Esses dias fui instado a dar minha opinião sobre a questão da Diversidade dentro do ambiente escolar. Oportunidade ímpar de desfazer mitos e corrigir incorreções de sentido. Diversidade? Qual? Aquela que virou bandeira política a serviço do interesse de determinados grupos? E que a tem como chamariz ideológico? Não. Pelo menos para mim, não. Minha bandeira é a Educação, por isso esse “Canto da Sereia” não me atrai, nem tampouco me convence.
Somos unos e dispares, cada um tem uma assinatura, uma marca que lhe é própria e não me refiro aqui às questões meramente morfológicas (sem me ater ainda às da Psiquê). Nossa grafia é um traço identitário, como nossas digitais, nosso tom vocal, ou a íris, ou mesmo o nosso cheiro. Somos, naturalmente, diversos uns dos outros. Portanto, essa narrativa em torno de uma “diversidade” é, no mínimo, redundante. Dessa forma, em se tratando de Educação, qual o melhor caminho para se tratar desse assunto, tão intrínseco à nossa humanidade?
A resposta a essa pergunta eu encontro nas aulas de Filologia Românica, ministradas pelo saudoso, e eterno Magister, Professor Mario Roberto Zagari. Respeito – do Latim “Respectus“, proveniente do verbo “Respectāre“, no sentido de “considerar” ou “prestar atenção ao redor”. E como um vocábulo que contém somente 8 letras pode ser a resposta para uma “polêmica” que parece insolucionável dentro das escolas nos dias de hoje?
Resgatando a “Cultura do Respeito”, e isso é bem mais simples do que parece, basta começar pela base, pelos pequeninos, na Educação Infantil que já são naturalmente desprovidos de “pré-conceitos”. O grande problema, no meu modo de enxergar as coisas, é que a nossa sociedade esqueceu-se do quanto é importante cultivar esse valor – só nos lembramos dele quando temos os interesses próprios, de algum modo, atingidos. Aí é um grande “(des)respeito”, não é mesmo? E como a própria raiz etimológica da palavra denota, respeitar não é sinônimo de amar, nem tampouco de ter como amigo, ao contrário, é apenas uma questão de ter consideração, de dar a atenção devida. Trocando em miúdos, o Respeito é o exercício diário da tolerância, a arte da boa convivência em sociedade.
Trazendo esse conceito para o ambiente escolar, antes de “ideologizar” a diversidade de coisas mais complexas como cor, raça, religião e orientação sexual (como os especialistas de plantão tanto gostam de fazer) é necessário falar com nossos educandos sobre coisas bem mais simples (e não lembradas) como a tolerância e a boa convivência com as suas famílias, com os mais velhos, com os professores e colegas de classe, com os meninos e com as meninas e, por que não dizer, consigo mesmos? Sem respeito às coisas mais simples, como tolerar as mais complexas?
Em tempos de Pandemia, a Covid-19 trouxe à baila a discussão de um tema pouco usual ao nosso olhar ocidental (e tão comum aos nipônicos), que é a cultura do autocuidado, representada hoje pelo uso das máscaras (cuidar de si, mas pensando também no outro), mas que deveria fazer parte do Currículo na Formação Básica em nossas escolas, menos pelo uso do acessório, e mais pela preocupação e tolerância com o próprio corpo, o qual se transformou hoje em uma grande vitrine para os jovens, onde é mais importante parecer (esteticamente ou socialmente) aceitável, do que ser saudável e bem resolvido com a própria história de vida, aceitando suas imperfeições morfológicas, incoerências sentimentais ou mesmo as deficiências (físicas ou não) a que esse invólucro material (apelidado de corpo humano) está sujeito.
Nesse sentido, questões como autocuidado, valorização e importância daquilo que deveria ser íntimo (esse termo perdeu totalmente seu sentido e alcance, já que os jovens vivem sob o domínio da espetacularização da intimidade) e maturação no tempo certo são deixadas de lado, e assim temos (cada vez mais) dentro das escolas públicas e privadas jovens (recém-saídos da fase infantil) transvestidos em adultos, mas sem a respectiva e necessária consciência das responsabilidades que um corpo assim demanda de quem o possui. E essas crianças adultizadas estão sendo educadas para (con-) viver bem e tolerar o próprio corpo?
