As duas histórias de Maria

Foi na pequena Prosperidade (sim, aquela mesma por onde passou recentemente a Jabiraca do Doutor Capélo), que nascera há alguns anos, no dia 07 de Outubro, a pequena Maria, chamada do Rosário pelos pais – ele Ministro da Eucaristia, ela Catequista – em homenagem à Santa Padroeira da cidade.

Filha de um casal de lavradores, tão trabalhadores e honestos quão religiosos e preocupados com a educação de sua pequena, duas coisas lhes eram muito caras – primeiro a devoção à Santa Igreja Católica, representada na cidade pela Matriz de Nossa Senhora do Rosário, e depois à Educação, bem mais precioso de uma família de pais que não tiveram acesso ao estudo.

Desde muito cedo Maria se destacou: na escola, durante as rodas de história e versos, era sempre a mais sabida; na Igreja, apesar da pouca idade, já tinha na ponta da língua todos os hinos, mas a grande surpresa veio quando, ainda sem contar 6 anos, sentou-se ao teclado da Matriz e tocou e cantou a Ave Maria de Gounot, em Latim.

A simplicidade e o amor dos pais, nunca lhes deixaram perceber nas sabitudes de Maria, nada que não fosse explicado pela intervenção e graça da Madrinha de consagração da pequena –  Nossa Senhora do Rosário. Até que um dia, logo depois que completou 7 anos, começaram a perceber que a menina estava perdendo seu brilho e encanto. Tal qual uma rosa ainda em botão no jardim, ela começava a murchar.

Foi aí que, chamados à escola, descobriram que a menina também estava indo mal nos estudos e, recomendados pela professora, procuraram atendimento médico na cidade mais próxima – Mais Prosperidade. Saindo da consulta, foram direto mostrar à professora o papel que o Doutor havia lhes entregue, sem entender ainda de que mal a filha sofria, onde se via escrito – Paciente com sinais de Superdotação e Altas Habilidades, recomenda-se Atendimento Especializado.

Ao ler o papel, a professora se apressou em tranquilizar os pais, lhes dizendo que aquilo não era nada com que devessem se preocupar, que a escola não dispunha daquele tal “Atendimento Especializado”, mas que era só pegarem firme com Maria nos estudos em casa que, com o tempo, aquilo tudo iria passar.

Por um daqueles sortilégios do Destino, há 500 quilômetros dali, na Capital, no mesmo 07 de Outubro, do mesmo ano, nascera uma outra Maria, essa chamada Antônia, filha de pais médicos que possuíam, além de estudo, sabedoria para perceber os pequenos sinais que a pequena passara a lhes mostrar.

Ainda no Pré-Escolar, era ela quem organizava as brincadeiras e liderava os coleguinhas. Em casa gostava de mexer nos discos do pai, se apresentando nas festas familiares dançando e cantando em inglês, língua que repetia perfeitamente mesmo sem entender, ainda, o significado das palavras.

Na mudança de ciclo, quando Maria passaria a ser alfabetizada, seus pais procuraram atendimento especializado, onde foram orientados a matriculá-la em uma escola que desenvolvesse um trabalho voltado para crianças com Altas Habilidades, pois nesse espaço a pequena notável poderia crescer sem a supressão, ou o estímulo exagerado, dessa ou daquela potencialidade, dando-lhe condições para desfrutar de uma infância feliz, e um desenvolvimento saudável.

E quanto a Maria do Rosário? O que aconteceu com ela? A pobre pequena ainda está lá, em Prosperidade, seguindo o curso que a vida lhe ofereceu. Se está feliz? Não sei, apenas posso afirmar que a menina que passou a frequentar a escola todos os dias, triste e apagada, não era a mesma que nas Missas de domingo se transformava, cantando e tocando os hinos do Missal. Duas Marias e uma mesma história, mas para as quais a sociedade proporcionou finais diferentes.

Ps. : Essa é uma obra de ficção, livremente inspirada em fatos reais (ou não), qualquer semelhança não é mera coincidência.

Sérgio Soares

Deixe um comentário