A menina invisível – Sérgio Soares

Uma nova semana tinha acabado de começar, quando a escola foi abalada por uma tragédia. Uma aluna do 8º ano entrou no banheiro, e logo em seguida ouviram-se gritos, e choro no corredor:

-O que houve menina? – perguntou a servente.

Entre soluços e lágrimas, a garota respondeu:

-Tia, a Tainá está morta lá dentro.

Quando a diretora chegou, encontrou a jovem caída em uma poça de sangue. Ao seu lado, o livro “A Divina Comédia de Dante” aberto no Sétimo Círculo – o Vale do Flegetonte. Embaixo, uma anotação – Te espero lá, seu desgraçado!

Filha única de Maria Moema Yanomami, nasceu em uma aldeia na região Norte. Sua mãe perdeu o marido cedo, quando ela ainda era bebê. Nessa mesma época conheceu Alfred, um missionário inglês, com quem se juntou, e foi para São Paulo. Pouco tempo depois, morreu em um acidente de trânsito. Sem parentes próximos, a menina foi criada pelo padrasto. Foi então que o seu Inferno começou.

Muito jovem, sem ter completado oito anos, começaram os abusos. Aos dez, já era a “escravinha” do violador, como gostava de chamá-la dentro de casa – na rua, ele era um missionário sério, e dedicado à enteada. Tudo isso fez com que ela fosse se retraindo cada vez mais e mais. 

Precoce, começou a ler com sete anos. Antes de completar 11, seus livros preferidos já eram clássicos russos, onde se refugiava quando Alfred não a importunava. Descobriu no corte da própria carne, o lenitivo para a dor que lhe corroía por dentro.

Na escola, apesar de sua aparência exótica e boa condição social, não interagia com os colegas. Entrava e saía da sala, sem que ninguém notasse. Só era lembrada pelos professores na hora da chamada. Era como se ela não existisse ali.

Naquele dia, Tainá chegou cedo no coleǵio, mas não foi para a sala-de-aula. Como já sabia que ninguém daria falta de sua ausência, esperou o sino bater, e foi direto para o banheiro. Entrou no mictório, fechou a porta, sentou-se no chão, abriu a mochila, pegou seu novo livro preferido, e escreveu:

-Te espero lá, seu desgraçado!

Doce vingança

– Então minha filha, não se esqueça de misturar em algo bem doce, porque o gosto dessa noz é muito amargo.

-Tá bom Dona Santa, tá aqui o nosso combinado.

Rapidamente entrou no carro, e foi para casa. Chegando lá, pegou o pistache e caprichou na Nutella, para ficar bem doce. Por pura gula, deixou alguns para saborear à noite, comemorando a vitória sobre a chefe patife, que não havia lhe dado a promoção tão esperada.

-Vaca, estou aguardando essa vaga de gerente há tanto tempo, e ela vai e promove a sonsa da Deise. Mas dessa eu cuido depois.

Chegando na loja, foi direto para sala de Vânia, e lhe entregou o mimo feito com tanto carinho.

-Oh Bete, pra quê isso? Achei que você estivesse zangada comigo, por causa da promoção da Deise.

-Zangada? Eu? Que isso Vânia, para mim além de uma ótima chefe, você é um exemplo de mulher de sucesso. Um dia quero ser como você. Olha e fiz do jeito que você gosta, pistache com bastante Nutella, super hiper doce.

– Hum, vou comer um agora!

Bete saiu, e foi para o balcão atender, como sempre odiou fazer. Daí a pouco, um tumulto na loja – médicos do SAMU entram correndo com uma maca. Se fazendo de desentendida, pergunta a Deise.

-Que confusão é essa?

– Menina, do nada a Vânia começou a passar mal, os músculos foram se enrijecendo, e ela entrou em convulsão.

– Coitada, vai ver que é coração, ela é tão nervosa!

Logo em seguida chegou a notícia – a chefe estava morta. Com o fechamento mais cedo do estabelecimento, Bete foi direto para casa, comemorar sua vingança.

Chegando lá, abriu um vinho, sentou-se no sofá e foi saborear os bombons que havia separado, sem a estricnina.

Duas taças de vinho depois, e alguns bombons, seu corpo começou a enrijecer. A taça caiu de suas mãos. e ela pensou:

-Merda, será que eu fiz essa burrada?

