La Catrina

Júlia estava lindamente radiante ao pisar no tapete vermelho, acompanhada de um pai que não cabia em si, de tanta felicidade. A nave central da igreja estava decorada com gérberas da cor lilás, que realçavam ainda mais os detalhes em dourado, bordados na enorme cauda do vestido.

Ao som de “All you need is love”, interpretada por um coro infantil, acompanhado pelo delicado som de um quarteto de sopro, a nubente alcançou o altar, onde Eduardo – seu noivo –  a aguardava trêmulo de emoção, vestindo um meio fraque bege.

“Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe.”, com essas palavras do evangelista Mateus, o pároco destacou em sua homilia que o casamento é um sacramento, um sinal visível da graça de Deus, que fortalece a união e a promessa de amor que perante a Igreja, só pode ser desfeito pela morte.

Na hora do tão esperado beijo, a noiva subitamente empalideceu, e caiu já sem vida, nos braços de um esposo assustado, que parecia não acreditar que o sonho de uma vida, pudesse acabar em um breve instante.

O acontecido virou manchete nos jornais, e até na televisão. Durante as exéquias, o viúvo estava transtornado – um morto-vivo, sem alma, esperança e desejo de continuar vivendo. Ao seu lado todo o tempo, estava Rafaella, gêmea de Júlia, que vencendo a dor da perda de sua única irmã, ainda encontrava forças para amparar o ex-cunhado.

Na hora do sepultamento, a comoção dos presentes foi geral, ao presenciarem o desespero de um jovem rapaz, que não resistindo à dor da perda de sua esposa, desfaleceu e teve que ser amparado por familiares, que o retiraram antes dos ritos finais. Terminada a cerimônia, todos haviam deixado o local, menos Rafaella que se aproximando do túmulo, tocou a foto da irmã, e foi embora.

As gêmeas nasceram em uma família de classe média alta – pai advogado, mãe dentista – por isso mesmo sempre tiveram todo o conforto e cuidado, que o dinheiro poderia lhes proporcionar. Apesar de idênticas na aparência, Júlia sempre foi mais doce do que a irmã que, ao contrário, parecia eternamente ressentida.

Ainda na fase escolar, enquanto uma era a queridinha dos colegas e professores, a personalidade forte da outra a tornava a antipática da turma. Já adolescentes, Rafaella se divertia trocando de lugar com a irmã, principalmente quando começaram a surgir os primeiros namoricos. Gentil e amorosa, Julia sempre cedia aos seus caprichos.

Com a chegada dos estudos universitários, a moça conheceu Eduardo no primeiro ano de faculdade, quando cursava Direito, e ele Administração. Foi um amor incondicional, os dois pareciam feitos um para o outro. A meiguice da jovem completava a simpatia do rapaz, que conquistou a família desde o primeiro dia, quando pediu ao Doutor Fonseca permissão para namorar em casa.

Ao contrário da outra gêmea, Rafaella nunca teve um relacionamento duradouro. Na faculdade de medicina ganhou a alcunha de “destruidora de lares”, pois colecionava entre seus casos e rolos, vários professores.

Durante o baile de formatura da irmã, no meio da festa,  e depois de muitas doses de whisky, ela roubou um beijo do cunhado, e disse em seu ouvido:

– Você ainda vai ser meu um dia!

Embalados pela alegria e pelo álcool, ninguém deu importância ao acontecido, e a vida das duas seguiu rumos bem diferentes. 

Júlia decidiu especializar-se em Direito da Família, passando a atuar voluntariamente em projetos sociais, enquanto se preparava para a magistratura – seu grande sonho.

Já Rafaella, terminou o curso de Medicina, e especializou-se em Psiquiatria. Segundo suas próprias palavras, “queria tratar de loucos, assim como ela”. Montou uma clínica, e passou a atender apenas endinheirados e famosos.

Um dia, a irmã virou sua paciente. Sofrendo com crises de ansiedade, por conta da proximidade do casamento, e do concurso que faria logo em seguida, pediu à doutora que lhe receitasse algo, para aliviar aquela tensão. Então, ela prescreveu um tarja preta tão forte, que não era vendido em farmácias, deveria ser encomendado diretamente do laboratório, a Venlafaxina.

Estranhando a prescrição, Júlia perguntou:

– Rafa, você tem certeza de que esse remédio não é muito forte?

– Claro que não é sua boba, você acha mesmo que eu ia receitar algo que pudesse lhe fazer mal? Esse é um medicamento novo, que estou usando com meus pacientes, e tem apresentado ótimos resultados.

Confiando no carinho da irmã, e na competência da médica, a jovem tomou a medicação conforme indicado. Pouco depois, começou a ter fortes palpitações, dores no peito e sensação de desmaio. Questionada, a doutora disse que esses efeitos passariam em poucos dias, e que eram reações normais do organismo afetado pela ansiedade, ao medicamento.

E o dia tão esperado pelos noivos chegou. Rafaella não só acompanhou a irmã na escolha do vestido e na preparação da cerimônia, como deu de presente para o casal uma enorme tela, que tinha estampada a imagem de “La Catrina”, figura icônica da cultura mexicana, que desafia a ideia da morte como um fim, celebrando a vida e a memória dos mortos. Um símbolo de boa sorte e proteção segundo os mexicanos, disse ela aos nubentes.

No dia da cerimônia, ainda em casa e enquanto se arrumava, a moça começou a passar mal. Pensando tratar-se de outra crise de ansiedade,  chamaram Rafaella para atender a irmã, que lhe deu dois comprimidos da droga de uma só vez. Sem consciência do que estava acontecendo, restou a inocente noiva apenas tomar a medicação…

Eduardo e Rafaella agora vivem no México, para onde se mudaram logo depois do casamento. Ele trabalha com comércio internacional, e ela montou uma clínica psquiátrica na capital do país, que atende políticos e personalidades famosas da região. No hall de entrada, um grande mural ostenta a imagem de “La Catrina”.

Rasgados

Na alameda do cemitério, uma urna solitária é empurrada pelos coveiros. Desse passamento, nem mesmo os corvos quiseram participar. Em frente à cova, um padre impaciente aguardava para se desincumbir da missão sacerdotal. Com a chegada do féretro, o Cura rezou uma Ave Maria e deu por encerrado o caso, enquanto os coveiros desciam para as profundas, o corpo do maldito. No final, a mesma terra pela qual roubou e matou, seria sua última e derradeira companhia.

