Impossível

Luis nasceu cristão. Foi criado nos preceitos da Santa Madre Igreja, mas nunca se convenceu daquilo que ouvia. Já adulto, tornou-se um cético que não acreditava em milagres, ou coisas impossíveis. Sandice de carola, dizia.

Um dia, a Dona Doença bateu à sua porta. Levou casa, família e dinheiro. Quando se deu conta, estava em um leito de hospital, em cuidados paliativos, aguardando a sentença mortal. Em sua cabeça uma única pergunta:

– Por quê?

Em uma manhã de domingo, foi acordado com um toque suave. Era uma enfermeira, de semblante doce, que lhe trazia um remédio. Recomendado pelo seu médico, disse ela. Então, tomou e entrou em sono profundo.

Quando acordou, o médico sorridente lhe dizia:

– Luis, você acredita em milagre?

Naquele momento, ele finalmente acreditou.

O acumulador de histórias

Natanael era um sujeito esquisito. Alto, com o rosto marcado de cicatrizes, nariz aquilineo, e braços curtos. Mas apesar da aparência sombria, exercia um estranho fascínio sobre as pessoas – quem dele se aproximava, sentia uma vontade incontrolável de contar suas histórias, para logo em seguida perder a cor, e o brilho.

Como um predador faminto, não tinha paradeiro fixo. Andava de cidade em cidade, à procura de novas lembranças.

Até que um dia, depois de consumir todo um povoado, seu corpo começou a regurgitar memórias, e explodiu como se fosse uma bola de soprar.

Então, o céu encheu-se de letras, que formaram histórias, e saíram numa revoada desesperada, à procura de suas personagens, que voltaram, assim, a ter cor e vida, como que num passe de mágica.

Déjà -Vu

Naquela manhã acordou com uma estranha sensação – era como se fosse um mau pressentimento. Se arrumou rápido, nem café tomou, estava atrasado para o serviço. Joaquim, o motorista da linha 5310, ainda esperou que entrasse na condução.

No meio da viagem, passando pelo Viaduto da Consolação – coisa que fazia todos os dias, teve a impressão/sensação de que o ônibus estava despencando. – Cruz credo, pensou ele.

Desembarcou em frente à fábrica, para mais uma jornada em série. A sirene tocou anunciando o final do expediente. Entrou no vestiário, tomou uma ducha e foi para o ponto. Já no ônibus, o cansaço o fez cochilar – um cochilo eterno.

No meio da viagem, o Viaduto da Consolação desabou. Não houveram sobreviventes naquela tragédia.

Réquiem para Amadeu

Naquela noite, Carminha fez tudo do jeito que Amadeu mais gostava. Quando o motorista chegou, fedendo a diesel, já tinha a rabada pronta, e a Brahma estalando na geladeira. Por dentro da lingerie vermelha, o corpo mulato incandecia, cheirando a Almas de Flores.

Depois de satisfazer o estômago do amásio, entregou-se sem restrições. Até o rabo foi preenchido pelo macho. Cansado, ela lhe trouxe uma gelada. Enquanto sorvia o néctar dourado, seu corpo começava a enrijecer. Ao seu lado, Carminha saboreava a cena.

Consumada a vindita, sentou-se na sala, abriu uma cerveja, e sorriu extasiada. No CD tocava “Traição não tem perdão.”

Cale-se

Ouvia o Fernando Gabeira dia desses, quando ele falava sobre Liberdade de Expressão, e regulação das mídias. Me preocupou o que vi, não pelas colocações do articulista, mas sim pela reação de tantos internautas sobre o assunto. Para clarear esse debate, quero voltar um pouco no tempo.

A minha geração (a que já dobrou o Cabo da Boa Esperança) não conheceu essa tal “Liberdade”, nem tampouco as Redes Sociais. A informação circulava nas rodas de conversa, pelo telefone e através de jornais, revistas, rádio e TV. O que não significa dizer que não houvessem difamação, ofensa e até mesmo Fakes News.

