Seu maior vício era a morte. Na esquina, avista a próxima vítima. A menina não ia ter tempo de se tornar mulher.
Autor: sergiosoaresblogger
Balancete
O marido chega em casa com fome de mulher. No quarto, a esposa avisa : Fechado para balanço. Só reabriremos em janeiro de 2025.
Contramão
O casal seguia tranquilo e seguro em sua pista. De repente, na contramão de direção surge a loira. Colisão frontal. Deu divórcio.
Virada
A criança dorme, enquanto os fogos explodem nos céus. Quando acorda, nada mudou – guerras, injustiças, tragédias. O digital do relógio marca o Novo Tempo.
A ceia
Pela janela vê luzes e o cheiro do assado, entre risos e brindes.Em casa, uma vela acesa e uma “pitchulinha”. Feliz Natal!
Pra sempre tua, P…
-Amor, cadê você? Não demora. Tõ sozinha aqui, te esperando.
Duas lápides, um mesmo epitáfio – juntos até o infinito.
Cabeça d’água
A vida ia bem, então tudo desandou, escorreu pelo ralo. Terminou n’uma cama de hospital, murcho igual alface seca.
Fogo eterno
Acordou assustado, naquele lugar escuro, sombrio e fétido, entre gritos de horror, choro e lamentações.-
– Minha cabeça dói, meu corpo está me matando. Onde é que eu estou? Se pergunta desorientado.
Em sua memória, a última lembrança que guarda é a do som do apito do trem, e depois silêncio e escuridão. De repente, figuras grotescas e disformes começam a rastejar em sua direção. Assustado, se levanta cambaleante e tenta fugir, mas tropeça e cai numa vala. Com a cabeça sangrando, olha para cima e vê um homem de capa escura e chapéu, olhando em sua direção.
– Quem é você? Pergunta apavorado.
– Onde eu estou? No inferno? Eu morri?
Então, o homem levanta a cabeça, e solta uma risada aterrorizante.
– Morto? Você achou mesmo que ia ser fácil assim? Que um trem ia resolver todos os seus problemas? Seja bem vindo ao meu circo dos horrores. A partir de agora você é só meu, e o sofrimento está apenas começando.
Desesperado, começa a gritar, no mesmo instante em que seu corpo incandesce em brasas, enquanto o fogo se espalha pelo buraco.
Para sempre, um Anjinho
Tudo ia bem na vida daquele casal. Finanças em dia, amor e desejo aquecidos, filhos amados. Em uma trágica transformação, entre o poente e o nascer de um novo dia, Gina, a caçula – mais doce das três filhas, e mais carinhosa – acorda sorumbática e febril.
Ela antes tão esperta e animada, agora era vista pelos cantos trêmula e apática. Nuvens negras pousaram sobre aquele lar e, no intervalo de doze dias, a doçura e alegria da pequena foram varridas por uma agressiva tempestade, que se alojou em sua medula.
Daquele retrato de família feliz, restou somente a moldura. O resto foi carregado pelo vento, que esparramou as cinzas daquele anjinho, no parque onde mais gostava de brincar.
A ponte do rio Catanduva
Naquela manhã, acordou mais cedo, despediu-se de todos e saiu. O sol já enchia o céu, e a umidade fazia o corpo chorar. Desceu a viela em sentido à saída da cidade, e parou sobre a ponte do Rio Catanduva. Debruçou-se no parapeito, e ficou observando o movimento das águas, embalado pela forte correnteza que arrebentava sobre as pedras nas corredeiras. Sempre sentiu, se fascinado por aquele lugar – a rudeza das correntezas, em contraponto com a beleza da região, o fascinava. De repente, todo aquele calor abrasador foi interrompido por uma brisa suave e refrescante. Foi como se o mundo inteiro tivesse parado. Então, naquela paz interminável, começou a recordar- infância, juventude até o dia em que sua vida perdeu totalmente o sentido. O movimento das águas no leito parecia convidá-lo a se juntar ao fundo. Três dias depois, seu corpo foi encontrado agarrado a uma galhada, quilômetros abaixo da Ponte do Rio Catanduva.