O dia em que inventaram a dor

Era para ser mais uma manhã de sábado, como todas as outras manhãs. Maria acendeu a casa, com o cheiro do café. Ricardinho, o caçula e mais matreiro dos filhos, tratou logo de pular da cama, pegou um pão na cozinha, e se despediu da mãe com um beijo lambuzado de margarina.

Como tantas outras mães da comunidade, cuidava sozinha da família. O marido foi embora, quando as gêmeas tinham apenas dois anos, e o mais novo estava na barriga. Dos seis filhos, apenas Ricardinho, Tayla e Mayla moravam com ela. O primogênito cumpria pena por receptação e associação criminosa, e os outros dois estavam casados.

Enquanto cuidava dos afazeres domésticos, entre a água no arroz, e a roupa no varal, a calmaria da casa foi quebrada pelos tiros no morro, e pela vizinha do lado gritando, e anunciando a tragédia:

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A operação “Devoto Fiel” começou a ser planejada meses antes. O serviço de inteligência da Polícia descobriu que o Morro do Feijão, tinha se tornado a porta de entrada para o armamento pesado, que era distribuído nas outras comunidades controladas pela facção.

O alvo da operação era “Playboy”, o traficante que controlava o Feijão, e se tornou o maior receptador de armas do estado. Era um homem perigoso, que só andava com escolta, e armado até os dentes o tempo todo, menos em um dia. “Playboy” ia à Igreja aos sábados, logo cedo – sim, ele era evangélico. Lá o pastor celebrava um culto reservado, somente para o dono do morro. Esse era o único momento em que ele ficava desarmado, e nessa hora o bote seria dado.

Assim que Ricardinho saiu de casa, tratou de passar no posto de comando, pegou seus instrumentos de trabalho, e assumiu o turno na laje. Com o rádio em uma mão, e a caixa de foguetes em outra, se transformava em Foguetinho, o melhor fogueteiro do morro. O moleque era um corisco, miúdo e esperto conseguia disparar o artefato, e sumir antes da pólvora pipocar.

Naquela manhã tudo estava tranquilo na comunidade, por isso Foguetinho levou um baita susto, quando o rádio gritou:

-Os homi tão subindo!

No mesmo instante, tirou o canudo da caixa, acendeu o pavio e, mal o bicho subiu, tratou de pular da laje. Só que o moleque esperto e matreiro, dessa vez não teve tanta sorte.  Enquanto descia o escadão correndo, acabou entrando no meio de uma troca de tiros, entre a polícia e os homens do “Playboy”.

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A mãe largou as panelas no fogo, as roupas do varal pelo chão, e saiu de casa desesperada. Fatidicamente, quando chegou ao local, já não havia mais o que fazer – encontrou o corpo do filho ensanguentado, e sem vida. Uma bala perdida havia achado Ricardinho, mas naquele dia quem morreu  foi Maria.

O enviado

Tinha acabado de chegar do serviço. Depois de mais um dia chato e estressante como todos os outros, ligo a TV, e vou direto para o chuveiro. Mas meu banho é interrompido pela chamada de plantão do Jornal Nacional. O Bonner aparece subitamente, e anuncia:

-Atenção. As maiores potências do mundo, Estados Unidos, China, Rússia e os países da União Europeia acabaram de emitir um alerta global. O objeto interestelar 3I/ATLAS,que era tratado como um cometa incomum até ontem, propulsionou de maneira nunca vista, e já se encontra em inserção orbital com o planeta Terra.

-As autoridades tratam agora o objeto como uma nave alienígena não identificada, e até que se conheçam suas intenções, as forças de segurança mundiais estão em alerta. O governo brasileiro que acompanha as movimentações, orienta a todos os cidadãos, que se mantenham em local seguro, até segunda ordem.

Ainda sem acreditar no que estava acontecendo, me lembrei da Área 51, do Caso Roswell, dos reptilianos da coroa britânica e até do filme Matrix. Será que tudo isso era verdade?

Por coincidência, havia recebido naquela manhã um post de um colega maluco do serviço, e muito ligado nessas coisas exotéricas, que por total falta de credulidade nem abri.