Só que naquela época, isso se resolvia com uma retratação na primeira página do jornal, ou mesmo em cadeia nacional de rádio ou TV Até porque, o efeito desses agravos era tão efêmero, quanto a vida de uma notícia, que ficava velha assim que surgia nova manchete. Para além disso, os atos legais de reprovação e ressarcimento da honra, seguiam seu ritmo lento e arrastado na Justiça.

Hoje tudo mudou. A informação é instantânea, e se antes ela tinha um caráter passageiro, hoje pode se tornar perene, justamente porque aquilo que é publicado, talvez nunca desapareça transpondo fronteiras e nações, e a crise com o X é um exemplo claro disso.

Não obstante ser nosso maior patrimônio, a Liberdade em seu múltiplo espectro é um direito, para o qual corresponde um dever – regra áurea da vida em sociedade. Portanto, suas opiniões, ideologia e crenças não podem ser desconsideradas, desde que seus efeitos não firam o direito do outro de discordar, ou mesmo sua honra.

Ora, por isso a tal regulação de que falava Gabeira torna-se necessária. Como a sociedade tem demonstrado falta de responsabilidade sobre aquilo que publica, em alguns casos beirando a imaturidade, necessário se faz que exista um instrumento para garantir os direitos individuais de todos, coibindo injustiças graves.

E falando em maturidade, me parece que poucos têm se preocupado com o efeito que essa liberalidade tem causado nas novas gerações, em especial aquelas que nasceram dentro do mundo digital.

Cada vez mais a intolerância com as diferenças, o discurso de ódio, o racismo, o preconceito com gênero e crença têm se tornado comum entre os jovens. Talvez porque alguém tenha lhes dito que são livres para fazer, ou dizer aquilo que bem entenderem.

Por isso, sempre uso uma metáfora para explicar aos meus alunos a relação entre Liberdade e Respeito: a Liberdade é como se fosse uma estrada de mão dupla e sinuosa, onde os veículos trafegam cada qual em sua pista. Se houver respeito por parte dos condutores, um veículo cruza o outro sem maiores problemas, mas caso um deles resolva desrespeitar a sinalização, e invadir a contramão de direção, o acidente é certeiro.

Penso que essa deveria ser a reflexão sobre a tal Liberdade de Expressão. Se você não consegue manter-se na sua faixa, sem avançar sobre a pista do outro, simplesmente CALE-SE.

O porão

Entro na casa de meus avós. Era uma sede de fazenda, centenária, e o sol já ia caindo. A luz laranja nos vitrais tornava tudo sombrio, cheirando ranço e rancor.

Quando criança ouvia que no porão se guardava algo, que as empregadas desciam todos os dias para alimentar. Vencido pela curiosidade, acendo minha lanterna, abro a portinhola e sinto um cheiro forte e desagradável.

Desço as escadas, e quando a luz clareia o cômodo, avisto uma cama. Me aproximo e vejo os restos de um corpo. De repente, sinto algo me tocar. Me viro, e solto um grito:

– Meu deus !!!!

No tempo dos currais

Zé Tunin era sujeito simples, nascido no interior desse brazilzão, criado no cabo da enxada, e na quentura do sol. O que lhe faltava de instrução, sobrava em sabedoria e esperteza, própria daqueles que aprenderam a viver do jeito mais rude.

Lá pelas bandas onde morava, de quatro em quatro anos, passava uma tal “Caravana da Democracia”. Funcionava assim: na noite de véspera das eleições, os candidatos visitavam os arraiais e fazendas, distribuindo agrados para os eleitores.

Zé, que de bobo não tinha nada, só pegava as de $cinquenta$. Como na casa dele ainda não tinha televisor (nem internet), a cada caravanada era um bolo de notas que enchia o seu bolso (proporcional ao número de votantes da casa).

No dia da votação, toda a família cumpria com seu dever cívico. Em quem votavam? Ninguém sabe, afinal, o voto é secreto.

Findo o compromisso, a hora era de comemorar em um churrasco para os parentes e vizinhos, tudo pago graças aos agrados dos candidatos da noite anterior. Viva a “Caravana da Democracia”!