Antônio Cipriano era seu nome, mas gostava mesmo era de ser chamado de Delegado. O maior grileiro da região Norte, que carregava em seus ombros muita terra e cadáveres. Diziam por lá que rasgava na lâmina do facão, quem o desafiava. E assim, fez fortuna – tornando-se o homem mais rico de Santa Cruz do Norte. Sem família, nem filhos, sua única companhia eram as meninas de Dona Tereza, uma puta velha que comandava o maior rende vou da região, onde batia ponto toda noite. Diziam as moças que o encardido fazia questão de bater lá no fundo até doer, com um falo desproporcional, e que era seu motivo de maior orgulho. Até que um dia, tudo mudou.

Acabara de chegar ao bordel Leontina, uma moça jovem, faceira, mas cheia de ideias na cabeça sobre justiça e essas coisas. Não demorou nem uma Ave Maria para que Delegado fosse se deliciar do novo prato. Terminado o repasto, o homem ainda virou para a jovem em tom de mando:

– A partir de hoje você é só minha, não se deita com mais ninguém.

Como Leontina não se permitia colocar cabestro, tramou logo um plano de vingança;

Na noite seguinte, foi recebido por uma cabocla cheia de fogo. No meio do furdunço, ela ofereceu uma cachaça ao desinfeliz, que foi ficando bobo, bobo até virar um boneco sem reação. Somente os olhos mexiam.

Ainda vivo, mas sem poder reagir, foi levado para o meio da rua, onde começou a ser rasgado pelo povo que se juntou em volta, com a fúria de um chacal na carniça. A melhor parte ficou para Leontina – com uma peixeira na mão, cortou lentamente cada vaso e veia do falo do peste, que esguichava sangue em sua cara, cheia de prazer e contentamento. Já sem vida, o corpo foi deixado para os urubus, mas o grande troféu foi guardado, para ficar exposto no balcão do bar do puteiro de Dona Tereza.

O porão

Peguei a estrada, e fui para a fazenda de minha família resolver os últimos detalhes para sua venda, e encerramento do espólio. No caminho, a paisagem centenária do Vale do Café, me fez voltar no tempo, e recordar a cruel história de meus antepassados.

Meu bisavô, o Barão Antônio de Nogueira Sales e Sobreira, foi um dos portugueses mais ricos daquela região. Filho de nobres da Corte de D. João VI, veio ao Brasil em busca de aventuras, e se encantou por Dona Carolina Mendes e Sá, minha bisavó, filha da melhor burguesia brasileira. Casados, comprou a Fazenda da Boa Morte, a maior propriedade cafeeira da região, o que lhe rendeu a alcunha de Barão da Boa Morte.

Essa fazenda era famosa não só pela produção do melhor café, mas também por possuir a maior quantidade de mão-de-obra escrava do Vale. Nos seus tempos áureos, chegou a contar com mais de 500 cabeças de negros e negras de boa corpulência. Aliás, as negras sempre foram sua perdição, e motivo da maior lenda (ou maldição) que recaiu sobre minha família.

Segundo ouvia meu pai contar que seu avô, o Barão, tinha tamanho fascínio pelas escravas de seios fartos, que havia prenhado mais de 100. Mal saídas do ventre, as crianças eram levadas pelo capataz, e lançadas no Rio da Boa Morte. Todas, menos uma, a filha de Teresa, a preferida do malvado, que nascera de olhos azuis como a cor do céu, traço distintivo de minha família. Fato é que, ninguém mais soube da bebê depois de parida, se viva ou se morta. De tão revoltada, a negra morreu no açoite, praguejando e amaldiçoando o Barão, e todos que do seu sangue viessem.

Meu falecido pai, que sempre fora um ativista pela liberdade, nunca aprovou o modo de vida da família, tanto que fez fortuna por conta própria, sem se deixar envaidecer pelo sangue azul dos Sales e Sobreira, ao contrário de meus tios e primos que, coincidentemente ou não, morreram todos de maneira trágica. Então, eu era o último herdeiro vivo da linhagem do Barão da Boa Morte.

Chegando à sede, fui recebido por Justino – um velho negro que ainda cuidava do que sobrou da história daquele lugar.

– Boa tarde Justino. Como estão as coisas por aqui?

– Boa tarde, Dotô Gustavo. Vão indo como Deus qué, por que bem aqui nunca teve mermo.

As palavras do homem me fizeram perceber o quanto de ranço, e rancor, ainda existiam ali.

– Dotô, o senhor vai pernoitá por aqui? Perguntou com um ar de incômodo o empregado, enquanto abria a porta da sede.

-Pretendo não Justino, por quê?

-Nada não Dotô, só cisma de um nego véio mermo.

Ao entrar no casarão, a luz do sol que já ia caindo, coloria de laranja a sala decorada com vitrais portugueses. Estava tudo como me lembrava de criança, nas raras visitas que fazia aos meus avós. A cor escura da madeira dos móveis, dava ao lugar um tom mais sombrio ainda. Os sofás de veludo vermelho, a enorme mesa de jantar, com suas cadeiras de espaldar alto.  Os lustres gigantescos. As porcelanas da família guardadas na cristaleira. O relógio de pêndulo inglês estacionado nas nove horas. Tudo parecia congelado no tempo. Não fosse a poeira, diria que alguém ainda morava na casa.

Realmente, não pretendia ficar muito tempo naquele lugar, pois ele me dava arrepios, porém alguma coisa me puxava para dentro das histórias ali guardadas.

De repente, me recordei das brincadeiras de moleque, quando eu e meus primos corríamos de um lado para o outro, explorando cada cômodo. Então, me lembrei do porão, que ficava nos fundos da cozinha. Meus avós não gostavam de tocar nesse assunto, nem tampouco as empregadas, mas os filhos dos colonos sempre disseram que lá dentro vivia um monstro. Coisa de criança. Será? Mas era como se estivesse sendo chamado, para descobrir a verdade por trás daquela história.

