Catarse

Já a muito tempo atrás, ele havia descoberto que através da palavra escrita, conseguiria lidar com o que não era capaz de resolver falando.

Escreveu, ressignifcou, criou personagens que, por vezes, eram seu próprio alter ego. Seus escritos já somavam mais de mil páginas, e contando.

Até que um dia, uma visita indesejada bateu à sua porta – a depressão. Essa intrusa pareceu revirá-lo do avesso, jogá-lo contra a parede, apagando todas as linhas que já tinha escrito, até então.

Naquela noite, acordou assustado. Sua cama parecia estar cercada pelos fantasmas e demônios, que tanto lutou para combater, e esconder dentro de suas histórias.

O último boletim médico dizia que seu quadro era crônico, e irreversível.

Diagnóstico: Esquizofrenia hebefrênica. Prognóstico – Paciente sem previsão de alta hospitalar

Lei de Talião

Antônio Puranga era o maior exterminador de animais da vila. De rato, cachorro a maritaca, mas sua especialidade eram os gatos. Sua vilania com os felinos era tanta, que beirava o sadismo. Do veneno tradicional, ao caco de vidro moído, e eletrochoque. Mas gostava mesmo era do porrete. Pegava uma ninhada inteira de filhotes, colocava no saco, pendurava na mangueira, e batia até ficarem aos pedaços. No final, tocava no saco preto, e jogava no ribeirão.

Só que um dia, alguém pior do que ele entrou em sua casa, e encheu sua cabeça de cacete na calada da noite. Depois, deixou o corpo no quintal para feder. Como carpideiras desse velório maldito, mais de 30 bichanos miaram ao lado do corpo a noite inteira, até o sol nascer. Os mesmos que por ele foram espancados e despedaçados, cuidaram das exéquias do infeliz. Fica então a dúvida – quem será mais humano nessa história?

O espelho

Toda manhã, mal se levantava, ia até o espelho para conferir se uma ruga nova havia surgido em seu rosto. O medo de envelhecer era seu maior temor.

Então, viu um anúncio na internet prometendo juventude eterna. Dias depois, chegou sua encomenda. Ansiosa, tratou logo de ir rasgando a embalagem, mas não acreditou quando viu o que tinha dentro: um vidro com balas de açúcar, e um bilhete que dizia:

“Viva cada dia como se fosse o último, sempre com docilidade e brandura. Seu corpo irá envelhecer, pelo princípio da finitude da vida, mas sua alma continuará jovem e feliz.”

A cura

 Um impaciente homem aguarda notícias, no corredor de um hospital:

-E então Doutor? Como é que está minha filha?

-Infelizmente meu senhor, o quadro é muito grave. Acho que ela não passa dessa noite.

-Mas não existe nem uma chance de cura Doutor? Pergunta o pai desesperado.

-Não, já que ela perdeu a vontade de viver, depois que seu coração foi partido. Para salvá-la agora só mesmo um milagre, ou um novo amor.