A rocinha da Nega

Reza a lenda que existiu um Barão muito rico, dono de uma das maiores Sesmarias do Brasil Colônia. Esse homem colecionou fortuna, e histórias em suas terras, desde uma parente tida como bruxa, até uma ama de leite, que de tamanha importância deu nome a uma de suas propriedades, e foi enterrada atrás da capela dos nobres. Até hoje há relatos de assombrações, e desaparecimentos nessa região.

Jonas era um representante comercial, que resolveu cortar caminho por uma estrada que não conhecia. De repente, no meio de uma curva, o carro simplesmente apagou – nada funcionava. O lugar estava um breu só.

Acendeu a lanterna do celular, levantou a tampa do motor, mas não viu nada de errado Decidiu então acionar a seguradora. Celular sem sinal. – E agora? pensou o homem.

Foi quando viu pra dentro do mato uma luz acesa e pensou – Lá devo conseguir alguma ajuda.

Clareou uma placa coberta de mato onde se lia – “Rocinha da Nega”. Imaginando ser o nome da propriedade, decidiu entrar, mas com medo de aparecer algum cachorro, bateu palmas e gritou:

-Oh de casa?

Daí a pouco, veio em sua direção um moleque vestindo umas roupas estranhas.

-Sinhô, o Barão mandô entrá.

Chegando mais perto, uma porta se abriu e ele entrou. Lá dentro, uma sala de jantar enorme, em estilo colonial, cheia de pessoas sentadas.

Na cabeceira, um homem trajando vestes incomuns, e ao seu lado uma negra, vestida como uma escrava. Então, o Barão levantou-se da cabeceira, e disse:

-Se aprochegue Jonas, nos estávamos lhe aguardando. Nega arrume um lugar para nosso convidado.

Quando foi se sentar, percebeu que na mesa só existiam cadáveres. Antes que pudesse fugir, a porta da Capela mortuária se fechou, para não mais abrir.

Na estrada, ao lado do seu carro, o vento descobriu a placa, onde estava escrito – Cemitério da Rocinha da Nega.

A presa

Em uma noite sombria e gelada de junho, sentado sozinho na rodoviária, folheava as notícias no celular, enquanto aguardava o ônibus. De repente, ouviu um lamúrio vindo do banheiro feminino. Intrigado, bateu na porta, e perguntou:

-Oi, tudo bem aí? Está precisando de alguma ajuda?

O choro parou. Pensou – deve ser coisa da minha cabeça. Voltou para o banco, e seus jornais.

Então, escutou de novo, agora um grito bem alto.

-Me larga! Socorro!

Correu e empurrou a porta. Quando ela abriu, encontrou uma adolescente encolhida no chão, com as roupas rasgadas e sujas de sangue.

-Meu pai do céu, o que houve com você menina?

-Me ajuda moço, pedia a jovem em prantos.

-Ajudo, mas o que foi que aconteceu?

De repente, as lágrimas cessaram, o semblante ficou transfigurado, e ela se levantou.

-Você não se lembra mesmo?

-Me lembrar? Do que você está falando, garota?

-Canalha! Você não reconhece quem violentou, e depois matou?

Quando olhou para o lado, viu o corpo da jovem no chão, e seu transtornado algoz tirando a própria vida com uma faca.

-Não, isso não pode ser verdade!

-Seu babaca, olhe a data no celular. Há sete anos essa cena se repete todas as noites. Estou presa nesse inferno por sua culpa!

Quando olhou para a tela do aparelho, a cabeça começou a rodar, e toda a história se passou à sua frente, como da primeira vez.

Em uma noite sombria e gelada de junho, sentado sozinho na rodoviária, folheava as notícias no celular, enquanto aguardava o ônibus… Foi quando uma jovem entrou no saguão, e foi direto para o banheiro. O cheiro de presa atiçou o predador, que aproveitou a oportunidade, e tratou de segui-la. Trancou a porta para que ninguém entrasse, e então o pior aconteceu.

O pacto

Fausto era um homem perfeito, em todos os sentidos. Casado com uma linda esposa, pai de filhos amorosos e marido exemplar. Sua erudição e altas habilidades inatas fizeram dele uma figura pública famosa, e bem sucedida. Autor de três best sellers de suspense, sua fortuna só fez aumentar, quando o primeiro de seus livros recebeu uma adaptação para cinema. Hoje, ele comanda um grupo editorial, com filiais em Portugal e na Espanha.

Mas tudo na vida tem um preço, resta saber se você está disposto a pagar por ele. Certo é que a fatura chegará, e alguém baterá à sua porta para cobrar.

Era uma segunda-feira, e Fausto tinha acabado de chegar na Editora. Enquanto lia as mensagens do final de semana, sua secretária avisa:

-Fausto, tem uma pessoa aqui querendo falar com você, dizendo que é seu sócio, mas eu não o conheço.

