Sinal de Deus

-Mãe, tô saindo. Fala Luiza enquanto pega a bolsa.

– Mas o Beto não vem te pegar? Pergunta a mãe preocupada.

– Não mãe. Ele já tá no centro. Vai me  encontrar no cinema. Vou de ônibus mesmo

– Mais filha, não sai hoje não. Tô com um mau pressentimento.

– Deixa de bobagem mãe, daqui no centro não dá 20 minutos. Chegando lá ligo pra senhora.

– Tá bom Luiza, mas liga mesmo.

Quando a filha sai, com o coração apertado, a mãe se coloca de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora das Dores, pedindo que a Santa proteja sua menina.

No meio do trajeto, o ônibus perde o freio e bate em um poste. Houveram muitos feridos, mas Luiza não teve nem um arranhão. Então, ela liga para a mãe avisando do ocorrido:

-Mae, fica preocupada não, mas o ônibus bateu aqui na rua. Mas, tô bem tá?

– Minha Nossa Senhora, filha, volta pra casa. Isso é um sinal de Deus!

-Deixa de bobagem mãe. Tenho que desligar. O Beto chegou. Te amo!

Essa foi a última vez em que Luiza e sua mãe se falaram. No caminho para o centro, Beto estava parado no sinal, quando um motorista bêbado acertou de cheio sua moto. Luiza e o namorado vieram a óbito no local, antes mesmo da chegada do serviço de emergência.

Santa Cruz dos Desterrados

Aquela era uma típica cidade do interior, onde o tempo passava ao som das rodas dos carros-de-boi. Certo dia, o lugarejo acordou com uma novidade: cidades com menos de dois mil habitantes seriam apagadas do mapa, e Santa Cruz dos Desterrados possuía 1.999 municípes bem contados.

De repente, a fazenda do Zé Olinto sumiu, com gado, gente e porteira fechada. Em outra manhã, a venda do Anastácio não estava mais lá. Nem praça, escola, Prefeitura ou adro da Matriz. Tudo foi desaparecendo. Com uma semana, já não existia mais nada.

Reza a lenda que aquelas almas ficaram vagando pela região, n’uma procissão de mortos-vivos, batendo de porta em porta, perguntando onde estava a casa deles.

Presságio

Correndo assustada pela rua, tropeça e bate a cabeça. Sentindo o ar faltar, abre os olhos e vê um homem sorrindo, enquanto esgana seu pescoço. Então, o despertador toca.

Acorda toda suada, e ainda com falta de ar. Depois do banho, enquanto toma o café, aproveita para ler as notícias do dia. Mas sua xícara cai no chão, quando vê a foto na manchete.

“Policia procura por maníaco serial killer”.

-Meu Deus! Era o mesmo sujeito do sonho!

Apavorada, pega suas coisas e vai trabalhar. Dentro do ônibus, não consegue parar de pensar no que aconteceu à noite. De repente, alguém toca no seu ombro, e sorrindo pergunta;

-Posso me sentar aqui, moça?

Seu corpo fica gelado, e sem reação. Era o maníaco assassino.

O Santo

João da Silva foi o nome que adotou, quando foi ordenado padre. Filho de uma das filhas mais ricas do Rio Grande do Sul, abriu mão da herança em nome da vocação religiosa. Pelo povo era conhecido como Padre Santo dos Pobres.

N’uma época em que a tuberculose devastava  o país, especialmente os mais humildes que não podiam ser enviados para sanatórios, ele cuidou, limpou, acolheu e curou os pequenos de Deus. Para isso enfrentou Prefeito, Juiz e até Bispo. Mas o preço que pagou por sua devoção foi alto. Aos 33 anos, sucumbiu à doença contra a qual tanto lutou.

Hoje, no dia em que o Papa reconheceu seus milagres, e o tornou Santo, a história de Padre Santo continua iluminando, e cuidando dos pequenos de Deus, como um farol a indicar a rota ao navegante em meio às grandes tormentas.

O rancho

Todo fim de tarde era a mesma coisa – ele pegava seu pito e avisava:

-Doca, vo rezá!

-Tá bom Zé, respondia a companheira.

Então, se sentava no rancho, acendia o pito e ficava reparando. Enquanto o Sol ia se deitar, e a noite vinha nascendo, colorindo o céu de vermelho, rezava sua Ave Maria.

Um dia, perguntaram-lhe porque não rezava na Igreja? Ao que sabiamente respondeu.

-Ara, porque no rancho eu tô perto das água do rio, das criatura do mato, dos encantado, das obra de Deus. Os antigo falava que as seis da noite, os anjo, os santo e os encantado tudo se junta pra reza pra Maria. Uai, quer lugar meior que esse, sô?

Só que um dia, Zé foi pro rancho e não voltou. Virou um encantado, e se juntou ao povo celeste que reza para Nossa Senhora ao anoitecer.

