Quando perder (tempo) é ganhar

“Resta, quanto tempo? Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros. Só se ouve o tic-tac… Só posso dizer: “Carpe Diem” – colha o dia como um fruto saboroso. É o que tento fazer.” Salve Rubem Alves e suas sempre belas e desconfortáveis crônicas, que nos sacodem e tiram do lugar comum. Por isso, enquanto ainda há tempo, quero refletir sobre a vida que temos levado nesse mundo caótico e apressado.

É fato que o avanço tecnológico alcançado hoje facilitou muito nossa rotina diária, das tarefas mais simples como fazer uma ligação no celular sem usar as mãos, até às mais complexas como ter uma inteligência artificial em casa que cuida da climatização do ambiente, e dos investimentos na conta bancária. É a sociedade do imediato, do instantâneo, onde tempo é dinheiro por isso não se pode dar ao luxo de perdê-lo. Mas qual o preço que se paga por isso?

Quando foi a última vez em que você parou tudo que estava fazendo para olhar a lua e as estrelas? E sentir o cheiro da chuva? Você se lembra do dia em que ligou para um amigo, apenas para perguntar como ele estava passando? Você que é pai ou mãe, há quanto tempo não senta no chão para brincar com seu filho, ou contar-lhe uma história? E deitar a cabeça em um colo quente para receber um carinho? Se lembra da última vez em que isso aconteceu?

O grande maestro Tom Jobim já dizia que “a gente leva da vida, a vida que a gente leva” e, mesmo sabendo disso, acabamos criando um paradoxo existencial: temos à disposição todo tipo de facilidades tecnológicas que deveriam servir para tornar o dia-a-dia mais ágil e eficiente, mas acabamos nos tornando reféns da própria criação: ao invés de sobrar tempo para usufruir as coisas mais simples e prazerosas da vida, o ritmo acelerado e frenético que a sociedade digital e cosmopolita nos impôs, fez com que o prosaico se tornasse obsoleto e desnecessário, difícil e custoso.

Engraçado é que os cinquentões da minha geração, apesar de terem presenciado a transição do mundo analógico para o digital, ainda guardam boas memórias de um outro tempo, onde chupar jabuticaba no pé, brincar de pique na rua, ou mesmo jogar conversa fora com os vizinhos na porta de casa eram a regra, e não a exceção. E os que vieram antes de nós então? Ah…esses de fato souberam “perder” seu tempo em uma vida cheia de cores, cheiros e sensações; de dores, mas também de amores. Viveram!

Colher o dia como um fruto saboroso é muito mais do que uma bela metáfora existencial. Certamente a sociedade seria menos cruel, as pessoas menos solitárias, os adultos menos deprimidos e nossas crianças e jovens menos problemáticos se pudéssemos embarcar no DeLorean para uma viagem “De Volta para o Futuro”. Quem sabe lá entenderíamos que a vida é como o fruto no pé, que tem que ser provado maduro – antes da hora amarga a boca, passado de vez faz mal ao estômago – por isso é importante que ela não seja tão somente um ‘corre’ diário (como os mais novos costumam dizer). O ter não deveria nunca ser mais importante do que o ser e o estar, até por que “perder tempo”, nesse caso, pode representar justamente o sentido para a “vida que a gente leva”, como bem lembrou o Maestro.

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