Já estava escurecendo, então acendi uma lanterna, arrastei um móvel e achei o tal covil do monstro. Forcei um cadeado velho que se partiu, e abri a portinhola. Um cheiro desagradável de morte e dor queimou minhas narinas, quase me fazendo sufocar, contudo não conseguia mais voltar atrás, tinha que ir até lá embaixo.

Então, desci as escadas, e a luz branca começou a revelar o passado escuro de minha família. Em uma das paredes vejo pendurados algemas, anjinhos, gargalheiras e ferretes, certamente herança dos tempos de tortura e escravidão da Boa Morte.

Em outro canto muitos baús. Me aproximei, e abri um deles. Dentro encontrei pedaços de pano sujos.  N’um deles reconheci estampado, com algo que parecia ter sido sangue, o corpo de um bebê – um sentimento de revolta e nojo invadiu meu corpo.

-Meu Pai do Céu, será então que as histórias do Barão eram reais?

Descontrolado me virei, e o foco de luz encontrou uma cama. Cheguei perto, e sobre ela vi o que sobrou de um corpo.

Confuso, e sem conseguir raciocinar direito, senti alguém tocando meu ombro. Com o corpo gelado de medo me virei, e quando a lanterna iluminou o cômodo, gritei de pavor…

Então, tudo ficou escuro e quieto, para sempre.

Lykanthropía

Essa é mais uma daquelas estórias de interior, onde a Quaresma dos católicos ainda é cercada de lendas e invenções. De procissão de defuntos à meia-noite da Sexta-Feira Maior, até a aparição de assombrações na madrugada que antecede o sábado de Aleluia.

Num desses povoados muito beatos, existiu um tal de velho Nestor. Um homem já de idade avançada, que morava em uma tapera no Barro Preto, uma localidade deserta do vilarejo. Sem família e história, todos acreditavam que ele era louco. Só ia ao povoado, duas vezes por mês, uma delas para pegar mantimentos na venda do Anésio. Não trocava palavras, só rosnava, mas como o vendeiro já sabia o que oferecer, era dinheiro pra cá, e mantimentos pra lá.

A outra era na primeira missa, do último domingo de cada mês. Acompanhava a celebração, mas não comungava. Sempre em silêncio, acendia uma vela no velário. Mas o mais curioso era a maneira como deixava a Igreja. De costas para o Santíssimo, saía de cabeça baixa e de joelhos, com as mãos e os pés apoiados no chão, até chegar à rua.

Contam os mais antigos, que no ano em que o lugar sofreu várias tragédias – de tromba d’agua até o rompimento de barragem – no intervalo do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo até a Quaresma, na Sexta-Feira da Paixão, a cidade foi acordada com a maior gritaria:

– Acode gente, a casa do velho Nestor tá pegando fogo!

Os locais correram com balde, enxadas e pás para apagar o incêndio, mas quando chegaram só restavam cinzas. Nem sinal de corpo, ou do velho. Em sua memória, foi celebrada uma missa de corpo presente no domingo de Páscoa. Ninguém nunca mais teve notícia do homem – se vivo ou se morto.

Desde então, a cada Sexta-Feira Santa era possível escutar um uivo de lobo pelos arredores. Há quem diga ter avistado uma criatura andando ajoelhada, com as mãos e os pés apoiados no chão, exatamente como o velho fazia nas missas. Verdade? Mentira? Vai saber, na dúvida melhor fazer o sinal da cruz. Esconjuro, e que Nossa Senhora do Perpétuo Socorro nos proteja!

Capitu

Otaviano tinha acabado de morrer. Naquela sala, via as pessoas em torno do caixão – umas chorando, outras comentando o motivo de sua morte.

– Dizem que foi suicídio, mas a família quer abafar – especulava uma carpideira.

– Suicida? Eu? Essa mulher só pode estar louca.

No outro canto da capela, sua mulher parecia perdida no espaço-tempo, certamente ainda em choque pela tragédia. Na hora de fechar o caixão, ela se aproximou do corpo e não esboçou reação, nem uma lágrima.  

– Estranho isso – pensou o morto.

As pessoas começaram a sair, então ele viu um sujeito sentado em cima de uma sepultura, que lhe perguntou:

-Você não vai com eles?

-Tá falando comigo? – disse surpreso.

– Claro, você acha que é o único defunto aqui?

– Único não, mas não imaginava encontrar com outro. Você tá aqui há muito tempo?

– Ah, mais ou menos uns trinta anos.

– E morreu de quê? 

– Morte matada. E você?  Perguntou a alma penada.

– Eu? Sabe que até agora não sei? Disseram lá no velório que me matei, mas nunca faria isso. Nem teria motivos – tinha uma boa casa, condição financeira e uma mulher linda que me amava.

– Xi, então foi morte matada.

– Que isso cara, tá doido? Retrucou irritado.

-Tá bravo por quê? Se você não estava doente, não se acidentou nem se matou, é só juntar lé com cré. Qual é a última coisa de que se lembra?

– Deixa eu ver. Eu tinha acabado de almoçar. Minha mulher fez a sobremesa que eu mais gostava, depois não me recordo de mais nada.

– Tá vendo? Agora você já sabe até quem te matou.

– Não é possível? Ela me amava muito.

– A minha também. E me deu estricnina pra beber, misturada com cachaça. Aí cheguei aqui.

– Meu Deus, será que isso é possível? E porque ela faria isso?

– Dinheiro, e provavelmente com a ajuda de um amante.

– Amante? 

De repente um filme começou a passar em sua cabeça. E a figura de Roberto, seu sócio e melhor amigo. veio à tona. Os olhares dele para Silvia, sua esposa. O carinho excessivo dela com ele. Um ódio começou a subir dentro de Otaviano.

-E o que faço agora? Perguntou ao morto falante.

-Ora, se vinga dela e dele. É um direito capital seu, enquanto marido traído. Te garanto que se for até sua casa, vai encontrar os dois juntos agora.

Como que na velocidade do pensamento, ele e o alma penada chegaram em frente a uma casa muito bonita. Na garagem o carro de Silvia, e o de Roberto.

-Tá vendo? Disse o espírito de porco.

A raiva era tão grande, que ele parecia estar em chamas. Num piscar de olhos, estavam os dois dentro da sala, onde encontraram Silvia abraçada ao sócio, que acariciava seus cabelos, enquanto ela chorava.

