Bola dentro

Amadeu era um heteronormativo, que nunca imaginou ter qualquer envolvimento fora da curva. Morando com Bruna há seis meses, a intimidade dos dois era presumível. Ao contrário do namorado, era uma jovem de alma livre, que não se prendia aos tabus da sociedade.

Certa noite, depois de algumas taças de vinho, durante o pré-jogo, Bruna surpreendeu com uma pergunta:

-Amor, o quanto você gosta de mim?

-Porque essa pergunta agora?

-É só responder sim ou não.

-Sim, podemos voltar para o aquecimento?

-Ainda não.

-Tá de sacanagem, Bruna?

-É justamente essa a questão.

Curioso, Amadeu guardou a chuteira.

-De que tipo de sacanagem estamos falando aqui?

-Ah Amadeu, você é tão preconceituoso!

–Começou? Agora termina!

-Você nunca desejou ter uma relação à três?

-Ah, tá. Uma suruba?

-Olha como você é, não estou falando de baixaria.

-Tá certo, ménage,.Todo homem hetero tem vontade de pegar duas mulheres.

-Mas pode ser também entre dois homens e uma mulher.

-Onde você quer chegar com esse papo?

-Na cama – eu, você e um outro rapaz.

-Pô Bruna, eu sou centroavante matador, não divido bola com ninguém.

-Mas não faria isso por mim? Quem vai receber a bolada sou eu, ué?

– Por acaso você está me traindo?

-Claro que não seu bobo. A gente contrataria um garoto de programa.

-Beleza. Para provar que não sou esse cara preconceituoso, eu aceito. Mas não me pede para participar da escalação. Você resolve tudo, e me avisa.

A moça escolheu o estádio, contratou o melhor atacante, e a partida teve início. Foi muita bola dentro – gol de placa, gol de cabeça, gol por cobertura. Findo o jogo, já voltando para casa, ela perguntou ao namorado.

-E aí Amadeu, você gostou da brincadeira?

-É, foi bom sim, até que o rapaz jogou bem. Mas ainda sou melhor atacante que ele.

Na semana seguinte, sem que a namorada soubesse, marcou um amistoso com o GP. Afinal, gostou tanto da chuteira do moço, que não resistiu à vontade de levar umas boladas nas costas.

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