Amor pra vida toda

Aurora e Mateus se conheceram ainda na adolescência – desse encontro veio o primeiro beijo, a primeira transa e o casamento.
Ainda muito jovens, ela com 19 anos, ele com 20, resolveram viver o conto de fadas da casa montada, do primeiro jantar a dois, do primeiro almoço para receber as famílias. Tudo como reza a lenda dos recém-casados.
Passado o calor e a empolgação dos primeiros meses, a vida à dois começou a cobrar seu preço. A primeira DR por causa da roupa molhada no banheiro, a primeira cobrança pela divisão de tarefas domésticas, dormir e acordar junto com a TPM da esposa. Até que a coisa ficou insustentável – Aurora descobriu que Mateus amava outra.
Desde muito novo, ele sempre fora apaixonado por futebol. Trocava qualquer programa, pelo joguinho de sábado com os amigos.
Logo que casou, ainda no clima do “felizes para sempre”, abriu mão dessa hábito. Mas agora, passada a novidade, e com a chegada das cobranças e da rotina, decidiu que era hora de retomar o velho costume.
Então, ela resolveu dar um ultimato no marido:
-Mateus, você vai ter que escolher – ou ela ou eu.
Na semana seguinte, lá estava ele de calção, chuteira e meião. A paixão falou mais alto. Era um caso antigo, que nada podia apagar. O grande amor da sua vida era ela – a pelada.

Tereza

Na tela do computador, anônimos e conhecidos acompanham a cena ao vivo. Em frente à câmera, a garota segue atentamente as ordens da voz:
-Primeiro você vai pegar os lençóis da sua cama, e amarrá-los com um nó bem forte, o mais forte que conseguir. Precisa de pelo menos três, para cumprir o desafio da Tereza.
E a voz segue dando as instruções..
-Feito isso, você vai abrir a janela do quarto, amarrar uma das pontas do lençol na cama, e a outra jogar para o lado de fora. Tudo certo até aqui?
-Sim. – responde a menina, empolgada com a aventura.
-Então, o barato dessa prova é que ela vai testar se você tem duas habilidades – coragem de se pendurar na corda jogada pela janela, e sua força. Ganha quem ficar mais tempo do lado de fora, segurando na corda. Está pronta para o desafio?
– Sim, vão bora! – diz soltando um estridente grito de guerra.
Quando a garota se inclina para jogar o corpo fora da janela, seus pais entram no quarto, acompanhados da polícia, evitando uma tragédia. Atentos, eles monitoravam as conexões, e os contatos da filha adolescente na Rede.

Honra ao mérito

Tunico era um funcionário exemplar. Em 30 anos de empresa, faltou somente duas vezes – uma quando a mulher sentiu as dores do parto, e a outra quando sua mãe faleceu.

Com uma ficha impecável, chegou o tão esperado dia de sua aposentadoria. Em um ato solene, o diretor lhe presenteou com um relógio banhado a ouro, e uma placa de homenagem como reconhecimento pelos seus 30 anos de serviços prestados no mesmo cargo – Supervisor de Área.

No mesmo evento, Laureano, um jovem rapaz que estava na empresa há pouco mais de dois anos, e nesse período faltou mais do que trabalhou, além de ter sido acusado de assédio pelas colegas, estava recebendo sua promoção para o cargo de Gerente Administrativo.

De igual modo, teve discurso e entrega de placa ao “Funcionário Revelação”. Só que, ao contrário de Tunico, Laureano tinha ótimas referências que o qualificaram para o novo posto – era o filho mais novo do diretor da empresa.

TOC

Adalberto sempre foi um sujeito cheio de manias. Na hora do café, a xícara recebia 4 gotas de adoçante bem contadas, e a manteiga tinha que estar perfeitamente espalhada, em toda superfície da fatia de pão. Na mesa do almoço, os talheres deveriam estar corretamente dispostos: garfos à esquerda do prato, com os dentes voltados para cima, e as facas à direita, com o corte virado para dentro. Nunca ao contrário, ou em posição diferente.

As cuecas e meias na gaveta? Eram arrumadas em uma escala cromática, das mais escuras até as brancas. As sacolas de supermercado eram dobradas, até ficarem uniformemente compactadas. Os livros eram organizados na estante, com as lombadas em ordem alfabética. Mas sua maior cisma mesmo era com o cabelo. Cultivava uma cabeleira loira, com uma grande franja que era milimetricamente partida para a direita.

