Releitura

Sentado no peitoril da janela, observa os carros passando acelerados na avenida, as pessoas-formiga correndo para atravessar o sinal, a vida passando rápida diante dos seus olhos.

Naquele instante-memória, lembra saudoso de quando morava no interior, onde tudo passava devagar. As pessoas andavam no ritmo dos carros-de-boi, as crianças ziguezagueavam nos quintais como borboletas, a vida tinha o ritmo dos carneiros d’água.

De repente, se dá conta de que ainda não tinha pedido perdão a quem magoou, feito a viagem que tanto sonhou, nem encontrado um grande amor que desse sentido à sua existência. Mas já não havia mais tempo. O asfalto duro, quente e áspero já apressava em chegar, e num lapso final seu mundo ficou todo vermelho – vermelho cor de sangue.

O Natal

Natálio era o único filho de Georgina e Salastiel, um casal simples de uma cidade do interior de São Paulo. Nasceu temporão, quando o pai já tinha 60 anos, e a mãe 45. Um presente de Deus que chegou no dia de Natal, dizia ela.

Mas havia alguma coisa diferente naquela criança. Ainda no infantil, quando a professora mandava mostrar a família, ele desenhava o pai, a mãe e uma menina. 

O tempo passou, e um dia ele perguntou:

– Mãezinha, por que a senhora escolheu esse nome feio pra mim?

– Feio meu filho? Seu nome lembra o dia de nascimento do Senhor Jesus. Que nome você gostaria de ter?

– Ah mãe, acho Natália mais bonito.

– Esse é um nome de menina. Vamos fazer assim, em casa a gente chama só de Natal, o que acha?

-Tá bom mãe, Natal não é de menino, nem de menina,né?

E assim ele foi crescendo. Sua mãe se encantava com a delicadeza do filho, que tinha uma alma doce e gentil. Na cabeça de Georgina ele era um anjinho, e como anjos não têm maldade, achava tudo normal. Já o pai, preferia não dar atenção às invenções da mulher.

No seu aniversário de sete anos, pediu de presente uma boneca. Ganhou uma bicicleta do Super Homem, com capa vermelha e tudo. Para não magoar os pais, disse que tinha adorado a surpresa.

Aos nove já era coroinha, e seu melhor amigo era o Padre João, um simpático religioso bonachão, que sempre o tratou com muito carinho.

Com a chegada da pré-adolescência, as coisas começaram a mudar. As transformações do corpo, a ebulição dos hormônios criaram um verdadeiro redemoinho em sua cabeça, que passou a não entender o que estava acontecendo – o corpo era de menino, mas as coisas que passavam em sua cabeça eram de menina. Nessa hora, só o Padre para lhe ajudar, que recomendava penitência e jejum. Com o tempo aquilo passaria, dizia o pároco. Só que não passou.

Aos 14 conheceu a maior tragédia de sua vida. Durante uma roda de conversa na venda do Antônio português, Belarmino, um machão da cidade, falou para o pai do menino que ele era um invertido, e que isso era culpa da criação recebida. Salastiel partiu para cima do safado, e no meio da confusão acabou tendo um infarto fulminante, por causa da idade avançada.

Aquilo foi um golpe mortal na casa (e na vida) do garoto, que começou a sentir-se culpado pela morte do pai e, muito revoltado, desabafou com Georgina:

– Mãe, a partir de hoje não quero mais que a senhora me chame de Natal, meu nome é Natálio. Vou provar pra essa gente da cidade que sou homem!

Só que as coisas são como são, e apesar de seu esforço para se convencer de que era um menino, sua cabeça não parava de funcionar como a de uma menina.

Até que no dia 25 de dezembro, quando havia acabado de completar 15 anos, após a Missa de Natal, deixou a mãe em casa, despediu-se com um longo beijo, e disse que iria se encontrar na praça, com os amigos da escola. Dali foi direto para a ponte, e pulou no rio. Seu corpo foi encontrado pelos bombeiros, preso a galhos no fundo do leito escuro, cinco dias depois.

