Hoje acordei com um gosto amargo na boca – daqueles que só sente quem abusa na véspera da quantidade (e qualidade) do Whisky, de procedência duvidosa. E o pior é que essa sensação vem se repetindo a cada manhã, a cada semana, há alguns meses. Logo cedo o fígado e a cabeça me cobram pelas escolhas (des) acertadas que fiz. Quando me viro de lado, vejo um corpo inerte, tendo o peito rasgado ao meio, banhado em sangue…
Autor: sergiosoaresblogger
O assassino do espelho
A pequena cidade de Miraflores acordou apavorada. Mais uma jovem tinha sido morta durante a noite. O modus operandi do assassino foi o mesmo. Escolheu outra universitária jovem, branca, de cabelos castanhos longos, e que morava sozinha. No espelho do banheiro, um número escrito com sangue.
A polícia já tratava o caso como um crime em série, já que essa era a quinta vítima em apenas dois meses. Por Miraflores ser uma cidade dormitório, ao lado do Campus de um grande centro universitário, o pânico se instalou no município. O próprio prefeito pediu a ajuda do Governo Central, pois o efetivo policial era pequeno, e não havia encontrado pista sequer que levasse a um suspeito.
Foi então que chegou à cidade a inspetora Claudete. Uma investigadora com 20 anos de experiência, que já havia desvendado mais de 10 casos de serial killers. Claudete era uma mulher de meia idade, pouca estatura, mas muita perspicácia. Antes de entrar para a polícia, já era formada em Direito e em Psicologia, tendo se especializado na área forense. Seu hobby era estudar as investigações de crimes famosos, o que lhe rendeu uma habilidade incomum – enxergar a cena do crime, com o olhar do assassino.
-Bom dia. Inspetora Claudete. Disse ao se apresentar no Paço Municipal.
-Ah, sim, o prefeito já lhe aguardava.
Ao entrar no gabinete, já estavam lá o comandante do destacamento policial, o juiz da comarca, além do próprio prefeito.
– Prazer em recebê-la inspetora. Seus superiores me avisaram de sua chegada.
– Pois bem senhores – disse secamente cortando o chefe do executivo. Se há interesse em desvendar os crimes, teremos que agir rápido, e deixar de lado os rapapés. Existe alguma pista que possa ajudar a desvendar o caso?
-Bom dia inspetora, Sargento Meireles, comandante do destacamento. Não, não há. Desde o primeiro acontecido, temos buscado alguma informação que levasse ao paradeiro do criminoso, mas sem sucesso até aqui.
-Ok, pelo que li nos relatórios, o assassino deixa sua marca na cena do crime, correto? No espelho do banheiro, não é isso?
-Sim inspetora, ele escreve um número com sangue. Que não sabemos de quem é, porque não encontramos vestígio em nenhuma das cenas dos crimes.
-Então ele quer ser encontrado e reconhecido.
-Como assim? Perguntou intrigado o prefeito.
-Ora meus caros, esse número é a assinatura do assassino. O sangue certamente é das vítimas, e ele sabe que a sua digital pode ser extraída dele. Isso foi feito, não foi?
Os presentes na sala entreolharam-se, e perguntaram ao Sargento:
-Foi feito, não foi Meireles? Perguntou o juiz.
-Na verdade, não Meritíssimo.
Nitidamente irritada, a inspetora interrompeu a conversa:
-A cena do último crime está preservada?
-Sim, o apartamento foi fechado e ninguém teve acesso, desde então.
-Me leve até lá agora, Sargento.
Ao chegar no local, a inspetora foi direto para o banheiro, onde ainda havia no espelho o número cinco gravado com sangue. Logo de imediato, recolheu a digital, e mandou que a enviassem para o laboratório.
Então saiu, e voltou para o quarto.
-A cama está do jeito que vocês encontraram?
-Sim, inspetora. Sem marca alguma de sangue, apenas o edredom levantado.
Para espanto dos policiais, Claudete se deitou, puxou o edredom e fechou os olhos.
-A vítima estava dormindo, e foi sedada com formol. Por isso não há sinais de reação, ou luta com o assassino.
-Desculpe a pergunta inspetora, mas como a senhora descobriu tudo isso? – perguntou o desconfiado Meireles.
