Oxímoro

Maria Beatriz e Izabel eram como água para vinho. A primeira meiga, transparente, muito aplicada nos estudos. Já a segunda, era atrevida, dissimulada e preguiçosa, principalmente quando o assunto era escola.

Cursando o segundo ano do ensino médio, a amizade já existia desde o infantil. De gênios opostos, mas sempre próximas, uma não desgrudava da outra.

Ocorre que algo mudou, com a chegada da adolescência. Não na personalidade, mas sim na sensualidade. Apesar de ambas terem experimentado namoricos infantis, nem uma nem outra havia firmado compromisso com moleque algum, e olha que Maria era uma linda morena cor de jambo, e Izabel uma ruiva de olhos verdes.

No baile de formatura, já com a turma tratando a relação das duas como namoro, Bel – a mais atirada – roubou um beijo de novela de Bia, no meio de todo mundo no salão. Ao contrário do que a maioria pensaria, as famílias aceitaram com naturalidade o relacionamento, até porque era evidente para todos (menos para elas) que havia muito mais do que amizade ali.

Os anos se passaram, Maria Beatriz se formou médica pediatra, e Izabel promotora de justiça. Casadas de pouco, decidiram buscar a fertilização fora do país, onde Bia seria a responsável pela gestação, e o óvulo seria retirado da companheira.

A boa, mas agitada relação das duas, só serviu para comprovar que se água e vinho não se misturam, podem se harmonizar perfeitamente. Isso porque um bom gole de tinto seco, pede a companhia de um generoso copo d’água, para limpar as papilas gustativas, salientando os sabores e aromas da relação, bem como para evitar a ressaca da rotina, no dia seguinte.

Resiliência

Dizem por aí que o brasileiro não desiste nunca, mesmo quando a vida insiste em lhe tirar o chão, e a vontade de continuar tentando.

Essa é a história de Osmar, um cara nota 1000. Gentil com todos, trabalhador esforçado que nunca fugiu da luta. Apesar de tudo isso, a vida nunca foi fácil. No meio do caminho sempre tinha uma pedra, que resignadamente lascava, até que ela se quebrasse. Nunca perdeu a paciência, nunca brigou, nem tampouco resmungou.

Até que um dia, seus esforços foram divinamente recompensados. A deusa da Fortuna lhe abençoou com um caminho dourado, deixando para trás os infortúnios e dificuldades. Mas não é que vieram lhe derrubar, roubar, difamar e até debochar, só porque o pobre homem havia se tornado alguém importante?

Calmo e paciente como sempre, foi até sua casa, abriu o guarda-roupas, pegou o estojo, tirou a pistola, carregou o pente, colocou na arma e saiu. No caminho passou de porta em porta, quebrando as pedras que haviam surgido na base do tiro. No final, parou na delegacia, entregou a pistola, pegou a chave da cela, trancou por dentro e jogou pela janela, deitou no chão, e sorriu. Finalmente, tudo estava dando certo em sua vida.

O hotel São Bernardo

Nunca gostei de passar por aquela rua pois sentia calafrios, e olha que isso acontecia todos os dias – era o meu trajeto saindo da faculdade, até o ponto de ônibus para casa. Devia ter mudado de faculdade, de ônibus ou até de endereço  enquanto tive chance.

Uma rua escura, mal iluminada, com prédios antigos, e dentre eles se destacava o Hotel São Bernardo – uma edificação centenária que, apesar de restaurada, ainda guardava um ar sombrio, e muitas histórias de fantasmas. A recepção escura, com seu mobiliário antigo aumentava essa sensação. Mesmo assim, continuava funcionando, e recebendo hóspedes.

Certa noite, caía uma garoa fina, fazia muito frio, e a rua estava deserta. Quando passo em frente à porta do São Bernardo, uma garotinha vem correndo lá de dentro, pedindo ajuda.

-Socorro, socorro!

-Que foi menina? O que aconteceu?

-Moça, moça me ajuda. Minha mãe está passando mal lá em cima.

-Ta bom meu amor, mas pede ajuda a alguém do hotel

-Não tem ninguém aqui, nós estamos sozinhas, me ajuda moça.

Sem ter como resistir, peguei a menina pela mão e fui em direção ao elevador.

-Em qual quarto vocês estão?

-No 506.

-Apertei o botão, a porta se fechou e só aí me dei conta de que era um daqueles elevadores antigos, que pareciam mais uma gaiola. Pensei comigo: ai meu Deus, tomara que isso não trave!

Chegando no andar, a garotinha saiu me puxando. A porta do quarto estava aberta. Fomos entrando, e vejo uma moça sobre a cama cheia de sangue, já sem vida, com o pescoço degolado.

-O que aconteceu aqui? Me viro assustada para perguntar a garotinha.

Nisso, a porta se fecha, e tudo fica escuro.

-Menina, cadê você?

Uma voz rouca e sombria responde.

-Aqui agora, somente eu e você!

-Quem está aí?

Num instante a luz se acende de novo, e vejo um homem todo de preto, com unhas grandes como garras, olhos vermelhos e uma faca nas mãos..

