Exortação ao Dia Nacional do Livro

Deixo aqui meu salve aos livreiros, bibliófilos, escritores e escrevinhadores de plantão. Às professorinhas que nos ensinaram a folhear e a respeitar as páginas dos livros didáticos (em tempos idos), os quais deveriam estar cuidadosamente encapados, e sem orelhas, para que no ciclo seguinte outros dele se servissem. Aos bibliotecários que organizavam, indexavam e catalogavam os exemplares das Bibliotecas Públicas, garantindo do pobre ao rico o acesso ao mundo fantástico do conhecimento.

E é por isso que nesse 29 de outubro, data em que se celebra o Dia Nacional do Livro, venho aqui render vênias a esse que já foi defenestrado, banido e queimado em praça pública. Que já teve seu fim decretado, quando do surgimento dos livros digitais, e ainda assim sobreviveu. Que já foi motivo de sentença de morte, mas também registrou histórias de vida, luta, descobrimento e renascimento de povos e de eras. Que guarda a história dos profetas ancestrais, e também os preceitos das religiões mais antigas do ocidente e do oriente.

Sendo assim, seja ele apresentado em forma de pergaminho, ou de uma brochura luxuosamente ornada, o livro é um ser vivente, que se alimenta da leitura de seus leitores, e somente assim se mantém vivo. Ao folhear suas páginas, a criança e o adulto, o homem e a mulher, o jovem e o idoso tem a possibilidade de conhecer novos mundos, e de ressignificar conceitos e valores, em um contínuo processo de revitalização do sentido, posto que uma leitura nunca será idêntica à outra.

Enquanto isso, ainda há aqueles que teimam em pensar que ter o nome epigrafado em uma capa, é o bastante para dela tomar posse, assenhorando-se da obra. Estes creem que de suas memórias saíram as letras, que juntando-se formaram sentido para a construção dos parágrafos. Tolos e petulantes!

Que fique claro – não é o autor quem escolhe o livro, mas sim é por ele escolhido, em um processo de simbiose mental onde juntos compartilham vivências e leituras, sonhos e frustrações, e dessa sopa primordial surgem as personagens e o enredo, o clímax e o desfecho que vão transformar-se em uma nova história. E certamente está aqui marcada a diferença entre os geniais, os grandes mestres da escrita, e os medianos e medíocres.

Nesse 29 de outubro, o autor que aqui escreve essas linhas, faz questão de deixar registrada sua gratidão ao amigo e parceiro de primeira hora, Dias Possíveis – um livro que hoje tem nome e sobrenome, por cada história, cada personagem retratada nos doze meses do calendário, e que tornaram possível o que antes era apenas um sonho. Graças a isso, esse que antes era um anônimo escrevinhador, se tornou hoje um escrevinhador (re)conhecido. Oxalá possa o Dia Nacional do Livro ser celebrado durante todos os outros 364 dias do ano.

O escritor

Próxima pergunta.
-Arquimedes, qual a sensação de ser autor de um sucesso de vendas e crítica?
-Olha só, meu caro repórter. Para mim a sensação é a mesma que senti quando publiquei meu primeiro, e incipiente, livro. Só o que mudou, em um caso e outro, foi o saldo da minha conta bancária.
Mais alguma dúvida?
-Sim, por favor. Por que você nunca escreveu uma história com final feliz? Afinal, suas histórias sempre tratam de mazelas humanas e tragédias.
-Ora, minha jovem? Você ainda acredita em Contos de Fadas, em finais felizes? Eu escrevo sobre aquilo que vejo, até porque não existem somente mocinhos e princesas, nos contos da carochinha.
-Me perdoe a sinceridade, Arquimedes, mas você só vê o lado sombrio da vida? Você nunca foi feliz?
-Claro que fui, e sou feliz minha cara. Felicíssimo, aliás, sempre que sou o vilão da história.

Porta trancada

Carolina viva em uma relação tóxica. Não sofria violência física, até tinha lampejos de felicidade, mas a bem da verdade seu casamento era do tipo perde-perde, e nesse caso a perdedora era sempre ela.

Heitor provia as necessidades da casa, mas não as da esposa. Sempre que chegava em casa cansado do serviço, ou do futebol, nunca reparava no agrado da comida preferida, no presente de Dia dos Namorados, nem mesmo no dia em que lhe prepararam um jantar romântico, com direito a lingerie nova, e perfume importado. Era final de Campeonato, e o Flamengo estava na decisão.

Mas em sua cabeça machista estava tudo certo. Viviam em uma boa casa, viajavam de férias para a praia. O que mais uma esposa poderia desejar?

Até que um dia, encontrou a porta fechada, e a casa vazia. Carolina, finalmente, trancou seu coração para Heitor, e jogou a chave fora.

Primeira impressão

Sebastião acabara de chegar à pequena Paraíso. Sujeito simples, mulato, chamava a atenção dos moradores com suas calças jeans, tênis rotos, e camiseta Hering branca.
Na cidade, era visto com desconfiança. Quem seria aquele sujeito estranho, sem família, de poucos amigos e nenhuma conversa? Seria um criminoso? Quem sabe um foragido de alguma facção?
Sua rotina era fazer as refeições na pensão de Dona Terezinha (onde também se hospedava), e ir à missa às 17 horas na Matriz, sempre com seu crucifixo de São Damião, guardando seu peito.
Certo dia, a cidade acordou tomada por carros de televisão e rádio – todos procuravam por Sebastião.
A curiosidade tomou conta dos municípes – o que esse homem teria feito? Certamente, cometido um crime hediondo.
Desfeito o mistério, a imprensa ouviu o Doutor Sebastião Feitosa, prêmio Nobel de Medicina, pelos seus estudos que levaram à cura da Dengue, Zica e Chikungunya.