– Desgraçados. Como puderam fazer isso comigo? Disse inconformado.

– Calma, Silvia, vai ficar tudo bem agora. Tranquilizava o amigo urso.

– E agora Roberto? Como vou viver com essa culpa? Resmungava a viúva traiçoeira.

– Você fez tudo o que podia fazer. Ninguém vai te cobrar nada. Consolava o descarado.

– Basta! Não quero ouvir mais nada. Como faço para acabar com os dois? Bradou o transtornado falecido.

-Mata eles ué? Respondeu o fantasma.

-Mas como faço isso se estou morto, porra?

-Você é burro ou o quê? Acha que morto não faz estrago? Tá vendo aquela vela acesa ali no oratório? Derruba ela.

E assim foi feito. A vela caiu e o fogo tomou conta do cômodo. Silvia e Roberto se abraçaram assustados, enquanto o sócio tentava proteger a viúva.

-Agora trava as janelas e as portas. Ordenou o secretário do Belzebu.

E assim foi feito. As chamas consumiram o casal, que queimou junto um do outro.

-Morram desgraçados. Tô aqui no inferno esperando vocês! Gritava Otaviano, enquanto gargalhava de satisfação.

Sobre a mesa da sala, um atestado de óbito em brasa indicava a causa mortis– Acidente Vascular Cerebral.

Síndrome de Cinderela

Giovanna foi um bebê muito esperado, e desejado. Cláudio e Patrícia, seus pais, tentaram por três vezes, até que finalmente deu certo.

Ela era uma criança linda, parecia saída de um conto de fadas. A pele branca como as nuvens, contrastava com os olhos azuis turquesa, e a boca vermelha como um rubi. Seus cabelos de tão loiros, pareciam fios de ouro – uma bebê perfeita.

Até que, com 30 dias, uma anomalia no coração a levou de volta ao hospital. Ficou internada por dois meses, até que uma junta médica, formada especialmente para cuidar de seu caso, deu o diagnóstico. Giovanna sofria de uma doença muito rara, causada por uma alteração cromossômica, que atinge um indivíduo por milhão, e faz com que o coração tenha um prazo determinado de funcionamento. Atingido esse limite, simplesmente para de bater. Por conta disso, a doença foi denominada Síndrome de Cinderela. No caso da pequena, os médicos estimaram em 15 anos, seu tempo máximo de vida.

Aquela notícia abalou profundamente a família, que quase sucumbiu ao desespero. Mas por muito amor à sua princesa, decidiram que fariam de tudo para que ela fosse feliz, enquanto tivesse vida. E assim aconteceu. 

A menina cresceu saudável, apesar da Síndrome, e foi cercada de muito amor. Giovanna era linda, doce e parecia ter o poder de encantar a todos. Na escola, cativou professores e colegas, desde o infantil até o fundamental, mas então chegou a data tão temida.

Perto de completar 15 anos, a garota escolheu Cinderela como tema de sua festa de debutante. Tudo foi feito do jeito que ela pediu. Na noite do baile estava linda, parecia realmente uma princesa. Bailou com seu pai e seus amigos, e parecia flutuar no salão . Quando o relógio bateu meia noite, a menina se transformou em moça, e dançou sua última valsa. 

Naquela noite, após comemorar sua décima quinta primavera, Giovanna foi dormir, para nunca mais acordar.

O livro vermelho

A família Vaz Bragança era tradicional na região de Bocaina de Baixo, trecho histórico da Estrada Real. De origem portuguesa, teve entre seus próceres o Barão do Arresto, dono da maioria das terras do lugar, e colecionador de histórias, nem todas dignas de lembrança.  

Com a morte de seu último herdeiro, Antonio Vaz Bragança Neto, um octogenário sem filhos, foi indicado um interventor para cuidar do espólio, e atender aos termos testamentais, previamente definidos.

Para essa função foi indicado Marcelo Gonzaga, um jovem advogado que assumia pela primeira vez uma função como essa, dentro do escritório. Ao chegar na fazenda do Barrete, tratou de procurar o encarregado, para ter acesso ao imóvel, e começar seu trabalho.

-Bom dia, onde acho o Seu João?

-Dia moço, sou eu mermo. O Dotor deve ser o homi que veio resôver as coisa aqui.

-Sim, seu João. Me chamo Marcelo e serei o interventor que cuidará do espólio da família. O senhor pode me levar até a Sede? Ainda é possível pernoitar por lá? Vi que aqui é distante da cidade, e não gostaria de pegar essa estrada de noite.

-Oia Dotor, pode o sinhô pode, mais num acho boa ideia.

-Por que Seu João? A casa é assombrada? respondeu com ar de deboche.

-Sei não Dotor, só falei por falá. Vô abri a casa pro sinhô, Tá tudo arrumado lá.

Ao entrar no casarão Marcelo ficou boquiaberto. O lugar era ricamente decorado, e parecia congelado no tempo. Tudo estava arrumado, como se ainda houvesse vida ali. No canto da sala, dentro de um altar, ladeado por dois enormes anjos, um grande livro vermelho. Pensando se tratar de uma bíblia, perguntou ao homem.

-Seu João é a primeira vez que vejo uma bíblia tão grande  assim.

-Num é bíblia não sinhô, e é meior não buli ali não.

-Por quê? Perguntou o advogado.

-Coisa de gente antiga Dotô. Oia, esse aqui é o quarto do Sinhô. Agora licença que tenho que recoiê o gado.

– Está bem Seu João. Qualquer coisa lhe chamo.

Quando o homem saiu, Marcelo começou a andar por dentro do imóvel que era enorme. Ao entrar em um dos banheiros, reparou a torneira da pia entreaberta pingando, e a tolha de rosto molhada – estranho, pensou ele.

Sentou na enorme mesa de jantar, abriu sua pasta, e começou a analisar a documentação do espólio, para ter exata noção do tamanho do problema. 

Sem que desse conta, já estava entardecendo. O sol mortiço atravessando os vitrais da janela, coloriram o ambiente, transformando totalmente o clima. De repente, tudo começou a ficar sombrio. Se levantou, e acendeu todas as luzes, para  diminuir a sensação incômoda.