Antes que eu tivesse tempo de gritar, ele pulou em cima de mim, cortou meu pescoço, e o sangue começou a jorrar pelo chão do quarto do Hotel São Bernardo.

A sombra

Pedro havia nascido com um terrível estigma, em uma família cristã, mas conservadora e extremamente radical. Logo que começou a pronunciar as primeiras palavras, falou sobre uma sombra, que aparecia todas as noites em seu quarto.

Coisa de criança, daqui a pouco essas bobagens passam, diziam os pais. Só que isso não aconteceu, pelo contrário. Ao invés de uma, agora eram várias sombras, que o.menino enxergava a todo momento – de manhã, de tarde e de noite, em todo lugar.

Quando ingressou na escola, tudo piorou. Arredio e desconfiado, quando os colegas souberam de seu “problema* o apelidaram de “Senhor Estranho”. E o bullying nunca mais parou 

Já adolescente e rebelde revoltou-se com os pais e com a religião, já que ninguém acreditava no que ele dizia. Depois de uma violenta discussão em casa, foi excomungado pelo próprio pai. Aquilo foi a gota d’água.

Decidido a por fim àquele tormento, foi para o banheiro com a lâmina nas mãos, e enquanto enchia a banheira, as sombras apareceram novamente, lhe dizendo:

-Viemos te buscar Pedro, está pronto?

Sem dizer uma palavra sequer, apenas consentiu com a cabeça.

Pela primeira vez, o jovem sentiu-se acolhido. Não era mais o diferente, não era mais o maluco, nem tampouco o “Senhor Estranho”. Agora, ele também era uma sombra.

O capoeira

Todas as noites quando voltava da escola, o ônibus deixava Juliana na porteira da fazenda, e até chegar à sede era um bom chão, de escuro e medo. Nascida e criada no lugar, a menina já conhecia todas as lendas e histórias da região.

A fazenda do Mato Adentro havia sido uma grande propriedade cafeeira, mas desses tempos só restaram as ruínas da senzala, e a sede centenária.

E era justamente da senzala que vinham as histórias de assombração. Os mais velhos contavam que a alma do Capitão do Mato, havia ficado presa ali, por conta das suas maldades cometidas.

Naquela noite, a lua estava minguante, o que tornava o lugar ainda mais sombrio e assustador. A garota sempre passava ali no galope, mas nesse dia tropeçou num buraco e acabou caindo no chão. Com a força do tombo, perdeu os sentidos, e quando abriu os olhos, viu um homem de chapéu branco, olhos vermelhos como fogo, com um chicote na mão. Da sua boca saía uma risada diabólica.

Quando o Capitão levantou o chicote para bater, ela começou a ouvir uma cantoria, vindo de dentro da senzala.  Então, um capoeira veio rodopiando, e deu um rabo de arraia no malvado, que caiu no chão.

Foi o tempo necessário para ela se levantar, e sair correndo. Quando já estava distante, parou, olhou para trás e não viu mais ninguém, nem o capoeira, nem o Capitão do Mato. De longe, ouvia apenas a cantoria dos escravos, comemorando a vitória sobre o malfeitor.

Dezembro

Vazante era uma pequena cidade do interior de Goiás, reconhecida nacionalmente pela sua criação de aves, em especial os perus, que abasteciam as geladeiras e freezeres Brasil afora. A grande vedete do lugar era o peru Baltazar, uma espécie rara de peru branco real, que servia de matriz para todos os criadores e que, de tão importante, abria as comemorações do Natal em carro aberto todo ano, junto do Papai Noel.

O galináceo era a cara e o espírito natalinos. Ao lado da “Casinha do Bom Velhinho” na praça central, havia também a “Casinha do Baltazar”, onde as crianças faziam fila para registrar uma foto com a maior celebridade municipal. Até que um dia algo terrível aconteceu, justo na semana que antecedia o desfile de Natal.

Ao chegar de manhã no viveiro para tratar de Baltazar, Antônio – seu cuidador – levou um susto. O peru havia sumido. Dentro do viveiro somente penas brancas, e pedaços cortados de barbela vermelha.

– Jesus Amado! gritou o assustado tratador, enquanto se aviava para pedir ajuda.

– Seu Luíz, seu Luiz, uma tragédia. Falou com o dono do aviário.

– O que foi Antônio? Perguntou preocupado o criador.

– Baltazar, seu Luiz. Baltazar morreu!

O homem quase caiu no chão de susto. Como assim? A ave mais cara, matriz da região, como pode ter morrido, se nem doente estava?

– Que história é essa Antônio? Você tá doido? Me mostra o que aconteceu. E saíram os dois apressados para checar o ocorrido.

Chegando no viveiro, Luiz encontrou exatamente o que Antônio havia visto – muitas penas, barbelas cortadas, e nenhum sangue. Só podia ser obra de onça, pegou o coitado pelo pescoço e arrastou para longe, sem dar nem tempo de sangrar, pensou o dono das aves.

– Você já achou o buraco por onde a danada passou, Antônio?

– Tô procurano seu Luiz, mas não tô vendo buraco arrombado não.

– Então Antônio é melhor chamar a Polícia Ambiental, se foi onça ou se foi gente, só eles vão poder dizer.