-Ora homem, se você acabou de me dizer que a cena está preservada, é lógico pensar que não houve reação. Quanto a estar sedada, ainda há cheiro de formol no travesseiro, mas imagino que vocês já sabiam disso, não é mesmo?
-Claro, inspetora. Está tudo registrado no relatório, não é Cabo Souza?
-Sim, senhor Sargento – respondeu o subordinado sem nenhuma convicção.
-Tá, tá. Vocês encontraram o corpo dentro do box, no banheiro, não é isso?
– Sim inspetora, ela estava deitada. Não havia sangue, apenas sinais de esganadura.
-Muito bem Sargento, então se o número foi escrito com sangue, como vocês me explicam isso?
-Na verdade, não temos explicação, disse desconcertado o comandante do destacamento.
Sem acreditar em tamanha incompetência, a impaciente inspetora, perguntou:
-Vocês ao menos descobriram de que forma o assassino entrou no quarto?
-Ah, isso sim inspetora. A porta foi forçada, com certeza com uma chave de fenda.
-Tudo bem senhores, encerramos por aqui. O corpo ainda está no necrotério?
-Sim inspetora, não conseguimos localizar os familiares ainda.
– Me levem até lá, rápido.
Chegando no IML, logo de imediato Claudete buscou as mãos da vítima. Então chamou o Meireles.
-Sargento, vocês não repararam que a vítima está sem uma das unhas? Que certamente foi arrancada, e daí veio o sangue para a assinatura no espelho?
Ruborizado, o policial ficou mais uma vez sem resposta.
-Pelo amor de Deus, quer dizer que vocês também não repararam isso nos outros corpos, imagino?
O silêncio do homem, entregou as falhas na investigação.
-Antes que eu faça uma besteira aqui, vou-me embora para o hotel, amanhã bem cedo retomo as investigações.
No meio da madrugada o telefone do quarto tocou – era o prefeito.
-Ele atacou de novo.
Rapidamente, a inspetora se trocou, e desceu para encontrar a viatura, que já a aguardava. No mesmo prédio do último assassinato, ela encontrou a porta arrombada. Mas dessa vez o assassino não teve tanta sorte. Houve luta corporal, os vizinhos ouviram gritos, e a polícia chegou antes que ele pudesse consumar o ato. Então, o criminoso fugiu pela sacada.
Ainda desacordada, a vítima recebia os primeiros atendimentos pelo serviço médico. Enquanto isso, Claudete analisava cada detalhe, até que alguma coisa no chão lhe chamou a atenção – um chaveiro. Sem alarde, o pegou com uma pinça, e colocou dentro de um saco plástico. Devido à gravidade dos ferimentos, a vítima teve que ser removida para o hospital. Por isso, a identificação do criminoso não poderia ser feita naquele momento.
Na manhã seguinte, o resultado da análise do sangue chegou no destacamento. As digitais eram de Cláudio de Deus Silva, moreno, 30 anos, natural da Paraíba. Com o nome do criminoso em mãos, bastaria agora prendê-lo. O problema é que Miraflores era uma cidade muito pequena, onde todos se conheciam, por esse motivo não levou muito tempo para se descobrir que não havia ninguém com esse nome, e características, na cidade. Buscando no banco de dados da polícia, nada foi encontrado também.
Sem novas pistas, a inspetora lembrou da chave que havia encontrado no chão do quarto. Era de um armário – no chaveiro uma sigla UFVG. No mesmo instante, chamou o reforço, avisou o prefeito e o juiz, e partiu em busca do assassino. Chegando no local, o campus da Universidade Federal de Volta Grande, pediu que a levassem ao vestiário dos funcionários.
Ao encontrar o armário correspondente, uma nova reviravolta no caso – Vanessa Camacho era o nome inscrito na porta, o que não fazia nenhum sentido já que procuravam um homem. Mas quando abriram, encontraram lá dentro os troféus do assassino – um pote cheio de unhas, indicando que a lista de crimes era maior do que se pensava.
Quando Vanessa viu a polícia, saiu correndo para não ser presa. Uma operação foi montada para capturá-la, ainda sem estar clara qual a sua ligação com o criminoso. Imaginava-se, a essa altura, que ela poderia estar se relacionando com o assassino. Porém, durante a perseguição, acabou sendo atropelada por um carro no anel viário, e veio a óbito no local.
