Fogo eterno

Acordou assustado, naquele lugar escuro, sombrio e fétido, entre gritos de horror, choro e lamentações.-

– Minha cabeça dói, meu corpo está me matando. Onde é que eu estou? Se pergunta desorientado.

Em sua memória, a última lembrança que guarda é a do som do apito do trem, e depois silêncio e escuridão. De repente, figuras grotescas e disformes começam a rastejar em sua direção. Assustado, se levanta cambaleante e tenta fugir, mas tropeça e cai numa vala. Com a cabeça sangrando, olha para cima e vê um homem de capa escura e chapéu, olhando em sua direção.

– Quem é você? Pergunta apavorado.

– Onde eu estou? No inferno? Eu morri?

Então, o homem levanta a cabeça, e solta uma risada aterrorizante.

– Morto? Você achou mesmo que ia ser fácil assim? Que um trem ia resolver todos os seus problemas? Seja bem vindo ao meu circo dos horrores. A partir de agora você é só meu, e o sofrimento está apenas começando.

Desesperado, começa a gritar, no mesmo instante em que seu corpo incandesce em brasas, enquanto o fogo se espalha pelo buraco.

Para sempre, um Anjinho

Tudo ia bem na vida daquele casal. Finanças em dia, amor e desejo aquecidos, filhos amados. Em uma trágica transformação, entre o poente e o nascer de um novo dia, Gina, a caçula – mais doce das três filhas, e mais carinhosa – acorda sorumbática e febril.

Ela antes tão esperta e animada, agora era vista pelos cantos trêmula e apática. Nuvens negras pousaram sobre aquele lar e, no intervalo de doze dias, a doçura e alegria da pequena foram varridas por uma agressiva tempestade, que se alojou em sua medula.

Daquele retrato de família feliz, restou somente a moldura. O resto foi carregado pelo vento, que esparramou as cinzas daquele anjinho, no parque onde mais gostava de brincar.

A ponte do rio Catanduva

Naquela manhã, acordou mais cedo, despediu-se de todos e saiu. O sol já enchia o céu, e a umidade fazia o corpo chorar. Desceu a viela em sentido à saída da cidade, e parou sobre a ponte do Rio Catanduva. Debruçou-se no parapeito, e ficou observando o movimento das águas, embalado pela forte correnteza que arrebentava sobre as pedras nas corredeiras. Sempre sentiu, se fascinado por aquele lugar – a rudeza das correntezas, em contraponto com a beleza da região, o fascinava. De repente, todo aquele calor abrasador foi interrompido por uma brisa suave e refrescante. Foi como se o mundo inteiro tivesse parado. Então, naquela paz interminável, começou a recordar- infância, juventude até o dia em que sua vida perdeu totalmente o sentido. O movimento das águas no leito parecia convidá-lo a se juntar ao fundo. Três dias depois, seu corpo foi encontrado agarrado a uma galhada, quilômetros abaixo da Ponte do Rio Catanduva.