposto.

Então fica a pergunta: Por que (ao menos para mim) parece que não estamos vivendo um momento tão grave – e premente de mudança – na Universidade Federal de Juiz de Fora? Qual a explicação para tamanha apatia, e mesmo afasia, pois ao que parece Técnicos-administrativos em Educação e Docentes perderam a capacidade de expressão e compreensão dos fatos. Será que o “medo” de se expor seria uma causa para essa condição? Quem é das antigas não reconhece nessa Consulta para Reitor a efervescência, a disputa e os embates próprios de períodos como esse. Então, a quem convém tal desinteresse?

Bom, eu tenho a minha opinião formada sobre isso, mas prefiro encerrar esse assunto com as palavras do poeta das coisas simples, Mário Quintana, que resume nos seus versos aquilo que passa em meus sentidos: “Todos esses que aí estão, Atravancando meu caminho, Eles passarão… Eu passarinho!”

Mandinga

Feliciano não tinha tudo, mas o que tinha jà era suficiente para lhe prover qualidade de vida, e alguns mimos. Junto com o dinheiro veio a fama, que trouxe na bagagem um sem número de relacionamentos sociais.

Até que um dia, a Roda da Fortuna virou a seu desfavor, e tudo começou a ruir. Só lhe restou a dignidade.

Não se abateu. Lutou, mas nada dava certo, era como se.estivesse atolado em poço de piche. Enfim, cansado se deixou afundar no negrume abissal.

Dizem as fofoqueiras, que sua bancarrota é fruto da mandinga de um ex-funcionário vingativo. Será mesmo?

Sincericídio

O cortejo entra na cemitério. À frente, a enlutada viúva amparada pelos filhos. Logo atrás, uma dúzia de carpideiras, vindas diretamente da capital, para garantir mais dramaticidade ao sepultamento do Coronel Temístocles.

Acompanhando o féretro a mais alta burguesia – Prefeito, Juiz, Bispo. Até um astro da Globo compareceu.

À beira da cova, o Reverendíssimo faz as últimas exéquias, e deixa à esposa o lamento final:

-Seu velho desgraçado de merda. Que os vermes demorem bastante para comer suas carnes!

Então ela dá de costas para uma audiência boquiaberta, e sai cantarolando e pulando:

-Hoje livre sou, lá rá lá rá!!

O Santo

Era tido como um homem Santo, suas palavras no templo ecoavam como mandamentos. Impossível questionar. Seria como duvidar do próprio Deus.

Já na intimidade doméstica, era um tirano com os filhos, com a esposa um verdadeiro boçal, mas o pior de tudo – praticava a pedofilia para saciar seus desejos carnais.

Quando de sua morte, todas as láureas próprias de um Venerável. Junto aos fiéis a certeza de que estaria à direita do Pai.

Chegando às portas do Céu, um Arcanjo lhe informou:

-Seu lugar não é aqui. É hora de acertar as contas, por todo Bem que deixou de fazer.

Vida de casal

O casal se deita, quando um gemido recheado de lascívia rompe o silêncio do quarto. Então, começa uma discussão entre eles.

-Mauro, você ainda sente atração por mim?

-Por que essa pergunta agora mulher?

-Sei lá. Os vizinhos aí do lado fazem todo dia. Tem quase um mês que você não me procura. Acho que tem outra mulher em sua vida.

-Marisa de onde você tirou essa ideia?

No mesmo instante, escutam um estrondo de cama quebrando, e em seguida um grito:

-Aiiiiiiii, gozeiiiii!

Um olha para o outro boquiaberto, e Mauro nervoso fala para a esposa.

-Marisa, vira pro lado e vê se dorme!