Na manhã seguinte, a cidade estava em polvorosa. Enquanto todos comentavam o trágico desaparecimento da ave, o tabloide local estampava em sua manchete:

ASSASSINARAM O PERU!
Baltazar foi morto com requintes de crueldade,
em circunstâncias ainda não esclarecidas

Ainda naquele dia, um grupamento da Polícia Ambiental se dirigiu à Vazante, para investigar o desaparecimento da ave, e apurar as circunstâncias e motivação do crime. Sob o comando do Sub-Tenente Cesário, os soldados chegaram à propriedade do Luiz.

– Bom dia, gostaria que me mostrasse o local onde estava a ave, e também quero ouvir o tratador que deu falta do animal.

– Antônio, leva o Sub-oficial até o viveiro do Baltazar, e conta pra ele tudo que você me disse.

– Tá bom, seu Luiz.

Chegando ao local, o tratador se apressou em explicar o ocorrido.

,- Olha seu guarda, foi assim. Todo dia de manhã sou eu que venho trata do Baltazar, ele já me conhece de longe, e começa a grita quando sabe que tô chegando.

– Ontem, quando vinha vindo, achei estranho que ele não chamô. Quando cheguei aqui, encontrei isso que o senhor tá vendo – pena branca, e barbela de peru cortada.

– Ok, e o senhor encontrou algum sinal, ou rastro de bicho?

– Oh seu guarda, o Baltazar pesava mais de vinte quilos, pra fazer isso tinha que sê uma onça. Mas não achei rastro, ou sinal da danada.

– E sangue? Tinha sangue no viveiro, ou próximo daqui? Perguntou o militar.

– Não seu guarda, nem uma gota, isso é coisa de onça, com certeza. Ela que trava o dente na jugular, e não deixa o sangue pinga, pra esconde o rastro da presa.

– Está certo seu Antônio, nós vamos fazer uma busca pela região, e se precisar, falo com o Senhor novamente.

O grupamento saiu da propriedade em busca de pistas que pudessem indicar o paradeiro da ave, percorrendo morros, brejos e ravinas, mas não encontraram nem sinal do peru.

Enquanto isso na cidade, uma figura muito suspeita acompanhava em silêncio o furdunço do sumiço de Baltazar. Era Melquíades, um velho que morava só, lá na tapera, e tinha fama de maluco e poucos amigos. Segundo diziam, ele tinha ficado ruim das ideias, depois que perdeu a mulher e o filho, vítimas de febre maculosa. Então se tornou recluso, morando sozinho em uma casa de pau-a-pique, sem vizinhos, ou parentes.

Melquíades entrou na venda do Joaquim português, e fez um pedido inusitado:

– Dia Joaquim, separa pra mim umas incomenda. Tá tudo nessa lista aí, que mais tarde passo aqui e pego.

O português pegou o pedido, não sem antes se surpreender com as encomendas: um pão para rabanada, um pacote de farofa, ameixa, uva passa, fios de ovos e uma garrafa de vinho Sangue de Boi. O dono da venda achou estranho, mas sem dar maior interesse, separou as encomendas, e deixou em cima do balcão para o velho buscar.

De volta ao aviário, Tenente Cesário e seus homens foram ao encontro do Luiz, para repassar o resultado da missão – afinal, será que encontraram o Baltazar?

– E então Tenente, perguntou o aflito avicultor. Acharam algum sinal da minha ave?

– Infelizmente não, meu senhor. Isso realmente deve ter sido obra de onça, por que achamos muito rastro, e fezes do felino na região. Nossa sugestão é que melhore a segurança da propriedade, porque certamente ela vai retornar para pegar outros perus.

Desconsolado, o pobre homem agradeceu o empenho da tropa, e despediu-se da patrulha, que retornou para o quartel deixando Luiz em profunda tristeza, e prejuízo.

Ao saber do veredito, o prefeito de Vazante decretou Luto oficial de três dias no município, e suspendeu todos os festejos. Nem mesmo o desfile do Noel aconteceria, em respeito à memória da figura mais ilustre do lugarejo, que havia partido de maneira tão brutal. Afinal, Baltazar era o próprio espírito do Natal na cidade.

Na cidade chorosa, não houve casa que comemorasse a data. No dia 24 de dezembro o lugar ficou deserto, não se via viva alma pelas ruas, nem a Missa do Galo teve na Igreja. As casas estavam todas apagadas, e em silêncio, menos uma.

Na tapera, um casebre simples estava todo iluminado com lamparinas coloridas, e do interior se ouvia a música de uma radiola entre risos alegres – o lugar emanava o verdadeiro espírito natalino. Lá dentro havia uma mesa com quatro cadeiras, recheada com quitutes, rabanada, farofa, arroz de festa e uma garrafa de vinho. Em uma delas a foto de uma mulher, na outra a de uma criança, na terceira Melquíades – alegre como nunca se viu, que conversava divertidamente com Baltazar, que tinha o rabo depenado e as barbelas aparadas, mas ainda assim respondia ruidosamente às gargalhadas do novo amigo.