Com a morte da moça, só quem poderia juntar as peças desse quebra-cabeças era a inspetora. Qual seria sua ligação com Cláudio? Por que ela guardava os seus troféus?
Uma semana depois, no gabinete do Prefeito, Claudete se apresentou com o relatório finalizado.
-Então senhor prefeito, o caso está encerrado. Vanessa Camacho era Cláudio de Deus Silva, um transsexual que após a transição de gênero, passou a usar esse nome. Sua história, como de muitos outros trans, foi de violência e abuso na infância, principalmente tendo nascido no interior da Paraíba. Aos 16 anos saiu de casa, prostituiu-se nas ruas de João Pessoa para sobreviver, e conseguir juntar dinheiro para fazer sua mudança de sexo. Ela havia ingressado na UFVG há apenas um ano, mas já havia morado em outros três estados, onde ocorreram crimes semelhantes, que nunca tinham sido solucionados. Dessa vez, por um acaso ou má sorte, as coisas não saíram como o planejado, e ela ainda deixou cair a chave do seu armário.
-Quanto ao seu perfil psicológico, sofria de uma psicopatia grave, certamente agravada pelo histórico de abusos sofridos. Seu comportamento pode ser classificado como o de uma serial killer missionária, aquela que acredita estar cumprindo uma missão, ao cometer seus crimes. O que faz todo sentido, porque após a conclusão das investigações, descobrimos que todas as vítimas eram homossexuais – um gatilho para a mente distorcida da assassina. O desejo de exterminá-las seria uma forma de eliminar o próprio sentimento de rejeição do corpo e da sua sexualidade, que nunca deu conta de resolver. Inclusive, por essa mesma razão, não havia sinais de abuso sexual.
-Em relação à escolha do biotipo das suas vítimas, Cláudio era moreno, e sofria de alopecia androgenética. Já Vanessa era bem mais clara, com cabelos lisos e castanhos. Durante o trabalho da perícia, o legista descobriu que ela estava fazendo uso de cosméticos para clareamento da pele, e seus cabelos, na verdade, eram uma peruca. Mais uma vez, a inconformidade – agora com a própria imagem, foi o elemento motivador dos crimes.
Surpreso com a riqueza de detalhes e minúcias da investigação, o prefeito boquiaberto levantou uma dúvida.
-Muito bem inspetora, estou impressionado com tudo que a senhora me disse, mas só tem uma coisa que ainda não faz sentido para mim até agora. Por que ela deixava a assinatura no espelho, sabendo que poderia ser identificada pelas digitais, como de fato a foi?
-Prefeito, a cabeça de um assassino em série não funciona como a nossa. Vanessa sempre foi rejeitada, uma excluída, por isso a doença intensificava nela o desejo de ser famosa, de ser lembrada. Esse é um traço comum entre eles – não desejam apenas matar. Também querem ser reconhecidos pelos seus crimes.
Espantado com tanta informação, o gestor municipal despediu-se da policial, não sem antes assinar um termo de reconhecimento público, enviado aos seus superiores, como forma de gratidão pelos serviços prestados.
Ainda no carro, Claudete recebeu um chamado – uma nova missão a aguardava, dessa vez no interior do Mato Grosso.
A viagem
Beto, Maria, Taís, Bruna e Lobato não eram apenas grandes amigos. Convivendo desde muito jovens na Igreja, eram o Ministério de Louvor mais famoso da região.
Convidados para se apresentar em um Congresso Missionário em Salvador, na Bahia, decidiram ir de carro para conhecer os encantos do litoral baiano.
– Amor, te pego às três da manhã, o Lobato já está aqui em casa. Disse Beto para a namorada.
– Tá bom Beto, a Taís e a Bruna também já estão aqui. Beijo.
Na hora combinada, o rapaz pegou as meninas e seguiram rumo à Bahia. Dentro do carro muito louvor, risos e brincadeiras. Quando cruzaram a divisa do estado da Bahia, foi como se tivessem entrado em outra dimensão, tudo estava mais colorido, as paisagens pareciam coisa de cinema.
Quando a PRF chegou ao local, no Km 810 da BR 116, encontrou uma cena devastadora. Uma carreta bitrem havia invadido a contramão, e atingido um carro que seguia na outra pista. Com o impacto, o carro incendiou. Dentro dele cinco corpos – dois rapazes e três moças.
