Educação: direito universal do povo, força transformadora da Nação

Existem várias formas lícitas de se mudar de vida, dentre elas posso destacar: o anônimo da internet que de uma hora para outra “viraliza” um post, e se transforma em celebridade virtual; o moleque bom de bola, que cai numa peneira e vira astro do futebol europeu; o sujeito que dorme pobre e endividado, e acorda milionário, graças à um bilhete da MegaSena. Todas reais, e possíveis, mas só conheço uma maneira de transformar uma pessoa – a Educação. E antes que eu alguém venha dizendo que quem educa é a família, me refiro a Educação enquanto processo formativo e transformador, que permite ao indivíduo decifrar enunciados, construir sentidos e analisar o mundo à sua volta, indo assim, além dos valores subjetivos que a família pode oferecer tais como moral, caráter e honestidade.

A Escola, Casa Máter da Educação, vai muito além do Ler, Escrever e Contar, tão falado hoje em dia por movimentos conservadores, que acreditam que os desvios de rota da Escola brasileira, se resolverão através de um saudosismo pedagógico, que em nada se aplica à realidade plural e multifacetada que a vida em sociedade cobra hoje das novas gerações – é como tentar alfabetizar uma criança contemporânea, utilizando para tal uma cartilha do século passado, onde ainda se escrevia farmácia com ph.

Em textículo recente, comparei a escola (e seu desempenho) à famosa Torre de Pisa italiana que, depois de nascer inclinada, começou a ter sua deformidade corrigida graças a uma ousada intervenção de engenharia, que estaqueando toda a construção com cabos de aço, retirou a terra argilosa e lamacenta que ocupava suas sapatas, e as preencheu com chumbo, denso e pesado, que começou a devolver ao prédio uma estabilidade vertical, que nunca tinha tido antes.

A metáfora da Torre Inclinada representa perfeitamente o estado da Educação brasileira nos dias de hoje – da mesma forma que ninguém constrói um prédio para inclinar e cair, a Educação não pode ter como objetivo final ser um corpo semiacabado, incompleto e imperfeito, como o é hoje. Mas o que levou a Torre italiana a quase vir ao chão, é o mesmo motivo que faz com que o ensino no país seja ainda tão cheio de contrastes e ondulações, poucas ilhas de excelência, e um mar de deficiências – a Base, construída em terreno argiloso e lamacento, em Pisa, e por aqui abandonada e sem prestígio na Educação Infantil. Mas onde está o “engenheiro”, responsável técnico dessa obra, que está levando a Educação Brasileira a uma quase tragédia estrutural anunciada?

Na verdade, se eu for buscar um autor para essa obra, o roll de culpados pode ser maior do que toda a torcida do Flamengo, isso porque esse desastre começou a ser construído não agora, Dezembro de 2019, mas há alguns anos, na verdade décadas atrás, quando as “normalistas” começaram a desaparecer do mercado, sinalizando um gradual desprestígio desse ofício. Depois veio o Magistério, que também paulatinamente veio sendo apagado, com a facilidade do acesso às formações em nível superior em Pedagogia e, mais recentemente, em Normal Superior.

Esse excesso de especialização, causado pelo crescimento dos cursos superiores, levou à desvalorização da tarefa que deveria ser a mais importante de toda a docência, educar os pequeninos, por isso é difícil achar hoje professoras que queriam trabalhar com os ciclos iniciais (fato semelhante ocorre nas Universidades com o advento da “Doutorização” – temos muitos Doutores e Pós-Doutores nas instituições de ensino superior, e poucos Professores de fato, já que os “Doutos” não querem dar aulas nas turmas de graduação, talvez por representar algo de “menor” importância, ou ainda, menos rentável do que as Bolsas de Pesquisa que recebem (financiadas pelas Agências de Fomento).

Concomitante ao problema da carreira docente, a Educação no Brasil sofreu um profundo revés quando da implantação do projeto da Esquerda para o país que, validando seu discurso de oposição a tudo que lembrasse conservadorismo, ditadura e repressão, adotou uma postura diametralmente oposta, inspirada no modelo do Liberalismo econômico – o laissez faire – mas que de fato virou nos movimentos sociais um “deixa fazer”, ou um “libera geral”.

Essa esquerdização surgida nas universidades trouxe ainda impactos pedagógicos importantes, pois tudo que até então era visto como subversivo, revolucionário e contestador, antes restrito aos guetos ideológicos das faculdades e cursos da área de Humanas, tornou-se a práxis discursiva nos campi brasileiros, e na cauda desse cometa tomaram corpo e forma todo tipo de movimento social e político do país – do feminismo até os atuais coletivos sociais – que, tal quais os ônibus urbanos, têm para todos os gostos e opiniões.

O modelo de Educação que foi implantado no Brasil sepultou de vez qualquer brilho ou prestígio que pudesse ainda existir nas formações técnicas (como o Magistério e o Curso Normal, além dos demais cursos técnico-profissionalizantes), e assim foi difundida a cultura do Ensino Superior, como se o diploma de terceiro grau fosse o ápice do alpinismo social a que a classe humilde e trabalhadora pudesse almejar – formar um filho “Dotôr”– vendendo, assim, um sonho de realização pessoal e financeira. Para além das carreiras de ponta (segundo a visão da época), o Brasil precisava de mais professores – portanto ampliaram-se vagas (em especial no turno noturno), criaram-se novos cursos e novos campi, e incentivou-se a iniciativa privada a chegar até onde os braços do poder estatal não poderiam alcançar, inclusive através do Ensino à Distância.