Sentou novamente na mesa, e continuou seu trabalho. Foi quando ouviu um barulho vindo da cozinha, como se alguém estivesse preparando algo – mas como seria possível se estava sozinho ali?  Se levantou, e foi ver o que estava acontecendo.

Chegando na porta, quase caiu para trás. O lugar estava cheio de vida, e de gente. Mulheres vestidas como as antigas negras das cozinhas, senhoras trajadas finamente  como em tempos passados. Entrou no cômodo, mas elas continuaram seus afazeres, como se ele não estivesse ali. De repente, um homem vestindo casaca, colete, calça e botas, entra no cômodo e pergunta:

-E então mulher? Está tudo pronto para a ceia de hoje?

-Sim meu Barão, da forma que o senhor aprecia.

-Negrinha, dê-me um gole de vinho.

-Tá bom Sinhô, respondeu uma serviçal acabrunhada.

Sem entender, voltou para a sala, e quase desmaiou de susto. O lugar antes vazio, agora estava repleto de homens e mulheres. Sentados à mesa, nos sofás, como se estivessem esperando algo. Foi quando o Barão entrou, e foi em direção ao livro vermelho.

-Caros confrades. Como fazemos há duzentos anos ininterruptamente, a confraria do Livro Vermelho se reúne para honrar a memória de nosso deus Balor. Antes de servirmos a ceia, passemos ao sacrifício memorial. Guardiães, tragam o convidado.

De repente, os anjos tomaram vida, e foram em sua direção. Sem que tivesse tempo de correr, o pegaram pelos braços, e colocaram diante do altar.

-Que isso? O que está acontecendo aqui? disse o homem assustado.

-Cale-se! Ordenou o Barão.

-Oh, grande Balor. Tu que és o grande líder dos Fomorianos, onipotente e poderoso, e guarda nossas almas pela eternidade, receba essa oferenda como prova de nossa devoção.

Então, o livro se abriu, e de dentro saiu uma grande labareda. Foi quando os anjos lançaram o homem dentro das chamas, que se apagaram em seguida, e ele se fechou.

Quando amanheceu no dia seguinte, Seu João entrou na sede em silêncio. Do advogado? Nem sinal. O empregado fechou a porta, e saiu sem olhar para trás, nem dizer uma palavra sequer. 

Junho

João foi dormir muito chateado naqueles dias. Tudo porque tinham dito pra ele que a Festa em sua honra não iria acontecer, por conta de uma tal epidemia de Covid-19.

 – Ara, pensou ele muito desgostoso. Que raio de doença é essa? Cumo é que as criança vão dança quadrilha, pula fogueira, solta estalinho e subi no pau-de-sebo, se elas tão tudo trancada dentro das casa?

Manoel, reconhecido por ser muito paciente, vendo João tão desconsolado, resolveu recorrer a Pedro, o homem de confiança do pescador, em busca de uma solução.

– Pedro, o João tá muito aborrecido com essa história de não ter Festa. O que você pode fazer pra ajudar o meu amigo?

Pedro parou, pensou um instante, e logo deu a sentença.

– Tome aqui meu caro. Junte a molecada e mande espalhar esse remédio dentro das caixas d’água, e assim todo mundo vai poder comemorar junto de novo.

Intrigado, Manoel pergunta ao sabido homem:

– Mais que remédio é esse que você arrumou, que faz tanto milagre assim?

Pedro então responde com toda a segurança que lhe era peculiar:

– O nome dele é vacina, meu amigo resignado.

O mandado foi cumprido. Todas as casas tomaram daquela água santa, e assim aconteceu em Campina Grande o maior arraial de todos os tempos, em honra a São João, São Pedro e São Manoel.

Maio

Gracinha era uma moça recatada, e muito religiosa. Ela e Carlos Augusto se conheceram ainda crianças, e o namoro começou aos quatorze anos. De lá para cá, quinze longos anos se passaram – entre namoro e noivado, mas, finalmente, no dia treze de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima – sua madrinha de consagração – seu grande sonho se realizaria, tornar-se esposa do único homem que amou em toda sua vida.

Muito prendada, bordou cada peça do seu enxoval com as iniciais do casal – G&G – dos panos de prato da cozinha, até as fronhas dos travesseiros, não se esquecendo das tolhas de banho e de rosto que ela e o futuro marido usariam. Quanto ao vestido, esse tem história – foi feito à mão pela sua avó Tereza, especialmente para o matrimônio de sua mãe Jorgina. Como era a primeira filha de quatro a se casar, ficou para ela o privilégio de usar a peça feita exclusivamente para sua mãe.

Professora por formação, sempre gostou de crianças, por isso mesmo dava aulas na zona rural da cidade, onde também era catequista na paróquia de Nossa Senhora de Lourdes. Contudo, já havia prometido ao noivo que, tão logo se casassem, largaria o emprego para cuidar apenas da casa, do marido e dos filhos que aguardava Deus lhes mandasse, com ansiedade.

Moça casta e virgem, orgulhava-se em dizer que só havia beijado um homem em sua vida – Carlos Augusto – com o qual nunca mantivera nenhum um tipo de intimidades, que não fossem aquelas próprias de um casal de namorados – mãos dadas, abraços respeitosos e beijos sem indecências. Aliás, de fato, ele nunca a havia tocado em parte alguma do corpo, nem tampouco nunca ficaram a sós. Nas viagens, ou nos encontros para o namoro, sempre havia alguém da sua família – mãe ou irmãs, ou então o Beto – primo de Carlos Augusto e seu quase irmão – que foram criados juntos, e juntos sempre estavam.

Aquele foi um início de ano muito agitado. A família havia combinado de viajar para a praia no Réveillon, mas como o pai de Gracinha adoecera, e as irmãs haviam desistido do passeio, foram apenas ela e Carlos Augusto, e o Beto, já que o apartamento estava alugado, e não havia como cancelar o negócio. Além disso, essa seria a última virada de ano em que passariam solteiros, por isso era importante não perder a oportunidade. Dormiram no mesmo quarto, seu noivo e o primo, e no outro dormiu ela, sozinha.

No dia 30 de dezembro, véspera do Ano Novo, enquanto caminhavam pela praia, Carlos Augusto cortou o pé em um caco de vidro na areia. Como estava sangrando muito, Beto o levou a um pronto socorro, e Gracinha retornou para o apartamento, preocupada com o noivo.