Após a apuração, a Polícia descobriu que o grupo seguia para um Congresso Missionário em Salvador, na Bahia.
O avesso da metade
Tudo estava indo muito bem, eles formavam um casal de dar inveja, daqueles de comercial de margarina…
– Opa, parou tudo! Lá vem você com essa história de casal perfeitinho. Você sabe que isso não existe, para quê ficar enganando o leitor?
–Você que é um mal resolvido, claro que existe, muitas vezes são as diferenças, os contrastes que completam o relacionamento.
Continuando de onde parei.
Eles eram um casal perfeito em suas imperfeições. Tudo ia bem – finanças, sonhos, vida a dois.
– Parou de novo, você vai mesmo insistir nisso?
– Claro que vou,
Mas é uma pena que perfeição não significa sentir-se inteiro, e ele um dia se deu conta de que faltava alguma coisa, só não sabia ainda o que era.
– Viu, não falei!
Até que um dia apareceu no seu caminho um outro rosto, tão imperfeito quanto o dele, mas que o completava por inteiro. Então ele entendeu. Largou tudo, e foi viver a aventura mais louca que jamais sonhou experimentar.
– Tá vendo, não disse que esse negócio de perfeito era papo furado?
– Não tem papo nem furado, ô seu frustrado. A perfeição é uma condição tão relativa quanto o próprio tempo, dependendo do instante em que você olha, ela poderá ser sua melhor ou pior escolha. E que bom que é assim,pois a vida nos dá a chance de errar, e depois tentar acertar de novo.
Sara
Aquela era para ter sido a viagem dos sonhos da família. Naturais de Vargem do Oeste, iriam de avião para a Capital. Paulo e Carla estavam ansiosos, mas quem não se aguentava era Sara, uma garotinha de cinco anos, moreninha como jambo, olhos cor de mel e lindos cachinhos castanhos – parecia uma bonequinha falante. E como falava! Era desinibida e muito simpática, ia com todo mundo que desse conversa
Assim que desembarcaram no aeroporto, Patrícia – a irmã mais velha e madrinha de Sara – os aguardava impaciente.– Dindinha, gritou a pequena que saiu correndo para abraçar a tia.
– Oi meu amor, que saudades.
Tudo corrIa bem, todos se divertiam muito, até que Patrícia resolveu levá-los ao Shopping, para Sara conhecer o “Fantástico Mundo de Lilo & Stich” seus personagens favoritos.
Do andar de cima, enquanto as irmãs conversavam, Paulo não tirava os olhos da filha. Até que Carla fez um pedido.
– Amor, pega um sorvete pra gente ali na praça de alimentação?
– Tá bom, mas fica de olho na Sara.
Quando o homem voltou com o pedido, perguntou:
– Você tomou conta da Sara, Carla?
– Lógico Paulo, ela está ali com as crianças.
Quando olhou para baixo, a mãe já não viu mais a menina.
– Ué, mais ela tava aqui a dois minutos atrás.
– Ah Carla, não acredito que você fez isso. Falei para você tomar conta.
– Calma gente, disse Patrícia apaziguando. Ela deve estar dentro de algum dos brinquedos.
Só que a menina não estava. Depois que deram conta de que Sara tinha sumido, a segurança do Shopping foi acionada, e todas as saídas foram fechadas. Começou, então, uma busca desesperada pela menina.
Os pais perguntavam cada pessoa com quem cruzavam, se tinham visto a filha deles. Até que a segurança lhes chamou a um dos banheiros do 1º andar.
– A senhora reconhece essas roupas aqui? Perguntou o chefe da vigilância.
Sobre o chão, o vestido que Sara usava seus sapatos, meias e os cachinhos de seu cabelo.
Sem acreditar no que estava vendo Carla soltou um grito, que ecoou por toda a cidade;
– Devolvam a minha filha, pelo amor de Deus!
O chalé do lago
Era para ter sido a realização de um grande sonho. A promoção no escritório, com a prerrogativa de trabalhar em Home Office, e morar no interior, longe da agitação do grande centro. Logo que viu o anúncio na internet, fez contato e fechou a locação sem pensar duas vezes. Tinha tudo que buscava – muito verde, uma piscina com área gourmet, e o charme de poder trabalhar do sótão, tendo como vista um lago maravilhoso.