-Pode mandar entrar Andreia.

A porta se abre, e um homem de terno branco, e lenço vermelho no paletó entra.

-Bom dia Fausto.

-Já imaginava que você viria hoje.

-Sim, hoje é o dia de fazermos nosso acerto.

-Eu sei, e já me preparei para isso.

-Então, qual foi sua decisão? Quem você me entregará em troca de tudo que eu lhe ofereci? Sua mulher, ou um de seus filhos?

-Na verdade, nenhum deles.

-Como assim? Você já sabia quais eram as condições de nosso acordo, e as consequências em caso de descumprimento.

-Sim, por isso disse que já estava aguardando sua visita.

Então ele abre a gaveta da mesa, pega uma pistola, coloca em direção à boca, e dispara.

Com o barulho do tiro, a secretária entra correndo, e encontra Fausto caído sobre a mesa banhada em sangue, já sem vida. Do homem de terno branco, nem sinal.

A boneca

Todos os dias ele se sentava em um banco na pracinha, e ficava lendo seu jornal. Era um homem de meia idade, com boa aparência, bem vestido, barba branca bem cuidada – um homem de bem, acima de qualquer suspeita. Enquanto as crianças brincavam, suas mães vigiavam as crias. 

Um dia, quando o homem do jornal chegou, havia apenas uma garotinha brincando com sua boneca. Ela tinha cachinhos loiros, como os de um anjo, e estava acompanhada de uma descuidada babá, mais preocupada com a conversa no celular, do que com a segurança da pequena.

Então, o senhor de barba branca, simpático como de costume, chamou a criança:

-Bom dia anjinho. Como você se chama?

-Gabriela.

-E a sua bonequinha, qual o nome dela?

-Essa aqui é a Marie.

-Oi Marie, será que você e a Gabriela aceitam comer um doce bem gostoso?

Inocentemente, a pequenina consentiu com a cabeça, pegou a Marie e saiu de mãos dadas com o novo amigo.

Na manhã seguinte, o corpo da menina foi encontrado em uma vala, ao lado de sua boneca. Naquele mesmo dia, no banco da pracinha, lá estava o homem de meia idade, com boa aparência, bem vestido, barba branca bem cuidada –  um homem de bem, acima de qualquer suspeita.

Metaverso

Praxedes era um sonhador contumaz, que perdeu o contato com o mundo real, vivendo apenas no seu metaverso onírico. Preocupados com a sua sanidade, seus familiares resolveram interná-lo em uma clínica psiquiátrica.
Na primeira consulta com o médico, ele explicou:
-Doutor, deve estar havendo algum equívoco. Eu não tenho problema algum.
-Com certeza não, Praxedes. E eu estou aqui para garantir isso. Afirmou o experiente médico.
-Pois é Doutor, meus parentes cismaram que estou maluco, só porque eu vivo em dois mundos. Esse aqui que é chato e cruel, e em Pasárgada, onde sou amigo do Rei, das fadas e dos gnomos. O senhor concorda que isso é um exagero?
-Claro, meu rapaz. Todos nós temos um lugar onde nos sentimos bem, e acolhidos. Vamos combinar assim. Você fica aqui comigo uns dias, só para sua família achar que está em tratamento, e depois você volta para Pasárgada.
-Está bem Doutor. Que bom que o senhor concorda comigo.
Os dias viraram meses, e a medicação fez efeito. Já de alta, foi despedir-se do psiquiatra.
-Doutor, já estou de saída. Quero lhe agradecer por sua ajuda.
-Não tem o que agradecer. Agora tenho a certeza de que você está pronto para voltar para sua casa, nesse mundo. Não é mesmo, Praxedes?
-Claro Doutor, esse negócio de dois mundos é coisa de gente maluca, pinel. Só existe um mundo.
-Então está certo. Espero que não precise retornar aqui nunca mais.
Terminada a despedida, dirigiu-se para a saída da clínica, onde um táxi já o aguardava.
-Bom dia moço, para onde o senhor quer ir? perguntou o taxista.
-Toca pra Pasárgada, respondeu o alienado Praxedes.

A testemunha

Pela fresta da porta, uma criança aterrorizada vê o padrasto tirar a vida da própria mãe, durante uma discussão. O assassino fugiu, e a garotinha, em choque, nunca mais falou – emudeceu com o trauma.

Anos depois, morando com os avós, quando voltava da escola, um homem a agarrou, e arrastou para um terreno baldio.

-Então você ficou muda sua pirralha, será mesmo? Eu devia ter feito o serviço completo naquele dia. Quando matei aquela vagabunda da sua mãe, deveria ter dado fim em você também, mas isso eu resolvo hoje.

Apavorada, a jovem reconheceu o assassino, e sem conseguir falar, tentou se desvencilhar do maldito.

