A consulta

No consultório, ansiosa e trêmula, a paciente aguarda o seu diagnóstico..

-E então Doutor, o que é que eu tenho? É grave? Tem cura?

-Calma Dona Sandra, tudo que a senhora não pode fazer agora, é ficar mais ansiosa do que já está. Vou lhe explicar o problema, e como vamos tratar.

-Então já vi que é coisa séria. Ai meu Deus, eu não posso morrer agora, tenho filho para criar Doutor..

-E quem disse que a senhora vai morrer? Se acalme que eu vou lhe explicar qual o seu problema.

-Tá vendo, o senhor está me preparando para o pior, não precisa dourar a pílula Doutor, quanto tempo ainda me resta?

-Dona Sandra, assim não consigo ajudar a senhora.

-Eu sei Doutor, eu vi na internet, pesquisei no Google, casos iguais ao meu levam a óbito, por isso o senhor está me enrolando.

-Olha só minha senhora, eu não estou enrolando ninguém, estou tentando lhe explicar o seu caso, mas a senhora parece que engoliu um rádio, e não me deixa falar.

-O quê? Com quem  o senhor pensa que está falando? Me tratando com esse desrespeito, meu marido é advogado e vai processá-lo por essa falta de educação.

-Me processar? respondeu o médico, nitidamente irritado.

-Olha só minha senhora, seu quadro é não ter quadro, ou seja, é uma hipocondríaca maluca, que não tem o que fazer e fica inventando histórias.

-Maluca? Mentirosa? Ah não, essa foi a gota d’água. O senhor ouvirá falar de mim novamente, só que no Tribunal.

E saiu batendo a porta, enxovalhando até a última geração de parentes mais distantes do pobre, e paciente médico.

A sombra

Pedro havia nascido com um terrível estigma, em uma família cristã, mas conservadora e extremamente radical. Logo que começou a pronunciar as primeiras palavras, falou sobre uma sombra, que aparecia todas as noites em seu quarto.

Coisa de criança, daqui a pouco essas bobagens passam, diziam os pais. Só que isso não aconteceu, pelo contrário. Ao invés de uma, agora eram várias sombras, que o.menino enxergava a todo momento – de manhã, de tarde e de noite, em todo lugar.

Quando ingressou na escola, tudo piorou. Arredio e desconfiado, quando os colegas souberam de seu “problema* o apelidaram de “Senhor Estranho”. E o bullying nunca mais parou 

Já adolescente e rebelde revoltou-,se com os pais e com a religião, já que ninguém acreditava no que ele dizia. Depois de uma violenta discussão em casa, foi excomungado pelo próprio pai. Aquilo foi a gota d’água.

Decidido a por fim àquele tormento, foi para o banheiro com a lâmina nas mãos, e enquanto enchia a banheira, as sombras apareceram novamente, lhe dizendo:

-Viemos te buscar Pedro, está pronto?

Sem dizer uma palavra sequer, apenas consentiu com a cabeça.

Pela primeira vez, o jovem sentiu-se acolhido. Não era mais o diferente, não era mais o maluco, nem tampouco o “Senhor Estranho”. Agora, ele também era uma sombra.

Dossel Carmim

Beira Alta parecia ter sido congelada no tempo – casarios coloniais, ruas de pé de moleque, postes com luzes amarelas. Mariana a descobriu através da internet. Largou tudo para conhecer o lugar. Chegando lá, foi direto para a pensão. Na recepção, um rapaz com uma grande cicatriz no rosto veio atendê-la.

– Bom dia.

– Oi, reservei um quarto, Mariana Dourado.

– Ah, tá. Me acompanhe por favor.

Chegando ficou surpresa. Uma cama de casal, recoberta por um dossel com véu carmim. Nas almofadas do sofá, o mesmo tom. Na parede, quadros de mulheres, todas com um olhar triste. Curiosa, perguntou:

-Moço, quem são as mulheres nesses quadros?

-São ninguém dona. Se a senhora precisar de mim, tem uma campainha ao lado da cama. O banheiro fica no corredor.

Mariana nem desfez as malas. Pegou sua máquina e saiu. Na saída, o rapaz lhe avisou:

-Moça a gente fecha às sete horas.Se a senhora chegar depois disso, tem um sino aí na porta, é só bater.

Entre uma foto e outra, percebeu que as pessoas a olhavam estranho. Em uma praça, viu um garotinho brincando, e resolveu tirar uma foto. Então, alguém bateu em seu ombro.

-O que você pensa que está fazendo?

-Eu? Desculpe, só ia tirar uma foto da criança, é seu filho? Não quer que ele seja fotografado?

-Não, nada de foto, moleque entra pra dentro agora.

Sem pestanejar, ele saiu correndo. Quando se virou, a mulher tinha sumido. Achou aquilo estranho. Chegando no adro da Matriz, ficou encantada com a imagem de um Anjo, com uma inscrição – Salve Azazel!