Até que um dia, Adalberto morreu de causas naturais. Na funerária, durante a preparação do corpo, o vestiram com o terno cinza (que já estava previamente separado, e identificado com uma etiqueta – post mortem), maquiaram seu rosto para tirar a palidez mortuária, e pentearam o cabelo, jogando a franja loira para a esquerda. Terminado o serviço, o rapaz se preparava para fechar o caixão, quando, de repente, o defunto abriu os olhos e deu um grito: 

-Não, seu burro. É pra direita, e não pra esquerda!

Dito isso, fechou os olhos, e morreu de novo.

Orgia gastronômica

Tudo começou quando a Salada Caesar ficou cheia de vontade, e resolveu seduzir o Antepasto de Berinjela. Quando a temperatura aumentou, apareceu um Sorbet de menta, que preparou as papilas gustativas pois a coisa ia ficar hot com a chegada do Penne ao molho vermelho apimentado, só para atiçar a libido. Em um ménage de sabores, o Medalhão de Filé Mignon picante incendiou o Salmão ao curry com molho de abacaxi, que se deixou misturar ao Chili de carne e feijão. Extasiados de luxúria e gula, estremeceram em um frenesi orgástico. Fechando esse surubão com chave de ouro, lambuzaram-se em um delicioso Pudim de manga, com calda de maracujá, para depois relaxarem gostosamente na hidromassagem.

Clausura

Jonas era um jovem do interior, recatado, religioso e de poucos amigos. Sua rotina resumia-se a cuidar dos pais idosos, e frequentar os cultos na igreja, onde era obreiro. Não fazia gracejos, nem tampouco se envolvia em conversas mundanas. Sua vida era pautada pela moral, e pelos bons costumes essenciais a um servo do Senhor.

Isso de segunda a sexta-feira. Aos sábados, com o  pretexto de sair para evangelizar, contratava um cuidador para os pais, e viajava para a capital.

Chegando lá, se transformava em Jane Twister, a Drag Queen mais badalada do circuito LGBTQIA+.

Na segunda, o obreiro do Senhor estava de volta. Pudico, temente a Deus, e totalmente avesso às tentações, e desvarios do mundo.

Óbolo

 – Na porta da igreja, o mendigo implora:

– Uma ajuda, pelo amor de Deus!

A benevolente senhora responde.

-Filho, não tenho trocado, somente notas de 100 reais. Mas confie, que Deus proverá.

-Ô dona, tem problema não, pode me dar a de 100, que eu tenho troco aqui.

Gina Catabriga

Santa Rita do Bom Amparo era uma daquelas cidadelas do interior, que adorava uma novidade. E foi assim que apareceu por lá uma tal Gina Catabriga, que de estranho não tinha só o nome – era magra feito um palito, usando óculos fundo de garrafa, e vestindo sempre o mesmo jaleco escuro.

Na Prefeitura, apresentou-se como a  gestora da Educação, indicada pelo  Governador. Para comprovar, abriu três pastas com títulos e mais títulos. Nem precisava, o chefe do Executivo a recebeu com pompas e circunstâncias.

De imediato, mandou chamar as diretoras das duas escolas da cidade, para lhes passar o novo modelo de ensino, que deveria ser adotado no município.

-Senhoras. Nossa Educação corre risco de morte. E sabem de quem é a culpa?

Assustadas, as diretoras acompanhavam boquiabertas a explicação.

-Dos chineses, que implantaram seus celulares mundo a fora, com o propósito de controlar as mentes de nossos alunos 

-Por isso, a partir de hoje, esses aparelhos estão proibidos nesta cidade. E como demostração exemplar, promoveremos o dia do “Queima Fones” em praça pública

A história correu como rastilho de pólvora e, em pouco tempo, o executivo e o legislativo já haviam comprado a ideia.

No dia previsto, de maneira estóica e triunfal, Gina entrou na praça, carregando a bandeira do Brasil em uma das mãos, e uma tocha na outra.

Ao aproximar-se da pira de celulares, puxou o hino nacional, à capela. Mas antes de entoar o último verso, uma ambulância entrou de sirene aberta pela praça, de onde desceram três enfermeiros, que imobilizaram Gina com uma camisa de força.

De fato, ela havia sido uma professora, mas que devido às suas ideias radicais, enlouqueceu e foi internada em uma clínica psiquiátrica.  Já havia fugido de lá outras vezes, inclusive havia feito algo parecido em outra cidade.

Enquanto era levada, a população estarrecida acompanhava a tresloucada professora vociferando

-Salvem as Professorinhas! Salvem as Professorinhas!