Novembro

– Meninos, boa tarde. Hoje o tema da nossa aula são as Datas Comemorativas do mês de novembro. Alguém sabe me dizer uma data que é celebrada nesse mês?

– O dia da Bandeira, Professora Gertrudes. 19 de novembro – disse a sabida Mariazinha.

– Parabéns minha querida, essa é uma data muito importante sim, e temos que lembrar sempre do nosso pavilhão.

– Eu também sei Professora. Se adiantou Joãozinho, o mais estudioso da turma. O dia da Consciência Negra, onde celebramos a memória de Zumbi dos Palmares – 20 de novembro.

– Muito bem Joãozinho. Essa é uma história que não podemos esquecer jamais. Infelizmente, o preconceito e a discriminação racial ainda existem na nossa sociedade, por isso devemos lutar contra eles todos os dias.

– Eu também sei uma Fessora. Levanta o dedo o abilolado Toinzin.

– Que bom Toinzin, fico muito feliz em ver você participando.

– E então, me diga qual é a data comemorativa de novembro que você conhece? Pergunta Gertrudes.

– Finados, Fessora.

Sem entender, a gentil senhora pergunta:

– Finados, Toinzin? Sim, essa é uma data primordial do calendário católico, mas porque você acha necessário comemorar esse dia?

– É purque meu pai sempre fala que depois que minha vó morre, ele vai dá uma festa todo Finados, com foguete, cerveja e churrasco pra rua inteira. Diz que a morte da “peste daquela véia” vai sê um livramento pra família, e pra ele.

Ainda de queixo caído, e sem ter o que comentar, a Professora anuncia.

– Aula encerrada. O tema de amanhã é Geometria.

Outubro

Houve um tempo, em um passado longínquo, onde o homem e a mulher eram os únicos responsáveis por tornar a vida à dois prazerosa para ambos. Logicamente que isso não era uma equação matemática, por isso nem sempre dava certo – questão de pele e de carinho – mas, de maneira geral, era assim que os casais se formavam, e viviam sua sexualidade em plenitude. Hoje, ao que parece, alguma coisa mudou …

Tida e Fernando eram um casal moderno. Jovens, se conheceram em uma balada de final de semana, e logo já estavam morando juntos. Na intimidade um sabia exatamente aquilo que o outro gostava, então prazer nunca fui um problema para eles. Não viviam em um relacionamento aberto, mas também nunca se furtaram a experimentar novidades, quando elas surgiam. Outubro já vinha chegando, e depois de mais uma noite de folia, Tida vira para o namorido e pergunta:

– Nando, o que é que eu vou ganhar de presente no Dia das Crianças?

Rindo, e com cara de deboche, ele pergunta:

– Tá falando sério, amor?

– Claro, responde ela. Vamos fazer uma brincadeira, eu te dou um presente, e você me dá outro. Mas vamos trocar presentes de adultos, topa?

– Presente de adulto? O que seria isso?

– Brinquedos eróticos, amor.

– Ah tá, agora entendi. Gostei da ideia.

– Mas tem uma condição, disse a empolgada parceira.

– E qual seria ela?

– Você não pode saber o que eu vou lhe dar, nem você me dizer o que comprará pra mim. Tem que ser surpresa.

– Beleza então, eu topo.

Trato feito, o casal se apressou em providenciar os mimos. Cada um escolheu aquilo que acreditava daria mais daria prazer e satisfação para o outro, e ficou combinado que a entrega seria na noite do dia 12, em um quarto de Motel. Nem um nem outro conseguia esconder a ansiedade e a excitação, e para não estragar a brincadeira, combinaram de enviar os presentes para o quarto reservado, pois assim só descobririam a surpresa quando lá chegassem.

Tida se perfumou, colocou a lingerie mais sexy que tinha, enquanto Nando deu um trato no “Joãozinho”, deixando a área toda lisa e sem pelos, como sua mulher mais gostava.

Entrando no quarto, a grande revelação aconteceu.

Para Tida, ele escolheu um estimulador erótico de dupla função – além de vibrador, o brinquedo também servia como massageador do clitóris, na cor preferida dela – rosa.

Não é preciso dizer que a jovem adorou a surpresa, mas surpreso mesmo ficou Nando, quando levantou o lençol da cama, e descobriu qual era o seu brinquedinho – uma boneca japonesa, incrivelmente realista, em silicone.

O rapaz ficou boquiaberto com o tamanho do presente, tinha 1,58m – quase a altura da namorida – e era realmente impressionante como parecia uma mulher de verdade, muito bonita e atraente por sinal, que até mesmo o calor nas regiões íntimas era capaz de simular.

Aquela noite foi longa e quente – ambos aproveitaram ao máximo seus novos acessórios, juntos e separadamente, e só saíram do Motel quando o sol já estava a pino, muito bem acompanhados pelas novidades que haviam recebido um do outro. Os dias e meses que se seguiram foram de pura diversão, não havia uma noite sequer em que não recorressem aos mimos, para estimular e apimentar ainda mais uma relação que já era, naturalmente, quente.

Foi então que algo muito singular começou a acontecer – quando se deram conta, ela estava se relacionando apenas com seu estimulador, e ele a havia trocado por Suzy, nome sugerido por Tida para sua amante nipônica.