De volta à pensão, estava tudo fechado. Bateu o sino, mas ninguém atendeu.

– E agora? pensou ela.

Foi quando viu um grupo de pessoas de preto, entrando em uma viela. Decidiu ir atrás. A viela terminava em uma praça, onde a mulher da foto veio lhe receber.

-Você já era aguardada.

No centro, um homem negro como a noite, vestia uma capa vermelha. Atrás dele, sete Anjos: Lúcifer, Asmodeus, Azazel, Belzebu, Leviatã, Mamon e Belfegor.

Então, ele levantou os olhos, e olhou em direção da moça… Dias depois, uma nova hóspede chegou na pensão para ficar no quarto do dossel carmim. Na parede, um novo quadro – o de Mariana.

Contradições

Érica e Eduardo eram o estereótipo do casal pasteurizado, daqueles de propaganda de margarina. Fora dos olhos da sociedade, o peso de 15 anos de relacionamento, havia se tornado insuportável para os dois. Mas como desfazer esse nó?

Ela. uma influenciadora digital que dividia a rotina de um casamento feliz e perfeito, com seus mais de um milhão de seguidores. Prestes a lançar seu primeiro livro, e com patrocínios nas redes sociais que lhe permitiram ingressar no roll dos milionários, tornar-se uma divorciada estava fora de propósito.

Ele, o psicanalista das estrelas. Especialista em terapia de casais, e âncora de um programa na TV aberta, sua fama e notoriedade também lhe renderam um patrimônio digno dos globais a quem atendia. Separar? Nenhuma chance.

Então, o casal tomou uma decisão. Da porta para fora, manter a pantomima da família bem resolvida, já na alcova seriam um casal de devassos, que incapazes de lidar com as próprias frustrações na cama (e fora dela), fizeram a opção de contratar o prazer, que não conseguiam alcançar juntos. Quanto ao casamento de conto de fadas, melhor deixar para os pacientes e seguidores, já que para eles esse perfil estava definitivamente cancelado.

O olho de Deus

J.B. Ferreira era o fotógrafo das celebridades. Uma foto sua estampada nas Redes Sociais, poderia custar uma pequena fortuna. Exibicionista, extravagante e perfeccionista – essa era sua personalidade. Ninguém nunca conheceu seu estúdio, montado na cobertura nos Jardins em São Paulo, onde morava.

Seus ensaios fotográficos eram feitos nos lugares mais charmosos e pitorescos, ao redor do mundo. Por esse motivo, estava constantemente cruzando fronteiras – colecionava vistos em seu passaporte, e vítimas na sua câmera. J.B. era um psicopata, um assassino em série. Sua fixação era o instante da morte. Em sua mente paranoide, somente o último sopro de vida seria capaz de produzir a foto perfeita. Por conta disso, deixou em cada país por onde passou, um corpo sem vida, e um crime sem solução.

Segundo a Psiquiatria forense, seu desvio de personalidade pode ser caracterizado como obsessivo-compulsivo, que é um transtorno caracterizado pelo perfeccionismo, preocupação com pequenos detalhes, prudência e rigidez excessiva.

Escolhia sempre prostitutas, bem jovens e brancas. As levava para um quarto de hotel, e as enforcava com um lençol, dizendo-se sádico. Quando percebiam, já era tarde. O assassino registrava seu último suspiro, antes da morte. No dia seguinte, enviava a foto para os jornais locais, assinando “O olho de Deus”. Desse modo, ganhou fama como “o criminoso da foto”.

Já contando mais de vinte crimes, era procurado pela Polícia Internacional, mas não haviam pistas que o ligassem aos crimes. Até que um dia, ao deixar a Bulgária, descobriu pelos noticiários que a Polícia Búlgara havia desvendado o mistério. Por um descuido, seu reflexo no espelho do quarto do hotel, acabou entregando sua identidade.

Ao desembarcar em Guarulhos, foi direto para o seu apartamento. Cuidadosamente,  arrumou as fotos das vítimas no chão da sala, amarrou sua mão ao disparador da câmera, e pulou da varanda, para registrar o último instantâneo do “olho de Deus”.

(bem)Dito

O dia em que padre Dito chegou em sua nova paróquia, a primeira impressão foi de estranhamento. Afinal, em uma cidade onde a maioria dos habitantes eram descendentes de europeus, receber um pároco que não falava italiano ou alemão, era algo inédito – padre Franz, que trabalhou lá por mais de 20 anos, era eslavo. Mas além da língua, sua aparência também chocou.

– Um padre índio? Será que isso vai dar certo? Se perguntavam as beatas da cidade.

