Não basta (apenas) viver, tem que prosperar

Esses dias me peguei em mais um solilóquio existencial, refletindo sobre os percalços da vida, e as escolhas que nela fiz. Quanto aos caminhos que decidi trilhar, não tenho do que reclamar – toda tomada de decisão pressupõe chances de dar certo, ou de dar errado – por isso não me arrependo de nenhuma delas. Já sobre os percalços tenho que fazer ponderações, e por esse motivo esse textículo será escrito em primeira pessoa – serei o narrador-personagem desse causo – e tenho a certeza de que muitos que me seguem, e tantos outros, vão se identificar com aquilo que aqui será tratado.

Em primeiro lugar tenho que me qualificar nessa narrativa – sou um sujeito saudável, de boa formação humana e religiosa, com uma história de vida que me permite afirmar que conheci seu lado doce e amargo, com dotação intelectual e acadêmica acima da média e culturalmente bem formado. Trocando em miúdos, sou um exemplar daquilo que já se chamou (um dia) de classe média nesse país.

A vida é uma roda gigante, como sempre me lembrava um bom amigo, (que passou para as bandas de lá), e por esse motivo temos que saber interpretar suas fases. Problema há quando esse mecanismo emperra – em cima porque você perde a noção do que é real, mas principalmente quando ela resolve parar embaixo – aí meu amigo está a razão de contar essa história de hoje – não dá para apenas viver, sem vislumbrar a oportunidade de voltar a prosperar. E pode ser que alguém ache que estou falando aqui de valores monetários, do quanto tenho guardado em minha conta bancária, ou dos bens que consegui amealhar. Não é isso. Na verdade, falo sobre ter qualidade de vida, que tem a ver com o direito de fazer escolhas: das mais simples, como o que vou servir no almoço em minha casa, até as mais complexas – como, por exemplo, qual o tamanho da família que desejo construir, ou mesmo se pretendo ter filhos.

E esse entendimento sobre o que é importante (ou necessário) para me sentir realizado, explica tanto o modo de vida do Senhor Joãozinho que mora em uma tapera, e se sente bem dessa maneira, até o meu caso – um professor (expurgado da classe média para o limbo social) que deseja ter de volta a prerrogativa de escolher qual o modelo de ensino, e em qual escola irá matricular seus filhos. E aí, realmente, a questão financeira vai fazer toda a diferença, tanto em uma quanto em outra, pois tratam-se de expectativas e de objetivos distintos, não existindo, portanto, certo ou errado nesse caso.

Mas a roda da vida tem que voltar a girar, isso é fato. A dupla sertaneja César Menotti e Fabiano canta nos versos de uma música que “Nem era para você está aqui / Mas Deus falou assim / Esse aí vou levantar / E onde colocar a mão ele vai prosperar.” e esse é o sentido que busco construir para a minha vida, ao reconhecer que existe um tempo para tudo: de florescer e de murchar, de nascer e de morrer, mas que nem por isso posso colocar na conta de Deus a responsabilidade pelos meus infortúnios, ou fracassos.

Então, se o que eu busco é voltar a progredir (e ter qualidade de vida) não posso me acomodar diante dos obstáculos, nem tampouco ficar sentado achando que irá cair dos céus, em meu colo, a solução para os problemas que me impedem de chegar aonde desejo estar – tenho que levantar do chão, sacudir a poeira e persistir, até fazer acontecer de novo.

Não sei quanto a você, mas encerrando essa prosa metafísica digo que para mim a vida não pode ser resumida em levantar para ir trabalhar, dormir e pagar as contas no final do mês. Ela tem que ser mais do que isso, sob o risco de em não o sendo, transformar-se em um mero e enfadonho contar de dias na folhinha, “Com a boca escancarada, Cheia de dentes, Esperando a morte chegar”, como diria Raulzito, nosso eterno maluco beleza Raul Seixas.

Um comentário sobre “Não basta (apenas) viver, tem que prosperar

  1. O ultimo paragrafo de seu inspirador texto escrito de forma tão espontânea me remeteu a ideia apresentada por Roberto Kiosaky em seu livro Pai Rico Pai Pobre – Corrida dos Ratos.
    Um forte abraço,

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