-Vem cá sua putinha, até que você ficou bem bonitinha. Já que não fala mesmo, vou me divertir antes de acabar com você.

Quando o homem tentou tirar sua roupa, ela conseguiu se soltar com um chute, bem no meio das pernas do monstro, e saiu correndo.

-Vem cá sua vagabunda. Disse o pilantra, que começou a persegui-la.

No cruzamento de uma avenida movimentada, ela quase foi atropelada por um ônibus. A mesma sorte não teve o padrasto. Sobre as rodas do coletivo, ficou seu corpo estraçalhado.

Quando a jovem viu o que tinha acontecido, sentindo-se vingada, olhou para o corpo e disse:

-Vai queimar no inferno, seu desgraçado!

Depois de anos de medo e pavor, finalmente podia seguir a vida, deixando para trás o que tinha visto pela fresta daquela porta.

Trisal

Izabel e Otávio eram um casal jovem, bonito e saudável. Casados há pouco mais de dois anos, ainda viviam o calor de uma relação quase juvenil. Tudo ia bem, até que um dia, Otávio lhe disse:

-Bel, precisamos ter uma conversa séria

-Conversa séria, vamos inaugurar a primeira DR de nosso casamento? E deu risada achando que era uma brincadeira.

-O assunto é sério Bel, e se quiser pode entender como uma DR.

Sem entender o que estava acontecendo, ela apenas responde:

-Está bem então. Diga qual é o problema.

-Não dá mais pra sustentar essa situação

-Que situação, do que você está falando Otávio?

-Da gente.

-O que tem errado com a gente? Responde agora com ar de preocupada.

-Vou falar de uma vez então. Existe uma outra pessoa.

-Outra pessoa? Você só pode estar de sacanagem comigo.

-Não, não é sacanagem. Eu nunca faria isso. Até porque eu gosto muito de você, mas com a outra pessoa é diferente. Somos apaixonados desde a adolescência. Tentamos manter isso em segredo, nas agora não dá mais.

Com os olhos cheios de lágrimas, a moça apenas diz:

-Isso não pode estar acontecendo comigo.

-Não precisa chorar. Nós conversamos, e decidimos te fazer uma proposta, assim ninguém precisa sofrer.

-Proposta?

-Sim, vamos viver uma relação poliamor, como um trisal.

-Trisal? Poliamor? Some da minha frente e da minha vida Otávio.

Depois daquele dia, Izabel voltou a morar com os pais. Entrou em uma depressão profunda, tem pensado até em tirar a própria vida.

Quanto a Otávio? Embarcou em uma viagem romântica para as Ilhas Maldivas, com seu grande amor, Leandro, onde pretendem se casar em uma cerimônia à beira-mar.

O forasteiro

Há muito tempo, chegou na estação da pequena Esmeraldas, um homem trajando um terno escuro, chapéu Panamá e calçando luvas verdes. Sua figura incomum chamou a atenção de toda a cidade. As fofoqueiras de plantão ficaram ouriçadas com sua presença. Dona Rute,a proprietária da pensão, se apressou logo em abordá-lo ainda na rua.

-Bom dia moço, sou a dona da pensão. O senhor vai pernoitar por aqui?

-Sim. – respondeu secamente o forasteiro.

-Ah, então vou lhe preparar o melhor quarto. Para solteiro?

-Certamente.

-Vai ficar muito tempo?

-O necessário.. – respondeu dando de costas para a fuxiqueira, enquanto seguia em direção ao Paço Municipal.

No passado, a exploração da gema preciosa enriqueceu a região, e muitas famílias tradicionais. Uma delas foi a do Prefeito, Doutor Waldir Peçanha de Sá Trigueiro.

Contudo, a cidade não era mais nem sombra do que já havia sido, e um dos motivos era justamente a família Sá Trigueiro. Falidos, mas ainda dominando a política local, mantinham a pose e as contas, graças ao erário público. Uma “Gestão familiar”- esse era o mote da administração.

Bastou o homem misterioso aparecer, para a vida do prefeito virar de pernas pro ar. Suas negociatas, tramóias, acordos e propinas foram parar nos postes, e nas caixas de correio. A cidadela virou um campo de batalha, nas ruas uns saíam em defesa do chefe do Executivo, enquanto outros pediam sua cabeça.

Jurando vingança ao caluniador, Doutor Waldir chamou a população para um pronunciamento, em frente à Prefeitura. Mas antes mesmo que pudesse começar a discursar, viaturas policiais entraram pela praça afora. De uma delas desceu o delegado, acompanhado do juiz da Comarca, e deu voz de prisão para o Prefeito, e toda sua trupe.

Da estação, o homem da luva verde aguardou o desfecho da história, e em seguida embarcou num trem para seu próximo destino, onde uma nova missão o aguardava.