Bala perdida

Na entrada da comunidade, a estrutura do palco montada, e o grande número de viaturas, já anunciava que era dia de inauguração no morro. Logo chegaram os carros oficiais, e a imprensa acompanhando o comboio. 

Já no palanque, o Governador discursava para uma plateia pouco empolgada, ao lado da esposa e da filha de cinco anos. De repente, tiros e corre-corre, e só então o político se deu conta de que uma bala perdida, havia ferido mortalmente sua pequena.Com sangue nos olhos, ele ordenou que todo o efetivo subisse o morro, e só retornasse quando não tivesse sobrado nenhum faccionado.

Naquela manhã, das Dores arrumou os gêmeos, Kleiton e Keirrisson, para deixá-los na creche comunitária, antes de ir para o serviço. Trabalhava há quatro anos como doméstica para uma família de médicos, desde que seu marido morreu durante um assalto, quando voltava do serviço. Na época, os gêmeos tinham apenas hum ano.

-É meu pai, tá tudo na benção. Aqui tem tiro, mas sei que posso trabalha tranquila, porque os menino tão seguro na creche. – pensava enquanto descia o escadão. Ela se referia a um episódio recente, quando um abusador tentou invadir o lugar. O dono do morro mandou achar e prender o safado, e colocar para fritar no Cruzeiro, lá no alto do morro.

Assim que das Dores pegou o ônibus, a polícia invadiu. Foi uma verdadeira chacina. Os homens da tropa de elite da PM encurralaram os traficantes na matinha, que ficava atrás da creche. No meio do fogo cruzado, as crianças. Ao final da tarde, o resultado da operação: 100 mortes. 15 somente na creche – três professoras,  uma servente, a diretora e 10 crianças, dentre elas Kleiton e Keirrisson.

Quando ouviu na TV a notícia da operação no morro, das Dores deu um grito de  desespero, e saiu correndo do serviço.

-Meu Deus! Meus menino!

No dia seguinte, enquanto uma mãe destruída velava seus filhos na comunidade, a cidade chorava indignada a tragédia, estampada nas manchetes dos jornais:

“BALA PERDIDA DO TRÁFICO
ATINGE FILHA DO GOVERNADOR”
A menina tinha apenas cinco anos

A história do Feijão

Nasceu negro, pobre e filho de soldados do tráfico, no Morro da Babilônia. Ainda bebê, seus pais tombaram em combate com a polícia. Sem parentes próximos, foi mandado para adoção em um orfanato. Apesar de ter sido o mais esperto dos garotos, falante e simpático, somente aos sete anos sua vida iria mudar.

Elza e Erik chegaram ao Rio de Janeiro com a intenção de adotar uma criança – sem restrições de idade ou cor. Ela, uma brasileira que fez sua vida fora do país, como comissária de bordo, em uma das maiores companhias aéreas da Europa. Ele, um advogado sueco, dono de uma rede de escritórios na Europa e Oriente Médio.

Assim que chegaram ao orfanato, o molequinho foi recebê-los na porta, como fazia com cada visitante que lá chegava:

-Oi tios, eu sou o Feijão! Querem conhecer minha casa?

E antes que o casal tivesse tempo de responder, pegou-lhes pelas mãos e saiu puxando pelo orfanato adentro, mostrando cada detalhe, apresentando cada criança e colaborador.

Alguns meses depois, Feijão estava embarcando com Elza e Erick para a Suécia, onde passaria a se chamar Sven. Lá sua vida se transformaria, como em um conto de fadas moderno.

20 anos se passaram. Sven agora era um rico e jovem advogado, que com a morte do pai assumira os negócios da família. Realizando um desejo que guardava, desde que deixou o orfanato, estava de volta ao Rio de Janeiro – queria conhecer a comunidade onde havia nascido e, quem sabe, reconectar-se com o seu passado.

Na entrada do morro, uma operação policial procurava por membros da facção que controlava o tráfico. Quando se aproximou da barreira, Sven atendeu à ordem de parada do policial, e se abaixou para pegar seus documentos no console. Achando que o rapaz ia sacar uma arma, um dos policiais abriu fogo contra o carro – e ainda debochou:

-Preto andando de Mercedes zero km é traficante, ou roubou o carro na Barra. CPF cancelado!

