Naquela manhã, como em todas as outras, acordou, banhou-se, arrumou a cama, guardou as chinelas e o pijama no guarda-roupas. Saiu, tomou sua média com pão na chapa na padaria, e pegou o ônibus. Chegando na repartição, assinou, redigiu e atendeu. Trocou poucas palavras. Fim do dia. Pegou a condução, chegou em casa. Banhou-se, colocou roupa nova, perfumou-se e preparou um saboroso jantar. Foi para o quarto, trocou a roupa de cama e deitou com um sorriso no rosto. Pegou a arma no criado, encostou na fronte e disparou. Essa foi a melhor escolha que fez em sua vida.
Autor: sergiosoaresblogger
Melhor idade
Como uma serpente, a língua escorrega pelo seu corpo, que vibra com o calor de um toque juvenil, preenchendo cada espaço como se o fosse sorver por inteiro. Quando sente sua alma invadida por aquela massa quente e firme, a respiração quase cessa. O êxtase daquele momento só é quebrado pelo frêmito de um grito. Sempre cedeu às vontades do marido sem nunca ter conhecido o prazer, hoje se fez mulher nos braços de um púbere mancebo.
Lei de Murphy
Nada é tão ruim que não possa piorar. Esse é o mantra da vida de José, que sempre foi marcada pela adversidade. Há quem diga que ele nasceu com o pé torto, mas o ápice do seu mau agouro foi no dia em que descobriu que não foi parido por sua mãe, ao contrário, foi gerado em uma chocadeira, fruto da relação zoofílica entre seu pai e uma galinha caipira do quintal. Ferrado mesmo esse tal de José!!!
Sinais
Confusa, Izabelle pergunta:
-Onde você está indo Gabriela ? O que foi que eu fiz? Por que está me tratando assim?
Sem dizer uma palavra sequer, ela apenas bate a porta e sai.
Olhando em volta, Izabelle vê sobre a mesa um papel. Lê, e não acredita. Em um ímpeto de desespero, se atira da janela do apartamento.
“-Gabi, me perdoe, mas não consigo dividir você com outra pessoa. Quando ler esse bilhete, já será tarde demais. Sempre sua, Clarice”.
Apetite poético
O sino avisa que é hora do recreio. A turba enlouquecida desce as escadas faminta por um prato de Strogonoff. Quando o professor acaba de limpar o quadro, se vira e vê sentado no fundo da sala um aluno. Intrigado, lhe pergunta:
-José, por que você não foi merendar com seus colegas?
-Professor, eu prefiro mesmo é um bom prato de Poesia-Práxis!
Consummatum est
Hoje acordei com um gosto amargo na boca – daqueles que só sente quem abusa na véspera da quantidade (e qualidade) do Whisky, de procedência duvidosa. E o pior é que essa sensação vem se repetindo a cada manhã, a cada semana, há alguns meses. Logo cedo, o fígado e a cabeça me cobram pelas escolhas (des)acertadas que fiz. Quando me viro de lado, vejo um corpo sem vida, tendo o peito rasgado ao meio, banhado em sangue…
O pico da Caba Cerúlea
Envolvente, ZZZZ, ardilosa, ZZZZ, traiçoeira, ZZZZ – lá vem entoando seu canto sedutor, como se a Sirena Ariel ela fosse :
-Lindo. Magnífico. Todo Poderoso. Invencível. Imbrochável!
E sem que o incauto mentecapto se aperceba, quando menos espera…. ela desfere seu golpe certeiro. Mais uma vítima da abominável e mortal Mosca Azul!
A véspera de hoje
Padre Roberto encerra a homilia com uma frase que bate fundo na minha cabeça:
– Não deixe pra amanhã, o que pode fazer hoje!
Chego em casa, vou arrumar a cama e levo um susto – a caixa do anticoncepcional está incólume – lembro da noite passada, e engulo dois de uma vez. Afinal, como disse o Cura, “não deixe pra amanhã o que pode fazer hoje”.
Obliteração
Sentada em uma cadeira, ela era apenas a sombra de quem já fora, inerte e perdida em um mundo sem vida.
Quando aquele olhar vazio encontra a própria mão, algo acontece. Uma janela se abre, e o mundo ganha cor – família, filhos, momentos felizes que ficaram no passado.
Um anel dourado era a última chama, que o Alzheimer ainda não havia conseguido apagar.
A fiandeira
No embalo da roda ela segue a fiar, juntando linhas, trançando tramas e, sem que perceba, no lapso de uma fiada, ela e a roca passam a ser uma só coisa, um só mecanismo, n’uma urdidura eterna de linhas e de vida.