Zé Anacleto e a cidade chamada Desgosto

Primeiro dia no novo posto de trabalho. Zé Anacleto acabara de ser transferido para o serviço postal de uma cidadezinha chamada Desgosto. – Nome esquisito, pensou ele. Mais esquisito era o gentílico dos nascidos lá: Desgostosos. – Coisa de interior mesmo, finalizou já abrindo a Agência e colocando sobre o balcão sua plaquinha da sorte, onde se lia escrito:

Seja Bem Vindo – José Anacleto, Agente Postal a seu dispor.

Zé era assim – homem simples, sempre com um sorriso estampado no rosto, e por ter uma vontade incurável de ser útil, esse carteiro logo, logo ficou famoso na comunidade. Lamentavelmente uma tragédia acometeu Desgosto – uma tromba d’água épica quase varreu a cidade, derrubando postes e destelhando casas, até a Prefeitura e o Posto Médico foram atingidos. Mas o pior é que a única ponte que ligava o município à rodovia foi levada pela enxurrada.

Zé foi o primeiro a sair às ruas para ver se todos estavam bem, batendo de porta em porta. Até multirão de limpeza e reforma foi ele quem organizou, e foi graças à um telégrafo velho que conseguiu avisar as autoridades, e trazer ajuda para a comunidade.

Até que um dia o Posto dos Correios não abriu. Passaram dois, passaram três dias e os desgostosos começaram a comentar e reclamar maldosamente: – Vai ver tá assistindo jogo! – Ah deve estar é com mulher aí dentro! – Nada, é um preguiçoso mesmo que não quer atender a gente. Somente quando as carnes começaram a feder, que a PM foi chamada para arrombar a porta. Ao entrar encontraram Zé já morto, com o corpo debruçado sobre o balcão de atendimento, e as mãos postas sobre a sua plaquinha da sorte.

Você conhece algum Zé Anacleto? Pois deveriam existir muitos mais dele por aí, talvez assim a sociedade fosse menos acinzentada e triste. Isso porque a cada dia estamos mais armados, metaforicamente falando (alguns de fato), acreditando sempre no lado mais obscuro do humano, desconfiando de tudo e de todos. Mas a pior consequência desse mal da contemporaneidade é a perda da empatia, que não é caridade, nem tampouco simpatia.

Segundo a Psicologia é a capacidade de você sentir o que uma outra pessoa sente caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela, ou seja: procurar experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro a fim de tentar compreender sentimentos e emoções. Difícil isso, não é? Especialmente quando estamos cada vez mais individualistas e ensimesmados nas nossas neuras e frustrações.

Engraçado que, durante a Pandemia de Covid-19, essa virtude floresceu em cada rua, em cada esquina – cantores anônimos alegravam seus vizinhos nas sacadas, voluntários levavam comida para os idosos isolados nos apartamentos, as famílias se reencontraram, depois de uma vida inteira, na mesa do almoço. Pena que isso foi só uma nuvem passageira. Passadas as restrições do vírus, ao que parece, nenhum aprendizado restou dessa experiência cataclísmica.

Hoje voltamos a viver em um mundo cruel e egoísta, onde mesmo que você veja o vizinho do 9º andar (com quem você nunca trocou nem um oi) com o carro quebrado na esquina, irá fazer de conta que não enxergou para não ter que ajudar. Ou se um desconhecido cair na sua frente na rua, irá mudar de calçada para não ter que prestar socorro. Afinal, você não é paramédico e nem pode perder tempo esperando o SAMU chegar, não é essa a lógica? E o vizinho idoso, que mora só, chato e ranzinza? Se ele ficar sem colocar a cara na rua um, dois, três dias que diferença fará? Afinal quem vai sentir falta, não é mesmo?

E o que mais me preocupa nisso tudo é que a Escola, que deveria ser a mola transformadora da sociedade, é conivente com essa situação. Quantas catástrofes, próximas ou distantes, já vivemos nos últimos tempos? Você conhece alguma que promoveu campanha de arrecadação para os desabrigados, ou uma gincana beneficente para apoiar aqueles que a diversidade atingiu? Se nem ela consegue estimular a empatia em nossos futuros adultos, realmente não dá para esperar outro fim para Zé Anacleto que não seja feder sozinho até que as carnes sejam comidas pelos vermes.

Leonardo Boff afirma que “Temos, urgentemente, que curar nossa alma ferida, resgatar nosso Centro e nosso Sol interior, mediante a acolhida das diferenças sem permitir que se tornem desigualdades, através do diálogo aberto, da empatia face aos que mais sofrem”. Enquanto isso não ocorrer, nossa sociedade vai continuar produzindo mortos-vivos que apenas vagueiam pela bruma espessa, sem enxergar uns aos outros, e nesse entremeio as carnes do vizinho irão se decompor, esquecidas no sofá da casa ao lado.

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