Sven morreu com o passaporte na mão. Sobre o banco sujo de sangue, a única foto que tinha dos pais junto com ele, quando ainda era um bebê, em frente à casa onde moravam na comunidade.

A menina invisível – Sérgio Soares

Uma nova semana tinha acabado de começar, quando a escola foi abalada por uma tragédia. Uma aluna do 8º ano entrou no banheiro, e logo em seguida ouviram-se gritos, e choro no corredor:

-O que houve menina? – perguntou a servente.

Entre soluços e lágrimas, a garota respondeu:

-Tia, a Tainá está morta lá dentro.

Quando a diretora chegou, encontrou a jovem caída em uma poça de sangue. Ao seu lado, o livro “A Divina Comédia de Dante” aberto no Sétimo Círculo – o Vale do Flegetonte. Embaixo, uma anotação – Te espero lá, seu desgraçado!

Filha única de Maria Moema Yanomami, nasceu em uma aldeia na região Norte. Sua mãe perdeu o marido cedo, quando ela ainda era bebê. Nessa mesma época conheceu Alfred, um missionário inglês, com quem se juntou, e foi para São Paulo. Pouco tempo depois, morreu em um acidente de trânsito. Sem parentes próximos, a menina foi criada pelo padrasto. Foi então que o seu Inferno começou.

Muito jovem, sem ter completado oito anos, começaram os abusos. Aos dez, já era a “escravinha” do violador, como gostava de chamá-la dentro de casa – na rua, ele era um missionário sério, e dedicado à enteada. Tudo isso fez com que ela fosse se retraindo cada vez mais e mais. 

Precoce, começou a ler com sete anos. Antes de completar 11, seus livros preferidos já eram clássicos russos, onde se refugiava quando Alfred não a importunava. Descobriu no corte da própria carne, o lenitivo para a dor que lhe corroía por dentro.

Na escola, apesar de sua aparência exótica e boa condição social, não interagia com os colegas. Entrava e saía da sala, sem que ninguém notasse. Só era lembrada pelos professores na hora da chamada. Era como se ela não existisse ali.

Naquele dia, Tainá chegou cedo no coleǵio, mas não foi para a sala-de-aula. Como já sabia que ninguém daria falta de sua ausência, esperou o sino bater, e foi direto para o banheiro. Entrou no mictório, fechou a porta, sentou-se no chão, abriu a mochila, pegou seu novo livro preferido, e escreveu:

-Te espero lá, seu desgraçado!

Doce vingança

– Então minha filha, não se esqueça de misturar em algo bem doce, porque o gosto dessa noz é muito amargo.

-Tá bom Dona Santa, tá aqui o nosso combinado.

Rapidamente entrou no carro, e foi para casa. Chegando lá, pegou o pistache e caprichou na Nutella, para ficar bem doce. Por pura gula, deixou alguns para saborear à noite, comemorando a vitória sobre a chefe patife, que não havia lhe dado a promoção tão esperada.

-Vaca, estou aguardando essa vaga de gerente há tanto tempo, e ela vai e promove a sonsa da Deise. Mas dessa eu cuido depois.

Chegando na loja, foi direto para sala de Vânia, e lhe entregou o mimo feito com tanto carinho.

-Oh Bete, pra quê isso? Achei que você estivesse zangada comigo, por causa da promoção da Deise.

-Zangada? Eu? Que isso Vânia, para mim além de uma ótima chefe, você é um exemplo de mulher de sucesso. Um dia quero ser como você. Olha e fiz do jeito que você gosta, pistache com bastante Nutella, super hiper doce.

– Hum, vou comer um agora!

Bete saiu, e foi para o balcão atender, como sempre odiou fazer. Daí a pouco, um tumulto na loja – médicos do SAMU entram correndo com uma maca. Se fazendo de desentendida, pergunta a Deise.

-Que confusão é essa?

– Menina, do nada a Vânia começou a passar mal, os músculos foram se enrijecendo, e ela entrou em convulsão.

