Dia desses, saindo da missa, avistei Seu Lazin sentado num dos bancos da praça, pitando seu cigarro de palha. Então resolvi parar e puxar um dedo de prosa com esse sábio velho.
Conversa vai, conversa vem, e vimos saindo da igreja a viúva Sossegado, que como boa beata, era sempre a primeira a chegar à Missa, e só saía quando Padre João Maria, já cansado e com fome, aceitava seu convite para o tradicional repasto dominical em sua casa.
Assim, saía aquela velha toda encorcorada, com seu traje mais preto que as penas do anú, e o véu cobrindo o rosto. Padre João Maria, como era do tipo folgadão, seguia a incansável beata, com seu passo de pé de valsa, mas essa é uma outra história.
Revendo aquela cena fiquei intrigado pensando como em uma cidade tão pequena, poderiam existir tantos tipos incomuns como aqueles que o velho Lazin não perdia a chance de me apresentar, através de seus causos? Para não perder o costume, pedi a ele que me contasse a história daquela viúva, de nome tão esquisito quanto sua figura.
O bom velho deu mais uma tragada, ajeitou-se no banco e começou a contar:
Diz a história que a família Sossegado veio parar aqui em Morro Grande logo depois que os homenzinhos da Laranja por aqui passaram, por isso é uma das famílias mais tradicionais dessas bandas, e que ajudou a construir a cidade.
Na sua história tem todo tipo de gente – coronel rico, coronel quebrado, louca, bandido, padre e até bispo, mas a personagem mais famosa da família foi, sem dúvida, a “Virgem de Porcelana”.
Segundo contam, a viúva, de nome Maria das Graças, casou-se com um primo, de nome Tomás, como era bem do costume dessa família, pois, assim, na falta de algum deles, os bens permaneciam nos domínios dos Sossegado.
Apesar do nome, essa gente sempre foi muito agitada, e não perdia a chance de se meter em política e na vida clerical da cidade, tirando ou colocando Padre quando seus interesses eram contrariados, ou quando achavam que os dogmas da Santa Sé estavam sendo corrompidos.
Foi justamente por esse espírito belicoso que Dona Maria das Graças Sossegado ficou viúva ainda jovem, quando seu marido, Coronel Tomás Sossegado (que já nem tinha mais terras, mas não abria mão do título), à época candidato à vereância municipal, meteu-se em uma briga com os D’Agosto, família cuja tradição na cidade, era tão antiga quanto a rixa que separava as duas linhagens. Assim, durante o pleito municipal, o Coronel Tomás sacou da sua peixeira e atacou seu adversário político, o Dr. José D’Agosto, que, mais rápido, tacou-lhe uma azeitona no meio das fuças.
O velório foi motivo de frenesi, afinal não era todo dia que morria um morador tão ilustre na cidade. A viúva cuidou das celebrações mortuárias com esmero digno de um monarca, com direito a desfile do cortejo fúnebre pelas ruas e até missa de corpo presente celebrada em Latim, especialmente pelo Bispo da Arquidiocese, que veio da Capital especialmente para tal sacramento.
À celebração compareceram todos os Sossegados vivos, inclusive os dois filhos: o primogênito, Padre Pedro Sossegado, que fora enviado ao Seminário de Santo Onofre assim que completou idade, e Maria da Saudade, filha mais nova, que estava encomendada para o Convento, aguardando apenas completar os anos necessários.
Nessa época, Maria da Saudade era ainda uma menina, com apenas 13 anos de idade, mas já carregava aquela que seria sua marca na história da cidade, um véu branco, de fina renda, que cobria o rosto, deixando de fora apenas seus longos cabelos loiros, que corriam pelo seu ombro como as águas do Paraibanha que desciam em direção ao mar, contrastando com a alvez da sua pele, clara como a mais fina porcelana.
Além dos familiares mais próximos, somente o Padre João Maria e o Doutor Andradas – conhecido como o “homem dos cabelos de fogo” – já tinham avistado seu rosto descoberto, e muitos apostavam que, por detrás daquele véu, devia se esconder a moça mais bela daquelas terras.
