Natálio era o único filho de Georgina e Salastiel, um casal simples de uma cidade do interior de São Paulo. Nasceu temporão, quando o pai já tinha 60 anos, e a mãe 45. Um presente de Deus que chegou no dia de Natal, dizia ela.
Mas havia alguma coisa diferente naquela criança. Ainda no infantil, quando a professora mandava mostrar a família, ele desenhava o pai, a mãe e uma menina.
O tempo passou, e um dia ele perguntou:
– Mãezinha, por que a senhora escolheu esse nome feio pra mim?
– Feio meu filho? Seu nome lembra o dia de nascimento do Senhor Jesus. Que nome você gostaria de ter?
– Ah mãe, acho Natália mais bonito.
– Esse é um nome de menina. Vamos fazer assim, em casa a gente chama só de Natal, o que acha?
-Tá bom mãe, Natal não é de menino, nem de menina,né?
E assim ele foi crescendo. Sua mãe se encantava com a delicadeza do filho, que tinha uma alma doce e gentil. Na cabeça de Georgina ele era um anjinho, e como anjos não têm maldade, achava tudo normal. Já o pai, preferia não dar atenção às invenções da mulher.
No seu aniversário de sete anos, pediu de presente uma boneca. Ganhou uma bicicleta do Super Homem, com capa vermelha e tudo. Para não magoar os pais, disse que tinha adorado a surpresa.
Aos nove já era coroinha, e seu melhor amigo era o Padre João, um simpático religioso bonachão, que sempre o tratou com muito carinho.
Com a chegada da pré-adolescência, as coisas começaram a mudar. As transformações do corpo, a ebulição dos hormônios criaram um verdadeiro redemoinho em sua cabeça, que passou a não entender o que estava acontecendo – o corpo era de menino, mas as coisas que passavam em sua cabeça eram de menina. Nessa hora, só o Padre para lhe ajudar, que recomendava penitência e jejum. Com o tempo aquilo passaria, dizia o pároco. Só que não passou.
Aos 14 conheceu a maior tragédia de sua vida. Durante uma roda de conversa na venda do Antônio português, Belarmino, um machão da cidade, falou para o pai do menino que ele era um invertido, e que isso era culpa da criação recebida. Salastiel partiu para cima do safado, e no meio da confusão acabou tendo um infarto fulminante, por causa da idade avançada.
Aquilo foi um golpe mortal na casa (e na vida) do garoto, que começou a sentir-se culpado pela morte do pai e, muito revoltado, desabafou com Georgina:
– Mãe, a partir de hoje não quero mais que a senhora me chame de Natal, meu nome é Natálio. Vou provar pra essa gente da cidade que sou homem!
Só que as coisas são como são, e apesar de seu esforço para se convencer de que era um menino, sua cabeça não parava de funcionar como a de uma menina.
Até que no dia 25 de dezembro, quando havia acabado de completar 15 anos, após a Missa de Natal, deixou a mãe em casa, despediu-se com um longo beijo, e disse que iria se encontrar na praça, com os amigos da escola. Dali foi direto para a ponte, e pulou no rio. Seu corpo foi encontrado pelos bombeiros, preso a galhos no fundo do leito escuro, cinco dias depois.