Quando chegaram, ela levou um baita susto – o corte tinha sido mais profundo do que parecia, e o rapaz teve que levar quinze pontos, ficando com o pé todo enfaixado. Por conta disso, não poderia tomar banho sozinho, mas o primo Beto, sempre muito cuidadoso, logo se apressou em assumir a função de ajudá-lo com a higiene pessoal.

– Pode deixar Gracinha que eu cuido do Guto pra você. Prontificou-se o solícito parente.

A virada de ano, e os fogos na praia, acompanharam da sacada do apartamento, já que o rapaz não poderia colocar o pé na areia – ela, Carlos Augusto e o primo.

De volta à cidade, e com o noivo recuperado, a vida retomou seu curso. Gracinha esmerando-se nos preparativos para o matrimônio, enquanto Beto e Carlos Augusto se encarregavam de cuidar da reforma, e da compra dos móveis da futura casa dos noivos. Pela primeira vez, em quinze anos, surgiu em sua cabeça uma sombra de dúvida e, perguntou ao noivo intrigada:

– Carlos Augusto, posso te perguntar uma coisa?

– Pergunta, o que você quer? Responde o noivo desinteressado.

– Porque é que o Beto está te ajudando a escolher as coisas da nossa casa? Isso quem tinha que fazer não era eu e você?

– Ah, é isso? Deixa de bobagem Gracinha. O Beto tem muito mais bom gosto do que você, além disso é meu padrinho de casamento, ou será que você já se esqueceu disso?

Sem jeito, a moça responde:

– Desculpa meu amor, não perguntei por mal. Eu sei que você confia muito nele, não vou te incomodar com isso mais, tá?

Na verdade, a relação de proximidade entre os primos já tinha sido notada até mesmo na Igreja. Aos domingos, quando iam à missa das nove, sentavam num banco a Gracinha com suas irmãs, e no banco da frente Carlos Augusto e o primo. Sempre que alguém maldava tal comportamento, a moça respondia brava:

– Deixa de bobagem, o Carlos Augusto é muito religioso e respeitador, por isso não se senta perto de mim e de minhas irmãs. Quanto ao Beto, eles são quase irmãos!

O mês de março era muito especial, afinal, no dia dez seu amado completaria 30 anos. Toda cuidadosa e prendada, a moça organizou uma festa surpresa – fez todos os doces e salgados que ele mais gostava, e encomendou um bolo com o tema do time do coração do nubente. No dia da festa estavam presentes os familiares, amigos e o Beto. Quando o rapaz chegou, não deu muita atenção para Gracinha, e foi logo tratando de ir comentar com o primo o tema do bolo – já que os dois torciam para o mesmo time.

Na hora dos parabéns, outra decepção.

– Para quem vai o primeiro pedaço? Perguntaram os parentes e amigos.

– Olha, o primeiro pedaço de bolo vai para a pessoa que está sempre ao meu lado, me ajudando em tudo que preciso!

Os olhos de Gracinha brilharam, e então veio a surpresa.

– O primeiro pedaço é pra você, Beto!

Muito desconcertada, ela tentava se convencer – é, eles são quase irmãos, foram criados juntos – enquanto os primos se abraçavam efusivamente.

E finalmente chegou a semana do casamento. Seu coração estava aos pulos, não se aguentando de tanta ansiedade, afinal foram quinze anos de expectativa e preparativos – ela agora se tornaria esposa do homem da sua vida. Na véspera, tornara-se oficialmente senhora Passos, sobrenome do marido que passou a assinar no registro civil. A cerimônia foi rápida, e com poucos parentes. Como sua testemunha, assinou sua irmã mais nova, e pelo lado de seu noivo – agora marido – o primo.

No dia seguinte, mal o sol nasceu, ela já estava de pé. Afinal, tinha que ir à Igreja acompanhar com as irmãs a decoração do espaço, confirmar com os músicos a sequência das músicas, e com o cerimonial a ordem de entrada das damas, pajens e dos padrinhos. Ao meio-dia era hora de cuidar da sua beleza, para que estivesse linda, e perfeita, para encontrar o seu marido no altar, às sete da noite.  

Então, o grande momento chegou. Muito emocionada viu seu pai com os olhos marejados, acompanhá-la até o altar, enquanto a Igreja lotada comentava a beleza, e a história do seu vestido. Carlos Augusto a recebeu das mãos do sogro, com um beijo na testa, enquanto o Padre iniciava a celebração.

Durante sua homilia, o pároco falava sobre a importância da confiança e da lealdade entre um casal, e que esse era o segredo para uma vida feliz, e harmoniosa. Como de costume, antes da benção das alianças, o celebrante fez a tradicional pergunta à assembleia:

– Se existe alguém aqui presente, que tenha algo que possa impedir essa união, que fale agora, ou se cale para sempre!

O minuto de silêncio foi quebrado, abruptamente, por um grito de Beto:

– Espera Guto! Você não pode fazer isso com a gente. Eu te amo, você não pode casar com essa mulher aí!

Atônitos, todos ficaram boquiabertos com aquela declaração. Quase sem cor, ela vira para o rapaz e pergunta:

– Que história é essa?

Num rompante de paixão, Carlos Augusto apenas olhou para a agora ex-noiva, deu de costas para todo mundo, e saiu correndo de mãos dadas com o primo Igreja afora, enquanto os convidados – entre risos e choro – acompanhavam aquela cena patética de novela.

Sozinha em frente ao Padre, a moça parecia perdida em suas lembranças, como se revisitasse cada situação em que havia desconfiado daqueles dois, mas preferiu se enganar, por achar que era tudo coisa da sua cabeça, ou maldade dos invejosos.

Ainda com o buquê nas mãos, desceu do altar e seguiu sozinha em um cortejo sinistro rumo ao desconhecido, enquanto a cidade inteira comentava o caso, da noiva trocada pelo primo do marido na hora do casamento. Ainda dentro da Igreja, seu pai brigava com os pais de Carlos Augusto, e sua mãe em – síncope – era acudida pelas irmãs.

Carlos Augusto e Beto não foram mais vistos na cidade. Segundo as fofoqueiras de plantão, eles mudaram para o Uruguai, onde se casaram e estavam em processo de adoção, aguardando a chegada de um casal de irmãos órfãos da guerra, vindos da África.