Bem resolvidos que eram, decidiram pela separação. Cada um foi para o seu canto, viver a vida junto daquilo que lhe dava satisfação, sem ter que conviver com o mau humor do outro, sem a bendita TPM, sem a toalha molhada em cima da cama e a tampa do vaso suja de xixi – desconfortos naturais, e esperados, em qualquer relação à dois. Sinais da modernidade, que somente os entendidos, entenderão.

Setembro

“Tinha apenas 14 anos quando conheci Paulo André – ele um repetente da 7ª série, já com seus 17 anos – eu uma novinha ingênua, tímida e sem experiência, aluna aplicada, e boa filha. Essa foi a fórmula perfeita para me envolver, e ceder a todos os seus caprichos e vontades. Quando me dei conta, já estávamos namorando, ainda que a contragosto de toda a minha família.

Paulo André, além dos problemas escolares, tinha um histórico de violência e envolvimento com drogas. Todos na escola sabiam disso, e os meninos da minha idade morriam de medo dele. Sem uma estrutura familiar, foi criado por sua avó que fazia todas as suas vontades, e nunca aceitou que falassem mal do neto – para ela o Paulinho era um bom menino.

Que de bondoso não tinha nada. Desde o início da nossa relação, sempre fui submissa. Não conseguia me desvencilhar, mesmo ele já tendo sido bruto comigo várias vezes. Quando me pegava com violência, parecia que era atraída pelo seu beijo, e pelo gosto de cigarro em sua boca. Dos amassos para a relação sexual, foi só questão de tempo…

Como toda menina inocente ficava imaginando como seria minha primeira vez – ah, será com alguém especial, que goste muito de mim, e me trate com carinho. Na hora do ato, será algo mágico, o encontro de dois corpos que se querem muito, e se respeitam. Primeiro ele me tomará em seus braços, acariciará meus cabelos, beijará minha boca e tocará levemente meus seios. Depois, me colocará delicadamente na cama, beijará cada parte do meu corpo, até me penetrar carinhosamente e sem dor, somente desejo e amor. Por fim, na hora do gozo, serei transportada para o mundo das fadas, e aquela será a melhor sensação da minha vida, coroada com nossos corpos enredados em um longo e definitivo beijo. Na vida real, eu perdi a virgindade dentro do banheiro da escola, de quatro num vaso sanitário sujo e mal cheiroso. Paulo André arrancou com brutalidade minha calcinha e me penetrou com força, enquanto que com uma mão tapava minha boca, e com a outra puxava meus cabelos, me cavalgando como se eu fosse uma égua. No final, com o sangue escorrendo pelas minhas pernas, ainda perguntou:

– E aí novinha, o sistema aqui é bruto, gostou?

Trêmula de dor apenas sorri, e acenei com a cabeça concordando que sim.

O sexo passou a ser a razão de nosso relacionamento, o que não quer dizer que tenha sido menos doloroso, e desagradável nas outras vezes, pelo contrário. Para ele não existia hora nem lugar, era quando tinha vontade, assim transamos atrás do muro da escola, debaixo da ponte e até num lixão perto de casa. Foi aí que comecei a conhecer suas perversões, e sadismo.

Quando completei 15 anos, já namorando há oito meses, desmaiei dentro da sala de aula. Fui levada para e enfermaria, e de lá para o Pronto Socorro. Quando os médicos me examinaram veio a notícia – estava grávida de seis semanas. Aquilo explodiu como uma bomba em minha casa, já que meus pais nem sonhavam que eu já transava com meu namorado, e também na minha vida – pois nunca imaginei que isso pudesse acontecer, apesar de ter consciência dos riscos que corria, já que ele nunca aceitou usar preservativo.

Como Paulo André já era maior de idade, minha família o obrigou a assumir a responsabilidade, e acabamos indo morar na casa de sua avó que, toda orgulhosa do neto, mobiliou nosso quarto, e pagou todas as despesas até o nascimento da bebê. Contudo, por conta de um infarto fulminante, morreu um mês depois de conhecer a bisneta.

Com a morte da avó que nos sustentava, ele herdou a casa onde morávamos, e alguns quartinhos de aluguel que ela mantinha no fundo do lote. Mas, mesmo assim, as despesas eram altas, por isso ele foi obrigado a arrumar um serviço. Eu parei de estudar logo depois que descobri a gravidez, e agora vivia para cuidar da minha filha, e da casa.

Se durante a gestação ele quase não me procurou para fazer sexo, pois a avó estava sempre por perto, agora sozinhos em casa tudo voltou a ser como antes. Aliás, pior do que era antes. Além de me forçar a ter relação, ainda me batia.

Passados dois anos, eu estava prestes a fazer 18, quando descobri que estava grávida novamente, apesar de estar tomando pílula, que pegava no posto escondido. Quando ficou sabendo que seria pai outra vez, até ficou feliz, achando que agora teria um filho homem – seu grande sonho. Mas quando peguei o resultado da ultrassonografia, e descobri que teria outra menina, ele ficou transtornado e saiu pra rua. Voltou bêbado tarde da noite, e me espancou, depois me pegou com brutalidade e fez sexo. No final, urinou em cima de mim – segundo ele era um “banho dourado”, meu prêmio por não ter sido capaz de fazer o filho homem que tanto queria – e as perversões estavam apenas começando.