E assim acontecia no tempo dos currais. O gado, ou melhor, o povo humilde do interior era “convidado” a votar de acordo com a vontade (e interesses) dos patrões, coronéis e barões. Que bom que os tempos são outros, e essa prática arbitrária e anti-democrática não ocorre mais. Será mesmo?

Nos grandes centros ainda se troca voto por vantagens pessoais, sacos de cimento e até dentaduras. Mas quando você vai caminhando para o interior, descobre que por lá ainda existe quem sabe tirar vantagem da (falsa) bondade desses maus políticos.

No entanto, se o gado desses currais eleitorais era mestiçado, existe hoje um de raça pura, e que enche outro tipo de cercado, o ideológico. Por isso, a “Caravana” mudou – se antes ela passava de porta em porta distribuindo mimos, hoje invade casas e redes sociais de letrados da classe média – dita conservadora e defensora da familia, da pátria e da fé – distribuindo promessas.

Só que, ao contrário do Zé, estes aceitam o cabresto, e repetem a cantilena de falsos profetas, maniqueístas e perturbados que tentam – a todo custo – manter sua boiada dentro do curral.

Esperto mesmo era Zé Tunin, que sem diploma e cabedal soube dar a volta no Sistema, agindo de acordo com sua consciência, e ainda fazendo bom uso dos agrados recebidos da politicada desonesta.

Missa de Finados

Chego em casa apressada, deixo as roupas e calçados do lado de fora, e vou direto para o chuveiro. Minha avó sempre dizia para fazer isso, quando voltasse do cemitério.
No meio do banho, o telefone da sala toca. Me enrolo na toalha, e vou atender:
-Alô?
Do outro lado nenhuma resposta, apenas o som de uma respiração. Desligo. Certamente é um trote. Termino meu banho, e vou para cozinha arrumar meu café. O telefone toca de novo:
-Alô? Dessa vez ouço uma resposta.
-Sou eu, meu amor!
De repente, o aparelho de som liga sozinho, e toca nossa música preferida.
-Não pode ser você. Deixei uma rosa na sua lápide, agora há pouco.
Desligo assustada. Quem estaria brincando comigo? E toca outra vez:
-Que palhaçada é essa? Atendo irritada.
Então, a tela do computador acende, e nela aparece a palavra – SAUDADE. Do outro lado da linha, a voz responde:
-Meu amor, por que está me tratando assim?
-Isso não é possível. Respondo com os olhos marejados.
Meu celular vibra, e surge um SMS, cheio de emojis de coração.
-Onde você está? O que está acontecendo? Pergunto angustiada.
-Estou aqui.
Ouço a maçaneta da porta girar, e ela se abre…

Consumado

Está tudo consumado. Já avisei aos amigos (aqueles das Redes Sociais). Resolvi as dívidas e organizei o espólio – o pouco que tenho, vai para uma ONG de proteção animal. Família? Duas tias no interior, e uns primos distantes – nada que valha o esforço. Tudo pronto, com a consciência tranquila, e certo da decisão tomada.

De repente, sinto um leve toque em meu ombro. Era uma simpática e gentil senhora, que sussurrou segredos em meu ouvido. Desengatilho o cão e coloco a arma de lado. Num instante, minha vida em preto e branco volta a ter cor. Hora de recomeçar.

A chave

No interior das Minas Gerais existiu um sujeito chamado Valfrido Boa Morte, que ganhou fama e notoriedade graças ao seu nome, mas também pelo seu velório. Sempre foi reservado em vida, tanto assim que nenhum familiar foi encontrado para avisar de seu passamento.

Contam as carpideiras de plantão, que um dos últimos desejos do morto, era ter garantida sua privacidade, após seu falecimento. Por isso mesmo, deixou encomendada na funerária da cidade, uma urna com tranca e cadeado. E assim foi feito.

Valfrido desceu ao Salão dos Mortos fechado, como sempre o foi quando ainda vivente. Quanto às chaves do caixão? Segundo contam, foram colocadas dentro da algibeira do paletó do falecido.