Quanto à Gracinha? Ela virou lenda e motivo de deboche por toda a cidade, afinal, como não percebeu que seu namorado, e noivo, era gay? Nunca se tocaram, ele nunca demonstrou carinho e ainda tinha o Beto – que sempre foi uma sombra na vida dos dois. Dizem que depois do vexame na Igreja, ela saiu como que catatônica, ainda vestida de noiva e com o buquê, em direção à estrada. Ainda hoje há quem diga que é possível avistar à noite, caminhando lentamente no acostamento, uma mulher vestida de branco, como se estivesse indo em direção ao altar. Surgiu daí, a lenda da Noiva Andarilha.

Abril

Toni Figurinha era um sujeito esperto! Malandro por natureza, a vida lhe ensinou a dar nó em pingo d’água, não por menos conseguiu sair de uma infância muito humilde à condição de dono do laticínio da cidade, mesmo sem ter uma vaca sequer, e muito menos pasto.

Grota Grande era uma típica cidadela do interior, onde o tempo ainda era marcado pelo sino da Igreja, e a população – sem pressa – não se preocupava com inflação, guerras ou doenças. Dinheiro pegava emprestado com o Seu Biju, dono do açougue.

A única guerra que conheciam era a que acontecia na época da eleição, quando os dois partidos da cidade, literalmente, brigavam em praça pública, disputando voto a voto as cadeiras da Cãmara, e a Prefeitura.

Das doenças, quem tratava era o Doutor Benevides, um médico septagenário que fez nascer mais da metade dos moradores. Ele cuidava dos problemas do pai, da mãe e dos filhos – dizem que até dente já tinha extraído para aliviar um banguelo encariado.

E foi nesse ambiente que se criou nosso amigo, com pouco estudo, mas muita maestria para os negócios, nem sempre lícitos. Tanto assim que enricou, tornando-se uma das personalidades mais famosas da sociedade grotagrandense, o que lhe rendeu a alcunha de Toni Figurinha.

Um dia, vendo a movimentação da política na cidade decidiu que queria se tornar Prefeito. Então, durante uma prosa com Cardosinho, Presidente do Partido Conservador, definiu:

– Olha Cardosinho, se você me apoiar na próxima eleição todo mundo sai ganhando. Me comprometo a te passar, no primeiro dia de empossado, a licitação do transporte escolar, assim você vai poder colocar seus ônibus pra levar a molecada.

Cardosinho, na verdade, era Antônio Cardoso Neto, filho e neto de uma das famílias mais tradicionais da cidade, que fazendeiros falidos, fizeram dinheiro na área de transporte – primeiro de carga – e por último de passageiros, já que eram os donos da única viação do lugar. Seu irmão foi Prefeito, mas perdeu a última eleição para o Louzada, presidente do Partido Progressista, e atual Chefe do Executivo. Uma família e outra conservam uma rixa na política, que já dura para lá de 50 anos.

– Toni, gostei da sua proposta – respondeu Cardosinho. Mas você sabe que eleição aqui a gente não ganha só com a cédula depositada na urna, se não comparecer com a outra “cédula”, nem pra Vereador você se elege.

– Tá de brincadeira né, Cardosinho. Acha que eu nasci ontem? Tá tudo resolvido, e os maços já separados. Só preciso saber se você tá comigo.

– Mas tem um problema que a gente tem que resolver oh, Toni. O Paulão, Presidente da Câmara, é o maior traíra. Por culpa desse safado que meu irmão perdeu a última. Só que gosta de pagar de honesto. Como você vai fazer pra puxar os votos dele? E olha que são muitos!

– Pode ficar tranquilo que do Paulão eu dou conta. Já mandei vir um sujeito da capital, que vai fazer uns serviços pra mim. Mas e então, trato feito? No fio do bigode?

– Tamo acertado então, Toni. Do que depender de mim, e do Partido, você já tá eleito.

Uma cusparada na mão, e os dois acertaram a tramoia.

Na semana seguinte, chegou na cidade o tal sujeito vindo da capital. Era o Cabo Ferreira, um PM aposentado que prestava serviços como investigador e, quando necessário, até como despachante – despachando para os sete palmos, os desafetos de seus contratantes.

– E então Ferreira, tá pronto pra fazer o combinado? Perguntou Toni Figurinha.

– Sempre pronto e disposto, só me dizer o dia e a hora da tocaia. Respondeu o celerado.

– Então, o negócio é o seguinte. Toda sexta-feira o Paulão sai da Câmara, depois do almoço, e desce pro Sítio, pra encontrar com a amante. Eu quero que você faça desse jeito…

Na encolha, o aprendiz de político passa para para o mau elemento os detalhes do esquema sórdido, e fica acertado que na próxima sexta-feira, a demanda seria resolvida.

Enquanto isso, na casa do Prefeito, uma outra reunião sigilosa acontecia.

– E então Paulão, tamo junto ou não tamo? Perguntou nervoso o Louzada.

– Na última eleição eu combinei com você que os votos lá do Passaredo e da Matinha seriam todos meus, paguei – e bem – pelo serviço, e você me deixou na mão. Por pouco não perco pros merdas dos Cardosinho.

– Deixa de choro Louzada. Você foi eleito não foi? Agora esse povo é igual boi no pasto, por mais que você feche a porteira, um ou outro acaba estourando a cerca. Mas dessa vez, não vai ter erro não. Descobri quais foram os bois fujões, e já acertei o passo deles. Sua reeleição tá garantida.

– Se você me deixar na mão, de novo, você sabe que vai ter volta, não sabe?

– Deixa disso, homem. Já falei que tá tudo amarrado.

E aquele conluio termina em clima de tensão e ameaça. Paulão volta para a Câmara, e Louzada segue em viagem para uma reunião com um Deputado na capital.

Sexta-feira, depois do almoço, como de costume, o Presidente da Câmara pega o carro e desce para o Sítio. Chegando na propriedade, já era aguardado por uma fogosa companhia – deitada e nua em sua cama. Era Thereza de Albuquerque, mulher do Juiz da Comarca. O relacionamento extraconjugal já era mantido há mais de 7 anos.