– Coitada, vai ver que é coração, ela é tão nervosa!

Logo em seguida chegou a notícia – a chefe estava morta. Com o fechamento mais cedo do estabelecimento, Bete foi direto para casa, comemorar sua vingança.

Chegando lá, abriu um vinho, sentou-se no sofá e foi saborear os bombons que havia separado, sem a estricnina.

Duas taças de vinho depois, e alguns bombons, seu corpo começou a enrijecer. A taça caiu de suas mãos. e ela pensou:

-Merda, será que eu fiz essa burrada?

O dia em que inventaram a dor

Era para ser mais uma manhã de sábado, como todas as outras manhãs. Maria acendeu a casa, com o cheiro do café. Ricardinho, o caçula e mais matreiro dos filhos, tratou logo de pular da cama, pegou um pão na cozinha, e se despediu da mãe com um beijo lambuzado de margarina.

Como tantas outras mães da comunidade, cuidava sozinha da família. O marido foi embora, quando as gêmeas tinham apenas dois anos, e o mais novo estava na barriga. Dos seis filhos, apenas Ricardinho, Tayla e Mayla moravam com ela. O primogênito cumpria pena por receptação e associação criminosa, e os outros dois estavam casados.

Enquanto cuidava dos afazeres domésticos, entre a água no arroz, e a roupa no varal, a calmaria da casa foi quebrada pelos tiros no morro, e pela vizinha do lado gritando, e anunciando a tragédia:

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A operação “Devoto Fiel” começou a ser planejada meses antes. O serviço de inteligência da Polícia descobriu que o Morro do Feijão, tinha se tornado a porta de entrada para o armamento pesado, que era distribuído nas outras comunidades controladas pela facção.

O alvo da operação era “Playboy”, o traficante que controlava o Feijão, e se tornou o maior receptador de armas do estado. Era um homem perigoso, que só andava com escolta, e armado até os dentes o tempo todo, menos em um dia. “Playboy” ia à Igreja aos sábados, logo cedo – sim, ele era evangélico. Lá o pastor celebrava um culto reservado, somente para o dono do morro. Esse era o único momento em que ele ficava desarmado, e nessa hora o bote seria dado.

Assim que Ricardinho saiu de casa, tratou de passar no posto de comando, pegou seus instrumentos de trabalho, e assumiu o turno na laje. Com o rádio em uma mão, e a caixa de foguetes em outra, se transformava em Foguetinho, o melhor fogueteiro do morro. O moleque era um corisco, miúdo e esperto conseguia disparar o artefato, e sumir antes da pólvora pipocar.

Naquela manhã tudo estava tranquilo na comunidade, por isso Foguetinho levou um baita susto, quando o rádio gritou:

-Os homi tão subindo!

No mesmo instante, tirou o canudo da caixa, acendeu o pavio e, mal o bicho subiu, tratou de pular da laje. Só que o moleque esperto e matreiro, dessa vez não teve tanta sorte.  Enquanto descia o escadão correndo, acabou entrando no meio de uma troca de tiros, entre a polícia e os homens do “Playboy”.

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A mãe largou as panelas no fogo, as roupas do varal pelo chão, e saiu de casa desesperada. Fatidicamente, quando chegou ao local, já não havia mais o que fazer – encontrou o corpo do filho ensanguentado, e sem vida. Uma bala perdida havia achado Ricardinho, mas naquele dia quem morreu  foi Maria.

O enviado

Tinha acabado de chegar do serviço. Depois de mais um dia chato e estressante como todos os outros, ligo a TV, e vou direto para o chuveiro. Mas meu banho é interrompido pela chamada de plantão do Jornal Nacional. O Bonner aparece subitamente, e anuncia:

-Atenção. As maiores potências do mundo, Estados Unidos, China, Rússia e os países da União Europeia acabaram de emitir um alerta global. O objeto interestelar 3I/ATLAS,que era tratado como um cometa incomum até ontem, propulsionou de maneira nunca vista, e já se encontra em inserção orbital com o planeta Terra.