Tempos modernos

Toda noite era a mesma coisa.

-Boa noite meu amor. Como foi seu dia?

-Chato e cansativo, como sempre.

-Que bom. Ah, hoje os meninos foram premiados na escola.

-É?

-Sim, eles estão muito empolgados. Depois vai lá dar um beijo neles.

-Tá, cadê minha cerveja? Vai começar o Jornal.

-Toma aqui, do jeito que você gosta.

-Deixa aí, eu quero ouvir o Bonner.

-Claro meu amor, a janta tá quase pronta.

Jantar servido, crianças arrumadas, é hora do casal ir se deitar.

-Quer que eu te faça uma massagem meu bem?

– Não, eu quero é dormir.

Então, um corpo começa a roçar no outro e, de repente, Rísia dá um berro:

-Porra Roberto, para de encher meu saco. Não tô afim! Tô com dor de cabeça e TPM!

Sem graça, ele engoliu o choro, virou pro lado, e dormiu. Afinal, dali a poucas horas teria que preparar o café, e a marmita de Rísia, que sairia para trabalhar.

Que benção!

Tudo estava perfeitamente arrumado, do jeito que ela mais gosta. Afinal, dez anos de casados não são comemorados todo dia. Clima de romance no ar – o fondue está pronto: carne, queijo e morangos com chocolate.

O espumante já está gelado, e o vinho sobre a mesa, que tem velas e pétalas de rosa como decoração. É hora de celebrar.

Com a pompa e circunstância devidas, ele carinhosamente puxa a cadeira para que sua amada se sente. Acende o fogo das panelas, e toma assento na outra cabeceira. Uma noite de amor e paixão os aguarda.

Então, Bento, Carolina e o cachorro Snoopy chegam para completar a “noite romântica”, fazendo a maior algazarra, enquanto o adorável cãozinho pula na cadeira, e rouba um pedaço de carne da mesa.

Filhos? Que benção!

Apagamentos

Júlia e Fernando eram um casal perfeito. No primeiro encontro já rolou uma química – eram os opostos que se completavam. Do namoro ao noivado, até no casamento, parecia haver uma sintonia perfeita entre eles. Eram invejados por todos. Até que, passado o primeiro ano de matrimônio, algo começou a mudar. Mas ainda era quase imperceptível. 

Do segundo em diante, foram desventuras em série. Primeiro ficaram surdos – um já parecia não escutar o que o outro dizia. Depois ficaram cegos – olhavam mas não se enxergavam. Por fim, acabou a sensibilidade – seus corpos pareciam não ter mais cheiro, a química da atração havia se desfeito.

Passado um tempo, eram apenas estranhos compartilhando o mesmo espaço. Há quem diga que o casal foi vítima de um vírus letal para relações e relacionamentos, e de difícil profilaxia – o vírus da ROTINA.

Cama de gato

Afrânio era representante comercial. Ficava dias fora, e quando retornava era só amor – dos filhos e de Lindinha, sua esposa.

Contudo, um dia encontrou uma cueca suja no banheiro. Perguntou a ela, que prontamente respondeu:

-Ora Afrânio, já falei pra você não deixar suas roupas esparramadas!Só que aquela cueca não era dele. Então, por que ela mentiu?

Olhou o celular dela, mas só encontrou mensagens de Adolfo, preocupado com a cunhada. Decidiu então instalar uma câmera no quarto, e o pior aconteceu. Bastou sair, para seu irmão chegar..

Com muita frieza, aproveitou uma viagem de escola das crianças, e despediu-se de Lindinha com um longo beijo. À noite, começou a safadeza..

Escondido, esperou acabarem a brincadeira, e caírem no sono. Entrou pelos fundos, abriu o gás, e saiu. Na manhã seguinte, os corpos foram encontrados, um ao lado do outro, na cama.

No velório, dois caixões e um viúvo, disfarçando tristeza, mas radiante por dentro, afinal, a vingança é um prato que deve ser degustado lentamente, com toda pompa e circunstância exigida pela ocasião.

Boa Morte

Zé Trindade era um matador, neto de Corisco. De fazendeiro a meeiro, de viúva a prostituta, não havia uma demanda que recusasse. Sua fama era tão grande, que passou a ser conhecido como “Boa Morte”, pois matava sem causar dor.

Mas um dia a inominada chegou, e uma espinha de peixe tirou sua vida. Depois do passamento, São Pedro veio lhe saudar:

– Bem vindo José!

– Óia, o Sinhô me conhece?

– Sim, José. Sei tudo sobre você. Cumpriu sua missão sem causar dor, por isso seu lugar é aqui, no Céu.

– Brigado pelas palavra, mais meu lugar num é aqui.

– Por quê, José?

– Com todo respeito, eu gosto mermo é de muié, cachaça e furdunço, por isso o Sinhô me discurpi, mais vo pega o próximo bonde lá pras profunda. Inté mais ver!

Impossível

Luis nasceu cristão. Foi criado nos preceitos da Santa Madre Igreja, mas nunca se convenceu daquilo que ouvia. Já adulto, tornou-se um cético que não acreditava em milagres, ou coisas impossíveis. Sandice de carola, dizia.

Um dia, a Dona Doença bateu à sua porta. Levou casa, família e dinheiro. Quando se deu conta, estava em um leito de hospital, em cuidados paliativos, aguardando a sentença mortal. Em sua cabeça uma única pergunta:

– Por quê?

Em uma manhã de domingo, foi acordado com um toque suave. Era uma enfermeira, de semblante doce, que lhe trazia um remédio. Recomendado pelo seu médico, disse ela. Então, tomou e entrou em sono profundo.

Quando acordou, o médico sorridente lhe dizia:

– Luis, você acredita em milagre?

Naquele momento, ele finalmente acreditou.