Thereza era uma moça jovem e bonita. Terceira esposa do Dr. Caldeira, Juiz de Direito, que tinha fama de legalista, e amante da moral e dos bons costumes. Sessentão, se apaixonou por sua secretária, com quem se juntou, deixando para trás um casamento de mais de 20 anos. Dizem as más línguas da cidade, que o relacionamento era só de fachada, já que o notável Juiz não proclamava “uma sentença sequer” há muito tempo.

– Oh meu amorzinho, seu tchutchuco chegou, disse o empolgado Presidente do Legislativo Municipal.

– Então vem meu homem, me cobre igual seus bois cobrem as vacas no pasto. Disse a doidivana entumecida.

Começa o vuco vuco, entre gritos, tapas e gemidos. Sem que percebam, acompanhando toda a esbórnia, estava o Cabo Ferreira, que filmava e fotografava todo o coito, tendo o cuidado de garantir close ups nos amantes, de maneira a não restar dúvida quanto à materialidade da traição. Findo o serviço, o investigador retorna à cidade para prestar contas ao contratante.

– E aí, fez o que mandei? Pergunta o dono do Laticínio.

– Seu Toni. Comigo não tem serviço furado. Tá tudo aqui nesse cartão de memória. Foto e vídeo. Em detalhes, e com minúcias. Disse o eficiente investigador.

– Mas não tem chance de ele alegar que o vídeo foi adulterado? Pergunta o desconfiado aspirante a político.

– Olha só, Doutor. Eu tenho 25 anos de Polícia, e 15 de investigador. Só faltou tirar a impressão digital dos dois, tem foto de longe, de perto. Tem vídeo onde um fala o nome do outro, e inclusive cita literalmente o corno manso. Tá bom assim pro Senhor?

– Melhor impossível. Já depositei o resto do seu dinheiro. Agora some daqui.

E chegou a eleição. A cidade toda se cobriu de azul – cor do Partido Conservador, e vermelho – cor do Partido Progressista. Nas esquinas, no armazém e nos botequins não havia outro assunto – a entrada de Toni Figurinha na política, disputando a vaga de Prefeito com o Louzada.

No Paço Municipal, Louzada e sua equipe davam como certa a vitória, afinal tinham a máquina nas mãos, os votos no bolso e o Toni, ah, o Toni? Era só um malandro que se deu bem na vida, que não entendia nada do riscado, e resolveu se aventurar. Ia perder vergonhosamente, segundo os apoiadores do Prefeito.

Mas na Política, assim como na vida, nada é definitivo. Na semana que antecedia a votação, Toni marca uma audiência na Câmara com o Paulão, que, inocente na história, o recebe entre abraços e sorrisos.

– Ora ora, que prazer receber figura tão ilustre. Rapaz empreendedor, de sucesso que leva o nome de nossa cidade para além das divisas com o seu Laticínio. Saúda o pernóstico edil.

– Em que posso ajudá-lo meu querido? Completa, convidando Toni a sentar.

– Como vai meu nobre Presidente? Eu é quem me sinto honrado de estar em sua presença. Homem sério de nossa cidade, honesto e incorruptível. Mas na verdade hoje sou eu que vou lhe ajudar. Antecipa o espertalhão.

– Me ajudar? Como assim? Pergunta o desconfiado político.

– Olha só meu querido, você sabe que eu decidi entrar na política, mas sou novo, sem experiência e preciso aprender muito com autoridades como você. E pela minha pouca prática nesse ramo, que queria te perguntar, como faço para encaminhar esse material, que deixaram na porta da minha casa. E mostra no celular, o vídeo gravado por Ferreira.

O homem de mulato que era, ficou transparente, e caiu para trás na cadeira.

– E tem mais, tem até foto. Dando sequência ao show de horrores.

– E o que você quer em troca desse material? Pergunta o emparedado.

– O que eu quero? Nada meu amigo, estou só dividindo com você uma preocupação. Imagina se isso cai nas mãos de algum adversário político seu? Dos Cardosinho, por exemplo? Fala em tom de deboche.

-Tá bom, já entendi o recado. Agora sai da minha frente. Fala exaltado o pobre amante descoberto em ato libidinoso.

– Foi um prazer falar com você, Paulão. Nos vemos na Posse. E sai confiante na vitória.

De fato, a vitória veio sim, e foi retumbante. Até mesmo no Passaredo e na Matinha, os votos foram todos dele. Ao final da apuração, enquanto os Cardosinho e o novo Prefeito comemoravam, Louzada transtornado batia boca com Paulão, que tentava justificar o injustificável.

Na solenidade de Posse, Toni Figurinha, Prefeito eleito e empossado, proferiu seu discurso da vitória:

–  Meu povo de Grota Grande. Um homem que veio de baixo como eu, que passou fome, mas nunca perdeu a vontade de vencer na vida, que construiu um dos maiores Laticínios da região, e que emprega tanta gente dessa cidade bonita, quando que um homem como esse, poderia imaginar que, um dia, seria Prefeito? Nem nos meus melhores sonhos.

Hoje vocês me deram um voto de confiança, depositando nas urnas meu nome, em uma eleição transparente e limpa. Minha obrigação, então, é retribuir com muito trabalho essa oportunidade. E garanto! Grota Grande nunca mais será a mesma!

Quero também parabenizar o ex-Prefeito, o Louzada, pela disputa limpa, sem corrupção ou compra de votos, como tem que ser a política. Louzada, tamo junto!

Também não posso deixar de enaltecer o trabalho do nosso Presidente da Câmara, reeleito para mais um mandato, que tanto tem feito por nossa gente. Esse aqui é um homem íntegro, honesto, defensor da família e dos bons costumes. Te admiro muito, Paulão.

Por fim, quero agradecer minha família, aos amigos que me apoiaram e a você eleitor, que está me ajudando a realizar um sonho.

– Viva Grota Grande! Viva a Democracia!

O curioso dessa história é que a posse do novo Prefeito se deu em abril, no dia primeiro, data muito significativa do calendário, por ser reconhecida como o Dia da Mentira. Assim, nenhum eleitor poderá alegar no futuro, que foi enganado. Coisas de cidade do interior, tal como Grota Grande, onde ainda hoje as eleições são definidas através da “cédula” …