Não bastasse a ampliação das vagas, dos cursos e dos campi, para que essa política de fabricação de diplomados fosse eficiente, era necessário ampliar o acesso, que deveria ser universal, e assim criaram-se as políticas de cotas, feitas sob medida para atender às tão bem quistas minorias sociai. Mas para facilitar ainda mais esse acesso, era necessário que as escolas não “embarreirassem” esses futuros novos professores, médicos e engenheiros, portanto, laissez faire, ou seja, facilita quem não complica, e assim cada vez menos retenção nas séries era o sugerido, e cada vez menos cobrança nas avaliações, era o esperado.

Como resultado da formação recebida, esses novos professores formados pela Universidade Universalista dos Movimentos Anti-Direitistas, trouxeram para dentro das salas-de-aula uma “bagagem” cultural e conteúdista “renovada” que se baseava no programa da heroica revolução marxista, leninista, socialista,  e “ista”, e mais “ista, transformando, assim, a Escola  em um palanque para a disseminação de Ideologias da Esquerda, e de construção de novas militâncias, totalmente distante do seu objetivo primordial, que é o de Ensinar, e não convencer.

Como a toda ação corresponde uma reação, como bem lembra Isaac Newton, esse “modelo de ensino” imposto ao país que não investiu na Educação Básica, e é baseado mais em uma visão de Ideologias, do que em uma prática metodológica e de conteúdos, teve como resultado um acesso universal que franqueava a entrada nos cursos superiores, mas não garantia sua saída; um crescimento sem controle dos cursos de graduação (das áreas mais nobres como Medicina, até às menos desejadas como Pedagogia) e que levou a um boom de graduados desempregados, ou trabalhando como motoristas de aplicativo (regra de ouro do mercado, muita oferta representa baixa empregabilidade); à queda na qualidade do ensino oferecido nas Redes Públicas (sofrível, para dizer o mínimo), como atestado pelos indicadores oficiais e, mais recentemente, à “descoberta” de que o ensino superior brasileiro, ao contrário do que se imaginava, apresenta baixa proficiência de ensino – confirmada pelos resultados do ENADE – e baixa produtividade e relevância científica – diagnosticada através do grande número de cursos Stricto Sensu descontinuados pela CAPES.

Retomando a metáfora da Torre de Pisa, posso afirmar que, se na Itália os engenheiros conseguiram conter a inclinação utilizando cabos de aço para sustentar a edificação (enquanto as medidas corretivas eram adotas), no Brasil, a “Torre” só não caiu ainda, graças à existência de um “estaqueamento” representado pelo Sistema de Ensino concorrente ao da Rede Pública – o da Rede Privada – que, antevendo o sinal dos tempos, veio se atualizando, modernizando suas práticas pedagógicas e investindo na qualificação do material humano (isso desde a Educação Infantil), o que lhes trouxe como consequência (por exemplo) fazer parte da fatia dos 2,5% dos alunos participantes do Pisa, que conseguiram atingir resultados satisfatórios nas avaliações realizadas no último exame.

Não existe melhoria do desenvolvimento social, econômico, da qualidade de vida e da distribuição de renda e riquezas em um país, sem um Projeto de Educação sério, consistente e que foque naquilo que realmente importa. Que invista em Educação Básica, de maneira isonômica, assegurando não só a existência da Educação Infantil (não basta construir creches e novas unidades educacionais), mas a qualidade do material humano e pedagógico utilizado para o seu desenvolvimento, base sólida como a do chumbo empregado na estabilização de Pisa.

Educação é um Direito Universal, portanto, não é despesa e sim investimento na formação dos milhões de Joãos, Marias, Josés e Alices espalhados por aí (único meio inexoravelmente democrático de transformação dos indivíduos), e que formarão a base sólida para a construção de uma Nação forte e soberana. Sem ela não haverá médicos, advogados e nem engenheiros, pois não haverá, também, professores capazes de ensinar àqueles que teriam como missão curar, defender e construir pelo país afora.

Esses dias ouvi uma expressão que chamou muito a minha atenção, e que se encaixa perfeitamente na conclusão desse textículo “EDUCAÇÃO É PRA QUEM CONHECE!” Realmente tenho que concordar, ela não é para leigo (nem para oportunista), mas para um iniciado, capaz de superar adversidades, construir pontes e unir caminhos, que a vida tantas vezes insistiu em separar, graças à sua alma de educador. E para quê faz isso? Por reconhecimento social ou financeiro? Não! O faz para não repetir os mesmos erros até aqui vistos, onde entregar à sociedade aprovados, concluintes e graduados é o que basta (como em uma verdadeira fábrica de diplomas), mas sim para transformar pessoas, essa é a sua missão! Só assim a Torre da Educação Brasileira deixará de ser, um dia, inclinada.

Professor Sérgio Soares

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