Na segunda gravidez não houve uma noite sequer de paz, em que eu não tivesse que atender aos seus desejos, cada dia mais sujos e nojentos. Já com nove meses, e uma barriga enorme, trouxe para casa uma travesti, e me obrigou a ter relação com ela enquanto assistia – aquele foi o pior dia da minha vida.

Pouco depois que minha segunda filha nasceu ,e ainda no resguardo, continuava a me procurar. Mas preocupada com minhas filhas – a essa altura minha única razão de viver – eu atendia aos seus caprichos. Um dia, quando estava passando mal, com muita enxaqueca, pedi que me deixasse quieta pois não estava bem. Furioso, disse que se eu não fizesse o que ele queria, quem iria pagar seriam as meninas. Assustada, e temendo por elas, cedi mais vez.

Seis anos se passaram e nada mudou, só os vícios que aumentaram. Paulo André agora havia se tornado um viciado – cheirava pó dentro de casa, perto das crianças. Emprego já não tinha há muito tempo, vivíamos dos aluguéis que mais falhavam do que vinham, por isso, decidi começar a trabalhar como diarista, para que não faltasse nada em casa para minhas filhas. Apesar de ter apenas 24 anos, minha aparência já era de mais de 30, com as marcas da violência doméstica estampadas em meu rosto, e em meu corpo.

Mesmo tentando evitar ao máximo, com 26 descobri que estava grávida outra vez. Fiquei desesperada, com medo de ser outra menina, mas quis o destino que dessa vez viesse o filho que ele tanto desejava. Quando ficou sabendo do resultado, quase explodiu de felicidade, prometeu que mudaria e que, dali em diante, tudo seria diferente. E até foi, por um tempo. Diminui com o álcool, e parou de cheirar dentro de casa, começou a fazer uns biscates e a me tratar com um certo respeito, durante o sexo.

Quando a criança nasceu veio a surpresa, e a decepção. Ao pegar meu bebê no colo, ainda na sala de parto, percebi que tinha algo de errado com ele. Pouco depois fui descobrir que ele nascera com Síndrome de Down – provavelmente por conta dos abusos do pai com as drogas, durante a gestação. Paulo André ficou revoltado com a notícia, me culpou por ter dado a ele um filho retardado, e rejeitou a criança.

Depois desse dia, minha vida virou um inferno. Tinha que cuidar do meu filho especial, das meninas que a essa altura eram meu único ponto de apoio, e ainda atender às vontades do meu marido. Suas perversões agora tinham ganhado outro sentido – seu prazer era me fazer sentir dor e humilhação, por isso se divertia enfiando as coisas dentro de mim durante o sexo, me amarrando e me espancando. Seu sadismo chegou ao ponto de me obrigar a ter relação perto dos meus filhos, com eles assistindo.

A essa altura minha filha mais velha, já com 12 anos, depois de ter crescido naquele ambiente, vendo as surras e a forma como o pai me tratava, tinha se tornado minha melhor amiga, mas também desenvolvido uma revolta e um ódio mortal contra ele, que o ímpeto da adolescência não deixava esconder. Estavam sempre brigando, ela o enfrentando enquanto meu marido ameaçava espancá-la. Para evitar que o pior acontecesse, ia para o quarto e deixava que descontasse em mim toda sua raiva e frustração.

Até que um dia, entrando em casa ouço os gritos da minha menina mais velha. Quando chego no quarto, vejo Paulo André em cima dela, tentando tirar sua roupa para violentá-la. Naquela hora o sangue subiu à minha cabeça – eu que sempre me submeti às vontades daquele monstro, que nunca chorei ou reclamei durante o sexo sujo, não podia permitir que ele fizesse a mesma coisa com a minha filha. Num ataque de fúria agarrei ele com força e o joguei no chão, que bateu a cabeça num móvel, e caiu sangrando. Corri até a cozinha, peguei a maior faca que encontrei, e comecei a furá-lo sem dó, até que em volta de mim só restasse sangue e alívio.”

Minha filha, termino aqui essa carta com a certeza de que você e seus irmãos agora estão bem, e em segurança junto de seus avós. Fiz questão de lhe contar a história desde o início, para que conhecesse as razões que me levaram a estar onde estou e, mais do que isso, para que entendesse que você foi – e sempre será – a melhor parte de mim, minha melhor amiga, meu porto seguro. Por esse motivo, nunca poderia deixar que nada de mal lhe acontecesse. Sei que cometi um grande erro, e estou pronta para pagar por ele, mas hoje meu amor, dia sete de setembro, quando se comemora a Independência do Brasil, acredite que eu também comemoro a minha independência. Pela primeira vez, em quase 20 anos, me sinto livre novamente.

Fica com Deus, e nunca se esqueça que sua mãe te ama muito.