Na semana seguinte estava chegando de mala, cuia e Snoopy, seu salsicha inseparável. Assim que desceu do carro, ele começou a correr e pular de alegria. O lugar realmente era muito mais lindo do que na internet. Quando abriu a porta, ele começou a latir sem parar, parecia que não queria entrar no novo lar. Depois de muito insistir, conseguiu colocá-lo para dentro. Saiu fazendo xixi em cada canto:
– Coisa de menino, pensou.
Malas desfeitas, foi ajeitar seu novo ambiente de trabalho:
– Nossa que vista! Realmente trabalhar com um visual daqueles, não tinha preço. Mas tinha consequência, e ela só iria entender isso dias depois.
Na primeira noite na casa nova, aproveitou para curtir um bom vinho, com a lareira acesa, saboreando um fondue de queijo. Tudo estava perfeito, até Snoopy começar a latir sem parar na janela.
– Que foi menino?
O doguinho estava transtornado, como nunca tinha visto antes. Pelo ouriçado, tremendo de nervoso, achou que fosse passar mal. Acendeu as luzes da varanda e do quintal, mas não viu nada. Teve que levá-lo para o quarto, e dormir para que se acalmasse.
Quando amanheceu o dia, assim que abriu a porta, ele saiu correndo para a varanda. E começou a latição novamente.
– Que foi garotão?
Perto da janela, uma galinha morta, sem cabeça.
– Cruzes, mas nem tenho galinheiro. Como isso pode ter aparecido aqui?
Prendeu o meninão, e foi limpar a sujeira. Depois pegou o carro, e foi ao vilarejo conhecer as pessoas e o comércio. Chegando lá, resolveu entrar em uma daquelas vendinhas de interior, um charme.
– Bom dia, o senhor que é o dono do estabelecimento?
Um senhor mulato, com um pano de prato nos ombros, e uma barba branca, respondeu cordialmente:
– Sou sim dona, Sebastião, ao seu dispor. A senhora deve ser a doutora que alugou o chalé.
– Sim, me chamo Renata, mas como o senhor sabe disso?
– Dona, aqui a gente sabe de tudo. A senhora pretende ficar lá por muito tempo?
– Se tudo correr bem, sim. Por quê?
– Nada não, dona. A senhora vai querer comprar alguma coisa?
– Não. Hoje estou vindo só para conhecer mesmo.
– Tá bom dona, mas toma cuidado. Aquele lugar costuma pregar peças à noite.
Sem entender o recado, se despediu, e voltou para casa. Chegando lá foi direto para a piscina aproveitar o dia de sol. À noite, estava no escritório trabalhando, quando seu fiel escudeiro começou a latir de novo. Dessa vez resolveu pegar uma lanterna, e investigar o que estava acontecendo. Acendeu as luzes, abriu a porta, e Snoopy saiu correndo. Olhou em volta da casa, e não viu nada de anormal. Quando chegou perto da piscina, tinha um coelho morto, sem cabeça, boiando dentro dela.
– Meu Deus, de novo?
Pegou uma peneira, tirou o bicho de dentro d’água, e ligou o filtro para limpar aquela sujeira. Entrou, e foi dormir. No meio da noite, acordou com alguém tocando seu corpo.
– Sai! gritou assustada. Acendeu a luz, e não tinha ninguém. Naquela noite não pregou mais o olho.
Quando o dia nasceu, se levantou e foi fazer um café para tentar recuperar o ânimo, por causa da noite mal dormida. Só que a sensação não saía da sua cabeça
– Como alguém poderia ter entrado dentro de casa e eu não ter percebido? E como desapareceu tão rápido?
Era domingo, então resolveu ir à missa na vila, o que não fazia há muito tempo, mas alguma coisa lhe dizia que devia fazer isso. Tomou um banho, se arrumou e saiu. Chegando na Igreja, foi recebida na porta pelo padre.
– Benção, padre.
– Deus te abençoe minha filha, você deve ser a advogada que se mudou para o chalé do Lago, não é isso?
-Não vou nem perguntar como o senhor já sabe, mas a resposta é sim. O senhor conhece a história daquele lugar?
