O avistamento

Zé Pretinho era um homem muito simples, colono de fazenda, que morava sozinho em um casebre. Toda noite quando ia deitar, era só apagar a lamparina que uma luz forte entrava pela fresta da janela. Com medo, rezava o Pai Nosso e ia dormir. Até que um dia, resolveu tomar coragem, e ver que raio de lumiar esquisito era aquele…

Dando falta do empregado, os patrões mandaram ver o que tinha acontecido, já que ele nunca falhava ao serviço. Chegando lá, só acharam suas roupas, dentro de um círculo queimado no mato, como se tivesse sido marcado a ferro.

Gato na cabeça

João Batista era um sexagenário, que morava sozinho num conjugado. Todo dia descia, entrava na Birosca do Portuga, tomava uma pinga, esperava o marmitex e fazia sua fezinha no gato – 7853. Depois pegava 5 pães na padaria, e ia no açougue, comprar as pelancas do Alfredo. Só dava as caras de novo, na manhã seguinte.Até que os vizinhos sentiram sua falta – passou um dia, três e nada dele aparecer. Preocupados, chamaram a Polícia, que encontrou João caído. Sobre sua barriga, Alfredo, o gato, e na mão o resultado do bicho – sua milhar tinha deixado ele rico, e agora, morto.

Quiproquó

Enquanto espero o ônibus, ouço uma conversa que chama minha atenção:

-E aí? Ele morreu?

-Morreu nada menina.

-Mas e a sua irmã?

-Aquela lá? Meu cunhado que deu uma paulada nele, mas não matou.

-Mas o que aconteceu então?

-Ele se escondeu.

-E se voltar de novo?

-Meu cunhado disse que mete bala.

Intrigado, pergunto a uma das senhoras:

-Desculpe me meter, mas porque não chamaram a polícia?

-Polícia moço?

-Sim. Pra prender o tal sujeito?

-Ah moço, e desde quando polícia prende rato sujo e safado?

Sem entender nada, entro no coletivo que acabara de parar no ponto.

A Musa

Setembrino era Professor de Literatura Latina. Recato e gentileza eram sua marca. Solteiro, nunca cedeu aos arroubos da paixão, nem tampouco da carne. Até que surgiu Agatha – sua nova aluna. Como gasolina no braseiro, perdeu juízo e compostura. Noites insones, calores extremos, pura lascívia. Descontrolado, decidiu declarar-se para a manceba. Ansioso, chegou cedo na faculdade, à espera de sua Musa. Findo o turno, foi saber o porquê da ausência da jovem:

– Agatha havia tirado a própria vida, na noite anterior.

Sem chão, entregou-se ao celibato, em um Mosteiro. De Setembrino, nunca mais se ouviu falar.

Sororidade

Judite amava Jair, que amava a cachaça, o jogo e as donas na rua. Sempre que chegava em casa, quebrando tudo e enchendo ela de tapas e pescoções, corria para a casa de Terezinha, sua vizinha de porta. Lá se sentia segura e acolhida. Só que um dia, Jair chegou mais cedo, e a vizinha não estava em casa. Quando Maria da Penha apareceu, já era tarde. No velório, chorava sobre a defunta, ao lado do viúvo. Um mês depois, mudou-se para o apartamento do vizinho. Terezinha amava Jair, que amava a cachaça, o jogo e as donas na rua…

51 palavras

Sua história começou com uma quase-morte. Foi anjo, pacífico, abestado. Mudou, casou – não convidou. Foi professor, Chefe, partiu Brasília – quebrou. Renasceu. Foi roceiro, fêssor, foi importante – a casa caiu. Nasceu de novo. Ficou violento, brigou e levou porrada – quase morreu outra vez. Ressignificou e virou escrevinhador – um novo capítulo iniciou hoje.

A Greve

Natalino era um funcionário padrão. Trinta anos de fábrica. Nem mesmo quando seu pai morreu no interior, faltou ao serviço

Chegou naquele dia, e todas as máquinas estavam paradas – era Greve contra a opressão da empresa. Sentou no seu posto, ligou sua máquina e começou a rebitar.

Na Assembleia da tarde, o convocaram para se explicar. Chegando lá, foi bem objetivo e direto.

-O motivo dessa Greve não é a opressão da chefia? Pois bem, eu resolvi fazer greve contra o movimento grevista, por estar me sentindo pressionado a parar.

Deu de costas, e voltou para o seu posto, deixando todos mudos, e sem reação.

O Troco

Juventino sempre foi o valentão do bairro. Não perdia uma chance de sacanear um magrelo, ou zuar um gorducho. Com as garotas? Era o pegador. Para azar do marrento, chegou por lá um tal Cardoso. Alto, esquálido, branco que nem cera, mas filho de pais endinheirados.

De repente, sua fama começou a escorrer pelo ralo igual água. Inconformado, resolveu tirar satisfação com o novato:

-Qualé otário. Vou te quebrar todo!

Antes que conseguisse dar o primeiro golpe, já estava no chão preso em um mata-leão. Naquele dia aprendeu uma dura lição: quem vê cara, não vê a cor da faixa no quimono.

Maria da Vida

Maria da Vida carrega no corpo as marcas do abandono e da violência. Pobre, negra e periférica gerou o primeiro filho ainda aos dezesseis. O pai? Esse só compareceu no coito. Os outros três foram frutos de um relacionamento de vinte anos, regado a cachaça e porrada, que só terminou com uma bala perdida que achou a cabeça do falecido. Sozinha, enfrentou todas as batalhas, e conseguiu educar suas crias. Hoje, é ela quem se cria, ao receber seu diploma de professora. Agora não é mais Maria da Vida – seu nome agora é Maria da Vitória!

(des) Aparecido

Aparecido era muito religioso. Solteirão, sua vida era cuidar da mãe doente, e servir na Igreja, onde era Ministro da Eucaristia. Tudo ia bem, até Rosa – uma morena de boca vermelha, seios fartos e ancas largas – mudar-se para o apartamento ao lado.

Ele que era casto, e nunca havia se entregado às perdições da luxúria, passou a sentir o calor do desejo mundano invadir seu corpo, e queimar seu juízo, enquanto olhava a moça se banhar pelo vasculhante do banheiro.

Um dia, não se aguentando mais, invadiu o apartamento da jovem, e num rompante de loucura e desejo a violentou Na manhã seguinte, cartazes nos postes da rua denunciavam o crime e o autor, e neles se podia ler – PROCURADO. Aparecido? Nunca mais foi encontrado.