O monge

Filipe nasceu com um estigma familiar, que o acompanharia por toda a vida. Por conta disso, ainda bem jovem foi mandado para o seminário. Quando foi ordenado Padre, escolheu a clausura como proteção – tornou-se monge cartuxo.

Essa ordem eremítica tem como característica a reclusão, como forma de adoração e encontro com o Espírito Santo, e lá Filipe pode preservar seu segredo

A cada lua cheia, o mesmo ritual. No poente, era trancado dentro de uma cela, com mãos e pés acorrentados. Durante a noite e madrugada, uivos de dor e ódio ecoavam pelos corredores do monastério. Só quando o sol nascia, que era libertado e o monge voltava a vida.

Só que um dia, as correntes se soltaram, e a besta fera conseguiu escapar. Com gana de vingança, devorou os monges e fugiu para o vale. Desde então, Filipe nunca mais foi visto, restando apenas a fera

O escritor

Temístocles era um homem estranho. Morava sozinho, e sua única companhia era Boris, seu doberman albino. Os vizinhos sabiam pouco sobre ele, apenas que tinha chegado no bairro há pouco, e que escrevia histórias.

Então, crimes violentos começaram a acontecer na região. O primeiro foi o sumiço de Dona Tereza, a proprietária do bar mais badalado da região. Três dias depois, metade do seu corpo foi encontrado carbonizado em uma mata. A outra parte, do quadril para baixo, sumiu.

Logo depois, Maria Angélica, uma jovem que trabalhava como babá para os Macedo, saiu do serviço, e não chegou em casa. Foi achada nua em um aterro, com sinais de violência sexual, e sem os braços.

Na semana seguinte, Leonora, uma prostituta famosa da área, foi esquartejada em um beco. Apenas cabeça e membros restaram, o tórax não estava junto do corpo.

E o caso mais recente foi o da jovem Priscila, uma adolescente de apenas 15 anos, que foi vista entrando em um carro, quando saía da escola. Seu corpo foi localizado boiando, no açude do bairro, sem a cabeça.

Foi então que os policiais começaram a desvendar o mistério. Uma câmera de segurança registrou a placa do carro que levou a jovem, e assim puderam localizar o proprietário – Temístocles, que fugiu com Boris, antes deles chegarem ao seu endereço.

No interior da casa, encontraram um verdadeiro circo dos horrores. Na porta de um dos quartos, uma placa anunciava – Casa da Redenção. Dentro do cômodo, um cheiro forte e desagradável já denunciava o que iriam encontrar – as partes das vítimas, costuradas como se fossem um novo corpo, trajando um vestido de noiva. Sobre a escrivaninha, os capítulos do que parecia ser um livro, traziam a macabra explicação para cada um dos crimes cometidos: Capítulo 1 – Cafetina / Capítulo 2 – Sugarbaby / Capítulo 3 – Meretriz / Capítulo 4 – Minha Virgem.  O título da obra? A donzela perfeita.

O cruzeiro

Santa Cruz dos Desterrados era uma cidade religiosa, e cheia de causos de assombração. O lugar mais temido era o cruzeiro. Lá eram ouvidos gritos infernais, todas as noites. Para acabar com essa história, Padre Adolfo decidiu passar uma noite em vigília no local assombrado, sozinho.

Pela manhã, encontraram seu corpo nu, e pendurado em uma corda na grande cruz. No mesmo dia, a Cúria mandou derrubá-la, e construir uma outra no adro da Matriz. A polícia encerrou o caso como suicídio.

Da autoria, não existia suspeito, mas um sinal gravado em seu rosto, indicava a origem daquela vilania: um pentagrama invertido. E tudo isso aconteceu antes de Santa Cruz desaparecer …

O rombo

Custódio era conhecido na pequena cidade de Formosa pela sua lábia, vendia até ar engarrafado. Mas um dia, o sabichão resolveu entrar para política.

Logo na primeira eleição, foi o vereador mais votado, e assumiu a Presidência da Câmara. Parecia que o céu era o limite para o bico-doce. Mas o que o homem tinha de enganador, também o tinha de ambicioso.

Então, um dia apareceu um sujeito de olhos puxados, e fala esquisita, que propôs ao já Prefeito Custódio comprar a cidade, com tudo que tinha dentro. Lógico que a oposição não apoiou a ideia, nem tampouco os moradores, mas como enrolar era o seu forte, convenceu todo mundo de que aquilo seria um bom negócio para Formosa.

No dia combinado de entregar a chave da cidade para o novo proprietário, em praça pública, o espertalhão não apareceu. Sumiu com  o dinheiro pago pelo comprador, e ainda limpou os cofres do município. Dizem por aí que ele foi visto lá pelas bandas do Planalto Central, tentando se eleger Deputado.