– História? Minha filha no interior existe muita crendice, coisa de gente do interior. Aquela é apenas uma casa, como outra qualquer. Por que está me perguntando isso?
– Nada não padre, só curiosidade mesmo.
Entrou e foi se sentar no primeiro banco. De repente, ao seu lado sentou-se uma senhora com um xale escuro.
– Bom dia, você deve ser a moça da capital que mudou para o chalé.
– Sim, me chamo Renata, e a senhora? Qual seu nome?
– Conceição. Conheci os antigos donos de lá.
– É mesmo? Que bom, queria conhecer mais sobre a propriedade. Por que eles se mudaram? Algum problema de família?
– Problema? Não, minha filha, Dr. Alberto ficou viúvo, e foi morar fora do país.
– Ah, tá.
A conversa foi interrompida com o início da celebração. Ao final da missa, tentou saber mais sobre os antigos donos, mas a beata a dispensou, alegando pressa em cuidar do almoço do padre. Saindo da Igreja, seu Sebastião parou em frente ao seu carro.
– E então dona? Tudo bem no chalé?
Já curiosa e irritada com aquela situação, respondeu para o vendeiro.
–Não seu Sebastião, na verdade estão acontecendo coisas muito estranhas. Por duas noites seguidas apareceram bichos mortos, e ontem acordei assustada com alguém me tocando. Só que não tinha ninguém em casa.
– Olha dona, eu avisei para a senhora tomar cuidado, que a noite lá podia pregar peças.
– Tá mas o senhor não falou nada sobre bichos sem cabeça, nem sobre assombração no meu quarto. Respondeu, já meio destemperada.
– Preocupa não dona, como eu falei são só coisas da noite. Tem que ter medo não. Inté mais ver dona.
Sem que pudesse retrucar, o homem deu de costas, e saiu andando. Irritada, entrou no carro e voltou para casa. Como o dia estava nublado, resolveu entrar e tentar dormir um pouco, já que durante a noite não tinha conseguido. Colocou Snoopy na cama, fechou a cortina e apagou. Acordou já eram quase quatro horas da tarde, com os lambeijos do seu meninão.
– Você deve estar com fome não é moleque? Eu também. Vamos arrumar nosso almoço.
Foi para a cozinha, abriu uma garrafa de vinho enquanto cozinhava, colocou uma música no Bluetooth e relaxou. Se esqueceu dos perrengues iniciais, e até pode curtir um final de tarde tranquilo com seu companheiro na varanda, enquanto o sol adormecia na cabeceira do lago. Depois daquele dia, as coisas acalmaram. Foram três semanas sem nada de ruim acontecer. Até que tudo mudou.
Já estava morando há um mês no chalé. A rotina da cidade grande tinha sumido de sua lembrança. Com o fim dos problemas à noite, estava totalmente relaxada. Trabalhava algumas horas à tarde, e depois era só curtição. A semana mal tinha começado, quando ela acordou com alguém batendo palmas no portão. Ainda sonada, colocou um roupão e gritou avisando:
– Um minuto que já vou atender.
Ao chegar na entrada da casa, não havia ninguém.
-Ué, será que a pessoa não quis esperar?
Intrigada, entrou e foi checar na câmera de segurança, poderia ser alguma coisa do serviço, e o entregador foi embora. Só que quando checou as imagens, não havia ninguém.
– Meu Deus, será que vai começar de novo?
E começou. Naquela mesma noite, enquanto trabalhava no computador, a luz piscou várias vezes, e depois simplesmente apagou. Snoopy começou a latir furioso, e enquanto ela descia para ver o que tinha acontecido, começou a ouvir gritos e gargalhadas vindos do lado de fora da casa.
– Meninão, vem cá. Disse chamando o cão já com o coração disparado.
Foi aí que tudo piorou. Começaram a socar portas e janelas, como se elas fossem arrebentar. Desesperada, começou a gritar por socorro, mas sem conseguir ajuda, e nem ter o que fazer, caiu em prantos no chão tampando os ouvidos.
Então, tudo ficou quieto. As vozes cessaram, os murros nas portas e janelas pararam, e a luz voltou. Quando abriu os olhos, respirou aliviada:
–Meu Deus, acabou!