Sistema Prisional Estadual
Presidio Feminino – cela 35/pavilhão 2

Agosto

Bastava chegar agosto, para que os moradores da pequena Santo Antônio da Bocaina ficassem em polvorosa, temendo a passagem da Maria Preta – será que ela voltaria novamente? E isso se repetia há mais de 10 anos. Não existia uma mãe ou pai que ficasse sossegado durante esse mês, temendo pela segurança de seus bebês, afinal 12 já haviam sumido misteriosamente, sempre no dia 13, e nunca foram encontrados. Até a polícia da capital havia sido chamada para investigar os desaparecimentos, mas, sem sucesso, não encontraram pista sequer que levasse ao paradeiro dos rebentos.

Por conta disso, a Igreja resolveu enviar um padre exorcista, especialista em assuntos desse tipo, para investigar o mistério que envolvia aquela cidade, já que para a população local a culpa era uma maldição que se abatera sobre o povoado.

Segundo contavam os mais antigos, quando Bocaina ainda era a terra dos Barões do café, existia na região uma famosa parteira – a Maria Preta – uma escrava alforriada que trazia ao mundo os filhos da região – dos nobres aos mais humildes, era sempre ela quem chamavam para cuidar.

Até que um dia, algo deu errado. Durante o nascimento do primeiro filho do Barão de Bocaina, a mãe e a criança perderam a vida, em razão de complicações na hora do parto. Transtornado e cheio de ódio, o homem mandou açoitar a pobre mulher, que implorando misericórdia, morreu no tronco, jurando se vingar daquele povo malvado.

Passados mais de 100 anos do ocorrido, a primeira criança sumiu de seu berço, em uma noite de agosto, 13. Para desespero dos pais, ela nunca foi encontrada, e mais 11 haviam desaparecido, desde então – uma a cada ano. Muito supersticiosa, a população atribuía a culpa dos sumiços à maldição da “Maria Preta parteira”, que havia jurado vingança.

Para acabar com qualquer chance de aquele ser um fenômeno sobrenatural, padre Antônio Pio acabara de chegar à cidade, com a missão de investigar a fundo aqueles desaparecimentos. O religioso era um especialista em questões desse tipo, já tendo desvendado várias fraudes, mas também comandado inúmeras sessões de exorcismo, sempre servindo-se das orações, e da cruz de São Bento para curar as almas atormentadas por criaturas malignas.

Na noite malfadada, a cidade transpirava tensão, bastou escurecer para as ruas ficarem desertas, e as casas todas acesas – era uma sexta-feira 13 de agosto – não poderia existir pior presságio. Nas famílias onde haviam bebês, mães desesperadas agarravam-se a seus rebentos, temendo o pior.

Enquanto isso, padre Pio mantinha-se em oração na Igreja Matriz de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, rogando por iluminação no esclarecimento daquele mal, que afligia os pais e mães da pequena cidade.

De repente, alguém entra gritando dentro da Matriz:

– Padre, padre acode. A Maria Preta passou de novo!

De imediato, o religioso pegou seu terço de São Miguel Arcanjo, sua Bíblia e a insígnia de São Bento, e saiu em disparada para tentar não perder nenhuma pista, e ainda encontrar a criança em segurança.

Chegando na casa da vítima, o religioso encontra uma família em desespero. A mãe inconsolável se joga aos seus pés:

– Por misericórdia padre, me ajuda, levaram minha bebê!

Tentando entender o ocorrido, o padre busca acalmar a mãe e lhe pergunta:

– Calma minha filha, nós vamos encontrar sua filha, mas antes preciso que você me explique como tudo aconteceu.

Ainda em soluços, a pobre mulher lhe diz:

– Olha padre, nós tomamos todos os cuidados. Meu marido estava na sala com nossos dois filhos maiores, e eu fiquei no quarto com minha bebê, ao colo. Como ela havia dormido, eu a coloquei no berço, e saí apenas por um instante para ir ao banheiro, quando voltei ela já não estava mais lá. Pelo amor de Deus padre – em prantos – acha minha filha!

– Tenha fé, nós vamos encontrá-la. Me leve ao quarto onde a bebê estava!

Chegando ao local, o religioso pede para entrar sozinho. Faz uma oração rogando a São Bento iluminação, e começa a procurar pistas. Antes de ser apenas um religioso, padre Pio era um especialista forense, por isso investigava em detalhes todos os fatos, para somente depois tratar do sobrenatural. Vasculhando o local, encontra no chão, ao lado do berço, algo que chama sua atenção – um terço. Retorna à sala, e pergunta à família:

– Por acaso vocês reconhecem isso aqui?

A mãe e o esposo olham para o objeto sem entender a pergunta, mas não sabem explicar de onde teria surgido. Então, apressado, o religioso se despede e retorna à Matriz, prometendo descobrir a verdade, e o paradeiro da criança.

Chegando à Igreja, chama o vigário local e lhe faz a mesma pergunta:

– Padre João, o senhor reconhece esse terço aqui?

O homem então o pega nas mãos, e prontamente responde:

– Com certeza que sim, é da dona Virgínia, a catequista da nossa paróquia. Por que a pergunta? Onde o senhor o encontrou?