Passado o impacto da chegada, rapidamente conquistou o coração dos paroquianos, e também dos protestantes e pentecostais, isso porque Dito cativava a todos com seu carisma, e bom humor. Mas sua grande obra era com os miúdos, como gostava de chamá-los. Fazia questão de tê-los sempre por perto, até mesmo nas celebrações – a benção final era sempre dada com os pequenos junto dele no altar.

Até que um dia, homens encapuzados saíram de dentro de um carro, e tiraram sua vida em frente à casa paroquial. A comunidade ficou em polvorosa.

– Como assim?

– Quem faria isso com um homem santo, que só fazia o bem?

Suas exéquias movimentaram a cidade. Padres das redondezas, e até o Bispo compareceram ao seu sepultamento. Mas restava uma dolorosa pergunta:

– Por que mataram o padre Dito?

As autoridades capturaram os assassinos, e o mistério foi então desvendado. Em sua última missão, o pároco ajudou a Polícia Federal a desmantelar um cartel de grilagem de terras, que usurpou e matou muitos inocentes no norte do país. Como consequência de sua corajosa atitude, foi jurado de morte pelos mesmos homens que ajudou a prender.

Ainda que tendo a prerrogativa de ser transferido para outro país, ou mesmo ter uma escolta para protegê-lo, fez a opção de seguir seu ministério, tendo como único guia e protetor Nosso Senhor Jesus Cristo. Agora estava junto do Pai, no lugar reservado a um homem (bem)Dito, como ele sempre o foi.

EQM

Anísio foi socorrido em estado grave, pelo Serviço de Emergência. Seu carro ficou totalmente destruído na batida. O outro motorista veio a óbito no local. Chegando no hospital, os médicos diagnosticaram coma profundo, por conta de um trauma crânioencefálico.

Quando despertou, viu um grande corredor cheio de portas. Levantou-se da maca, ainda tonto, e começou a caminhar. Instintivamente, girava as maçanetas, mas nenhuma delas se abria. Foi quando começou a ouvir uma cantilena. Aquele som lhe parecia familiar:

“Alecrim, Alecrim dourado / Que nasceu no campo / Sem ser semeado …”

Foi aí que se lembrou – sua mãe sempre cantava para ele antes de dormir. Então, começou a correr, buscando de onde vinha aquela música. Até que achou a porta certa. Lá dentro, uma forte luz branca parecia atraí-lo, e a cantiga ficava cada vez mais alta. Contudo, antes que pudesse seguir adiante, perdeu os sentidos e caiu no chão.

Quando abriu os olhos, viu um rosto desconhecido, lhe dizendo:

-Bem vindo de volta rapaz. Sou o Drº. Gustavo. Você teve muita sorte.

Anísio tinha ficado seis meses em coma. Os médicos achavam que permaneceria em estado vegetativo, ou ficaria gravemente sequelado pelo grau da lesão. Ao contrário disso, voltou sem trauma algum. Mas não se lembrava de nada que aconteceu após o acidente.

Dez anos depois, já casado e pai de uma bebê, retornando de uma viagem de serviço, um veículo invadiu a contramão e chocou-se frontalmente contra seu carro. Minutos antes da colisão, começou a ouvir no carro a antiga canção de ninar. Ao abrir os olhos, viu o mesmo corredor de antes, mas com apenas uma porta. Ao girar a maçaneta, ela se abriu. Finalmente, seguiu em direção à luz.

Descaminho

-Considere-se preso, ô elemento.
Dizia o truculento policial, enquanto enquadrava Betão no artigo 334 do Código Penal.
-Mais seu guarda, isso aqui é tudo legalizado.
-Tá de onda ô meliante. Isso aqui é muamba do Paraguai.
-Tä vendo seu guarda. O senhor está cometendo uma injustiça. Deus me livre comprar minhas mercadorias no Paraguai. É tudo legal, comprado em São Paulo, de um fornecedor limpeza. O Senhor Hang.
-Ah é engraçadinho? Então cadê as notas fiscais?
-Eu mostro pro senhor, mas vamos fazer um trato. Se eu mostrar os papeis, o senhor me livra da cana?
– Se estiver tudo certo, sim.
Então, o policial tirou as algemas, e Betão pegou um punhado de papeis, no fundo da bolsa.
-Toma seu guarda. Tá tudo aqui. Como disse, o Hang é muito honesto.
Quando o policial pegou a papelada, levou o maior susto.
-Você tá me sacaneando, ô pilantra. Isso aqui tá tudo escrito em chinês.
-De forma alguma autoridade. O senhor me pediu as notas fiscais, eu falei que o chinês era ponta firme, agora, em momento algum o senhor falou que tinha que estar escrito em brasileiro.
– Como o que é tratado não sai caro, o senhor me dá licença, que eu tô pulando fora.
E antes que o policial pudesse tomar qualquer atitude, Betão sumiu no trecho, junto com suas mercadorias do chinês.