Mas bastou olhar para cima, para encontrar seu amigo Snoopy, pendurado por uma corda no lustre da sala, já sem vida. Descontrolada, a moça pegou apenas a chave do carro, e fugiu daquele lugar amaldiçoado para nunca mais voltar.
Três meses haviam se passado, e Renata ainda estava sob o poder de remédios, para se recuperar dos traumas vividos no chalé. Era uma manhã de domingo, e o sol já havia nascido bem forte, invadindo o quarto pela varanda do apartamento.
Quando abriu os olhos, agradeceu por estar viva e por aquela manhã tão linda. Levantou-se da cama, colocou o roupão, calçou os chinelos e foi até a varanda para curtir ainda mais aquele visual. Mas assim que abriu a porta, um grito de desespero acordou todo o prédio:
– Não !!!!!!
O chão da varanda estava coberto de sangue, e de pombos mortos, todos sem a cabeça.
Sincretismo
Toda manhã, Diocleciano servia na Igreja do Senhor, como ministro da eucaristia. À noite, era no terreiro do Pai Joaquim que ele ia pedir benção.
Livramento
Camila e Ticiane caminhavam distraídas conversando, em direção ao ponto de ônibus, quando um andarilho as abordou respeitosamente:
-Com licença, jovens senhoritas. Será que posso tomar-lhes um minuto de atenção?
Ainda sob o impacto da presença de um homem mal vestido, fedendo a álcool e urina, mas com um linguajar tão respeitoso, elas interromperam o passo.
-Oi moço, o que tá precisando? Se for dinheiro, já vou logo avisando que não dou, porque sei que o senhor vai tomar tudo em cachaça.
-Ora, mocinha. Por quem me tomas? Será que minha aparência é o bastante para formar tal juízo?
-Claro, respondeu Camila.
-Então, se eu fosse um homem branco, loiro, trajando um costume escuro, de corte italiano, com a barba feita e cheirando a colônia, o juízo a meu respeito seria outro?
-Olha moço, não preciso nem responder, preciso? disse Camila.
-Óbvio que um homem com essa descrição seria uma pessoa de bem, que de forma alguma nos causaria mal, disse Ticiane.
-Entendo caríssimas. É sempre mais fácil julgar um livro pela capa, não obstante a história recente nos mostrar outra realidade. Mas não vou tomar-lhes mais o tempo. Agradecido pelos instantes de conversação, desejo-lhes paz e bem.
E do mesmo modo que apareceu, o andarilho sumiu.
-Que coisa hein menina, cara doido.
-Pois é Camila, cada um que aparece.
Chegando no ponto, encontraram a maior confusão – sirene de ambulância e o corpo de uma jovem caído no chão.
-Gente do céu, o que houve aqui? perguntou Camila.
-Ih moça, uma tragédia, respondeu a fofoqueira de plantão. A moça estava sozinha ali no ponto, quando apareceu um sujeito e passou a faca no pescoço dela.
-Cruzes, disse Ticiane, e o maluco? Foi pego?
-Sim, os taxistas viram tudo, foram em cima e quebraram o desgraçado no cacete. Já a moça, tadinha, não teve sorte.
– E onde tá esse doido?
-Ali, algemado perto do camburão.
Encostado na porta da viatura um homem branco, loiro, de boa aparência, trajando um costume escuro, de corte italiano, com a barba feita e cheirando a colônia.
A estrada da grota
Todos os dias, quando voltava para casa de carro, era o mesmo tormento – encarar a estrada da grota. Uma via alternativa – da época das roças de café – que só tinha ruínas de fazenda, cemitérios abandonados, assombração e assalto. Para esse último, a solução era andar armado no carro.
Mas tudo estava mais sombrio do que de costume – lua minguante, curiangos piando ouriçados, e os bugios avisando que a noite prometia.
Quando peguei o pior trecho, onde o celular ficava sem sinal, o carro apagou. Batia a chave, e nada. Tudo funcionava, menos o motor. Sem carro, sem celular e em um lugar deserto e sombrio, a única solução era esperar alguém passar, ou o dia nascer.
Só que do nada, uma névoa espessa e branca começou a envolver o veículo. Quando me dei conta, estava fechado dentro de um maciço branco.
-Que porra é essa! – pensei já com o coração disparado. Passei a mão na pistola, e coloquei entre as pernas – em caso de precisão.