-As autoridades tratam agora o objeto como uma nave alienígena não identificada, e até que se conheçam suas intenções, as forças de segurança mundiais estão em alerta. O governo brasileiro que acompanha as movimentações, orienta a todos os cidadãos, que se mantenham em local seguro, até segunda ordem.

Ainda sem acreditar no que estava acontecendo, me lembrei da Área 51, do Caso Roswell, dos reptilianos da coroa britânica e até do filme Matrix. Será que tudo isso era verdade?

Por coincidência, havia recebido naquela manhã um post de um colega maluco do serviço, e muito ligado nessas coisas exotéricas, que por total falta de credulidade nem abri.

Pego então o celular, e vou ver do que se tratava. A postagem falava sobre a mudança do mundo, que seria transformado com a chegada de um enviado cósmico. Segundo uma tradição Celta, no solstício de inverno ocorreria o Yule – renascimento do Deus Sol e início de um novo ciclo de vida no planeta.

Olho para o display do relógio, e ele mostra que hoje é 20 de junho – dia mais curto do ano, e que que marca o início da estação invernal. Pela janela, percebo que o céu está limpo, e cravejado de estrelas.

De repente, uma forte luz encobre o firmamento. Um silêncio profundo toma conta da Terra, e tudo muda para sempre.

O dia em que inventaram a dor

Era para ser mais uma manhã de sábado, como todas as outras manhãs. Maria acendeu a casa, com o cheiro do café. Ricardinho, o caçula e mais matreiro dos filhos, tratou logo de pular da cama, pegou um pão na cozinha, e se despediu da mãe com um beijo lambuzado de margarina.

Como tantas outras mães da comunidade, cuidava sozinha da família. O marido foi embora, quando as gêmeas tinham apenas dois anos, e o mais novo estava na barriga. Dos seis filhos, apenas Ricardinho, Tayla e Mayla moravam com ela. O primogênito cumpria pena por receptação e associação criminosa, e os outros dois estavam casados.

Enquanto cuidava dos afazeres domésticos, entre a água no arroz, e a roupa no varal, a calmaria da casa foi quebrada pelos tiros no morro, e pela vizinha do lado gritando, e anunciando a tragédia:

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A operação “Devoto Fiel” começou a ser planejada meses antes. O serviço de inteligência da Polícia descobriu que o Morro do Feijão, tinha se tornado a porta de entrada para o armamento pesado, que era distribuído nas outras comunidades controladas pela facção.

O alvo da operação era “Playboy”, o traficante que controlava o Feijão, e se tornou o maior receptador de armas do estado. Era um homem perigoso, que só andava com escolta, e armado até os dentes o tempo todo, menos em um dia. “Playboy” ia à Igreja aos sábados, logo cedo – sim, ele era evangélico. Lá o pastor celebrava um culto reservado, somente para o dono do morro. Esse era o único momento em que ele ficava desarmado, e nessa hora o bote seria dado.

Assim que Ricardinho saiu de casa, tratou de passar no posto de comando, pegou seus instrumentos de trabalho, e assumiu o turno na laje. Com o rádio em uma mão, e a caixa de foguetes em outra, se transformava em Foguetinho, o melhor fogueteiro do morro. O moleque era um corisco, miúdo e esperto conseguia disparar o artefato, e sumir antes da pólvora pipocar.

Naquela manhã tudo estava tranquilo na comunidade, por isso Foguetinho levou um baita susto, quando o rádio gritou:

-Os homi tão subindo!

No mesmo instante, tirou o canudo da caixa, acendeu o pavio e, mal o bicho subiu, tratou de pular da laje. Só que o moleque esperto e matreiro, dessa vez não teve tanta sorte. Enquanto descia o escadão correndo, acabou entrando no meio de uma troca de tiros, entre a polícia e os homens do “Playboy”.

-Maria, corre lá no escadão que machucaram seu filho!

A mãe largou as panelas no fogo, as roupas do varal pelo chão, e saiu de casa desesperada. Fatidicamente, quando chegou ao local, já não havia mais o que fazer – encontrou o corpo do filho ensanguentado, e sem vida. Uma bala perdida havia achado Ricardinho, mas naquele dia quem morreu foi Maria.