Pego então o celular, e vou ver do que se tratava. A postagem falava sobre a mudança do mundo, que seria transformado com a chegada de um enviado cósmico. Segundo uma tradição Celta, no solstício de inverno ocorreria o Yule – renascimento do Deus Sol e início de um novo ciclo de vida no planeta.

Olho para o display do relógio, e ele mostra que hoje é 20 de junho – dia mais curto do ano, e que que marca o início da estação invernal. Pela janela, percebo que o céu está limpo, e cravejado de estrelas.

De repente, uma forte luz encobre o firmamento. Um silêncio profundo toma conta da Terra, e tudo muda para sempre.

O dia em que inventaram a dor

Era para ser mais uma manhã de sábado, como todas as outras manhãs. Maria acendeu a casa, com o cheiro do café. Ricardinho, o caçula e mais matreiro dos filhos, tratou logo de pular da cama, pegou um pão na cozinha, e se despediu da mãe com um beijo lambuzado de margarina.

Como tantas outras mães da comunidade, cuidava sozinha da família. O marido foi embora, quando as gêmeas tinham apenas dois anos, e o mais novo estava na barriga. Dos seis filhos, apenas Ricardinho, Tayla e Mayla moravam com ela. O primogênito cumpria pena por receptação e associação criminosa, e os outros dois estavam casados.

Enquanto cuidava dos afazeres domésticos, entre a água no arroz, e a roupa no varal, a calmaria da casa foi quebrada pelos tiros no morro, e pela vizinha do lado gritando, e anunciando a tragédia:

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A operação “Devoto Fiel” começou a ser planejada meses antes. O serviço de inteligência da Polícia descobriu que o Morro do Feijão, tinha se tornado a porta de entrada para o armamento pesado, que era distribuído nas outras comunidades controladas pela facção.

O alvo da operação era “Playboy”, o traficante que controlava o Feijão, e se tornou o maior receptador de armas do estado. Era um homem perigoso, que só andava com escolta, e armado até os dentes o tempo todo, menos em um dia. “Playboy” ia à Igreja aos sábados, logo cedo – sim, ele era evangélico. Lá o pastor celebrava um culto reservado, somente para o dono do morro. Esse era o único momento em que ele ficava desarmado, e nessa hora o bote seria dado.

Assim que Ricardinho saiu de casa, tratou de passar no posto de comando, pegou seus instrumentos de trabalho, e assumiu o turno na laje. Com o rádio em uma mão, e a caixa de foguetes em outra, se transformava em Foguetinho, o melhor fogueteiro do morro. O moleque era um corisco, miúdo e esperto conseguia disparar o artefato, e sumir antes da pólvora pipocar.

Naquela manhã tudo estava tranquilo na comunidade, por isso Foguetinho levou um baita susto, quando o rádio gritou:

-Os homi tão subindo!

No mesmo instante, tirou o canudo da caixa, acendeu o pavio e, mal o bicho subiu, tratou de pular da laje. Só que o moleque esperto e matreiro, dessa vez não teve tanta sorte. Enquanto descia o escadão correndo, acabou entrando no meio de uma troca de tiros, entre a polícia e os homens do “Playboy”.

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A mãe largou as panelas no fogo, as roupas do varal pelo chão, e saiu de casa desesperada. Fatidicamente, quando chegou ao local, já não havia mais o que fazer – encontrou o corpo do filho ensanguentado, e sem vida. Uma bala perdida havia achado Ricardinho, mas naquele dia quem morreu foi Maria.

Quasímodo

Antônio Quasímodo era um sujeito frustrado. Vítima do destino, sua história era uma sequência de “quase” sucessos. Ainda no infantil, quando chegava o final do ano escolar, e as tias iam escolher os protagonistas do teatrinho, ele “quase” pegava o papel principal – acabava lhe sobrando o sapo, ou a árvore.

Já na adolescência, apaixonado e pronto para declarar seu amor, “quase” conseguia – a menina o queria apenas como um amigo.

Depois de tentar cinco vestibulares para Direito, ele “quase” passou, ficando de fora das listas por apenas um ponto. Acabou virando motorista de aplicativo.

Com mais de 40 anos. solteiro e morando com os pais, cansado daquela vida de constantes decepções, decidiu que ia tirar a própria vida. Mais uma vez, “quase” atingiu seu objetivo. Coitado, a arma travou e não disparou um tiro sequer. Que sina essa “quase” vida do Quasímodo!