De repente, uma batida forte no vidro, e duas mãos surgem marcando a janela. Se fosse cardíaco, tinha feito meu passamento naquele instante. Com o coração saindo pela boca, apontei a arma, e então, ouvi:
-Moço, socorro!
Era a voz de um garoto com certeza. Ainda com o dedo no gatilho abro o vidro, e o rosto de um menino dos seus 13 anos, surge de dentro da névoa.-
-Moço, me ajuda. Meu pai caiu do cavalo, e está desmaiado ali no chão.
Na hora não sabia o que fazer, mas resolvi abrir a porta, e ver o que estava acontecendo. Estranhamente, assim que desci do carro, a névoa desapareceu, tão rápido quanto ela surgiu:
-E então garoto, onde seu pai está?
-Vem moço que eu vou te levar lá.
O moleque começou a me puxar pasto a dentro.:
-Calma rapaz, senão quem vai cair sou eu.
Quando percebi, estava dentro das ruínas da Fazenda do Desterro, a mais antiga da região, cheia de histórias. Diziam os mais velhos que todos da família morreram de maneira trágica, um após o outro, até não sobrar nenhum. Foram enterrados no cemitério que ficava atrás da sede.
Então, o garoto parou e falou:
-É aqui moço!
-Mas aqui é o velho cemitério da fazenda, seu pai caiu nesse lugar? Onde ele está? – procuro tentando iluminar com a lanterna do celular, para ver se achava alguma coisa.
-Bem aí na sua frente!
Quando clareio, vejo uma cova aberta.
-Mas aqui só tem um buraco?
-Sim, e é nele que você vai repousar – para sempre!
Com uma força descomunal para um garoto, ele me empurrou dentro da cova, e antes que eu pudesse reagir, um mundo de terra caiu sobre mim.
A hora morta
Francisco era um adolescente normal – bagunçava nas aulas, paquerava as bonitinhas da sala, adorava uma trend nova. Naquela manhã, Brigitte trouxe a novidade:
-E aí Francisco, já tá sabendo da boa?
-Tô não, passa a visão aí menina.
-É o seguinte – chama a “hora morta”. Dizem que entre 1 e 2 da manhã, um portal se abre, e você consegue se comunicar com os mortos. O pessoal está marcando de ir lá em casa hoje à noite, pra gente experimentar.
-Tô dentro.
-Mas tem uma coisa – quem participa não pode demonstrar medo, senão o guardião do portal o leva embora. Dizem que quem é levado, nunca mais volta.
-Que lôco menina, agora que eu quero participar mesmo.
O papo é interrompido pela chegada da professora.
Na hora combinada, ele bateu na porta da casa da colega. Os pais trabalhavam à noite, então a casa seria só deles. Junto com Brigite estavam Luca e Fabrício. Já era quase uma hora e, somente a luz das velas na sala, iluminavam o ambiente. Entre risos e sustos, o relógio avisou que a hora morta iria começar.
– Existe alguém aqui que queira se comunicar com a gente? – perguntou Brigite tomando a frente dos trabalhos.
Silêncio.
Então, perguntou novamente:
– O Guardião está aqui?
Nada.
-Ih garota, acho que isso aqui é uma furada, falou Francisco em tom de deboche.
De repente, as velas se apagaram, e uma voz sombria respondeu:
– Sim, estou.
A molecada que estava só na zoeira, deu um grito de susto.
-Quem falou isso Brigite? – perguntou Luca assustado.
-Não sei, respondeu a menina. Foi você Francisco?
-Claro que não, deve ter sido o Fabrício.
-Eu nada porra, to me mijando de medo aqui.
E a voz tornou a falar:
-Não queriam abrir o Portal dos Mortos? Pois bem, ele está aberto, e agora vou levar todos embora comigo, para sempre!
Então, a trupe corajosa começou a gritar e chorar, enquanto o Guardião gargalhava.
-Tarde demais seus merdinhas medrosos! disse em tom ameaçador. E a sala toda começou a queimar.
Na manhã seguinte, quando os pais de Brigite chegaram em casa, não encontraram a filha, nem tampouco os colegas, tudo estava arrumado como se nada tivesse acontecido. Dos quatro? Nunca mais se teve notícia.