Passado o sepultamento, a viúva Sossegado (que foi como ela passou a se denominar) fez cumprir o luto oficial de um mês, prorrogado por mais seis meses e, não satisfeita, só liberou a família do enlutamento após três anos decorridos.
Foi nessa época que chegou à cidade, vindo da capital, um jovem moço cujo nome ninguém conhecia, dele só sabiam o ofício, pois vivia pelas ruas e pela praça declamando versos de amor, de bravura e de amizade. Para toda situação o Poeta, como passou a ser chamado, trazia à boca uma estrofe.
Numa das manhãs de domingo, após a missa de três anos e meio de falecimento do Coronel Tomás Sossegado, divisou aquela que jurou ser sua diva, a razão de toda sua inspiração – ao passar pela Praça, a jovem Maria da Saudade foi assaltada por versos de ternura, que falavam do encantamento de um amante, diante da beleza velada naquela que passou a chamar de “Virgem de Porcelana”.
Ao ouvir os gracejos do rapaz, a viúva Sossegado tratou de apertar o passo e puxar a jovem Maria, não deixando passar a chance de excomungar o moço, que ainda permanecia em estado de graça, diante da visão que acabara de ter.
Desse dia em diante, ouviam-se pelas ruas da cidade apenas versos de paixão e encantamento pela “Virgem de Porcelana”, entoados por um jovem poeta apaixonado.
Como a casa dos Sossegado era cercada por um grande muro, várias vezes se viu a viúva correndo de garrucha em punho, atirando sal no pobre moço que, em vão, tentava cortejar sua amada escondida naquela fortaleza.
Contudo, o amor tem razões que a própria razão desconhece e, por isso, o jovem não desistiu da empreitada. Até que um dia, enquanto a viúva acabava de guardar os paramentos da missa, a jovem Maria distraída sentou-se em um dos bancos nos fundos da igreja.
Vendo a chance tão esperada, o jovem galante não perdeu a oportunidade e entrou na igreja como um penitente – de joelhos e cabeça baixa – para não ser reconhecido, aproximou-se de sua musa, confidenciando algo em seus ouvidos, saindo logo em seguida, num galope só.
O velho Lazin parou, pensou, acendeu outro pito e continuou:
O que foi que o jovem poeta falou com a sua amada, ninguém sabe, o que se sabe é que, na manhã seguinte, ao chegar no quarto da filha, a viúva encontrou apenas a cama vazia. A velha saiu como uma louca gritando pela cidade afora, atrás de quem soubesse informar sobre o paradeiro da moça.
Porém, como durante tanto tempo ela escondera o rosto de Maria, não era de surpreender que passasse despercebido pelos moradores da cidade, um jovem casal apaixonado que, de mãos dadas, tomou o rumo da estrada, e nunca mais fora visto por ali.
Surpreso com o final daquela história, perguntei ao velho amigo qual tinha sido o destino da velha viúva?
Segundo ele, depois de muito tentar, em vão, localizar a filha, a viúva doou em vida todo o patrimônio da família à Diocese, evitando assim que a ingrata herdasse um tostão que fosse, e se entregou de vez ao ofício de beata e zeladora da Igreja de Morro Grande, e dos Padres que por ali passariam, até o fim de seus dias.
Mas a moça e o poeta? Deles nunca mais se tiveram notícias? Perguntei curioso ao velho.
Mais uma baforada tranquila, e o bom amigo assim terminou mais esse causo.
Dizem que pouco tempo depois, foi visto um casal subindo em direção a Serra do Macaco Bujio, que chamava a atenção pela alegria que transparecia em seus rostos, e pelos versos de amor que eram entoados pelo jovem moço. Esses versos foram ouvidos até que eles adentraram a mata, um lugar mágico no meio de um grande paredão de pedras, e de onde até hoje se ouve, nas noites de lua cheia, entrecortados pelo cantar do macaco que dá nome ao lugar, os versos apaixonados do jovem Aedo para sua musa, a “Virgem de Porcelana”.
JRO