Sem tempo para dar explicações, pede ao vigário que lhe indique onde mora a tal senhora. Padre João, então, chama o diácono, e pede que leve padre Pio até a casa da catequista.

Intrigado, o homem chega no endereço da religiosa. Era um sobrado antigo, que ficava numa rua quase deserta. No local, a casa estava toda apagada, mas vindo do porão via-se uma luz mortiça, de onde era possível escutar um choro abafado de criança. Ele então orienta ao diácono que retorne imediatamente à Igreja, e peça ao padre João que acione a polícia, para que venham imediatamente ao seu encontro.

Enquanto aguarda a chegada do reforço policial, o investigador se aproxima do porão e vê, por entre a fresta de uma janela, algo terrível – 13 berços, um ao lado do outro.

Com a chegada do destacamento policial, o religioso toma a frente e consegue acessar uma porta que levava ao interior da casa. Chegando lá, encontra uma portinhola entreaberta, iluminada por uma luz de lamparina. Quando os homens se aproximam sentem um cheiro forte e desagradável, e ouvem o choro de um bebê. Então, se apressam para descer ao porão, onde encontram dona Virgínia que embalava carinhosamente a pequena em seu colo.

Surpreendida, ela a joga dentro de um berço vazio, e foge por uma porta lateral. O que eles encontraram ali era assustador. Nos outros 12 berços, 12 bebês enrolados em mantas, já em avançado estado de putrefação, com um detalhe sombrio – todos tinham as bocas cobertas por fitas adesivas, postas em formato de cruz.

Preocupado com a sobrevivente, padre Antônio a pega no colo, garantindo que ainda esteja bem, e com vida. Muito assustada e chorando, ela é entregue a um dos policiais, para que seja levada de volta à família. Então começa a perseguição pela criminosa, que cometera crimes tão bárbaros.

O efetivo policial empreende uma busca pela região, mas são avisados de que a fugitiva estava na torre da Igreja Matriz.

Chegando lá, padre Antônio vê uma mulher transtornada, e gritando:

– Ninguém vai tomar meus bebês, eles são meus, não vou perdê-los de novo!

A cidade toda corre para o largo da Matriz, para acompanhar o desfecho daquela trágica história. Sentindo-se acoada pelos policiais, que chegavam à torre para capturá-la, a enlouquecida assassina se atira do alto da Igreja, em um salto para a morte.

O que todos queriam entender era como o investigador tinha descoberto a sórdida trama, e o porquê daquela bondosa senhora, sempre tão zelosa com as crianças da paróquia, ter se tornado um ser tão abjeto e vil.

Para a primeira pergunta, Pio explica à comunidade:

– Bem, quando entrei no quarto encontrei um terço, caído no chão ao lado do berço. Mas não era um terço qualquer, e foi esse detalhe que me levou à assassina de crianças. Era uma relíquia de Santa Gianna Beretta Molla, uma santa italiana certamente pouco conhecida por aqui, e que por isso mesmo me ajudou a chegar até Virgínia.

E continua o padre:

– Tão incomum quanto à devoção a essa santa, é a sua história de vida – “Santa italiana, adoeceu de câncer e decidiu continuar com a gravidez de seu quarto filho, em vez de submeter-se a um aborto, como lhe sugeriam os médicos para salvar sua vida. Gianna estudou medicina e se especializou em pediatria. Casou-se e teve quatro filhos. Durante toda sua vida, conseguiu equilibrar o trabalho com sua missão de mãe. Morreu aos 39 anos, uma semana depois de ter dado à luz. Foi canonizada em 16 de maio de 2004 pelo Papa João Paulo II, que a tornou padroeira da defesa da vida.

Surpresos com aquele relato, ficava agora a pergunta. Qual motivo teria levado aquela mulher, temente à Deus, a cometer tamanha loucura? Essa pergunta só foi respondida pela Polícia, depois de finalizadas as investigações.

Virgínia era uma mulher solteira que dedicou a vida às crianças, e à Igreja. Há mais ou menos 15 anos, teve um envolvimento amoroso proibido com um padre. O fruto dessa relação foi uma gravidez, interrompida por um aborto provocado, já que o relacionamento entre o casal nunca poderia ser descoberto.

Como consequência do procedimento abortivo, veio a infertilidade. Por isso, remoída pelo remorso e pela culpa, a mulher perdeu o juízo e roubou a primeira criança. Em uma lógica perversa e insana, para acobertar seu crime, espalhou entre os moradores que aquilo era culpa da maldição da “Maria Preta parteira” e, desde então, não parou mais de cometer seus bárbaros atos.

Ainda sob o impacto daquelas revelações, a cidade aos poucos foi retomando sua vida normal. Os corpos dos desaparecidos foram entregues às suas famílias para que fossem sepultados, e a bebê salva por padre Pio, devolvida à família bem e com saúde. Ninguém mais ousou falar de Maria Preta que, lenda ou personagem da história de Bocaina, foi absolvida dos crimes a ela imputados.

Quanto ao padre Antônio Pio, retornou para a Cúria onde um novo caso o aguardava, em sua nobre missão de investigar o sobrenatural, mas sobretudo de trazer a luz da verdade aos fatos.