A Escola deve ser a ‘Casa Máter’ do Respeito, do estímulo à tolerância e à boa convivência entre alunos, professores, servidores e famílias, sem que para isso seja necessário emitir juízo de valor ou opinião favorável (ou contrária) sobre as subjetividades do outro, isso porque um dos sentidos dessa palavra é justamente a consideração, que significa dar atenção, mas que não é sinônimo de concordância, por isso misturar o ideologismo de grupos minoritários (por mais justos e sedutores que possam parecer às nossas convicções políticas) com o conteúdo lecionado (ou mesmo com o Currículo da Formação Básica) podem levar a equívocos seriamente danosos à vida dessas crianças e jovens, futuros adultos problemáticos.
Um exemplo disso é a questão de gênero associada ao ideário do Feminismo (sem aqui colocar em dúvida se os valores desse movimento são certos ou errados). Enquanto a Escola (como alguns assim o desejam) discute o gênero em termos ideológicos, meninas são violentadas em casa por pais e familiares, professoras e servidoras se tornam estatísticas do Feminicídio no Brasil. Ao mesmo tempo, os meninos que acompanham esse tipo de violência (quando não participam, ou se tornam vítimas dela), poderão se tornar no futuro Maridos e Pais violentos e/ou violadores, isso porque eles não aprenderam a importância do respeito com o outro sexo – o feminino, até porque na sua escola nunca ouviram falar sobre Identidade e Igualdade entre homens e mulheres, somente sobre a tal Ideologia (a de Gênero).
Por esse ser um assunto tão sério, que expõe o quanto de preconceito e discriminação podem existir dentro do ambiente escolar que, em maio de 2015, durante a realização do Fórum Mundial da Educação, realizado na cidade de Incheon, na Coréia do Sul, 1600 participantes de 160 países, comprometendo-se com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável – ODS 4, (Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030), assinaram a Declaração de Incheon, que tem como princípio “Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos” . Mas para que isso de fato aconteça é necessário antes vencer barreiras discriminatórias que impeçam, ou dificultem, o acesso universal à uma educação de qualidade ao longo da vida.
Para tanto, os signatários da Declaração comprometeram-se ratificando que a Inclusão e equidade na e por meio da educação são o alicerce de uma agenda de Educação Transformadora e, assim, comprometem-se a enfrentar todas as formas de exclusão e marginalização, bem como disparidades e desigualdades no acesso, na participação e nos resultados de aprendizagem.
Reconheceram, também, a importância da igualdade de gênero para alcançar o direito à educação para todos. Dessa forma, estarão empenhados em apoiar políticas, planejamentos e ambientes de aprendizagem sensíveis ao gênero; em incorporar questões de gênero na formação de professores e no currículo; e em eliminar das escolas a discriminação e a violência de gênero. Por isso que a Sub-Secretária da ONU e Diretora-Executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, afirmou que “A Declaração de Incheon nos compromete adequadamente com uma educação não discriminatória, que reconheça a importância da igualdade de gênero e do empoderamento das mulheres para o desenvolvimento sustentável.”
Por esses e outros motivos (e pela objetividade que essa narrativa exige) que reforço a premissa que deu origem a todo esse palavrório, a qual preceitua que é necessário repensar a Escola que é oferecida, hoje, aos nossos educandos – ao invés de um espaço de disputas por “protagonismo ideológico”, que ela seja uma Escola Viva que ensine o “Respeito às diferenças”. Mas não podemos nos esquecer: ele (o Respeito) é uma rodovia de mão-dupla, e para obtê-lo é preciso também oferecê-lo. A não observância dessa regra (invadindo a contramão de direção) pode causar um grave acidente de trânsito, com vítimas tanto de um lado, quanto de outro.
Ah, e já ia me esquecendo, como disse na abertura desse textículo, foi solicitado que eu me posicionasse sobre a questão da Diversidade no ambiente escolar, mas acabei falando tanto, que não deixei clara qual foi a minha resposta sobre o assunto. Então, como trabalhar o tema da “Diversidade na Escola?
– Com o Respeito, é claro!
Professor Sérgio Soares
Bom dia!
Sabe aquele dia que você acorda, olha pela janela e vê tudo lindo lá fora, no entanto o cansaço não permite que o corpo se levante da cama? Você começa a mexer no celular e encontra a obra de arte de um conhecido professor e a leitura toma conta dos pensamentos? Foi assim, meu domingo, em 14 de março de 2021, um professor entrou na minha casa, pelas redes sociais, tirou minha atenção do entorno , me fez descumprir as regras do Lockdown, pois me permitiu viajar junto com ele. Fica aqui minha gratidão pela alegria que vc me proporcionou. Que venham mais e mais histórias. Um grande abraço!
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